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131ª Leva - 03/2019 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Felipe Stefani

 

A resistência através da Arte é uma demanda de nosso tempo. E tal frase pode até não trazer nada de novo no transcurso da história contemporânea, mas o fato é que a necessidade de se ressaltar a sobrevivência de nossas vozes e identidades diante de um mundo que ressuscita ideais fascistas é imperiosa. Indo mais a fundo, devemos assinalar que é a preservação das múltiplas subjetividades que transitam em nosso meio quem está em jogo. Sem dúvida alguma, o conjunto de subjetividades que mais precisa de nossa atenção é aquele pertencente aos grupos tradicionalmente postos à margem do processo social, econômico, político e cultural. Então, como calar as vozes que vêm das periferias urbanas? Como alijar os artistas integrantes de minorias reconhecidamente vulneráveis da partilha das oportunidades? Como não reconhecer, em mecanismos de pensamento e ação, as distintas faces que contribuem para fundar nossa nação? São perguntas que nos fazem companhia de modo constante. É impossível ignorar as mais distintas forças que compõem nosso quadro social. Nesse trajeto reflexivo, fica cada vez mais difícil crer numa existência artística cuja produção esteja dissociada daquilo que se vive e experimenta enquanto sujeito. Uma obra construída, por exemplo, em bases identitárias tem demonstrado estar intimamente relacionada à vivência íntima do seu criador. São sujeitos a reverberar suas origens, saberes e sabores, crenças e idiossincrasias como elementos impulsionadores de suas obras. Num mundo onde parecemos habitar em bolhas, o engajamento artístico que se mostra atento às questões coletivas ainda é capaz de nos tocar. Tal constatação se faz presente quando percebemos a expressão de um autor como Alberto Bresciani, que, numa entrevista, demonstra todo seu envolvimento com temas que, para além de sua produção literária, implicam na percepção da alteridade. Em nossa edição atual, vemos Guilherme Preger, ao nos ofertar sua leitura para o filme “Dor e Glória”, transitar pela marca autobiográfica do diretor espanhol Pedro Almodóvar. São de Raquel Almeida, Isabela Sancho, Wilton Cardoso, Pedro Moreira e Sofia Ferrés os poemas que atravessam nosso mais novo caminho editorial. Vivian Pizzinga, num texto eivado de reflexões, vem nos dar seu testemunho sobre os impactos causados pelo espetáculo teatral “Dinamarca”, do grupo pernambucano Magiluth. Por sua vez, Pérola Mathias traz à tona suas escutas para “Vox Populi”, o mais recente disco da Nomade Orquestra. Marcas profundas de nossas humanas idades aparecem registradas nos contos de Viviane de Santana, Héber Sales e Marithê Azevedo. É Lima Trindade quem discorre sobre “Por assim dizer”, o mais novo livro de contos de Yara Camillo. Em meio a todos os recantos da nossa 131ª Leva, somos agraciados com a exposição dos desenhos de Felipe Stefani. Assim, queridos leitores, construímos mais uma ponte para ressignificarmos a vida através das vias da Arte. Sejam bem-vindos aos novos mergulhos!

 

Os Leveiros

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Isabela Sancho

 

Desenho: Felipe Stefani

 

 

No sétimo subsolo
há um pequeno alçapão
para o inferno.

A luz que o transpassa
se parece com esta.
Para abri-lo
basta

empurrar com um pé.

 

 

 

***

 

 

 

Essas coisas parecidas
consigo,

eu me pareço
cada vez mais comigo

e me saturo.

A essa altura,
meu corpo em rusga
já me tem

como corpo estranho.

 

 

 

***

 

 

 

Autoimune, o nome
daquilo que tenho,

tão mágico, tão certeiro
quanto a leitura
de um velho horóscopo.

 

 

 

***

 

 

 

Se eu puder arrancar
de mim o que me faz mal,

o que sobrará?
Uma centelha de teimosia
em meio

a uma ventania

sobre o campo seco
de meus gotejos.

 

 

 

***

 

 

 

Venta
com a força de uma pergunta
prestes ao paraquedas

Tens certeza?
Ouça,

eu não vou me jogar fora.
Vou apenas me desfazer
da sacola.
Troco-a
por uma bobagem qualquer.

Eu a doo,

quero nada em troca.

 

 

 

 

***

 

 

 

Os dedos em pinça
de um asco

que não ignoro.

Eu não consigo abater
a sacola.
Tem o valor
e o nojo de dez relíquias.

Com suas unhas crescendo

depois de mortas.

 

 

 

***

 

 

 

As dobras afinadas pelo tempo
se destacam sozinhas

e o papel me vincula
a estes pertences.

Que espécie de documento
não tem nem mesmo
uma data?

Vinco-o com minhas dúvidas,
eu procuro

pelo meu nascimento.

 

Isabela Sancho nasceu em Campinas, em 1989. Integra o corpo de poetas do portal Fazia Poesia e segue o Curso Livre de Preparação do Escritor na Casa das Rosas. É autora e ilustradora dos livros de poemas “As flores se recusam” (Editora Patuá, 2018 – finalista no Prêmio Literário Glória de Sant’Anna 2019, Portugal) e “A depressão tem sete andares e um elevador” (Editora Penalux, 2019). Ainda em 2019, terá sua primeira plaquete publicada pela Editora Primata e seu terceiro livro pela Editora Urutau.

 

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131ª Leva - 03/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

No tempo da delicadeza

Por Lima Trindade

 

 

Publicado pela Patuá em 2018, Por assim dizer recusa neons e maneirismos. O livro vai na contramão de boa parte do exibido nas páginas das redes sociais e nos estandes das livrarias em que as capas das publicações precisam desesperadamente chamar a atenção de um público não mais tão interessado em atributos como discrição e  elegância. Basta ver a predominância de best-sellers nas vitrines, suas capas carregadas de cores berrantes, seus títulos ofensivos (tanto pela gratuidade do uso de palavras de baixo calão quanto pela “originalidade” de sua poesia). Perto deles, Por assim dizer soa prosaico demais, dito quase como um sussurro para não incomodar a sensibilidade de seus possíveis leitores. No entanto, observemos que a utilização da locução por assim dizer enquanto nome da obra também guarda uma valiosa declaração de intenções, uma não aceitação de um único modo de se ver e se falar sobre as coisas do mundo, uma necessidade de relativização (e reflexão) que julgo extremamente bem-vinda para nosso cenário cultural contemporâneo.

São 16 contos a compor a primeira parte e a reverberar numa segunda. São 16 contos que tratam da condição humana num cenário muito, muito, muito próximo ao que vivemos, presenteando-nos cada um deles com uma centelha de emoção que jamais esbarra em pieguismo, retórica maniqueísta nem pirotecnias linguísticas.

Os temas são variados e estão divididos em “Dos amores”, “Das dores”, “Das viagens”, “Das memórias” e “Das paragens”, desdobrando-se em muitos outros subtemas e situações de conflitos em que os protagonistas lidam com diferenças sociais, violência, desamor, sonhos, esperanças e perdas, as personagens agindo e reagindo como seres autônomos, vivos, senhores e senhoras do próprio destino, muitas vezes nos surpreendendo por suas escolhas e pontos de vista únicos.

