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130ª Leva - 02/2019 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Enquanto o mundo explode, nem tudo que nos circunda vem cravado de boas novas. Hoje, ao padecermos em meio à confusão de nossas mazelas políticas, parecemos sem rumo e, mesmo que tentemos modular vistas grossas a esse estado de coisas, ele nos acomete intensamente. A inexistência de um projeto que nos contemple enquanto nação é alarmante, principalmente por sermos, teimosamente, um país que flerta com desigualdades sociais e econômicas abissais. Não menos importante é pensarmos o modo como a cultura vem sendo tratada aqui por estas bandas de proporções continentais. É sofrível ver artistas e autores das mais variadas vertentes serem alvo de campanhas irracionalmente negativas. São movimentos de contraposição que sequer aprofundam tentativas sérias de debate e, portanto, mostram-se incapazes de fomentar argumentações razoáveis e respeitosas no território necessário das ideias. O que testemunhamos com assustadora frequência é a redução das discussões ao patamar mais raso possível, dimensão crítica que não se apoia em recursos minimamente inteligíveis. Assim, quando os antagonismos afloram, ficamos órfãos de um debate que esteja suportado pelos alicerces históricos, teóricos e também práticos que atravessam nossa sociedade em seus mais complexos matizes. Ante a tal estado de coisas, uma pergunta paira: é possível fazer arte que seja totalmente alheia aos imperativos de nosso tempo? Por certo, as opiniões a respeito de tal questionamento restarão divididas. No entanto, é salutar ver com bons olhos o engajamento de um artista com tudo aquilo que compõe o painel da sociedade na qual está inserido. Muitos desses artífices encontrarão na realidade a correspondência imediata com anseios de natureza pessoal e coletiva, os quais perpassam pautas e dilemas vivenciados num determinado contexto histórico. Desse modo, testemunho e denúncia podem ser importantes aliados de um trabalho autoral que intenta repensar as estruturas de uma dada sociedade. No caso do Brasil, material para isso é o que não falta. Ademais, não há dúvida de que seguiremos resistindo pelas trincheiras da arte. Agora, quem engrossa conosco o coro da sobrevivência pelas vias culturais são os poetas Priscila Merizzio, Denise Pereira, Tiago Rabelo, Inês Campos e Valeska Brinkmann. Numa conversa que remonta a marcas identitárias e suas invisibilidades, Sérgio Tavares entrevista a escritora Deborah Dornellas, diálogo estimulado também pelo livro de estreia da autora em questão. É Wilfredo Lessa Jr. quem nos apresenta o novo disco do duo inglês Chemical Brothers. Em sua resenha, Krishnamurti Góes dos Anjos destaca suas impressões sobre “Extemporâneo”, livro do poeta Delalves Costa. Tendo como foco o filme iraniano “3 Faces”, Guilherme Preger oferta-nos as suas atentas análises. Pelos cadernos de prosa, desfilam as narrativas de Mariza Lourenço, Luan Bonini, Samantha Abreu e Lorraine Ramos. Contemplando os percursos aqui presentes, as fotografias de Almir Bindilatti compõem vigorosamente a multiplicidade de expressões da nova edição. Eis a nossa 130ª Leva. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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130ª Leva - 02/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Tiago Rabelo

 

Foto: Almir Bindilatti

 

o grito

 

nas horas de espanto me soterra
[o grito
sussurro caprichoso que espeta
minh’alma cala ao infinito
carrega esmola dispersa
um chão me calça
o céu insano
insônia que abrasa por dentro
encontra o gasoso desatino frouxo
objeta
……….transversa
….enganos
palavra desencalha verbos
sente um ais imaturo acirrar
enfada a nirvana vibrante
anseia cifrar ecos
que brotam
ferindo o ar

 

 

 

***

 

 

 

ruminância

Para Philippe Wollney

 

ruminância dentro do teto-retrátil do meu peito lavra o úmido egoísmo na dor dos meus instintos. suas vozes prefaciam um térmico-temor que percorre minhas correntes e carrega para si a infâmia de minha pequenez de gente; desenha um incolor infinito no meu ínfimo cansaço, bramando um raciocínio atômico entre os meus gemidos. ruminância, dentro desse vento assanha o intrépido firmamento e deita seus sons gélidos na antessala da minha morte; despreza meu coração amante, calcificando na libélula das minhas ramas este vagamente.

 

 

 

***

 

 

 

nas embarcações

 

no fio dessas dores ancestrais
do teu corpo-morno
nas vozes do teu bruto peito
existem vários rios
dentro do rio
labirintos copas casulos
z u n i d o s
que atravessam
de dentro pra fora
furando a carne
d e s a l o j a n d o
que rasga o tecido da terra
e espera esbarra inaugura
que arranca o leme
dessa carapaça verde
dos redemoinhos-portais do tempo
dessas bolhas
no barlavento direcionado
nas embarcações
ecos mudam de direção

 

 

 

***

 

 

 

iv poemas perdidos

 

para Luiz Fernando Cheres
e a sua descendência
existem iv poemas perdidos
dentro do tempo-ausência
e uma faixa clandestina na memória

existem iv poemas
que carregam a densidade das horas
e um temporal de silêncios-infensos-sibilantes

existe uma madrugada calma
nas vértebras da noite fantasmas
sussurros e grilos habitam as praças
enquanto descansa o barulho
da palavra não dita

 

 

 

***

 

 

 

o verbo i

para Casé Lontra Marques

 

aquilo que não queremos calar
– em nós –
é o que nos cala.
inabilidade dada
aos dias,
às horas.
ecos e suas ressonâncias,
suspiro, transbordamento,
distanciamento consanguíneo
rente ao orifício
(tudo passa pelo crivo que
silencia).
verbo que vemos
ao nos vermos.
reflexo do espelho que somos
– do lado de fora –,
não do que sentimos.
representações
[apenas representações]

existe palavra:
a palavra que existe
quando a palavra ainda não existe.

 

 

 

***

 

 

 

o voo do pássaro azul

 

para Luíza.

 

arde
alma, coração.
brilho ofuscado de negros olhos
que morrem [abrasa o leito do tórax]
na soma infinda de pequenos óbitos
eternos que
renascem em sentimento novo,
vestem-se, balbuciantes, agitados.

amores que não são amores festejam
no hipotálamo de uma cor
de ouro;
percorrem a noite da província;
queimam-se, porém,
divertem-se.

um vapor
no sumo da corrente:

– eu gosto é de quem provou do doce
e do amargo.
– eu gosto é do pesar da vida,
de aflição nos dias de inverno.

sente-se a liquidez.
o bater de mãos trêmulas
enseja a ribanceira do tempo
– úmidos dedos, fios que conduzem.
e o pequeno pássaro azul
logra, consagra,
no sobrevoo de asas,
acaricia o medo.

 

Tiago Rabelo é um jovem escritor brasileiro, poeta e estudante de licenciatura em História pela Universidade Estadual do Piauí [UESPI]. Têm poemas publicados na “Antologia Poética Gritos Contidos” (Coruja Escritora, 2017), “Antologia Poesia Agora” (Editora Trevo, 2018), e-book “Brinquedos do Infinito Poemas a dezesseis mãos” (livro disponível para download na plataforma digital VER-O-POEMA, 2018) e nas revistas literárias: Literatura & Fechadura, Mallamargens, QUETETÊ, Revista Prosa Verso e Arte, Ruído Manifesto, dEsEnrEdoS, A Bacana, dentre outras. As Vozes desse Rio (Editora Multifoco, 2018) é o seu livro de estreia na literatura.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Luan Bonini

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Entre escorpiões pt. I

 

– E ae, nene.

– Olha, achou alguma coisa?

– Nada. E você?

– Porra nenhuma. Mas foda-se. Que se foda essa merda.

– Tem café?

– Tem sim, vou fazer. E a pequena cozinha se encheu com o cheiro de café.

