A velha mais velha do asilo. Mesmo banco de todas as tardes. Fundo sombrio da varanda, últimas luzes cinzentas do crepúsculo. Fala pouco, quase nada. Quando se dirigem a ela, responde cumprimentos, agradece gentilezas e diz amém (se for necessário). Falar cansa. Resta ficar pensando, o tempo todo.
Puro engano, a ideia de que o tempo é livre e democrático. Parece que todos têm direito ao mesmo tempo, que cada um usa como quiser. Não é bem assim. É muito além das medidas conhecidas. Tempo não é coisa única que se divide, igualmente, entre as pessoas. O tempo corre em velocidade íntima e penetra nos espaços vazios de cada vida. Minutos, segundos, horas ou anos podem ter durações diferentes para cada indivíduo – e demorar o tanto que a subjetividade exige no momento.
Três anos no asilo. Professora aposentada. Viúva de oficial do exército – metódico e previsível. Vida programada. Casamento de 52 anos. Relação amiga, respeitosa e equilibrada com o militar da artilharia. Muito tempo. Não teve filhos. Nenhuma grande paixão. Prazeres mínimos – nunca teve oportunidade para transgredir. Não havia grandes traumas ou tragédias para lamentar, mas também nada espetacular guardado na memória. Vida neutra, regular, correta, bem traçada (como os cálculos de balística do coronel). Vida repetitiva (como a cadência do batalhão no desfile da independência, que o marido comandava com tanto orgulho). Estudo e trabalho: únicas razões que preencheram a vida da mulher. Poucas emoções fortes para recordar. As melhores lembranças vinham das aulas de física, trabalho de décadas, no colégio e na faculdade. Considerava um privilégio a missão de ensinar o funcionamento do mundo.
O tempo mora na alma. O tempo moral, temporal, é tempestade, besta, vendaval. O tempo não é infalível. Errado pensar que o tempo é exato e não falha. Falha e falta, porque nasce e morre dentro da gente. Enquanto escorre, tem o tamanho que quiser. É música silenciosa que embala o curso do universo. Compasso e ritmo definem sua existência. O tempo é invenção desvairada de cada pessoa, na dança consigo mesma. Não é coisa geral. Tempo universal (organizado em fatias) é como cena parada de um filme – cinema que vira fotografia.
Poucos parentes, a maioria já morreu. Sobrinhos e fiéis agregados apareciam vez ou outra – no aniversário, páscoa, véspera de natal e coisas assim. Sempre apressados, constrangidos, tentando demonstrar que tinham algo mais importante para fazer. A única visita que lhe fazia bem era Ester, ex-aluna que reencontrara, por acaso, no asilo. Duas vezes por mês, Ester passava lá para ver o avô e dedicava um bom tempo para conversar com a antiga professora. Ester – a única que não inventava motivos para dizer que estava na hora de ir embora. Só saía quando a velha dizia que precisava descansar.
Há séculos, o terrível vício das horas aflige a humanidade. Desde que foi criada a civilização do relógio (para facilitar a divisão social dos talentos e reprimir excessos de velocidade de imaginação), a desconstrução do tempo é considerada insulto científico ou distúrbio pessoal. Difícil fazer entender aos viciados em calendários e agendas que é impossível regular os momentos e a cadência da vida. Tão esdrúxulo como tentar disciplinar o vento. Ou pensar a sucessão das eras como uma sequência contínua em direção a um futuro fixo (como se só existisse o presente, cuja função seria apagar o passado).
Lembrou orgulhosa dos exemplos poéticos que construía para explicar fenômenos misteriosos com as forças da natureza.
A velha professora detestava os livros que ganhava. Histórias tolas, manuais de autoajuda, meditação, pensamento positivo ou mensagens religiosas de preparação para a morte. Preferia ficção científica, aventuras que desafiavam a inteligência e propunham novos pensamentos. Gostava mais dos clássicos. A imaginação dos autores da atualidade ficava cada vez mais tecnológica do que científica. O desastre estava aí: pouca ciência para muita tecnologia. Ultimamente, mantinha no colo o pequeno volume que Ester trouxe de presente. Os Crononautas (tradução horrível), que narra viagens no tempo de um grupo de cientistas, que descobre equações mentais que permitem deslocamentos no espaço com a força do pensamento.
Não se deve acreditar que o tempo só caminha para frente. Nada mais falso. O tempo é etéreo e volátil. Pode andar para frente, para trás, para cima, para baixo e para qualquer lado. O tempo é invisível. Lugar móvel, abstrato, onde fica guardado tudo que existe, existiu ou existirá. Voa, na velocidade total de todas as galáxias, sendo capaz de atingir qualquer distância cabível no universo. Às vezes, fica entupido num canto sem saída. Como dentro da garganta daquele velho com cara de monstro.
O avô de Ester não gostava da velha. A neta parecia mais interessada na professora maluca do que nos problemas de saúde que ele relatava com profundo sentimento de carência e abandono. Maldizia a tarde que Ester reconheceu a professora, solitária, no canto da varanda. Foi ele que começou a espalhar que a velha era um perigo.
– Minha neta contou que ela é um gênio. Sabe tudo sobre energia nuclear. Foi até convidada para trabalhar na Nasa, mas o marido não concordou. Cuidado com ela! É meio desequilibrada. Tenho certeza que está aprontando alguma coisa. Olha a cara dela: parece que vive com raiva da humanidade. Gente assim é capaz de tudo. Já imaginou se ela resolve fabricar uma bomba? Provocar uma explosão, causar um curto, um incêndio…
O mundo perde vida com a ideologia do tempo aprisionado. Inteligências criativas são bloqueadas e se atrofiam. Tempo expresso em números; tempo vigiado em tabelas e prazos; tempo apertado em competições de sobrevivência. Na vida corrida, condicionada a datas e compromissos marcados, sentimentos fraternos e respeito solidário são rebarbas de excessos. Tempo engarrafado, paralisante, epidemia de angústia, destruição da harmonia natural e ilusão de um futuro salvador. Droga pesada.
Tempo é liberdade! Abaixo opressores e compressores do tempo! Tempo livre. Solto e vago! O tempo é leito de luz e usina de memória – confinado, compromete competências do espírito e altera a hierarquia dos desejos. Cada espécie é especialista em saber viver – entender o tempo que tem. Vida e morte, no mesmo trampolim. O mesmo ponto pode ser princípio ou fim. Depende da convenção. O amarelo é a menor distância entre o verde e o azul. Quantos tons existem entre os dois? Cor é luz diluída no calor do tempo. Enquanto existir fusos horários, cronômetros e formas de medir o tempo, as pessoas não serão livres para perceber as verdadeiras variações das cores e as pulsações mutantes das estrelas. O tempo limitado no ciclo das horas aprisiona a humanidade na periferia da terra. Por isso, ficamos isolados de outras civilizações extraterrestres. É preciso libertar o tempo.
O velho implicante foi quem ficou mais alegre, quando o diretor do asilo avisou que a professora não podia mais ficar interna na casa. Cleptomania. Encontraram diversos relógios, desaparecidos dentro do asilo, escondidos no quarto da velha. Só não entenderam por que tinham sido destruídos com tanta violência.
Ramayana Vargens é escritor, jornalista, professor de literatura, diretor teatral e membro da Academia de Letras de Ilhéus.
Café da esquina
Pouca temperatura
agora muita temperatura
quem chega e quem está indo
quem desmonta e se monta
mantém a compostura
finge não ser
a podridão do século
festival de cremes hidratantes
clareamento dos dentes
um amontoado de desamores bem resolvidos
próxima esquina
tira esse outono de mim
tira minha roupa
tira minhas escamas
me pesca sem isca
próxima esquina me fazem de isca
todo mundo morde
todo mundo morde e morre
a isca continua viva
próxima esquina: não vira.
Encosta e finge que
por enquanto
***
Contos de fadas parte dois
Nada foi real,
mas doeu como se fosse.
E aí o silêncio.
Eu não quero silenciar
Mas o primeiro grito
Sempre sai de mim
Na torre da gente
Na serpente que diz
Que o fruto do conhecimento
É atrevimento sem volta.
***
Um disparate:
atirar-me contra o vidro. atirar-me no teu colo. atirar-me meio tiro e meio pétala. atirar-me numa curva, numa selva de seca e terra. atirar-me contra o amor romântico amando e me atirando. Atirar-me repetidas vezes em diferentes cores e coisas. atirar-me em teu sexo, no seu intelecto e não sair de mim. atirar-me numa tela de tinta e lubrificação do que se vê mas não se toca. atirar-me agora fora do meu juízo. atirar-me para fora do golpe como se fosse possível, como se o estilingue pudesse me arremessar e me colocar fora para que eu possa olhar tudo por dentro.
atirar-me em outros corpos e copos
atirar-me em outras camas e lamas
atirar-me dentro de um filme ao vivo
atirar-me ao vidro
e como estilhaços
ir pra todo canto.
***
Degraus:
é que eu me sentia cair degrau por degrau
sentia a nutrição de força por força
sentia desejo de corpo por corpo
é que eu não sabia sentir e ter que sair de mim
era tudo aqui dentro.
Adicionar legenda
e secreto.
Tão secreto que qualquer um poderia entender
era notável, pegajoso, sujo.
Essa coisa de me sentir caindo
foi me dando altura
noção de espaço
noção desesperadora dos espaços que eu posso
noção de dor. Noção de dor é umas das piores noções que se pode ter.
Sei que dói
e caio pra me valer da dor
pra manter distância dos que não caem nunca.
***
Balança devagar
Me assaltaram a alma
Numa esquina entre o que eu acho
e entre o que eu penso.
Coloco na balança tudo
olhares, cartas, enigmas, chuva, cabelo bagunçado
sorrisos, bom dias, cuspe, beijo, penetração, fracasso
desejo
coloco na balança tudo
espera:
balança tudo.