Yara Camillo nos faz adentrar a mente de um criminoso quando ele aplica um golpe por telefone num velhinho, permite que acompanhemos os impasses de uma mãe excessivamente protetora em admitir a escolha amorosa do filho, que compartilhemos as alegrias etílicas de uma sem-teto que não sabia rezar, o choro de uma cafetina pela morte de uma das suas protegidas, o pavor que um notório malandro tem de noites de temporal e escuridão, a estranha e compulsiva relação entre uma fã e uma escritora novata e, até mesmo, lança um petardo contra a indústria farmacêutica em sua ânsia monetária.

Esses são alguns exemplos que demonstram vividamente seu interesse em entender de maneira mais profunda a sociedade em que vivemos, mas que seriam vazios se ela não potencializasse a linguagem a seu favor, se não fizesse da técnica uma aliada.

Yara Camillo é adepta da economia verbal. Ela sugere muito mais do que afirma, mostra muito mais do que conta, diz muito ao dizer pouco. Segue o caminho dos mestres, sobretudo Tchekov, Cervantes e o uruguaio Juan José Morosoli, na delicadeza com que constrói suas cenas e explora a tensão de experiências aparentemente banais, assenhorando-se de um tempo com um compasso menos apressado, muito menos leviano. É o que constatamos na abertura de “Duas vias”:

“Ele abria a porta do carro para que ela entrasse.

− A velhice dando passagem à juventude?

− Não: a sabedoria dando vez à pretensão.”

Já neste começo entrevemos o jogo de poder entre o casal, a provocação inteligente, a sedução, o humor, os embates que terão no futuro.

“Com fatos banais e incidentes corriqueiros é possível entrever toda a transformação de uma vida passada a limpo”, diz Arlete Cavalieri ao comentar a síntese poética da narrativa de Tchekov, acrescentando ser essa vida “fragmentária, sem relações imediatas de causa e efeito, sem respostas definitivas aos conflitos e predisposta ao inesperado e ao inexplicável”, juízo esse que se adequa perfeitamente a Por assim dizer, um livro que se presta a mais de uma leitura e não se rende à pressa dos relógios nem à brutalidade das cifras dos mercados. Sua arte está inserida num tempo outro: o tempo da delicadeza.

 

*Para adquirir a obra, clique aqui

 

Lima Trindade é escritor e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Bahia.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Emergir

 

Creio que eu tinha vinte e dois, vinte e três ou vinte e quatro anos. Eu pulava do trampolim de cinco metros, pulava e voltava, competia com os garotos, ficava na fila e pulava de novo. Eu estava me divertindo, nunca aprendi a nadar direito, nado do meu jeito, sem controlar a respiração, mas mergulhar não é problemático pra mim.

Então, ele me disse, “se você consegue pular do trampolim de cinco metros, você também pula do de dez metros.” Ele estava deitado na toalha, em cima do gramado.

“É mesmo?! Tem certeza?”

“Claro!” Fiquei alguns minutos na dúvida e, sentada ao lado dele, mirei a prancha de dez metros.

“Então vou pular. Por favor, fique olhando, se acontecer alguma coisa, se eu demorar muito pra emergir, você já sabe, estou me afogando, e você tem que vir me salvar.” E lá fui eu pular do trampolim de dez metros. Subi as escadas, subi as escadas, subi as escadas. Esta foi a primeira diferença que eu percebi: havia bem mais escadas para subir. Cheguei lá em cima e me dei conta da segunda diferença: não havia ninguém ali. No trampolim de cinco metros eu tinha que ficar na fila esperando os moleques se jogarem. Na fila era uma algazarra, falatório, risos, e minha paciência. No trampolim de dez metros eram apenas eu, a solidão e o silêncio. Estranhei! Mas agora eu estava ali, naquele lugar alto e vazio, como se não  pertencesse à piscina, como se fosse um território proibido. Algo perigoso e ameaçador pairava no ar, mas eu não sabia identificar ao certo. O vento era mais forte e arrepiava a minha pele molhada. Ao caminhar pela prancha e chegar à ponta, olhei para baixo: tudo havia se transformado em pequeno e notei o quanto eu estava no alto, distante deles lá embaixo. Um frio suscitou no meu ventre e não era o vento. Pensei em voltar, se me recordo bem, cheguei a dar alguns passos para trás e parei. Continuei estudando a minha possibilidade e tentando captar de onde vinha aquela ameaça que pairava naquele exato ponto do planeta. Acreditei que poderia ser simplesmente porque eu estava só, lá em cima, ouvindo o silêncio. Voltei a caminhar para a ponta da prancha, meus dedos dos pés ficaram agarrados à beirada. Lá embaixo a voragem azul me mirava e eu mirava o azul da voragem. Olhei para a frente: metade do céu, alguns chumaços brancos de nuvens, as árvores verdes e a lanchonete da piscina -, pequenos e distantes. Olhei para baixo, comecei a me preparar para saltar. Pensei nas competições olímpicas, nas mulheres pulando e se rolando e virando no ar, e caindo n’água. Como elas fazem isso? Abri os braços, elas começam abrindo os braços. Me encarnei em uma nadadora olímpica. Eu mergulharia de cabeça, com os braços levantados para o alto, e ao mergulhar, eu logo faria a curva com o meu corpo para dar impulso para a subida. Mas eu ainda estava com os braços abertos me sentindo a estátua de Cristo Redentor, com a pele arrepiada do vento passando pelo meu corpo.

Levantei os braços para o alto, tomando cuidado para não tocar o céu.

Respirei fundo e me joguei.

A queda foi rápida e nada percebi do espaço, senti apenas quando meu corpo rompeu a membrana da água e a velocidade me empurrou para o fundo. Logo curvei meu corpo para o impulso. Comecei a subir sossegada. Eu tinha os olhos abertos e apreciava a luz na imensidão azul suave. E subi… e subi… e subi, mas eu não chegava. Eu nadava e nadava e não chegava lá em cima onde a membrana me separa destes dois planetas: o líquido e o gasoso. Aí, percebi qual o perigo de se pular do trampolim de dez metros: você afunda demais e precisa ter fôlego o suficiente para subir. Eu não tinha, meu ar estava acabando. Assustada, estiquei mais o meu corpo, me esforcei mais, aumentei a velocidade, me concentrei, reforcei os meus esforços e segui em direção à luz. No fundo da piscina, o silêncio continuou, como se tivesse pulado comigo, assim como a solidão. Eu movimentava as pernas e os braços o mais rápido que eu conseguia, empurrando a massa líquida pesada à minha volta e me concentrava para não perder a calma. Meus pulmões queimavam de tanto segurar o ar e por falta de ar. É assim que se afoga, pensei! É assim que se morre! A solidão e o silêncio, que me acompanhavam desde o alto do trampolim, me proporcionaram uma estranha tranquilidade azul celeste. A luz que se movia e cintilava no avesso da membrana, parecia uma entrada redonda para a salvação. Era apenas o sol distorcido pela cor e pelo movimento d‘água.

