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126ª Leva - 04/2018 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: María Tudela

 

Há uma era em que colhemos os frutos daquilo que semeamos outrora. Tempo que serve de reflexão também para entendermos como o caminho foi trilhado até então. É pensar sobre os propósitos todos, os encontros surgidos, bem como as vozes que um dia aqui manifestaram suas expressões. Olhamos para trás com devoção aos que nos ajudaram em nossa persistente trajetória editorial a tornar a Diversos Afins um projeto vivo e robusto. Miramos o futuro, certos de que ele é algo em construção na tessitura do presente que agora podemos testemunhar como sendo concreto. 126 levas depois, o sonho permanece, com o gosto da descoberta, com as surpresas do meio da jornada. São 12 anos de um envolvimento diário com os destinos da revista, tentando sempre manter ativos e perenes os horizontes da continuidade. E seguimos nas trincheiras da independência, creditando à arte e seus atores o atributo de principal força que movimenta os caminhos todos. Quando a revista iniciou, em 2006, não poderíamos imaginar que tal longevidade poderia se insinuar, mesmo que a porção do sonho representasse sempre algum desejo de infinitude.  Nada melhor do que vivenciar todas as etapas para se ter certeza dos acertos obtidos. Na roda viva que agrega encontros, trazendo para perto de nós colaboradores de toda ordem, os discursos vão constituindo um rico painel de falas que exprimem a dinâmica dos sentimentos. Mas o que dizer dessa rica cartografia do humano a partir da disseminação de tantas e diferentes vozes? Eis o resultado que se instaurou até aqui como sendo o algo mais recompensador de nossos esforços. Com o tempo, autores e artistas foram expondo muito mais do que suas obras, ou seja, passaram também a evidenciar rostos, traços íntimos e pistas sobre suas epifanias identitárias. A Revista Diversos Afins orgulha-se de ser hoje esse palco que harmoniza criações e ímpetos humanos, um ambiente que fomenta relações na defesa incondicional da arte. Imbuídos desse ideal, celebramos agora o instante com os poemas de Matheus Guménin, Rita Santana, Meire Viana, Natasha Lins e Mercedes Roffé. Sérgio Tavares brinda-nos com uma entrevista feita com o escritor Mário Rodrigues. Durante toda a edição, somos marcados pelos ritos silentes trazidos pelas imagens da fotógrafa espanhola María Tudela. Na via da sétima arte, Guilherme Preger dedica suas atenções ao filme brasileiro “Arábia”. Os contos de Rodrigo Melo, Jorge Mendes, Marcus Vinícius Rodrigues, Floriano Martins e Zuca Sardan demarcam territórios de vida. Pérola Mathias rende escutas ao disco “microarquiteturas”, de Rafael Macedo & Pulando o Vitrô. Para apresentar seu mais novo livro, o poeta Jorge Elias Neto professa os caminhos de sua criação. Louvando sempre aqueles que somam conosco, comemoramos o momento deveras especial com você, cara leitora, caro leitor. Boas leituras e nosso muito obrigado!

Os Leveiros

 

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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Meire Viana

 

Foto: María Tudela

 

sou a sombra de mim desmedida
enroscada nos remendos alinhavados do tecido gasto
imensurada nos cortes profundos
das fendas deixadas à mostra: carne sã
das brechas acidentais das saliências vãs
enlaçada nos egos que teimo em descosturar
eu,
vestida de outras texturas e outros textos
Nem me reconheço.

 

 

 

***

 

 

 

alago estiagem
inundo seco
transbordo rio
escoo ralo
Pra fora calo
Pra dentro falo

 

 

 

***

 

 

 

entediada
das falácias
falas pelos cotovelos
das tagare-tolices
dos verborrágicos
verbos raivosos
dos disse-me-disse e das blá blá blasfêmias
a palavra pede licença
e vai silenciar
no dicionário

 

 

 

***

 

 

 

diáfana
avoada
evaporada
em partículas
vocálicas:
Eis a palavra
fonemamente livre
das estruturas morfo-sintáticas
sem verbo
escrita e fala.
Sem aspas vírgula ponto
Sem rumo
Desenfreada
leva na mala
somente prefixos de negação
e oposição.

 

 

 

***

 

 

 

caminho curtortuoso
bifurcaçõestreitas
labirintoscos
estradatalho
poça dágua no meio:
atravesso e ando
atravessando
travessa
vereda
viela
vila
via
Paraliso
no piso
escorregadio
da esquina
me curvo à curva
desisto do risco
mantenho desestância
desvio
silencio
sou refém do espaço
refaço o passo.

 

 

 

***

 

 

 

Em tudo
entorno
em torno
contorno
em todo
retorno
em tudo
engodo
em torno
entulho
em todo
embrulho
em tudo
encolho
em torno
me encolho
todo

 

Meire Viana é professora de Português e Literatura, com Mestrado e Doutorado em Letras. É poeta experimental neoconcretista. Dialoga com o Concretismo, o Neoconcretismo e a Poesia Marginal dos anos 70, suas referências. Tem material inédito para publicação em livro, mas por ora é frequentadora de saraus poéticos na cidade. Mora em Fortaleza.

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 Jorge Mendes

 

Foto: María Tudela

 

SOBRE OS OMBROS DO VENTO VELOZ QUE ME LEVA

 

ontologia voraz

 

o tempo tem dentes afiados e come pelas bordas. você não percebe o estrago, a erosão abrindo buracos escuros no peito e pratica esportes monocromáticos, se socializa com os vermes, decora as senhas. segue o esquema. o tempo é um bom cão de caça e se alimenta de sombras e psicopatologias. você sente calafrios, flutua entre nuvens desidratas, faz pactos com a insolvência, é seduzido pelos que sabem manipular o gelo. o tempo tem os olhos de vidro que embaçam e hipnotizam e você não está vivo nem morto e ninguém dá a mínima. o tempo sofre do vício em adrenalina e vertigens. o tempo sussurra em seus ouvidos o primeiro nome do inimigo e engatilha a pistola nos seus tímpanos. o tempo está parado na esquina vendendo relógios, negociando destroços e doenças de pele. o tempo acumula rancores e vaidades em caixinhas espelhadas. o tempo entra no mormaço, trava o coração. o tempo tem as pontas dos dedos geladas e um manto negro sobre os ombros. o tempo vai domesticar todos os sonhos, corromper a natureza dos pássaros. o tempo é o outro, todos os outros.

 

 

 

***

 

 

 

sitiado

 

cercado por bichinhos de estimação, orquídeas rancorosas e teorias motivacionais. cercado por perfis megalomaníacos, necrológicos recreativos e hinos de louvor. cercado por incensos e britadeiras. cercado pelo bizarro, por imagens da destruição e helicópteros. cercado pelos cães da polícia militar, gerentes do tráfico e garotas anoréticas que me monitoram pelo google. cercado por flores de perfumes degradantes, por pássaros autistas, gatos obesos e crianças em tons de cinza. cercado por energéticos, depressivos, anticorrosivos. cercado pelas vozes dos alto-falantes, por fogos de artifício, pelos gritos e tiros de ar-15. cercado pelo mormaço, pelo frio calor. cercado por corpos e objetos que provocam dor e fazem sangrar. cercado por máscaras, próteses, luvas de borracha, gadgets e metáforas da carnificina. cercado por deuses de plástico e caixas de supermercado. cercado por passeatas e paredes, orixás, gases lacrimogêneos e erva daninha. cercado pelo invisível horror e por todo o lixo que existe ao meu redor.

 

 

 

***

 

 

 

necrosociety

 

é preciso acalmar o medo com voos panorâmicos no elevador de vidro, próteses sensoriais, tabletes, ansiolíticos. é preciso acalmar o medo levantando peso, clareando os dentes, eliminando gordura. é preciso acalmar o medo com mantras, mentiras, hinos de louvor, esgoto, efusões de ervas mágicas, gadgets. é preciso acalmar o medo bebendo do veneno incandescente. é preciso acalmar o medo no comércio dos corpos, na sala escura com aparelhos de tv, indo dançar com os trapaceiros. é preciso acalmar o medo negociando com os deuses e os demônios da dissimulação, com doses cavalares de tédio e tinturas para o rosto. é preciso acalmar o medo com alvejantes, sucos de clorofila, recebendo propinas e espíritos da maledicência. é preciso acalmar o medo com barbitúricos líricos, falcatruas, câmeras de segurança, estelionato. é preciso acalmar o medo molhando de sangue, suborno e miséria as mãos dos homens públicos. é preciso acalmar o medo ficando rígido e desidratado. é preciso acalmar o medo como fazem os cadáveres.