Depois de uma semana eu estava sentado de novo naquela cozinha. Um ovo, três kilos de arroz e quatro batatas. Tudo encaixado estrategicamente em dois potes. Microondas. Talheres dentro de um

copo. A prateleira encardida suportava tudo aquilo com elegância. Os produtos de limpeza ficavam embaixo, questão de facilidade. “Melhor que nada”, pensei. Até o fim do mês era aquilo. Acendi o último cigarro e espantei a fome com ele. Hora de dormir que amanhã é outro dia.

Dois dias depois arrumei um trampo no porto de Peruíbe. Meus dedos ficavam fodidos, carne viva. Conheci ela na praia, caiçara e escorpiana. Nicole. Morena, queimada de sol e lábios grossos. Pouco

conhecia das coisas da cidade grande. Vendedores ambulantes que disputavam calçadas, mendigos e putas, buzinas e carros. Pouco sabia. Alugamos dois cômodos. Tudo deu certo por dois meses, é o tempo médio para até paranoias individuais aparecerem. Depois tudo vem à tona.

Três meses depois já estávamos um querendo matar o outro.

– Ae, bola um beck?

– Podepa, bolo sim.

Fumei e fui pra casa. Sabia que Nicole estaria em lá e aquilo me desanimava. Sofria por antecedência. As mesmas merdas de sempre. Dinheiro, pai morto e mãe desempregada, quem foi no programa de quem, artistas, yoga e medicamentos contra o peso. Eu aguentava tudo aquilo.

Relacionamentos são assim. O problema era quando estávamos juntos e usando drogas. E começou a ficar constante. As mudanças de humor, agressivas por parte de ambos, nos desgastavam. Dia a dia. Bebida e cocaína, eu preferia a bebida e ela o pó. Nos dávamos bem enquanto tinha sobrando. Depois vinha a merda. Certo dia dei uma rasteira num maninho só porque olhou a bunda dela. E o trampo

continuava. Peixes, camarões, merdas marinhas. Certo dia eu e Nicole tivemos a pior briga. Saiu por uns quatro dias, voltou, como se nada tivesse acontecido. O cheiro de sexo e cerveja ainda impregnava seu corpo. No dia seguinte que voltou quis arrumar outra briga. Algo se quebrou em mim e foda-se. Taquei suas merdas no chão e mandei se foder. Ela gritava e eu também, ela me machucava enquanto tentava se machucar. A merda tava completa. E eu tava no meio. Os dias seguintes foram de silêncio profundo entre os dois. Estávamos imersos nas nossas merdas internas. Depois ela sumiu. E o trampo continuou. Preguiça. Sabia que meus dias naquele trampo estavam contados. Não suportava o cheiro de peixe impregnado nas mãos, roupas e cabelos. O odor piorava conforme o dia passava. Os dedos encaroçados, fruto das cabeças de camarões descascadas. Cabeças e mais cabeças. Bolhas e cortes. Sabia que a merda do camarão fica na cabeça? Arranca-se a cabeça pra tirar a merda. Literalmente o filho da puta tem merda na mente. Barata do mar. Aquela merda preta percorre quase metade do corpo dele. Pelo menos todo dia tinha peixe na mesa. Arrastei por mais três meses o serviço. Peguei o dinheiro, um bucado de peixe e fui pra São Paulo. Trampar de flanelinha não dava tanto, mas os dedos pararam de encaroçar. Pelo menos minhas mãos melhoraram.

Três semanas depois cansei das ruas. Queria um gabinete, algo com ar condicionado. Começo de ano era sempre uma merda, o calor fodia tudo. Ainda possuía dez reais e um maço de eigth. O mundo era

indiferente aos meus problemas e eu sabia disso. Fumei um cigarro e fui entregar currículos. Não deu certo, pelo menos não hoje. Mas amanhã é outro dia. Fechei os olhos e dormi. Bem suave.

No dia seguinte fui no ônibus conversando com um parceiro, trombei por coincidência, tinha acabado de sair da cadeia. Conheci ele em Peruíbe e agora lá estava ele. Vendendo uns halls em São Paulo. Ideia vai, ideia vem, me aparece com uma foto no celular e pergunta:

– Ta vendo essa foto?

– Que foto?

– Essa porra, olha aqui.

– To vendo. E aí?

– Comassim?

– Que que você acha, porra.

– Eu sei lá, acho nada. Que tem?

– A mina tirou essa foto antes de se matar.

– Mas que merda! Porque você tem essas merdas? Assiste essas merdas. Coisa de doente!

– Doente nada, vi hoje numa matéria. Passou de tarde, Datena. Doidera. Procê vê como a vida é um bagulho frágil, né?

– Pode pa, é sim. Falando nisso, se viu o Luis?

– Vishe. Você é o primeiro dos moleques que eu trombo.

– Pode pa, que fita.

Descemos no mesmo ponto. Quando começou a contar sobre a cadeia, logo em seguida, escuto um barulho alto. Ecoado. Me viro e um policial dá um tapão na minha mochila que cai. Agacho pra pegar e levo uma bicuda na bunda. Caio de cara no chão. Merda! Ele começa a esparramar os pertences com o coturno enquanto faz comentários sobre meus pertences. O fardado não se deu ao trabalho de encostar nas minhas coisas com as mãos. Passava o coturno em tudo. “Que merda é essa? Pobre sabe ler agora?”, pega o livro e lê o nome do autor meio sem jeito “FEREZ?!”. “Que porra é essa?”, grita olhando ao redor. Eu sem saber o que dizer fico quieto. Ele me levanta pela blusa e pergunta de novo “Que porra é FEREZ?”. ”É F-E-R-R-E-Z, senhor”. “R de rato”. “É um escritor do capão”.

“E agora favelado sabe escrever? que porra, hein. É o que me faltava”.

Meu parsa não teve a mesma sorte. Não teve o mesmo diálogo. Foi levado não sei pra onde. Tem passagem? Tem? Então vem cá. Nunca mais o vi.

Loucura. Depois daquilo resolvi recuperar o tempo perdido. Comecei trabalhar e estudar. Os currículos finalmente deram certo. 8 horas num arquivo empoeirado e 05 horas numa cadeira de madeira. Depois de um tempo torna-se automático. Ônibus, chefe, carteira rabuda, chefe gritando, almoço, futebol do fds, chefe, ônibus, professor e salas lotadas. De repente acordei dentro do ônibus. Demorei um pouco até conseguir perder a sonolência. De repente pego uma conversa do meu lado.

– “Oi. Você é do noturno né? Faz qual aula no primeiro horário?” um bombado, do tipo de academia, pergunta pra uma morena de vestido preto e pernas grossas.

– “Ah, LP V. Mas…”

– “Aaaaaah, não, é que eu faço uma depois da sua”. O cara responde na sequência.

– “Mas o que você quer saber porra?”. A mina reage. O cara enfia o rabo entre as pernas e sai vazado. Eu dou uma risada. Ela me olha com um olhar ainda cauteloso e diz “Homem tem que ser assim senão monta”. Bem, se ela diz. E comecei a observar outras pessoas conversando. Animadas, afinal, sexta. O professor declama “fim de aula, bom final de semana a todos!”. Finalmente! Ônibus, caminhada, ônibus, caminhada e porta, xave, cheiro de mofo. Boa sexta.

Na mesma época conheci Karen. Morena de início, possui um belo nariz e pernas grossas. A cintura fina dava o toque. Me esperava em casa com uma garrafa de vinho. Aliás, suco de uva com álcool. Conversas sobre o cotidiano, comer, banho e dormir. Sexo deixávamos pro dia seguinte, antes do serviço. De repente, tá tudo no automático. A gente se torna refém da comodidade. Insensível a toda merda. Explodimos nosso cérebros com comida radioativa e propagandas medíocres, um atrás do outro. E plá! Uma arma contrabandeada por um policial gordo acaba na nossa mão. E estouramos nossos miolos. Pá! O dia a dia nos mata. Rapidin. Consome. Quando me dei conta estava na frente de casa novamente. Chave na mão, porta abrindo.