Eu movimentava as pernas e os braços me esforçando ao máximo. Quando, finalmente, consegui emergir, eu estava sem ar e sem forças, e no primeiro aspirar pensei que fosse engolir o mundo -, o reverso do trampolim solitário e mudo lá no alto, as pontas das árvores, as nuvens brancas, o azul do céu inteiro, o sol estrelado… Eu necessitava engolir ar, respirar,  simplesmente respirar, mas meu corpo amolecido pelos esforços, meus braços e pernas não podiam mais e, sem forças, eu podia afundar de novo. Boiei. Sempre que estou nervosa e prestes a naufragar, eu boio. De novo meus braços abertos, como um Cristo crucificado. Sob mim o ciano do céu.

Eu normalizava a minha respiração, apreciava o oxigênio. Se algum moleque passasse por mim nadando estabanado, eu perderia o controle e afundaria. Um recém-nascido demanda cuidados, ele é frágil e indefeso. Eu era uma recém-nascida. Mas eu não podia explicar isso aos moleques desastrados, eu precisava agora encher meus pulmões. Por sorte, nenhum deles passou por mim, rindo e espirrando água para os lados, agitando a superfície. Eu estava sozinha neste trecho da piscina, a água lisa me sustentava como no leito de um berço.

Aos poucos consegui movimentar os braços e nadar de costas quase até a margem. Com os pulmões cheios me virei e dei algumas frouxas braçadas: alcancei a beirada, me segurei e atingi a escada, subi e saí da piscina caminhando insegura e meio tonta.

Me aproximei dele e o repreendi veementemente, “que grande irresponsabilidade a sua me falar que eu podia pular da prancha de dez metros, eu quase morri!”.

Ele, que esteve o tempo todo deitado na toalha, e nem me viu pular, apenas disse: “mas você está aqui. Você conseguiu!”.

 

 

 

***

 

 

 

No meio do inferno

 

Ele e seu primo foram passear no final da tarde, nas férias de verão, na trilha à margem da floresta avacalhada porque estava sendo desmatada para construírem um balneário. A trilha fazia parte da antiga rua, agora havia a autoestrada logo mais acima e a mata tomou conta do caminho de terra. Eles gostavam de caminhar nesta parte selvagem, desabitada, onde somente alguns raros automóveis passavam na estrada de areia e terra. Andavam descalços carregando as sandálias nas mãos. À volta, os pássaros piavam, os insetos zuniam, os sapos coaxavam e o verde escuro deixava transparecer os raios de sol fraco. As árvores não eram altas e cresciam intactas em um trecho; em outros, elas tinham sido desmatadas. Na mata densa, cobras, lagartas, aranhas e borboletas podiam ser vistas escondendo-se. As formigas formavam longas fileiras na areia fofa. Outros insetos desconhecidos habitavam aquele mundo. De vez em quando eles se deparavam com um corpo no solo e interrompiam o passeio para buscar um pau e mexer no morto. Virava para cima e para baixo, observavam a estranha couraça ou a pelugem, as antenas, as asas, as patas esticadas, e seguiam. Alguns répteis faziam ruído na folhagem ao saírem correndo assustados quando eles passavam falando alto. E eles se assustavam com o susto dos bichos.

Chegaram ao trecho onde ficava a antiga ponte. Mas ela não estava mais ali, apenas o seu esqueleto. Eles acreditaram que podiam atravessá-la. Assim cortariam caminho pela praia e chegariam em casa antes da tempestade. No canto esquerdo do horizonte nuvens escuras confabulavam. Ele foi na frente. No começo da ponte a madeira estava boa, quase no meio, quando ele passou com o primo atrás de si, a madeira rompeu-se. O primo não pôde continuar e regressou. Ele ficou no meio da ponte, entre um buraco e o outro mais adiante, que ele só viu agora. Lá embaixo o rio negro passava com as tranças da correnteza veloz. Do outro lado do buraco havia uma estreita estrutura de cimento dando seguimento à ponte. Ele tinha treze anos e não sabia nadar. Estava preso no meio do esqueleto da ponte.

— Você precisa pedir ajuda! berrou para o primo parado na margem.

— É, eu vou pedir ajuda! Mas primeiro eu preciso cagar! O seu primo gritou de onde estava.

— O que? Eu estou morrendo aqui e você precisa cagar? Ele retrucou irritado.

— Eu preciso cagar! O primo repetiu agitado e se escondeu atrás da moita ali perto.

Ele ficou sozinho, e não sabia se o seu primo precisava cagar porque estava nervoso ou porque não entendeu a gravidade da situação e tanto fazia quanto tempo ele permanecesse em cima da ponte. O melhor seria não contar com o primo para sair do apuro. Olhou novamente para o outro lado da ponte. Não podia olhar para baixo, a correnteza o deixava zonzo e o sugava. A tarde findava-se, a claridade do sol diminuía rapidamente, e as nuvens escuras se intensificavam e aumentavam. Reprovou a sua coragem. Nos passeios pela mata ele sempre saía andando na frente, enfrentando os répteis e os lamaçais. Agora parado imóvel sobre a frágil madeira ele chegou à conclusão que até o primo chegar em casa e pedir ajuda, já teria escurecido. Não havia luz elétrica ali. Seria breu puro mesclado ao ruído dos insetos. Além disso, os morcegos voariam raspando em seu corpo. Ele acreditava que não sobreviveria. Ele não sabia nadar, tinha medo daquela correnteza negra, do breu da noite e dos morcegos invisíveis.

Ele imaginava o seu primo chegando esbaforido em casa: “o Daniel está lá no meio de uma ponte quebrada sem poder ir para a frente ou voltar”.

— Que ponte, menino? Explica as coisas direito! A mãe diria. E depois da explicação confusa seus pais e seus tios sairiam em seu socorro, todos dentro do carro, munidos de faroletes, e seu pai dirigindo com dificuldade no caminho de areia. Talvez tarde demais! “Não. Eu não vou morrer”, pensou. E observou novamente a construção de cimento do outro lado, cogitando pular. Seria um risco de vida, ele sabia que precisava manter a calma e se concentrar e pular antes que a noite caísse como chumbo e então ele não enxergaria mais nada. Lá embaixo a correnteza passava indiferente. Mas ele podia morrer se pulasse tanto para o lado da viga de cimento quanto para a parte de madeira fragilizada. Talvez pular fosse mais perigoso do que se concentrar para permanecer em pé algumas horas, no escuro, esperando ajuda. Quem sabe os morcegos voassem essa noite para outro lado! E os insetos em solidariedade a ele zunissem mais baixo. Mas também o silêncio seria assustador no qual somente o murmúrio das tranças negras lhe chegaria ao ouvido. Era desesperador ter que escolher entre os diferentes caminhos ruins. Por que o seu primo precisava de tanto tempo? E se fosse o contrário, se fosse seu primo parado no meio da ponte e precisasse de ajuda? Como ele reagiria? O primo não seria tão sensato como ele; desesperado, ele provavelmente já teria caído na água. Mas por um momento ele pensou que em vez dele poderia ter sido o seu primo a estar ali. Ele tinha os mesmos treze anos e sabia nadar.

— Onde você está? Ele gritou para o primo e não recebeu resposta, apenas um pássaro gralhou e levantou voo por trás da copa de uma árvore.

Passados alguns minutos o primo finalmente saiu de trás da moita gritando:

— Eu vou buscar ajuda. Espera aí!

— E para aonde você acha que eu vou? Eu estou preso aqui. Ele respondeu irritado.

— Eu sei.

— Isso é muito sério. Vai correndo pedir ajuda. Eu não posso ficar aqui por muito tempo.