 

 

 

***

 

 

 

addiction blues

 

ela diz que sou feio, confuso e indiferente à luz do sol e tenta me prender dentro do cubo de gelo. ela simula caridade e ataques cardíacos pra que eu entre em transe e frite na fervura. em seu planetinha corrosivo existem plantas carnívoras, tempestades elétricas, cocaína. ela corrompe minha natureza de pássaro, me passa malária e os barbitúricos. ela se finge de morta e eu só no conhaque. ela lê o que escrevo sentada só de calcinha na mesa da cozinha e diz que não tem tempo nem paciência prus meus paradoxos e viagens suicidas ao redor do fogo. ela ri do meu medo, me aprisiona em espelhos que são frios frios frios. ela me leva pru fundo do mar e me deixa anêmico, aflito, incomunicável. ela tem um jeito de mexer nos cabelos curtos que desestabiliza as sólidas estruturas. ela me olha de longe, sem piscar, e ainda dói. ela me beija com desespero e ternura, ela me ama com tigres e punhais, ela corrói meu voo de ícaro, apaga meus passos, me abandona em labirintos, acende meu desejo, morde meus mamilos e é por isso que eu bebo.

 

 

 

***

 

 

 

ininteligível       

 

existe algo de sublime e sujo no amor. algo que faz o assoalho tremer e que incomoda a vizinhança. existe algo no amor que fura a pele e deixa rastros de sangue pelo chão da cozinha. existe algo no amor que provoca febres, corrosões, desmoronamentos. existe algo no amor que embriaga os pássaros e nos faz dançar violentos e descontrolados ao redor da fogueira. existe algo no amor que é doce, ácido, incandescente. existe algo no amor que alucina, causa sonambulismo, desafia a gravidade e faz voar. existe algo no amor que provoca espasmos, psicoses, infecções e ainda goza. existe algo no amor que cavalga os ventos, arranha a carne e as paredes, corta os cabelos bem curtos, abre oceanos e produz cegueira e uma severa forma de dor. existe algo no amor que não tem cura, que é loucura, perversidade e canibalismo. existe algo no amor que dispensa explicação.

 

 

 

***

 

 

 

chroma key

 

um romance parecido com filme super 8 e rastros de fogo. um romance com hálito de vodca, com formigas correndo na corrente sanguínea, pista magnética e flores carnívoras. um romance que solte as mãos na curva fechada, que abra asas quando pular do décimo segundo andar. um romance atravessado na calçada atrapalhando os pedestres. um romance sem dia seguinte, com olheiras fundas e olhar obstinado. um romance volátil que levite sobre os incêndios. um romance com os cabelos molhados pela tempestade, que solte faíscas e choque elétrico a cada beijo. um romance inesperado, sem ponto final, que comece pelo fim, que encante meu corpo e me faça dançar o blues.

 

 

 

***

 

 

 

sobre os ombros do vento veloz que me leva

 

talvez não haja tempo nem paciência pra esperar pelo sol. preciso acender fogueiras e deixar o fogo se alastrar. a garota linda me ama e me odeia e mora longe numa casa cheia de gatinhos psicóticos. eu encaro paredes, minto pru chefe e pru sub-chefe e de noite viro dragão da lua e faço sobrevoos. existe dor nas coisas que toco com a ponta dos dedos, pessoas insalubres no fim do arco-íris, dissonâncias e tempestades que não me deixam mentir. sigo só de encontro ao inimigo. por livre e espontânea vontade caio em todas as armadilhas. sou fraco para os cálculos. talvez não haja amor, doses de conhaque, neblina e manhã seguinte. preciso ir.

 

 

 

***

 

 

 

devir

 

para o medo da morte doses cavalares de adrenalina e nuvens. para o desejo que arde fogo alto, brasa viva, solstício. para o beijo outro beijo outro beijo outro beijo. para o sangue que corre pelas veias oxigênio e matilha. para os olhos andrômedas, luas de virgem, calafrios. para o passado, o presente e o futuro as águas dos rios, a dura luz do dia. para todas as coisas que existem e para as que estão por vir o fundo do mar, a matemática do sol, a pureza do sal e o que escrevo aqui sozinho.

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Foto: María Tudela

 

A FRESTA

 

— “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano”.

A voz ecoou majestosa, como se amplificada pelo vão de uma catedral gótica, a abóbada central da nave se esticando para os céus entre a devoção e a afronta. Soberba, diria Dona Antônia com a mesma voz tonitruante que tinha agora no alto da escada. Não estava em uma catedral gótica, nunca mesmo tinha entrado em uma, nem mesmo aquela no Largo dos Mares, imitação moderna e que achava vulgar. Gosta da sua. O pastor transformou um antigo galpão em templo. O teto era altíssimo. No lugar de janelas para a rua, as paredes eram pintadas como um céu azul. Quando se apagavam as luzes e se deixava apenas a iluminação nas paredes, era como se já estivessem todos no céu. Ela se sentia abençoada por estar ali. Cantava o louvor com fé e força, a voz enchendo toda a amplidão.

Mas Dona Antônia não estava no templo. A voz soava amplificada porque metia a cabeça para dentro do armário de mantimentos. Acabava de limpar quando falou.

— O cedro cresce lento, menina, mas cresce alto e forte. Tem de ter fé.

— Ah! Don’Antônia, às vezes eu desanimo. Não vou mentir. Nem sei mais o que…

— Passa as latas.

Luciana passou algumas latas de milho e extrato de tomate para a mulher, que, do alto da escada, foi incisiva.

— Mas precisa ser um rapaz da igreja. Nada de homem do mundo. Esses não dão futuro pra mulher nenhuma. O primo de Nalva?

— Quer nada comigo, não.

— O macarrão, não. Deixa aí fora. Vou fazer uma sopa pra de noite… levar pra Dona Almira.  A filha está de plantão hoje.

— Domingo? Vida de enfermeira é pesada.

— Ela não chega a ser enfermeira. É técnica. Limpa os pacientes. Ganha pouco. É outra que devia ter casado logo. A mãe viúva, doente…. se eu não ajudo, nem sei. Tem de ter caridade, minha filha… e casar bem.

— A senhora casou cedo.

— Casei. Barreto me viu no culto e falou com meu pai. Era bonito, bem vestido. A oficina era pequena, mas tinha jeito de crescer. Já tinha o dobro do tamanho quando a gente casou.

— Que bênção.

— Você sabe em que o primo da Nalva trabalha?

Luciana fez um gesto de negativa enquanto entregava o pacote de macarrão. Dona Antônia recebeu o pacote com impaciência. A menina não percebeu o olhar e continuou passado pacotes e latas.

— Luciana, você precisa prestar mais atenção. Tem de se interessar pelas pessoas, saber o que fazem, onde trabalham. Você não conversa com ninguém depois do culto. Como é que alguém vai se interessar por você?

— Fico com vergonha.

— Ter vergonha é bom… ser recatada. É uma boa qualidade numa moça, mas converse, seja mais alegre.

— Vou me esforçar.

— Bem. Aqui já acabou.

Dona Antônia desceu a escada com o pacote de macarrão na mão. Colocou na mesa e recolheu a escada para levar para o quintal.

— Vamos tomar um cafezinho agora.

— Eu preparo.

— Obrigado, minha filha. Sem barulho. Não acorda Barreto.

No quintal, colocou a escada encostada no muro e subiu a outra escada, a de concreto, para a laje. Dois lances. A casa tinha dois pavimentos e, no alto, uma área coberta onde ela estendia a roupa lavada e o marido fazia churrascos. De lá de cima podia ver todo o bairro com suas casas baixas. A torre da Igreja dos Mares aparecia de costas. Não dava pra ver a Igreja do Bonfim dali. A ostentação dos católicos, dizia o Pastor. “E destruirei do meio de ti as tuas imagens de escultura e as tuas estátuas”. Pegou as roupas na corda e desceu, desta vez, por dentro da casa. Passou pelo andar dos quartos e ouviu o ronco do marido. A porta do quarto estava aberta. Encostou um pouco, sem fechar totalmente. Fazia calor. Desceu com as roupas para a sala de estar.

— A água está esquentando.