Normalmente encostava de sábado na Santa pra fumar um baseado. E de vez em quando encostava o Felipe. Playboy, branco e faixa preta em jiu jitsu. De cada dez palavras, nove sobre si. Músculos, academia e bandido bom é bandido morto. Um trago no baseado… cof! cof! Tem que matar todos esses filhos da puta. Cof! Gastei mil reais em esteróides. Tudo pelo corpo né?! Ah, eu não aguento. Foda-se, vou embora. Levanto e saio andando. Ninguém entendeu nada e no dia seguinte o neguinho perguntou “Caralho, luã! Que porra foi aquela ontem? Cê saiu do nada.” “Ah, sabe como é. Às vezes nóis passa mal… mas ae vamos fumar um?” “Vamos ae”.

Sentei com o neguinho, nome Guilherme, mas conhecido como neguinho, e acendi o baseado. Já tava bolado. Na sequência dois moleques encostaram no outro lado da praça pra fumar também. Entre um trago e outro escutei entre eles algo sobre as garotas da escola. Cê viu a Bruna? Eu vi, mó gostosa. Essas coisas. De repente um tapão! Plá! Me viro e vejo os dois moleques levando um enquadro monstruoso. Os policiais apareceram do nada. Nessa meu parsa já se ligou, pegamos o beck e vazamos na miúda. Melhor não arrastar. Fui pra casa e queimei lá mesmo.

Domingo e tudo de novo. Segunda, terça, quarta. Quinta-feira e uma japonesa, meio metro e cabelos negros, entra na sala. Começa a falar. E falar. A boca abre, fecha e mesmo assim mantém um sorriso

eterno. Dos assuntos mais alegres, como happyhour, até a crise política atual e morte de Marielle, todos os assuntos eram acompanhados daquele medonho sorriso. Talvez nunca tenha passado necessidade na vida. Um pai professor sócio em multinacional e mãe professora universitária, estabilidade financeira,

professor de dança, escola particular, férias na Europa, boas amizades e ruas arborizadas. Tudo encaminhou aquela descendente asiática pra felicidade. Tanta felicidade que nem a morte ou miséria

abalavam. Nenhum parente viciado em crack ou vizinha suicida. Talvez por isso sorria tanto.

Parei de olhar pra ela, desisti de ouvi-la e comecei a rabiscar num pedaço de papel. Eu? Tinha tudo pra dar errado. E dei. Mas às vezes coisas boas aconteciam. E o segredo é se agarrar nelas. Quando tudo

aquilo acabou fui pegar o ônibus. Acendi o cigarro e percebi. O mundo continuava lá. E amanhã era sexta. Happyhour e os mesmos bêbados de sempre. Beber com o pessoal do trampo é uma merda. Dificilmente dá certo. Os papos viram grandes debates. Ruins são os críticos, pior ainda, críticos escritores. E com essa pérola Oswald inicia aquela merda. Dizia no último domingo ter comido quase um porco inteiro, joelho, toucinho, com arroz e couve. Oswald devorou o toucinho do coitado em poucos minutos. Luisa era vegetariana e começou a discursar sobre amor aos animais e como humanos são horríveis. Antropofagia? Só dos índios. Eu limitava a acenar com a cabeça meio sem entender. Não tinha pique pra’quele falatório. Só queria ir pra casa e dormir.

Dois meses depois perdi o emprego. Justificaram com “falta de interesse” e “corpo mole”. Além de trabalhar era preciso fingir que amava trabalhar. Sem seguro desemprego fui me virando. E sabia me virar. Comprava sucos de 2 litros e fazia 4, 5. Ligava às vezes a tv e porra, que merda fazem com nosso índios? Dizimam a maioria, fodem um monte de tradição antiga, e depois ainda reclamam quando os cabeças vermelhas querem uma terra. Terra Indígena por direito. E dai que índio tem celular?! Todo mundo tem e índio também é gente, também faz parte de todo mundo. Também quer terra. Enquanto a antropofagia indígena e oswaldiana tem objetivo de assimilar qualidades, o canibalismo do dia a dia faz o mais forte comer o mais fraco. Pura devoração. Empilhados em fábricas. Pausados em gabinetes. Continuamos marchando rumo à luz. A luz. Colocamos nossas bolas no cu e saímos todas as manhãs como se usássemos fardas. Aceitamos. Sim, senhor! E voltamos pra casa. Filhos ingratos e esposas tão perdidas quantos nós. Um tiozinho do aluguel, chefe zangado. Taí o sonho brasileiro, americano, venezuelano. Taí. Olhei pro teto e decidi ir pra rua. A chuva tinha acabado e a goteira ainda continuava. Não encontraria o cara do aluguel tão cedo. Só aparecia em dia de pagamento. E tava longe.

 

Luan Bonini Bonilha de Oliveira nasceu em São Paulo, Brasil, no dia 01 de novembro de 1994. Filho de mãe solteira, durante a infância passou por muitos bairros e cidades paulistas, como São Matheus, Jd. Jaqueline, Campo Limpo, Peruíbe. Instalado no Butantã, mais tarde vai morar em Taboão da Serra, Região Metropolitana de São Paulo. Começou a escrever por volta dos 18 anos, influenciado por Ferrez, Hemingway e Celine. Em 2014, ingressou no curso de Letras na Universidade de São Paulo e atualmente tenta viver da escrita.

 

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130ª Leva - 02/2019 Gramofone

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

THE CHEMICAL BROTHERS – NO GEOGRAPHY

 

 

A palavra “nostalgia” tem a sua origem no grego “NOSTOS”, “volta para casa”, acrescido ao vocábulo “ALGOS”, que por sua vez significa “dor”. Na Grécia Antiga, a palavra designava a dor que atingia aqueles que realizavam longas viagens.

Atualmente, entende-se por nostalgia “o estado de profunda tristeza causado pela falta de alguma coisa”. Essa definição encapsula minha relação com a música eletrônica produzida nos 90. The Chemical Brothers lançou Dig your own hole em 1997, eu tinha 23 com cabeça de 19 e o futuro era ditado pela Inglaterra, não mais no senso de um império econômico, mas na ponta da inovação musical. Jungle, Trance, Trip Hop e a cultura rave (Peace, love and unity, novas drogas, piercings na sobrancelha e noites sem fim) apontavam para um futuro hippie cínico, movido por fora do establishment que seria muito mais inclusivo, uma revolução sem violência, em que as individualidades eram respeitadas e os beats surpreendentes. Toda “dance music” fora desse escopo era “poperô” (uma brincadeira cruel com os versos de “Pump it up” do Technotronic), o velho, o chato e passado como a danceteria de anos antes. O Chemical tinha os melhores clipes, que aludiam às sensações de consumo de ecstasy, cheios de referências e com gente linda vestida para ditar um padrão estético que significava inconformismo e fofura (muito Adidas e temas infantis). A internet engatinhava no Brasil, mas o ICQ já era febre do povinho e o senso de globalismo batia em nossas portas. Tudo prometia.

Claro que tudo mudou, melhorou muito, piorou muito e 2019 tem cara de retrocesso para quem ama liberdade nessas plagas. Nesse roteiro, me senti intensamente interessado em descobrir se o novo álbum do The Chemical Brothers, No geography, seria capaz de achar minha rave de 97 ou propor uma nova.

 

O duo The Chemical Brothers / Foto: divulgação

 

O disco abre com “Eve of destruction”. A faixa tem vocais femininos modulados e robóticos e uma sensação retrô, mas não aquela de 1997, mas de 1992, a la Change on me de Cynthia. Poperô roots, ao menos a transição para a segunda faixa, “Bango”, é feita numa colagem que parece uma das famosas mega mix da rádio Manchete RJ (salve, Dj Lúcio!). O breakbeat de “Bango” é puro desperdício, mais uma colagem, e entramos em “No geography” com uma voz masculina coberta em phaser que avisa que se quisermos deixar tudo para trás, eles no levam. Com esse som tocando no carro de fuga, eu prefiro ir sozinho. Faixa autoindulgente e sem nenhuma surpresa, me vi na esteira da academia. Chega “Got to keep on”, que me lembra “Get Lucky”, do Daft Punk, pelo beat e vocais baseados em disco, mas sem nenhum brilho próprio. A rave vai cada vez mais ficando com cara de poperô de festa de debutante.