Balança o mundo
e a gente não supera
coloco na balança a falência do estado
a falência do meu estado
o socorro cochichado
um pé estalado
corrida
medo coragem vontade
colidimos no tempo,
quando olhei pra tudo
já era 64 de novo
a balança quebrou
dividimos os ombros pra pesar
dividimos os ombros em pesar.
Meu coração agora tem pressa.
Sem metáforas
é
pressa
de balançar pra demolir.
***
Nós somos os potes de ouro
Seremos nossos próprios potes de ouro no fim do arco-íris,
ou no fim de um disco,
nas últimas sílabas das palavras que quase foram ditas.
Seremos o rebuliço causador,
os primeiros desejos ainda que antigos, esses dias simbolizam o nosso número da sorte ainda que golpeados, ainda que exaustos, ainda estamos excitados pela vida, inundados, molhados, aquecidos, um dentro do outro, nós dentro de todos, beijos, lascívia e umas esquinas.
Fumamos um cigarro depois do estrago.
Isabella Ingra ( Brasília, 1993) escreve poesias desde que leu seu primeiro poema (quadrilha, Drummond) na escola. É professora de literatura, atriz, contadora de histórias e poeta. Publicou dois livros infantis e agora se prepara para publicar seu primeiro livro de prosa e poesia. Suas maiores inspirações nasceram da poesia marginal e da escritora lendária Clarice Lispector. Acredita que poesia é pura bruxaria e não há inquisição que a pare!
Num recanto qualquer do mundo, a vida acontece e se expande em seus microuniversos. São possibilidades de existência que emanam das faces múltiplas do cotidiano. Enquanto estas linhas são escritas, o aqui e o agora são delineados pelo olhar de alguém e revestidos com a propriedade de observação diferenciada que cada artista carrega consigo. Diante da oportunidade de se mirar potenciais cenários, o ofício de fotógrafo engendra muito mais do que percepções flagrantes. Ousa além: oferta-nos revelações.
Mas por qual razão nos embalamos às multidões do dia a dia e deixamos de ver muita coisa? Há um sentimento perene de dissipação quando vemos as imagens de nossa real existência no mundo se confundirem com pontos perdidos e quiçá genéricos de observação. É como olhar para tudo e nada ao mesmo tempo. Na tentativa talvez de absorvermos freneticamente o rumo acelerado das coisas que nos são apresentadas, a sensação de se esvair numa torrente informe parece não passar.
A arte é capaz de fazer frente à ideia de que somos uma turba desorientada e, portanto, avessa aos pormenores mundanos. E falar aqui de detalhes significa remontar à perspectiva de se poder olhar e sentir a dinâmica da vida sem perder experiências relevantes de serem vivenciadas. Mesmo que não haja interferências por parte do artista que está a mirar os cenários, ainda assim ele se fez personagem do que acaba de testemunhar e reproduzir em sua obra.
No trabalho de um fotógrafo como Adelmo Santos, temos a percepção de que as revelações dispostas nos ambientes retratados emergem em meio ao caos urbano que, teimosamente, tenta desviar nossa atenção. Apartado da noção de um mero flagrante, o empenho artístico de Adelmo é no sentido de atenuar o efeito de dispersão do olhar que nos alça a obviedades. É marcante em muitas das imagens do artista o captar de um sentimento poético que se esconde por trás da rotina de homens e lugares. Mergulha-se, por escolha, no âmago das coisas.
Foto: Adelmo Santos
O fato é que Adelmo privilegia registros de dimensões da vida que passam despercebidas por muita gente. Evidencia delicadamente o canto quase que inaudível do povo de algum lugar, a rica simplicidade das pessoas, seus gestos e ritos. Nas suas fotografias, vemos uma clara tentativa de enaltecer o protagonismo às avessas que gente ocultada pela rotina exerce em seus espaços de sobrevivência. Na contramão dum complexo processo de invisibilidade, há vez e voz para os representados diante de imagens que potencializam uma possibilidade renovada de afirmação social e cultural. Nesse ínterim, todo um painel de feições populares deixa impregnadas as suas peculiares marcas.
Outro traço marcante do trabalho desse fotógrafo baiano está no modo como a dinâmica urbana é pensada e reproduzida. Fazendo transitar o seu olhar por lugares de passagem e pelas mais distintas vias de acesso, Adelmo testemunha e nos apresenta indícios humanos de transformação dos espaços. Alveja a configuração arquitetônica das cidades e nos põe a refletir sobre as variadas formas de intervenção espacial propostas pelos sujeitos que se movem e se deslocam através dos mais difusos ambientes.
Quando se utiliza da técnica de superexposição de imagens, Adelmo traz à tona uma curiosa coexistência entre mundos. Nesse aspecto, é como se uma interação entre o vivido e o imaginado pude se estabelecer de tal maneira que um efeito de realidade se fizesse determinante.
Impera na arte de Adelmo Santos a procura um tanto visceral pela construção de seus temas. No início do texto, falou-se em revelações, palavra que pode até mesmo abrigar uma infinidade de alternativas. Mas importa destacar que dar vazão a faces e cenários marcados por certa clandestinidade é também rasurar a imagem limitada que se tem sobre pessoas e seus entornos. Por entre vestígios do labor humano captados em luz e sombra, resistem vigorosos modos de existir.
