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125ª Leva - 03/2018 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Sadrie

 

É sempre tempo de novas colheitas aqui na Diversos Afins. E o momento atual não renega tal condição. A continuação dos caminhos depende sempre da possibilidade dos encontros em torno das investidas culturais levadas a cabo pelas mais distintas vozes que aqui buscam pouso. Ao longo do tempo, autores e artistas inauguraram suas participações na revista e tal dinâmico fluxo, para nossa melhor recompensa, ainda persiste em se dar. Cada expressão que a nós se soma vem imbuída de mostrar ao mundo a inteireza de suas manifestações. Quando isso se dá, vemos se cumprir todo um ideal que temos em vista de propagar as mais distintas criações num mesmo ambiente de diálogos possíveis. O que torna ainda mais rico o propósito de diversidade é o fato de testemunharmos diferentes formas de pensar o mundo. Eis a grande recompensa de quem labuta num território editorial como o nosso, esse mesmo que se afigura complexo e colossal dentro do universo conhecido como ciberespaço. E para encontrar criadores relevantes e suas obras, nada melhor do que fomentar a pesquisa e as conexões com valiosos interlocutores culturais. E assim vamos seguindo, construindo edições em bases autorais sólidas feitas por pessoas comprometidas em colaborar com o panorama literário e artístico do nosso tempo. Por falar em arte conectada às demandas do presente, nossa mais nova leva traz uma entrevista especial com a banda OQuadro, grupo baiano que, ao longo de seus pouco mais de 20 anos de trajetória, foi capaz de construir um trabalho diferenciado pelas vias do rap. Nos nossos cadernos de poesia, contamos com os versos de Carolina Spyer, Leonardo Bachiega, Ana Paula Olivier, Geraldo Lavigne de Lemos e Renata Ferreira. É Marcelo Labes quem nos apresenta “Contações”, novo livro do poeta Tiago D. Oliveira. Na seara cinéfila, Guilherme Preger escolhe cuidadosamente o filme japonês “Esplendor” para ser o centro de suas análises. A peça “Rose” nos é mostrada em detalhes pelas anotações de Vivian Pizzinga. Nos espaços de prosa, Carla Diacov e Caio Russo desfiam suas densas narrativas. Saulo Dourado fala sobre a riqueza contida no disco ao vivo do grupo de samba de roda Esmola Cantada. O romance “Felicidade”, mais recente livro de Wellington de Melo, é alvo das palavras de Gustavo Rios. Em meio a todos os recantos de nossa nova edição, estão também as ilustrações de Sadrie, artista que narra mundos através de seus trabalhos. Eis a nossa 125ª Leva. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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125ª Leva - 03/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Caio Russo

 

Ilustração: Sadrie

 

Aquário

 

Para Marceli Andressa Becker– minha terna “Beck”, neta da filha que não tive.

 

Do beiral a menina se escora na janela do décimo primeiro andar, amanhecidas desde a madrugada as pernas, dobradas sobre joelhos de sereia, como a escultura de proa num navio vertical em concreto armado, hora ou outra a ouvir nas barbatanas o trinar do elevador, chegando e saindo do andar, submergindo nas escotilhas opacas, acima, abaixo, apreende lições sonoras de mergulho.

Não nasce o dia sem uma lasca de falta trágica.

Lançar-se desde o alto ao lago de asfalto morno, desde a respiração refez incontáveis vezes o salto aquático, fecha os olhos feito Tirésias e vê-se com braços e pernas de nadadora experiente perfurando a atmosfera. Um mínimo oráculo do destino estatístico, daria no jornal numa das páginas subalternas, talvez nem nelas, em algum site lado B desses que trabalhara na época do namoro com Roberto.

Vem serpentino, de um dos tantos e tantos apartamentos sem face, aquele gesto de café recém-feito lhe acolhendo pelo olfato, como o pai quando chegava do serviço lhe dando um pequenino piparote na ponta da narina.

Não é bem o café café, esse café, é outro café, outro odor do fundo recordado, ternura feita em novelo de lã, ternura de sopro cálido sob as costas da orelha amante, ternura na espuma da quietude magra. Escondida sob indiferença urbana, como seu par de meias lilás embaixo da coberta cinza, o lírico que lhe apalpa as miúdas pestanas pisca sorrisos de querer vez outra ainda hoje.

 

Silvia Szymanowisky, 13 de março de 2010

 

 

 

***

 

 

 

Tratado sobre a velhice

 

Dos últimos anos para cá fiquei obcecada por imaginar aterros. É velhice, sei disso e não precisa avisar.

Penso naqueles mineiros, não os nascidos em Minas, claro. Homens e mulheres descendo diariamente para colher carvão. É isso que vejo diante de mim.

A velhice é uma doença, menos grave que a da juventude, mas é.

Jamais me chame de idosa, isso não aceito porque estou na idade de não aceitar nem o aceitar. Quando a menina me disse querendo ser caridosa: “mas a senhora não é velha, é idosa”, dei-lhe várias bengaladas na cabeça.

Gastei quase quatro idades daquela garota para que me chame de idosa? E esse ideograma chinês feito por um bêbado igualmente chinês na minha cara? Tente apagar essas rugas todas então, minha filha.