“Gravity Drops” acontece trazendo electro em beat sincopado que tem um clima de doce batendo e graves profundos. Ainda não dá para esquecer o início frau, mas já abre um pouco a mente. Peço que São Keith Flint nos traga melhores faixas daqui para frente. Sou prontamente atendido por “The Universe sent me” na voz de Aurora (cantora Norueguesa), e uma house com cordas é pontuada por uma mistura de colagens que traz melancolia e tensão num equilíbrio que só a música eletrônica é capaz. A faixa se expande e respira num crescendo doce. Aurora tem razão: “… I cave in”. Agora bateu. Dali andamos para “We’ve Got to try”, que soa como o Crystal Method (duo americano de música eletrônica, sempre considerado uma versão poperô do Chemical), ironia level hard.

“Free yourself” traz Beth Orthon e, apesar de não haver nada de muito novo acontecendo, é o tipo de faixa que o Chemical faz há 20 anos, sessão de power ioga com muito açaí. Dali pulamos para MAH (Mad as Hell), com outras das marcas dos caras, vocal black 70 remodelado para um beat frenético e uma transição para a house europeia, indo e voltando. Funcionaria em qualquer set para o DJ pegar mais uma água. O álbum fecha com “Catch me i’m falling”. Parece algo que David Guetta faria tentando ser o Chemical, com seus vocais cheios de emoções forçadas e de falsa sensibilidade, além do clichê nos beats. Bom, recomendo que você ponha Dig your own Hole de volta na playlist. Foi o que eu fiz.

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Inês Campos

 

Foto: Almir Bindilatti

 

DIÁRIO

 

quase uma hora do dia primeiro
o bordado ainda sem forma
tiro a mancha do calendário
afundo na água sanitária

uma hora e meia do segundo dia
carícia nos dedos
os dedos no corpo
o desembaraço dos cabelos loiros

quatro horas do terceiro dia
e reconto o prazo
peço que diga sim
giro em torno do rabo

quase amanhecer do quinto dia
sem o rumo da palavra
sem o ponto ensaiado
com o medo
puxando o fio
ao contrário

 

 

 

***

 

 

 

ESCOLHA

 

com a cabeça e o desejo no meu colo
entregou-me o buquê e os espinhos da escolha

eu, depois, no cais
não me virei
ele, depois, contou até cem
à espera dos meus olhos ―

jogou cara e coroa e guardou sua vida

 

 

 

***

 

 

 

FICÇÃO

 

no tempo passado
o pão do domingo era o trigo
ou o corpo
e são bartolomeu se refugiou
com o terror na sua noite

naquele tempo quase inventado
a dúvida se esgueirava nas bainhas
embutidas na pele

no tempo masculino
cada animal da casa cumpria seu papel
atento ao punhal desembainhado

 

 

 

***

 

 

 

INVENTÁRIO

 

procuro as sandálias de minha avó
em corredores de ariadne
evito o porão e seus castigos
a obrigação de comer berinjela
encontro seu precioso caderno de receitas
a secreta preparação da delícia de ameixas
pergunto o que é meu
meu mesmo
daqueles grudados

 

 

 

***

 

 

 

SÃO PAULO DOS NÁUFRAGOS

 

checar os monstros do armário
o tigre debaixo da cama
os pés bem guardados

a estratégia para a fuga
as perguntas arquivadas
e a capa da invisibilidade

 

 

 

***

 

 

 

SICÍLIA

 

são as palavras
aquelas guardadas
ou as outras
ditas aos solavancos
fugidias

são os silêncios
que permanecem
templos antigos
mal restaurados

é a grama
que cresce
ao redor
em cima
dentro

 

Inês Campos nasceu em Belo Horizonte, onde vive ainda hoje. É poeta e advogada. “Geografia Particular” é seu primeiro livro, publicado em 2017 pela editora Cas’a’screver. Possui poemas publicados nas revistas Gueto, Ruído Manifesto, Germina, Acrobata e na iniciativa Mulheres que Escrevem. Atualmente trabalha na finalização de seu segundo livro.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Samantha Abreu

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Pequeno confessionário admiratório

 

Eu escrevo sobre mulheres, pois gosto de imaginá-las majestosas e donas de seus corpos, caminhando em direção a um pôr do sol, sumindo no horizonte dos sonhos.

Acho gentil a poética de seus ventres quando as trompas se transformam em galhos cheios de flores. Existe tanta beleza na anatomia das ancas arredondadas, uma arquitetura sutil dos desníveis.

Admiro a deformação de seus rostos quando sentem; me encanta a euforia de suas vozes e o silêncio de suas dores. São seres que não passam incólumes pela cerca viva e espinhosa da grade de suas próprias costelas.

São jeitos de quem aprendeu sobre os contornos da existência, que enfrentou os desvios necessários das lâminas, que sobreviveu aos abismos diários das pequenas mortes.

Eu escrevo sobre mulheres para descobrir os segredos do mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Uma mulher é uma imagem em pé

 

Uma mulher se levanta roçando suas asas nas pernas dos sonhos

e as asas da mulher flamejam e estalam,

as asas chicoteiam quando a mulher se levanta pisando no acolchoamento de nuvens.

Sempre que a mulher se ergue do meio do nada, de dentro do vapor suado que circula o mundo,

sempre que ela se mostra, sempre que a mulher caminha

eu entendo que anjos e demônios usam seu corpo,

que anjos e demônios se irmanam

sob as formas que ela encontrou de encarar o abismo.

 

 

 

***

 

 

 

Meninas que saltam de parapeitos

 

Algumas meninas se debruçam sobre os parapeitos e observam encantadas outras vidinhas e pequenos afetos. Algumas meninas se debruçam sobre as grades e sorriem com os olhos. Depois se recolhem silenciosas para suas modéstias e sobriedades. Algumas meninas se recolhem.

Eu me deito sobre o vento pincelando no ar meus dedos de autoridade sobre o recato. Tenho desejo de gravidade infinita. E me jogo do parapeito das meninas, sorrindo as sobrancelhas e deformando a boca enquanto berro. Berro, mas não paro de cair. Eu desabo estendida em nuvens.

 

 

 

***

 

 

 

Putas

 

Mulheres passam pela rua de todas as horas arrastando os pedaços de seus corpos anteriores, pedaços de suas trompas, suas pontas de astros. Passam altivas carregando o peso de antigos seios de tantas mamadas, braços marcados por unhas e barbas, genitálias explodidas por nãos que foram ditos entre berros, cabelos enozados por coágulos causados por vômitos cuspindo dentes.

Elas caminham juntas, passo a passo, cantando dolorosamente sua elegia da carne viva, enquanto a rua as observa quase vivas e asseguradas por um mandado de segurança: cem metros de distância e maquiagens de alta definição. Uma renovação pela graça de grandes laboratórios dirigidos por homens cientistas.

As boas pessoas que assistem ao cortejo rezam de cabeça baixa pedindo a benção do esquecimento, mas as mulheres seguem ensanguentadas em direção ao espaço reservado aos que pagam penitências e culpas: putas!

 

Samantha Abreu (Londrina/Pr) é professora e poeta, que pesquisa a literatura de autoria feminina pela Universidade Estadual de Londrina. Já foi publicada em antologias e revistas, além de participar de debates, projetos e eventos literários. Lançou “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011); “Mulheres sob descontrole” (Atrito Arte, 2015); “A pequena mão da criança morta” (Penalux, 2018); e tem dois livros no prelo. Integra as antologias “O Fio de Ariadne” (Atrito Arte, 2014); “29 de Abril: o verso da violência” (Patuá, 2015); “Um Dedo de Prosa” (Atrito Arte, 2016); e “Sob a pele da língua” (Cintra, 2019). Seus textos foram adaptados para o teatro na montagem “Trouxe a chave para libertar sua tristeza”, da Cia AARPA. Faz parte do Coletivo VERSA, que pesquisa, organiza e divulga a escrita de autoras londrinenses.

