Um ano se inicia. Com ele, sempre depositamos esperanças de mudanças em relação ao movimento das coisas que buscamos. Parece haver a ideia permanente de que outra contagem temporal, por si só, é capaz de encerrar a renovação. Desse modo, pensamos teimosamente que um ano nascente demanda a intenção da novidade. 2019 pode ser muito mais do que índice cronológico de um estado de coisas e situações. Compartimenta um tempo de vivências que ganha significativa importância na medida em que estas remetem ao pensamento humano. No caso específico de um projeto como o da Diversos Afins, as expectativas são movidas pela dinâmica que aflora entre palavras, ideias e imagens. Assim, o ano agora por desbravar não significará muita coisa se não pudermos, através dos comandos da Arte e da Literatura, fomentar expressões daqueles que pensam muito além de seu entorno. O compromisso com o mundo e suas mais variadas questões é algo que perpassa naturalmente as manifestações de muitos criadores. Estes últimos são vetores de um fluxo comunicativo que requer uma lúcida e aguçada observação sobre a vida, delineando temáticas que ultrapassam as fronteiras da mera contemplação estética. Há quem tencione que o fazer artístico deva guardar uma necessária correlação com o tempo no qual se vive, representando tal ato uma incessante vigília sobre o curso da história humana. Nessa mesma linha, evoca-se a noção de que somos todos seres políticos por natureza e, portanto, passíveis da assunção do comportamento crítico dentro do imenso painel que é o exercício democrático do livre pensar. O curioso é perceber aqui que até mesmo quem se recusa a se caracterizar como sendo alguém político já pratica uma espécie de política, mesmo que na via da negação. Discussões à parte, as veredas literárias, por exemplo, são um importante instrumento de exposição de opiniões advindas do universo sócio-político. Além disso, posicionar-se pode ser muito mais do que encampar uma determinada ideologia, ou seja, significa também deixar mais consistente o caldo da participação na sociedade, ainda que surjam correntes antagônicas de ação, o que nos “protegeria” das garras nocivas do pensamento único. Quando a arte movimenta essas nuances do múltiplo que se abrigam em nós, somos convocados ao debate e à reflexão. Movidos pela pluralidade, nosso caminho editorial de então encontra respaldo na expressão poética de Ricardo Escudeiro, Wanda Monteiro, Luísa Gadelha, Elizabeth Hazin e Tito Leite. Somos também embalados pelos contos de Kátia Borges, Zuca Sardan e Floriano Martins. É Geraldo Lima quem nos apresenta o mais novo livro de Claudio Parreira, o romance “A lua é um grande queijo suspenso no céu”. Guilherme Preger analisa as delicadas tramas do filme japonês “Assuntos de família”. No texto de Pérola Mathias, toda a inventividade presente em “Contraduzindo”, disco de Tuzé de Abreu. Elis Matos entrevista a poeta, fotógrafa e performer Ana Mendes. A pesquisadora Maria Lúcia Lepecki celebra a memória do escritor português António Vera. O rock da banda Game Over Riverside é alvo de Emanuel Moreno Pinho e suas impressões sobre o disco “Empty”. Durante toda a edição, somos atravessados pelo impacto das ilustrações de Joana Velozo. Adentrando seu novo ciclo de atuações, a Diversos Afins apresenta a 129ª Leva. Seja muito bem-vindo(a), caro leitor(a)!
Sem saída, empreendi esta fuga. Havia uma ladeira no caminho para o trabalho, e aquelas árvores já conhecidas suas. Passei por elas feito um foguete. Parei rapidamente no mercado para retomar o fôlego e então segui em disparada, sempre em frente. Onde daria, não sei. Só queria estar ainda mais longe. É que, de repente, até minha cidade se tornara sua. E eu já não suportava mais estas paisagens. Nem mesmo o mar, o muro do mar. Foi quando decidi optar pelos livros, onde já me abrigara com sucesso tantas vezes. Olhei minhas estantes de universo, quantos seiscentos e tantos enredos a esperar por este personagem. Tal o desespero, que cabia até em a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Me encaixava em Benjamin sem eixo. Firme em não desistir, ainda que as pernas quase não aguentassem o peso, do corpo que se movia e se movia e se movia. Tal o desespero que cabia em diante da dor de Susan Sontag. Neste, só por ironia. Insone. Lendo e relendo Fante. Autômato do pensamento, rumo às teses que me sustentariam, espécie desajeitada de esqueleto. Pensei criar ali um bunker como o de Hitler. E enquanto as tropas aliadas não o destruíssem, de lá comandaria meu exército. Fechado em mim, sempre correndo, parei numa praça, revi o gramado e as flores. Havia minado o gramado, esmagado com meus pés as flores. Sentei um pouco em um de seus bancos de concreto, neoconcreto, mas sem sintaxe. Talvez ninguém me alcançasse. Ali, invisível, silencioso como se não existisse. Como alguém que prende a respiração para mergulhar e simplesmente esquece. Como quem entra num automóvel, a máquina imóvel segue rumo imprevisível. Confiaria. Em nova pausa, parei ofegante a olhar os folhetos coloridos na vitrine de uma agência de viagens. Para onde? Haveria certamente algum destino. Qual era mesmo o nome da ilha ao meio-dia? Aquela nossa ilha ao meio-dia. Você sabe. Todas aquelas coisas que julgara nossas e que foram apenas minhas. Ilusões pedem perdão. Só assim se consegue ir adiante. Mas sem parar é quase perto, quase. Se mais corresse, é certo, se mais e mais e mais corresse, quem sabe, finalmente me aproximaria. Após cruzar este país inteiro, chegar à rua em que você vivia.
***
Um verão invencível
A espera da chuva me comove. A frase soou como se eu houvesse proferido uma heresia antes. Falei que um dia de sol faz esquecer que a morte existe. Pensava nisso aquela tarde, caminhando no condomínio, quando a tempestade veio. Tão forte que parecia que o universo inteiro chacoalhava por dentro. A chuva me deprime, pensei em silêncio, adiando alguma intimidade. Não queria contar a ela sobre a casa da infância. Papai amarrando um plástico com barbante, abaixo do teto de telhas vãs, sobre nossas camas. Ficávamos vigiando enquanto a bolha enchia de água, até os olhos não aguentarem. No dia seguinte, mamãe mergulharia as pernas na enxurrada, tentando salvar os móveis. Sentia vergonha ainda. Nada denunciava minha expertise, quando via famílias que perdem todas as suas coisas. Não havia razão para dizer a ela que fui uma dessas crianças pobres que temem a chuva ou entregar em suas mãos algo que me revelasse. Uma distância sóbria seria nossa ponte, de preferência tão longa quanto Danyang–Kunshan. Que aquela moça ficasse em Xangai e me deixasse quieta em Nanjing. Mas então ela se aproximou da sacada da casa onde estávamos, por um desses acasos imprevisíveis, porque havia um jardim de inverno, e seus dedos finos desenharam no ar, próximo da minha cabeça, o que imaginei ser uma pequena árvore. Observava, lá fora, o céu cinzento, certamente comovida. Logo, logo, choveria. Tristeza, às vezes, é pesada feito nuvem. Um retrato sem profundidade. Era assim que desejava que me visse. Foto impressa em papel, apenas imagem. Como um desses perfis que expõem nas redes sociais. Talvez, no verso, uma frase inteligente, um aforismo de Nietzsche, algo que a impressionasse. Tudo menos que soubesse a penúria das janelas de madeira sem vidro, a fragilidade da porta de madeira, cheia de buracos, por onde imaginávamos espreitar-nos algum olho, e os ratos. Nunca falaria com ela sobre os ratos, sobre como convivera com os ratos. Temia que morresse de medo ou de ternura. Quem sabe o que uma coisa como aquela despertaria? Notei que ria, distraída, diante dos primeiros pingos. Um abismo crescia na forma como víamos a aproximação da tempestade.
Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).
ansiedade
é a gente surrupiar toda a sensatez
sugar o ceticismo
se sabatinar, auto-sabotar
serpentear por futuros absurdos e quem sabe possíveis,
mas improváveis.
suportar sozinha as situações sonhadas de desalento
é desesperar no abismo
insegurar nas possibilidades
se saciar na insanidade.
***
O período mais duro
Mais trôpego, mais triste, mais traste
Foi aquele inverno nos jardins
De Sophia de Mello Breyner Andresen
Em que esqueci os instantes que vivi
– e os que não vivi –
Junto ao mar.
O Porto era então todo cinza
Todo cinzas
Gélido, úmido, sufocante
Tinha mesmo sido
Um lar?
E mesmo nos jardins
De Sophia de Mello Breyner Andresen
A trégua era só para um suspiro
Um soluço, um sussurro
Uma contemplação das roseiras já murchas
Que um dia pertenceram a Sophia
– agora já éramos íntimas, separadas apenas pelo tempo –
Sophia que um dia disse:
“O Porto é o lugar onde para mim começam todas as maravilhas e todas as angústias.”
***
Poesia
versos podem ser
analgésicos
nostálgicos
(cômicos) incômodos
icônicos
nas costas insustentáveis,
curvados
versos são
etéreos, instantes
materiais, estantes
***
até ontem à noite eu não sabia como era
urrar de dor
até perder a voz
animalesca,
assustar o meu gato
abandonar minhas introspecções
acordar os vizinhos
fazer tremer os móveis
pôr o peito pra fora
junto com a garganta
o som voraz
desfísico
mais veloz que a luz
urrar até raiar
urrar na aurora
uma dor crepuscular
***
por que tanto temor do tempo
e seus tentáculos tentadores
que te enterrarão tiranicamente
a trote e a galope
em grutas de topázio e turmalina?
medo, não
qualquer terremoto, aterramento, desastre,
casulo, desfecho
vale mais que esse deserto
***
hipocrisia
uma crise no hipocampo
direito – esquerda?
sinistros vórtices vívidos
vertigens em
versos
vertigo
Luísa nasceu em João Pessoa (Brasil), onde se graduou em Letras e concluiu o mestrado em Linguística. Contribuiu com artigos sobre literatura e cultura em geral para os portais Diário do Centro do Mundo e Prosa Mirante. Atualmente, é estudante de doutoramento em Literatura e Estudos Feministas da Universidade do Porto.
Assunto de Família (Manbiki Kazoku), filme do diretor Hirokazu Kore-eda, é o vencedor da Palma de Ouro de Cannes de 2018. Esta foi a segunda vez que o diretor japonês foi laureado em Cannes. Em 2013, ele ganhou o prêmio do Júri desse festival, por Tal pai, tal filho. Assunto de Família circulou internacionalmente com o título de “ladrões de lojas” (shoplifters), nome mais próximo do original em japonês, porém o título em português é mais sugestivo.
O filme conta a história de uma família japonesa pobre que vive numa minúscula casa e sobrevive do ganho de trabalhos precários, pequenos furtos em lojas e outros golpes.
Logo na cena inicial, vemos o “homem” da família, Osamu, acompanhado pelo jovem Shota, com seus onze ou doze anos, percorrendo as fileiras de um supermercado. Através de um jogo de comunicações gestuais, os dois realizam alguns furtos de produtos no supermercado, depois saem às ruas para celebrar o feito e levar à família os produtos ilegalmente obtidos. No entanto, na noite fria de inverno, se deparam com a pequena Yuri, com seus seis ou sete anos, do lado de fora de sua casa. Eles fazem com que a garotinha os acompanhe para poder comer e se aquecer. Ela acaba passando a noite com a família que ainda conta com mais três mulheres: a anciã Hatsue, dona e mantenedora da casa; e as jovens mulheres Nobuyo e Aki. Logo saberemos que todos os moradores da casa são agregados da senhora anciã que, supostamente, segundo a assistência social, deveria estar morando sozinha.
Apesar de reconhecerem que não podem ficar com a menina Yuri, ao procurar devolvê-la à sua família original, Osamu e Nobuyo descobrem que ela teria sido vítima de abuso, com equimoses e queimaduras pelo corpo. Então, decidem acolher também a menina, que ganha um novo nome, Lin, e assim passa a compartilhar do cotidiano dessa estranha família e participar inclusive dos furtos em mercados, acompanhando o jovem Shota. Este lhe diz que não frequenta as aulas porque só vão à escola aqueles que não podem estudar em casa.
Cena do filme “Assunto de Família” / Foto: divulgação
Que tipo de família é essa? Kore-eda se tornou conhecido por abordar o cotidiano das famílias japonesas. Costuma ser comparado ao grande Yasujiro Ozu (embora afirme que sua maior influência é o britânico Ken Loach) pelo enquadramento intimista de sua câmera, por retratar o interior das casas familiares japonesas. A imensa delicadeza com que suas lentes retratam seus personagens, no entanto, circunscreve e intensifica as tensões vividas no interior das famílias nas sociedades contemporâneas do Japão e do mundo.
Neste último filme, temos uma família na qual a avó não é avó, o pai não é pai, a mãe não é mãe e os filhos não são filhos. Mas a ausência de laços consanguíneos, no entanto, é substituída pelos enlaces afetivos. Acompanharemos, desde o início da narrativa, a pequena Yuri, agora Lin, a nova integrante desse clã, aprender gradualmente a construção dos afetos que, tecidos dia a dia, nas refeições comuns, nas conversas compartilhadas, mas também nos furtos diários, faz desse grupo de pessoas sua verdadeira família, que a adota e na qual a menina refaz seu sentido de mundo.
No entanto, as resistências logo aparecem: o jovem Shota, criança também adotada, não aceita chamar a nova menina de irmã, nem tampouco é capaz de chamar Osamu de pai, apesar da insistência deste último. O tema do diretor, também autor do roteiro original, parece ser, de fato, colocar em contraste a família de sangue e a família das afinidades eletivas. E se a primeira é marcada pelas relações de violência e abandono, a segunda é obrigada a se dobrar às exigências da sociedade. Em outras palavras, o conflito nuclear do filme está entre o vínculo do destino de sangue e a contingência (ou a fragilidade) dos afetos comuns. Laços fortes e laços fracos.
Cena do filme “Assunto de Família” / Foto: divulgação
A força estética do filme de Hirokazu Kore-eda vem da trama desses laços que fiam o cotidiano íntimo da família às vicissitudes da sociedade contemporânea. Esta última serve como um ambiente tumultuoso à harmonia afetuosa do grupo. Podemos dizer que os integrantes desse clã são todos exemplos de trabalhadores do chamado precariado global: Osamu trabalha como intermitente na construção civil, onde sofre um acidente e só pensa em sua indenização; Nobuyo trabalha numa lavanderia, onde também realiza alguns ganhos furtivos; Aki expõe seu corpo em casas eróticas de peep-show. A anciã, Hatsue, ganha uma pensão de seu marido falecido (que a abandonou) e um dinheiro da família de Aki sem o conhecimento desta. A família vive na fronteira entre o lícito e o ilícito, seja do ponto de vista legal, mas também do moral. O filme é justamente o traçar cinematográfico dessa fronteira, que é ao mesmo tempo real e imaginária: o grupo projeta para si a imagem de uma família que eles nunca tiveram. Nesse aspecto, a anciã Hatsue é a mais honesta: tolera todos os deslizes e a presença dos demais que usufruem de seu dinheiro porque não quer morrer sozinha.