Não, não é isso, inveja por já ter consumido quatro idades, é por olhar a moça e pensar que somos tão parecidas, se tivesse mais quatro idades dessas guardadas na poupança faria o mesmo que fiz, pouco, muito pouco.

Talvez começasse a beber chá antes e mais nada.

Ranzinza? Claro que sou, estou no direito consuetudinário de sê-lo, amargada pelo excesso de chá de tília tomado ao longo de duas décadas!

E os homens e mulheres descendo diariamente nas minas. Logo estarei lá pra baixo sem saber subir.

Preparada para morte? Só os velhos mais idiotas dizem isso, tomando 25 comprimidos diferentes se souberem que no Camboja há uma epidemia de gripe.

Esses velhos preparados, prontos, são os mais histéricos quanto à morte, tanto medo que já levam uma lápide no lugar da cara.

Que os jovens são idiotas, todos, sem exceção, é sabido, mas dizer que velhos são sábios, oráculos que acumularam experiência, isso sim é idiotice das brabas.

Não tenho gatos, não sou nenhuma velha clássica de filme ruim. Tenho plantas porque são mudas no meu idioma, ainda bem, a presença de algo humano me dá urticárias.

Ora, para quem escrevo então? Escrevo para as paredes, e um pouco para que as dores de minhas juntas fiquem quietas lendo.

Aterros, minas de carvão, bueiros e buracos.

Medo da morte? Não tenho. Meu medo é que lá, sabe-se onde, não tenha chá.

E comecei há anos a aprender o silêncio, assim, quando não voltar de lá, ao menos irei sabendo a língua deles.

 

Clara de Almeida Corbin , 05 de setembro de 2003

 

Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética, História da Arte e Teoria da Imagem. Nas horas vagas, passa seu tempo esculpindo ausências.

 

Silvia Szymanowisky nasceu em Frutal do Campo, num verão qualquer, perdido amarelado do céu sob terra roxa de viço. Tem 67 anos de idade e reside na capital paulista, desde sua viuvez, há 22 anos. Este é seu primeiro texto publicado.

 

Clara de Almeida Corbin nasceu numa cidade feia, feia mesmo, de dar dó, quase mais feia que enfeite de natal feito em plástico reciclado: Primeiro de Maio. Professora de filosofia aposentada que não conta a própria idade tem uns anos. Sabe fazer chá e gosta de ser velha porque a juventude é tonta – não há exceções, é um fato ontológico, diriam os filósofos, igualmente tontos.

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Paula Olivier

 

Ilustração: Sadrie

 

Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
De brincar de abismos.

 

 

 

***

 

 

 

Cordas no grito da chave
que o corpo que nada
sabe do pulso que pulsa
e que passa

Deixa o brilho do canto
que a gente grita
suaviza a corda
que não mata

Belezas não se acalmam.
Verdades são caladas.

 

 

 

***

 

 

 

O amor ri das glórias e dos insones.
Multiplica o tempo,
abre as portas,
brinca de esconder-se
em altas horas.
O amor gargalha,
estanca as mágoas.

 

 

 

***

 

 

 

Quem quer viver faz mágica
Levanta mortos, junta luz
Lambe corpos, lambe escrita
Devora anjos, perdoa lobos.
Nas labaredas do intenso
Nas cadeias do gozo.

 

 

 

***

 

 

 

SOPHIA

 

Ela vai deixar os cabelos brancos, brancos
vai se deixar
estriar, enrugar, desbotar

Vai deixar a pele sinalizar
pontos, peitos, prantos

Vai cansar
vai deitar
vai deixar
Deus falar.

 

 

 

***

 

 

 

ORAÇÃO

 

É vício a palavra
com que falas
de crueldades
delicadezas
É vício a palavra
no meu corpo
minha escrita
que não te rouba
É vício a palavra
com que calas
no meu invento
minhas feridas
É vício que eu volte sempre
De delicadezas
Crueldades
É vício, amor
“Deuses só comem palavras”.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMEIRO PASSO

 

Caminhei, caminhei, caminhei
mudei os móveis de lugar
sem pedir conselhos
eu mesma cortei
unhas e cabelos
e as cortinas
eu mesma pintei
a casa de branco
e as unhas de vermelho
tudo para afogar
tuas iniciais
nos meus lençóis tão brancos
tuas iniciais
sibilantes e serpentinas
no meu sacrossanto peito.
E perdoei.

 

Ana Paula Olivier nasceu em Natal (RN) em 1971 e está radicada em São Paulo (SP) há dezesseis anos. É licenciada em Letras pela Universidade Potiguar (UNP-RN) e é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC (SP). Também é atriz e escritora, com diversos prêmios literários e participação em antologias poéticas publicadas no Brasil. Atualmente é professora de ensino superior (Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Produção Textual e Formação de Leitores – Letras e Pedagogia) e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC (SP).  “Infinito sobre o peito” é o seu primeiro livro de poesia.