 

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130ª Leva - 02/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Extemporâneo e hermético (?)

 Por Krishnamurti Góes dos Anjos

 

 

O cenário cultural brasileiro é mesmo cheio de surpresas.  Em que pese nosso antológico marasmo, nossa visão curta e imediatista voltada para os imperativos do bolso e do estômago, essa carga tremenda de depressão de valores, de crises éticas, de estagnação de iniciativas que somem à nossa Cultura, e a paralisação criativa em que vamos afundando, aqui e ali surgem centelhas de genuíno talento, inventividade e perseverança. No Litoral Norte do Rio Grande do Sul (cerca de 100 km de Porto Alegre), há uma pequena cidade chamada Osório, onde vive o poeta e professor de português, literatura e texto técnico da rede pública de ensino chamado Anderson Alves Costa ou, como é mais conhecido, Delalves Costa. Muito bem, o senhor Costa tem já 7 livros de poesia publicados (ele tem 37 anos), e estará em breve lançando o oitavo, que se chama Extemporâneo. Uma coletânea de 50 poemas, alguns deles já publicados em livros anteriores.

E republicar alguns poemas tem mesmo o seu valor, expliquemos por que. Novamente, em que pese essa nossa amalucada sede de ineditismo, vamos deixando de esculpir a linguagem, aprimorar a expressão da técnica literária (isto é imprescindível para todos, sobretudo para os iniciantes), para, finalmente, refinar as criações. O poeta, como declarou em entrevista, é adepto do exercício da reescrita, o qual, em geral, é o mais exaustivo processo, momento em que intensamente se trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Antes de irmos mais adiante na apreciação crítica da obra, vejamos o que ele reponde quando perguntado, na mesma entrevista, quanto a temas e estilo: “As nuances do mundo me fascinam, para cada época um olhar sob a ótica das vivências e experiências de leitura. Escrevo poesia puramente descritiva, hermética (grifo nosso) e/ou memorialista, ou experimento a mistura dessas. Verso sobre o cotidiano, e tudo que o cerca e o que nele habita. Contudo, algumas temáticas aparecem com mais frequência, como já apontaram os críticos e leitores mais atentos. A reflexão sobre existência/condição humana e seus disfarces, a natureza e suas nuances, o universo urbano e suas transformações, a infância/tempo/velhice, o descaso social e o erotismo são os temas mais relevantes, isso quando comecei a me dedicar à produção literária mais intensamente. Não cultivo hábitos, minha poesia vem da vida. Simples assim!”

Volvendo ao livro. Como se sabe, o adjetivo “extemporâneo” significa o que ocorre fora do período ideal; que se manifesta numa época inapropriada ou que acontece inoportunamente; fora do momento oportuno; impróprio para o tempo ou circunstância em que ocorre. E aí temos uma das preocupações centrais da obra desse autor. O tempo, esse senhor dos destinos, é objeto de vários poemas. Interessante notar que esse tema aparece hoje em inúmeros poetas. Há, em nosso tempo do “aqui e agora” e paralela a essa carreira desabalada em que vivemos, uma preocupação terrível com o escoar do tempo em nossas vidas. É que nos damos conta – porque estamos presos a essa variável existencial – que afinal não tiramos tudo ou mesmo nada, como queiram, do desfrute da existência que o próprio tempo de EXISTIR nos proporcionaria. Mais uma de nossas frustrações elementares. E ninguém pense que estamos a nos referir às fases naturais da vida. Infância, idade adulta, maturidade, velhice e etc… Vamos queimando etapas e já nem sabemos viver cada uma delas. Esse nosso sombrio tempo. Veja-se o poema:

 

Tempos de solidão

A enviar distâncias, / O descartável e-mail / Que afasta as vozes / Que isola os afagos / E amarra os relógios / Sequestram o tempo / E as vigas de metal. / O castelo é de areia / Já não tarda, o mar / À deriva, o alicerce / À deriva pessoas partem / Seguem e chegam / Como postam cópias / Sem tato sem fogo. / Solitárias, obstinadas / Passam pelos dias, / Vagam pelas noites, / Passam pelas ruas, / Vagam pelos fatos / E negam a si mesmas. / Fronteiras já não há… / O que há são curvas / E distâncias: solidão / Sem direita, esquerda / Sobre a linha tênue / Solidão enunciativa / Num virtual percurso / Entre o lá e o só! / Descartável, est(a)rte / De viver morrendo / Qual metal sem flor… / E poema sem dor… / E carnaval sem cor… / A enviar distâncias / A projeção, o eco / Da sombra curva / Sem rua, sem teto / Nem caverna pelas paredes!

 

O poema abaixo dá a exata medida de como o poeta pensa o Extemporâneo:

 

Palarvas – o Extemporâneo

 

I

Pra libertar, esterco. Lavras / e larvas no inconcluso / caos! Se não devora / germina-se no recluso / extemporâneo afora, / das g(est(ações às palarvas

 

II

pretenso por versos brancos / a tensionar decolonial / de Abaporu a Boitatá / gesta-se arte, ou será / terra esquartejada tal/ Bruzundanga aos trancos…

 

III

Fecundamo-nos outonais / agora e subversivos / ou é caos, pleno luto / pela página! Inculto, ocultam-nos outrora / para dializar os carnavais.

 

IV

Homemporâneo de lavras / em palarvas extrai arte / e a reparte! Destarte / ora canibal ora mito, / ver-se não circunscrito / a estercar-se de palavras.

Os poemas desse livro realmente versam sobre a vida, o amor, o tempo, as ausências, um nítido engajamento social e a própria poesia. Abordam o homem em suas questões existenciais em busca da compreensão metafísica desses temas. Há na obra textos não somente verdadeiramente bem trabalhados, como de uma profundidade existencial digna de nota. São exemplos: “Maria e José e a Família”, “Quixote – leitor de amanhãs”, “Epifania – a flor politizada”, “Vividez – iguais perante a lei”, “O Trágico de Os – o rio pelas veias”, “Ao rio, gozo de Oceano”, “O Homem sono em claro”, “O Efêmero coadjuvante”, “Antropofagia”, “Linguardente”, “Na praça, cão e ninguém” e “Inconcluso – o Homendereço”.

Uma das vertentes que o poeta envereda é também das mais curiosas e criativas. Referimo-nos à reelaboração ou redimensionamento ou, ainda, uma atualização de questões formuladas por outros poetas que, sem dúvida, contribuíram para sua formação literária. Por vezes, ele apropria-se somente do mote de um poema. Identificamos dois momentos nos quais aparecem referências, embora que indiretas, a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.  Não há como deixar de recordar de Bandeira ante a leitura de “Vou-me embora pro Asteroide 329”. No poema de Bandeira – “Vou-me embora pra Pasárgada” -, há aquele desejo de evasão ante as impossibilidades de uma vida prestes a findar-se pela doença que o atormentava e pelas restrições de uma vida acanhada e sem perspectivas de felicidade. De toda uma vida que podia ter sido e não foi. Já em “Vou-me embora pro Asteroide 329”, o desejo de evasão está, a nosso ver, diretamente ligado ao fazer literário do próprio autor em um meio extremamente desfavorável. Fica a pergunta a propósito do livro: Quem ou o quê é extemporâneo? O poeta ou o mundo que insiste em não enxergar verdades?

 

Vou-me embora pro Asteroide 329

 

I

Velam a morte sem corpo / ao falar a língua dos contrastes, / a língua dos estupef(atos). / Divago explícito e tolo / entre tortos poliglotas, / sem a estes pertencer; / de minuto em minuto / acendo os lampiões / pra iluminar Josés e Marias / e seus íntimos países.

