São linhas que transpassam a existência. Contornos que anunciam o alvorecer de gestos e movimentos como se tudo coubesse num universo de beleza e mistério. É preferível assumir que a vida é ela mesma a assunção de mistérios, desses que se embotam na trama dos destinos. Imaginemos, pois, tudo como consequência de um permanente entrelaçar de ações na medida em que o que somos espelha os reflexos das investidas de outrem, nossos semelhantes e suas difusas trajetórias e repertórios. Assim, reconhecemos nossa humanidade a pulsar imperiosa no turbilhão de corpos e mentes que nos atravessam a visão dos dias que carregamos conosco. Sim, somos um amalgamado e complexo organismo que é fruto das trocas e intervenções do Outro em nossa caminhada.
Ah, o corpo, esse receptáculo de intenções! O corpo enquanto a expressão mais pura da nossa sina terrestre. O corpo como essa estrutura física a compor o bailado dos dias, posto que tentamos nos equilibrar diante das demandas racionais e afetivas tão nossas. Pensando a arte de Felipe Stefani, os trajetos corporais são os mais autênticos representantes das nossas condições de ser e estar num mundo em que habitamos de forma errante. Ao mesmo tempo em que nos incita ao mergulho denso, Felipe relembra certo caos que nos acomete em matéria de experiência humana. Vale considerar que a cartografia caótica sugerida pelo artista em questão não é um banal engenho de desordens, mas, antes de tudo, a síntese orquestrada de nossos espantos e estranhamentos. Na confusão entre desejos e equívocos de nossa natureza, as imagens se expandem compondo um complexo painel de desassossegos.
Desenho: Felipe Stefani
Felipe Stefani deixa entrever um sentimento de cosmovisão em muitos de seus desenhos, algo abrigado na noção de que múltiplos saberes e cenários da existência humana aparecem profundamente associados entre si. Tal percepção é, ao mesmo tempo, a constatação de que os homens e suas investidas encontram terreno favorável para a expansão no solo comum e enigmático das expectativas. Desse modo, o artista observa as partes que, ao fim e ao cabo, integram um todo em incessante construção, organicamente engendrado pelo flerte com a dúvida.
O corpo em Felipe Stefani também é casa que acolhe delicadezas. É nesse momento que a bagagem de poeta empresta seus atributos ao artista, movendo seu traçado sob a imagética de um lirismo que se pretende intenso. Dentro desse caminhar, seus desenhos harmonizam desejos, crenças e epifanias humanas com uma indelével marca emotiva, fazendo-nos refletir sobre temas como a solidão, os afetos e o amor.
Desenho: Felipe Stefani
Paulista que vive em bandas cariocas, Felipe também se dedica aos versos e à fotografia. Seus primeiros contatos com o desenho derivam da infância, principalmente por intermédio da mãe, a também artista plástica Sandra Lagua. Confessa que suas principais influências vêm de gêneros da cultura de massa, tais como o cinema e o rock. Desde 2002, vem atuando como ilustrador, com trabalhos voltados para o cinema e literatura. Como poeta, possui dois livros publicados: O Corpo Possível (Dulcineia Catadora, 2008) e Verso Para Outro Sentido (Escrituras, 2010).
Essencialmente, a arte de Felipe Stefani é um convite ao sublime. E tomemos aqui tal atributo não com um sentido de exaltação estética de perfeição. Mais vale considerar o potencial de representação humana de sua obra como sendo aquele que expõe a carne viva de nossos atos, anseios e projeções, misto de coisas que refletem um estado permanente de poesia, essa dimensão de abismos íntimos e compartilháveis.
Desenho: Felipe Stefani
* Os desenhos de Felipe Stefani são parte integrante da galeria e dos textos da 131ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Mirar a vida, observar seus fenômenos mais detidamente. Deparar-se com os territórios do humano sem deixar de levar em conta o olhar reflexivo e transformador, esse algo capaz de movimentar rotas sem se perder no campo limitador das retóricas. Frases, quando ditas ao léu, não demarcam a substância das ideias, posto que sequer ensaiam mudanças ou vislumbram auroras. No meio disso tudo, um poeta rasura os postulados disfarçados de razão, engendra nos seus versos a tradução de um estado de espírito que transcende a materialidade das coisas. Tudo isso sem se embriagar pela fácil sedução das travessias meramente contemplativas ou daquelas que se limitam a ver tudo como um jogo puramente estético.