 

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125ª Leva - 03/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Abismos entre ética e moral

 Por Vivian Pizzinga

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

O espetáculo Rose tem texto de Cecilia Ripoll e foi eleito como a melhor dramaturgia escrita durante as atividades da turma de 2017 do Núcleo de Dramaturgia SESI cultural (Rio de Janeiro), coordenado por Diogo Liberano. A direção de Vinícius Arneiro, excelente, e a atuação do elenco, à altura do texto, dão vida a esse drama que tem um viés político com moderação, no que diz respeito às questões mais abrangentes de distribuição de renda e desigualdade social (sem ser panfletário, sem ser chato, sem ser didático e sem ser raso) e a fatos específicos da política nacional. É sempre o ato, o gesto e o acontecimento que norteiam o viés político que a peça carrega, necessário e na justa medida, com lances de humor que os atores, conferindo personalidade e trejeitos a seus personagens, ajudam a construir (vide Ângela Câmara e sua afetação para sentar na cadeira, ou Márcio Machado e a voz empostada quando interpreta o deputado ou seus falsos brios quando assume a função de novo diretor da escola a moralizar o espaço escolar onde a protagonista trabalha).

Rose é merendeira de escola pública e sofre vendo que a comida não é suficiente para as crianças que lá estudam. Além disso, a comida que vem é inconsistente, o feijão é ralo, a qualidade não é boa. As crianças sentem fome. Então, ela começa a adoecer e tira licença, indo trabalhar na casa de dona Celina, sem carteira assinada, protegendo o filho da patroa e mantendo sua filha escondida no quarto. Rose é um mistério para esse filho, curioso com a porta fechada de seu quarto e com as banhas da funcionária. Maria Juliana, a filha de Rose, interpretada por Natasha Corbelino (cheia de carisma), é uma figura à parte. Sua indignação por ter de ficar escondida e pelas desigualdades que observa com perspicácia, como a comida que sobra e vai fora após as festas no apartamento e a comida que falta na escola onde Rose é merendeira, expressam-se em uma mistura engraçada de sarcasmo e cinismo. Para completar o elenco, há ainda o diretor Renato, que expressa a contradição entre o legal e o legítimo, ou a moral e a ética: nem tudo o que é legal é ético ou legítimo e vice-versa. Isso fica evidente no diálogo que ele tem com Rose sobre a estratégia (clandestina) utilizada pela protagonista para resolver o problema da merenda na escola.

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

O espetáculo vai num crescendo, como se um percurso para que os absurdos explodam e aconteçam fora do terreno da sutileza e se escancarando como deve ser necessitassem mesmo de um processo, de certo metabolismo: há várias relações acontecendo paralelamente, núcleos de tensão e afeto são despertados como se pequenos mundos que ora se afastam, ora se tocam e diversas vezes se interpenetram durante a trama. Há certo hipnotismo do menino (atuação de Thiago Catarino), que tem medo de descansar e morrer, pela filha de Rose, e todas as emoções que transbordam desse afeto inédito para ele. Há a estratégia de Rose para fazer justiça e levar comida da casa de dona Celina para a escola e o desconforto moral (e desprovido de ética) do diretor da escola, que usa todas as oportunidades para exercer e demonstrar porções fartas de demagogia, dramas tolos e falsos dilemas. Há a incomunicabilidade de dona Celina com seu filho, o pavor do toque e do abraço, a distância que se alarga entre eles e, por outro lado, encurta entre ele e Rose. Há o ciúme da filha de Rose e, finalmente, a preocupação de dona Celina em agradar o deputado que desvia merenda, na festa em sua casa, em paralelo ao ódio de Rose em relação a ele.

Entre outras possibilidades que a peça oferece para discussão e produção, temáticas variadas que margeiam a questão principal, o cerne é mesmo de doer: afinal, ninguém acha ruim o suficiente o desvio de verbas públicas que seriam destinadas à merenda escolar, mas se torna questionável uma funcionária levar a comida que sobra da festa da madame para as crianças da escola. Ninguém acha ruim o suficiente porque, se fosse suficiente, já não seria possível continuar acontecendo. Mas Rose, a quem Dida Camero empresta brilhante atuação, protagonista que não tem papas na língua, acha ruim o suficiente e não espera que outros venham resolver o problema da forma que se apresenta diariamente diante de seus olhos, em um sofrimento ético capaz de adoecer qualquer trabalhador que estivesse em seu lugar.

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

Os paralelismos desdobram-se: num apartamento de 400 metros quadrados, o quarto da empregada tem 4 metros e é ali que a filha tem que ficar o dia inteiro. Esse é o território que lhe é destinado: o espaço é escasso, a comida é rala, há uma classe que recebe sempre menos (e não se trata de maniqueísmo barato, a realidade é exatamente essa). O aluno da escola pública não pode provar salmão e a empregada não pode querer fazer curso de inglês: isso poderá soar absurdo (o salmão na boca do pobre) ou se tornar risível (o inglês na boca da trabalhadora doméstica).

Finalmente, o cenário é também ótimo e simples: diversas carteiras escolares são posicionadas como numa sala de aula, e é por entre elas, sobre elas, por baixo delas, desviando-se delas e as embaralhando que as cenas vão acontecendo. A maneira como as cadeiras são posicionadas e reposicionas e ajustadas e novamente deslocadas se torna uma pequena expressão do caos e do cinismo que se alternam no palco.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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125ª Leva - 03/2018 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Esplendor. Japão/França. 2017.