— Obrigado. Vou dobrar essas roupas, mas não vou passar hoje, não. Fiz muito pra um domingo. Amanhã eu passo com calma.

— A senhora é tão jeitosa.

— Gosto de minha casa arrumada.

— Quero a minha assim quando casar. Aqui no bairro não tem casa mais bem cuidada.

— Você vai ter sua casa. É direita. Deus recompensa.

Luciana olhava pela janela. Apenas três crianças brincavam perto.

— Aqui é bem calmo. Lá na rua tem pagode o final de semana todo.

— Fui abençoada. A vizinhança é boa.

— E essa moça aí do lado, como é mesmo o nome dela?

Dona Antônia dobrava uma camisa do marido. Um dobrar que deveria ser displicente — ainda ia engomar —, mas começou a acertar o vinco do colarinho com a mão. Forçava o lugar da dobra com a unha.

— Deixa a vida dos outros, menina. Essa é uma ovelha perdida.

— Dizem que ela tem um monte de homem. Será?

— Eu não fico me metendo na vida dos outros, não. É policial. Anda com homens por causa disso.

— Será que já atirou em alguém?

— Mulher policial… É coisa que não concordo. Profissão de homem. Mora aí sozinha. Que futuro pode ter? Trato bem, não tenho preconceito, mas não acho que seja boa amizade.

— Mas é importante a mulher ter uma profissão, Don’Antônia. Acho a farda bonita.

Dona Antônia suspirou fundo.

— Você fica aí pensando besteira… vai acabar solteirona.

— Mas tem mulher policial casada. Tudo direitinho… Don’Antônia, espia. É ela? Esse é o namorado?  Um rapaz bem apessoado… parece direito. Vão passear.

— “Não tenha teu coração inveja dos pecadores; antes sê no temor do senhor todo o dia”.

— Oxe, Don’Antônia. Né isso não. Acho bonito passear domingo de tarde, um sorvete na Ribeira. Eles passeiam sempre?

— Deixe de ser fofoqueira. Vai ver a água do café. Anda.

Luciana sumiu para a cozinha. Dona Antônia ficou olhando para a janela. Do sofá via apenas o céu. A tarde começava a cair. Demorou-se um tempo e foi até a janela. Não chegou a olhar para fora. Apenas murmurou enquanto fechava a janela: “porque da janela da minha casa, olhando eu por minhas frestas”. Voltou às roupas. De lá de dentro, Luciana perguntou se tinha falado alguma coisa. Ela respondeu que estava relembrando uma passagem da Bíblia: “E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro com enfeites de prostituta, e astúcia de coração.” Ela recitava provérbios 7.

— Que passagem?

Luciana voltava com o café em uma bandeja.

— Aquele salmo que eu estava lhe dizendo.

— O 92.

— Muito bem. Vejo que está estudando. “Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus.” Lembre bem disso, Luciana. Só assim você encontra a graça. Fora da palavra só existe danação.

A moça concordou de cabeça baixa.

— Pega uns biscoitos?

A moça saiu da sala e Dona Antônia voltou à janela. Decidiu que não valia a pena passar calor e a abriu novamente. Luciana voltou com biscoitos salgados.

— Pega aqueles amanteigados. São mais gostosos. Tem uns chocolates no armário. Pega também.

— Mesmo?

— Só um pouquinho não é gula. Vai. Vou guardar a roupa no quarto.

Dona Antônia pegou as roupas e subiu as escadas. Mal chegou ao andar, já podia ouvir o ronco do marido. Abriu a porta devagar. O homem dormia de lado. Estava sem camisa. A barriga grande e peluda avançava para o lado em que ela dormia. Sobrava pouco espaço, caso ela quisesse deitar. As coisas se acomodam, respondeu para uma pessoa imaginária que lhe perguntava como ela fazia para dormir. Deixou a roupa sobre uma cômoda e foi para a janela. Abriu uma fresta e avançou o olhar para a casa vizinha. De sua janela, no alto, podia ver a janela do quarto da vizinha. Dali podia ver parte de uma televisão. Às vezes vinha ver o que a mulher gostava de assistir. Achava que policiais viam filmes policiais, mas não era verdade. A mulher via os mesmos programas de todo mundo. Nada demais. Podia ver, também, um pedaço da cama. O lado vazio. A mulher costumava dormir do outro lado.  Aquele vazio era sempre ocupado por homens. Não eram tantos como diziam as fofocas. A mulher de fato já tinha tido muitos namorados, mas com esse estava já há algum tempo. A cama estava vazia naquele instante, mas Dona Antônia tinha bem viva a memória da noite anterior. Tinha visto os dois se amando. Ficou com vergonha de ver a nudez tão franca daquele homem, a maneira como se curvava para amá-la, lento, carinhoso. Quase uma devoção. Fechou a janela pra não ver, mas não conseguiu fechar tudo. Uma fresta. Por ali entrou a imagem da mulher, o rosto de contentamento durante o gozo — “o meu amado pôs a sua mão pela fresta da porta, e as minhas entranhas estremeceram por amor dele”. Depois do gozo, vieram as risadas frouxas. A felicidade. Fechou a janela, fechou os olhos. A cama vazia ainda rescendia a amor naquela tarde de domingo. Olhou para a própria cama. O marido ocupava quase tudo. Não havia lugar para mais nada.

Desceu para a sala. A mesa para o café estava posta. Louvou a arrumação que a moça tinha feito.

— Uma casa arrumada é convite para o amor, Luciana. Parabéns.

A moça corou. Não se decidia entre a vergonha e o orgulho enquanto servia os cafés, os biscoitos e o chocolate.

— Depois do café, vamos fazer a sopa. Vou lhe ensinar uma receita muito boa.

Dona Antônia, antes mesmo de tomar um gole de café, numa ânsia disfarçada, enfiou um pedaço de chocolate na boca.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Tem sete livros publicados, entre os quais “A eternidade da maçã” (Contos, Ed. 7Letras, 2016), vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; “Arquivos de um corpo em viagem” (Poesia, Editora Mondrongo, 2015)  e “Cada dia sobre a terra” (Contos, Editora Caramurê, 2010). Seu oitavo livro, “Café molotov” (Contos, Ed. 7Letras, 2018) será lançado em agosto/2018.

 

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126ª Leva - 04/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

EU ME APRESENTO

 

Por Jorge Elias Neto

 

 

 

Há que se entender ou não o ornitorrinco do pau oco?

Eu, por exemplo, vivo em busca de algum autoentendimento.  Só recentemente, relendo uma definição do Breviário da decomposição, de Emil Cioran, é que me descobri um pessimista entusiasmado.

Mas, antes de uma definição psicológica, quem ler esta coletânea de meus três primeiros livros já publicados, em que incluí poemas inéditos, terá primeiro uma impressão de estranhamento e de curiosidade: o porquê de meu nome.

Entendo.

Embora ainda prefira que o leitor procure ler o poema que leva meu nome – sempre considerei a obra mais relevante do que o autor –, sinto-me impelido a prosear um pouco, talvez deixar algum rastro sobre quem somos nós, os ornitorrincos do pau oco.

É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.

Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.

E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

E é aí que me insiro e busco me justificar.

Quem sou? Algo indecifrável, como meu coirmão, objeto de estranhamento? Mamífero, ave?  Ovíparo, vivíparo? Tudo! Menos útil e justificável, embora ele ainda desperte alguma curiosidade científica. O que não parece ser bem o meu caso…

O ornitorrinco do pau oco destoa, e pode, muito em breve, perder de vez muito do lastro dos tempos, desgarrar-se do verde, de sua essência “Terra”. Impregnar-se definitivamente do urbano, perder-se no cinza e embriagar-se com seu-eu-deus-pessoal-bonito no selfie (sou eu lindo na foto, i.e.).

Dito algo sobre o ornitorrinco, há de se falar do “pau oco”.

Essa expressão “roubei” das esculturas que me encantaram na infância, em minhas visitas aos museus de Ouro Preto e Mariana.

Todos sabemos das histórias de ouro e diamantes dentro de esculturas de santos entalhados em madeira em contrabando que ocorria nas Minas Gerais, nos idos dos séculos XVI-XVIII. Nas costas da imagem (ou em seus pés), de forma camuflada, uma pequena abertura permitia a ocultação do metal nobre e das pedras preciosas que movimentavam o Velho Mundo.

É aí que eu me insiro.