Foto: Adelmo Santos
* As fotografias de Adelmo Santos são parte integrante da galeria e dos textos da 128ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Na mesma proporção que uma boa escrita carece de técnica e imaginação, é preciso que o escritor tenha sensibilidade para capturar e decifrar o espírito do seu tempo. Em seu mais recente livro de contos, a mineira Eltânia André processa os códigos que representam, cada vez mais, a sociedade contemporânea, em especial a brasileira. “Duelos” trazem narrativas que se constroem a partir de disparos de violência, crimes de ódio, agruras urbanas, desmazelos e injustiças sociais. São retratos muitos claros e contundentes do nosso cotidiano, que revelam o quanto perdemos o senso de absurdo e a capacidade de reação, por exemplo, diante de mortes de crianças pelas chamadas balas perdidas. “Há mais homicídios no Brasil do que nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, sobre as populações desassistidas da periferia”, lamenta a autora.
Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, Eltânia conta sobre o processo de composição de seu livro, ao mesmo tempo que reflete sobre o Brasil de hoje, repartido por conturbações sociais e político-partidárias, e sobre o real poder da literatura em se oferecer como um instrumento de recondução coletiva. “Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade”, alerta.
Morando em Portugal há cerca de dois anos, a escritora ainda traça um paralelo entre a produção literária feita no Brasil e na Europa, constituindo um painel de pequenos detalhes que espelham a realidade atual do mercado do livro no Brasil e a sua própria relação com a escrita e a publicação. “Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das (chamadas grandes) editoras, acho cruel e desrespeitoso a indiferença ou as cartinhas com negativas automáticas e burocráticas”, declara a autora.
Eltânia André / Foto: arquivo pessoal
DA – Seus livros anteriores são marcados pela exploração do território da memória, no esteio de uma escrita com tendência poética. “Duelos”, por outro lado, trata de uma realidade atual, regida por temas agudos e contundentes que ilustram o caos da sociedade brasileira. O que motivou tal mudança?
ELTÂNIA ANDRÉ – Aconteceu naturalmente. Quando percebi, a violência estava posta em vários contos. O que fiz foi ceder à temática e seguir produzindo com o título, “Duelos”, eleito. A severidade da vida e a realidade que nos circundam me guiaram na busca de personagens e histórias, porém tentei através da linguagem levar um pouco de ternura, não sabendo se havia possibilidade do paradoxo ou se seria possível suavizar a brutalidade. Mesmo assim arrisquei. Quanto à memória de longo prazo, ela também está presente em vários contos, com sutileza, talvez. Os contos estão circundados pelo horror ancestral, mas também pelo crescimento da violência urbana, circunstâncias que recheiam gráficos: há mais homicídios no Brasil do que nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, sobre as populações desassistidas da periferia, sobretudo jovens negros.
DA – “Uma das mil e uma noites”, conto que abre a coletânea, acompanha uma cena chocante em que um jovem gay é espancado por conta de sua orientação sexual. Até que ponto, você acredita, a literatura é capaz de transcender seu valor artístico e servir como instrumento de alerta social?
ELTÂNIA ANDRÉ – O narrador desse conto é surpreendido pelo desejo de salvar a personagem, mas ele não tem o antídoto para salvar o homem do veneno da estupidez. Assim, instala-se no texto a angústia que paralisa a história e que faz a narração se dilatar em múltiplas vias, exigindo do leitor a saída brusca do cenário de horror e deixando, imediatamente, o convite para a pausa reflexiva. É a angústia da autora também, pois tenho em mim tantas dúvidas e, por outro lado, tanta fé na arte. Mas, sim, a literatura é um dos instrumentos de alerta social, mas suspeito que não seja apenas isso. Há uma potência, que eu particularmente sinto, de que a literatura me permite estar em contato com o silêncio para ouvir outras vozes, sem reservas, sem receios – personagens e mundos múltiplos. Paro para ouvi-los, contemplo-os e, em alguns casos, torno-me íntima deles, outras vezes me torno outra(s) e assim fico mais próxima de mim. A literatura produz empatia, produz proximidade, arrisco a dizer que possa produzir novos sentidos; somos atravessados pelas palavras e num determinado momento essa força produz mudanças. Tudo isso pode mobilizar individualmente ou coletivamente o universo social, mesmo que nos pareça imperceptível. Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade.
DA – Numa outra chave narrativa, alguns contos tratam de mecanismos de violência, que não se fortificam na brutalidade, mas que não deixam de ser violência, a exemplo do descaso público com a saúde, a educação, a aposentadoria pública. De maneira geral, são temas poucos explorados pela literatura brasileira. Você acredita que falta, aos escritores contemporâneos brasileiros, um olhar mais penetrante para esses problemas cotidianos, que parecem menores, mas não são?
ELTÂNIA ANDRÉ – Talvez esses temas estejam diluídos na literatura contemporânea, implícito na realidade das personagens, porque não é possível testemunharmos nosso tempo sem observarmos esses fenômenos que trituram nossas vísceras.