 

 

Esplendor (Hikari) é o filme da diretora japonesa Naomi Kawase que ganhou prêmio do Júri, no festival de Cannes de 2017. É a terceira vez que a diretora foi premiada no festival. Em 2007, com Mogari no Mori (A floresta dos lamentos) ela ganhou como melhor filme. Em 1997, com Suzaku, teve o prêmio de melhor diretora. Ela é pouco conhecida do público brasileiro, porém em 2011 o CCBB fez uma retrospectiva de sua obra, que conta com vários documentários.

Seus filmes são delicados e intimistas. Uma das características principais de sua obra é explorar a tênue separação entre documentário e ficção. Seus filmes ficcionais muitas vezes são filmados como documentais e com frequência atuados por atores não profissionais.

Esplendor conta a inusitada história de Misako (vivida por Ayame Misaki), uma jovem moça responsável por escrever legendas de filmes para cegos. O filme de Kawase se inicia por cenas de Misako descrevendo para alguns cegos que avalizam seu trabalho as cenas de um filme projetado. Seu trabalho é uma experiência para levar o cinema para deficientes visuais e, com um pequeno grupo de teste escolhido, Misako verifica se sua versão é adequada para esse público.

 

Ayame Misaki interpretando a protagonista Misako / Foto: divulgação

 

Descrever um filme para cegos não é exatamente uma tarefa fácil. Após a projeção, os cegos avaliam se o filme foi bem compreendido por eles, se sua descrição foi suficiente para levar uma experiência cinematográfica aos deficientes. Misako então ouve muitas críticas de seu pequeno público de teste. Sua descrição esteve aquém da experiência de vozes e ruídos percebidos pelos deficientes. Um deles, Nakamori (vivido por Masatoshi Nagase, ator que também participa de Patterson, de Jim Jarmusch), fotógrafo que está perdendo a visão, avalia que Misako se perdeu no excesso de detalhes, distraindo a atenção dos cegos, e perdendo o essencial da obra cinematográfica. Misako tem então de refazer seu trabalho.

Assim, o filme aborda a irredutível diferença entre o dizer e o mostrar: as palavras e as imagens nunca podem se ajustar perfeitamente. O trabalho de Misako está condenado a uma insuperável insatisfação, que provoca uma enorme angústia na jovem. Ora sua descrição entra em pormenores dispensáveis, prejudicando a concentração do público, ora sua contenção impede a vivência do filme pelos cegos por falta de informação.

Mas a situação é ainda mais sutil do que esta. Numa das cenas do filme, Misako introduz uma interpretação subjetiva de uma cena, o que provoca protestos de seu público por estar induzindo uma leitura. Quando remove sua interpretação, então é o fotógrafo que lamenta que a cena tenha se tornado tão vazia. É nesse momento que Misako responde que talvez lhe faltasse imaginação, o que o faz deixar o teste indignado e ferido, provocando um conflito entre os dois.

O que está em jogo no filme delicado de Naomi Kawase são os modos de sensibilidade que uma obra desperta, que tipos de afetos ela movimenta. A questão não está se uma descrição verbal jamais nos dê a verdade de uma imagem, ou quantas palavras são necessárias para descrevê-la. O problema está no mistério da imaginação estética, no seu poder de não parar na imagem, mas sempre ir além dela. Não é que as palavras não se adequem às imagens, mas que a própria imagem não cabe em si mesma. Esplendor tem um filme dentro de um filme. O filme que assistimos é uma indagação sobre o que significa ver um filme. Com olhos abertos ou fechados.

Uma das características da câmera de Kawase é seu ângulo fechado, seu foco curto. Vemos detalhes dos rostos e dos corpos, recantos de salas e cantos, folhas na floresta e réstias solares. Vemos sempre as partes dos lugares, mas não o espaço todo. Por um lado essa agudeza do foco simula uma restrição visual que se aproxima da baixa visão do fotógrafo e dos outros cegos. Por outro, a câmera fechada responde a uma poética da intimidade que é uma das marcas mais pessoais da estética de Naomi Kawase.

 

Matoshi Nagase na pele do personagem Nakamori / Foto: divulgação

 

Assim, o que essa ou qualquer obra estética nos dá, são traços incompletos que não descrevem totalmente um mundo. São fragmentos de mundos que precisam ser recompostos. Por isso é que existe tanta permeabilidade entre o documentário e a ficção. Por vezes nos esquecemos de que nossa percepção é sempre parcial, que para ver algo é preciso deixar de ver outro algo. Toda percepção é sempre perspectiva, isto é, parcial e incompleta.

A poética da intimidade de Naomi Kawase é, portanto, uma estética de ângulos fechados, de proximidade, em que as visões panorâmicas e totalizadoras não entram. Seu primeiro documentário chamava-se justamente: “Só foco no que me interessa”. Um cinema do foco e da subjetividade.

Esse espaço de intimidade torna-se uma zona de indiscernibilidade entre ficção e realidade, pois cada fragmento observado deve levar à recomposição de um mundo. Por isso, numa cena marcante de Esplendor, quando Misako está perdida na floresta à procura de sua mãe desmemoriada, ela se relembra de uma experiência vivida com seu pai quando era criança naquele mesmo bosque, que logo a seguir é relembrada por sua mãe que não a viveu, mas possivelmente tomou conhecimento da experiência por palavras do pai ou de Misako. Assim, a jovem entende que as palavras são também elas fragmentos de mundos.

