Com o desfecho de mais um ano de publicações, a Diversos Afins reafirma seu propósito de disseminar ainda mais a produção literária e artística independente. Ao longo dessa última temporada, novas vozes puderam se aproximar do nosso projeto e ofertar aquilo que de melhor possuem: a expressão genuína de seus esforços criativos. Foi fundamental para tal processo a descoberta de autores e artistas que agregam valor à ideia de diversidade que se amolda à revista desde a sua gênese, em 2006. Se descortinarmos cada uma das levas pretéritas, perceberemos que um rico e vasto painel de possibilidades se instaurou. É, na verdade, um verdadeiro mosaico de expressões distintas, caracterizadas por pessoas dos mais diferentes lugares e perfis identitários. Cada uma delas traz à tona o traço que faz da sua produção algo singular, pois, por maiores que sejam as influências e semelhanças com outras obras, ainda assim há a evidência de uma marca pessoal em voga. E os peculiares olhares sobre o mundo alimentam em substância as criações literárias e artísticas aqui propagadas. Basta vermos o modo como poetas, contistas, artistas plásticos, fotógrafos, entrevistadores e entrevistados, ensaístas ou resenhistas abordam o objeto de seu trabalho. Ao mesmo tempo, os aspectos de distinção apontam para uma necessidade de compreensão da alteridade, daquilo que repousa no Outro enquanto instrumento de afirmação de sua personalidade e modo de ser/estar no mundo. Daí, ler o Outro é também perceber que a vida carrega em si um viés marcantemente dialógico, janela de interação da qual não se pode abrir mão. Na projeção da alteridade como elemento de expansão, emprestamos escutas e leituras aos poetas Isabella Ingra, Marcelo Ariel, Camila Assad Quintanilha, José Pascoal e Sel. No trilhar de caminhos que evidenciam o diálogo, Sérgio Tavares entrevista a escritora Eltânia André, sendo uma conversa pautada nos trânsitos literários e suas complexidades. É de Vivian Pizzinga o descrever de sensações para o musical “Contos partidos de amor”. Nas linhas de Mayana Rodrigues, sensíveis e aguçadas percepções sobre o novo livro do poeta Alex Simões. Os cadernos de prosa estão tomados pelas precisas narrativas ficcionais de Ramayana Vargens, Gustavo da Rosa Rodrigues e José Carlos Sant Anna. Na esteira do cinema, Guilherme Preger explora as delicadas nuances do filme “Uma noite de 12 anos”, produção que evoca as agruras de um duro período histórico experimentado pelo Uruguai. É de Daniel Russel Ribas a atenta leitura para “diário: a mulher e o cavalo”, romance de Julia Raiz. Na interface entre palavras e imagens, a Leva 128 expõe alguns trabalhos fotográficos de Adelmo Santos, artista que nos brinda com criações oriundas de uma busca visceral. É tempo de agradecer, caros leitores, por mais uma jornada cumprida! Para tanto, eis um novo momento de leituras. Sejam bem-vindos!
Se um peixe entrar em sua casa sem bater, não estranhe ou fique nervosa, é porque, pé ante pé, ele resvalou o corpo para fora da tarde e porque claramente cansou do lago artificial em que vivia enclausurado. Há sinais e testemunhas do licor evaporado do seu hálito quando ele passou pelo átrio da igreja e o andar era um bálsamo para aquele espírito inquieto. Antes, ao passar pela porta, exclamou “que lugar maravilhoso”, e sorveu um pouco de paz com os belos vitrais que se realçavam em ambas as laterais da igreja. Parou, pensou e concluiu que o ar era solene e a igreja (talvez) seria pequena para remoer as inquietações metafísicas que sacudiam a sua cabeça na deambulação vespertina.
***
Minhas ostras
Vira e mexe as ostras desfilam pela calçada da praia do Bogari, calçando sapatos coloridos, como se nunca tivessem sido colhidas pelos meus apetrechos de pesca nos arrecifes. Quando tal acontece, quase sempre, remexem no meu antigo baú. São meus espantos guardados, sem chave, justo quando finjo não pensar em nada. As ostras giram o tronco em minha direção e, solícito, digo-lhes que se acomodem ao meu lado, no banco de areia da praia. Sentadas, me falam do que viram e ouviram, quando presas nas formações rochosas, próximas à costa, tornando-se muitas vezes cúmplices de algumas histórias. E ficamos, então, eu e elas, sob um céu estrelado, à beira de outro instante. No meu íntimo, uma estranha magia. A casa dos meus pais, a poucos passos. É do útero do tempo que elas ressurgem, que brotam. A pele arrepia, a alma cintila. E as ostras passam, ficam e se fincam em mim, pois, ainda que mortiça, trazem sempre uma claridade, como se fosse a luz de uma vela. Pedaços de saudades da ponta do mar, da península de ontem, cirandas de histórias que nunca chegam ao fim, um show de vaga-lumes por todos lados que estilhaçam o ar, abrem o armário e vão aquecendo, sem pressa, as esquecidas paredes da memória. Aproveito a lassidão que nos acolhe e vou também abrindo os olhos, as mãos, o corpo, enquanto elas parecem dizer-me que já não preciso correr contra o relógio. Contra o tempo. Aquecidas, as ostras ensaiam uma canção praieira do Caymmi para a noite que avança madrugada a dentro. Suspiram e se afastam. Não consigo desviar meu olhar dos moluscos que se distanciam lentamente, tampouco me ocorre o que ainda queria dizer…
***
Quase triste
Como se eu ainda tivesse o alaúde. São outros os tempos. E rubro ou incolor são os pingos da memória, sem pés ou asas para sustentá-la. Um eclipse. Pular da cama sem fazer nenhum escândalo pode safar o véu da boca de Madalena. Melhor é que não o faça. Seria como, a contragosto, apanhar um viscoso metrô, sem conhecer as linhas e perder-se nos atalhos das begônias no meio da clorofila dos executivos da classe média, bolinando os rastros no teu corpo salgado. E estão perdidas as fagulhas da piscadela, como um voo da infância? Esqueceu? E a minha alma reserva, entre copas, pergunta: “O que é que houve, Madalena?” “O que é meu não se divide”. É o olfato que irriga meus países baixos, por isso me falta talento, incenso e girassóis para este desespero nas ruas vazias sem o meu amolador de facas. E quanto o velho poeta ficaria surpreso ao ver-me atritando as nuvens ou na vertigem dos pés em botão nas míseras cadernetas do armazém da esquina. O filho da mãe, no pasto das estrelas, sempre acrescentava um pouco mais nas contas da semana. E como ainda somos precoces na hora do choro da saudade, para depois tudo perdermos na aposta. Me espera, vai, me espera! Ainda podemos gozar juntos, Madalena, como uma pele de orvalho na madrugada. Ou como num poema bem resolvido! Ou então durma! O desamparo é uma traição das marés, e o teu médico, cubano, não fala bem o português. E tem mais, sem a luz do teu sol, confesso este meu fado de poeta a emoldurar o fugaz, enquanto a fumaça do cigarro sobe e se perde pelas frestas das telhas da cumeeira da casa.