Vivemos um momento neoantropofágico na poesia.  Pelo menos vejo isso como uma das tendências em muitos dos poetas atuais. Na miríade de cores, na heterogeneidade da produção atual, vê-se um esfacelamento do corpo, do que resta do corpo, já que a alma já foi esmigalhada.

O final do século XIX trouxe a proposição da morte de Deus, trouxe o materialismo dialético. O homem oitocentista adentrou-se no novo século deslumbrado com a tecnologia e o conhecimento evolucionista. Tivemos o leninismo-stalinismo e vimos que o homem, vestido com a ideologia, transformou a proposta da utopia nas distopias descritas por Orwell e Huxley. Viveu a insanidade nazista e, com o distanciamento histórico, pôde entender que o homem errado no lugar certo pode gerar a insanidade coletiva. Tudo trouxe a descrença, a desilusão e abriu espaço para o deus mercado, o oportunista da vez.

E onde entra o ornitorrinco e o “pau oco” nisso tudo?

Na medida em que o poeta é a “antena da sociedade” ― dito gasto, mas definitivo, de Ezra Pound ―, o poeta-ornitorrinco carrega consigo todo o estranhamento do que o circunda e, impregnado do que “não tem serventia”, por não optar pelo instante em detrimento do efêmero, corre o risco de se tornar uma curiosidade em risco de extinção.

Como pude, busquei me desconstruir, entender minha irrelevância relativa nesta vida. Enfim, vi-me um ornitorrinco.

E o que tem de especial o ornitorrinco? O olhar. E a necessidade… A necessidade de abrir o peito, com força, como tão bem ilustrou o poeta e grande artista Felipe Stefani, na ilustração que acompanha este livro.

Abrir o peito e oferecer o que mais precioso ele traz guardado em seu arcabouço de ossos e carne.

Já que o poeta é um estorvo, ele abre seu peito e joga na cara de quem quer que seja, como seu último ato de vida, rasgando sua última pele – a palavra —, mesmo que inutilmente, a “linguagem-ouro de enganar trouxa” que o alimentou enquanto vivo.

Eis aí o ornitorrinco do pau oco, queiram ou não.

 

 

O ORNITORRINCO DO PAU OCO

 

j´étais le bruit d´absence

 

Fui pelo não ido das manhãs
em voo de cera e contemplação
perseguindo desvãos no Mundo

fui ao sumidouro dos pés
descendo pirambeiras
em abissais loucuras

fui o anônimo
inacabado de véspera

fui inumano

fui testemunha
de corpo ausente
das praticâncias e despudores

fui matraca indignada
fui mendicante

fui a farpa
arrancada da espada

fui consolo adocicado
para línguas ásperas

fui perene e dilatado
fui objeto

fui pão e circo
do apocalipse

fui pudico e privado
fui rasgado
e brocha

fui tardio
sem salva-vidas

fui obsceno
cosseno e outras peripécias

fui o de dentro
sorriso do redemoinho

fui o gênesis
da comédia humana

fui o esteta do insolvível

fui o engate
o torvelinho

Fui o poeta.

 

 

 

***

 

 

 

NÃO ME CALO

 

Mordaça
se rasga com os dentes,
e, se me cortam a língua,
reinvento
a linguagem-uivo
̶ corda vocal é elástico
de boleadeira ̶
que atira longe o eco
do desatino.

 

 

 

***

 

 

 

ANACRÔNICO

 

Meu é este desperdício,
olhar que não se enquadra,
silêncio que espia na luz apagada,
o medo de não estar vazio
quando se acercar a luz do nada.

Meu é este dizer do tempo,
discurso interrompido,
lampejo, lamento,
saber inútil
o saco e a porra.

Meu não é o início,
mas o gargalo,
o rente, o arrebol sorvido,
este escuro – noite que se ressente do frio,
a fresta que observa,
o liberto, o estio,
ornamento dos dentes,
pavor, pavio.

Meu é o fim
justificando a queda,
o dedo ‒ semente das unhas,
o arvoredo brotando no interminável.

Meu é o absurdo,
o privilégio das horas,
o beijo contado,
o assobio, o assombro,
o firmamento inútil.

Meu é o desafio,
o preto e o branco
e este zelo
pelas coisas perdidas.

 

 

 

***

 

 

 

A BOCA DO INEFÁVEL

 

Cobre-te melhor
……….a seda rasgada,
contornando teu corpo,
nas fendas do meu desejo.
E esse cheiro das madrugadas
em que me masturbo
de tanta insônia.
Os momentos perdidos,
em um sonho mau,
tornam justo esse pesar
………..por amanhecer,
………..e ter que partir
nessa rotina que me afasta de ti,
obscena mulher de língua áspera,
………imensa,
………………..onde derramo
minhas noites de macho,
………………..perdido.

 

 

 

***

 

 

 

SAUDÁVEL

 

Humores, farrapos,
cachaça.
Rumores, gargalos,
cabaços.
Batuques, bagulhos,
………….. ..Carcaça.
E eu debruçado
………………no ocaso.

 

 

 

***

 

 

 

BACURAU

 

Quando acordei
o pássaro noturno
permanecia sob a vidraça.

O orvalho,
as penas mortas,
o desatino da solidão.

Fazia frio,
e meu pensamento
caminhava perdido.

Testemunhar o que é casa,
o que é morte.

Não basta a fúria
enterrar-se até à noite.
Saber rasgar as roupas,
fazer curativos
não devolve o ar roubado.

A verdade é o pássaro
e o descuido das formigas.

 

 

 

***

 

 

 

SUPERORNITORRINCO

 

Acabou o sal
― desperdiçado ―
entre os sós,

e cada entranha
buscava o sustento
e a solidão
nos escombros
― como um consolo
na estranheza.

eu, ornitorrinco,
ridículo e ébrio,
reduzido
e semelhante ao consolo
dos demais ébrios,
ressentia-me
da esperança
e claudicava de medo.

não tinha lar,
não tinha sossego,
expirava,
e o que me sustinha:
― o desterro.

uma marca guardada,
uma flor
e o desejo.

chegara o dia
em que o temor me abraçara
com as trevas
e o pavor
da extinção.

troquei olhares,
então,
com os perdidos no calabouço

e percebi o sol
que irrigava a terra
e o verde
que me brotava
entre os dedos.

 

Jorge Elias Neto (1964) é capixaba, médico “eletricista do coração” e poeta. Livros: Verdes versos (Vitória: Flor&Cultura, 2007), Rascunhos do absurdo (Vitória: Flor&Cultura, 2010), Os ossos da baleia (Vitória: Secult–ES, 2013), Glacial (São Paulo: Patuá, 2014), Breve dicionário (poético) do boxe (São Paulo: Patuá, 2015), Cabotagem (Ilhéus: Mondrongo, 2016) e Breviário dos olhos (Vitória: Edição do autor, 2017).

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Mercedes Roffé*

 

Foto: María Tudela

 

Tradução: Diana Araujo Pereira
Seleção: Clarissa Macedo

 

XI

 

O amor será para o corpo
o que a contemplação é para a alma?
Esse sossego?
Essa intuição
do todo no instante?
Esse relâmpago no qual
o real se revela
consonante com seu eco?
A suspensão fugaz
que pressente tudo,
e tudo compreende?

Será aquele hiato no fluir do tempo
o único lar e pátria verdadeira?
Lar e pátria:
Chamo assim o possuir-se,
o olhar-se e ver-se refletido
em uma água
confiável e serena.
Corpo de luz
Corpo de bem
Hiperbólica pétala remando
entre uma e outra margem.

E se não forem duas as margens?
Se tudo for um?
Se não forem dois nem um
senão um glissando de espelhos
em direção e a partir da luz —ou do lodo?
Cada estação com seu afanoso demiurgo
mais confuso que cruel
ofuscado, mergulhado
no excesso
de um reino que ignora e que o ignora.

Regente, príncipe e menino —tudo ao mesmo tempo,
tudo a destempo.

E se não fosse tudo mais
que uma viagem
pelas idades congeladas desse príncipe
em direção à luz —ou ao lodo?

 

 

XI

 

¿El amor será al cuerpo
lo que la contemplación al alma?
¿Ese sosiego?
¿Esa intuición
del todo en el instante?
¿Ese relámpago en el que
lo real se revela
acorde con su eco?
¿La suspensión fugaz
que presiente todo,
y todo lo comprehende?

¿Será aquel hiato en el fluir del tiempo
el único hogar y patria verdadera?
Hogar y patria:
Llamo así al poseerse,
al mirarse y verse reflejado
en un agua
confiable y serena.
Cuerpo de luz
Cuerpo de bien
Hiperbólico pétalo bogando
entre una y otra ribera.

¿Y si no son dos las riberas?
¿Si todo es uno?
¿Si no son dos ni uno
sino un glisando de espejos
hacia y desde la luz —o el fango?
Cada estación con su afanoso demiurgo
más confundido que cruel
obnubilado, hundido
en el exceso
de un reino que ignora y que lo ignora.

Regente, príncipe y niño —todo a un tiempo,
todo a destiempo.

¿Y si no fuera todo más
que un viaje
por las edades congeladas de ese príncipe
hacia la luz —o el fango?

 

 

 

***

 

 

 

XV

 

O poema é o rosto no espelho
mais verdadeiro que o rosto e que o espelho.
O poema é o fluxo do sangue
para além do corpo,
o ritmo do sangue para além do sangue
—seus leitos rigorosos, seu latejar surdo e unitário.

O poema é o ritmo do outro em mim
para além de mim, sempre, além,
onde meu silêncio topa com teu ritmo
e repercute em mim, que solfejo no poema
um ritmo numinoso,
cifra que faz eco no eco
que é corpo verdadeiro
—o numinoso em ti e em mim—
o ciclo das esferas tocando-se e abandonando-se
—distanciando-se, sim, uma da outra,
mas soltando-se de si também
cada qual
em sua dourada, fecunda negligência.

Em seu ritmo me desdobro.
Em seu metrônomo
caprichoso e fugaz
desdobra o universo suas fantasmagorias
—sua verdade.

Não há tradução possível.
—ou sim, há:
de si próprio a si mesmo,
de si a aquele que tateia e vence
do que sabe de si
—seu pobre império.

O poema, digo,
digo a música, digo o movimento
da dança no corpo, o da pedra esculpida…
E a música no traço e na pedra, digo,
e o movimento sinuoso e firme do poema,
douta cadência, felicíssima queda no cruzamento
de todos os sentidos.

 

 

XV

 

El poema es el rostro en el espejo
más verdadero que el rostro y que el espejo.
El poema es el flujo de la sangre
más allá del cuerpo,
el ritmo de la sangre más allá de la sangre
—sus cauces rigurosos, su latido sordo y unitario.

El poema es el ritmo de lo otro en mí
más allá de mí, siempre, más allá,
donde mi silencio se topa con tu ritmo
y repercute en mí, que solfeo en el poema
un ritmo numinoso,
cifra que hace eco en el eco
que es cuerpo verdadero
—lo numinoso en ti y en mí—
el ciclo de las esferas tocándose y abandonándose
—alejándose, sí, una de la otra,
pero desasiéndose de sí también
cada cual
en su dorada, fecunda negligencia.

En su ritmo me despliego.
En su metrónomo
caprichoso y fugaz
despliega el universo sus fantasmagorías
—su verdad.

No hay traducción posible.
—o sí la hay:
de lo uno a sí mismo,
de lo uno a aquello que tantea y vence
de lo que sabe de sí
—su pobre imperio.

El poema, digo,
digo la música, digo el movimiento
de la danza en el cuerpo, el de la piedra esculpida…
Y la música en el trazo y en la piedra, digo,
y el movimiento sinuoso y firme del poema,
docta cadencia, felicísima caída en el cruce
de todos los sentidos.

 

 

 

***

 

 

 

XX

 

Queda não houve.
O alto está aqui. É aqui.
Dentro.

Queda não houve.
Distrações há. Ventos. Fugas.
Maquinárias. Grandes, grandes.
Jogos de sombra, preocupação e olvido. De si.
Sempre houve.

Cada época. Cada
civilização
retratada em sua própria engrenagem
de humilhações e esquecimento. De si.
Roubar o fogo não é roubar nem é fogo.
Recordar é remontar-se, preservar para si o acesso
ao resplandor custodiado por
—não seus guardiães, mas seus inimigos.
Vertedouro de sombra e sangue.
Quanto maior pobreza, mais esquecimento.
Quanto mais prepotência, menos luz.

Em si e fora de si
—tudo é um—
única morada de pura geometria
e luz regendo
mansa, inexoravelmente, generosa-
mente banhando
tudo de si.

Luz estético-ética.
Esquecida de si —entregue.
Fórmula-Mãe.

E ainda há Algo. Algo, fora
que não se pensa.

Outro tom. Outra
modulação da luz.

Lá na origem.

 

 

XX

 

Caída no hubo.
Lo alto está aquí. Es aquí.
Adentro.

Caída no hubo.
Distracciones hay. Vientos. Fugas.
Maquinarias. Grandes, grandes.
Juegos de sombra, preocupación y olvido. De sí.
Siempre los hubo..

Cada época. Cada
civilización
retratada en su propio engranaje
de humillaciones y olvido. De sí.
Robar el fuego no es robar ni es fuego.
Recordar es remontarse, preservar para sí el acceso
al resplandor custodiado por
—no sus guardianes, sino sus enemigos.
Vertedero de sombra y sangre.
Cuanto mayor pobreza, más olvido.
Cuanta más prepotencia, menos luz.

En sí y fuera de sí
—todo es uno—
sola morada de pura geometría
y luz rigiendo
mansa, inexorablemente, generosa-
mente bañando
todo de sí.

Luz estético-ética.
Olvidada de sí —entregada.
Fórmula-Madre.

Y aún hay Algo. Algo, fuera
que no se piensa.

Otro tono. Otra
modulación de la luz.

Allá en origen.

 

 

 

***

 

 

 

XVII

 

Além dos ventos
rumorosos

além da aurora

transitam
dispersos
retalhos de uma história

—centelhas
resplendores—

arrancada do vazio
(a sua voz
a sua mudez)

enlaça-os
uma mão mestra

ou a história
em si
impõe seu ostinato

 

*

 

De um modo ou de outro

depois da alvorada
ou
dos rumores do vento
amanhece
—diáfano
leve
pertinaz—
um sujeito e seu verbo

 

 

XVII

 

Más allá de los vientos
rumorosos

más allá de la aurora

transitan
dispersos
jirones de una historia

—destellos
resplandores—

arrancada al vacío
(a su voz
a su mudez)

los hila
una mano maestra

o la historia
en sí
impone su ostinato

 

*

 

De un modo u otro

tras el alba
o
los rumores del viento
amanece
—diáfano
leve
pertinaz—
un sujeto y su verbo

 

 

 

***

 

 

 

XVIII

 

vasilhas do nada
somos
—disse—
derramando-se
no escuro

bexigas do nada
derramando
—disse—
urinas, óxidos, rubis

centelhas
—disse—
que na sua queda
(nossa)
encontram
sua hybris
sua obsessão

anil dignificado
somos
—disse—
pelo alado
voo da alma
entre ser e não ser

 

 

XVIII

 

vasijas de la nada
somos
—dijo—
derramándose
en lo oscuro

vejigas de la nada
derramando
—dijo—
orines, óxidos, rubíes

centellas
—dijo—
que en su caída
(nuestra)
encuentran
su hybris
su obsesión

añil dignificado
somos
—dijo—
por el alado
vuelo del alma
entre ser y no ser

 

 

 

***

 

 

 

XIX

 

um fim, uma forma, uma queda
uma espera obediente
uma ferida
a brancura bordada sobre o branco
e a matéria muda
atrapada e derramada
suspensa
na tela
áspera
vibrante opacidade que circunda, cega,
a história cega que ampara
o território
e os nomes enterrados
flamejantes ainda
como archote
projetando sua sombra sobre este
tórpido feroz
certeiro
irrenunciável
aqui e agora

 

 

XIX

 

un fin, una forma, una caída
una espera obsecuente
una herida
la blancura bordada sobre el blanco
y la materia muda
asida y derramada
suspendida
en el lienzo
áspero
vibrante opacidad que ciñe, ciega,
la historia ciega que cobija
el territorio
y los nombres enterrados
llameantes aún
como candelas
proyectando su sombra sobre este
tórpido feroz
certero
irrenunciable
aquí y ahora

 

* Poemas dos livros Las linternas flotantes e Vislumbres (Madrid/México, Vaso Roto, 2014)

 

Mercedes Roffé é uma das vozes mais reconhecidas da poesia latino-americana atual. Alguns de seus livros foram traduzidos e publicados na Itália, Quebec, Romênia, Inglaterra, França e Estados Unidos. Desde 1988, dirige o selo Edições Pen Press. Obteve as bolsas artísticas John Simon Guggenheim (2001) e Civitella Ranieri (2012).