Por isso, a descrição de uma cena é também um traço que nos conduz a outro mundo, ou a outro traço. Esplendor, com seus jogos de luzes e sombras, nos conta a história de uma moça japonesa que descobre que cada palavra pode ser um projétil capaz de abrir uma fenda na superfície de uma vida por onde um mundo pode furtivamente penetrar através de um feixe oblíquo de luz.

 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Sadrie

 

o despertar do ódio

 

o ódio perdeu a mordaça
atrás da tela

ele agora tem voz alta
no meio digital

realidade virtual
que desvirtua
o real
– e que o expõe, também

associal, em rede,
o ódio é mais forte

 

 

 

***

 

 

 

falta

 

antes Niemeyer tivesse projetado a moral de Brasília.
nem em seu maior devaneio faria linhas tão curvas,
nenhum lápis teria grafite mais sujo,
nenhuma tinta seria mais permanente,
nenhum concreto, mais duro.

faltam os traços de Niemeyer nos homens,
faltam o sonho, a dedicação e o outro.

falta sempre alguma coisa,
dinheiro sempre dizem que falta.
ou falta no orçamento,
ou falta no bolso.
e como faz falta.

antes Niemeyer soubesse que projetava uma pocilga,
evitando, eu, falar promiscuidade,
e teria, ele, projetado pastos,
baias mais adequadas,
confinamento, e abatedouro.

 

 

 

***

 

 

 

nas malvinas

 

no peito da feira
lateja uma chaga purulenta

crianças vendem sonhos e infância,
pessoas vagam desalmadas
entre crimes e monturos

a lama – mistura de chuva, chorume e reuma
e salmoura das carnes e peixes –
que banha os pés dos ambulantes absortos
é o icor que escorre daquele lugar

o negócio é tão grave
que o piso tremula de frio e pavor
e da cobertura vazam suor e lágrima

 

 

 

***

 

 

 

dobraduras

 

barcos de papel viajam
nos rios intermitentes das sarjetas
com sonhos escritos nos costados

ágeis, no talvegue,
entre ondas do curso irregular de raso álveo,
ignoram que a esquina encerra
o sumidouro de tudo que navega
– barco, sonho, água e terra

 

 

 

***

 

 

 

o preço fora do mercado

 

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ela, que foi boa, levou-me por aí,
pedalou bicicleta e fez tantos gols

ela, que saltou a poça naquele dia chuvoso,
esforçou-se pela minha saúde
e bailou com a pessoa
por quem eu me apaixonaria

ela, que foi má, provocou pênalti no futebol,
dilacerou o bicho e machucou outras pessoas.

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ela, que me faltou no dia da audiência
para vencer os obstáculos do fórum,
e continua me faltando na hora do banho,
do café e do trabalho…

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ainda tenho esperança de ter perna de novo.
não sou um louco que espera que ela cresça como rabo de
[lagartixa.
tenho esperança de um dia ter dinheiro para comprar uma
[perna mecânica, isso sim.

e, se o desenvolvimento da medicina seguir bem,
ainda verei pernas naturais serem implantadas com
[sucesso.
nesse dia, perguntarei ao juiz se ele me vende a dele.

 

Geraldo Lavigne de Lemos é graduado em Direito (UESC), especialista em Direito Notarial e Registral (Anhaguera/Uniderp) e em Gestão Pública (UESC) e mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UESC). Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem no prelo o livro Poemas furta-cores, pela Editus – Editora da UESC. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus.

 

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125ª Leva - 03/2018 Gramofone

Gramofone

Por Saulo Dourado

 

SAMBA DE RODA ESMOLA CANTADA DA LADEIRA DA CADEIA

 

 

“À margem do Paraguaçu, grande rio, grande alma vivente que nasce na Serra do Ouro do Monte do Cocal, desce serpenteando e deságua na Baía de Todos os Santos…”, declama Mateus Aleluia na quarta faixa do disco Samba de Roda – Esmolada Cantada da Ladeira da Cadeia, lançado no fim de maio em Cachoeira. Ele, o belo tincoã, foi o convidado especial deste grupo que começou há 60 anos para pedir, de casa em casa, doações aos festejos em louvor à Santa Cruz e que agradeciam aos generosos com sambas. Hoje, misturando a primeira geração de cantadores com uma nova, a Esmola Cantada reúne os moradores da Ladeira da Cadeia, esta subida em pedras de fogo ao lado da Praça da Câmara Municipal, que vivem com a vista panorâmica da cidade e um convívio de vizinhança de porta, para continuar.

O álbum, todo ao vivo, produzido por Alan Lobo com apoio do Fundo de Cultura da Bahia, tem o primeiro mérito de expressar a energia do samba de roda em forma gravada: os instrumentos de corda delineados com os cavaquinhos fortes, as vozes entre tons de ladainha e de cantos de roda, a “gordura” mesma da música como é e se faz. Afinal, a música de raiz não deve ser registrada apenas enquanto memória e preservação, mas mostrar o ânimo alegre e fazer dançar. Tocar cantigas do Recôncavo como Flor de Laranjeira e Cachoeira e Muritiba dá vontade de arriscar passos com as mãos na cintura. Fazer um disco de samba e não uma compilação de patrimônio é um mérito de direção (Claricio Marques) e de gravação e mixagem (Braulio Passos e Sandro Mascarenhas), que aqui se atinge.