— Não se preocupe, eu estou indo. E a figura do primo desapareceu por entre as árvores e o matagal da trilha. Ele ficou só, ouvindo o ruído da água negra murmurando ameaçadoramente sob seus pés. Os pássaros haviam se calado e não mais voavam. Quanto tempo ele precisaria permanecer assim?

Ele precisava pular, sabia que era esse o único caminho. Seria uma questão de concentração, pensou ele, se se concentrasse livre e profundamente, conseguiria. E fixou o olhar na extremidade da viga de cimento, calculou exatamente onde pousaria o pé.

Durante alguns longos minutos ele pensou o que poderia acontecer, imaginou todas as possibilidade: bater a cabeça e morrer com a cabeça rachada ou cair na água e morrer afogado. O rio levaria o seu corpo para desembocar no mar. Ali na desembocadura o rio era raso e seu corpo permaneceria boiando na água escura misturada com a água clara e cheia de espuma do mar.

Ao longe, no horizonte esquerdo, na retaguarda, nuvens escuras já tinham se juntado em uma manada para desabarem em tempestade. E uma tempestade naquela região litorânea, depois de um dia quente, no meio do verão, significava vento forte, trovões ensurdecedores e inúmeros relâmpagos que se iluminavam intensos e tortuosos no azul cinzento do céu e toda a nervura das nuvens poderia ser vista no plasma sobreaquecido.

Ele precisava pular e sobreviver.

Concentrou-se em alcançar a viga de cimento com um pé (ali cabia somente um pé de cada vez), de forma nenhuma podia olhar para baixo. Seu olhar se mantinha firme para a frente, onde à sua volta as árvores, a montanha adiante, o horizonte acinzentado e uma risca de mar formavam a paisagem. O vento soprava cada vez mais forte. Em pé, sem ter onde se segurar, ele fitou mais uma vez as nuvens obesas marchando em sua direção. Pensou em se sentar, assim não se cansaria tanto e não ficaria tonto com o vento lhe compelindo o corpo. Mas imaginar as suas pernas penduradas em direção àquele negro vertiginoso passando lá embaixo lhe causou aversão. A correnteza maligna poderia criar braços ofídicos e lhe puxar pelos pés. Não, não podia se sentar.

Ele precisava pular.

O rio estava cheio e alargara-se, por causa da chuva dos últimos dias. A grossa correnteza fluía rápida, assustadora. O negro da água parecia com um rio de coca-cola, e, conforme o raio de sol e a profundeza da água, ele adquiria um tom avermelhado. A sua nascente ficava nas montanhas cujas silhuetas ele podia ver de onde estava. E ele não acreditava que a cor escura originava-se das raízes das árvores. Para ele aquilo era a urina daquelas árvores na montanha.

Ele precisava pular.

Escurecia muito rápido. Ele não conseguiria permanecer ereto e imóvel na escuridão. E os morcegos vinham à noite. Quantas vezes ele sentiu as asas de um passando rente ao seu braço nu ou ao seu rosto, quando estava sentado no muro do jardim, tarde da noite quente. Ele se assustava. A mãe lhe dissera para tomar cuidado, os morcegos mordiam, podiam transmitir doenças. Ele tentaria enxotá-los com os braços levantados e perderia o equilíbrio caindo na escuridão do rio.

E a tempestade o mirava. Os primeiros pingos grossos começaram a cair e explodiam em sua pele. Mas ele não podia se desesperar, o medo atrapalharia a sua concentração. Como em um alvo, os pingos lhe acertavam, molhavam a camiseta e o short.

Um sentimento forte de arrependimento lhe enjoava o estômago. Por que ele tinha que ter pisado nesta ponte? Por que ele foi o primeiro?

E de repente os pingos cessaram, também o vento forte parou de soprar e se transformou em uma leve brisa morna. Às vezes, isso acontecia, era o intervalo antes do dilúvio.

Ele precisava pular o mais rápido possível antes que chovesse ou escurecesse. Não podia esperar mais. Enrijeceu o corpo, fixou o olhar na ponta da viga de cimento, calculou a queda de seu pé direito exatamente ali. Convenceu-se de que conseguiria e concentrou-se.

Concentrou-se novamente.

E pulou.

O pé direito pousou no cimento duro, o corpo balançou desequilibrado, ele abriu os braços para recuperar o equilíbrio, e olhou para o horizonte a sua frente. A sensação de alívio transcorreu pelo seu corpo. Mas ele ainda não estava fora de perigo. E de forma alguma poderia olhar para baixo. Estava no começo da viga estreita de cimento, com os braços abertos como um Cristo Redentor caminhando com um pé meticulosamente atrás do outro, mantendo a máxima concentração.

E no final da viga havia mais um buraco entre a margem e a ponte.

Depois de toda a coragem e o risco para chegar até ali havia mais um obstáculo, faltavam poucos passos para ele estar a salvo e de novo o perigo a sua frente. Uma moleza de desânimo abateu o seu corpo, mas ele não podia vacilar.

A margem era um barranco escorregadio cheio de plantas gosmentas, e a água estava parada, suja de lama, de pólens e restos de plantas. Ele não podia cair ali, seria fatal, as raízes das plantas embaraçariam em suas pernas e o puxariam para o fundo lamacento. Mesmo que se segurasse nas plantas escorregadias, o breu da noite o mataria de medo sob o murmúrio da correnteza no meio do rio escuro como o inferno.

Ele precisava pular.

Novamente necessitava da concentração e do sangue frio. As taboas e as folhagens sussurravam com o vento. Repensar as chances que ele já tinha refletido até ali ele não queria e também não havia mais tempo. A penumbra cobria tudo de cinza. Ele precisava pular. Era assim que podia ser morrer, concluiu, apenas ir passear em uma trilha, na natureza, nas férias, em um final de tarde quente e cair em um rio. A morte não passava de uma brincadeira de mau gosto. Ele precisava pular. A tempestade estava no seu encalço, se chovesse enquanto ele estivesse caído na margem lamacenta, a correnteza alargaria-se e o atingiria levando-o consigo. Concentrou-se, ele precisava pular. Não cairia naquela água nojenta. Não podia cair ali. Daria o máximo de impulso. Ordenaria o seu corpo a voar alguns ínfimos metros, esticaria as pernas como um sapo na hora do salto. Nada o impediria de atingir o barranco e fincar os seus pés na terra firme. Concentrou-se. Esperou mais um momento e concentrou-se mais ainda.

Concentrou-se novamente.

E pulou.

E sentiu o pé carimbar a sua marca na parte seca e segura da margem, logo fincou o outro pé mais adiante e mais um largo passo. Estava salvo, nem sequer olhou para trás. A penumbra o envolvia e uma trilha seguia em direção ao mar. Estava livre, estava vivo, pensou correndo feliz naquele trecho descampado, de braços abertos para ele. Aspirou fundo o cheiro salgado da mata mesclado ao da terra e vislumbrou a silhueta escura da imensidão do mar. Estava salvo, estava livre.

Ao chegar em casa, encontrou o primo na varanda conversando com o tio. Tudo estava na sua ordem habitual. Seu pai e seus dois tios tomavam cerveja à mesa na varanda. O calor amolecia os gestos e a noite já tinha engolido as cores e os contornos. Nada revelava que eles tinham sido avisados, ninguém se mostrou contente ou aliviado em vê-lo.