Não existe poesia fora do humano: eis a impressão que arrisco em colocar quando o artífice das palavras é um alguém como Alberto Bresciani. É ele um autor não somente envolvido com a construção textual dos seus versos, mas especialmente com o impacto que tais escritos terão em quem os lê. Não se trata aqui de uma preocupação com a adesão de simpatias, e sim de um diálogo vivo sobre o qual estão apoiadas bases de nossas tenras e complexas existências. Acima de tudo, Alberto nos incita ao enfrentamento de questões cruciais à nossa percepção enquanto humanos, erigindo um universo poético que se fundamenta em doses de emoção, lucidez e estranhamento.
Autor de livros como Incompleto movimento (2011) e Sem passagem para Barcelona (2015), ambos editados pela José Olympio Editora, o carioca Alberto Bresciani vive hoje em Brasília. E o momento atual desse escritor aponta para os desdobramentos em torno de sua mais recente obra: Fundamentos de ventilação e apneia, lançada este ano pela Editora Patuá. O livro apresenta um sofisticado emprego da linguagem, denotando profunda sensibilidade e entrega a temas que correm imbricados a tudo o que vivemos. As incursões do poeta por elementos que constituem certa dinâmica do mundo animal correm paralelas ao que somos enquanto espécie dita racional. Dentro do delicado mecanismo que descreve os fenômenos de outros tantos seres vivos, Alberto nos conclama a mergulhar intensamente em nossos próprios percalços como se necessitássemos de um resgate.
Para falar um pouco sobre seu novo momento com as palavras, o poeta, de modo extremamente gentil e atencioso, concede a entrevista que agora segue. Na conversa, abordou-se de um tudo: os impactos do novo livro, reflexões sobre o papel da arte, o fazer literário e seus desafios, entre outros temas. De todo o dito, nada é mais valioso do que perceber, pulsando com vivacidade, o aflorar de uma sensível consciência de mundo, notadamente preocupada com uma ampla noção de humanidade.
Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal
DA – “Fundamentos de ventilação e apneia” faz uso de mecanismos pertencentes ao mundo animal, uma sensível construção poética cuja linguagem corre paralela às questões humanas. Diante do que somos hoje enquanto espécie, seu livro pode ser tomado também como um grito de alerta?
ALBERTO BRESCIANI – Observar animais e estudá-los, na medida do possível, sempre foram atividades interessantes para mim. Observá-los com prazer e, ainda, com assombro. Tive animais de estimação de todos os tipos e, quando criança, gostava de os tornar personagens de histórias que inventava. Em regra, é difícil resistir à tendência de antropomorfizar o comportamento dos animais. Fazemos isso quase involuntariamente. Embora diferentes enquanto espécies, partilhamos, todos os seres vivos, um mesmo mundo e, em situações várias, a luta pela sobrevivência na natureza se iguala ao esforço que, entre homens, fazemos para enfrentar os dias. Há momentos em que os animais parecem saídos de um Éden criacionista. Também temos nossos espaços de paz. No entanto, a violência está à solta. O ritmo é assustador. E isto remete à violência presente nos enredos naturais. Perceber e sentir as injustiças da contemporaneidade, as ameaças de retrocessos civilizatórios, a devastação que causamos no meio ambiente e traduzi-los, como conceito, pelo instante, por exemplo, em que o predador impiedosamente abate sua presa apavorada, foi um dos recursos metafóricos que utilizei. A poesia é, a todo tempo, um sinal de alerta. Alerta que vai desde as situações mais íntimas que afligem o poeta até as questões maiores que sacodem o planeta. Os poemas de Fundamentos de ventilação e apneia surgem nesse contexto.
DA – Caberia, então, dizer que a arte, sobretudo pelos caminhos da palavra, seria capaz de operar em nós alguma possibilidade de transformação ou reinvenção?
ALBERTO BRESCIANI – Sim. Não tenho dúvidas. A arte estimula a reflexão sobre o mundo em que vivemos, dialoga com a filosofia. E se habilita a fazê-lo, em sua essência, para além dos círculos das regras, da ética e da moral, dos paradigmas vigentes em um dado momento da história e dos preconceitos. Era o que dizia Adorno. O artista está – e deve estar – livre para se expressar, para entender o que acontece e pregar suas denúncias, noites e luzes em cada porta. No caminho das palavras, como diz, encontramos, individualmente, quando lemos ou ouvimos, possibilidades de habitar outros eus e corpos, de outras vidas e experiências. