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127ª Leva - 05/2018 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

São tempos duros estes em que vivemos. Era de discordâncias que perpassam de forma avassaladora o espectro político do país. Diante da instabilidade instaurada pela guerra de narrativas midiáticas, é preciso que tentemos buscar algum resquício de bom senso e lucidez. A fissura que nos abala enquanto nação tem raízes bastante profundas, muitas delas fruto de um pensamento anacrônico que insiste em nos empurrar abismo adentro. Assim, nossa descrença em melhoras faz sempre aniversário. Ano a ano repetimos os modelos de enfrentamento das questões, exaltando os problemas e deixando de refletir sobre soluções efetivas. Esquecemos de confrontar ideias e, em seu lugar, privilegiamos conflitos desarrazoados e por vezes distantes de qualquer equilíbrio. Se a pauta que aborda temas como educação, segurança, economia e o social já se encontra absorvida por tensões extremas e bem distantes de um entendimento harmônico, que dirá o tocante à cultura. E quando artistas são reduzidos a uma classe de desocupados ou aproveitadores de programas de fomento público, sentimos que algo grave nos ronda. Tal classificação odiosa atribuída aos trabalhadores da cultura mais parece uma profunda ignorância sobre o papel que estes exercem efetivamente no front artístico do que qualquer outra coisa. Some-se a tal perspectiva o fato de que tentam insistentemente relegar a cultura a uma condição secundária, como se esta não fosse algo prioritário para o desenvolvimento de um país e das pessoas que dele fazem parte. Através de sua obra, um autor pode refletir sobre seu tempo, colocá-lo em discussão para que outras pessoas também exercitem seu senso crítico a respeito do que está sendo sugerido ou mostrado. Mais uma vez, toda essa formação crítica voltada para o consumo da arte não pode vir dissociada de um embasamento propiciado pela educação. Não somente criadores, mas também os destinatários de suas obras, necessitam compreender em que tipo de sociedade estão inseridos. A fruição da arte enquanto reprodutora de uma alienação político-social pode representar um território morto para a expansão do debate sobre quem realmente somos. É preciso ficarmos atentos para que o antigo costume de relativizar as coisas não assuma o controle dos rumos. Diante disso, espera-se do artista que não oculte a sua verdadeira face quando provocado a vislumbrar os sintomas do seu tempo. Num cenário em que tentam mitigar vozes através de intenções claramente autoritárias, produzir arte é  um legítimo ato de existência. Hoje, uma nova leva da Diversos Afins surge em meio ao conturbado ambiente em que vivemos. Ainda assim, resistimos em manter acesa a tão necessária chama da liberdade de expressão. E não recuaremos. Por tudo isso, tocamos a nau trazendo à lume os poemas de Sara F. Costa, Marcelo Benini, Matheus Arcaro, Julia Bac e Vítor Teves. É instigante ver a lúcida entrevista concedida pelo escritor Bruno Ribeiro a Sérgio Tavares, conversa que evoca reflexões críticas especiais sobre o fazer literário.   No caderno de teatro, Vivian Pizzinga propõe densos mergulhos no espetáculo “Aqui jaz Henry”. O poeta e performer Alex Simões adentra as searas íntimas de “Espaço Visceral”, novo livro da também poeta e performer Daniela Galdino. Nos contos de Dheyne de Souza e Silvana Guimarães, pulsam vidas à mostra. É Guilherme Preger quem nos convida a ver o filme “Benzinho”, produção brasileira que aborda delicados percursos em torno da família. Nas linhas de Daniel Russel Ribas, leituras possíveis para “Retas oblíquas”, novo livro da poeta Roberta Lahmeyer. Por aqui, há também a importância de se falar em “Um Corpo no Mundo”, disco de estreia de Luedji Luna e que revela uma consciência identitária a resistir às investidas cruéis do silenciamento. Nossa atual edição é percorrida pela exposição das ilustrações de Ana Matsusaki, artista plástica paulista. Resistiremos pela arte a qualquer ameaça que nos tire a possibilidade de pensarmos e sermos. Eis a nossa 127ª Leva!

Os Leveiros

 

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127ª Leva - 05/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa I

Dheyne de Souza

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Ana, uma promessa

 

Eu sempre quis ter uma casa. Mentira. Na verdade sempre tive pavor de geladeiras fogões sofás essas coisas pesadas que querendo ou não atrapalham a gente a mudar. Se eu pudesse, se eu pudesse mesmo, era outra. É o que tento fazer todos os dias. Do mesmo jeito que todos os dias vejo as pessoas fazendo isso. Feliciando-se. Feliciando-se é quase que como emulando-se, estuprando-se, niilando-se, só que com a boca levemente curvada não rindo mas sorrindo. Aprendi na tv. Foi mesmo. Não vejo muito tv. Mas às vezes aprendo. Já fiz arguição sobre isso.

Eu quase nunca me apresento, não é uma falta de gentileza ou um esbanjar de arrogância, só. Odeio justificativas. Mas meu nome é Ana. Como sempre, vocês já devem estar sacando. Estou na verdade pensando que história conto ou invento sobre a minha vida. Há pontos de vista demais em mim.

Quando me pego pensando, acaricio meu lábio. Na verdade esse não é um hábito meu. Nunca fiz até então. Mas vi um dia. Um apartamento de Santos. Ela olhava o mar pela pequena fresta dos prédios. As pessoas conversando bebendo fumando rindo muito ao redor. Mas ela estava sozinha, com um ar francês. Ela de fato era da França. E eu do sofá fiquei olhando. Ela tinha as curvas bem finas dos lábios. E essa paisagem era realmente um campo no outono em algum lugar da minha memória europeia de películas. O olhar cor de nórdicos levemente parado. Quero dizer que se movia lentamente como se estivesse sugando não o mar da noite, mas subindo sorrateiramente pelas curvas das janelas. Às vezes inventava obstáculos nos lábios, acariciava-os com força e depois com leveza. Raramente o sentido anti-horário. Depois de um tempo, soltava a mão das montanhas finas. Parava no ar como se segurando entre os dedos um fio de ar. Exatamente isso porque eu podia ouvir dali seu som, um vento. Ela também levantava o pescoço. Digo, o queixo. Porque era mais belo. Às vezes alguém chamava seu nome. Ela virava a cabeça de lado, abaixava até o ombro e sorria, mas estava mais sentindo o cheiro do amaciante da roupa. Mas não me lembro como se chamava. Levemente da sua voz dizendo uma coisa que até hoje tento entender por que, e me arrependo de não ter perguntado. Nunca mais vou saber. Tinha um som de leite a voz dela.

Talvez assim funcione bem. Contando desse jeito, vocês entenderam, não foi? Posso fazer um trato, prometer a verdade, ainda que o caminho seja bem mais longo e com fissuras nas pontuações.

Esses momentos são mais tensos, não gosto. Vou pensar em uma história pra contar. Depois volto. Engraçado que quando voltei fiquei pensando um bom tempo se voltava e apagava um pouco ou se não. Idiota isso, mas sincero. Se é que se dá crédito ao mas depois de vírgula, hoje em dia. Quem é que sabe correr de justificativas.

As coisas ficaram mais difíceis. Minhas histórias das histórias diminuíram com o tempoa vidaacontaalamaoremoacamaaporradacultura.

Como as pessoas conseguem escrever fumando, me pergunto.

Eu digo, na minha cabeça mesmo. Eram mais ramificadas, digamos.

Não que eu não lembre. Assim, não muito cronológica e ordenadamente. Muitos buracos. Há espaços em branco impenetráveis. Talvez nem com a psicanálise. Aprendi muito bem como cerc(e)á-los.

Hoje, especificamente, não é um dia muito bom.

Uns dias atrás alguém buzinou e não soube se era para mim. Esse tipo de não resposta que fico guardando na memória. Não exatamente nessa proporção. Tentei ilustrar. Preciso pensar em alguma coisa rápido.

Às vezes me pego pensando que, se não fosse a Bíblia, eu teria me suicidado na adolescência.

Menos, bem menos.

Meu nome é Ana. Não tenho filhos, não tenho ninguém. Quase um aforismo.

Quem sabe na próxima tentativa eu possa ser melhor.

 

 

 

***

 

 

 

Cidade quente

 

A cidade quente gemia. Madrugada de final de agosto. A Avenida Goiás. Rua de sombra, de vapor, de um galho quebrado. Outro. Mais perto. O vento, ela pensava. O vento, na verdade, ia se aposentando aos poucos nessa época do ano. As folhas ao vento, dizia bem baixo. Quebrando galhos? Poderia parar, mas a possibilidade de ouvir o som mais perto, o som mais rápido, o som mais real, não. Uma moto passou tão devagar que escondeu o grito do galho. Mas foram instantes. Ela sequer olhou. Não estou com medo, tremia. O frio da madrugada na cidade quente é uma espécie de hálito móbil. Arriscou levantar os olhos do all star preto puído para uma fachada de prédio art déco. Se fosse outra cidade, todos tirariam fotos. Mas na cidade quente a gente se acostuma a olhar sapatos, anúncios, smartphones. Ela apertou a mão no bolso da calça jeans, mas desistiu das horas. Perdeu a contagem da proximidade do som do galho. Mas ele vinha. Sem certeza, atravessou a rua. Os bancos da avenida chamavam. Foi uma das primeiras avenidas que conseguiu identificar quando se mudou. Tinha 16 anos? Foram os bancos da Avenida Goiás. Os transeuntes da Rua 4 empatando os sebos. O Eixo Anhanguera cavando o sol no asfalto. Mas agora era madrugada e o asfalto urrava mudo. Tivesse coragem, molhava a mão na fonte onde tanta gente já se banhou. Mas faltavam só quatro quarteirões para subir pro apartamento, fumar um cigarro, tomar uma tequila ouro e fotografar da janela a memória do medo do som do galho na velha Avenida Goiás. Tinha o hábito de olhar o chão, o resto que fica no chão. E na cidade quente o chão é rico de história. Já descobriu pilhas, anéis, tickets, moedas, suores, seus relicários. Por isso cometeu o deslize de diminuir demais o passo. Era o braço de uma boneca. Não se abaixou para pegar porque sabia que estava muito perto tanto quanto não sabia que. O acaso? A última lembrança poderia ter sido o braço da boneca. Mas a mão no seio na calça em todos os seus buracos acordou de gritos alguns galhos que ainda não pegaram no sono no alto dos prédios cansados. Na Avenida Goiás, que lástima, logo agora que estava a dois quarteirões de casa.