 

Diana Araujo Pereira é Professora de Literatura Latino-Americana da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Doutora em Literaturas Hispânicas (UFRJ). É tradutora e poeta. Foi Presidenta da Associação Brasileira de Hispanistas (2014-2016), Coordenadora do Instituto Mercosul de Estudos Avançados – IMEA-UNILA e Coordenadora do Curso Letras, Artes e Mediação Cultural do Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História (ILAACH-UNILA). É líder do grupo de pesquisa " Construções socioculturais da Tríplice Fronteira". Entre suas publicações, estão Horizontes Partidos (NY: Artepoética Press, 2016) e La piel de los caminos y otros poemas (Bogotá: Biblioteca Libanense de Cultura, 2017).

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Zuca Sardan e Floriano Martins

 

Foto: María Tudela

 

 COPA & FLERTE COM O SURREALISMO​​

 

Anos depois de haverem participado da última viagem do Trem Carthago, Olegário Trombeta e Anarquista Raspok se encontraram na Padaria Progresso para uma aguinha Xambuquira, gelo e raspa de tangerina. Ao fundo, a TV Pegada Atômica transmite o jogo Brasil x Bélgica:

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Enquanto vemos os jogos da Copa, releio a poesia de nosso cubista  tropical Vicente do Rego Monteiro,  tão injustamente esquecido como quase tudo em nosso país…

 

ANARQUISTA RASPOK | Naqueles tempos, se você saísse de terno sem gravata, ou saísse da igreja no meio do sermão… era linchado. Meu pai ia de terno e gravata para o cinema.  Tarsila se torna assim a miss paraquedista da época.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Realmente surrealista entre os modernistas, além de Murilo Mendes, é o Raul Bopp. Acho que poderíamos incluir no Surrealismo, ao lado do Jorge de Lima, o Nelson Rodrigues e o… Barão de Itararé.

 

ANARQUISTA RASPOK | O sonho do Oswald Lelé era ser a encarnação do Bispo Sardinha. O mais perto que chegou foi exatamente a mordida na canela que lhe deu Tarsila. Bopp tem um bom livrinho em que narra o caos fumegante dos bastidores da Antropofagia. Todos comiam as canelas de todos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | A entrada de Tarsila pela janela deve-se provavelmente à sua fase antropofágica, quando mordeu a perna do Oswald. A questão é saber se… ele gostou.

 

ANARQUISTA RASPOK | Então agora, da antropofagia, só sobram,  de autênticos, os índios Caetés… Depois do churrasco do Bispo, os Caetés passaram a falar latim. Mas este fato foi oculto pelas autoridades coloniais por ordem expressa do Palácio das  Necessidades. Foi um golpe cruel  na nossa nascente linguística.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Ficamos entre o tupi e o latim. Latimos enxotando a latinidade.  Com o tempo o latim virou pó.  Dissemos adiós a nosotros.

 

ANARQUISTA RASPOK | O Latim é um cachorro teimoso… Não nos deixa assim tão fácil.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | O latim não nos deixa nunca. Nós é que nos abandonamos. Moramos em casas suspensas  sem quintal e não nos reconhecemos nos vizinhos. Nem temos com quem falar.  O tempo foge de nós.

 

ANARQUISTA RASPOK | Tenho plano maquiavélico… Vou comprar um papagaio, batizá-lo de Plotino… e deixá-lo de estágio num convento jesuíta com  severas instruções de que só falem latim com o plumoso… Depois de dez anos de estágio, eu o trago pro meu gabinete.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Prof. Plotino Currupaco pode ministrar cursos de latim relâmpago e, tendo ele formação jesuística, pode reformular a etimologia indígena herdada de nossos ancestrais antes da Grande Gripe que varreu da terra.

 

ANARQUISTA RASPOK | Após a Grande Gripe, quando a população já estava completamente dizimada, inventaram o Xarope Pylathos contra tosse, gripe e bronquite.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Então já era tarde e a única invenção que vingou foi a metáfora de circunstâncias que propiciou a irradiação das colônias liliputianas.

 

ANARQUISTA RASPOK |… e um bom discurso do Rei elogiando  o patriótico sacrifício da população.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Contudo, a população já se encontrava surda e o Rei, temendo que espiões registrassem as entrelinhas de seu discurso, o fez com a mão cobrindo os lábios.

 

ANARQUISTA RASPOK | A moda do Rei de tapar a boca pra falar pegou na tevê. Até os jogadores de futebol, durante e até depois do jogo, tapam a boca pra conversar.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Pura presunção, de ambos, de acharem que suas falas despertem algum interesse. O Rei no gramado sintético e o goleador em sua torre de acrílico, alheio a tudo.

 

ANARQUISTA RASPOK | O Rei encomendou uma roupa no alfaiate mago pra ficar invisível. Mas só a roupa ficou invisível. E o Rei… ficou nu.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | O jogador encomendou uma torcida para gritar cada vez que ele fizesse gol, mas, como o gol não saiu, a torcida resolveu gritar mesmo assim…

 

ANARQUISTA RASPOK | O craque porém pegou o grilo, jogou-o contra a parede e ploffftttttt!!! sentou-lhe o martelo. O Rei, por sua vez real, escolado político, ainda se demora entre variadas soluções.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Ora, há um momento em que ambos se igualam, quando rei e goleador coçam atrás da orelha e descobrem que ali mora um grilo surdo e sábio, que em morse bem pausado aos dois transmite o irremediável carteado da solidão.

 

ANARQUISTA RASPOK | Tamanha distância entre as duas reações propiciou o surgimento de uma geração a mais de grilos sábios que, a cada nascimento, punha na estreita mente do rei e do goleador uma culpa sorrateira por serem tão iguais e ao mesmo tempo tão distantes entre si.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | As respostas se multiplicam sem eliminar as perguntas. Viva a pilha do gato.

 

ANARQUISTA RASPOK | Pilha dos sete gatos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Há uma caixinha especial com metade de meia dúzia, que acompanha um jogo de felpudas almofadas. Uma afoita gatinha ronrona na foto da capa.

 

ANARQUISTA RASPOK | Petekas saidinhas fazem piruetas enquanto os editores cruzam palavras no tabuleiro da Baiana Leocádia…

 

OLEGÁRIO TROMBETA | revista Guapo Azteka… não deixa cair a peteka.

 

ANARQUISTA RASPOK | Os editores em geral não querem correr riscos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Editores correm de riscos. E fazem uma risca limitando suas ações… Creio que há uma escola onde aprendem a arte do capitalismo sem risco.

 

ANARQUISTA RASPOK | certamente num armazém portuga…

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Lá bem no fundo do armazém, por trás de uns caixotes velhos da melhor Cubunquira.

 

ANARQUISTA RASPOK | Lendo no Jornal dos Sports as mazelas do Vasco.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | GOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

 

Zuca Sardan (1933) e Floriano Martins (1957) são dois destemidos profetas na luta contra os crimes graves da realidade. Brasileiros ambos, o primeiro mora em Hamburgo, Alemanha. O outro, na borda náutica do Nordeste do Brasil, precisamente em Fracaleza Drinks. Jamais se encontraram pessoalmente, embora tenham se conhecido no Congresso Mundial Imaginário da Patafísica. Juntos já escreveram quatro peças de teatro a quatro mãos, além de inúmeras pequenas cenas faiscantes, como esta que agora publicamos. Contatos, de preferência os imediatos de quinto grau.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

MICROARQUITETURAS – RAFAEL MACEDO & PULANDO O VITRÔ

 

 

“Vou repetir quando for necessário / deixo as vanguardas pra todos vocês” é uma das frases poéticas e provocativas que permeiam o disco “microarquiteturas”, dos mineiros Rafael Macedo e Pulando o Vitrô, lançado no último mês de junho pela gravadora Roncinante, do poeta e músico carioca Sylvio Fraga.  O verso que abre a faixa Moeda é revelador em muitos sentidos e sintetiza um pouco do que parece ser esse disco no contexto da música atual: ao mesmo tempo em que não dá a mínima para qualquer tipo de receita mercadológica ou fórmula popular, também não busca o hermetismo acadêmico. Promove um trânsito entre linguagens e sonoridades, ritmos e tradições, respeitando apenas a criação, a invenção e uma questão muito própria.