A vida familiar desses abandonados torna-se uma ficção construída, uma fantasia utópica, magistralmente registrada pelo diretor no idílico passeio coletivo à praia. Se essa fantasia será fatalmente estilhaçada pela realidade não é porque sua moral particular diverge das leis, da moral pública e das regras de conduta da sociedade, mas sim pelas tensões internas provocadas pela carência de reconhecimento e de afeto. Há, de fato, uma incomensurabilidade comunicativa entre essa vida de desejo dos integrantes do clã e a estreiteza da opinião pública e dos códigos legais da sociedade. Mas a magia do filme de Kore-eda está em que seu filme é a elaboração estética de outro código – estético, mas também ético – que é partilhado entre os personagens e os espectadores e que comunica um real mais intenso. Como no código gestual mantido entre Osamu e as crianças, essa linguagem cinematográfica inventada é ao mesmo tempo comunicação, sincronia dos afetos e um tipo particular de reza ou de ato de fé. É na decifração desse outro código que reside a possibilidade do entendimento comum e a ideia de uma fraternidade ampliada.
Guilherme Preger(1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.
Para que a pressa
se a vida inteira se tece de acasos?
chove sobre as ruínas do castelo
como outrora terá chovido
sobre as pedras recém-erguidas
para que a pressa
se apenas lento …………………………..lento ………………………………………….lento
o cinzel do tempo
nivela e repara?
À minha revelia
todo ponto é feito e desfeito:
sou um detalhe que passa
assim como – vista do trem –
toda a paisagem.
Como arrancar das pedras
a verdade que encarnam?
tudo agora é anódino e pálido
(até mesmo o pálio
no centro da praça
que de graça se oferece
a nossos olhos desarmados).
Onde o esplendor medieval
que colorimos de bandeiras e de cavalos?
levianamente
pisamos as pedras há séculos dispostas
e nosso coração nem sabe
dos suspiros e das noites
nem sabe da beleza
nem sabe.
***
Deixa sentar a poeira do tempo
debruça-te sobre mim.
Foi de conviver com a luz e com a água
essa minha lucidez esse lodo
esse gosto amargo demais
esse meu lado avesso e morto.
Não tenho margens nem porto
não possuo uma única ilha
mergulha em mim
não mais que tua mão
e acompanha minha vigília.
Velar é preciso
(é como navegar)
teu rosto impermeável
Não se molhará.
***
INVENÇÃO
Para que mais do que já temos?
nossas roupagens humanas
nossa fragilidade
o areal que atravessamos
nossos parcos segredos:
tudo é a vida que vivemos
deveria ser suficiente.
Para que inventarmos
o Amor e seu desassossego?
***
NO ESPELHO (II)
Eu te acendo
e me vejo:
sonhos de infinito
esse jeito tosco
meu andar comprido
meu olhar tão fosco
o amor perdido
– não vivi de todo.
Perdi minha ambição
(lembrança antiga)
já não brinco de poemas
algo se desfez
perdi – razão da vida –
o meu canto.
Já não me comovem sonhos
nem sonhos há que me movam.
Sobra a noite
e em teu vidro – aceso –
o meu espanto.
***
HOMO LUDENS
Lúdico animal o homem
e esse ludismo o transforma
em carta marcada embora
ele nunca saiba a hora
certa xequemate (o rei
morreu? outro rei é posto)
nada se mostra em seu rosto
que não esse jogo vário
de mil nomes – estuário
de todos os seus desejos.
Que mar, que mar os espera?
Não há. O que existe é mera
ilusão – regra do jogo:
pensa-se tirar a sorte
porém morre-se no fogo.
***
Uma
duas
três taças
e o poema se derrama
– vermelho e ácido –
queimando minha garganta
toda palavra é um pássaro escarlate
que voa sempre
(ainda quando me calo)
no tempo escasso da tarde
Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.
“Game over!” e “End game!” são expressões geralmente usadas em jogos eletrônicos para expressar o fim de uma partida. Em alguns casos, em especial nos jogos mais antigos, também significavam o fim de uma determinada fase e começo de um nível mais difícil e superior. Bom, deixando de lado questões geeks, Game Over também constitui o nome de uma promissora banda baiana de indie rock ou pós-grunge (no entender de alguns), hoje muito conhecida no cenário underground soteropolitano, já na estrada há cerca de quinze anos e buscando cada vez mais subir o nível do seu jogo sonoro.
Apresentando alguns trabalhos interessantes desde meados dos anos 2000, tal como a faixa Sadness Online, oriunda de seu álbum de estreia, e, após um hiato de oito anos, a Game Over Riverside (ou GOR, para os íntimos) parece ter retornado querendo mostrar uma sensível evolução na qualidade de seu trabalho nos dois últimos discos. Neles, é inegável a qualidade criativa, firmada em significativo refinamento na produção dos instrumentais e na composição das letras, além de uma boa finalização acústica (a tal pós-produção), características incomuns considerando que os álbuns foram gestados dentro do cenário underground do rock de Salvador, onde tais aspectos não costumam ser muito ressaltados ou sequer são levados em conta pela grande maioria das produções locais (embora haja algumas exceções, obviamente). Tanto Deep Water (2016, Virgo Estúdios) quanto Empty (2017, André Araújo Estúdio) demonstram intenções ambiciosas na busca por uma significativa evolução musical.
Game Over Riverside / Foto: divulgação
Por ora, vamos nos deter na análise de Empty, em que se ressalta a uniformidade da sonoridade geral obtida pela banda.
Seja em canções mais lentas como Paper flames ou Me and my band, flagramos a mesma integração fluida e precisa dos riffs de guitarra e a mesma aceleração da bateria, que se percebem na faixa-título Empty ou, ainda, em Roswell. Empty é pós-grunge, traz boas variações nas guitarras e um pequeno solo de baixo arrebatador, que se integra perfeitamente ao vocal bem destacado, assim como a pegada rápida da bateria, dando a base desta música que lembra algo da fase inicial do Smashing Pumpkins. Já Roswell é mais grunge e soturna, com algumas incursões mais profundas e ressonantes a darem um clima mais psicodélico, algo que a própria letra já remete com o tema alienígena e a inspiração na ficção científica, e que, de certo modo, faz lembrar Foo Figthers, a grande banda de David Grohl. A faixa God in a Talk Show é, sem dúvida, a mais rocker de todas, sendo basicamente um hardcore, com seu ritmo acelerado contínuo e até mesmo um coro vocal. É de longe a melhor faixa em que se evidenciam as qualidades sonoras já referidas. Se I Can`t Hardly Wait é a música mais arrastada em termos de ritmo, descobrimos nela um grunge muito bem executado com vocais bem furiosos casados a um belo arranjo de bateria. A balada Me and my band é a faixa mais solar de todo álbum, cuja sonoridade lembra muito mais algo do rock alternativo dos anos 80 do que os elementos grunge ou pós-grunge da banda, porém mantendo a mesma identidade sonora das faixas anteriores e tendo um belo e melódico riff de guitarra como fio condutor. A última faixa, Paper planes, é uma balada no estilo de bandas como Stone Temple Pilots e Pearl Jam, algo que se percebe de cara no ritmo e nos riffs das guitarras.
Em outras palavras, o som, faixa a faixa, parece seguir uma unidade harmônica na qual não se observam grandes dissonâncias ou diferenciações nos encaixes das músicas em relação à intensidade obtida em termos instrumentais e na proposta do álbum como um todo, voltada para os gêneros indie, grunge e pós-grunge.
Game Over Riverside / Foto: divulgação
Tudo isso é mérito de uma experiência apurada em termos de sensibilidade musical, principalmente se considerarmos a formação com três guitarras que, ainda assim, com toda a sua ênfase, não se sobrepõem aos vocais em nenhum momento. Isso é saber o que exatamente se quer em termos musicais. Em especial, dentro de um gênero que convida a se fazer muito barulho e a ser menos virtuose. É na sutileza destes aspectos que se evidencia a larga experiência dos integrantes da GOR: Sergio Moraes (vocal e guitarra), Leko Miranda (guitarra), JJ Oliveira (guitarra), André Gamalho (baixo) e Leonardo Cima (bateria).