Foda-se. Era só no que ele pensava enquanto andava mais rápido. Atrás da garota de blusa de alça. Poderia correr, mas. Foda-se. Uma moto quase. O cabelo dela tremia. Era bonito isso de os braços se abraçarem como se fosse frio naquela cidade de fogo atravessando a rua. A madrugada é uma solidão sem fome. Quando o braço da noite desliza. Se Deus quiser que assim seja, ela vai diminuir o passo.

Uma garota na Avenida Goiás sendo seguida, mas isso são horas. Vou devagar. Se ela estiver sem sutiã, não posso fazer nada, as pessoas precisam aprender a viver. Ela não tem a capacidade de olhar pra mim e pedir ajuda. O cara também nem me parece uma má pessoa. Agora quem procura acha. Quer saber foda-se.

Até pensei em chamar a polícia quando vi lá embaixo na Avenida Goiás aquela moça que parecia uma boneca quebrada, devia estar com um medo enorme, se fosse eu correria. Ou eu mesma vou. Mas com a dor que estou nas pernas até eu conseguir descer não vou sequer ver o que aconteceu. Ai meu deus uma moto. Hoje em dia moto é uma coisa que não dá pra aguentar nessa cidade. Se eu estou na rua à noite, mas não tão tarde, e passa uma moto, eu já mudo meu destino, sei lá. Nunca se sabe. Antes prevenir. Ela atravessou a rua, graças a deus vai dar tudo certo. Espera. Como assim, minha filha? Agiliza. Sai daí, sai. Ai meu deus do céu, misericórdia. Carlos André, acorda, me dá o remédio, corre! Esse calor do cão.

Adolescente é estuprada e morta na Avenida Goiás na madrugada desta terça-feira. Sem testemunhas no local, polícia segue investigação. Prefeito promete reformar asfalto. Os ipês-rosas estão morrendo enquanto florescem os ipês-amarelos. Bala perdida mata motociclista no centro. A temperatura continua alta na capital.

 

Dheyne de Souza está em Goiânia-GO. Tem um livro de poemas publicado (“Pequenos Mundos Caóticos”, PUC/Kelps, 2011). Em breve, lançará o livro, também de poemas, chamado “Lâmina”s (Martelo Casa Editorial). Publica poemas, prosemas e e-books no seu blog. Tem um canal no YouTube, em parceria com Helô Sanvoy, com leitura e vocalização de poesia.

 

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127ª Leva - 05/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Matheus Arcaro

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

É insuportável
não sentir
a dor do mundo.

A incompletude
inunda a vida
de tal modo
que o pasmo
esconde o rosto
sob o silêncio do instante.

A fresta de cada frase
o hiato do amor
o vácuo do olhar
engolido a seco.

Todos os sentimentos
acumulados na curva da alma:
lama tóxica que enrijece
a dança do tempo.

 

 

 

***

 

 

 

Silêncio

 

Não fere os amantes
as frestas
entre as frases.

Na língua em repouso
o desejo se dilata
até tocar o incontestável.

A ausência das palavras
é o palco dos olhos,
dos hálitos,
dos hábitos despidos.

Peles, pelos e peitos
entrelaçados,
bêbados de presente.

Um espetáculo
em que as proposições
são espectadoras.
E aplaudem atônitas
a eloquência dos corpos.

 

 

 

***

 

 

 

Temporais

 

Há os que estão sentados na esperança,
aguardando o fim de semana,
o mês seguinte,
o ano em que os astros se alinharão.
O alívio dos dias úteis.

Na casa das máquinas ao lado,
há os acorrentados.
Mastigando as migalhas
endurecidas de Cronos.
Suspirando pela ferrugem dos ponteiros.

Há, por fim,
os que intuem o instante.
Os que dançam
sobre a mortalha da eternidade.
Há os que vivem.

 

 

 

***

 

 

 

Despedida

 

Senti o perfume da saudade nos teus olhos.
Pressenti que não passaríamos de um passado
desprovido de peso,
nos teus beijos empoeirados,
nos teus abraços em branco e preto.

No lençol,
ato consumado,
eu não era mais do que um retrato,
um fato
avesso a argumentos.

Tu sabias que eu sabia.
Mas sempre preferiste os palcos à ciência.
Eu também.
Que bem nos fez esse fingimento mútuo:
o que é o amor, senão uma farsa partilhada?

O sol subiu e afundou meus minutos:
era tempo, tinhas que ir,
fazer-te completa como uma libélula.

Saíste sem mala
sem palavra,
sem sorriso,
deixando-me aos vãos da vida.

Desde aquela noite,
Evito pensar em ti.
Talvez,
Pra não gastar as lembranças
que tenho de mim.

 

 

 

***

 

 

 

A criança é uma noite
seca
na veia da cidade.

Com o vazio
encostado na vitrine,
derrama o futuro
pelos olhos:

Quando terá,
em seu estômago,
um pedaço mísero
daquela padaria?

 

 

 

***

 

 

 

Poesia Pura

 

Não aprendi a roubar do outono uma tarde virginal.
Não encontrei a organicidade da pétala no sorriso da mucama.
Não percebi a puberdade incrustada em cada amanhecer.

Por isso não faço poesia.

Procuro por causas e efeitos
e deslembro dos defeitos,
dos hiatos
que impulsionam a criação.

Sou filho da definição,
súdito do porquê,
dependente sintomático do juízo.

– Doutor, e o tratamento?
Não há desintoxicação.
Não há antídoto.
Não há haverá.

É tarde. Tardíssimo!
A criança que me habitava
esvaiu-se no labirinto da certeza
sem saber como cobrir o verbo de cor.

Não sei fazer poesia
porque cadaverizo os sentimentos
numa página pálida.

 

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance “O lado imóvel do tempo” (Ed. Patuá, 2016) e dos livros de contos “Violeta velha” e “outras flores” (Ed. Patuá, 2014) e Amortalha (Ed. Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

 

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127ª Leva - 05/2018 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LUEDJI LUNA – UM CORPO NO MUNDO

 

 

Qual é o nosso verdadeiro lugar no mundo? Certamente somos seres capazes de refletir sobre nossa própria condição em meio a tantas demandas e atravessamentos cotidianos. O fato é que temos essa possibilidade nas mãos, mas nem sempre o fazemos de modo a compreendermos quem realmente somos no complexo jogo da vida. Quando tal conexão com a realidade é negligenciada ou perdida, estamos distantes de nós mesmos e dos laços que podemos estabelecer com nossos semelhantes, sobretudo no que toca ao entendimento das diferenças.

De algum modo, nosso corpo é um instrumento de afirmação do ser/estar no mundo. E não há como fugir disso. Podemos ser o todo orgânico que, aliando mente, alma e fenótipo, se projeta ao ambiente universal das experiências sociais proferindo mensagens que intentam demarcar o território inalienável de nossa identidade. Diante do que falamos e executamos, temos potência quando alçamos nossas ideias em meio ao vento que dispersa vozes, este senhor que carrega as mensagens de um lado a outro das relações humanas, antevendo reações ou sendo tomado pelas surpresas de quem acolhe ou até mesmo rechaça os sinais emitidos. Paira sobre nós a noção de que falamos não apenas para nós mesmos e, a todo tempo, o exercício da compreensão da alteridade se impõe como desafio permanente.

Diante da vastidão de cenários que a vida nos apresenta, pode ser que não nos encaixemos em nada que signifique reduzir a níveis rasos demais nossa inteligência e coração. Ninguém passa impune pela vida em se tratando de mostrar sua face verdadeira. No esteio da voz que clama por se apresentar desnuda, haveremos de encontrar amparo em alguém como Luedji Luna, artista que nos provoca a repensar a responsabilidade que temos diante dos caminhos que escolhemos, frente a frente com o Outro que nos apresenta o vigor da diferença, ritmo pulsante de individualidades que nem sempre se conciliam naturalmente.

Parece ser cada vez mais necessário que alguém venha a nos lembrar que existir é colocar sempre em voga o entendimento de nossa trajetória, principalmente o que desejamos profundamente para nós mesmos e para os outros. Diante disso, temos algo em mãos, o primeiro disco de uma cantora e compositora baiana cuja trajetória é deveras promissora. Um Corpo no Mundo, eis o nome de batismo que, apenas sendo pronunciado, já é capaz de sugerir uma miríade de possibilidades. E a canção homônima ao título do álbum é uma preciosidade a definir o espírito do trabalho. Fala de ancestralidade, do lugar do sujeito no mundo, da condição de quem toma posse da própria existência sob a égide de uma marcante herança cultural. O indivíduo que fala por si, constrói suas rotas, afirma seus caminhos, seu rosto, mesmo que não queiram alguns, mesmo que outros se oponham e insistam em restringir a liberdade de quem deseja transitar pela vida sendo o que se é. Um corpo sem amarras. “Je suis ici”, canta Luedji num sonoro marco presencial de quem, lutando contra as negativas e contra a invisibilidade, insiste em dizer que está aqui. “Je suis ici, ainda que não queiram não/Je suis ici, ainda que eu não queira mais”. É o ser também dizendo que quem pode até mesmo determinar o seu não lugar no mundo é ele próprio, e mais ninguém.

Ao adentrarmos pelas faixas do disco, notamos que fica extremamente difícil eleger algo que seja um destaque isolado e, portanto, superior às demais escutas. Tudo demonstra se encaixar numa proposta que concilia os imperativos da lucidez com as vivências de uma contemplação leve e capaz de escutar o coração sem denotar mais do mesmo.

 

Luedji LunaFoto : Danilo Sorrino

 

Banho de Folhas é uma dessas canções que tomamos como bastante representativa no que se refere a mostrar quais referências são caras ao álbum. A busca pelo Outro em meio à cidade que esconde rostos diversos na multidão vem luxuosamente contemplada pela força mística dos ritos africanos que purificam e protegem os caminhos da procura.  Em Asas, vigora uma presença poética do vento, daquele que aponta rotas para quem se permite. A canção funciona como uma espécie de prece para que tudo se ordene por dentro. Mesmo advindo tempestades, há possíveis renovações, acalmando sentimentos, engendrando bons presságios.

Noutra porção do disco, mais precisamente em Iodo, Luedji deixa aflorar a consciência de um corpo político que se projeta em meio às intempéries cotidianas assomadas pelo desrespeito às mulheres, marcantemente as negras, pobres e homossexuais. Nela, há o clamor e o espanto que se insurge contra o rolo compressor de uma barbárie teimosamente cotidiana e naturalizada, aquela que violentamente nega a humanidade plena do Outro. “Eu sei ser/Trovão/E nada/Me desfaz”, arremata a voz que não se subalterniza.

“Quem vai pagar a conta?/Quem vai contar os corpos?/Quem vai catar os cacos dos corações?/Quem vai apagar as recordações?”, entoa Luedji em Cabô, diante do dizimar de um povo que se materializa em estatísticas. São questionamentos que nos provocam e assombram. E o cinismo com o qual temas como a violência contra o pobre e o negro são tratados atualmente aparece travestido no perene e tão danoso costume de relativização dos fatos.

Dentro Ali é uma forma sublime de falar de amor, sem incorrer nas obviedades do sentimento. Predominam nela gestos simples que reformulam a rotina da vida, equilibrando fardos e depositando esperanças no desejo mais sincero e puro de que uma leveza consolide sua morada em meio aos dias. Ao mesmo tempo, a vontade aqui presente é a de compartilhar a vida com o Outro com menos peso possível. Já Notícias de Salvador vem com a referência das memórias, duma ancestralidade que remonta a afetos e que impulsiona para os dias futuros. “Essa é a sina de nós todos/Janta, sobremesa, guerras e acordos de paz/ Plantar, regar, colher/Monossílabos de agouro, infernos astrais”, diz a canção conformando um espaço de ação diante das dificuldades da vida com o aconselhamento maternal que nos impele a atar os nós.

Um Corpo no Mundo é um belo começo de caminhada. Valioso por demais sob a ótica do discurso ali contido, mas também pelos elementos rítmicos e percussivos que delineiam seus arranjos. Não há melhor forma de se mostrar ao mundo do que falar de si, suas crenças, esperanças, do seu entorno e do que está além dele. Não há nada de mais verdadeiro do que mencionar que se é beleza e dor ao mesmo tempo. Lembraremos sempre de Luedji Luna a partir de agora.

 

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura. 

 

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127ª Leva - 05/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Bac

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

existe um jeito certo
de arrumar a cama:

deve
puxar bem o lençol
nos cantos
deixar o tecido firme
passar a mão
para alisar os vincos
não deixar espaço
ou ar
entre uma superfície e outra

existe um jeito certo
de arrumar a cama:

deve
ser feito com calma
circundando o estrado
logo depois de acordar
para não querer voltar
e depois de pronta
olhar com satisfação
a cama lisa
perfeita

existe um jeito certo
de desarrumar a cama:

e isso depende.

 

 

 

***

 

 

 

a primeira coisa que fiz
quando você saiu pela porta
foi colocar uma pequena toalha
com flores bordadas
– aquela que você não gosta –
na mesinha de cabeceira

troquei os lençóis
para tirar o seu cheiro
varri o chão
para que não sobrasse
nem um fio
de cabelo seu

limpei as portas
as janelas
os azulejos
podei as plantas
tudo
para não sobrar nenhum rastro
nenhuma partícula
que tenha tocado o seu corpo

 

 

 

***

 

 

 

já gastei umas sete páginas
com este poema
este poema que não vem

ontem gastei
cinco horas fazendo faxina
para uma visita
que não veio
e de você
de você eu só
esperava duas linhas
que também não vieram

 

 

 

***

 

 

 

nove e meia da manhã
são nove e meia da manhã e
já fiz o café
já lavei a louça
estendi a roupa no varal
já levei o cachorro pra passear
respondi e-mails
e perdi meu tempo nas redes sociais

são nove e meia da manhã e
terminei de ler o livro do Beckett
varri a garagem
tomei banho
e esqueci propositadamente de secar os cabelos

são nove e meia da manhã de um domingo e
já tive três crises existenciais:
a primeira quando acordei de ressaca
a segunda quando vi o meu reflexo no espelho sujo
e a terceira quando comecei a escrever esses versos

 

 

 

***

 

 

 

marcas de café
na mesa que você construiu
suja com farelos de pão
um livro marcado com lápis
na centésima página
exatamente no número 100
das 585, li ontem essas cem
as mesmas marcas de café
na mesa da cozinha
uma abelha
voava e zunia
batendo na janela fechada
insistia em querer
atravessar o vidro
hoje o corpo dela
caído e deitado
no azulejo da pia

 

 

 

***

 

 

 

[um copo americano
2 cm de cerveja]

uma mosquinha
voava ao redor do copo
assoprei para que fosse embora
mas o inseto caiu
na cerveja
com o indicador tirei
a mosquinha
que boiava no líquido
e a coloquei no guardanapo
ela limpou as patas
como se fosse humana
balançou as asas
com intensidade

 

Julia Bac é formada em História (PUC/2004) e Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/2009). Fez o CLIPE/Poesia 2017 da Casa das Rosas e estudou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (2018). Em 2013, publicou o livro “os dias” (Ed. Giostri) e em 2018 o zine “olha aí olha aí a promoção só paga 10 reais senhora é poema a partir de 10 reais” de forma independente.

 

 

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127ª Leva - 05/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 Silvana Guimarães

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Carteira de Identidade Nº 803.412

 

Alguém está cantando perto daqui. Um cachorro late. O carro freia com estardalhaço e deixa um silêncio sem eco, depois. Um galo cocorica, em despropósito. Uma criança chora, um homem tosse. Eu começo um trabalho de parto ao reverso: vou dar à escuridão um poeta. A escuridão completa, definitiva, única espécie de eternidade em que ele acredita. Nenhum anjo torto por perto. Apenas eu, a outra. E essa coleção de ruídos.

Minha mão direita segura a sua mão esquerda (tão vazia tão fria).

Lio…

Sim.

Ele não diz nada. Apenas me olha e tão brevemente seu olhar confirma: cheguei a tempo: era só eu quem faltava para a sua partida. Entrega-me, então, seu último fôlego.

 

Meu nome de batismo e registro é Lygia Fernandes, mas durante 36 anos, sempre às tardes, sempre no meu apartamento, fui a sua Lio. E nos amamos, dançamos, rimos juntos como todos os animais que se amam com fervor. Anos à sua sombra: eu nasci para ser a sua sombra. Agora mesmo, que eu o tenho morto em minhas mãos, estou à sombra de sua morte e nela permanecerei, como se morta também estivesse.

Os obituários estão prontos, amanhã vão noticiar. Em vão, jornalistas do mundo todo virão me buscar para a triste inquisição. Eu negarei tudo, nada direi a mais. Não contarei que o bardo roncava e não tinha chulé. Nem as palavras obscenas de sua preferência, recitadas ao meu ouvido, quando eu lhe pedia decifra-me, e ele me devorava.

 

Decifra-me.

O defunto amado apenas sorri:

Quer se prevalecer do meu corpo inerte?

Quero que desvende a minha poesia escassa. Quero que me responda o que eu nunca perguntei, o que nunca aprendi (agora é tarde?).

A sua poesia de banheiro, você cansou de dizer, ele sorri, de novo.

 

 

***

 

 

Lembra-se do poema de amor, abril de 1974? A dedicatória?

Eu nunca esqueço. Estava escrito: Charlie, nu em pelo.

Pronto, nada mais a declarar. Tudo o que eu quis dizer, está escrito.

Mas eu não estou falando de amor. Já nos falamos tudo do amor. Quero saber da poesia, da inspiração: é coisa do destino, é arranjo da genética? A gente já nasce com ela? Como se nasce de olhos azuis ou castanhos?

Ah, os olhos. É preciso revirá-los, mantê-los atentos, há que haver intenção no olhar, olhos de observar, de ler, de ler até o silêncio das coisas inauditas. Os olhos têm de ser mágicos, constantemente atados à imaginação. Os olhos são importante instrumento de criação…

Borges era cego.

Falo de outros olhos, que têm tato, consegue perceber? Os olhos de dentro.

Sim, os olhos profundos, de mergulhador, eu percebo.

Então…

Não acabei: e os adjetivos tontos?

Sobre isso eu cansei de dizer: entre dois deles, escolha um substantivo. E não me leve ao pé da letra, por favor. (Os seus são pequenos arremedos de metáforas abortadas, covardes).

E você me amou assim mesmo.

Assim.

Superficial (eu nunca desmaiei).

Assim.

Com todos os meus temores e insignificâncias.

Assim. Tire a roupa! Tire tudo. Fique pelada, entendeu? Mostre as estrias, a celulite, a flacidez. Mostre à poesia o que cansou de mostrar a mim. Não lhe negue nenhum pedaço de você. A musa é uma puta a quem se deve esperar e se entregar completamente despojado, sempre.

Por favor, você pode.

Não posso dizer o indizível.

Mas você exerceu o cargo de poeta como se fosse um servidor público, batendo ponto, a vida inteira, ano a ano, mês a mês, dia a dia, minuto a minuto. Explique-me: de que substância foi feita a sua imaginação? De onde arrancou esses olhos?

Que o amante manteve fechados. E calados. Repetindo em silêncio que não era um deus, que era ínfimo (além de tímido, sem graça).

Você dizia que a sua escrita era a sua terapia. Devo acreditar então que todo poeta é louco?

Deve deixar-me em paz. A paz sonhada em verso, em prosa, a paz da paz da paz: aquela que me faltou enquanto eu vivia.

 

Então me dou conta de que ele não está mais ali, somente o peito mudo.

Nunca mais, penso (aniquilada).

Nunca mais, choro (discreta).

Nunca mais, reajo (intrépida).

Antes que me tomem seu corpo arredio — seu andar curvado, de cabeça baixa, braços colados às pernas, o ar antigo de seminarista — antes que me levem a sua alma, antes que me arranquem o seu coração, insisto:

Eu quero a senha.

O poeta abre os olhos e a boca, puxa a dentadura com a língua, deixa-a pendurada nos lábios, a careta desfazendo-se num sorriso descomunal, teimoso, de goiaba vermelha e madura. Com voz pálida e murcha, anuncia — assim na morte, como na vida —, irredutível:

 

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

 

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga e escritora. Organizou e participou de algumas coletâneas, entre elas, Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.