II

Mas em tempos de fogos / de ruas e fogo, de mãos / e brasas, sobrará país? / Embora lhes faltem pão, / assistem ao circo / nos bares e lares / os vio(lados opostos).

 

III

Embora eu sofra de mudança, / eu clamo por metáforas! / Prefiro isso a feias verdades: / ócio a divagar. Portanto, / vou pro Asteroide 329, lá / eu falo a língua dos lampiões, / liberto silêncio das ruas.

Sob outra visada podemos ler dois poemas. “JOSSEU – o herói estrangeiro” e “Enigma, o Claro”, que nos remetem respectivamente ao poema “E agora José” e ao livro “Claro enigma”, ambos de Carlos Drummond de Andrade. Quanto a este último, é preciso que acrescentemos um detalhe: enquanto Drummond demonstra naqueles poemas de Claro Enigma um foco mais centrado nos sentimentos e nas transformações sociais da primeira metade do século XX, Delalves Costa parece abandonar o desejo de encontrar respostas e soluções para os problemas sociais e passa a buscar as perguntas que precisam ser feitas, e com o bom auxilio da Literatura que permite que o universo filosófico e metafísico mergulhe no íntimo do ser humano.

 

Enigma, o Claro

É caminho incerto: longe/perto, / visceral aventura; é procura / que se faz realidade, elasticidade / que se reinventa. É tormenta / pelas veias: relâmpago instigante / às escuras, luz nas procuras / a revelar o mistério. É revertério / o verso reverso e universo / quando às escuras sob procuras / o claro enigma, paradigma: / o novo de novo que deixa de ser / para ser outra coisa. É coisa / outra que estimula, que anula / o óbvio de será, de seria / pelo curso, percurso que se leva / que se faz treva e se trava / aos olhos, à mente; e de repente / do nada o mundo obscuro / se torna pleonástico. O elástico / de ponta a ponta se estica / e edifica a vasta aventura e apura / que a pura verdade habita / não erudita, bendita pela criança / sem os relevos do mundo.

Alguns leitores devem ter observado a utilização de palavras, formada por neologismos, aglutinações de outras palavras e/ou sentidos conferidos pela homofonia e por sons que assumem  sentidos próprios. Claro que são artifícios de construção que o autor emprega. Realmente, uma poética incomum. Estamos diante de construções formais (em boa parte dos poemas) bastante peculiares e que têm gerado uma caracterização de sua poética como “hermética”. Ora, sabemos que o conceito de hermetismo, em literatura, é análogo ao utilizado em filosofia, no que toca a algo cujo sentido é muitas vezes fechado, secreto, impenetrável, oculto e até mesmo indecifrável para o leitor/receptor que não dispõe de ferramentas necessárias para uma apreensão mínima. Essa espécie de incompreensão que ronda um texto considerado hermético, no mais das vezes, está ligada a uma intencionalidade que apela ao leitor um duplo movimento de decifração e recifração. Acreditamos serem pertinentes tais observações, porque desfazem preconceitos e julgamentos equivocados. Preconceitos que partem, inclusive, de uma certa parcela da crítica literária “pré-histórica” que ainda, e anacronicamente, não relativiza os parâmetros de análises fundadas exclusivamente sobre bases de cunho efetivamente mimético. Não é demais referir que a base da linguagem poética é a metáfora que, na sua forma radical, é uma afirmação de identidade: “isto é aquilo”. Em toda a nossa experiência comum, a metáfora é não-literal: ninguém, a não ser um retardado mental, pode tomar a metáfora literalmente.

Já não se busca a mimese em primeiro grau. Aliás, já há muito tempo o poema fala por si. Desde William Blake, demiurgo de todo um universo imagético pessoal, tem se buscado (e conseguido), a renovação da linguagem poética. É inclusive vasta a galeria dos ditos “herméticos” que construíram obra de elevada condensação poética. Ocorre-nos, de memória, Nerval, Mallarmé, Rimbaud, Valéry, Rilke, Salvatore Quasimodo, João Cabral e Murilo Mendes, dentre outros. O próprio Rimbaud, em suas “Cartas do vidente”, já não propunha ao poeta a tarefa de descobrir territórios desconhecidos, que ele desbravaria na frente e de onde traria notícias, muitas vezes informes, ao leitor? Muito bem, o senhor Delalves Costa pratica uma poesia de intensa elaboração formal, com maestria técnica e o uso de uma metalinguagem cortante. Sim pode parecer opaco, de uma opaca tessitura atravessada por sombras e silêncios. Mas é precisamente daí que advém o equilíbrio entre silêncio e palavra, entre o individual e o coletivo, entre a tradição e a renovação. É preciso que se entenda que nos é proposto um hábil jogo dialógico no qual o poeta cria entre o mundo real e o universo do imaginário, a partir de uma consciência linguística que dinamiza o estático e humaniza o desumanizado ao tensionar a linguagem ao extremo, desafiando o dizível. Pensemos nisto antes de afirmar: Ah, o sujeito é um hermético!

E, finalmente, há também em “Extemporâneo”, uma busca de caminhos, de soluções, de saídas para uma nova vida, enfim, porque ninguém mais hoje, em sã consciência, pode admitir que a humanidade siga trilhando esse caminho de insensatez. Os três últimos poemas do livro são testemunhos vívidos dessa busca. Transcrevemos o poema “A Reinvenção”:

É preciso rasgar o modelo hipócrita / deste sistema talhado maquiavélico. / Deste sistema retalhado de costuras / de consequências ardilosas… Aliás,

é preciso rasgar o que não edifica, / amputar punho tirano. Rasgar-se. / É preciso morder pelo alicerce / a morta política dos canetaços. / É precisa rein(ventar fórmulas) / sim, para desentortar bengalas / é preciso, sim, reformas / e significados concretos / sim, remontar conceitos / e desobstruir mundos coagulados.

Sim. É preciso repensar sobras / o vigente modelo remendado. / Vamos atear fogo no resultado / renascer das cinzas não basta, / é preciso remodelar as chamas.

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é escritor, pesquisador e crítico literário. Autor de Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contos e  Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 27 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional –  Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Lorraine Ramos Assis

 

Foto: Almir Bindilatti

 

“Solipsismo nada analítico”

 

Uma vez um amigo disse-me que sou uma pessoa ‘’confusa e nada analítica’’.

A análise da ocasião de nossas falas, para aqueles que se proponham a exercer a função de analista informal, era de uma falha de comunicação tamanha que fazia tempo que não sentia a urgência de despersonalizar, por incrível autodepreciação que me acometeu naquele 483 irradiando suor dos trabalhadores do subúrbio.

A poltrona azul-marinho parecia regozijar-se de entusiasmo para analisar – de modo passado a ferro, com toda certeza – a linguagem corporal que expressava sob seus tecidos quase sintéticos.

A angústia inoportuna realizava-se sob gritos de camelôs e bufos de uma multidão assalariada em seus assentos.

“Você não é analítica, é pretensiosa e confusa.”

“Se concentra no que as pessoas falam, e não no que você acha que elas querem dizer.”

Pareciam períodos de crônicas clichês, mas era a realidade material e objetiva de uma amizade de anos que parecia corroer-se a cada mísera vogal que projetava na tela transparente de um Android.

Considero que a contextualização não tenha sido esmiuçada o bastante.

Vejamos, era uma conversa que revogava qualquer contato mecanicista que outrora tive com meu amigo. Éramos bons amigos, mas eu acredito que nunca tivemos uma projeção de honestidade para com o outro em critérios de personalidade expressada.

Éramos arquétipos estúpidos de uma massificação midiática que conduzia os jovens a serem hedonistas, porém inexpressivos em seus sentimentos e virtudes. Em suma, éramos um montante de personagens que queriam disputar o palco para ter uma autopromoção e aprovação de um e outro.

De um ano para cá, a crise endêmica assola o país – por ironia das casualidades – nosso perfil produtivo de personagens foi para o fundo do poço. Aliás, uma música que pode esmiuçar esse termo seria ‘’Exemplar do fundo do poço’’, do grupo de indie-rock, Violins (eles são bons subprodutos de uma hipermodernidade patológica, aconselho a escutarem após seus jantares). Éramos jovens de 20 anos, mas que parecíamos mais um mesclado de personagens de ‘’Skins’’, célebre e degenerada série britânica.