Além do capricho das letras, todas bem amarradas, e da consistência da sonoridade de cada faixa, destaca-se o vocal preciso, junto às intervenções das guitarras com seus belos riffs, que não competem entre si, mas formam uma unidade coesa e que se integra ao bom trabalho da cozinha de baixo e bateria. A única coisa que se pode considerar negativa em Empty é o pequeno número de faixas, mas em torno disso fica a questão: Será o fim do Jogo da GOR ou podemos esperar que ela continue a elevar seu nível?
Emanuel Moreno Pinho é formado em Filosofia e Geografia, frequenta a cena roqueira da Salvador desde os anos 90 e tem como uma de suas bandas favoritas a Faith No More.
É um caso raro de acontecer. Eu considero ser um privilégio meu estar aqui a apresentar uma pessoa que durante cinquenta anos escreveu para si mesmo, para a gaveta, e eventualmente, de vez em quando, para aqueles que, como o que está lá ao fundo [o editor], o quiseram publicar, não é verdade? É uma vida dedicada a uma fé. O autor acredita na poesia, acredita na palavra. Eu me sinto de facto comovida de poder estar aqui com ele hoje e gostaria de vos explicar com palavras muito simples, e não vou ser longa, o que é a poesia lírica. A poesia lírica é aquela poesia que mais de perto nos fala ao coração. Aquela que nós gostamos de recitar, aquela de que nos lembramos quando estamos a conversar com os amigos: olha, os sonetos de Camões; olha um poema da Natércia Freire… É aquele que se nos entranha por dentro.
A poesia lírica é uma espécie de conversa de uma pessoa com o mundo, é uma conversa quase secreta. Disse um teórico canadiano da literatura, Northrop Frye, que a poesia lírica é feita do eu para o eu, mas ela é feita também para ser dita ao outro, porque é evidente que ela é uma forma de comunicação. Disse o teórico Northrop Frye que, quando lemos a poesia lírica é como se fosse um ato de indiscrição, é como se a gente “tresouvisse” a privacidade absoluta do outro e é como se esse outro generosamente nos deixasse entrar naquilo que nós costumamos chamar, e bem, de “alma”; entramos na alma do outro pela poesia lírica.
Uma coisa que a poesia lírica tem de muito bonito e que nos faz gostar dela, é o aspeto ritualizado: ela tem um ritual, um jeito de dizer as palavras, um jeito de organizar as ideias que faz com que tudo fique musical e não é à toa que ela é chamada de “lírica”. É porque no início ela era acompanhada pela lira, acompanhava-se ao som da lira. Aquilo fazia uma junção da palavra com a pura melopeia que acompanhava essa palavra. O nosso amigo António Vera nos seus cinquenta anos de escrita secreta acompanhado pela esposa, com certeza que era a sua musa, já se sabe. Não é verdade, ou talvez até tocasse mesmo lira. Às vezes, no convívio de um casal, fazem-se muitas coisas ao longo da vida.
O nosso amigo António Vera tem no meu entender uma grande noção daquilo que faz a substância da poesia ocidental e da lírica ocidental. Essa noção é, em primeiro lugar, a da musicalidade. Ele tem música nos poemas, ele trabalha muito bem nas retomadas dos mesmos sons dentro do mesmo verso ou entre versos. Ele trabalha muito bem no ritmo, como é que ele quer que o leitor leia, com que pausas, com que forças, com que subtilezas de voz. Ele precisa disso, ele sabe fazer isso e, sabendo disso e precisando disso, ele se enquadra de pleno direito na tradição da poesia em que nós vivemos. Aliás, ele se enquadra também porque revisita formas da poesia. Ele faz, por exemplo, uma linda cantiga de amor, neste livro, como faz também sonetos, que são formas particularmente difíceis. O Couto Viana** e o Nogueira*** dirão: “mas o soneto é uma forma exigente”, o soneto pede uma disciplina mental muito grande para você construir uma ideia e chegar àquilo que se chama “chave de ouro” e, portanto, não é qualquer um que faz um soneto. António Vera tem preciosos sonetos e, daqui a pouco, lerei um deles.
Queria falar ainda um bocadinho, que eu não quero tomar muito tempo. Nós temos que pedir ao Papai Noel para trazer ao Fernando**** umas cadeiras de presente para o Natal para os próximos lançamentos, para podermos explicar melhor as obras literárias. Temos que explicar depressa [pois] com o pessoal de pé, não dá. Mas eu queria dizer uma coisa para vocês que é o seguinte: eu, no começo, disse que o lírico é aquele que se encanta perante a variedade do mundo. O mundo é variado, o mundo é diferente, o mundo é bonito, o mundo nunca é igual. O mundo é sempre uma provocação e o lírico sabe disso, e ele dialoga com o mundo e dialoga através de determinados temas que são também revisitados em toda a tradição cultural europeia e talvez mesmo universal, e que são os temas revisitados também pelo António Vera. Por exemplo, um tema fundamental é o tema do tempo. O tempo passa. Ele tem imensas poesias sobre o tempo que passa. E aquele tempo que passa e que ele retrata nos poemas é um tempo que simultaneamente dá a vida, porque evidentemente nós vivemos no tempo, mas traz a morte também. Porque o tempo é aquilo que nós vamos caminhando através de, não é verdade? E vamos chegar ao outro lado. Então nesse tipo de temática vocês encontrarão laivos de melancolia muito bonita, uma melancolia por vezes muito discreta, muito subtil; ele é muito discreto, ele não é um homem do dizer com muitas palavras, ele não é um homem de muitos adjetivos, ele é um homem do pudor do sentimento.
Um outo tema que ele tem, é o tema da morte e outro tema é o tema da natureza. São todos três temas privilegiados na nossa tradição. Quando ele trabalha esses temas, obcessivamente ele fala uma vez naquilo, depois ele torna a falar, depois no poema seguinte toca noutro assunto, depois retorna ao primeiro, vai revisitando a mesma preocupação, que é uma preocupação humana. O que é que ele está fazendo? Ele está fazendo aquilo que todo o poeta faz e que se não se faz isso não se é poeta. Ele está a estabelecer um lugar da sua reflexão sobre as coisas, ele pensa sobre as coisas, ele vai refletindo e quando nós refletimos sobre as coisas, é evidente que nós não pensamos nelas uma vez só. Para a nossa medida precisamos voltar ao mesmo lugar, tornar a pensar, ver como é que é, contar de novo. E quando ele estabelece esse espaço de reflexão e o revisita, ele então inocula na sua poesia aquilo que eu gostaria de chamar, António Vera, de dimensão filosófica. É a dimensão do pensamento que se constrói sistematicamente, retornando aos mesmos temas e tentando ver até que ponto aqueles temas pesam ou não pesam dentro do imaginário do ser e dos seus livros. Eu vou dar para vocês alguns exemplos, vou ler para vocês alguns poemas do António Vera:
4
da talha benta da senhorinha morta, vazio o bojo de pedra, polido. o rosto deitado da senhorinha morta, cobre-o um lenço de linho.
quem foi o rosto copiado em cera e lírio da senhorinha morta?
responde (o que responde?) o bojo polido, o bojo da talha benta da senhorinha morta, com uma lágrima de vidro: conta de um terço rezado à senhorinha morta, em tempo ido.
17
crepita um vento fraco na crista lúcida da onda. colada à sombra do barco desliza na água minha sombra. planície, verde várzea, móvel e falso espelho de deus, retém a quilha, gela a água! que vento, quilha, mar e sombra sou eu.
38
verde o reflexo na folha iluminada. sobre ele adeja a minha nostalgia.
agora lembro aquele antigo dia feito de som e água.
e um quase nada daquela cor aflora aqui a relembrar a minha vida que se esbate no ar como o vapor da madrugada.
68
a solidão alonga pelo rio, direita à barra, seu ventre de metal. presa a estibordo, a dor, que vai partir, tenta ficar soldada àquele pontal. manhã nascente, é noite noutro rio.
passos nus, vacilantes, de um arrais, timbram o silêncio de um som mole e cavo, e um grito de sereia põe um travo de acre certeza num manar de ais. os sinais amarelos das vigias abriram rumo sobre o rio plano, enquanto em nós se abre um oceano, em que naufragam terras e alegrias.
Ele tem espírito de humor também. De vez em quando os poemas dele são poemas de espírito de humor:
75
à mulher que mais amei levou-me o vento um recado: — perdoaste? — perdoei! ó vento, muito obrigado!
E agora é a revisitação, noutro poema, da poesia medieval da cantiga de amigo:
94
ai flores, ai flores do rosmaninho, se sabeis novas de outro olor amigo, trazei-mo de volta, de sândalo ou trigo, trazei-mo de volta, que de respirar vivo, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
trazei-mo de volta, fazei-mo vizinho, trazei-me um amigo, que não um cativo, livre como o vento, vivaz como um vinho, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
ai flores, ai flores do rosmaninho, partiram as barcas, eu fiquei sozinho, salsugens, madeiras de pinho e de azinho zarparam pelos ares, foram-se os amigos, fiquei no azul, suspenso, sozinho… trazei-mos de volta, que de amigos vivo, que de respirar vivo.
* Texto que serviu de apresentação da obra quando do seu lançamento em Lisboa a 17 de dezembro de 1998, na Livraria Colibri da Universidade Nova de Lisboa.
** Referência a António Manuel Couto Viana (1923-2010), notável poeta português, dramaturgo, ensaísta, ator e encenador.
*** Referência irónica a um dos apelidos de Fernando Pessoa: Fernando António Nogueira Pessoa.
**** Referência a Fernando Mão de Ferro, primeiro editor deste livro.
ONZE POEMAS DE ANTÓNIO VERA
[sem título]
da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.
quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?
responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.
in cursivo menor, 2000, pág. 20.
[sem título]
a morte é um planeta inabitado,
donde partiram quantos ali foram
ou voluntariamente ou enganados,
buscando alojamento, paz, alfombra,
descanso para a alma, ou magoados
por não haver onde esconder a sombra.
tal planeta lá para oeste fica,
bem para trás do sol posto, onde se expande
o raio verde, com o fim do dia,
sarcástica mansão dos desenganos
dum mundo atafulhado só de vida,
mas que à vida responde só com vida
e aos desenganos só com desenganos;
onde o tempo-matéria se desfaz
com presteza contrária à da luz
e os calendários giram só pra trás
in palavras com rosto, 2000, pág. 75.
roleta
uma fonte, dois cântaros:
em um deles, veneno;
de um só tu beberás.
a tua sede aperta.
alguém te diz “és livre”;
alguém te diz “és cego”.
a tua sede é muda.
acerta ou desacerta,
mas beberás com pressa.
e, certo, serás livre,
nesse momento eterno,
que tu decidirás.
in as pestanas de Afrodite, 2001, pág. 29.
torre do bugio, pau de água
à beira de um tejo azul,
grosso pau de água soluça
verdes folhas enlaçadas
em forma de coração.
chora a tepidez dos trópicos,
chora por chica da silva
que lhe afagava o formato
de pau-brasil em ereção,
e os quindins de sinhá-moça,
ao passar por ele as mãos,
duas mil léguas pra lá
dum meridiano a oeste
deste que o ata por cá.
ai! porque as mãos de sinhá,
palmas de leite de coco,
levam-no ao bugio mirar
como se ele fosse um sinal:
a torre sendo um pau de água,
prantado à barra do tejo,
pelas águas enlaçado…
e as dobras das ondas fossem
as lamas das mãos de iá-iá.
in escrito na margem, 2003, pág. 43.
Esta apagada e vil tristeza
(agosto, 2003)
entre a piedade e o desalento
revejo monte e vale:
queimado quase tudo
sujos rios
pobres
desempregados
traficantes
bêbados de poder
e de arrogância
ou de mau vinho.
e indigno-me sozinho
comigo e o nosso mal:
terem-nos roubado
o gesto e a sanha
o número e a vontade
as luzes do saber
sequer a manha
de dar sentido e nome
a Portugal.
in sons que falam, 2004, pág. 100.
Flor de sangue
caem sonhos no poço onde cai sangue
arterial, contigo misturado,
como um pastor no meio do seu gado
segue o expirar da tarde estreme e langue.
e no poço flutua a flor do mangue
que no líquido vive – é o seu fado –
e no líquido morre: lado a lado,
vida e morte excessivas, força exangue.
é nesse espaço rubro, em quatro quartos,
que a terna flor, vivendo as estações,
dá sustento a nós dois, tornados plasma,
a circular no corpo, em sonhos fartos
de posse, de avidez de sensações,
ébrios da fina dor que entusiasma.
in de amor e desengano, 2005, pág. 108.
O Lacrimensor
chora-me ainda hoje
a minha morte breve
para eu saber
se ainda me memoras
medir-te as lágrimas
no rosto
bebê-las a correrem
plo teu corpo
tocar a minha vida e morte
em trasladado gozo
e evaporada a alma
dessas lágrimas
tomá-la dos teus olhos
tão bem vivos
in estrofes elementares, 2007, pág. 102.
Esconjurando o inverno
desde a raiz da minha vida
uma seiva de fé e de certeza
me sobe ao coração
e a tenho presa
no estame desta flor
que a ti entrego
põem-na entre os teus seios …………esses meus amores …………como os teus olhos …………boca …………quanto és
porque dessa união
nos nascerá um filho
primaveril e doce
a esconjurar invernos
in amor sempre e a seguir, 2009, pág. 31.
Português meu amor e língua minha
minha língua-mãe
confusa e linda
relampejas de luz
e crias trevas
onde flutua a tua omnisciência
que é dos nossos sonhos
o mar onde nos levas
a descobrir o mundo
o mundo avassalado
por capitães do lucro
e da ganância
esfarrapada e bela
velha e jovem
que outros irmãos te vistam
e alimentem
onde eu falhei vestir-te
de rainha
e te peço perdão
por esta minha torpe
insanável e tola
inconfidência
in folha a folha os dias, 2010, pág. 73.
Os pólos sensíveis
coração foi-me guitarra
quando coração havia
e o céu enchia e vazava
de meu amor e alegria
por isso eu pra ele olhava
e a melodia nascia
e havia uma pedra rara
que dentro de mim caía
e com ela me arrastava
a dias sem sol de luto
onde ninguém habitava
senão a mágoa sem fruto
mas sempre havia a guitarra
pra quem a tocava havia
dois mundos que se fechavam
mas que alternados se abriam
agora sonho o meu nada
cordas guitarra partidas
in o frio das metáforas, 2011, pág. 84.
Veleiro
qual a vela
salgada de um veleiro
enfuno e vou direto aos horizontes
sem escolher nenhum
eles que me escolham
extinto o raio verde da memória
a estrela da manhã
e a sua história
tanto que o vento sopra
sopra hinos
todos sacros de adeus
não voltarei
voltar é renegar o tempo ido
e isso eu não farei
in apostila (2015, edição póstuma), pág. 55.
BIOGRAFIA BREVE DO POETA ANTÓNIO VERA
Antonio Vera / Foto: divulgação
[José] António Vera [de Azevedo] nasceu em Lisboa, na freguesia das Mercês, a 22 de junho de 1923, e faleceu na mesma cidade a 26 de dezembro de 2012.