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127ª Leva - 05/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Sobre contradições, mentiras e confissões demasiadamente humanas

 Por Vivian Pizzinga

 

“Aqui Jaz Henry” / Foto: William Aguiar

 

Aqui jaz Henry (Here Lies Henry), obra de Daniel MacIvor, com idealização, concepção e, frisando-se agora, brilhante atuação de Renato Wiemer, é espetáculo obrigatório para os que amam teatro, para os que apreciam e se emocionam com textos excelentes, para os que têm ruminações filosóficas e psicológicas incessantes e, last but not least, para os que gostam de um humor leve salpicado aqui e ali em um texto denso formado por indagações fundamentais.

A tradução de Renato Wiener faz adaptações interessantes (e bem sutis, em alguns momentos) para o contexto brasileiro, incluindo menções políticas recentes, sem partidarismo. A direção artística de Kika Freire, por outro lado, impulsiona um espetáculo que, de saída, pelo texto, já tinha tudo para ser ótimo. O cenário de Teca Fichinski merece muitas menções honrosas, porque é delicado e repleto de beleza, com velas e rosas espalhadas no chão (elementos que, eu ousaria dizer, fazem referência à morte, que está presente no título e no texto). A iluminação de Paulo Cesar Medeiros é primorosa, salientando momentos ímpares e sublinhando as escolhas de cenário. E a trilha sonora do polivalente (aqui, no bom sentido, pois a arte costuma e deve ser assim) Renato Wiemer, sem exageros, sem atropelos, com toques de genialidade inclusive na duração variável em que é executada, fecha um conjunto que não tem erros, só acertos.

Para mim, que não sou do teatro mas, enquanto não me aventuro a escrever dramaturgia, pertenço à escrita e zelo pela psicanálise (e pela democracia), além de amar cada vez mais o teatro, sempre fica um pouco difícil escrever texto sobre espetáculos por causa dos atores. Confesso agora – e depois me calo para sempre – que se trata de um sofrimento. A questão é: como escrever sobre atuação e interpretação sem magoar um ou outro, sem reforçar a clássica disputa de egos e vaidades que existe em todos nós e que, desculpem, no meio artístico (assim como no acadêmico) é uma constante? E pior: está realmente difícil encontrar espetáculos em que a atuação seja, de fato, boa. Convincente. Hoje, porém, escrevendo sobre Aqui jaz Henry, isso não será difícil: o monólogo é sensacional também por causa do arrojo da interpretação de Renato Wiemer.

 

“Aqui Jaz Henry” / Foto: William Aguiar

 

Vamos às razões em um novo parágrafo, ainda que permaneçamos no mesmo assunto: o ator sabe respeitar os tempos. Não se afoba. Não se intimida. Faz parecer fácil essa rara arte da atuação. Faz a gente acreditar que todo mundo poderia estar ali, no lugar dele, só que não, não poderia, são poucos os realmente bons. É engraçado quando tem que ser. Remexe os nós da garganta quando tem que remexer, e não os desata, porque os nós da vida e da garganta são sempre muito apertados e emaranhados. É claro que ele tem um bom texto na mão para ajudá-lo e uma excelente equipe que o auxilia, é evidente que ele tem Kika Freire na retaguarda, mas poderia colocar tudo a perder, ofuscar a genialidade do texto de Daniel MacIvor com um atuação frágil. Mas não. Ele não. Felizmente não. Ele não faz isso. Ele não não não. Mas ele, Renato Wiemer, sim. Nada disso acontece para a sorte do público e daqueles que apreciam um bom texto literário e dramatúrgico. Gostaria de ter aplaudido de pé o seu excelente trabalho, mas, na sessão a que fui, ele não aparece no fim de tudo, única dúvida que restou e permanece boiando dentro de mim: por quê?

Mas vamos ao recheio do espetáculo: sobre o que mesmo o texto fala? Tentando escolher os percursos textuais escolhidos por MacIvor e que mais me chamaram atenção, eu diria que fala sobre as contradições que habitam em cada um de nós, os chamados seres humanos, demasiadamente humanos (para lembrarmos de Nietzsche). E, nesse sentido, as mentiras (aí a hipótese é minha e, como toda hipótese, é provisória e sujeita a comprovação científica e posterior refutação ou corroboração) talvez sejam o canal privilegiado de expressão das contradições humanas, desmesuradamente humanas. E as mentiras podem ser tão convincentes que nos perdemos nelas, a não ser que, ao final, mostremos que nem tanto assim. Logo, mentiras sinceras nos interessam.

A peça, portanto, é cheia de surpresas, as mais variadas, do início ao fim. Piadas bobas que ficam engraçadas, porque a crítica é exatamente a elas. Dicotomia explícita e despudorada entre a felicidade e a verdade, e a difícil escolha que temos de fazer entre uma ou outra (mas talvez pode ser que andem juntas, e isso o Henry, filho de Henry, personagem do nosso monólogo, não nos diz, sou eu que tento ser otimista enquanto escrevo no dia das eleições). A historinha sapeca que coloca a mulher como uma mera costela de outro homem (já ouviram essa história muito louca?) e a troça que o texto faz disso, quando indaga se alguém quer ser servido de costela com batatas. Os trejeitos que insinuam a dificuldade que é a espontaneidade na vida e nos círculos sociais, porque falar em público é um desafio para a grande maioria de nós, e mais ainda se for para falar mentiras ou omitir as questões centrais da vida e de nossas biografias humanas, extremamente humanas. A tosse histérica que sempre acompanha a menção a um familiar de Henry. A interlocução com a plateia, constante e respeitosa, sem invasões violentas que nem todos suportam e que não são obrigados a suportar (respeitemos a timidez do público; cabe aos artistas a sensibilidade de compreender também que nem sempre os envergonhados são os menos tocados pelas propostas dramatúrgicas que assistimos por aí). A lista é extensa, vale conferir por si só.

 

“Aqui Jaz Henry” / Foto: William Aguiar

 

E, no final das contas, Aqui jaz Henry é também um espetáculo sobre reflexão a respeito do que fazemos com as nossas vidas, que escolhas tomamos diariamente, os desdobramentos que essas escolhas geram, a capacidade que temos de seguir adiante e voltar atrás, de lutar pela democracia ou não. É um texto que visa, também, fazer com que sejamos honestos conosco, que sejamos francos diante do espelho, sendo essa a franqueza mais difícil de arrancarmos de nós mesmos e que, às vezes, muito às vezes, com o psicanalista no divã, de costas e deitados, conseguimos expressar sussurrando, para que nem o analista sagaz nem nós próprios ouçamos o que acabamos de falar; sussurramos nossas mentiras sinceras com um timbre de voz quase inaudível porque talvez não queiramos escutar as verdades escrachadas que empurramos para debaixo do inconsciente diariamente. A psicanálise mete medo tanto quanto o teatro. E por isso são menos frequentados do que deveriam ser. Ser franco com a gente mesma significa falar de nossos equívocos. De nossas raivas. De nossa inveja. Das fantasias mentais que fazemos por causa de ciúme. De desejos de vingança que cultivamos na calada da noite e das insônias perturbadoras. Ser franco com a gente mesma significa verbalizar finalmente as inúmeras omissões perigosas e falar das alianças espúrias que visam objetos espúrios e que às vezes nós fazemos ou almejamos fazer. Parece lição de moral? Não. É lição de ética esteticamente conduzida.

Finalmente, Aqui jaz Henry é um peça, digo mais uma vez, obrigatória, sobretudo para aqueles que são tocados pela sensibilidade do texto literário, quando tem consistência e substância. Para encerrar o presente texto, menciono um dos momentos finais, em que Henry, nosso protagonista, refere-se à esperança que retira do fio da espinha dorsal, quando está no sofá vendo televisão, e Renato Wiemer, de costas para a plateia, faz uma bela descrição imagética que nos dá a convicção de que Daniel MacIvor é um escritor de mão cheia, convicção que construímos mesmo sem ter lido o original. O excerto e a dramaturgia desse momento a que me refiro neste parágrafo derradeiro são o que há de mais fantástico no espetáculo. Palmas de pé!

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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127ª Leva - 05/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vítor Teves

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

……………………………..…NÃO CORRESPONDIDOS

 

O oleiro cansado já não molda a forma. As
enrugadas mãos pousam sobre a mesa os
poros da pele do desejo. Calado espera, o
Velho sonhador, pelos tempos que lenta-
mente passam. Não mais outra tentativa!

A. A informe sensação desaparece, lenta-
M. mente, em fios de sangue. Parado, já
O. não desloca o grosso grão de areia da
R. argamassa inútil à mesa. Oca, a forma
E. não mais nasceu perfeita. Vive hoje

S. entre a espera e a imobilidade eterna.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA FEITO COM FITA-COLA E ESFEROVITE

 

À falta de rica matéria-prima, a mão
que desenha já não escava a forma
pura. O rosto e o corpo mutilados
unem-se em fita-cola e esferovite.

Reinventada a carne moribunda
com mingadas e fracas palavras,
a fealdade intensa do monstro,
abre lentamente a grande boca.

O crânio feito em metal reusado,
abrindo e fechando, propaga o som
desarticulado na planície plana.

Pousada Huma perna sobre a folha
o corpo articulado cospe farpas
pontiagudas e Bhabha a quem o vê.

 

 

 

***

 

 

 

DON’T FUCK WITH ME FELLAS!

 

THIS AIN’T MY FIST poem!
Dizia o poeta, baixinho, gordo,
com a cara irritada, vermelha,
como se fosse um peixe retirado
do mar e que respirava a custo.
Realmente, quem lhe dera ter
a boa intenção de se misturar
com os melhores dos melhores?

Aprender era o que dizia
querer, um querer sincero,
sem qualquer macua ou vil
malícia. Mas, bem sabemos,
a sinceridade pouco acrescenta
à grande e nobre literatura.

E, assim irritado, uma espécie
de Joan Crawford arrancando
a roupa dos cabides a meio da
noite e batendo na filha pequena,
era ele atirando farpas afiadas
a todos os seus colegas à mesa.

Tudo porque não conseguia
ver que por detrás da sua
pequenez existia um ego
maior que o último modelo
de balão quente, um que
dizia insistentemente:
Eu Eu Eu Eu Eu e Eu.

No fundo, todos gostavam
dos seus pequenos poemas,
cheios de ironia e síntese,
mas não suportavam aquele
seco olhar fotográfico que
registava todo e qualquer
arroto literário dos literatos.