E essas memórias perpassavam entre várias partes de meu córtex, especialmente o pré-frontal, pois a oscilação de humor tornava-se crônica, como o balançar do 483 na Avenida Brasil.

Pela primeira vez, expus fragilidades de um dia de nascimento e de morte de uma terça-feira, para completar a dualidade jocosa que uma terça-feira evocava. Era de uma considerável humilhação abrir seu tecido emotivo para uma pessoa que, por mais que fosse seu amigo de anos, tenha se tornado seu inimigo que pertencia a um grupo divergente (e sabotador) de seu.

E perpassou, adentrou, erradicou após alguns minutos a discussão que mais parecia que romperia uma longa amizade, para se tornar um reduto de confessionários ético-morais.

O assunto era do fenômeno do individualismo, para ser pertinente à ocasião.

O confessionário alastrou-se da Penha até a Cidade Nova em uma vergonhosa performance de prolactina. Lágrimas brotavam – a este ponto – em meu colo. O sistema nervoso simpático não queria inibir; o confessionário do solipsismo tinha começado, e ele não atentava a contrações das emoções, independentemente de estar situado em uma frota de ônibus com uma aglomeração relativa de trabalhadores.

‘’Eu não sou legal, não, eu sou egoísta. Eu costumo colocar as pessoas em primeiro lugar, e eu, em contrapartida, em segundo espaço. Agora, pois, por que seria egoísta, você me pergunta. Eu não faço isso pelas pessoas, mas sim para não ficar com a consciência pesada, tá ligado.‘’

E ele começava a rir, mas eu tenho quase certeza que era de nervosismo e vergonha individual.

Eu conhecia a peça, igualmente da formação da psique condicionada por uma ideologia de uma classe individualista dominante da sociedade de lucro.

Eu o indaguei, questionei, atordoei, eu o expus – quem sabe, agora, de forma analítica – a gênese desse comportamento que, caso fosse materializado em uma maçã, e alguém fosse, por algum motivo, bater em uma árvore, a fruta iria cair em cada esquina e avenida desse Rio de Janeiro (e por que não falar do mundo inteiro).

Ele ignorou minha argumentação, que agora tinha se tornado um monólogo externo para uma tela de Android.

Porém meu confessionário ainda não tinha cessado, mas sim virado um monólogo – quem sabe, agora, interno –.

O garoto que contemplava os saberes éticos, metodológicos e morais de uma sociedade putrefata por dinheiro e solipsismo me deu um tapa tão forte que eu não me recordava da última vez que alguém tinha me transferido tamanha crítica – e olhe que eu recebo várias e espessas críticas, mas eu não as recebo bem, pois minha patologia moral não me deixa escoar as perspectivas –.

Tinha dificuldades em discernir tais indagações do jovem de óculos que se encontrava a malditos e distantes 21km de meu bairro, a 1h de ônibus. Calculava, agora – pela primeira vez, inclusive – a distância da convergência de nossa amizade no decorrer de quase 5 anos.

‘’Amizade’’.

Era uma condição de relação que não tínhamos aperfeiçoamento.

E talvez a magnitude dessa escassez de condição tão imediata para todos fosse um dos motivos que me afeiçoei a ele.

E por isso, logo, encontrava-me a tremer por uma possível perda.

Era ridículo e quase obscurantista pelo contexto geral de uma nação de adoecidos em suas morais.

Ressoava a porra de uma sirene em minha mente fragmentada, mesclando-se com o falatório do ônibus, que, para completar, estava em um clima quase semiárido pelo descaso.

‘’Você não o perdeu, qual é, é apenas uma projeção de uma possível perda, pois você nunca foi tão humilhada por ele.’’

– Pelo contrário, você o humilhava –

– E a autopiedade do semi míope confirmava a sua condição de fracasso personificada –

‘’Por isso você não o aceitava; pois você estava tão confinada a reter seus conflitos internos em sua condição moribunda, que não percebeu que tinha passado dos limites da fronteira de uma amizade, que somente depois de um ano foi ser de fato uma amizade na prática.”

O que mais parecia assemelhar-se a uma dinâmica de um jogo de simulação de um slice of life (vulgo narrativa do cotidiano), parecia a desertificação de perspectivas de afeição.

‘’Ah, meu ponto chegou. Vou soltar, piloto, para aí, na moralzinha.’’

Sabia, quem sabe, a partir de agora, que eu deveria ter maior autocontrole em minhas interações diárias.

E arcar com despesas desnecessárias com remédios de oscilação de humor desnecessários de uma condição físico-mental desnecessária por uma sociedade desnecessariamente degradante.

E desnecessária.

Desnecessariamente solipsista.

 

Lorraine Ramos Assis, 22 anos, estudante de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Fotógrafa, cujos trabalhos podem ser acessados via Instagram (@catarseoculares). Escrevo para tirar uma sociedade da inevitável zona de conforto.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Valeska Brinkmann

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Querer nada pouco

 

Beber montanhas
escalar mares
marejar segredos
segredar amor
amar ideias
idealizar vida
regenerar árvores
arvorecer ruas
abstecer sóis
ensolarar janelas
abrir livros
livrar deuses
endeusar Terra
plantar palavra.

 

 

 

***

 

 

 

Eu sou bicho

 

eu sou bicho
sou cavalo, sou cachorro
sou alce, sou raposa
ando pelos prados e bosques
por ruas e becos
na noite fria
corro pela beira do mar
meu sangue é tinto
meu corpo é quente
a palavra é só um eco.

 

 

 

***

 

 

 

Na praia com pedras

 

na praia com pedras
dois caranguejos e um cachorro
brincavam
eu era um menino pequeno,
me lembro bem
a onda passava por cima
dos caranguejos
minhas pupilas negras
cheias de ondas do mar
os olhos dos caranguejos
duas bolinhas molhadas
as pupilas escuras do cão
globos sensíveis de lágrimas salgadas
Um casal sacudia a toalha
de praia
mais para trás
por causa do avanço do mar

 

 

 

***

 

 

 

É que hoje não dá mais para

 

ficar ofendendo
ficar insultando
ficar engolindo
sair atirando
ser racista
ser misógino
ser fascista
ficar incógnito
ser cínico
compactuar
achar que tudo foi lula
quando no gabinete senta agora uma mula
(Sem cabeça)
simular que está tudo bem
crer que o problema é além
fingir que a lama do rio é natural
achar que o loiro é angelical
acabar com a natureza
dar razão ao ministro
confiar num sinistro
não demarcar T.I.
sair cortando mato por aí
roubar verba de escola e universidade
abrir alas para a calamidade
é que não dá mais
não dá mais para
só aliviar a coceira
epiderme cheia de verme
não dá mais a parvoíce.

 

 

 

***

 

 

 

Vazio dentro de mim

 

vazio dentro de mim
pau-oco, vácuo, limbo
o espaço entre dois vagões de trem
bateria descarregada
me sinto arriada
quando vai passar?
quando vai voltar o ânimo?

não tenho medo do monstro
ele só faz eu querer
vomitar

Não é ensaio
é a cegueira mesmo.
E o que brecht escreveu em 1938
vale agora 2018
poeta alemão me consola e
uma música do tom:
é o fim do caminho
é pau…tanta paulada

 

 

 

***

 

 

 

Poema sobre dor

 

a foto que vi no jornal
me doeu como um soco
no estômago
o menino de quatro anos
afogado
na beira
de um mar
seu pequeno corpo estendido
sua pequena alma voando

pessoas fugindo
da dor e do medo
em barcos infláveis
cheios de pessoas
fugindo da dor do medo

um soco no teu estômago
topada no joelho, pancada na cabeça
a bomba
e o medo da dor não ter fim

 

Valeska Brinkmann nasceu em Santos, 1972. Estudou Radio e TV na FAAP (SP). Escreve histórias para crianças, contos e poemas, tem textos em Antologias na Alemanha, Brasil, e Portugal e em sites literários como Stadtsprache Magazin, Literaturabr, escamandro (traduçoes). É integrante do coletivo GLENSE (guerrilha literária espontânea na sala de estar. Publicou em 2016 O livro infantil bilíngue “Pedrina- a perua que queria ser pavão” pela editora Bübül Verlag Berlin.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

3 Faces. Irã. 2019.

 

 

Ao contrário de sua obra Isto não é um filme (2011), 3 Faces, do iraniano Jafar Panahi (2019), tem todos os ingredientes de um filme: roteiro, câmera externa tradicional, personagens e enredo. Esta observação é essencial para a obra de um diretor que foi proibido de filmar por vinte anos (em 2010), sanção que continua vigorando.