Trabalhou desde muito novo: foi empregado no comércio, agente de seguros, funcionário da Contabilidade Pública. De 1958 a 1987 trabalhou nos Serviços da Emigração como representante do governo português para os assuntos da emigração nos países de acolhimento e, já no final da sua carreira, como técnico superior, veio a aposentar-se da ex-Secretaria de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas. Ao serviço da Emigração fez inúmeras viagens, tanto por Portugal como pelo estrangeiro, entre os quais se contam a maioria dos países americanos, vários da Europa, assim como no Irã, tendo-lhe sido necessário dominar fluentemente o Francês, o Inglês, o Castelhano e o Italiano. Completou diversos cursos, entre os quais o Curso Complementar dos Liceus (secção de Letras), o Curso Complementar de Comércio, o Curso do British Council, o da Alliance Française e o Instituto de Estudos Sociais, tendo‑lhe sido conferido o diploma de Política Social pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Também frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, onde não concluiu estudos devido ao facto de não lhe ser permitido faltar ao trabalho para frequentar as aulas e por não existir ensino noturno. Entre 1947 e 1951 colaborou em várias publicações literárias, nomeadamente na Távola Redonda, fundada por António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira, nas revistas Seara Nova e Atlântico, e fez parte dos amigos da Árvore. Exemplos de alguns textos publicados nas revistas citadas acima: Seara Nova: 13/9/47; 1/11/47; 24/2/49; Távola Redonda: 5.º e 7.º fascículos; Atlântico: n.º 5; e revista de Outono de 1951. Foi citado como um dos seus amigos no número da revista Árvore – Primavera e Verão de 1952.
Inscreveu-se como sócio na Sociedade Portuguesa de Autores sob o n.º 4824. Conviva e amigo dos poetas Daniel Filipe e Raul de Carvalho, confraternizou também com José Osório de Oliveira e José Terra. Mas, por dever de ofício e contínuas viagens, não lhe foi possível manter contactos estreitos com estes amigos e outros cultivadores das letras portuguesas. De 1972 a 1974 foi o principal compilador e redator de uma revista informativa editada pelo então Secretariado Nacional da Emigração, o Correio do Secretariado, e de uma revista para jovens filhos de emigrantes, o Boletim da Amizade. Em fins de novembro de 1975, numa viagem de serviço no navio Eugénio C, que fez escala por Génova, e em consequência de uma atribulada mudança de camarote, perdeu uma volumosa coletânea de poesias que tencionava publicar no ano seguinte. Ao empenho extremadamente dedicado de sua filha, Maria José de Azevedo, se deve a publicação da sua obra poética, a qual compreende onze volumes: dez publicados em vida e um volume póstumo. António Vera é também contista e publicou um grande número de artigos ao longo de toda a sua vida.
Da bibliografia ativa do autor contam-se os seguintes volumes: cursivo menor (1998); palavas com rosto (2000); as pestanas de Afrodite (2001); escrito na margem (2003); sons que falam (2004); de amor e desengano (2005); estrofes elementares (2007); amor sempre e a seguir (2009); folha a folha os dias (2010); o frio das metáforas (2011); apostila (2015, edição póstuma). Está em perspetiva a publicação da obra do autor nos países de língua portuguesa.
Maria Lúcia Torres Lepecki nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1940. Licenciou-se e doutorou-se em Filologia Românica pela Universidade de Minas Gerais. Foi docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1970 (Professora catedrática em 1981). Membro do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), membro da Associação Portuguesa de Escritores (1975-1977), vice-presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (1984-1986), conferencista e professora visitante em várias universidades (Salamanca, Oxford, Budapeste, Varsóvia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brown). Investigadora, crítica literária, ensaísta e infatigável divulgadora das literaturas e culturas de expressão portuguesa.
A noite já tinha entrado nos estratos mais bem forrados da goiabeira divina quando de lá do quintal saltaram dois mancos presumindo que a escuridão e uma velha lamparina da chama gasta poderiam dar ao mundo a miragem de novas divindades.
MANCO TONEL
Ando colando em cartas vulcânicas as figuras que darão pelo fim, eventual, do encadeamento lógico da espécie humana.
SÁBIO DETÔKA
O encadeamento lógico é o que levará a espécie humana à sua extinção. Sua única chance é enrolar o encadeamento no pé-de-manga, e ir saindo de mansinho…
MANCO TONEL
Mas aí tem um dilema eterno: o pé-de-manga insiste em não sair do lugar, argumenta que ficou imenso, e cresce cada vez mais a devorar a sombra da planície das ilusões inteira…
SÁBIO DETÔKA
Trata-se de um Pé-de-Manga-Sagrado… Mais uma vez, o Concerto das Nações tira o chapéu para o Brasil.
MANCO TONEL
Isto se deve em grande parte porque abriram a caixa de consertos das nações e deram de cara com a imensidão de um vazio silencioso.
SÁBIO DETÔKA
A caixa de consertos estava quebrada.
MANCO TONEL
Tão quebrada e ao parecer irremediável que logo organizaram um concerto com instrumentos dispersos, a ver se era possível reunir uns tostões para o conserto.
SÁBIO DETÔKA
Apitos e reco-recos…
MANCO TONEL
Mas nada, público esvaziado, instrumentos desafinados, mais parecia a orquestra do Fellini, não juntamos um trocado que seja.
SÁBIO DETÔKA
É que esse público é acadêmico, só quer Guerra-Peixe, o Guarany, e… o Wagner…
MANCO TONEL
Já tratei de reenviar o vídeo para o Xu-Manfú, que não apôs a menor declaração de recibo ou desgosto. Nem conserto ou concerto, os peixes estão em guerra na panela e os guaranis traçaram o Wagner no almoço, com pirão de valquírias e a velha e boa água de fogo.
SÁBIO DETÔKA
Agora então… Só resta embarcar no trenzinho caipira e subir a Serra da Boa Esperança.
MANCO TONEL
Dizem que Dona Esperanza perdeu a serra na bocarra de uma Boa no pantanal. Sequer foi à festança em Currais Novos do Céu.
SÁBIO DETÔKA
Isso acontece com as melhores famílias
MANCO TONEL
As melhores famílias são hoje um outdoor na entrada do Grande Shopping Barnabé, mas ah como doem…
SÁBIO DETÔKA
Quando abre a porta do Saldo Global Começa a Grande Porrada Familiar.
MANCO TONEL
Tailandeses e filipinos no saldão da semana, porcos e pérolas embaralhando as tábuas da lei.
SÁBIO DETÔKA
E o turco vendendo tapetes gombra ké baratinho, freguês…
MANCO TONEL
O turco faria melhor do que insistir em ser videomaker. Mas a quem deleita chá de pó de osso, que trate de raspar o seu bem raspadinho.
SÁBIO DETÔKA
O Selim insiste em querer fazer um zuper-8 do Homem Vapor… não precisa contratar ator nenhum. É só filmar a chaleira.
MANCO TONEL
Pois de tanto falarmos nele o Homem-Vapor acaba de chiar na panela de pressão, e me escreveu dizendo haver perdido o vídeo turco
SÁBIO DETÔKA
O Homem-Vapor é de uma astúcia oriental, e de uma periculosidade de Xu-Manfú … Há sempre um 2° pensamento oculto em suas amáveis crípticas declarações… Xu-Manfú certamente está fumando seu ópio… e quer que tudo o mais vá pro Inferno… Tenha Confúcius seus ancestrais, Buda seu Nirvana… Lao-Tse seu Tao, e Mao-Tse-Tung seu trator… Que lá importa?… Contem eles suas marolas pros parvos… Tenha o Bebê suas Tetas… Xu-Manfú tem o seu Ópio…
MANCO TONEL
E fuma como um jargão caído do pé. Tombando nas raias da impunidade, atravessa os séculos com a mesma pá, cavando o que se agigante contra ele.