 

 

 

***

 

 

 

O MEU NOVO NAMORADO

 

Everthing is contained
Herman Bas

 

Egon passeando pela Steplansplatz olhava a catedral
e imaginava-se na pele de uma pequena rola que, em
tardes quentes, caminhava, lentamente, como se fosse
um rato ou uma barata, no ziguezagueado do telhado.
Nada disso tem a ver com o meu novo namorado,
sentado aqui no sofá, perdido em pensamentos que
não consigo ler. É quando me debruço sobre o rosto
que me vem à retina os olhos de Egon, a sua pele
desbotada a pincel e começo a imagina-lo entre
as pombas de Steplansplatz. Aqui no sofá, vejo o
meu novo namorado, calado, de perna cruzada e
imagino-o, por momentos, ser ele o próprio Egon
aqui sentado entre a confusão do meu estúdio.
Como a um bolo, vou sobrepondo homens como
as camadas de tinta, imagens e aprendizagem,
porque para o meu caótico pincel nada tem entre
si fronteira definida. Por isso, arrasto o meu pincel
em zonas de luz e me demoro na escuridão da sala.
Pintando no silêncio o pensamento daquele que,
agora, amo, dou por mim, sem querer, a fazer do
lume da lareira a chama sobre as suas suspensas
e grandes mãos, como se alguma luz divina me
pudesse dizer em epifania: Este é o verdadeiro
Amor. Eu limito-me a pintar esta que é a minha
Vida e espero pelo eminente colapso de tudo,
dos meus olhos, do meu corpo e desta chama.

 

 

 

***

 

 

 

DO IMPULSO OU DA DELICADESA, COM S.

 

O poeta altermoderno não pode errar a palavra,
nem alterar a sintaxe da frase, abolir a vírgula.
Deve, como convém à máquina, passar por todos
os estados de formação do espírito: andar, apenas,
cronometrado com o cânone vigente, ler o bardo
A e o bardo C, ser formado em literaturas, línguas,
Química, ter licenciatura, mestrado, doutoramento,
Pós-graduação, pós-pós-graduação em vegetarismo.
Deve comer figos em vez de cenouras, dizer advér-
bios e usar sempre o Nós. Deverá amar a cidade,

apenas a cidade, e citar dez poetas estrangeiros
nos seus poemas, saber dez ou vinte rótulos de
bolachas, músicas estranhas e ter voz de trovão.

E, se isso não chegar, deverá tentar dizer o mes-
mo em todos as línguas, mas com delicadeza. Se
usar o Eu, sem que ninguém o veja, que seja um
eu colado, fictício e nunca autobiográfico. Deve,
sobretudo, escrever para satisfação do público.

Ao anticorpo só lhe resta escrever palavras com
delicadeza e, se possível, numa delicadesa mínima.

 

Vítor Teves naceu em 1983 em Ponta Delgada, Açores. É licenciado em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sendo atualmente aluno no Mestrado de Estudos Culturais e Interartes na mesma Faculdade. Publicou poemas em diferentes revistas (Trama #1,#2, Apneia #2,#3) e sítios de poesia (Bacana; Enfermaria 6; Gazeta de Poesia inédita). Reuniu os seus primeiros poemas em “Dentes Tortos”, edição de autor que comporta poemas de 2007 a 2017. Além de participar regularmente com a editora Enfermaria 6 e escrever poesia, desenha e pinta.

 

 

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127ª Leva - 05/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Sinto, logo, concreto

Por Daniel Russel Ribas

 

 

O título do livro de Roberta Lahmeyer, “Retas oblíquas”, propõe o paradoxo que permeia o conteúdo. A linha visível, tátil e paralela como um ser camuflado, de matéria intocável e formato incerto. Uma busca do sentimento dentro de um espaço gráfico. A imagem condiciona o eu-lírico em sua relação com o mundo. Ou seria o contrário, em que mundo interno moldaria sua manifestação em objeto? No lugar de uma desordenação ingênua, emerge uma brincadeira de teor romântico. Conciso e direto, porém sentimental e sincero em sua busca. Uma segunda leitura permite este jogo leve e divertido que a autora exercita.

Como lidados com o conflito eterno da alma sonhadora e do corpo pragmático? A sinceridade, reitero, torna-se chave. A autora reafirma sua expressão como real, jamais realista. Logo, em um trabalho protagonizado pelo sensorial que transforma a estética em um auxiliar, uma avaliação técnica torna-se coadjuvante. O julgamento é válido, mas de dentro para fora. A autora estabelece uma conexão intimista. A poeta suspira sua presença. A apreciação do leitor depende de sua abertura para a mesma.

O movimento concreto brasileiro caracterizou-se pela reformulação da obra em sua disposição. Remetendo a Sartre, a palavra opaca seria ver de dentro para fora, em que o conceito é o relevante. Lahmeyer engaja a liberdade sentimental em uma opção estética. A ferramenta é incisiva em teor e encarnação, entretanto este é delicado, não-bruto ou cru. Ou seja, há múltiplas maneiras de expressar, tanto em texto quanto estética, o que ela dispõe. Mas esta é a que escolheu, como uma moldura que complementa a pintura. O centro seria o mesmo, mas o enquadramento aumenta a potencialidade, ao mesmo tempo em que se apresenta próprio como discreto.

Como exemplo, transcrevo o poema de onde a autora deriva o título:

 

……….Janelas abertas
para o avesso
………da superficialidade
________________ as formas concretas
……..são retas
mas as sombras são oblíquas

 

À primeira acepção, um texto de um eu-lírico sentimental primário e transbordante em sentimento. No entanto, a forma casa com a movimentação de três palavras-chave no espaço: “janelas”, “retas” e “sombras”. Lahmeyer, assim, impõe a construção de seu interno manifestado em imagens: o retangular de “janelas”, as horizontais que formam “retas” e a inclinação projetada em “sombras”.

O que se projeta do texto é o relevante, e a autora mostra sua maneira de enxergar esse fenômeno. A influência de Drummond é nítida em seu tema do eu-lírico gauche, que busca o sentido de seu interior em um universo fechado. Mas a autora se interessa mais em moldar seus sentimentos do que retratar sua interposição entre linguagem e visão do alheio. Assim, pode-se ler como exercícios que intrigam pela opção estética do que pelo texto em si. Ao mesmo tempo, não descarta o signo. Ela o forma à sua imagem internalizada. Não se trata de vanguarda ou de uma referência a um conceito geométrico, mas um olhar para assuntos atemporais, cuja eternidade reside na nossa maneira de nos interpretar perante o universo.

 

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.

 

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127ª Leva - 05/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Bruno Ribeiro não é um autor dado a temas fáceis e convencionais. “Febre de enxofre”, sua primeira incursão no romance, é protagonizado por Yuri Quirino, um poeta desiludido com a literatura e com o amor, que recebe uma proposta bizarra de escrever a biografia de um tal Manuel di Paula, um sujeito soturno, que o arrasta para uma jornada de assombros pelas vielas de Buenos Aires. O enredo é livremente inspirado no clássico “Fausto”, do alemão Wolfgang von Goethe, sobre um homem que negocia a alma com o diabo em troca de um tipo de eternidade, mas também pode ser lido como uma investigação sobre vampirismo. Em suma, um terror vestido por um escopo mais complexo.

“Glitter”, que acaba de ser lançado, também margeia a fronteira da literatura de gênero. É um romance pop, de certo modo; ou melhor, uma antiutopia pop. Vinte modelos com sérios desvios são contratadas pelo estilista e escritor Guilherme de Boaventura para atuarem no experimento La Poésie Vivant. Uma espécie de reality show, no qual as participantes ficarão confinadas dentro de um shopping center durante um ano, encerrando o exílio com um desfile em que irão se suicidar diante de um público selecionado. É um livro crítico, provocativo, que expõe as dissimulações e os delírios que (des)governam a sociedade contemporânea.

Com o mesmo tom afiado e repleto de personalidade, o autor mineiro radicado na Paraíba responde a esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins. Ribeiro mira seu olhar sobre sua produção e o mercado do livro, observa a geração de novos escritores em que está inserido, fala sobre prêmios literários, oficinas de criação, editoras independentes e o tempo em que morou na Argentina, por conta de um período acadêmico. Uma posição que não se exime de tomar partido, sem artificialismo ou disfarce, e até certo ponto provocativa. “Assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado”, dispara.

 

Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, pode ser lido como uma revisão portenha do “Fausto”, de Goethe, no qual o diabo figura entre os personagens centrais. “Glitter”, que acaba de sair, trata de um experimento no qual vinte modelos problemáticas são confinadas num shopping, focalizando em seus desmoronamentos psicológicos que resultam em atos de violência repletos de grafismo e baldes de sangue. De maneira involuntária ou não, seus livros têm a intenção de se estabelecerem como literatura de gênero?

BRUNO RIBEIRO – A pergunta é muito pertinente, porque adoro me debruçar nos procedimentos da literatura de gênero e creio que eles atuem como um espelho distorcido no meu trabalho. Faço uma literatura de gênero que nega seus próprios mecanismos, uma espécie de anti-gênero. “Febre de Enxofre” pode ser lido como um romance de terror, mas tenho consciência de que transgrido algumas regras deste tipo de livro, assim como injeto diversas referências pouco comuns ao estilo. Já “Glitter”, tem uma chave policial em certos momentos, mas também nunca se entrega totalmente ao que podemos chamar de romance policial. E isso também ocorre em outros textos, como nos contos de “Arranhando Paredes” e nos meus inéditos. Eu abraço o gênero em toda sua complexidade no cinema, pois os projetos em que trabalhei como roteirista foram todos de policial, thriller ou terror. Na literatura, utilizo-os como uma sombra que a qualquer momento pode sumir e aparecer no texto, por isso talvez seja difícil me estabelecer como autor de gênero, pois estou sempre por perto, entretanto me esquivando da responsabilidade de ser, de fato, um autor de literatura de gênero. Neste sentido me inspiro na forma como a literatura latino-americana, especificamente a argentina, lida com essa questão; cito aqui Ricardo Piglia e Borges, que conseguiam brincar e subverter com os procedimentos do policial como ninguém.

 

DA – O escritor norte-americano Chuck Palahniuk, autor de “Clube da luta”, trafega entre vários planos temáticos – o terror, a distopia, o consumismo, a pornografia, a fábula – para acertar sempre num alvo: a sociedade de seu país. Com uma forte carga crítica, que causa do choque ao riso nervoso, qual é o verdadeiro alvo de “Glitter”?