Com um olhar intimidador, ele fitou o primo e o seu primo lhe revidou o olhar com expressão indecifrável.

Ele entrou na casa. As suas irmãs e os outros primos estavam na sala. A mãe e as tias terminavam de preparar a janta, na cozinha. Ele foi para o quarto onde se deitou de costas na cama e, com as mãos cruzadas embaixo da cabeça, mirava o teto no escuro, pensando que provavelmente aquela não seria a única ponte quebrada que necessitaria atravessar ao longo de sua vida.

Neste instante a tempestade desabou derramando gotas pesadas de água, o vento soprava veloz assobiando por entre as frestas de madeira e batendo na janela fechada do quarto, os relâmpagos iluminavam seguidos dos trovões estrondosos e ensurdecedores. Dentro da casa foi uma correria para fechar as portas e as janelas. O pai, os tios e o primo entraram carregando copos, garrafas e pratos de petiscos.

Do lado de fora a tempestade uivava como um monstro feroz, soltando raios e batendo a forte cauda de ventania.

 

 

Viviane de Santana (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

NOMADE ORQUESTRA – VOX POPULI

A Nomade Orquestra chega ao terceiro disco mais entrosada, mais pop e mais coesa, seguindo uma linha ascendente desde seu primeiro álbum de 2014. Sem perder a proposta de mistura de ritmos e estilos musicais que vão do jazz, do fusion, do groove, do hip hop ao afro beat e à música brasileira, Vox Populi, lançado em maio passado, traz ainda um novo e importante elemento: o canto. Por cima de bases instrumentais criadas coletivamente pela big band do ABC paulista, os convidados Edgar, Juçara Marçal, Siba e Russo Passapusso colocaram seus versos e adicionaram sua personalidade às faixas.

Cada convidado está à frente de duas faixas. Aberto por “Ocidentes Acontecem”, com o rapper de Guarulhos Edgar, Vox Populi consolida a longa parceria do grupo com o artista. Edgar participa e performa em vários dos shows da Nomade. E parte da banda também acompanhava Edgar em seus shows antes dele lançar seu disco Ultrassom (2018). Como é típico nas letras e no estilo de Edgar, “Ocidentes Acontecem” e “Constante Mesmice” profetizam verdades relativas, porém suficientemente incômodas e provocativas. Nas músicas, Edgar aponta as doenças da mente, do corpo e da alma que pairam sobre nossa sociedade cada dia mais caótica.

 

Nomade Orquestra / Foto: divulgação

 

O segundo convidado a aparecer no disco é o baiano Russo Passapusso, front man do fenômeno Baiana System. Em “Agente Russo” o baiano faz um trocadilho com o próprio nome para construir a ideia dos versos que canta. Mais otimista que Edgar e pregando o amor e a união como resistência, diz: “eu não troco a luta pra viver no tronco […] câmbio, câmbio, streets, xangô”. Além do ritmo acelerado e suingado, marcado pelos solos do naipe de metais e pela percussão, a faixa é um alívio para as cabeças com febre por causa de séries como Stranger Things, que retoma de maneira superamericanizada o período da guerra fria, e por causa do fascismo político no Brasil atual. “Plena Magia” reforça essa ideia, mas com um ritmo mais calmo e que poderia ser uma balada se fosse mais lento. Sua letra diz: “alegria e resistência: esse é o nosso lema”.

Em contraponto às frases que remetem ao momento político de agora, que estão na boca dos militantes e estampadas em suas camisetas, as faixas de Juçara Marçal e Siba mostram a força da tradição, que é por si só resistência. “Eró Iroko”, saudação a Exu, traz a voz potente e ancestral de Juçara acompanhada pela banda, em que a flauta de madeira tocada por André Calixto se sobressai. Em “Temporada de caça”, talvez a faixa mais longa do disco, Siba canta versos encantados e cheios de sabedoria sobre o mundo, como é comum em suas letras, e faz combinar sua rabeca com o som tirado pelos onze músicos que compõem a Nomade Orquestra.

Cada faixa parece deixar um dos instrumentos da Nomade mais evidente. Ora o sopro, ora o teclado de Marcos Maurício, ora a guitarra de Luiz Galvão, que nunca se perde em meio a tantos instrumentos, ora a percussão. Com Vox Populi, a Nomade Orquestra mostra que vem consolidado uma obra que se sustenta com qualidade, pesquisa e invenção.

 

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Pedro Moreira

 

Desenho: Felipe Stefani

 

 

somente aquele que desavisadamente
dançou sozinho pode sentir na pele
um ameaço de explicação do mundo,
no corpo,
uma repentina liberdade.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

desencantamento
é o ato de engolir
de uma só vez
todo canto que foi cantado
desdizer toda palavra de amor,
refazer os passos,
desmanchar as lágrimas,
é um ato de retomar
a terra distante de todo coração partido
nenhum pássaro é capaz
de desencantar
porque sua vida depende disso:
ele é voz que voa
que ecoa pelo planeta
e ele não pode comer
de volta o mundo inteiro
que ele cuspiu
o amor é um atentado contra si
e os pássaros não são capazes de se suicidarem
a gente é que mata
e mata tanto que até de amor
a gente morre.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

no tempo em que eu quisera
uma paisagem outra – eu desconhecia
o significado da palavra deslumbrante:
um canavial esverdeado, árvores empoeiradas,
crianças debaixo do sol, vendaval de brincadeira,
uma tempestade, uma água tão açude, uma terra
vermelha – eu desatento, mal percebo que o
instante é o que temos, só o que temos
e logo ele vira algo que se passou – uma memória bela de algo
subestimado.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

O meu silêncio é, antes,
um atentado contra mim mesmo.
Uma comunicação que sendo para mim óbvia,
para os outros, mistério. Não um segredo.
Uma rocha que deitei em cima da minha fala.
Cerrada minha língua num nó de desajuste,
caminho e sigo com a boca entreaberta
– sempre há um ameaço de palavra.
Contudo, o silêncio pede que exista, que exista.
O silêncio não quer ser rasgado por uma língua calejada,
por uma boca envenenada, de alma danada.
Ele clama que exista, que exista. Deixe-o viver.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

tem coisas que continuam
sendo segredo mesmo depois de ditas
porque em sua natureza guardam
uma característica
nada verbal,

uma coisa que se sente na pele ou não,
não é transmissível,
não pode ser, são partes de nós

que quando alguém tenta compartilhar arranca de si
talvez uma parte vital que mantivera tudo em pé

cometi por você um suicídio parcial
quase tudo veio abaixo

rachaduras enormes surgiram
no meu rosto envergonhado
de repente goteiras escorrem
por elas, ou era infiltração.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

atravesso o inferno que há em mim
com a coragem que me falta, com a luz que me falta,
com a virtude que não tenho, faço do que me ausenta
a minha força pouco elaborada

a maldade é mais evidente

quando no núcleo dos infernos, todos os cinco
que há em mim, trago nas mãos um copo
de bebida 70 por cento de álcool,
deixo, por um descuido mal-intencionado,
todo o copo cair na pequena chama de meu inferno interior
uma chama azulada, um fogo triste

quero-me um inferno inteiro
não me aceito pela metade.