DA – A violência contra a mulher é outro tema recorrente. Mulheres abusadas, oprimidas, inferiorizadas. Traçando um paralelo com a literatura, e levando em conta o último prêmio São Paulo de Literatura, que elegeu três escritoras campeãs, como analisa a participação das mulheres no mercado literário? Percebe que ainda há restrições por parte das editoras, dos leitores, comparado aos espaços permitidos aos homens?
ELTÂNIA ANDRÉ – Comemorei o resultado do Prêmio São Paulo, três mulheres vencedoras, mas gostaria que um dia fatos como esse não necessitassem de comemorações ou fossem alvo de uma visão pitoresca, entre críticas e deboches, porque se pensarmos na quantidade de vezes que somente homens venceram prêmios, isso ocorreu sem nenhum destaque ou suspeita. Gostaria que um dia nós tivéssemos naturalmente esse espaço; a escrita como processo, como exercício e resultado de esforço combinado com talento. Há tanto tempo as mulheres escrevem, o que deveria importar? A força da escrita, não a hierarquização ou os rótulos. Seria mesmo bom se assim fosse! O mercado literário nunca foi imparcial, não só com relação às mulheres, nem mesmo justo com as escolhas das obras, pois nem sempre a qualidade é o farol. Claro, percebo que há restrições e há tratamentos desiguais. Mas não vamos nos calar. O Mulherio das Letras, que surgiu sob a batuta da escritora Maria Valéria Rezende, tem mais de 6.600 mulheres. Um número expressivo, não acha?
DA – O conto “Matança de passarinhos”, que integra seu novo livro, originalmente faz parte da coletânea “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”, que reuniu textos de autores em protesto aos casos repetidos de crianças mortas por balas perdidas em comunidades carentes do Rio de Janeiro, no ano passado. Como foi o processo de composição desse conto, e de qual maneira ele serviu de norte para a ideia central de “Duelos”?
ELTÂNIA ANDRÉ – Na verdade, eu já estava quase terminando o “Duelos”, quando Alexandre Staut me convidou para participar da antologia “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”. Mas é sempre difícil enfrentar essa guerra em que as nossas crianças são alvo, ao invés de receberem proteção e direitos, como os que estão inseridos no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). A realidade é rude, meu amigo: Maria Eduarda tinha 13 anos, cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental e estava participando de uma aula de Educação Física, numa Escola da Zona Norte do Rio de Janeiro, no momento em que foi beber água e recebeu em seu corpo os disparos de fuzis. Muitas outras crianças e adolescentes foram vítimas de histórias trágicas. “Matança de passarinhos” foi escrito com muita tristeza, e confesso que gostaria que fosse totalmente ficcional e distante da realidade, mas é uma fotografia do Brasil, infelizmente.
DA – Há uma frase muito emblemática no conto “Poesia que ninguém lê”, que diz: “Os versos inacabados estarão sobre as contas a pagar na segunda gaveta do criado”. É uma imagem muito representativa da relação entre vida comum e a literatura; do quanto escrever, no Brasil, pode ser comparado a uma obsessão diante da ausência de qualquer recompensa associada, sobretudo a financeira. Por que, então, seguir escrevendo? E, principalmente contos, que é um gênero mal visto pelo mercado?
ELTÂNIA ANDRÉ – Também insisto em me questionar. Não é mesmo fácil enfrentar as contas na gaveta e o poema que insiste em sobrepor-se à matemática e às obrigações diárias. A maioria de nós precisa se dedicar a outro trabalho para sustentar também a própria produção literária. Mas o que mais me incomoda é ter que ser a caixeira-viajante, mascate da minha obra, isso é bastante desconfortável. Escrevi o artigo “Por que escrevemos”, que foi publicado em dezembro de 2017, na revista Caliban, de Lisboa, para tentar encontrar algumas pistas para essa interrogação que me assalta frequentemente. Não encontrei uma resposta justa, mas não consigo parar de escrever (algumas vezes penso que deveria). Encontrei esse modo de comunicação comigo mesma e com o mundo que teima em não cessar. Quanto ao gênero do conto, eu não me importo com o tratamento do mercado, tenho muitos contos ainda para produzir, e quer saber: dane-se a ditadura do mercado, o conto é soberbo e valente.
Eltânia André / Foto: arquivo pessoal
DA – Seus livros foram publicados por editoras de médio e de pequeno porte. Isso se deve a uma escolha sua, pensando em ter mais gerência sobre a preparação de suas obras, ou chegou a tentar contato com editoras de maior circulação e não obteve êxito? Qual sua relação com o mercado do livro?
ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda não tentei encaminhar meus livros para editoras de maior circulação, desacredito que serei avaliada. Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Sou orgulhosa, não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das editoras, acho cruel e desrespeitosa a indiferença ou as cartinhas com negativas automáticas e burocráticas (não creio que leiam os textos sem que haja indicações). Admiro o trabalho das pequenas editoras, como a Patuá, que publicou meu romance “Para Fugir dos Vivos” e “Duelos”. Reconheço que vem apresentando ao mercado livros excelentes, com primoroso trabalho estético e, além disso, há a abertura do diálogo com os editores. Afinal, justiça seja feita, são esses laboriosos pequenos editores que nos dão vez e voz num cenário tão viciado, e já algum tempo temos visto autores dessas casas serem contemplados com prêmios nacionais.
DA – Você é natural de Minas Gerais, mas já morou em São Paulo e agora está radicada em Portugal. O quanto a existência por essas cidades trouxe de enriquecedor para a captura de temas e o desenvolvimento de sua escrita?
ELTÂNIA ANDRÉ – Nasci e vivi durante 24 anos em Cataguases, e foi convivendo com meu irmão (que se encantou com a poesia, publicou um livro artesanal e, meses depois, morreu precocemente, aos 19 anos, vítima de um acidente) que o desejo insólito de ser futuramente uma escritora foi despertado e ficou hibernado por anos. Em 1990, decido viver em Belo Horizonte e lá permaneço por uns 15 anos. De 2004 até 2009, permaneço em Barbacena, para estudar Psicologia. Em 2007, começo a escrever e publico, apressadamente e de forma independente, meu primeiro livro de contos, ”Meu nome agora é Jaque”. Depois de minha formatura e de meu casamento, parto para São Paulo e lá fico por muitos anos. A escrita passa a fazer parte de minha rotina e finalizo os livros “Manhãs Adiadas”, contos, selecionado pelo PROAC e publicado pela Editora Dobra, em 2012; “Para fugir dos Vivos”, romance, publicado pela editora Patuá, em 2015; e “Diolindas”, romance escrito em parceria com Ronaldo Cagiano, que saiu pela Editora Penalux, em 2016. Em janeiro de 2017, saio do Brasil, passo a viver em Lisboa e continuo a escrever e revisar “Duelos”, que, em agosto deste ano, é lançado pela Patuá. Sair do território natal foi o primeiro e fundamental passo para minha formação e experiência existencial, pois o deslocamento nunca é apenas geográfico. É um trânsito filosófico, é tornar-se outro, é a metáfora da errância no sentido de desviar-se do caminho original, espalhar-se em outras direções e, ao mesmo tempo, carregar em si e na memória o que fomos na representação do passado com todas as suas complexidades. Só consegui começar a escrever depois de muitos rompimentos: com o mercado, com Deus; com valores que introjetei da cultura e do senso comum. A literatura exigiu um enfrentamento comigo mesma. O deslocamento físico acaba refletindo no subjetivo e tudo isso implica na linguagem, na vida.
DA – Falando em Portugal, do tempo em que você reside na terra-mãe, qual a sua impressão sobre a relação dos portugueses com a literatura? Especificamente, no que diz respeito ao interesse pela leitura e por eventos associados ao contexto literário, levando em conta também a maneira que enxergam a literatura brasileira?
ELTÂNIA ANDRÉ – Como disse acima, cheguei a Portugal em janeiro de 2017. Desde o início, comecei a ler autores portugueses; muitos dos quais não temos acesso no Brasil. Durante um período li com intensidade escritoras portuguesas de uma prosa visceral, entre as quais Maria Velho da Costa, Hélia Correia, Agustina Bessa-Luis, Gisela Ramos Rosa, Maria João Cantinho, Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Maria Teresa Horta, Maria Gabriela Llansol, Inês Lourenço, Maria do Rosário Pedreira, Sophia de M. B. Adrensen, Maria Judite de Carvalho e Ana Margarida de Carvalho. A literatura portuguesa é riquíssima, e ainda há um fértil terreno ficcional e poético a se explorar. Percebo que a Clarice Lispector foi eleita como um cânone da literatura brasileira. Encontramos nas livrarias de Portugal os nossos clássicos e alguns contemporâneos, mas poderia haver um interesse maior já que falamos a mesma língua. Percebo que o acesso à literatura brasileira, em Portugal, ainda é pontual. A música brasileira, sim, é muito apreciada pelos portugueses e tem histórica difusão.
DA – Seu marido, o escritor Ronaldo Cagiano, acaba de lançar seu segundo livro por uma editora portuguesa. Como funciona essa relação de autores brasileiros com selos de livros em Portugal? É mais fácil, para um escritor brasileiro, lançar um livro em Portugal que no Brasil?
ELTÂNIA ANDRÉ – Mais fácil no Brasil. Não acredito que haja uma boa abertura para os autores brasileiros, as editoras portuguesas não estão de braços abertos para a literatura do Brasil, há resistência ou desinteresse, que não é de hoje, uma espécie de mecanismo de defesa contra a bibliografia brasileira, que é enorme. Há algumas pequenas editoras que têm publicado brasileiros, sobretudo na poesia, mas são poucas. Caso o livro tenha tido uma boa repercussão no mercado nacional, a possibilidade é maior. Em editoras de médio e de grande porte é conveniente que o autor tenha contrato com algum agente literário, pois na Europa são esses profissionais que induzem os editores a publicá-los, diferente do Brasil, onde ainda funciona o contato autor-editor. A figura do agente literário no Brasil é quase dispensável para os autores novatos ou ainda não reconhecidos pelo mercado; funciona bem para os já estabelecidos. Por outro lado, a publicação de portugueses no Brasil tem sido facilitada, porque há incentivos, como a DJLAB (Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas), que apoiam e incentivam a publicação no Brasil de obras de autores portugueses e de países africanos da mesma língua. Há também o nosso franco interesse pela literatura portuguesa.