 

Esmola Cantada / Foto: Lavínia Conceição

 

O segundo mérito é a composição. A maioria das faixas é de domínio público, alguns são clássicos como Retrato da Bahia, de Riachão, Maracangalha, de Dorival Caymmi, Quem Samba Fica, de Jamelão e Tião, e outros títulos são de membros atuais do grupo, Na Margem do Paraguaçu, A Viagem e Esmola e Cachoeira. Destaco esta última canção como uma música vivíssima, tão ligada à sua tradição que, mesmo autoral e atual, é como se tivesse sido feita desde sempre no Recôncavo. Um samba gostoso todo refrão. A compositora é Bety, quem também a interpreta, que mostra um talento melódico para se pedir mais. “No samba miudinho, ô pra levantar poeira lá em Cachoeira. Entre na roda de samba da Esmola Cantada de Cachoeira…”.

O terceiro mérito é a presença de Mateus Aleluia, como já foi dito, mas não detalhado. Nas três faixas em que ele se apresenta, a percussão já muda – seja para um tom mais grave, ancestral em Na Margem do Paraguaçu ou acelerado em Raposa e Guará -, e as vozes ganham várias camadas, cujo coro é um lençol sobre o qual a sua voz se movimenta. Com as interpretações de um cancioneiro popular, também em Cantigas de Cosme e Damião, é possível sentir um griô a narrar uma história de bichos e gente, com um segredo por trás.

Com a Ladainha de Abertura (“Nos abra a porta, devoto!”) e a Ladainha de Encerramento (“Senhora dona da casa, é hora da despedida”), entre uma hora e quinze minutos de roda incansável, temos a sensação que também nós fomos visitados. Bateram à nossa porta pedindo um pouco do que temos, com a cruz, a bandeira, as fitas, os chapéus e as saias, e nos agradeceram com música. A casa é vossa. Assim o samba popular prossegue por força própria, e na mesma fonte em rio corrente que toma a Pedra do Cavalo, passando pelo Subaé, é claro, continua-se a alcançar quem chega e a ganhar criação.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Renata Ferreira

 

Ilustração: Sadrie

 

forma de vida

 

o animal em mim
morto
fede
mas não abandona o corpo
que segue
ereto
na medida do orgulho
os pés
cansados
fingem
uma humanidade
desmedida
enquanto
a cabeça
molde perfeito
sorri
do inferno
que a sustenta

 

 

 

***

 

 

 

desassossego

 

se desperto, ânsia
clarão desassossego
luz que entra
devora-me/ devoro-a
anseio o fim
canção diária chamada desejo
martelando os dias
um turbilhão
arrasta-me para longe
ainda estou dentro de mim

 

 

 

***

 

 

 

construção

 

demoliram a casa:
desenho tristezas nos escombros memorialísticos,
[minha obra humana]
pés cansados percorrem o terreno,
já não são os mesmos,
incharam.
os sapatos apertam,
estão vivos,
caminham sem mim,
bailam com o passado,
[enquanto me enchem de calos perversos]
não poderei usá-los no futuro…

 

 

 

***

 

 

 

tempo

 

a velha cicatriz ainda coça
compete com a novíssima
[duas semanas de vida]
uma,
nas mãos [infância]
outra,
no joelho [adulta]
um corpo
qual coçar primeiro?

 

 

 

***

 

 

 

moinho

 

verto poemas esquizofrênicos
enquanto vomito saudade
tenho medo da perda
lambo o chão
já não sou eu
não sei quem sou
[ele disse: “um dia de cada vez”]
um enorme espaço de tempo
separou o abraço
solidão a dois é mais latente
tritura
tudo

 

 

 

***

 

 

 

leitura

 

não encontro no teu rosto o que preciso,
teus olhos incolores filtram o brilho dos meus,
teu cansaço diário pesa em mim,
a força que destina ao tédio me abala.

não encontro em tua atenção um espaço,
espaço confortável com móveis audíveis,
a negritude dos teus cômodos tira minha visão.

abro as janelas, a luz do sol se afasta,
num movimento de estar sem estar,
brinca de esconde-esconde.

a procura é infinita,
perdi-me em tua vida.
isto não é poético,
apenas uma prisão em forma de poema,
prisão-lar.

 

Renata Ferreira nasceu e vive em Duque de Caxias(RJ). Formou-se em Letras pela UERJ— onde cursa jornalismo—, e é mestranda em Estudos de literatura pela UFF. Prepara seu primeiro livro, “Clarão Desassossego”.

 

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125ª Leva - 03/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo Palavra II

“Felicidade é a queda, o abismo”

Por Gustavo Rios

 

 

Autor de vários livros, entre eles o comovente O caçador de mariposas (Mariposa Cartonera, 2013) e o romance Estrangeiro no labirinto (Confraria do Vento, 2013), semifinalista do prêmio Portugal Telecom, o escritor pernambucano Wellington de Melo deve gostar bastante do que faz – e ele faz muitas coisas – para conseguir juntar tudo, ou quase tudo que envolva seu interesse, em seu mais recente livro.