“microarquiteturas” é um disco que começou a ser gestado há mais de dez anos. Teve como matéria prima principalmente as harmonias e melodias criadas no violão e nas letras, sobre as quais Rafael Macedo trabalhou e acrescentou os demais instrumentos e as vozes. Seus principais parceiros no disco são Bernardo Caldeira e Rafael Pimenta.

O disco é composto de 11 faixas que têm formatos e durações bem diferentes, que vão dos 2 minutos aos 9 minutos. Suas músicas, às vezes, parecem mais peças do que canções. Noutras são mais canções do que peças. As camadas de vozes, o texto poético, os recortes de noticiários e as referências explícitas a músicas conhecidas de tempos, lugares e ritmos diferentes parecem construir uma narrativa quebrada, típica dos nossos tempos. Porém, a fluidez das harmonias cria uma unidade dentro desta construção pautada por uma soma de detalhes mínimos – ou, nas palavras de Rafael, “esforços ao redor do mínimo”. Assim o músico justifica o nome do projeto: “o título tem a ver com essa coisa de ir e vir, de ouvir várias vezes a mesma coisa ir se modificando, de decidir se um prato de bateria deve ser colcheia ou semicolcheia porque o clarinete tocará um segundo depois; de decidir se o contrabaixo toca mais à esquerda ou à direita do captador para que a sonoridade ideal seja alcançada. Acredito que por ali esteja o ‘micro’. Já as ‘arquiteturas’ são o resultado, de algum modo, da soma de tudo isso, da estrutura final, onde morarão os ouvidos”.

 

Rafael Macedo & Pulando o Vitrô / Foto : Luiza Palhares

 

Um exemplo é a faixa de Lá, a única inteiramente instrumental do disco, que começou a ser composta em 1999, segundo conta Rafael. A composição que inicialmente tinha 02:40 foi finalizada com 8 minutos na versão gravada. É uma faixa que vai “de uma textura homofônica a uma exploração de texturas polifônicas e heterofônicas”. Aqui a voz não chega a pronunciar nenhuma palavra, apenas emite sons. Segundo o próprio Rafael descreve, ela é um exemplo de sua relação com a ideia de “texto” num sentido amplo: “não há qualquer nota ou qualquer ‘passagem’ instrumental criada sem o desejo de discurso, sem algum tipo de necessidade de narrativa, ainda que inspirada pelo absurdo, como Delírio. Para mim, tudo, instrumentos, vozes e letras são texto, são linguagem e querem comunicar algo em comum ou dialogal entre si, cada instância a seu modo”.

Delírios explora ainda um ponto fundamental: o silêncio. Ele permeia da percussão inicial até o final da música, que termina com uma série de respirações fundas e pausadas. As letras das demais faixas do disco vão construindo, junto com as melodias, uma espécie de micro poéticas do cotidiano em seus versos. Como em Outro retrato, em que Rafael canta cenas do dia a dia – “eu só quero ver tu me dizer / de algum lugar melhor / já cansei de ser peão / quase todo dia vou na padaria ali / tomo uma branquinha” – e no fim vem a voz feminina do disco, que é da atriz e poeta Brisa Marques, que sussurra: “Se for algo, prefiro a voz do imponderável”.

Canto Troncho começa com a narração de um noticiário que é atravessado pela música, enquanto a verborragia dos acontecimentos continua soando. Depois, a voz é cortada e a melodia segue até que o canto entre – “esse canto troncho não inventa o que você quer ser” -, e depois ele volta a ser cortado pelas notícias que correm junto da música. No fim, a voz de Brisa entra pedindo “Calma! Calma! Nosso programa acaba daqui a pouco. Ele é sempre do mesmo tamanho: é o seu desejo”.

 

Rafael Macedo & Pulando o Vitrô / Foto: Luiza Palhares

 

“Quem só come sonho morre amargo”, de Vivi, é outro verso marcante do disco. Já a faixa essa não é (assim mesmo em caixa baixa, como frisa Macedo) começa com a voz de Brisa recitando o verso “Capa: um biombo entre o mundo e o livro” e termina com “Homem: um biombo entre o som e o sentido”. Esta é uma das músicas permeadas por citações. Para o ouvido leigo, de cara identificamos Lua de São Jorge, que acaba por desembocar em Alegria, alegria. É uma trama complexa de referências, colagens e experimentalismos que se referenciam também a compositores distantes da música popular, como Messiaen. Essas referências soam como “samples orgânicos”, unindo diferentes linguagens exploradas ao longo do disco. O próprio Rafael descreve essa teia criada: “é, em resumo, a canção que não quer ser canção, sendo; e que não quer – sabendo que não pode – ser única (com colagens de clássicos da MPB e da música pop norte-americana ou de Debussy, Schönberg, uma “pontinha” de Gershwin e Wagner), sendo, de algum modo, ela própria. É um resumo da angústia e da alegria e desejo de compor e criar por aqui, no espantoso século XXI”.

Além do Pulando o Vitrô, formado por Bernardo Caldeira, Rafael Pimenta e Yuri Vellasco, o time de músicos que acompanha “microarquiteturas” é formado por Alexandre Silva (clarinetes); Francisco César (bandoneon, sax e taça); João Paulo Buchecha (trombone); João Paulo Drumond (percussão) e João Paulo Prazeres (saxofones). No disco participam ainda Alexandre Andrés (flauta); Leonora Weissmann (voz); Micael Pancrácio (guitarra flamenca) e Ricardo Passos (voz); além da voz de Brisa Marques, que participa do disco e dos shows. Brisa e Rafael têm trabalhado juntos em experimentações poéticas desde 2012, quando ele participou da Mostra Cantautores em Belo Horizonte.

No show pensado para o disco, há também a participação de Leandro César, pesquisador da linguagem da performance. O show do disco promete inserir no palco uma lógica teatral e uma apresentação mais concentrada, sem falas ou pausas, mesclando cena e som. Por enquanto, os shows estão acontecendo apenas em Belo Horizonte.

 

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

 

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Natasha Lins

 

Foto: María Tudela

 

Aprende novos truques. O ritual do
chá, o ikebana. Pratica o silêncio.
Prepara o ofurô, espalha as pétalas,
veste um quimono. Observa como
a gueixa massageia o mestre. Como
ele rende-se, relaxado, à pressão
dos dedos. É um domínio a entrega.
O guerreiro repousa, e escala o monte Fuji.
Akira nas Alturas. Arqueira das artes do tatame.

 

 

 

***

 

 

 

Jogam sobre ti uma névoa.
Dissuadem, maquiam. Mas são
como marionetes de ambições
e fetiches estranhos. Qualquer
desculpa serve a um tirano.
Porém não sabem dos porões
onde estiveste, e de como fugiste,
condessa-menina, com o íntimo
Intacto e os pés alvíssimos.

 

 

 

***

 

 

 

Para bunny rope não nasci, mas se
quiseres, suspendo-te de bom grado
num shibari. Serei tua rigger. Tenho
prática, minhas cordas são de seda.
Prazer igual nunca tiveste. Tantas
submissas no mundo, e encontras
uma dominante, não é sorte? Pois
hoje eu irei polir meu látex. Visto-me
de ringmaster e conduzo a cerimônia.

 

 

 

***

 

 

 

Fingir não perceber o corte, o talho nas costas, o mesquinho gesto. Há silêncios violentos, mais sinceros que sorrisos falsos. Há adiamentos. Há esquecimentos. Aperta o corpete para proteger-te. Endurece. A era é medieval.

 

 

 

***

 

 

 

Pois espreitava seus escritos para debochá-los, com ar de soberana.
Despudorada, sua íntima armadura camuflava uma cínica solidão.

 

Natasha Lins nasceu em Curitiba, cursou Letras, e vive há muitos anos na Europa. Trabalha com turismo. Vive entre o Algarve e a Sícilia. É inédita em livro.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Rodrigo Melo

 

Foto: María Tudela

 

UM MOEDOR DE CARNE NO LUGAR DO CORAÇÃO

Ele se escorou no muro, acendeu um cigarro e por algum tempo apenas ficou por ali, olhando para a casa como se olhasse para um velho inimigo. Passavam das duas da manhã. De tempos em tempos um carro cruzava a rua e, a alguns metros, dois mendigos discutiam por causa de uma garrafa de corote. Por algum motivo, pensou na velha estrada margeada por brejos que levava até as serras, lá onde tinha crescido, e em como ela era íngreme e cheia de pedras em algumas partes. Mesmo hoje ninguém andava muito por ali.