 

Pedro Moreira nasceu em Itaí no dia 18 de abril de 1995. Desde pequeno se interessou pelos livros e antes de escrever já fabulava. Aos 14 escreveu suas primeiras crônicas, depois passando aos poemas. Reuniu alguns contos em um livro que editou em 2014 chamado “Embora o mundo tivesse cor”, pela Multifoco. Em 2016 saiu um volume de poemas, “Oitenta e três idades”, pelo Clube de Autores.

 

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131ª Leva - 03/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marithê Azevedo

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Sangue de índio

 

Bento tinha mania de abraçar as árvores. Acordava cedo e antes de ir para a escola corria para a mata perto dali, conversava com uma, conversava com outra. E abraçava, abraço forte mesmo de quem gosta muito da pessoa abraçada.  Com essa mania, a mãe dizia que ele devia era ter sangue de índio. –Índio é que acha que arvore é gente. Tirando a mania, a mãe se orgulhava do menino: inteligente, esperto, afetuoso e com saúde. A professora vivia elogiando o Bento. – Bento vai longe. Quem sabe ele poderia até ser um médico, quando crescesse, pensava a mãe, em silêncio. Um dia, quando Bento já tinha saído para abraçar as arvores, a mãe ouviu ruídos de motosserras vindo da mata. Saiu na porta e viu um monte de caminhões parados em volta das arvores. A mãe fechou a torneira da pia, tirou o avental, tapou o bolo com um pano de prato e foi lá ver o que estava acontecendo. No caminho encontrou outros vizinhos olhando. Quando chegou, várias arvores já tinham sido derrubadas. E havia um grupo de homens em volta de um tronco, jogado na terra, tentando tirar alguma coisa. Quando a mãe se aproximou dos homens, viu o Bento agarrado a um tronco com as pernas e os braços. Tiveram que enterrar o menino com o pedaço de tronco junto.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

 Pauzinhos de picolé

 

-Mãe, se você achar pauzinho de picolé na rua, traz pra mim? Pergunta o Luis Antonio, entretido, na varanda, contando os pauzinhos de picolé que já tinha conseguido. Nisso, passa o avião, baixinho, ali perto. -Estão jogando remédio na plantação, vem prá dentro que este é forte, depois vai ficar se coçando aí, diz a mãe. Luis Antonio corre pra dentro com a caixa de pauzinhos de picolé na mão. A mãe olha aquele monte e pergunta: -Pra que, tanto palito de picolé, menino? Eles esperam o avião passar, com portas e janelas trancadas. Quando não se ouve mais o ruído do avião, Luis Antonio pega a caixa com os pauzinhos de picolé e sai de casa. – Vou catá passarinho. Luiz Antonio caminha pelo bairro, olhando debaixo das arvores. Acha um, coloca na caixa, acha outro, coloca na caixa e, assim, enche a caixa. Caminha para um terreno baldio e lá está o Genésio esperando por ele, também com uma caixa na mão. Luiz Antonio corta o palito de picolé no meio e faz uma cruzinha que ele amarra com um pedaço de barbante. Genésio joga as que tem prontas no chão. Luiz Antonio pega uma faca velha e cava uns buraquinhos na terra. Os dois enterram todos os passarinhos, colocam terra por cima e fincam, nos montinhos, as cruzinhas que fizeram. O terreno é bem grande e está lotado de cruzinhas de pauzinhos de picolé.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

O biquini estampado

 

Doida para estrear meu biquini estampado com tons de azul e verde, que eu comprei em Caraguá, sai para a praia. No outono, o clima é ameno e aproveitei, então, a brisa gostosa da manhã, com aquele sol mansinho que não arde, mas bronzeia devagarinho a pele. Ah! porque eu estava precisando largar o corpo na areia e me deixar abraçar por aquela água fria que faz sossegar a alma. O mar estava calmo, ondas tranquilas, poucos surfistas. Os primeiros vendedores estão começando a chegar com suas barracas. Achei até que ia ter mais gente, mas, talvez o pessoal esteja aproveitando esta manhã de sábado para dormir mais um pouco. Um grupo de meninas adolescentes brincava tranquilamente na beira da água, rindo e jogando água umas nas outras, quando se ouviu um estrondo. Talvez uma bomba enorme tenha explodido num morro de pedras ali por perto, mas o estranho é que o barulho vinha de dentro do mar que agora estava violento. E como uma boca enorme que ia vomitar, uma onda gigantesca se formou na beira da praia e foi aproximando muito rápido. Sai correndo, descalça, como louca para a calçada, atravessei a rua no meio dos carros que buzinavam intermitentemente e fui parar lá do outro lado. Nem deu tempo de pegar a toalha e o celular. Buzinas e gritos se misturavam num só pânico. Parei do outro lado da rua, ofegante, exausta de tanto correr, mas o cheiro forte de peixe morto me fez olhar para trás. O dia se tornara cinzento e já não era mais possível ver o mar. Um paredão gigantesco, alto como os edifícios deste lado, se formara com pilhas e pilhas de peixes mortos emaranhados a plásticos antigos e desgastados, ocupando toda a orla marítima.

 

 

 

 

***

 

 

 

Quase dois metros de altura

 

Estava no consultório do endocrinologista aguardando a minha vez, quando entra na sala de espera, uma senhora baixinha acompanhada de um rapaz de quase dois metros de altura, que abaixou a cabeça para passar na porta.  A mulher, morena, jeito de interiorana, beirando os 50 se sentou perto de mim. Aí percebi que ela não era tão baixa assim como vi de longe, ao lado do rapaz de quase dois metros. O rapaz se sentou ao lado dela e esticou as enormes pernas. -Este vai ser jogador de basquete, hein! comentei. O rapaz olhou para mim e percebi nele um semblante de menino, meio neófito, que ainda não sabe das coisas. Deve ter uns 18 anos, pensei. -Mora onde? a mulher me perguntou, puxando assunto. -Aqui no bairro mesmo, respondi. -Eu vim de longe, lá do Jardim Felicidade, disse ela. Como eu devo ter feito cara de quem não sabia onde era o Jardim Felicidade, ela completou: -aquele bairro onde tem a granja Eldorado. Vim consultar o menino. A mãe dele deixou ele comigo, eu que crio. Sou avó dele. Mas eu quem cuido dele. Agora deu prá crescer, não para mais. – Mas quantos anos ele tem? – Ele tem 10, mas olha o tamanhão. No começo eu achava até bonito ele ficar grande, mas agora estou preocupada. Outra mulher entra no assunto e comenta. – Parece que existem vários casos de crianças, aqui na cidade, com crescimento precoce. Assustada, fiquei imaginando este menino crescendo até os 18 anos. A outra acrescentou: -Teve um caso, de uma menina que menstruou aos 3 meses de idade, porque a mãe comeu muito frango de granja. Hormônio do crescimento rápido, serve pro bicho, serve pra gente também.