Ele, que foi traduzido para o espanhol e francês, e é editor pelo selo Mariposa Cartonera, com o qual publica diversos autores de forma artesanal, é também figura atuante nos meios literários, defendendo claramente suas escolhas políticas, ministrando oficinas cartoneras pelo Brasil e comandando a Cepe Editora.

Não bastasse ele é professor e tradutor. E um sujeito com estilo (não “estilagem”, é bom frisar).

Felicidade, sua mais recente obra, saiu em 2017 pela Editora Patuá. O livro em si é um primor em sua parte gráfica. E um petardo em sua essência.

Dividido em três partes (Beleza, Julgamento e Misericórdia), Felicidade é resultado de um trabalho extremamente poético, sucinto e poderoso. Um trabalho onde o autor consegue unir assuntos relevantes (coletividade, poesia, luta de classes, questões de gênero etc.) com habilidade, sem se perder no caminho – até porque o caminho é ele quem cria.

Em cada página o leitor se sente livre para escolher como construir em sua mente essa ou aquela cena (a necessidade básica de “entender” o enredo e apreender o estilo, simplificando-os na busca de repetições e convergências). Porém, essa sensação é aparente, na medida em que Melo tem o intuito de nos manter por perto, na base da rédea curta – e a tal simplificação cai por terra: cada nova leitura força a admitir que algo sempre nos escapa, que não vamos aprisionar a escrita de Wellington. E ficamos gratos por cair na armadilha.

A poesia (ou prosa poética, fiquem à vontade) serve como base para as situações a priori surreais, mas que trazem em si o elemento político tão caro ao autor– falo de 40 pessoas prontas para um suicídio coletivo na mesma noite em nome de uma causa, dentre outras coisas. Contudo, ao seguir adiante com Ademir, o personagem principal, começamos a perceber que as cenas e os acontecimentos se tornam parte do jogo. Um jogo que vai se mostrando profuso, verossímil e doloroso, onde o indivíduo não se dilui em nome da tal causa. Para nossa sorte.

Um jogo saturado de brutalidade, desespero, poesia e coesão. Uma incrível história.

Então, seguimos. E nos jogamos de edifícios altos e imponentes em nome de um ideal. E caminhamos pela cidade, onde “Duas colunas com capiteis sobre as quais dormem cabeças infantis fraturadas pelo vento e pela cal (…)” surgem numa “ (…) paisagem precária e teimosa, babel silêncio argamassa tijolos e desejo”. E somos violentados, encarando nosso passado, desprovidos do conceito tacanho de gênero (uma aposta certeira do escritor, não somente para aderir ao discurso tão atual, mas para dar a um dos personagens a merecida amplidão), sem paz e sem chances, buscando qualquer tipo de redenção.

Nada é fácil em Felicidade. Mas tudo é sucinto. E direto. E belíssimo.

Wellington faz parte daquele time de escritores que subverte a lógica na descrição de qualquer cena, seja ela crucial ou simplesmente transição entre acontecimentos: são frases curtas e afiadas, em diferentes ritmos. Contudo, essa subversão não é a impossibilidade da leitura e do entendimento, mas a chance de multiplicar esse entendimento, essa construção – sempre lembrando de que existe uma trama por trás e que nada é gratuidade, muito menos confusão.

Não foi raro me deparar com trechos onde supus não entender a ”cena” e o momento. Todavia, uma nova leitura (a doce armadilha do autor) me fez perceber as diversas chances de reconstruir aquilo, sem sair do rumo – o lance da rédea curta. Eu poderia reinventar um determinado instante, um rosto, uma dor, um suicídio, mas estava sempre jogando dentro das regras estipuladas pelo escritor pernambucano, pois havia uma história a ser narrada.

Então a cena era recontada, sempre com um novo brilho (não me arrisco a entregar o enredo, por medo que isso reduza as escolhas do leitor; e vamos em frente).

Num texto onde “(…) pombos de chumbo e acrílico zumbem (…)”; onde os sorrisos dos meninos estão “(…) mergulhados no vácuo (…)”, é fundamental entender que, mais cedo ou mais tarde, durante a leitura, estaremos subjugados e entregues. E que os trechos acima, ainda que pareçam belíssimas falcatruas poéticas, servem para compor a narrativa. Na base da boa literatura.

Em Felicidade existe maestria na condução do texto. Há uma trama sutil em sua forma (poesia ou prosa poética, mais uma vez fiquem à vontade), mas brutal em sua essência (a sequência dos acontecimentos, a tal história; a morte e o esquecimento como atos políticos; o passado dos personagens à tona).

Um movimento de distração nos custa o retorno à página. E esse retorno, curiosamente, pouco nos custa – considerando o ganho na nova leitura, sai barato, uma pechincha. É nessa volta que surge o renovado entendimento.

E um novo livro aparece. Com a mesma trama, todavia: é o desejo do autor.

A liberdade conduzida em Felicidade nos permite interpretações, mas sem nos perder numa narrativa ilógica e supostamente poética – aquele amontoado de palavras soltas; a manjada armadilha das vanguardas vazias, onde o leitor é sempre o ignorante, não importa se a obra foi publicada em mandarim: a gente que se vire com a “lisergia autoral” do gênio.