BRUNO RIBEIRO – A escritora francesa Christine Angot disse que “escrever é sempre violar uma intimidade”. Acredito nessa frase e quando não estou violando a minha, busco violar a de outros ou até a de certas estruturas e campos, como foi o caso de “Glitter”. A indústria da moda é duramente criticada e “violada” no meu romance, mas ela é uma cortina de fumaça. O principal alvo de “Glitter” – pois existem vários – e no qual busco as entranhas é a religião e o capitalismo. Giorgio Agamben disse que “o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua”. Este conceito serviu bastante de inspiração para a construção do livro: uma religião sem fome, pura voragem, glamour e sangue. Pensar que o shopping é um sinônimo de igreja do capital, aonde a sociedade vai diariamente pagar seus dízimos e se ajoelhar perante as infindáveis lojas de departamento é assustador. Outra coisa terrível é pensar que tudo pode e é devorado pelo capitalismo, coisa que acontece numa chave distópica em “Glitter”. Pense que alucinado é ver diversas obras de arte, desde o mictório de Duchamp até os grafites, estampados em museus e sendo vendidos a preços absurdos para ricões que desejam lavar dinheiro e afagar seus egos. Impossível? Com o capitalismo isso acontece: tudo é absorvido, até aquilo que nasceu para bater de frente com ele. Em “Glitter”, a própria morte se torna tendência; a tortura de modelos, no futuro remoto que criei, vira purpurina, publicidade, padronização coletiva, novas formas de se vender roupa e encantar os olhos alheios. Por isso que a moda e todos seus melindres, profundezas e superficialidades, belezas e feiuras, sublime e profano, clássico e vanguarda, – toda a dicotomia que a envolve – representa a sociedade e a forma como o capitalismo a atinge: um treco que se molda a qualquer coisa para lucrar, da sarjeta ao luxo, da vida à morte.

 

DA – Você consegue traçar um paralelo entre a experiência de confinamento das modelos e o processo de escrita? Ou, porventura, com o mercado literário?

BRUNO RIBEIRO – Sem dúvida. Por isso o livro brinca ao colocar as modelos para escreverem poemas e especificamente isso fica mais claro no trecho em que elas estão numa livraria do shopping buscando inspiração. Todos os meus textos ficcionais lidam com o processo criativo. Tento fugir ao máximo dos clichês ao falar deste tema, que é extremamente batido, mas tanto o poeta seduzido por um demônio em “Febre de Enxofre” como as vinte modelos seduzidas pelo estilista ermitão em “Glitter” estão sendo puxadas para um inferno vasto e que pode ser lido como o demônio da criação e as diversas dificuldades que nos rodeiam enquanto artistas; no caso do meu poeta: as dificuldades para sobreviver e escrever uma biografia; no caso das minhas modelos: as dificuldades para sobreviverem e escreverem um poema. Esses personagens precisam lidar com seus problemas e principalmente em manter a sanidade na hora da criação. Ambos romances, “Febre de Enxofre” e “Glitter”, mantêm um diálogo forte com a literatura do século XIX; os românticos, os duplos, a decadência, a perda da beleza e da pureza, frustrações, o lirismo carregado na linguagem, a dor do poeta ou do criador em lidar com sua obra, vida, entorno; minha mente ao criar tramas e personagens vai de Mary Shelley e sua criatura arrebatadoramente poética e monstruosa, vindoura da mente do doutor Victor Frankenstein, à Charlotte Brontë, Goethe, Baudelaire, Rimbaud, Stevenson, Edith Wharton, Oscar Wilde, Poe, Bram Stoker, Huysmans, e por aí vai. Todos esses autores, à sua maneira e de diversas formas, lidaram com o mesmo que lido em meu projeto literário. Quanto ao mercado é possível, sim, fazer comparações entre o literário e o fashionista. O jovem escritor sofre tanto quanto o jovem modelo, a diferença é que o meio literário esconde sua escrotidão por meio da intelectualidade e das etiquetas, o mundo fashion não esconde tanto, o abuso é mais explícito e visceral. No livro, pergunto se “a morte não é a melhor metáfora da eternidade?”, e a frase se encaixa em moda e literatura. Autor morto não vende mais livros? Modelo ou estilista morto não vende mais roupa? Quando Alexander McQueen se matou, suas roupas e looks esgotaram ao redor do mundo. E isso tudo é reflexo da alucinação midiática que vivemos, o que me faz pensar que toda distopia, por mais bizarra que seja, acaba se tornando palpável. Basta ver o que vivemos ultimamente no Brasil: nada é tão absurdo que não possa se tornar realidade.

 

DA – Há poucos meses, o meio literário foi sacudido pela aparição de um prêmio internacional para livros inéditos, cujo vencedor levaria a bagatela de 200 mil euros. Passado o furor inicial, descobriu-se que era uma grande fraude, criada para sustentar uma performance artística realizada durante a última Festa Literária de Paraty – Flip. Ao investigar com agudeza os interstícios do universo da moda, você também intenciona expor um mecanismo de artificialidades que movimenta o mercado literário?

BRUNO RIBEIRO – A literatura ainda é muito conservadora e isso me inquieta bastante, pois como disse César Aira, ela é a “rainha das artes”, tudo cabe dentro dela, e mesmo assim nossa amada ainda é a mais tímida nas transgressões de forma e conteúdo. Sobre o prêmio internacional que você fala, o Babel Book Award, eu o achei bem instigante. Tenho algumas críticas? Obviamente, mas pelo menos estremeceu um meio que é movido por faíscas fracas demais, sabe? É tudo muito morno no meio literário. E quando algo pega “fogo”, sempre é de forma burlesca, tosca, sem noção, realizada por meninos birrentos e ególatras. Por isso sou fã do Kenneth Goldsmith, poeta americano que criou a Escrita Não-Criativa e causa arrepio nos arcaicos da literatura. E no Brasil, claro, sou fã do Ricardo Lísias, que escreveu a orelha de “Glitter” e é um dos escritores contemporâneos brasileiros que mais admiro, exatamente porque seu projeto literário sai da zona de conforto e não fica só na repetição. O artificial em “Glitter” pode ser comparado com o mercado literário no sentido da plasticidade deste meio: as falsidades, risadinhas, panelinhas… E assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado.

 

DA – Um dos aspectos curiosos de seu livro é que muitas de suas modelos não têm nomes comuns, sendo denominadas por atos de linguagem que misturam características físicas, adjetivos, estados emocionais e designações parentais, a exemplo de Netinha Abusada. Lembrou-me, de imediato, o romance “O Todo-ouvidos”, do búlgaro Elias Canetti, que é, de fato, um estudo de caracteres, previsto como uma forma de protesto contra a importância que o personagem assumiu, ao longo do tempo na literatura, tornando-se maior que a própria narrativa em que está inserido. No caso de “Glitter”, qual foi sua motivação ao criar esses nomes bizarros?

BRUNO RIBEIRO – Gosto muito de fábulas e a ideia partiu muito dessa referência. Fora isso, eu queria criar arquétipos da moda, por isso pensei em nomes que pudessem representar não só uma modelo, mas um nicho. A “punk” que poderia ser colocada no nicho de uma Kate Moss da vida, a “netinha” mimada, a noiva que foge do casamento e tenta a sorte no mundo da moda, a princesinha do Projac, representando as modelos que trabalham na TV, a negra que é taxada de louca, a miss universo, a polêmica, a maconheira, a suicida, a fofinha, a que morou fora, a da cidade pequena, e enfim, cada nome parte deste pressuposto de causar um estranhamento e tentar resumir um perfil estereotipado de top model.

 

DA – Ao longo do livro, além de sobreviver ao confinamento, as modelos têm de protagonizar um grande desfile final e escrever um poema. Obviamente que está aí inserido uma ironia crítica, mas a quem ela se dirige? Ao mercado que despreza a poesia? Às editoras pequenas que revelam poetas a cada semana? Ao gênero em si?

BRUNO RIBEIRO – A frase que conduz meus trabalhos literários vem do Charles Baudelaire: “seja poeta, mesmo na prosa”. No meu mestrado de Escrita Criativa, meu tutor foi um poeta, o Guillermo Saavedra, e quando ele terminou de ler “Febre de Enxofre”, disse enfaticamente que eu era um poeta escondido no corpo de romancista. Eu amo poesia e ela me influencia muito. Matar poetas e torturá-los em meus livros é uma forma de botar para fora minha frustração por não ser um poeta. Quanto à crítica, ela vem do mesmo lugar que partiu a do “Febre de Enxofre”: o excesso de poetas e a falsa glamourização em cima deles, o mercado que não sabe onde colocá-los, os bons poetas que morrem sem ser publicados, a estranheza deste gênero que parece não se encaixar em nenhum lugar. A poesia é a liberdade total, sem ressalvas, é o mais perto que temos dos procedimentos das vanguardas na literatura, e por isso sempre a levo comigo, pois a poesia é o não-lugar, e essa posição de incômodo em que ela reside, de não fazer parte nem do mercado nem daquilo que está fora dele, me interessa muito enquanto escritor. A poesia é repleta de técnicas e regras e, paradoxalmente, também é indomável e libertária, e é essa pegada dicotômica que busco na minha literatura.

 

DA – “Glitter” foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura. Anteriormente, você tinha sido revelado entre os vencedores do Prêmio Brasil em Prosa, promovido numa parceria entre o jornal O Globo e a Amazon. O que significa isso, afinal? Qual o resultado prático para a carreira de um jovem autor ganhar um prêmio? Olhando para trás, você percebe que lhe ajudou de alguma forma ou é, no fim das contas, apenas uma informação boa para constar na biografia?

BRUNO RIBEIRO – Ajuda a ganhar alguns leitores e espaços, mas acredito que pesa mais na biografia do que numa alavanca rumo ao sucesso. Assim, consegui entrada em alguns eventos, como a Flinksampa e FLIP, mas não é algo que tento levar tanto em consideração quando estou escrevendo. É bom? Sim. É essencial para mim? Não. A escritura sempre vence, pois já nasceu derrotada e não tem mais nada a perder: seja com troféu ou com sarjeta.

 

DA – Falando em biografia, apesar do holofote dos prêmios, seus dois livros (e, aqui, falo sem qualquer ideia de desmerecimento) foram publicados por editoras com circulação mais restrita. Você chegou a tentar um contato com os grandes grupos editorias; utilizar da repercussão dos prêmios para chamar atenção para seus livros? Ou foi mesmo uma opção, pois enxerga a literatura brasileira sendo produzida dentro de uma nova configuração? Qual é a sua relação com as editoras?