A casa estava cercada pelo mato e uma trepadeira cobria a janela de um dos quartos. Quem passasse certamente imaginaria que ninguém mais vivia naquele lugar. Mas ele tocou a campainha e, não demorou muito, uma luz se acendeu lá dentro. Escutou os passos sobre o piso de tábuas. O branco do olho mágico ficou negro. E a porta se entreabriu.

– O que você quer? – a mulher perguntou com a cara amassada.

– A gente precisa conversar.

– Não quero que ninguém te veja aqui, vá embora. Não temos mais nada para conversar.

– Não soube do que aconteceu?

– Não, não soube. Que história é essa?

– Deixa eu entrar. Você vai gostar de saber.

– Que merda! – ela resmungou, tirando a corrente da porta e a abrindo.

Por dentro a casa parecia ainda pior. Os quadros tortos nas paredes rachadas e com teias de aranhas, os móveis empoeirados, o chão sujo. No ar, um cheiro entorpecedor, a mistura do mofo e de algo apodrecido. Talvez fosse o corpo de alguém. Sentou-se numa das poltronas da sala e uma pequena nuvem de poeira instantaneamente subiu, como se há tempos ninguém se sentasse ali. Ela estava de pé à sua frente, com os braços cruzados. Devia ter envelhecido uns vinte anos e engordado pelo menos quinze quilos. O rosto estava cheio de vincos.

– Diz logo.

– Posso fumar antes? – ele tirou o maço de cigarros do bolso da camisa. –  Se não for um incômodo.

Ela não respondeu. Ele acendeu o cigarro e tragou forte e lentamente, soltando a fumaça em seguida.

– Você está bem – ele falou. – Quer dizer, imaginei que estivesse pior. Ainda tem aquele olhar.

– O que é que você tem para me falar?

– Ah. Pensei que já soubesse. Não lê os jornais?

– Às vezes.

– Bem, saiu hoje no jornal da cidade. Estava lá, na penúltima página.

– O quê?

– Eles encerraram o caso. Nenhuma pista nova nos últimos anos. Crime sem solução.

Ela permaneceu alguns segundos calada, olhando para ele. Então se sentou, cruzou as pernas e acomodou os seus pesados braços sobre os braços empoeirados da poltrona.

– Nossa.

– É.

– Puxa, e todos aqueles interrogatórios, detectores de mentiras e o caralho a quatro, pra nada… Em alguns dias cheguei a pensar que não aguentaria…

– Eu também cheguei a me arrepender. Quando comecei a pensar.

Ela o encarou, e o seu rosto parecia bruto e indecifrável como naquele dia.

– Deixa eu te dizer uma coisa sobre arrependimento: não existe, sobre toda essa terra, um único filho da puta que se salve, que tenha o coração limpo. A não ser as crianças, claro. As crianças herdarão o reino dos céus. Tenho certeza disso. O resto não presta, são bichos soltos numa selva. E no meio dessa selva, aquele cretino foi o pior e mais impiedoso animal que já conheci. Não tinha alma, o desgraçado. No lugar do coração, carregava um moedor de carne enferrujado… Uma hora ele ia acabar me matando.

– Mas você foi mais esperta. Tem uma mente e tanto pra coisas assim.

– Que porcaria de conversa é essa? Você também ia receber a sua parte se o seguro pagasse.

Ele sorriu e um buraco negro abriu-se em um dos caninos.

– Não tem um café? Um daqueles. Pra gente brindar.

Enquanto esperava a água ferver, ela levou as mãos às costas e tirou da cintura o revolver 32 que pegara quando a campainha tocou. Girou o tambor e ficou olhando para ele, para as balas acomodadas ali dentro. Calculou que de alguma forma o passado sempre seria uma presença hostil. Mesmo agora, com aquela notícia no jornal. Ela sabia que nunca esqueceria das coisas que precisava esquecer. Pegou a lata de café e despejou três colheres no coador, depois colocou dois dedos de conhaque em cada copo.

Ele estava reclinado sobre a poltrona. Havia cruzado as pernas e fumava outro cigarro.

– Ele está em algum lugar aqui perto, não é? – perguntou assim que ela lhe entregou a xícara.

– Que importa?

– Eu sei. Já não faz diferença. Nunca fez. Mas é que às vezes eu ficava pensando. Acho que é por isso você nunca se mudou daqui.

– Está enganado.

– Estou? Sabia que sonho com ele todas as noites?

– Sério?

– Sim. Quase sempre estou aqui, no meio da sala, mas é ele quem tem a porra da arma na mão. E aponta pra mim e diz, “você precisa me dizer em que lugar ela me enterrou!…”, e então atira. E é nessa hora que eu acordo. Às vezes a gente está lá fora, no quintal, e ele vira pra mim e pergunta, “é aqui?”, e, como eu não sei responder, ele atira.

– Que besteira isso.

– Pode ser.

Os dois ficaram em silêncio. Havia uma espécie de fio invisível cruzando a sala, o fio que ainda ligava os dois. Uma década antes, à sombra de uma paixão, eles haviam tramado e executado a morte de um homem. Mas, jovem e inseguro, ele se assustou e o corpo ficou ali, no corredor que levava aos quartos. Nunca soube o que ela fez.

– Tem mais conhaque?

Ela foi até a cozinha e trouxe a garrafa.

– E agora? – ele perguntou.

– Agora o quê?

– Que vai fazer? Pode ir embora, se quiser. É o que pretendo. Já estou de saco cheio dessa bosta de lugar.

– Acho que vou ficar por aqui. Já me acostumei. E ninguém compraria esta casa.

Ele deu um gole no conhaque e pensou em acender outro cigarro, mas sabia que não poderia ficar por muito tempo. Olhou para ela e perguntou:

– Ele está no quintal, não é?

– Você é insistente. Não sei por que quer saber.

– Curiosidade. Sabe que mergulhei tão fundo quanto você.

– Está – ela respondeu. – Perto da cerca, bem embaixo da amendoeira. Está satisfeito?

– Perto da amendoeira?

– Sim. No lugar em que ele enterrou os cachorros.

Falou aquilo e achou engraçado, tanto que quase sorriu. Pensou que não enterrara apenas a ele, mas também a si. Os dois e os cachorros. Para sempre. Mas então havia aquela notícia no jornal, ela que lhe trouxe algum alívio. Enfim tinha a certeza de que acabaria ali, dentro daquela casa, cada vez mais só. Pensava nisso e também em como tudo aconteceu, no que veio depois, naquilo em que se transformou, quando de um instante para o outro a porta da sala veio abaixo e aqueles homens entraram, todos vestidos de preto, armados. E, instantaneamente, ela teve consciência de tudo – de que nunca houvera sonho ou notícia no jornal. Puxou o 32 da cintura e apontou para ele, ainda sentado no sofá. Encheria aquele filho da puta de balas, era o que merecia. Antes que atirasse, no entanto, levou três tiros, tombou para a frente e caiu morta no chão.

Eram quase quatro e meia da manhã e cinco ou seis homens cavavam a terra ao pé da amendoeira no quintal. Depois que lhe tiraram o pequeno microfone grudado com uma fita em seu peito, ele foi liberado. Não desapareça, um dos homens disse. Ele atravessou a rua e caminhou pelo passeio até a velha caminhonete estacionada do outro lado. O céu, completamente escuro quando havia chegado, agora tinha pequenos riscos cor de rosa e azul. Tornou a pensar na estrada que levava às serras e em como eram bonitas e iluminadas aquelas noites quando era somente um moleque. Quem sabe voltasse para lá. Era um bom lugar para recomeçar, assim como para desistir. E ele poderia ficar sentado numa varanda, observando as estrelas no céu, acompanhando-as mudarem de lugar. Apenas ele, o barulho dos grilos e um cachorro qualquer.

Ligou a caminhonete, conferiu se vinha algum outro carro e saiu.

 

Rodrigo Melo escreve prosa e poesia. Tem três livros publicados. Vive em Ilhéus, no sul da Bahia. Este conto foi publicado na coletânea “O outro lado da notícia” (editora @link), organização de Daniel Lopes e Marcia Barbieri.