***
Desamparados
Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragmático pensador, primeiro enrolando um cigarro com as folhas da sua estufa particular, depois com a lupa do seu tempo de estudante nas mãos, mergulhado nas águas fundas da antiga convivência, como se o mar, que sempre o apetecera, andasse no ritmo da cadência do mundo por entre as árvores toldadas por estranhezas humanas, enquanto ele examinava, inata curiosidade, um inseto que tecia no espelho uma canção inspirada num poema de Drummond. Verdades que se escondem mal finda o arrepio da tardança e da solidão, sem que Joaquim saiba o motivo das aparências das coisas porque não consegue desprender-se dos ferrões feitos do nada que sangram a sua pele. A cadela destrambelhou a vida da casa, tal qual um incêndio num açude em noite de tempestade. A cantoria das crianças, alegrando a casa, bem poderia ser uma esperança, uma aurora, que coubesse no céu daquele homem no colo do dia, mas, ao contrário, provoca náuseas, um tremor nas mãos que o engole aos poucos, levando-o para bem longe de si mesmo. Folha levada pelo vento. E a cadela parece segui-lo. As mais fundas águas e o bicho a segui-lo no jeito de ser sem jeito, desencanto da vida. E quanto mais se revela esse jeito cambaio dele ser, se vê mais longe, sem descobrir as verdades avaras ou que outro nome tenha as intempéries que amanhecem sob os túneis da escuridão completa. E chama a cadela para a vida que ainda não viveu, para as estrelas que não se cansaram de riscar o céu. Para as sobras da infância. Joaquim molda os músculos na barra de ferro que o seu pai instalara no meio do corredor para este fim. Vapt-vupt, enfia as calças, veste uma camiseta e sai para abrigar-se na amurada do mar anilado olhando os surfistas se empinarem nas pranchas nas primeiras ondas da manhã e os cães desamparados que rosnam com a orla negra lambendo suas patas ao expandir e retrair-se no seu fluxo contínuo sobre a areia da praia. E nenhum pormenor da boca da manhã escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras.
José Carlos Sant Anna é professor aposentado da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é o editor da Quarteto. E já andou publicando os seus alfarrábios pela vida afora.
A injunção do cronômetro
nos faz esquecer
que o tempo linear é
uma abstração
recente
e insidiosamente deletéria
O calendário ordena
e materializa o passado,
o relógio faz tic tac
ornamenta a cozinha,
conta os segundos que eu passo
a espera de sua ligação
mas de que morremos,
senão de tempo?
E toda a areia dessa minha ampulheta
corrói nossa vida
antecipa a desordem
arremessa nossa cara
contra a parede
sem reboco.
Nada aqui é limitado
E é sempre mais tarde do que você pensa.
***
Tudo o que está aqui está lá
eu me abaixei entre as pernas de
um camelo
esculpido em um
pedra gigante
que emergia de
um muro
deixando a onda passar
a onda infernal
me revelou um novo aspecto
completamente íntimo
da morada dos deuses:
– não há ninguém em casa
***
[poema do porto ao tibete – terceiro movimento]
não era água. era areia.
talvez fosse só o tempo.
talvez fosse muita coisa porque era o tempo.
eu fiquei sedenta, mas resignada.
quem ousou encarar o tempo não retornou à margem.
***
[um pasito bailante]
seu coração na altura exata das minhas orelhas
pra ouvir a nebulosa dos que andariam a pé
por todo o campo
em busca de uma flor rúbea,
dos que anseiam a revolução
& repartem pão e ideias
multiplicando líquidos e conceitos
nessa cidade catatônica
pedindo esmolas
de tempos mais brandos
que nunca vão chegar.
ontem nós dois vimos
o mesmo desenho
numa mesma nuvem
e isso é a mais profunda troca que pode haver
entre dois seres humanos
***
[poema pra driblar o inferno]
eu construo uma antessala
com balões de gás hélio e reciprocidades
fico apanhada ao seu dedo mindinho
como se um furacão nos cingisse
e você é esperança derradeira;
as mesas estavam postas mas foi tudo derrubado.
bagunça, tingiu meu coração com manteiga e mel
e na boca gosto de fim de feriado.
***
[notas sobre o sutiã de renda preto]
Simetrias rendadas que se bifurcam ao centro. Hipocrisias rendidas que sustentam prazer e alimento. Ele segura um par de estrelas, astros que orbitam em cabeças mal-intencionadas, mesmo sendo sempre estáticos (desafiados apenas e inevitavelmente pela gravidade que faz com que tudo amaine). Aperta a anatomia, oprime desejos, amarga sentimentos. Limita, esmaga, maltrata; por vezes empina, levita pomos sobrepondo volúpias carnais ao mantimento sagrado. É feito de panos, aros, bases, bojos. Mundanos desejos repousam em suas camas semicirculares. Duas medialunas cingidas comprimindo lunas llenas perfeitas.
Camila Assad Quintanilha nasceu em Presidente Prudente/SP, Brasil, em 1988. Escreve, traduz, desenha e pinta. É autora do livro de poemas Cumulonimbus (Quintal Edições, 2017) e do Desterro, projeto comtemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo/2018, a ser lançado no próximo ano. Já publicou em diversas mídias literárias no Brasil e em Portugal.
O mundo é uma roda e nós no meio ou como se deu minha Trans forma são
Por Mayana Rocha Soares
Platão tinha mesmo razão em temer a presença de poetas em seu projeto de pólis. É gente perigosa, que faz movimentos curandeiros com palavras. É brincando de transmutar que o poeta Alex Simões ginga formas, palavras e sentidos, em seu recente livro de poesia Trans Formas São, lançado em 2018, pela editora soteropolitana Organismo. Esses giros de poesia não foram por mim lidos na racionalidade pretendida de uma crítica literária, mas atingiu o corpo. Taí o seu perigo! Atingindo o corpo, ela (a poesia e seu efeito alucinógeno) tem o poder de agir como feitiço e reorganizar sentidos, desejos, gestos de afeto. Alex nos deu um roteiro de transmutação. E mudar é perigoso para os desejos da nação. Há sumários por todos os lados como bússolas para gente poder se perder à vontade. Há o sagrado “no meio do caminho, entrelugares”, entrecaminhos, encruzilhadas tecnológicas, cantos, sons, Exu, ebó, padê. Sem eixos centrais de sustentação. “Mas há um centro?” Só o habitar do fora.
Alex Simões é poeta, professor e performer baiano. Além de muitas outras publicações em livros e coletâneas, realiza no próprio corpo a experiência literária, através da performance. O livro é composto de 37 poemas. Por meio destes, Alex Simões expõe o mundo através dos olhos apaixonados de quem não apenas observa a vida passando, mas a vive. Por quem atravessa a vida transformando e sendo transformado por ela. Trans Formas São é um livro de performances artísticas das palavras, das formas e sentidos todos, reorganizados a partir do que sentimos, de como amamos e de como seguem nossos desejos e afetos.
O poeta admite fingir, mas não só como o Pessoa, o português. Melhor. Não finge só a dor. Ele diz: é que “me faltam boas ideias e tendo a apelar para grafismos”, há que “fingir que já li muitos calhamaços, roubar, plagiar, sempre negar”. É que “a vida sem sentido dá avisos / há vida pulsando / o tempo urge e às vezes dói lembrar”. Eu também roubo suas palavras agora, mas não sou poeta. Me permito transbordar nessa lama de palavras. Mergulho nela e me transformo também. Aquela mulher que abriu a primeira página do livro não é a mesma quando encerrou a leitura. Alex é modesto. “embora não despreze o métier, e seja mau poeta, é de outra subárea: dos que temos alguma vocação, não pra poesia, mas pra gambiarra”. Acha que é um poeta ruim. Se ser ruim é cumprir essa difícil tarefa de trans forma são, sem controle de como isso é possível, sem reconhecer seu alcance, então, fique satisfeito: você é muito ruim nisso! A gambiarra é que salva! “Toda/o poeta é experimental / obcecado por buceta” [de minha parte, também gosto] / transgênero por vocação / híbrido por definição / fundado na incerteza”. A gambiarra é essa arma que faz da literatura ser aquele menor, conforme Deleuze e Guattari nos ensinaram.