BRUNO RIBEIRO – Vivemos no tempo do autor, onde somos zagueiro, meio de campo, atacante e goleiro ao mesmo tempo. Neste novo tempo, a editora surge mais como uma parceira a meu ver do que alguém extremamente decisivo na minha vida literária. Atualmente ando tentando uma aproximação com editoras maiores, mas porque o livro que pretendo apresentar para elas seria interessante que tivesse uma maior distribuição. Cada livro tem sua demanda e é assim que penso quando vou tentar publicá-los. Sobre a minha relação com os editores e editoras, afirmo que sempre foi ótima; sou amigo do pessoal da Penalux, Pátua, Moinhos, Escaleiras, Cousa, Bartlebee, Mondrongo, e acho muito gratificante que assim seja. Juntos somos mais.

 

DA – Você também tem publicado o livro de contos “Arranhando paredes”, que foi traduzido para o espanhol e lançado pelo selo argentino Outsider. Essa aproximação vem de um período em que você estudou literatura em Buenos Aires. Dessa experiência, você consegue opinar se os caminhos para um autor iniciante são menos pedregosos na Argentina que no Brasil? O que tem de diferente na maneira de se compreender a nova literatura entre esses dois países?

BRUNO RIBEIRO – É pedregoso também. Escritor se fode em todo canto. As diferenças começam com a forma que o mercado lida com a literatura, vejo que lá a coisa funciona de uma maneira mais justa, principalmente a aproximação das editoras com livrarias, que me parece menos predatória. Outra coisa que muda é o grande número de editoras independentes de qualidade, fenômeno que estamos começando a ver brotar no Brasil. Outro ponto é que na Argentina há mais leitores e formas de se destacar no meio literário. No Brasil ainda estamos muito ligados a isso de ganhar prêmios, por exemplo, como forma de chancelar sua obra. Não vi isso por lá. É importante faturar um prêmiozinho? É, mas pelo tempo em que vivi lá, notei que não é isso que fará você alcançar um status mais interessante no meio literário ou sequer receber alguns aplausos. Existem outros processos e maneiras para ser lido e conseguir se destacar, e essa pluralidade de caminhos é uma das coisas mais interessantes na vida literária argentina. Mas tirando esses pontos, muitos autores argentinos que conheci reclamavam tanto quanto nós aqui do Brasil. A dor é a mesma, mas talvez a deles seja mais doce. Culpa do tango e de Borges.

 

Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Assim como no cinema, a literatura argentina é melhor que a brasileira?

BRUNO RIBEIRO – É um pouco complexo dizer que uma literatura é melhor do que a outra. O Brasil vive um momento de eclosão, anda se publicando muito e tem gente boa pra caramba à solta, assim como o mercado argentino também está pipocando. Tem coisas boas e ruins em ambos cenários. O cinema argentino mesmo chegou aonde chegou por causa de anos e mais anos de investimentos, coisa que só começamos a ter recentemente, e os louros disso já estão surgindo: muitos filmes brasileiros começaram a aparecer nos principais festivais de cinema do mundo e estão se multiplicando por aí: não só em quantidade, mas em qualidade. Com a literatura a coisa não muda muito de figura, o mercado argentino – apesar dos pesares – investiu mais no decorrer do tempo, distribuiu melhor também, tanto que isso de autor argentino sair vendendo livro pelo inbox de Facebook é algo raríssimo; em Buenos Aires mesmo, onde vivi, estudei e convivi com escritores por quatro anos, acho que dá pra contar no dedo de uma mão as vezes que vi isso acontecer; geralmente o autor lança seu livro e o divulga nas redes, mas falando para o pessoal ir comprar nas livrarias. Ou seja, a distribuição e o número de tiragem são melhores do que no Brasil, onde colocar um livro pra vender na livraria é praticamente pedir para falir. Fora ver livros de editoras pequenas sendo vendidos em livrarias grandes, é preciso ressaltar também a tremenda força das livrarias pequenas e independentes; lá tem muitas e elas conseguem sobreviver e aquecer o mercado. Fora aquilo que todos já sabem: na Argentina tem mais leitores. Então, a questão de melhor ou pior acaba se tornando pequena quando comparamos com esses termos que são tão importantes quando tratamos de distribuição e produção de literatura e arte.

 

DA – Ainda no universo do conto, além do seu livro, você é muito ativo na participação e na organização de antologias de narrativas breves. Percebendo a dificuldade do mercado literário de lançar novos autores, você considera que participar de antologias, de coletivos literários, é uma forma eficaz de apresentar os primeiros textos? É possível ter uma carreira independente e ter relevância dentro do meio literário?

BRUNO RIBEIRO – Eu organizo antologias por acreditar de verdade no projeto e principalmente nos autores que convido. “Cem anos de amor, loucura & morte”, “Língua Rara”, “Estamos aqui”, “Um Jardim de Promessas”, todas foram antologias que organizei mais pela paixão do que pelo retorno. Publicar em antologias é uma boa maneira de começar a publicar, de apresentar um primeiro texto, mas convenhamos que pouquíssimas pessoas leem antologias. Pra vender é extremamente difícil e quando você vende raramente alguém lê. Mas estamos aí, na luta e organizando antologias, fazer o quê? O meio literário ainda tem suas resistências com os escritores independentes. Muitos insistem em dizer que não, mas é visível essa resistência e preconceito. Seja como for, sou mais integrado do que apocalíptico, pois vejo que a abertura para os independentes, seja em prêmio, festas, publicações, espaços ou eventos, está aumentando e isso é ótimo. Pode melhorar? Pode, mas pelo menos o barco está andando e aos poucos vamos quebrando a roda.

 

DA – Você também é muito ativo nas novas plataformas de publicação e nas redes sociais. Para um autor que não conta com o aparato de divulgação que envolve os livros lançados pelos grandes grupos editoriais, tais ferramentas são fundamentais para apresentar, anunciar e badalar um livro e a própria carreira. No entanto, a larga exposição acabou constituindo um espaço também favorável a vaidades, rixas, cabotinices e quebra-paus. Há um limite para o bom-senso nas redes? Ou é cada um por si mesmo?

BRUNO RIBEIRO – É preciso ter bom senso na vida como um todo, não só na internet. Infelizmente, muitos autores pensam que estão em seus banheiros e saem vomitando merda pra caramba por aí. Mas essas presepadas fazem parte do processo, pois as redes sociais democratizam de forma grandiloquente seus espaços, então temos acesso a coisas incríveis e, logo em seguida, a coisas escrotas. São as dores e amores da democracia e eu prefiro isso a uma rede que censure discursos e diga o que pode ou não pode. A internet ajuda bastante na divulgação dos meus textos, sem dúvidas. Se não fossem as redes sociais, uma boa porcentagem da literatura contemporânea brasileira estaria sem meios de se divulgar. A web veio para ficar e é uma ferramenta extremamente válida e útil para romper com a diáspora existente no mundo literário.

 

DA – Já que estamos na seara da crítica, recentemente a Folha de São Paulo publicou um artigo em defesa da crítica negativa, na qual a autora do texto reclamava o direito de tratar o livro (e consequentemente o autor) “a chibatadas”. Seus livros, pelo que eu me recordo, foram bem recebidos pela crítica, sendo um deles, inclusive, selecionado por um renomado crítico como um dos melhores lançamentos do ano. Mas se fosse de outra forma: como reagiria se algum de seus romances fosse defenestrado? E como funciona sua relação com a crítica literária: acha importante, não lhe interessa ou entende como um tipo de conceito de avaliação ultrapassado?

BRUNO RIBEIRO – A crítica é essencial. O sentido de uma obra passa pela mão do leitor e os grandes livros são aqueles com uma ambiguidade potente o bastante para conseguir se reinventar durante os séculos. Vide Madame Bovary ou Dom Casmurro: um leitor acha isso, outro acha aquilo, e essa pluralidade de leituras é o que enriquece um livro. A importância do crítico passa neste ponto: é um escritor – pois vejo o crítico como um escritor – que disseca uma obra e a amplia, nunca fecha. Críticos que fecham livros dentro de conceitos restritos e predeterminados me incomodam. Ou seja, acho válido um livro ser duramente criticado, mas que isso seja explicado tecnicamente e que o crítico não isole o livro e suas possibilidades, que deixe algo em aberto, que jogue as vísceras do livro no palco, mas que não o resuma a adjetivos banais e reducionistas. Fora os críticos que fecham ao invés de abrir as obras, outra coisa que me incomoda é a agenda de muitos deles. O meu incômodo surge ao ver certos críticos descendo o pau em livros de editoras pequenas e exaltando os de editora grande e, só vez ou outra, descendo o pau em um livro das grandes. É sério que editora pequena só publica porcaria? Não tem unzinho que preste? Aparentemente é muito fácil jorrar verdades absolutas sobre um meio literário que você só conhece um pedaço. De metonímias e bocas grandes o mundo tá cheio, mas se debruçar de fato sobre um universo para assim, e só assim, dar uma opinião relevante sobre um mundo tão complexo e vasto como o literário nacional é mais difícil e poucos o fazem.  Nesses casos, o que vejo é a boa e velha torre de marfim reinando, pois impor uma agenda claramente conservadora e que só elogia um lado… Não vale é de nada para mim. Um crítico literário deve ter uma agenda ampla, sem conservadorismos e preconceitos, e caso não seja assim, acredito que deva ser honesto sobre suas intenções pelo menos, porque senão passa uma imagem errada e totalmente ultrajante a meu ver. Se o crítico tem uma responsabilidade, essa é a de ser transparente.

 

DA – Além de autor de ficção, você também ministra cursos e oficinas literárias. Muito se discute sobre a capacidade desses laboratórios de escrita de formarem um escritor em contrapartida ao que é considerado, por alguns, como uma aptidão, uma qualidade inata. Da sua experiência, o que de fato uma oficina pode oferecer para quem pretende ingressar na literatura? Um escritor, afinal, pode ser “ensinado” a escrever bem?