SÁBIO DETÔKA
O segredo do Xu-Manfú é que a força do tráfico tem o apoio místico da galera do fubá.
O meu fubá ao sol eu deixei para secar. A Jurema chegou cedo e lavou toda a varanda. O fubá que estava seco aprendeu logo a nadar. A Jurema encabulada saltou bem na minha cama.
Embevecidos com a melancólica voz do prado, os dois troca-leros nem deram por conta, o Homem-Vapor se disfarçou em Surco Talim, pirateou uma nave-mãe nos porões da área 51 e dizem que foi repaginar a Ursa-Maioral…
SÁBIO DETÔKA
Homem-Vapor fala muito, mas o que gosta é de estar juntinho da jornalista do Braz-Ximbum, uma bonequinha de molas…
MANCO TONEL
Telma Suspíria é o nome dela, e pula e pula, como se as verdadeiras molas as levasse em seu íntimo, eu a conheci no México há mais de uma década, e se riu quando indaguei se ela havia engolido um canguru. Com seu olhar magnético me disse: “Eu sou uma rã”.
SÁBIO DETÔKA
Cuidado com a Kiki Moleng… se facilitas… te dá um nó-cego nos cordões do sapato, e te passa um coquetel do Rei Coreano…
MANCO TONEL
Pois foi em outra festa, bem pra lá do ChiBungai, que conheci o então famoso coquetel do Rei Coreano, apontado por três revistas especializadas como o mais atrativo dos alucinógenos líquidos… Lembro que as paredes da festança pareciam os biscoitos Fraterno, e dei de saboreá-las como a última quimera.
SÁBIO DETÔKA
Xu-Manfú e Rei Jonjonga da Coréia cada um tem seu Dadá: Xu-Manfú o seu ópio e Rei Jonjonga os seus foguetões.
MANCO TONEL
Decerto os dois se matariam mil vezes seguidas, empanturrando a barriga da Grande Baleia devorada por Jonas, o Pacífico. Primeiro exercício de levitação: tornar o desejo mais pesado que o objeto.
SÁBIO DETÔKA
Perdemos o salpico na esteira das ilusões, onde os pesos excessivos tinham a última chance de levitarem e as cordas que nos prendem ao mundo poderiam esticar até o desenlace entre sonho e vigília. Os querubins sopravam as flautas uns dos outros. As luzes coruscantes cobriam de efeitos as células que sucessivamente germinavam no umbigo de todas as divas. Quem dera um pomar para reciclar os desejos. Quem dera uma torta onde hibernar as abelhas. Perdemos tudo – ainda grita o Padre Ezequiel, e o tesão amaldiçoado completa o ciclo das tensões.
MANCO TONEL
De tesão amaldiçoado, melhor dar uma pausa no andor, e ir pedir uma benção do Padre, e outra da Mãe de Santo.
Padre Ezequiel me disse que atualmente a fé não anda movendo nem montinho de areia e que no sótão da capela tem uma caixa de milagres que deve estar comida de bolor. Jararuna, a mãe de todos, lá em seu terreiro, me tranquilizou afirmando que de maldição ela entende e que dará um jeito no tesão.
EZEQUIEL
Aí está, o mundo de hoje… a continuar assim, presto virá o Armagedão…
MANCO TONEL
E as tropas de Arcanjos, depois de destroçar os pilantras de Belzebú, voarão pra Terra do Fogo, pra comer as Gigantas Patagonas nas escarpas dos Andes…
Para onde quer que se mande o cachimbo o tempo fumará seus bigodes, não importam os calos do Tinhoso ou as alpargatas do mocreia, a selva será sempre selvagem dentro dos olhos do lince, e o guerreiro mantém a guarda mesmo em repouso. Credo, assim o cajado se parte e a conversa destripa a língua. Dali… Jurema foi se confessar com Padre Ezequiel. Manco Tonel nunca mais se viu.
JUREMA
Ai, meu santo Padre Ezequiel, que faço eu pra obter o perdão divino?…
EZEQUIEL
Pois, Jurema, só com umas lambadas…
JUREMA
Lambadas vossas, meu Padre?…
EZEQUIEL
Mais eficazes serão as lambadas do Sineiro Corcunda, com a corda do sino.
JUREMA
Mas as vizinhas vão ouvir…
EZEQUIEL
Já estão acostumadas…
Jurema ainda indagou se não lhe cabiam melhor umas lambidas, assim os pecados tomavam gosto, se empanturravam e quem sabe até naufragariam na barca dos degredos, ah Padre, deixa…
EZEQUIEL
Lambidas só no Purga, quando Catão de Utica está distraído…
JUREMA
Ai que eu beijo a pulga dele toda…
O PÚBLICO
Beija, beija, beija…
CORTINA
O que eu faço agora? Caio?
Bem poderia ser o fim do psicodrama, não fosse a dúvida corroer a alma acetinada da cortina. Um lapso e os Manuscritos de Tália soltam a sinopse de sua próxima comédia: Brancaleone e as vicissitudes do Dynamo Astral, sempre um patrocínio das Casas Prometeu e a benção do Papa Ponchito. E à dica culinária desta noite, atenção: Mistura o pó da inquietude em um cálice do talo da fina flor de lótus da pradaria… Ajuda o destino a tomar as mais sábias decisões.
MANCO TONEL
Como já disse o homem Fuzed das brasileiras noites: “Os dias que passam, estes passarão, mas, as noites, as noites que passam, ah elas também passarão.” Mas quem passou foi ele.
SÁBIO DETÔKA
O Ibralim se foi?… Uma celebridade dos 50s, surpreendeu-me a qualidade desta tirada!… A sua Coluna, agora fiquei desconfiado… talvez tivesse uma graça oculta… que na mocidade eu não saquei. Mas se ele escrevesse um livrinho inteligente, sua Coluna seria cancelada. Se escreveu, ficou em manuscrito, enterrado no quintal.
MANCO TONEL
Pois é, o Ibrahim não teria o sucesso que teve, na época, se não tivesse se decidido a ser o bobo da corte, resta a dúvida, agora que ele passou, como as suas noites, se ele era bobo mesmo ou se sagazmente criou o notável personagem…
SÁBIO DETÔKA
O Ibralim Fuzed é um curioso caso, meio inspirado no Frunando Fussoa. Todavia, enquanto o Frunando criou seus heterônimos, o Ibralim escolheu ser o seu próprio heteronômio. Um processo singularíssimo, que escapou à argúcia lacaniana do Jório Borbes.
MANCO TONEL
Fuzed, também conhecido como Ibr-Fuzarca, recortava fotos suas em cena e as colava em paisagens de vários países, ruas, praças, na velha Enciclopédia Conhecer. Assim o conheci.
SÁBIO DETÔKA
Fuzed tentava promover seu irmão Zefud, porém Zefud não ia pra frente nem pra trás. Zefud era irmão, mas não tinha o jeitinho do Fuzed, de empacotar dondocas finas com grazzolas velhas frouxas, mas ora, se as dondocas gostavam, tudo bem…
MANCO TONEL
Pois logo dali deu a entender Ibr-Fuzarka que se mudara, por algum tempo… quando a rigor se tornou invisível e visitava as peruas chiques com seu colar de contas e elas em suas mãos suavam o perfume de suas ânsias.
SÁBIO DETÔKA
Assim, pois, desvendado o mistério: Fuzed é o Homem-Vapor que apavora os cinemas dos subúrbios da cidade!… O pavor do Homem-Vapor é contagiante e a inquietação ganhou as manchetes dos jornais, de sucesso em sucesso, foi avançando o filme irresistivelmente em direção ao centro da Metrópole. E Zefud foi erroneamente identificado com o Homem-Vapor. O Destino já estava escrito em seu próprio nome!… Recônditas são as sendas da Fatalidade…
MANCO TONEL
Não resta dúvida. Recônditas são as sendas da Fatalidade…
O PÚBLICO
Ohh-oooooh-oh
A CORTINA
Agora é o jeito. Caí, em definitivo. Este foi meu último suspiro.