As certezas todas foram embora. Em Trans Formas São nos instalamos no oblíquo, na experiência do quase. “é quase um manifesto / por um quase negro / que é quase um homem / quase filho caboclo eké orixá santo sem base”. “O mundo é uma roda e nós no meio” e a “minha vida é um baile entre seus braços”. Transmutei seus versos para senti-los, novamente, dentro de mim de outros modos, em outras velocidades. Eu também não sei ao certo “que porra é mesmo o contemporâneo”. Mas sei que a poesia underground não tem limites temporais, porque vive nos subterrâneos. Depois discutimos “se houve mesmo uma autoria ou criação coletiva”.
Walter Benjamin, sabiamente, uma vez disse assim: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Ainda bem que não estamos tratando de um documento, mas dá sua potência significativa, da poesia em seu estado de resiliência. Em sua formulação viva e pulsante nos corpos. “então pergunto: memória e corpo / há distintos um do outro?”. Recortes palavreiros de uma nação colonial em ruínas. Alex dispara um ciclo de notícias: das desalianças internacionais à barbárie da civilização. Em terras brasilis, “Aqui tudo parece que era ainda construção, e já é ruína”, como cantou Caê. Alex nos joga na parede e nos constrange a pegar visão: “em suspenso ninguém vive nem se acerta sem medida”. Vê isso? É o sangue das ossadas da barbárie ainda fresco batendo nas paredes da memória. Afrodiasporicidade. Ancestralidade. Abre o olho, é preciso ver: “escravizados desembarcaram de navios negreiros / morrendo por maus tratos e/ou de orgulho, talvez numa recusa por servir, morrendo como parte de um processo histórico e de resistência em luta”. Marielle, quem matou? David? Luana? Dandara? “escondemos de nós mesmos trezentos anos de escravidão”. Mas de lá dos escombros nos assombram com seu sangue, sua ossada e sua vingança, “enquanto segue o porto maravilha / com o futuro museu do amanhã / o que fazer dos crimes insepultos?” É verdade, “a gente tem de dar uma de louco porque senão ninguém presta a atenção”. É Grada Kilomba que diz “corpos brancos são sempre corpos que pertencem a algum lugar”, posto que nossos corpos negros foram desterrados e mal enterrados pela colonialidade. Acredito que Trans Formas São territorializa, em alguma medida, esse nosso cuíerlombo, para usar uma expressão de Tatiana Nascimento, de gente preta, insubmissa, dissidente e selvagem.
Trans Formas São também são formas trans, trocadilho barato, mas tem seu efeito. Entre cores e amores, essa poesia carrega uma inquietação, um não sei bem o que de agonia. É por isso que “meu coração não tem memória / nem sabe decorar / então decola”. Corpos trans que nos transmutam, pois se “a moda agora é ser sóbria, nós não podemos ser”. É porque “é uma questão política: o contraste é estratégia de quem milita a alegria”.
Trans Formas São é também leveza e beleza, “com os dois pauzinhos, que às vezes se esfregam aligeirados e outras que se atravessam como pontes”, criando conexões, rasuras e misturas no “perder-se entre outros corpos”. Sem esquecer de “respeitar o tempo”, lograr o tempo e aquela “puta censurada suposta martelada”.
Bom, nem todos os poemas couberam nessa leitura, mas como abarcar toda essa imensidão? “e para amarrar essa corda / andorinhas passarão” – Mas #elenão!
Mayana Rocha Soaresé feminista interseccional, decolonial e sapatão. Doutoranda no programa de pós-graduação Literatura e Cultura (PPGLITCULT/UFBA). Mestra em Estudo de Linguagens. Graduada em Letras e Ciências Sociais.
Reina suave tumulto
No meu cérebro cansado
De funerais adiados
E tenho medo dos mortos
Com longos avisos prévios
E abro os livros com facas
Em protesto piedoso,
Frágil e silencioso,
E vejo-me de fugida
No espelho dos teus olhos.
***
O BENEFÍCIO DA DÚVIDA
Dai-me o benefício
Da dúvida
Metódica
E farei com ela
Uma certeza instável:
Casa desabitada,
A ruir
Lentamente,
Em silêncio,
Como um barco a afundar-se.
***
AS MÃOS DO VENTO
As mãos do vento agarram-me pelo pescoço
E obrigam-me a ver
O mar morto de fome,
A cidade incivil,
O campo infértil,
O fumo do fogo que não arde,
O fumo do forno crematório,
A cama onde me vou deitar
Para depois ficar acordado
Com medo do escuro.
***
EXCESSO DE VELOCIDADE
Corres para a desgraça dos mendigos,
Dos que vivem debaixo de lusíadas
Pontes, dos que vivem as ilíadas
A olhar para os seus pobres umbigos,
E vais rapidamente, como um atleta
Dos cem metros, desmedidos, tal a pressa
De chegares não sabes a que meta,
Sentes que vais cumprir uma promessa
A uma virgem louca sem altar
E vais, desalinhado, sem parar.
***
CONTAGEM DECRESCENTE
Não é da minha conta
O que acontece
Nos bairros periféricos,
Nos bares alternados,
Nos becos esotéricos,
Nos barcos encalhados;
Não é da minha conta
O sal rosa dos muros,
O sol rubro dos túneis,
O sul roxo dos túmulos.
***
SEM TIRAR NEM PÔR
Não tiro uma vírgula,
Não ponho um acento a mais,
Tenho de ter cuidado
Com as cordas vocais
Com que enforco
As palavras mais banais,
Vida, morte, amor,
E, acreditem-me,
Faço um esforço danado
Para sobreviver a tudo isto.
José Pascoal, 1953, Torres Vedras, Portugal. Bibliografia poética activa: Sob Este Título, 2017, Antídotos, 2018, Excertos Incertos, 2018, Ponto Infinito, 2018, todos na Editorial Minerva,Lisboa.Inéditos em várias revistas digitais e impressa. Mantém o blogue Gazeta de Poesia Inédita.
Contos Partidos de Amor: Diego de Abreu, Isadora Medella, Luciana Balby,Tiago Herz / Foto: Rai Junior
“O quereres e o estares sempre a fim/ do que em mim é de mim tão desigual/ faz-me querer-te bem, querer-te mal/ bem a ti, mal ao quereres assim”, como diz Caetano Veloso, em O quereres, poderia ser uma música que logo nos vem à cabeça quando assistimos ao espetáculo encantador Contos partidos de amor. Isso porque o espetáculo vai tratando, de modo cheio de beleza, perspicácia, filosofia e humor, das incongruências, dos encontros-desencontros-reencontros e novos desencontros, do vaivém de afetos em que o amor se dá, em que se cria, mas no qual se esvai, por ciúme, por “carência” (novo sinônimo de ciúme), controle, insegurança e outras palavras que nem fazem parte do texto do espetáculo e são especulação da autora da resenha, mas que, certamente, fazem o recheio das histórias que ali se passam.