DA – Na condição de autora, e também de leitora, o que mais lhe impactou na maneira de tratar o escritor e o livro no continente europeu?
ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda me sinto prematura para responder esta questão. Mas notei pequenos detalhes, por exemplo, quando ocorrem os lançamentos, os livros são analisados e apresentados para o público e para o autor. É um momento de muito respeito e de celebração da literatura. Não é apenas um encontro para autógrafos. Essa é uma prática tradicional, em que um livro não é apenas um acontecimento social, mas uma oportunidade de se conhecer autor e obra e, para tanto, antecede-se uma mesa, com algum convidado apresentando a obra do autor em lançamento. Nas Feiras do Livro, os autores põem-se disponíveis e próximos dos leitores, é fácil o acesso. Outra observação importante é que frequento muito as bibliotecas, estão espalhadas pelas freguesias, e é muito bom vê-las sempre cheias, principalmente de estudantes.
DA – De volta aos debates que estimulam seus contos, recentemente tivemos uma eleição para presidente do Brasil, na qual muitos artistas abriram seus votos via rede social. Você acha que é dever do escritor se manifestar publicamente, defendendo uma bandeira ideológica, ou a política pertence mais ao cidadão que ao artista?
ELTÂNIA ANDRÉ – A arte acaba exigindo um embate com o mundo e sabemos que a política interfere diretamente na vida das pessoas. Na verdade, a literatura também é um ato político. Não estou falando de política partidária. Quanto aos autores, admiro os que estão ao lado dos direitos humanos, da igualdade social, da diversidade, admiro os que lutam, os que se expõem. E estranho os que se isentam ou aqueles que escolhem ficar ao lado contrário, como o do fascismo. Cidadão e artista, em sua essência, são os mesmos, não há como separar um do outro. Respeito, entretanto, o modo que cada um encontra para se manifestar.
DA – Dos dramas tratados em seu livro, como o poder da leitura pode incidir de maneira a pôr um fim?
ELTÂNIA ANDRÉ – Não há como pôr um fim, esse ideal seria uma utopia. Há retrocessos que avacalham com a civilização e a humanidade – já era tempo de igualdade e paz, mas a irracionalidade do homem não deixa. No Brasil, o desafio é enorme e há um longo caminho pela frente. Muitos dos dramas podem ser tratados com adequadas políticas públicas, como por exemplo a violência urbana. E o acesso ao conhecimento e aos livros são ferramentas poderosas. Mas diante do golpe de 2016 e o resultado da eleição deste ano, como ser otimista?
DA – Qual o maior duelo em ser um escritor no Brasil? É possível sair vencedor, de alguma forma?
ELTÂNIA ANDRÉ – Os meus são vários, e todos passam pela angústia. Primeiro e constante é luta solitária com o que borbulha desordenadamente dentro e o que respinga na folha branca, depois burilar, lapidar – sempre fica um resto que não sabemos bem se terá fim, mas tudo bem, ele é ameaçador, mas produtivo. Desse duelo pessoal, passamos a ansiedade pós-criativa: encontrar editora, prazos que se prorrogam, lançamento, expectativas quanto à receptividade e um montão de eteceteras. Não há vencedores muito antes de Auschwitz.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Eles eram como nuvens
de sangue
dentro do sonho
Havia uma tela no início
e ele estava perto de desertar
do sonho para o infinito efêmero
das imagens fixas
que escondiam algo
ele havia sonhado
que era uma bala perdida
e acertaria seu próprio coração
dez anos depois
como num conto
argentino
ou tcheco
havia um padrão
dentro do sonho
criado pela impossibilidade
de ver a si mesmo
ele era
como um pássaro
transparente
voando
na direção
de um céu
de carne
com ossos
no lugar
de estrelas
a bala havia
perfurado
seu tórax
ele ouviu
o enfermeiro
cantar
essa ária
para o médico
de plantão
na medida
em que a morte
se aproximava
ele ia se esquecendo
do seu próprio nome
e desertando de dentro
do sonho
o fundo branco
das paredes
mudava
para prateado
de acordo
com a intensidade
do som
de um oceano
cada vez mais perto
perfurando seu pulmão
ele ouviu sua voz
misturada
com a voz de
seu avô
dizer a fumaça
oceânica
haviam
duas águas-vivas
grudadas nos seus braços
e uma arraia
no teto
flutuando
por cima
de seu corpo
dela
saiam
orquídeas
vermelhas
que ficavam
paradas no ar
estas flores
são o tempo
ele se ouviu dizer
e depois
acordou novamente
dentro da água.