Seus três filmes anteriores, o mencionado Isto não é um filme, Cortinas cerradas e Taxi Teerã jogavam diretamente com esta ambiguidade, a de serem exemplos de cinema de “não filmes”, na fronteira entre ficção e não ficção, entre obra e registro de circunstância.

Em Táxi Teerã (que foi objeto de um ensaio meu aqui nesta revista), por exemplo, o diretor Jafar Panahi é o motorista de táxi que atende a diversos passageiros. O filme é o resultado do registro de câmeras de vigilância comuns nos táxis de Teerã. Uma das passageiras é uma menina que é sobrinha do diretor e que grava a viagem com sua câmera de celular. Ela diz que precisa rodar um vídeo para a escola e faz uma entrevista com seu famoso tio. Porém, ela informa que precisa editar o vídeo com uma normatização do que pode ou não ser exibido de acordo com as regras passadas por sua escola.

3 Faces também abre com imagens de um vídeo captado pela tela “selfie” de um celular. Uma moça de nome Marziyeh Rezaei, moradora de uma cidade no interior do Irã, envia a imagem de seu próprio suicídio a uma atriz iraniana famosa da televisão, Behnaz Jafari. O suicídio se justificaria pela impossibilidade da moça se tornar uma atriz de cinema conforme seu desejo devido a um casamento arranjado. Ela envia em desespero essas imagens de seu suicídio após supostamente ter enviado repetidas súplicas à atriz para que interviesse em seu nome junto à sua família. O vídeo foi misteriosamente repassado ao celular de Panahi, que o envia a Jafari. Ambos partem num automóvel, dirigido pelo próprio diretor, para a cidade da moça a fim de saber o que aconteceu com ela.

 

Behnaz Jafari, Jafar Panahi e Marziyeh Rezaei / Foto: divulgação

 

Embora seja um filme bem mais tradicional do que os anteriores, nesta última obra ficcional, escrita e dirigida por Jafar (que ganhou prêmio de melhor roteiro em Cannes, 2018), alguns elementos permanecem da ambiguidade com a não ficção de seus filmes anteriores: todos os atores interpretam a si mesmos e as cenas do interior rural iraniano, com suas histórias curiosas, testemunhos inusitados e repentinos incidentes, se aproximam bastante do registro documental.

3 Faces parece, por outro lado, uma referência ou mesmo uma homenagem a filmes anteriores, especialmente de Abbas Kiarostami, um dos maiores cineastas do Irã, falecido em 2016, com quem Panahi trabalhou como auxiliar. Foi também de Kiarostami o roteiro do primeiro sucesso internacional de Jafar, o filme Balão Branco, ganhador de Cannes e que abriu ao mundo a importante safra do novo e revolucionário cinema iraniano. Em 3 Faces estão presentes várias referências mais ou menos explícitas à obra desse cineasta: Onde está a casa de meu amigo (1987), que se passa no interior do Irã e é a busca por um jovem, A vida e nada mais (1990), que é um road movie em meio aos escombros de um terremoto, O gosto de cereja (1997), que é um filme sobre o suicídio, e Dez, um filme experimental feminista que se passa inteiramente dentro de um carro.

Essas referências todas estão presentes em 3 Faces, o que o transforma num filme de compêndio. Essa homenagem póstuma a Kiarostami, que morreu após o último filme de Panahi, pode ser vista tanto como uma elegia à sua obra, como uma recuperação e defesa de seu legado humanista.

Mas o que acontece nesse novo filme? É um road movie em que Panahi e Jafari vão atrás da moça do vídeo para saber se o vídeo é talvez uma armação montada. Essa dúvida quanto à sua veracidade está sempre presente na história. Num momento da viagem à aldeia, Jafari se lembra de que Panahi havia lhe proposto ser a estrela de um filme do diretor justamente baseado numa história de suicídio. Será que aquele vídeo que chegou justamente através do celular do diretor não faria parte de mais uma de suas encenações meio ficcionais e meio realistas destinadas a confundir o regime político iraniano?

 

Behnaz Jafari e Jafar Panahi em visita à aldeia / Foto: divulgação

 

Ao chegarem na aldeia, localizada no Irã Profundo, o casal é recebido num misto de aclamação e uma certa hostilidade, quando o vilarejo descobre por quem ambos buscam. Jafari, por ser estrela televisiva, tem, no entanto, cartaz suficiente na aldeia para conseguir informações. Porém, essa relação é dúbia: persiste no vilarejo certa hostilidade em relação aos “artistas mambembes” e uma lembrança negativa de uma mulher, moradora da vila, que seria mal vista por ter se tornado artista.

Jafari e Panahi ouvem as histórias dos moradores e descobrem os costumes rurais. Ao mesmo tempo em que há um rechaço aos tempos da modernidade e aos artistas, há uma admiração secreta pelas estrelas do cinema e da televisão. Sempre se deslocando de carro acabam por descobrir a história verdadeira da moça (que não sabemos se é ficcional ou baseada em fatos reais) e conseguem intervir nela.

É um filme de conflitos femininos, sobretudo, contra a sociedade patriarcal iraniana que não foi vencida, antes reforçada, pela Revolução. No filme O Círculo, o diretor Jafar Panahi já havia abordado a situação opressiva das mulheres jovens no Irã. Neste filme atual, que retorna a esta questão, ao diretor que interpreta a si mesmo é reservado um papel de testemunha, porém incapaz ou impossibilitado de agir concretamente. Sua função é, antes, narrativa. Embora numa atuação passiva, Jafar Panahi, a exemplo de todos os filmes da era de seu banimento cinematográfico, é um operador entre os mundos da realidade e do imaginário. Sua função é fortemente reflexiva em 3 Faces, acrescentando um inefável viés humanista, um olhar compreensivo e compassivo às tragédias alheias. Como seus demais filmes, 3 Faces também não será exibido no Irã. Porém, qualquer censura a esta obra torna-se imediatamente um ato anti-humanitário, pois a quem ou ao quê esta obra ameaça ou ofende? A vida pacífica, mas por vezes opressiva, é vista sem um olhar de julgamento e sim de entendimento.

 

Cena de 3 Faces / Foto: divulgação

 

Mas resta ao final do filme uma dúvida: de quem são as 3 faces do título? Numa primeira análise, elas correspondem às dos três atores principais: Jafar, Behnaz e a moça Marziyeh. Mas a terceira poderia ser também a oculta face da artista proscrita do vilarejo que é filmada rapidamente de costas pintando um quadro. Ou ainda, a terceira face poderia ser a da também oculta câmera, que embora não seja aparente como num documentário, focaliza as cenas exatamente como uma câmera documental, no limiar entre o registro e a encenação. Na última cena do filme, imóvel no interior do carro, ela emula os olhos do diretor e observa fixamente o distanciamento das mulheres ao longo da estrada enquanto se aproximam os caminhões dos trabalhadores rurais para mais um dia de labuta. Não é esta cena aquela que mostra mais fielmente o encontro e a oposição do caminho cotidiano da vida real fechada em si mesma com a estrada sinuosa, porém aberta como uma rota de fuga, da imaginação e da ficção?

 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.