 

 

Marithê Azevedo é cineasta, roteirista, doutora em Artes Cênicas pela USP. Propositora de poéticas urbanas. Nasceu em Alfenas, MG. Morou em Brasília, Rio de Janeiro São Paulo e atualmente vive em Cuiabá. Docente do PPGECCO, UFMT. Entre os roteiros de ficção que escreveu para longa, estão: Religare, Três tempos, Cidade Submersa. Entre os roteiros para curta de ficção: Licor de Pequi, Traquitotem, A noite nossa de cada dia. Com o documentário  Memórias Clandestinas, em 2007, recebeu o prêmio de melhor documentário brasileiro no Femina, Festival Internacional de Cinema Feminino.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Essa intermitente e fragmentada paisagem humana

Por Vivian Pizzinga

 

Foto: Jorge Farias

 

Em Dinamarca, peça apresentada pelo grupo de teatro Magiluth, direto de Pernambuco para o Teatro de Arena do SESC COPACABANA, no Rio, a plateia é recebida como se se compusesse de convidados chegando para uma festa de casamento. Mas não parece chegar em um momento qualquer da festa, e sim naquele período entre o começo e o auge, difícil de delimitar mas fácil de intuir, quando a euforia começa a engrenar em alguns e não demorará a chegar em seu apogeu. Os atores da peça, à guisa de anfitriões, distribuem espumante em taças de plástico para todos que quiserem, oferecem mais aos que já beberam, e há até quem, dentre eles, que comente, com leve amuo de quem não gosta de desfeita, para um dos convivas: “vocês bebem pouco, hein”. O som está no volume máximo, alguns deles dançam, estão todos aparentemente bastante felizes e nós, agora, somos parte da cena.

Esse é o começo da peça, que, com direção de Pedro Wagner e dramaturgia de Giordano Castro, estreou em 2017, foi apresentada em algumas cidades brasileiras como Salvador, São Paulo e Porto Alegre, e parte de uma inspiração em Hamlet para levar a cabo a proposta de discutir aspectos relevantes da contemporaneidade. A ideia da montagem trazida pelo grupo recifense é a discussão das bolhas sociais, tema tão em voga ultimamente, sobretudo em época de divergências políticas acirradas e de estilos de vida e concepções de mundo que são questionados no cerne dessas divergências. O tema é também assíduo nas redes sociais entre os que fazem a crítica dessa maneira de se relacionar com o outro, exatamente por evocar a restrição do campo de relações e contatos sociais a que cada um de nós tem acesso, o que leva à possibilidade de que interpretemos o mundo, as políticas públicas, os fenômenos sociais, a função das novidades tecnológicas, as atividades e manifestações culturais, dentre outras coisas, a partir de uma perspectiva uniforme, totalizante e aparentemente exclusiva, sem espaço para a diferença e a alteridade.

 

Foto: Danilo Galvão

 

A Dinamarca possui a noção de hugge (ou higge), que, ao que tudo indica, evoca uma espécie de vida boa, incluindo tempo para lazeres simples, sofisticados e agradáveis, isto é, incluindo a posse do tempo pelo sujeito, em oposição a ser possuído pelo tempo. Pesquisando um pouco pela internet, vê-se que não é tão consensual o significado do conceito, já que específico do país nórdico. No entanto, é possível entender que a noção abrange o conforto, o oposto da correria, o aconchego, aquilo que acalma e aquece, em suma, a segurança. O status quo parece fazer parte também dessa ideia e, no espetáculo, percebe-se que, para eles, nada ao redor do grupo de anfitriões e amigos mais chegados está à altura dessa forma de vida.

Esse é outro ponto que a peça aborda, quando todos se juntam como se superiores fossem ao resto do mundo, sem problemas, sem dificuldades, sem mau gosto, uma casta que pode se dar ao prazer, por exemplo, de beber como se não houvesse amanhã, entornando uma garrafa de cerveja inteira em uma só golada e depois mais meia garrafa, como podemos ver, agoniados, no começo da peça (não sei os outros, mas fiquei pensando, realmente encafifada, capturada por esse momento inicial e repleto de estranhamento que parece não acabar nunca, se o amargor da cerveja, tomada em grande quantidade num curto intervalo de tempo, e logo no comecinho do espetáculo, não traz ao ator algum tipo de desconforto físico do tipo refluxo ou azia que possa atrapalhar seu desempenho na peça; é interessante também notar que a observação desse momento demorado, infinito, em que o único elemento iluminado do palco é o ator engolindo, gole a gole, a cerveja das garrafas, exerce certo poder de sentir o gosto da cerveja na boca e o enjoo de tomá-la sem pausa nessa quantidade absurda, como se fôssemos nós, e não o ator, que a estivéssemos bebendo). Voltando à relação do núcleo social com o que há ao seu redor, os convidados estão lá, dançando, envolvendo-se uns com os outros, falando de coisas, mostrando habilidades em línguas estrangeiras, e há o resto. Não há como não pensar na elite em suas diversas e possíveis gradações, nas celebridades com canais de YouTube que fazem vídeos e mais vídeos mostrando suas salas enormes e cada objeto que nelas há, seus pares de sapato, seus quartos, sua vida glamorosa que mescla elementos de sofisticação de difícil acesso e arranjos relacionados a uma vida boa e saudável, onde o corpo é bem tratado e pode se dar ao luxo de descansar. Talvez hugge esteja um grau abaixo disso, e o momento em que o grupo se explica o que é, eles estão entrando no ritmo de uma música agradável, alegre e sincopada, que não se caracteriza pelo excesso, mas que é extremamente atraente ao corpo. Pode ser que seja mesmo só com o corpo e o som que possamos explicar o que é hugge e o que é pertencer a uma bolha social.

 

Foto: Jorge Farias

 

Dinamarca, que tem no elenco de atores Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres e Mario Sérgio Cabral, traz momentos de angústia, com repetições de diálogos em grande velocidade e movimentações agitadas, além de relatos tensos, e momentos hilários, como quando o dono da festa manda que recolham os copos e a bebida da plateia, incomodado com sua suposta ingratidão, e exige que tais copos sejam reunidos de uma forma sistemática a seus pés, no momento em que é desagradado, espécie de birra exagerada e fora do tom a que todos aquiescem.

Há também um belo momento, aí para os menos tímidos, em que algumas pessoas da plateia são convidadas a dançar, retiradas com delicadeza pelos atores, momento em que o palco vira uma verdadeira pista de baile, onde os casais rodam como se celebrassem de fato um casamento. É interessante refletir um pouco sobre essa noção de hugge, estranha a nós, brasileiros, e que, apesar de evocar o bem-estar e a leveza, não descarta a tensão, as discussões e o medo que, necessariamente, permeiam as relações sociais, como se vê no espetáculo. Esses picos de tensão e ansiedade, que pipocam aqui e ali, que sempre interrompem a leveza, levam ao questionamento sobre se há, de fato, a possibilidade de uma bolha social completamente apartada do que há à sua volta, se há como conceber formas de relação social que, como ilhas cercadas de gente comum com problemas comuns por todos os lados, nunca estivesse suscetível de ser engolfada por angústias que dizem respeito a todos, a despeito da especificidade de sua inserção social.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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131ª Leva - 03/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Sofia Ferrés

 

Desenho: Felipe Stefani

 

REPOUSO

 

nos deitamos
e o silêncio repousa.

tua voz molda no ar
o cheiro que a noite
trará em você.

abandonamos roupas
os ossos, as reflexões,
abstraindo tudo o mais.

então as sílabas tropeçam,
desabitadas.
o amor enfreia as palavras.
este quarto há de nos enterrar:
a luz vai se fechando sobre nós
como um abraço e finda.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

PRECE

 

meu querido
esta é a noite da saudade.