O sedutor e, em alguns momentos engraçadíssimo, sobretudo no começo e nos percursos em busca de uma fita azul perdida, Contos Partidos de Amor é um musical infanto-juvenil de 60 minutos para mães, pais, tios, avós, irmãos mais velhos, crianças, meninada: o texto, eu diria (e gosto de texto), é absolutamente genial. Não vai ter adulto que não o ache sensacional, pelas fantásticas jogadas de palavras que traz e que explicam tudo, ou melhor, permitem que a plateia se aproprie do que está sendo dito sem, necessariamente, precisar conceituar cada coisinha (que talvez fosse o mesmo que explicar uma piada ao final). Aliás, fala-se disso na peça: a metalinguagem que é típica de um casal discutindo sobre a sua discussão ou sobre sua (in)capacidade de comunicar-se. Sobre a conversa interrompida ou interrompendo-se no diálogo para situar cada senão, cada vírgula, cada silêncio, cada detalhe que gere detalhes que gere interpretações de detalhes e que, infinitamente, leva a desvios enormes de comunicação.
Contos Partidos de Amor: Diego de Abreu, Luciana Balby, Tiago Herz e Isadora Medella / Foto: Rai Junior
O texto, que é de Eduardo Rios, inspira-se na obra de Machado de Assis (1838-1908) e, associado à belíssima direção e ao roteiro de Duda Maia, fica à altura do criador de Capitu e o ciúme terrível de Bentinho, no paralelismo possível entre dramaturgia e literatura. Encantamento é o que acontece logo que o espetáculo começa, com a iluminação excelente de Renato Machado, que faz toda a diferença na peça inteira, dando cor e vida às cenas e às temáticas (mais avermelhada nos momentos de apaixonamento, mais amarronzada nos momentos de tensão, e às vezes azulada, outras, esverdeada), o figurino de Kika Lopes, que se utiliza do branco para dar mais vigor à luz e aos corações apaixonados que se colam no peito dos personagens, além de algo infantil que permite a identificação com o público mais jovem, fazendo referência, ao mesmo tempo, a certo eterno aprendizado do amar, do relacionar-se, do desapegar-se, do respeitar-se etc, e, finalmente, o belo cenário de Diogo Monteiro. Para não perder o fôlego (isso que peça e atores têm de sobra e demonstram logo de início), começo nova oração para dizer que o cenário se utiliza de grandes corações acolchoados (ou dando essa impressão), feitos de fuxicos, que, pendurados dos lados direitos e esquerdo do palco, somando 6 em cada lado, dão a atmosfera de paixão que o espetáculo requer e dando livre espaço para a rica movimentação dos atores e a presença de rosas e instrumentos musicais no palco. A trilha sonora original e arranjos de Ricco Viana e as canções de Eduardo Rios e do próprio Ricco são belíssimas, dando humor, lirismo e certa descrição de momentos embaraçosos das emoções, da falta de comunicação e dos sentimentos. Contos Partidos de Amor até poderia também se chamar Contos Partidos de Ciúme, temática que permeia as histórias que se imbricam na peça, a partir de dois contos de Machado de Assis.
O espetáculo esteve em reestreia no Rio de Janeiro, tendo passado pelos CCBBs de SP, Brasília e BH, ficando em cartaz até 16 de dezembro. Foi premiado nas categorias de Melhor Direção e Melhor figurino no 12º Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil – 2017/2018. As inspirações principais para a dramaturgia de Eduardo Rios foi o poema Círculo Vicioso e os contos “A história de uma Fita Azul” e “To be or not to be”, este último da coletânea Contos de Amor e Ciúme, que Gustavo Bernardo organizou, pela Editora Rocco.
Contos Partidos de Amor: Isadora Medella, Tiago Herz, Luciana Balby, Diego de Abreu / Foto: Rai Junior
Já o elenco polivalente (a polivalência, na arte, é sensacional, mas em outras profissões é um horror, que fique o parêntesis) está muito bem e ensaiadíssimo, porque erro, nem que eu quisesse encontrar, não haveria (como não houve): Diego de Abreu, impagável nas apresentações do início da peça, Isadora Medella, Luciana Balby e Tiago Herz, que são também, os quatro, cantores e músicos. Ricco Vianna, com sua trilha sonora ora instrumental, ora de músicas cantas e tocadas ao vivo pelo elenco, tem, em uma delas, inspiração no poema “O Verme”, em que Machado descreve o ciúme como “um verme asqueroso e feio”, publicado em Falenas (1870). Nem tão bom na poesia como foi na prosa (ficcional e crônicas sensacionais), Machado de Assis não deixa de ser memorável até mesmo no campo literário que não lhe era o melhor. Para quem gosta do autor, é possível perceber palavras que permeiam a obra do escritor e que ficaram famosas, como o uso do adjetivo “oblíqua” para descrever, no caso do espetáculo, uma boca, “na verdade torta, cheia de porquês”, como diz a personagem. Alguns diálogos de briga são tão bons que suscitam aquela vontade de reler Machado ou ir até os teóricos da comunicação de Palo Alto, que escreveram a Pragmática da Comunicação Humana, livro de 1973 de Watzlawick, Beavis e Jackson, que poderia ser traduzido artisticamente por essa obra. A pesquisa dos autores mostra que tudo é comunicação, toda linguagem comunica, e é disso que trata Contos Partidos de Amor e é também desse saber que qualquer boa dramaturgia se utiliza ao fazer seu espetáculo. É possível notar o quanto a comunicação (ou sua ausência ou fragilidade) é fundamental para que um relacionamento engrene ou não engrene, continue ou termine, volte ou dê adeus. O espetáculo encerra com uma ideia simples, que pode complicar o outro, porque, como assinala o texto, às vezes é simples ser complicado e é complicado ser simples: deixar o amor amar significa não alimentar o verme asqueroso do ciúme. Simples? Complicado? Nem Freud saberia abordar a questão tão bem.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Ele vai explodir o avião. Eu sabia. Desde o começo, sempre soube que o meu destino era morrer agarrado a uma mesinha de polietileno com fogo cegando os olhos míopes enquanto crianças afogadas passam do meu lado, boiando, de coletinhos laranjas, indo pra uma colônia de férias no céu. Se o avião cair na água, já era. Na terra, talvez o piloto tenha uma chance de fazer um pouso forçado, ou então cair em cima de umas árvores e aí dá pra tentar achar uma das oito saídas de emergência, que não serviriam de nada porque o avião já estaria todo arrebentado, e teríamos que engatinhar até a abertura mais próxima passando por cima, isso é certo, de pedaços de pessoas pelos cantos como se fosse uma piscina de bolinha versão hardcore; o negócio é ficar no fundo, sempre no fundo, porque é a parte que bate por último, e tem uma estatística que diz que 90% dos sobreviventes de avião sentaram nas últimas fileiras. Mas, nesse caso, acho que não tem saída. Ele pode levantar durante a noite, ir lá no cockpit e anunciar o sequestro, afunde esse avião no mar, ou, quando estivermos nos aproximando da costa da África vá direto para as Pirâmides do Egito, melhor acabar com aquilo, que se fodam os faraós e a especulação turística, ou, dê meia volta e arrebente o Christ the Redeemer — mas por que alguém iria sequestrar um avião no Brasil? Pra bater aonde? Vai ver o Brasil agora é um novo alvo do Estado Islâmico, ou Al-Qaeda, e eles estariam mandando uma mensagem afirmativa reconhecendo que os países economicamente emergentes mas nem tanto também entram na conta? 12 horas de voo, 7 horas só em cima do Atlântico, sem mapa de voo. A companhia é tão chinela que não tem nem o mapa do voo pra pessoa saber onde vai morrer.