BRUNO RIBEIRO – Inicialmente, a experiência me inquietou. Hoje, sinto-me realizado nesta posição de professor de escrita criativa. Acompanhar e ler textos de diversos gêneros e estilos é um verdadeiro aprendizado. Aprendi a ler de tudo, pois um professor de escrita criativa precisa estar aberto para todos os tipos de literatura, afinal, só assim é possível avaliar tecnicamente uma obra que fuja do seu agrado. Não é fácil, mas aprendi. Uma oficina pode entregar técnicas, procedimentos literários e principalmente leituras. Uma indicação de livro pode mudar a vida de um aluno. Outra coisa importante é aprender a ler, esmiuçar de verdade um texto, a linguagem, trama, personagens. Ler o amigo de oficina é mais importante do que escrever, pois ao julgar o texto alheio você indiretamente está aprendendo a avaliar o seu texto também. Aprender a escrever é algo estranho e que sempre me soa pesado, apesar de achar que uma pessoa pode aprender a escrever bem, obviamente. A diretora do meu mestrado de escrita criativa, a poeta argentina Maria Negroni, no primeiro dia de aula disse que o objetivo da pós-graduação não era de formar escritores e sim de criar espaços para encorajar as dúvidas e perguntas, pois a verdadeira escritura sempre é uma arte subjetiva, acima inclusive da matéria que esteja sendo estudada. Assino embaixo disso aí. Ricardo Piglia disse que “a literatura é a experiência mais intensa que existe”. Até hoje, essa frase é o meu lema neste ofício tão árduo. E tento passá-la para os meus alunos, pois, sem processo, confronto, intensidade e pulsão, não há escritura. Seja sacra ou profana, sem gana, não rende. Resumindo: é possível sair mais “enriquecido” literariamente de uma oficina, curso ou pós-graduação de escrita criativa, mas se a pessoa vai se tornar ou não um escritor, isso é algo que só as suas obras poderão dizer.

 

DA – Nesse mesmo campo, a sua convivência com jovens que pretendem se tornar escritores lhe mostra que há neles a formação de leitor. Os jovens estão preocupados em ler bem, investigar com afinco o que está acontecendo na literatura contemporânea brasileira, ou sofrem do mesmo mal que acomete os leitores em geral?

BRUNO RIBEIRO – Uma professora de Campina Grande, Anna Giovanna, passou o meu romance “Febre de Enxofre” para os seus alunos lerem. O resultado foi sensacional: os alunos se vestiram como os personagens do livro, criaram cartazes e banner, e eles fizeram uma sabatina incrível comigo. Muitos ali leram muito bem o meu livro e tascaram perguntas instigantes e profundas. Eram alunos do segundo ano e, veja bem, essa é uma época da vida onde dizem que a garotada quer saber de tudo, menos ler. Claro que não vou pegar este recorte da minha vida para falar que os jovens amam ler, mas o utilizo para falar que quando um professor luta para colocar na mão dos seus alunos obras mais desafiantes, instigantes, e, melhor ainda, botam o autor dessa obra na sala de aula, a coisa muda um pouco. Porque muitos alunos ainda veem escritores como seres arcaicos, corcundas, velhos chatos, mortos. Logo, apresentar um escritor local para eles e o livro dessa pessoa, mostrar que é possível fazer uma literatura distinta daquilo que eles precisam ler para passar do ENEM, pode sim mudar suas vidas. Enquanto professor, eu sempre apresento trechos de livros de escritores independentes. Quando leio o começo do romance “Palavras que devoram lágrimas”, do Roberto Menezes, a galera vibra, adora, assim como quando leio o começo visceral e lírico de “Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O mesmo ocorre quando leio trechos de “Modos inacabados de morrer”, do André Timm. “É sério que pode fazer isso na literatura?”, muitos alunos perguntam. São obras que dificilmente cairiam na mão da galera, então é bacana falar que esses livros estão sendo lançados atualmente e por autores vivos. Quando ministro oficinas em colégios, um ou outro tem interesse em se aprofundar no que apresento, e é nisso que creio: nos pequenos atos e revoluções. Não penso em mudar o todo, mas se conseguir impactar uma pessoa ali, pra mim já tá valendo. Formação de leitores é isso: um trabalho de formiguinha, que deve ser feito com paciência e paixão, sem esperar grandes e imediatos retornos.

 

DA – Hoje há um consenso desanimador de que quem realmente lê os livros dos autores nacionais são os próprios autores nacionais. Isso, ao meu ver, configura-se em razão de algumas circunstâncias: a falta de distribuição, as baixas tiragens, a crise do mercado editorial e o baixo consumo dos leitores. Publicar um livro diante de todos esses obstáculos, portanto, não seria mais um capricho? Literatura, no Brasil, é mais paixão e resistência que a construção de uma carreira? 

BRUNO RIBEIRO – Já parei pra pensar sobre isso: por que eu publico um livro? É difícil pensar em que estado eu estou na minha “carreira”. Tanto que nem uso o termo carreira literária, e sim vida literária. Nem é para pagar de diferentão, mas é por pensar de verdade que a literatura atravessa mais a minha vida do que uma carreira. Fora o blá blá blá de só recebermos 10% do livro e tudo isso, o que mais ferra nossa vida é a distribuição. O pessoal do cinema sofre o mesmo. Se houvesse uma distribuição melhor, a coisa mudava. Basta ver o caso do Giovanni Martins e o seu “O sol na cabeça”. Um livro de literatura e não um best-seller exportado ou um livro de youtuber vendendo pra caramba? Como pode isso? Distribuição, boa tiragem e investimento. Sem dinheiro, é complicado de chegar, por isso mesmo que a internet e os diversos meios alternativos de publicação, divulgação e distribuição são tão importantes. Bater de frente com o mercado é dar soco em ponta de faca, a verdade é que precisamos estar em outros lugares e driblar as imposições do capitalismo. Por isso participo de todos os eventos que me chamam, vou para as escolas, feiras, puteiros, igrejas, até pra livraria eu vou se me chamar, porque é importante ocupar os espaços e jorrar sua palavra – literatura – no ouvido alheio. No final das contas, o que me importa é tentar estar nesses lugares sem fazer tantas concessões também, sabe? Sigo o lema do Zagallo: “vocês vão ter que me engolir”. Minha literatura é isso e fim de papo. E é uma luta tremenda seguir essa linha intransigente, vez ou outra até penso se publicar é tudo isso mesmo, até porque vou continuar escrevendo, publicando ou não, mas aí penso um bocado e decido entrar no jogo, afinal de contas, apesar das desgraças, pelo menos eu me divirto um pouco e consigo um ou outro leitor.

 

DA – Voltando ao seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, temos um vínculo entre dois personagens que se conforma uma relação de vampirismo. Logo no início de “Anos de formação”, Emilio Renzi, alter ego do escritor argentino Ricardo Piglia, tenta definir o que é a escrita para si; “seria uma mania, um hábito, um vício”, ele se pergunta, sem chegar a uma conclusão. O que é essa necessidade de escrever? Tornar-se escritor é, de fato, um pacto vampiresco? Algo que se aloja dentro de si e cresce na dependência?

BRUNO RIBEIRO – Amo essa ideia do pacto vampiresco, provavelmente por me sentir como um escritor do século XIX vivendo no XXI: a criação pra mim bebe bastante do romantismo, decadentismo e simbolismo. A diferença é que eu sugo essa inspiração e injeto uma boa carga de humor e deboche nela, pois a transgressão pra mim só funciona se houver riso e certa desconstrução, ou seja: um não se levar tão a sério. Quanto a isso, admiro e me inspiro muito no Michel Houellebecq; ele também bebe de influências românticas e decadentistas do século XIX, mas consegue reinventar os lugares comuns e seriedades dos autores deste período com sua linguagem e olhar repletos de contemporaneidade e humor ácido. No excelente texto “Permanecer Vivo: um método”, ele diz que “um poeta morto não escreve. Daí a importância de permanecer vivo”. Acho que essa frase consegue condensar tudo o que penso enquanto projeto literário: há humor, poesia, absurdo, cinismo, profundeza. O humor – aquele debochado que critica e fala verdades afiadas – é uma ferramenta essencial nos meus livros, assim como a própria descrença nos procedimentos que utilizo. E por isso que nego o gênero e tudo que devoro para escrever um livro também… Às vezes nego até a linguagem. A dependência à escrita, aquele velho jargão compatível comigo e vários comparsas: “escrevo para sobreviver”, por exemplo, é muito tosco. Não há como falar uma frase dessas sem colocar uma gargalhada em seguida; é meio sofrível ver gente levando a sério a desgraça que é escrever. O vício pra mim, o pacto vampiresco e infindável do escritor que aloja e não sai mais, é como um bobo da corte flutuando em abismos de mentirinha, mas que se o cara pular no negrume se tornam reais e ele afunda; é o sorriso e o susto, o grotesco inserido numa grande gargalhada, e é neste campo tão conflitante que estou na literatura, mergulhado em um pacto que causa dependência e risos nervosos.

 

DA – Seria possível recriar o mesmo experimento de “Glitter”, porém com escritores? Qual seria a dinâmica e quem você acha que deveria participar?

BRUNO RIBEIRO – Seria possível, claro! O Manuel da Costa Pinto faria as vezes do estilista ermitão de “Glitter” e selecionaria vinte e um escritores para participar do “A Literatura Viva”: uma espécie de grande sarau que seria finalizado com o fuzilamento dos escritores. O assassino que estaria responsável pela chacina lírica seria o franco-atirador Marcelino Freire; segue a lista dos vinte e um: eu, Roberto Menezes, você (Sérgio Tavares), Aline Bei, Bernardo Carvalho, Tiago Germano, Cláudia Lemes, Débora Gil Pantaleão, Adriane Garcia, Cristina Judar, Noemi Jaffe, Mike Sullivan, Ricardo Lísias, Adriana Brunstein, Tadeu Sarmento, Eduardo Sabino, Irka Barrios, Micheliny Verunschk, Ana Paula Maia, Mariana Basílio e André Timm. Mas, assim como todos os conflitos que ocorrem dentro da nossa bolha literária, a plateia descobriria rapidamente que as balas eram de mentira e que os vinte e um escritores só estavam simulando suas mortes: era uma performance para divulgar uma antologia de contos e poemas sobre o tema: A MORTE DO AUTOR. Todos aplaudiriam e se abraçariam no final do ato; tiraríamos muitas fotos para o Facebook e, enquanto um escritor bravo dava um soco murcho no peito de um escritor chorão, iríamos pra casa rastejando e carregando nossas vitórias e louros nas costas cansadas de tanto escrever e tirar fotos.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.