pura intolerável, no jardim
das coisas ocas, sob a lua
lume do cheiro deixado na pele
da camisa branca – tão branca
que paira no ar da respiração.

ladeio a vela baixa e
testemunho o corpo
que não veio mas está
tão perto
emanando qualquer coisa
entre a mão e o peito
na chama dourada,
no contorno da noite

então caminho pela rua de preces
que quebra aos passos da espera.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

NOVO

 

neste novo Tempo
todas as figuras
como que são
outras coisas:
muito mais belas
que o imaginado
– à imagem dos deuses.
a relva é mais verde
aberta
o rio aceso
livre livre livre
em seu caudal
correndo
pelas mãos do vento
ao rumor de pedras
fasto
de antiga cal alcalina
onde constrói morada
o Coração da água

no interior de cada coisa
húmido ainda
também habita
o primeiro Sol

 

 

 

 

***

 

 

 

 

EM BRANCO

 

se as noites parecem iguais
cada dia é uma construção.
celebro a cada esquina
o que se antecipa:
alguns encontros
rostos arqueados
mãos prateadas
frases eventuais.

um mundo página em branco.
amo os dias de antemão
e escrevo-os,
palavra por palavra.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

recebi teu livro
do pacote ao abri-lo saiu um cheiro de éter
deve ser da tinta impressa
presa
ou das palavras
hospitalizadas

senti tontura o dia inteiro

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Ignoro despreparada as notícias do mês.
O funcionamento da opinião pública não me convence
(esboços de sociedade).
Nem a utilidade de uma revelia
contra o sentido inverso destes dias

Pudicamente,
examino as fases da lua sobre meu signo
(forças primordiais de reinos mais sutis)
Aprecio o brilho difuso do metal manchado
A rachadura da argila enquanto seca
A ordem cósmica de uma mandala hindu
, ou do teto de uma catedral europeia.

A cor e a metamorfose da sua existência
me faz pensar que toda árvore é uma igreja

 

Sofia Ferrés é natural de Montevideo (Uruguai), tem poemas publicados nas páginas literárias Palavra Comum, A BacanaVoz da Literatura, Ruído ManifestoLivre OpiniãoOficina Irritada, na Eufeme Magazine de Poesia nº12 (Portugal), e na Revista Laranja Original (Brasil). Possui formação na área de Artes (Politécnica de València), Exatas (Unicamp) e Sociais (Boston University), lançou “O Pequeno Livreto de Haicais” pela Oficina Tipográfica de São Paulo (2017) e “En_vuelta” pela Editora Laranja Original (2018), relançado em Porto na livraria Flâneur. O livro foi finalista no Prêmio literário Glória de Sant’Anna 2019.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Raquel  Almeida

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Agoniza

 

Corta essa sua carne dura e sangre
Se for o único jeito de descobrir suas estradas
Ferida aberta
Corta
Corta essa
Falsa promessa
Essa falsa fortaleza
Corta essas certezas
Deixa jorrar esse sangue
Nesse peito aberto
Enfia no oco seu ego
Faze o presente ser eterno
Cava suas memórias
E reviva.

 

 

 

***

 

 

 

Da terra que renasço

 

Solo que me fez
Me refaça!
Como a mãe preta que amacia a argila
Remolde!
Na moldagem
Revista meu coração com paredes de aço
Pra que nenhum abraço me cegue
Os retoques
Que sejam nas águas sagradas
Me banha, me rega,
Me rege
Terra firme que me regenera
Transforma minha fúria em fuligem
Enterra por aí minhas sentenças
Solo
Não me isola na mais árdua trilha
E blinda, blinda todinha a minha vida.

 

 

 

***

 

 

 

Tendo

 

O gosto do grito entalado amarga
Estraga as noites sufocadas em insônias
Estala vontades
Desejos que não desejo
E o peito aperta
Se aperta é dor
Dói!
Não ter dito que sou franca
Que tendo a beirar abismos
E a afagar leões
Tendo a mordiscar pimentas malaguetas
A pisar em pregos que beiram solidões
Já que o peito acelera
Aponta pra mim essa seta pontiaguda
De medo.

 

 

 

***

 

 

 

Sou

 

Tenho certeza de uma coisa
Sou vento e vento é livre
Sou água e água corre
Sou terra e terra é fértil
Sou intensamente regida
Pela vida
Meu amor me agride
Preenche e sufoca
Sou amor sou amar
D’mar
Sou fúria e calmaria
Sou ninho
E nos meus caminhos
Me perco.

 

 

 

***

 

 

 

É só
Toda loucura gerada
Todo pensamento de saltar
Toda invisibilidade
É só
Sorrateira
Vem e derruba
Pesa a cabeça e não existe fuga
Corre pelas estradas
Mas tudo isso no silêncio da sua alma
Porque no topo é um vulcão potente a explodir
Não chega a desejar a morte, mas a monotonia pra si já é morrer
Chega e vai só
Só é o seu caminho
E fica dali e acolá tentando se encaixar e sente que não faz diferença
Seu riso, seu choro…
Não acostumou a ser só
Por isso ainda solfeja suas angústias nos ouvidos do mundo
Só na imersão da confusão bagunçada e silenciosa
Só, e sem paradeiro
Abraça o mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Estou jorrando sangue
arrastada pelas ruas
Exposta em praça pública
Massacrada por um rolo que comprime, oprime
Arranca a última gota de sangue-suor dito igual perante deus
Estou jorrando sangue
na porta da minha casa
Desguarnecida
com uma bala cravada na nuca
Desfalecida
levando porrada, largada no asfalto
Jorro sangue num mundo que diz que preciso sorrir
sendo torturada coletivamente
Jorro sangue a cada onze segundos
Me afogo nesse rio de traumas
Me sufoco em meio a papéis que não dão suporte em nada
Leis do cão que não funcionam para minha pele
Para o meu cep
Jorro sangue quando me fazem acreditar
Que viver ensanguentada é natural de gente minha
E mesmo cerrando os punhos
criando escapes
acredito que minha voz ainda não ecoa
Estou no meu rio de sangue
planejando revides sem sucessos
Todo meu sangue vira comércio
e as feridas continuam expostas
Estou aqui, jorrando esse sangue
dito igual perante deus
Entoando um BASTA
me agrupando com vozes que se assemelham a minha
Empurrando os dias
e abrigando o desespero que bate à minha porta
Estou jorrando sangue
lutando para que um dia venha estancar.

 

 

Raquel Almeida é poeta, escritora, arte – educadora e produtora cultural, estudou musica na Faculdade Carlos Gomes(Grupo Educacional UNIESP). Co-fundadora do Coletivo literário Elo da Corrente, grupo que atua no bairro de Pirituba, desde 2007, no movimento de literatura periférica/negra, realizando um sarau semanal e mantendo uma biblioteca comunitária nessa comunidade. Co-fundadora do Coletivo Cultural “Esperança Garcia”, o grupo promove discussões que refletem o papel da mulher negra e periférica na literatura e outras vertentes artísticas. Escreveu “Sagrado Sopro” (Poesias), 2014 ;  Elo da Corrente Edições  e “Duas Gerações Sobrevivendo no Gueto” (contos, poesias e crônicas), 2008, co-autora Soninha MAZO – Elo da Corrente Edições.