Ele se vira de um lado pro outro no assento desde que sentou e fica praguejando alguma coisa em árabe, ou é francês? não dá pra saber, fala sussurrando, pra dentro, como se rezasse. Quando chegou na minha fileira e apontou pro assento da janela efusivamente dizendo hã, o cabelo comprido e a cara imberbe, perguntei em português aqui e ele não respondeu, só apontou, mas quando se sentou disse obrigado, achei que fosse brasileiro. Tinha que chover, sempre decolo com chuva durante a noite; pela janela oval só as luzinhas vermelhas e verdes em rotação universal, 24 de dezembro, deve ser isso, e os risquinhos da água na janelinha fake de plástico ou acrílico anunciando a ressurreição, tears of joy; agora ele pegou a revistinha da companhia, o cara parece que é de boa, tô até viajando, lê revistas de turismo e tal; folheia o negócio recheado de imagens profanas por dois segundos e, num som abafado, socando a revista atrás do assento da frente, sussurra pra dentro de novo, árabe ou francês, vai saber, e se inclina na janela pra tentar ver alguma coisa; certo que ele pode ter colocado a bomba na mala e tá com um detonador na calça, escondido; lá fora, as luzinhas fuzilantes das asas, revestidas de polietileno, que não servem pra nada, e os funcionários caneta marca texto tocando a vida das pessoas pra dentro; ele deve tá tentando conferir se a mochila com os explosivos já entrou, calça jeans rasgada no joelho; telinha do entretenimento, ele liga e seleciona filmes, dá pra ouvir o ronco da gasolina fluindo, e se eles se enganam e colocam menos do que precisa, ou se tem um vazamento tipo a Apollo 13 e estamos no meio do oceano sem o Gary Sinise pra nos salvar, aí já era, a única coisa boa é que o avião não explode, a não ser que o cara queime tudo, claro, e quando vê eles conseguem pousar e passar as instruções de segurança corretamente pra galera sair show, infle o colete só fora da aeronave, não corre, senhor, mantenha-se calmo, porque todo mundo tem que sair em fila, se bem que não vai dar pra saber, e no impacto, metade já morreu; o negócio é touch-screen, ele rola rola a lista de filmes oferecidos durante o périplo de 12 horas dentro de uma lata de sardinha que voa e ninguém sabe como; dá duas batidinhas na tela, o filme não entra, paraísos perdidos, talvez ele nem seja um terrorista, só tá meio puto porque tem que viajar às pressas e queria continuar no Rio, entendível, ou alguém ligou dizendo que a mãe dele morreu e agora precisa voltar pra pagar pelo caixão e tudo mais; não entra, ele dá um tapa bem dado na tela esbravejando alguma coisa em árabe, é árabe, não francês, e solta uma bufada; que merda, o cara tá ficando puto e ainda nem decolamos, vai estourar essa porra aqui mesmo no chão; tenta desligar o negócio, mas a bosta nem desligar desliga, travou; ele inclina o banco pra trás e outra bufada, murmura de cabeça baixa e olhos na cintura, analisando a estratégia de ação e pedindo a última bença pra se vingar da companhia que não consegue nem oferecer as mínimas distrações antes do encontro final com o profeta; ele sabe, ele sabe de tudo. Luzinhas, as luzes das asas, me deram perto das asas de novo, se cair, já era; a chefe de cabine anuncia que as portas foram fechadas, embark completed, ligo a minha telinha, english, deutsch, français, italiano, desenhinhos, português, filmes, música, televisão, joguinhos — sem árabe sem mapa de voo; uma das aeromoças me entrega um saquinho plástico, dois, entrego um pro cara e ele faz um sinal assertivo com a cabeça, não deve ser terrorista, é gentil; pega o saquinho e nem olha, atira no chão e dá uma risada, uma cobertinha de poliéster dourada e um travesseirinho de bebê, tá de manga curta, sabe que não vai precisar de coberta nenhuma, não sente frio porque vai explodir tudo e o avião vai virar um fogo de artifício gigante celebrando nossa libertação eterna e a cessão de todos nossos pecados ocidentais; ele tira a bunda do assento e bota a mão no bolso com dificuldade fazendo questão de não encostar em mim, latino, e tira um pacotinho de chiclete, o Trident que parece uma mini carteira de cigarro, certo que o detonador tá escondido na caixinha, é agora; ele coloca o chiclete na boca sem tirar o papelzinho e vira de lado, juntando as mãos, com frio. O avião começa a andar, o comandante, preciso avisar o pessoal, anuncia naquela voz robótica cabin crew prepare for the take off please, só a companhia das luzinhas vermelhas, não tem mais volta, talvez se eu der um grito e pedir pra descer, que tô passando mal, ou que deixei o fogão ligado, ou que minha mãe tá morrendo ligaram do hospital, mas não; o cara tá puto, uma das mãos pressiona o rosto colado na janela, os olhos bem abertos, vendo o quê, as luzinhas vermelhas e o breu; vai ver na real ele só tem medo de voar mesmo, é isso, sou um merda, coitado do cara, tá inquieto porque viu que não tem mapa de voo nem uma mísera indicação de altitude ou tempo até o destino e tá apavorado; as luzinhas vermelhas se apagariam no primeiro impacto, nunca ninguém nos acharia, o foda é só o mar, depois que passar o mar tá tranquilo; ele se revira no assento, quem sabe o negócio é imitar o cara, colocar as mãos no rosto e fingir uma reza sussurrada pra ele ter compaixão de mim e não explodir nada, vai pensar que merda o cara do meu lado tá fodido que nem eu, não vou explodir nada, deixa quieto, desculpa meu Deus, esse cara não merece. Decolou, não tem mais volta mesmo, só daqui 12 horas, ou até a explosão; ele olha pra fora, as luzes das favelas da cidade do Rio de Janeiro mais próximas do céu, deve ter deixado um amor aqui, um grande amor no Rio.