***
PARA MARIELLE FRANCO E ANDERSON PEDRO GOMES
O sangue
não pode voltar no tempo
como o orvalho
seca e avança
até o Sol
O grito
não pode parar a rajada
de uma metralhadora
como a água
dentro da onda
avança
e retorna sempre
***
ANTÍFONA *
ANTÍFONA
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
E aí, branquitudes, purezas, certezas
De luares, de neves, de neblinas!…
De clareiras, nuvens, névoas
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
E aí, branquíssimas peles lapidadas
Incensos dos turíbulos das aras…
nuvens brancas atravessando avenidas cercadas
Formas do Amor, constelarmente puras,
Modos de se matar, celestiais estáticos
De Virgens e de Santas vaporosas…
Em estados líquidos, enevoados
Brilhos errantes, mádidas frescuras
Fosforescências efêmeras
E dolências de lírios e de rosas…
e melancólicas orquídeas vaporosas
Indefiníveis músicas supremas,
Inefáveis mixtapes esquecidas
Harmonias da Cor e do Perfume…
perfeitas mas sem cheiros e sem lume
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
vindo em ondas de sangue que o Sol queima
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…
Velórios da luz no vidro que o projétil quebra
Visões, salmos e cânticos serenos,
Delírios, funks, risos, celas
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
Ecos de toques de celulares nas biqueiras
Dormências de volúpicos venenos
Sonabulismos do beck com doce batendo na viela
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes..
vagos e violentos, santos rostos faíscantes
Infinitos espíritos dispersos,
Duplos vetorizados, capturados logo adiante
Inefáveis, edênicos, aéreos,
encurralados ao revés por ancestrais , mortos, indigentes
Fecundai o Mistério destes versos
florescendo em galáxias distantes
Com a chama ideal de todos os mistérios.
na parte azul do sangue, nenhuma verdade
Do Sonho as mais azuis diafaneidades
alucinações em vermelho, nos olhos que se fecham
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
que se dissolvam no refrão gritando não
E as emoções, sodas as castidades
com o sentimento sonoro, vertendo em espuma a interdição
Da alma do Verso, pelos versos cantem.
nas ruas as almas dos internos, crianças-onças-pardas
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
germinando o sonho do mais fino grão do ser
Fecunde e inflame a rime clara e ardente…
sejam flores, os que desabrochando debaixo do chão e
Que brilhe a correção dos alabastros
como baleias nadando no mar de esgoto , em sua amplidão
Sonoramente, luminosamente.
entoando para a luz , a ultima canção evocando
Forças originais, essência, graça
forças de dentro que jamais avançam em vão
De carnes de mulher, delicadezas…
através da pele mestiça e negra , docemente
Todo esse eflúvio que por ondas passe
dos rios soterrados, subindo em ondas quentes
Do Éter nas róseas e áureas correntezas…
sobem, crescem, todos sentem
Cristais diluídos de clarões alacres,
tudo se refletindo em tudo, sem alarde
Desejos, vibrações, ânsias, alentos,
Eros regendo o ritmo das carnes
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
E aí, Branquitudes, a hora é agora!
Os mais estranhos estremecimentos…
a mais feroz doçura
Flores negras do tédio e flores vagas
desce até a piscina a matéria escura
De amores vãos, tantálicos, doentios…
de tristezas cósmicas, sem vagueza
Fundas vermelhidões de velhas chagas
fendas, falésias, fios, chamas, feras são
Em sangue, abertas, escorrendo em rios…..
sangram , fluem, pela água , antes represada
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
cristalina fome de ser que vem do fundo, como a morte
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
vórtices, espirais de outra realidade
Passe, cantando, ante o perfil medonho
engolem vossos corpos, como o sono
E o tropel cabalístico da Morte…
chega para reger a manhã da insurreição
***
SIDERAÇÕES
GRAVITAÇÕES
Para as Estrelas de cristais gelados
Para os oceanos que vagam na matéria escura
As ânsias e os desejos vão subindo,
os sentimentos vastos são atraídos
Galgando azuis e siderais noivados
como no casamento do Sol e da Lua
De nuvens brancas a amplidão vestindo…
a anterioridade de contrários se fundindo
Num cortejo de cânticos alados
num ritmo , pulsação e vibração contínuos
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
crianças na ocupação cantam esse hino
Passam, das vestes nos troféus prateados,
dançando com seus corpos negros azuis e cabelos prateados
* Poemas do livro inédito ESCUDOS BROQUEIS onde dialogo linha a linha com o livro de Cruz e Souza, criando através desse diálogo um novo poema formado pela união de dois poemas. É minha homenagem ao legado do poeta negro Cruz e Souza, que considero meu Mestre maior.
Marcelo Ariel é poeta e performer, autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados” (LetraSelvagem, esgotado), “Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio” (Editora Patuá, esgotado), “Jaha Ñande Ñañombovy’a”(Editora Penalux), entre outros. Em breve será lançado “Ou o Silêncio contínuo” – Poesia reunida 2007-2017 que está no prelo pela Kotter/Patuá.