Wellington nos mostra que a literatura de qualidade, aquela que arrebata e instiga, sempre é resultado de escolhas, labuta e talento. E que é possível converter em poesia qualquer enredo, causa, tragédia, narrativa ou recurso literário, sem se extraviar no percurso.

Felicidade deve ter também alguma relação com o trabalho de um bom carpinteiro (Monteiro Lobato foi mais feliz no uso da metáfora, mas enfim), consciente do resultado de seu ofício. Um troço que transforma madeira rude em alicerce. Aprumado e firme, sim senhor. Mas igualmente repleto do que a literatura e a arte têm de melhor.

 

Gustavo Rios é baiano e escritor invisível.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carolina Spyer

 

Ilustração: Sadrie

 

Nota sobre uma curva

 

Meus olhos já tão miúdos quanto os seus
imersos nessa cidade de gestos
tão
inusitados

Eu desenhei olhos de ar no papel
extasiada

O ar nu como eu
tão exposto
tão
alterado

Eles picotaram o ar pelo papel dos olhos
deixaram-me o vácuo
deitado minúsculo sobre meu colo
insistente
tão desfeito quanto eu

 

 

 

***

 

 

 

Terroso o seu corpo

 

insistente matéria atravessada no estômago
prepotente que revolve seu cabelo
branco como que autorizado a triturar
seus fios para impor seus vinte mil hectares
de canaviais ou mais fazendo seguir a gentileza
da proposta para que seja uma entre seus quinhentos
funcionários ou mais a esquecer seu pé de jabuticaba
farto como se não houvesse as vozes incrustadas
as vozes do saco barreiro cantando no barro
tóxico alastrando seu tronco no chão

 

 

 

***

 

 

 

Enquanto falávamos de ritmo

 

Éramos três músicas
à trinta minutos de distância
das mesas eu e você
três constrangidas
por linhas e figuras
ignorando as buzinas as mesas eu e você
éramos três músicas mortas
pouco displicentes
porque fenecidas
éramos três dobradas
no tanto de corpo que se tinha
descartadas sem que notássemos
três coisas
pairando
sobre o chão

 

 

 

***

 

 

 

O banho era diário

 

Minhas pernas se encolhem logo de manhã
eram talvez 7 tons de xixi e variadas combinações de cor coágulo e mais
eu apurei 37 graus morre de frio moradora de rua na zona leste

são quem sabe 2 de minhas saídas
quem sabe todas elas ideais
desde tão cedo acordada Fernanda

levou um tiro no peito enquanto dormia sob uma marquise na zona sul
ninguém cuidou da cor e da temperatura dos dias sob o teto infiltrado
de registros e pedaços de pele

e coágulos em fluxos variados logo antes da manhã começar
na zona norte enquanto moradora de rua de 22 anos é atacada
a golpes de gargalo de garrafa toda cheia de mucosa ureia

e água que não cessam de esguichar
enquanto apoio meus pés na parede do banheiro
enquanto cuido de tentar manter meus pés apoiados

os nervos e músculos intrauterinos comprimidos
chorando pelos rins bato na minha barriga
de fluidos na zona oeste

 

 

 

***

 

 

 

O encontro

 

Nós dois um cardápio tímido e a mesa
dispondo nossos cotovelos as sombras
as perspectivas o ritmo da conversa
a abrangência da nossa visão a estética
do tempo cruzando a mesa parada
toda parada enquanto organiza
discretamente
nossa noite que passa

 

 

 

***

 

 

 

Solos cobertos de giros

 

I

Perde a cabeça no ombro
A mão na testa
O umbigo no dedo
O chão na goela
Faz caminho cruzado
Coloca pé com pé
Mede tamanho de tempo
Lambe intervalo do peito
Tosse em silêncio
Abre de mão dada
Bunda com bunda
Enquanto ficaram os olhos alagados

 

II

Corre dedo na rua pra conhecer o maciço do chão
Atravessa pedra, ponte, peito
Hoje é quinta feira
Percorre túneis sondando seus círculos intermináveis
Olha curto, curso
Hoje é quinta feira
Rastreia linhas topográficas
Toca
Finge rosto desforme curvando pescoço
Se lambe imensa
Lado, lastro
Lapso
Ela nunca pensou em atravessar essa via à noite
Hoje ainda é quinta feira

 

III

Roda céu: então chora (então escapa)
Tanto se pôs à superfície que agora é quase toda língua
Quase toda anel viscoso dela mesma
Rasteja à revelia do corpo
Com seu corpo

 

IV

Sensível às vibrações exteriores
Reajo entre expansões e contrações
Escavo galerias e canais
Me alimento de detritos de diversas origens
Enquanto constantemente excreto terra
Já não tenho pulmão
E me regenero

 

Carolina Spyer nasceu e vive em Belo Horizonte, Brasil. Possui graduação em Direito pela PUCMINAS e mestrado em Filosofia do Direito pela UFMG. É poeta, publicou “vrás” pelo Selo Leme (Editora Impressões de Minas, 2016) e tem poemas publicados em revistas virtuais.