Duas horas de voo, nada de explosão. O cara já ligou e desligou a tv umas quinze vezes, não para de se virar e volta e meia ainda resmunga, olhando sempre pra cintura, pro cinto de explosivos. Cinco minutos depois da decolagem e o cara já tinha tirado o cinto de segurança, com o aviso luminoso ainda aceso; já dá pra sentir um cheirinho de comida, o avião balança, pauso o filme, Trapped, o sinal do cinto acende; e se eu puxasse conversa, e aí meu da onde tu é, gostou do Brasil? sim, lindas, é, pessoal muito amável, e tu tá fazendo o quê? ah negócios, sim, eu tô indo visitar minha namorada, é, sim, morei na Europa um tempo, agora tô indo pra passar o inverno, sim, que merda, aqui tá muito bom né, é, não conheço o Rio muito bem, mas é lindo sim. A aeromoça se aproxima com o carrinho, sr. would you like something to drink? o cara nem baixou a mesinha de polietileno boia-salva-vidas que o pessoal avisou antes, o colete tá embaixo do assento, e as máscaras vão cair automaticamente, ninguém em pânico, de boa, se mantiver a racionalidade, 75% sai vivo daqui e vai escrever um livro de autoajuda; ele diz chicken water, comedor de bicho morto, and acoke. Olho pra minha mesinha esperança, uma bandejinha de papel alumínio com massa, um potinho de plástico com duas rodelas de tomate e uma folha de alface entocado do lado, um bolinho de chocolate, um pãozinho redondo, um potinho de geleia de goiaba, dois pacotinhos de polenguinho e talheres de plástico enrolados numa embalagem de plástico e um guardanapo de papel enrolado em outra embalagem de plástico. Tomo meu suco no guti guti, quente, mas tá valendo; ele pediu coca, olha praquela lata como quem olha pra uma perna irremediavelmente gangrenada, ou uma carta de amor de despedida, e balança a cabeça; acabou se ocidentalizando nesse tempo no Brasil, sabe que uma coquinha é contra os ensinamentos e doutrinas, mas força e a tampinha do alumínio se rende, o som da explosão do gás finalmente liberto depois de dias, meses, expandindo felicidade; em dúvida, olha pra janela, breu, gotas no acrílico, toma direito da lata e solta um arroto seguido de um grande puxada de ar, tava com sede, sabe que é a última coca da vida antes de explodir o avião, a culpa tá batendo forte, não poderia ter feito isso tão perto do céu; talvez o cara gosta mesmo de coca, que merda, e os dois quilos de açúcar vão fluir a serotonina providencial pra que ele decida não sequestrar nada; deixou metade do frango e nem encostou na água, dá mais uma golada; o cara tá de boa, deve ter problemas com colesterol alto, mas é magrelo; coloco o fone de ouvido de novo e dou play no filme com o dedo sujo de polenguinho. Desligaram as luzes pro pessoal não saber que vai morrer, não vou dormir enquanto ele não dormir; qualquer coisa ele vai ter que passar por mim se quiser ir no banheiro pra estourar a bomba, ou invadir a cabine, se ele levantar agarro as pernas e grito por ajuda; a luzinha da asa, incessante, falha a qualquer minuto, pegar um livro e ler, não dá, não vou ligar a luz aqui na cara do cara pra ele ficar mais puto e explodir tudo de uma vez sem compaixão, não, coloco o fone, pela hora, em cima do Atlântico, o avião vai até o nordeste por terra por uma razão, todo mundo sabe, a lua, do mesmo tamanho, nada de especial; finalmente o filhadaputa pegou a cobertinha, ainda bem, a última cochiladinha antes do sono eterno. No filme o cara sai atrasado de manhã pra trabalhar e quando tá descendo as escadas lembra que esqueceu o celular; volta correndo pra buscar o negócio no quarto só que nesse meio tempo a porta de metal bate com a chave do lado de fora e não abre por dentro de jeito maneira; o cara tá trancado num apartamento sem comida sem água sem bateria no celular, ninguém ouve, e pra piorar é um prédio abandonado, ninguém mora ali, o pico não tem nem energia elétrica direito, tudo gateado; ele gasta todas as energias gritando e tentando quebrar a porta, mas não rola; aí ele tem a brilhante ideia de rasgar o sofá e as roupas de cama e pendurar nas grades da sacada a palavra H-E-L-P e atear fogo, só que o negócio meio que foge do controle e o fogo se espalha pra dentro da casa e o cara quase morre asfixiado. O fera acordou, tudo escuro; alguém bate no meu ombro no caminho do banheiro, um cara gordão só de meia, bigode, camisa de flanela; o nutrido apoia as mãos no bagageiro perto do banheiro e sufoca a menina que tá na poltrona da frente; ele acordou mais puto que antes, se inclina pra frente, o cabelo comprido e fino encosta de leve na tela e ele volta a olhar pra cintura, agora com as mãos entrelaçadas; tá aí, chegou o gran momento, o gordão é comparsa dele, sim, levantou e fingiu que ia banheiro pra dar o sinal, uma encoxada abdominal na cara da moça; agora ele vai fazer a última reza e pedir perdão pela coca-cola antes de apertar o detonador Trident; o foda é que se ele levantar, não posso simplesmente dizer ô malandro onde tu vai, o cara vai achar que sou maluco, ou, pior, vai ficar ainda mais putaço que vai querer me explodir primeiro; aviso luminoso, please remain seated with you seat belts fasten, we are going through an area of turbulence, eh, pelo menos agora ele não vai poder levantar, turbulência; eu sempre soube que ia morrer num avião, sempre, janelinha quatro camadas de plástico não segura porra nenhuma, uma criança começa a chorar algumas fileiras na frente, pessoal tá acordando, do outro lado tem duas mulheres apagadas desde que a gente saiu do Brasil, certo que elas tomaram lítio ou dramin, água escorre pela janelinha, o cara ainda tá abaixado, rezando, a asa do meu lado parece uma trampolim com sete crianças em cima sem coragem de saltar, chocalhada, tão baixando de altitude, tá caindo essa merda; olho debaixo da poltrona, pressão nos ouvidos, não tem colete nenhum, lembre-se de inflar o colete apenas quando estiver já fora da aeronave, nunca dentro, ok, discernimento nas horas extremas é o que nos trouxe até aqui, Santos Dummont apertando a mão do alfaiate voador e dizendo vai malandro, que merda, por que eles dizem coisas do tipo em caso de um improvável pouso na água, que pouso, velho, não tem pouso, nem muito menos improvável, é provável, sempre foi provável, o avião tá baixando, fugir da turbulência, quebra-molas, os morros do ar, 200 quilômetros de ar, as luzinhas vermelhas, lindas, morrer no Natal no meio do Romanche Trench, um everest de profundidade com uma temperatura de 1 grau celsius e, com sorte, enroscar num cabo de internet submarino e acabar com a internet do mundo; sempre soube, amanhã vai ser notícia e todo mundo vai pensar, ufa, caiu um agora, então demora mais uns três meses pra cair outro, e meu corpo trucidado sendo levado para as profundezas oceânicas até que algum peixe mais faminto resolva se alimentar das minhas orelhas e se lambuzar com o sangue ainda quente de um dos braços de uma mulher, finalizando, de sobremesa, com pedaços do vestido de uma outra, florzinhas roxas e amarelas; mesinha do desespero tremendo, zumbido, o cara ainda tá abaixado, pode tá morto já e ter programado o dispositivo, ou a reza tá demorada mesmo, depois de tudo, se ele não explodir, mais chance de sair de vivo, please remain seated, tá baixando, vai cair certo, na próxima vou tomar dramin, sempre digo isso, mas é igual um amigo me disse uma vez, mesmo que tu teja lá no quinquagésimo sono, se o avião tiver caindo sempre vai ter alguém pra te acordar e dizer que o avião tá caindo, o cara levantou a cabeça, é agora, o pessoal do serviço de bordo sentou e tá colocando o cinto, nenezinho em prantos, please remain seated we are going through an… tá perdendo altitude, GPWS, seguro no encosto da poltrona, rígido, aperto os olhos, vai cair, sempre soube; tudo escuro, me inclino pra trás e sinto uma mão suada na minha; abro os olhos no susto, ele aproxima os lábios do meu ouvido e, segurando meus dedos com força, sussura numa voz adocicada — amigo, no tenemos apuro.
Gustavo da Rosa Rodrigues tem 26 anos e mora em Porto Alegre-RS. É escritor, poeta, tradutor e estuda Letras (Tradução) na UFRGS.
conquanto comece, exija o perfil
mártir, catella, de hermética ou rés
seu molde revira, perfaz-se em til
amiúde, avessa, reviça, revés
18
perdoe-me leitor se cá me extravio
abuso das figuras pra aduzir
mas é flama a memória, ou um pavio
ora compraz-me o fluxo e faz luzir
19
crua, devassa, nessa contradança la bruja vislumbra, desfere o fel
de lua, dourada, a bátega, avança
o tédio da última, oblitera, o mel
20
harpia, vampir, agita o chicote
agarra, rebuça, esgatanha o osso
oblíqua, carmina, a própria sorte
cava, retrava, profondo rosso
Canto 3
21
antes d’ seguirmos cabe explicação
ao uso dum termo citado acima
porventura não seja obrigação
contudo dou versão q’ qro que exprima
22
se “obscoso” nd encontra, em lugar nenhum
é devido seu viés ‘xtraordinário
obscuro e viscoso agrupados num
neologismo pro vocabulário
23
prossigo nesse instant donde parei
co’ a femme fatale a minha frente
que, em frenesi deixou-me, na sua lei
miragem, substância evanescente
24
nessa forja onde a pedra amarra o sol
e a legião celebra o próprio fim
ta’ o sábio que na montanha é farol
condenado o dragão ressurge em mim
25
este tão logo se manifesta
“venho a ti, e ‘tu deves’ é meu nome”
grito “satã! diabo! mal que infesta!
belzebu! levai p/ lá a vossa fome!”
26
ao que sorri e, soberbo, assim me diz
“ouve, compreendo essa tua precaução
porém os que compõem minha matriz
são os mesmos que povoam teu coração
27
mil faces tenho e mil faces há em ti”
conclui dessa maneira a sua língua
reajo, então, “vós, de mim, ide, parti!”
“inútil é a ação, nada se míngua
28
hidra sou, dessas testas que possuo
fulguram os preceitos que as sustêm
se uma é decepada, duas, sem recuo
crescem no lugar e o ocaso detêm”
29
qual dura sonora onde o índio clama
soa, ressoa, atirado sou àquela voz
retorno, a visão imersa em lama
para a mulher que é xama, bruta foz
30
mas nesse imo, fragílimo cristal
zona cujas piras não são breves
áspero, esse monstro, sua digital
troa, “tu deves, tu deves, tu deves…”
Canto 4
31
saliva a besta ao desiderato enqnto, espreita, essoutro d’ várias tranças
caos sobre caos, causando o substrato
menocchio, sua gênese às lembranças
32
degola a mãe, pierre, por compaixão
eu, de mim, um maço que reprime
todavia para ambos a maldição
no cáucaso à ave pelo meu crime
33
tecem as irmãs nosso destino
nós, amalgamados, feitos em ser
consoante d’ parmênides o atino
indiviso, omnis, perpétuo haver
34
de maneira diferente o devir
heráclito crê real, legifera
conceito que introduz ao perquirir panta rei, fogo, tudo se altera
35
pra tales entretanto em início
a água, da natureza, se traduz
igual fêmea, bravio mar, um vício
líquida nave gera e nos conduz
36
já anaximandro o ápeiron insere
valsa invisível como proposta
infinito q’ derrama, (re)ingere
pasta donde a physis é composta
37
razoável o ar remeter outrossim
àquilo que transmuta a matéria?!
segundo anaxímenes faz-se assim
o antropo, o mineral, a bactéria
38
empédocles afirma por sua vez
que é das quatro raízes essa função
unas com o amor e o ódio em lucidez
tramam da nascença à putrefação
39
pitágoras idem inaugura
o número indubitavelmente
p/ xenófones é a terra, assegura
a demócrito, o átomo, “somente”
40
inobstante, seja enfim essa arqué
não o noûs de anaxágoras q’ move a idea
destart’, qual dorso daquela em mim é
paisagem, pasto, ninfas ou medea
Canto 5
41
a manceba amante inda que tele
pois alfim só plantou grave espectro
fere-me a boca, a boca à mia pele
conserva-se acre, látego plectro
42
tal perenelle flamel, lendatriz
logrou longa vida com a magia
crepita, velada pua ou beatriz
ora turra dulcis, ora em algia
43
águia de sangue, rebenta o fruto
seiva nossa, das escápulas, voa
xenomórfico ose, dissoluto
morta madre na des-figura ecoa
44
nobre sal, item oma signo seu
pela treva age, prodigioso orbe
da abóbada, entona sina, androceu
sua vinga prepara nesse alforbe
45
“eu que de mary à cria me assemelho
largo orto em serro da calipígia
sou, de hades, rei, sacro escaravelho
ou vulgo um, verbero desta lígia?!
46
de ifigênia, a forte, rubro manto
que avulta-se algures pra deidade
ou o bico, à turba, do falsanto?!”
vão… verbo é impossibilidade
47
entre bósons, estelas, onde o grão
a prima obra, ny, raro etimodeus?!
por grossa fuga pulsa seu cifrão
em sólitons verte neuroproteus?!
48
oumuamu’alto e silente cetáceo
paz nenhuma demonstra esse enigma
traspassa o céu, infausto rubiáceo
rangem consigo as almas do origma
49
suspenso negrume ao sono induz
cobre de angkor frontes impassíveis
quem fácil não cede luna seduz
mas uivam em mim coisas horríveis
50
das vespas a peçonha igualmente
quos ortópteros cativos torna
envenena, a solidão, seu cliente
abasta essa raiva que, o senso, orna
Canto 6
51
ouabaína aplaca e regenera estro
quebra espada, esfaz a malfazeja
asperge o falcão sua febre, destro
molesta, circunda, ankou solfeja
Sel é poeta e artista visual. Possui textos publicados nas revistas literárias Arcana, Diversos Afins, euOnça e Benfazeja. É autor dos livros: Autopse (ed. Multifoco – 2012) e [Sel]vageria (ed. Urutau – 2016). Ambos de poesia.
A obra “diário: a mulher e o cavalo”, da autora Julia Raiz, é um ser de dois corpos que se fundem em plena corrida. Na dualidade entre interno e externo, tanto na forma quanto na narrativa, forja-se o elemento que conduz à unidade no grau confessional e literário. Trata-se da mudança de totem para o arquétipo, o sagrado que se torna um princípio platônico. A superfície vislumbra ideias complexas em uma linguagem direta e cuja abordagem determina uma eventual reformulação da mesma. Em um exame minucioso, encontra-se uma investigação através do tempo: a cronologia pelos movimentos executados a cada trecho, em que musicalidade é uma coautora, no lugar de uma medição acumulativa. Sem exibicionismos, experimenta como as sensações, por mais comuns em descrição, são únicas quando aplicadas à individualidade. Assim, como a pessoa que lerá decodificará estas percepções não é o importante. Tudo está no texto, através de ritmo e símbolos.
O fio-condutor está presente no título: em um diário, a mulher investiga a si e o que a cerca, a partir de um veículo, o cavalo, um guia hostil para reflexões. O fascínio se desenha na gradação em que estes objetos de estudo se organizam a uma condição de autodescoberta. A visão de fora da narradora para os dois seres, civilizada e selvagem, cujo enlace em uma criatura própria é tão imprevisível (à primeira vista) quanto inevitável (ao fim). A mulher e o cavalo se unem no enfrentamento ao cotidiano que busca domesticá-las. Pode-se citar dois trechos do capítulo 5 de “Mulheres que correm com lobos”, de Clarissa Pinkola Estés: “… se quisermos ser alimentados por toda a vida, precisaremos encarar e desenvolver um tipo de relacionamento com a natureza da vida-morte-vida” e “O que se teme pode fortalecer. Pode curar”. Essa está presente na epígrafe que sintetiza miopatia como o efeito colateral de uma força que não pode ser contida, pois seria mortal. Ela retoma esta ideia de forma mais explícita no trecho: “Depois, se este fosse um grande romance, o escritor escreveria que os cavalos se reúnem à noite, de costas para a fogueira e cantavam baixinho pedindo paz aos espíritos enganados”. Aquelas que matam, como a mulher do pm, ou mulheres que se matam, como Sylvia Plath, olham para seus pares em sua jornada por uma individualidade em que matadores montam cavalos.
Remete-se a Jung, quando se refere ao cavalo como símbolo do irracional mágico, cujos impulsos ocultam sua incapacidade de consciência: “Assim sendo, o “cavalo” é um equivalente de “mãe”, com uma tênue diferença na nuança do significado, sendo o de uma, vida originária e o de outra, a vida puramente animal e corporal. Esta expressão, aplicada ao contexto do sonho, leva à seguinte interpretação: A vida animal se destrói a si mesma”. Julia Raiz propõe uma releitura, em que a vida animal se reconstrói a partir do conhecimento de sua condição de oprimida e opressora para então construir uma nova e única consciência. Em outro trecho do livro: “A menina que encontrei na lanchonete falou que as mulheres têm que fazer que nem os cavalos na umbanda: transmitir. Eu não entendi. Mas eu sei que as mulheres estão interligadas, nossas mentes formando uma grande rede”. Esta grande rede só pode ser acessada através de uma leitura particular.
A técnica é honesta, com pontuais intervenções em seu formato, como na entrada em que a autora interpõe a narração com observações de cena. Desta forma, reitera sem se repetir a mensagem que permeia cada capítulo: a narradora e sua expressão não são distanciadas. A honestidade reside que cada fator do texto é utilizado para aprofundamento psicológico. Por mais disperso que soe em momentos, ao mencionar personagens e situações que aparentemente não pertencem, trata-se de como o jogo entre autora e quem lê é estabelecido. O fluxo é o bilhete de embarque para o universo mental da personagem. A cada associação a narradora dialoga consiga mesma e quem lê. Essa pessoa, no entanto, não tem participação passiva, pois as indagações do texto buscam estabelecer outra terceira e indireta identificação ou constatação. A brincadeira metalinguística, literária e confessional se faz aí. Como escrito acima, não é interessante uma leitura engessada, mas a transmissão de sinais suficientes para que a pessoa que lê preencha as lacunas propositais.
É um grande romance pessoal dentro de uma pequena novela de dispersos que confluem em linguagem e em tema. Um fluxo com trote incerto, mas cujo caminho está traçado. Como Julia Raiz traduz na entrada do belo “selo”: “Existe sempre uma coisa mais verdadeira acontecendo fora do nosso alcance de visão, no momento que uma estrela se apaga é porque ela já não existia e não existia o fim de uma luz, existe apenas a transformação que escapa à nossa percepção, existe o presente que nunca fomos capazes de captar”.
Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.
Uma noite de 12 anos (La noche de 12 años). Uruguai/Espanha/França/Argentina. 2018.
Uma noite de 12 anos, do uruguaio Alvaro Brechner, relata a história de três militantes do grupo guerrilheiro Tupamaros, que foram feitos “reféns” do governo militar uruguaio durante 12 anos da ditadura naquele país. Os guerrilheiros são Mauricio Rosencof, Eleuterio Huidobro e José Mujica, que vem a ser el Pepe Mujica. Trata-se da recriação ficcional do relato autobiográfico dos dois primeiros guerrilheiros em seu período de confinamento.
É a história de um sequestro de Estado, assumido na própria designação dos prisioneiros como “reféns”. Eles ficaram presos, isolados em solitárias durante 12 anos, sem direito a julgamento, ou sem conhecer as acusações. O filme abre com um trecho extraído de A Colônia penal, de Franz Kafka, quando o prisioneiro pergunta qual a sua sentença, e seus algozes lhe respondem que ele saberá em sua própria carne.
O filme apresenta justamente a história de como os corpos dos prisioneiros suportaram a desumanização de 12 anos de confinamento. É um filme sobre a resistência da carne e dos corpos. E também da fala e da linguagem, em ambientes quando a comunicação ou era proibida ou impossível.
Cena de “Uma noite de 12 anos” / Foto: divulgação
A película de Alvaro Brechner é o que chamaríamos de “tour de force”: como fazer um filme do confinamento, do absoluto isolamento social, da incomunicação, da inação dos personagens silenciados. Nesse esforço estético reside sua principal força cinematográfica, vinda da contenção, da sobriedade e da justeza emocional.
Essa força estética nasce do desdobramento de um paradoxo: os reféns foram presos para que fossem silenciados, invisibilizados e esquecidos. A câmara cinematográfica de Brechner traz a luz ao presente desse período de sombras, de escuridão e terror. Tal luz nos deixa ver, através da ficção, o que foi negado aos olhos do público e do povo, uruguaios e internacionais.
Essa é a questão que se sobressai nas raras oportunidades em que os presos tiveram de falar com “o mundo exterior”, como com seus parentes, depois de intervalos longos. Nessas ocasiões eles não podiam demonstrar seu sofrimento, sua degradação e a opressão absoluta sobre seus corpos.
Assim, na entrevista com a Cruz Vermelha, quase dez anos após a prisão, os presos não têm o direito de testemunhar sua verdadeira situação. Tratava-se apenas de uma encenação, onde a organização humanitária apenas corroborava a violência do regime.
Por isso, a exibição cinematográfica desse pesadelo histórico 30 anos após sua ocorrência tem uma potência estética e política. Pela linguagem da ficção audiovisual o espectador é levado a experimentar a tortura existencial do confinamento absoluto. E a violência do regime se torna existencialmente demonstrada.
Nesse aspecto, a força política da película não necessita de discursos. Basta que a câmera encaminhe a sensibilidade do espectador para esse mundo sombrio e desumano dos “porões da ditadura”.
Antonio de La Torre em “Uma noite de 12 anos” / Foto: divulgação
Nenhum filme histórico e autobiográfico é um registro mais ou menos fiel do “que se passou”. Não é um encontro com o passado. O espectador, na sala de cinema, tem um encontro presencial com as imagens do filme. Os eventos se passaram como passa qualquer evento, mas a história ficcional se desenvolve no aqui e agora do cinéfilo. O filme é um acontecimento e como tal ele é a figura de um instante. Cada um lida com sua surpresa, estranheza e absurdo a seu modo e recompondo um mundo.
No filme de Brechner, para poder sobreviver, os prisioneiros, que se encontram isolados, desenvolvem uma linguagem sonora através de batidas na parede para poderem se comunicar. É uma linguagem inventada e através dela eles são capazes de criar um mundo, pois não há mundo sem linguagem e não há existência sem mundo. Assim, o filme pode ser interpretado como a invenção de uma linguagem para que tempos ilhados se comuniquem através dos muros espessos do esquecimento e do silêncio.
Talvez o momento mais pungente de Uma noite de doze anos seja a cena do banho de sol dos prisioneiros depois de anos sem ter acesso ao ar livre, na qual se ouve a voz da intérprete Silvia Perez, cantando a canção The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel. Em outro filme seria essa uma cena melodramática. A música nos alerta que vivemos uma ficção. Mas neste filme ela se torna a demonstração de como o silêncio tem uma potência. A história deve ser vivida ficcionalmente para que não se repita como farsa.
Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.