Zuca Sardan (1933) e Floriano Martins (1957) são dois destemidos profetas na luta contra os crimes graves da realidade. Brasileiros ambos, o primeiro mora em Hamburgo, Alemanha. O outro, na borda náutica do Nordeste do Brasil, precisamente em Fracaleza Drinks. Jamais se encontraram pessoalmente, embora tenham se conhecido no Congresso Mundial Imaginário da Patafísica. Juntos já escreveram quatro peças de teatro a quatro mãos, além de inúmeras pequenas cenas faiscantes, como esta que agora publicamos. Contatos, de preferência os imediatos de quinto grau.
A resistência
é um gato branco
numa noite
de blecaute.
Muitos pastores
um só holocausto:
Deus nos salve
de Deus.
***
CARTEIRA DE TRABALHO
para André Luiz Pinto
Folha de prata
que cai,
qual raiz no húmus
inferno capital.
Ínfima
renda per capita.
Todo dia
o mesmo esquartejamento.
Em lodo
o lobo rapina
o sol, bois
& relhas riscam
o pasto.
Não faltam homens
que comem feno.
Adão, tu ganhas
o pão com o suor
da tua tarde,
mas muitos dos teus
filhos comem
a nossa carne.
***
TEOLOGIA NEGATIVA
Nas maçãs do mistério um louco
morde a sombra
do sol.
Sob o peso
da solidão
é o meu número.
Hoje a comarca não me compra.
Uso sapatos
de chumbo para o vento
não me roubar.
Mostro a imensa substância
das noites escuras
de San Juan de La Cruz.
Na fuga
do hospício etéreo
a realidade se salva em porta:
arranha-céu.
***
GÊNESIS
Deus, como verbo,
é criação. Pecadores
são santos em potência:
universo em ebulição.
Antes do homem,
os peixes brincavam
nos grânulos da linguagem.
Celebramos o que nos falta.
A poesia é o brilho
de uma estrela
fora de época.
Em tempos implumes,
esqueço os dialetos
falados na Torre
de Babel e brigo
com homens e demônios.
***
REVELAÇÃO
Falta um afago
nas ruas
que pavimentam
as multidões.
Quando o artista briga com
a tirania do horizonte,
salta um sentimento
de beatitude entre os pulmões.
Vidas destroçadas:
desencanto
pelas metrópoles.
Dostoiésvski embriagou-se
do sermão da montanha,
lembra um teólogo,
diante da divina intuição:
o inferno não
é um lugar das almas
non gratae,
é a indigência de amar.
Tito Leite (Cícero Leilton) nasceu em Aurora/CE (1980). É autor do livro de poemas Digitais do Caos (Selo edith, 2016). É poeta e monge, mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É curador da revista gueto. Têm poemas publicados em revistas impressas e digitais.
Tuzé de Abreu é um daqueles nomes que pouco aparecem na mídia ou citado pela crítica, mas cuja atuação e trajetória costuram uma parte importante da música brasileira dos anos de 1960 até hoje. Ele faz parte de uma geração privilegiada, nos anos iniciais da criação da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia pelo reitor Edgar Santos, que levou para ensinar lá mestres da música de vanguarda, como o maestro H. J. Koellreuter. Graduado e mestre em música, foi aprendiz do suíço inventor de sons Walter Smetak, participando da gravação do disco Interregno (1980). Tuzé foi o único músico que vi, até hoje, executar performances com os instrumentos originais de Smetak expostos no Museu Solar Ferrão, em Salvador. Além disso, é parte da geração de grandes nomes da música popular brasileira nascidos na Bahia: Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé, com os quais soma diversos tipos de parcerias, seja tendo suas músicas regravadas ou tocando nos discos. Tuzé fez parte do grupo Quarto Crescente, com o qual excursionou por diversos países, tocou em grupos de choro, como o de Edson Sete Cordas, grupos de samba de roda e é, até hoje, integrante da Orquestra Sinfônica da UFBA.
Em dezembro de 2018, Tuzé de Abreu lançou seu segundo disco solo, Contraduzindo, pelo Sê-Lo Netlabel. O disco saiu depois de um intervalo de 17 anos em relação ao primeiro, Larrálibus Escumálicos Cujolélibus. Com 15 faixas que mesclam músicas novas e releituras de antigas, o disco foi produzido e arranjado por Gil Camará, que também toca violão de nylon. Contraduzindo traz já no nome a “simples complexidade” sonora e poética de Tuzé, como disse Orlando Pinho.
Tuzé transita pelas diferentes vertentes da música: a erudita, a experimental e a popular, seja ela moderna ou tradicional. Todos os elementos estão presentes em suas composições. Talvez por isso a complexidade dessa sua nova obra esteja colocada logo no título. Se “contradizer” pode ser “afirmar o oposto do que foi dito antes”, – e “traduzir” quer dizer “ser a reprodução”, “a interpretação ou expressão de”, “expressar-se através de” -, “contraduzir” poderia ter, como denominador comum de significado, “expressar o oposto”. É mais profundo do que contradizer. É diferente de não traduzir.
Tuzé de Abreu / Foto: arquivo pessoal
Na faixa título do disco, a ideia é expressa pelo jogo de apenas dois versos, ora em negativa, ora afirmativo, que se combinam em contraposição ou se sobrepondo: “Eu tenho medo / Significa eu não tenho medo / Eu não tenho medo / Significa eu tenho medo / Eu tenho medo / Significa eu tenho medo / Eu não tenho medo / Significa não tenho medo”. As frases são cantadas por Tuzé e vão crescendo até que um coro assume a faixa que explora a percussão e o sopro, encerradas pelo ritmo característico das palmas que marcam o samba de roda da Bahia.
O jogo de contrários dos versos de Contraduzindo convivem, no disco, com reflexões sobre questões mais profundas da existência. Como a religiosidade presente em “Totem”, uma adoração a Oxóssi. Em “Imensidão”, busca aquele lugar que não alcançamos, o “mistério” que se esconde na “imensidão do eu”. Eu ou o Nós, que existe apenas no presente: junção de vida e morte. Tuzé canta em “Presente”: “o passado é imenso / o futuro infinito”, entoando as vogais dos adjetivos de forma estendida. Sobrepõe a eles os versos: “E nós? E nós? E nós? Nascendo e morrendo / Nascendo e morrendo / Nascendo e morrendo”.
Diferente de Larrálibus, que somava participações das cantoras Jussara Silveira e Gal Costa, Contraduzindo traz apenas a voz do próprio Tuzé na maioria das faixas cantadas. No entanto, em ambos os discos, a impressão é a de que Tuzé vai nos envolvendo em suas canções até que elas se desfaçam e sobre apenas o som, descascado em timbres e cores. Em Contraduzindo, o auge desse movimento se dá em “Suíte Casazul”. Mas depois ele vai retomando aos poucos os fios separados e os enreda.
Talvez pareça estranho que um músico do porte de Tuzé de Abreu tenha apenas dois discos solos, ainda que sua trajetória seja riquíssima. Em uma entrevista ao programa Especial das Seis, da Rádio Educadora de Salvador, em 2015, ele disse que andava descrente do disco, que preferia colocar suas músicas na internet ou dar aos amigos. E agora, em 2019, o público recebe Contraduzindo como presente. Por outro lado, na mesma entrevista, o músico disse que gostava de se concentrar nos ensaios para os shows, deixar os números super bem ensaiados para dar margem às experimentações ao vivo, desconstruindo, assim, o formato da performance.
Tuzé é nossa história viva e acaba de lançar, no auge de seus 70 anos, um dos discos mais inventivos e melódicos da atualidade.
Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.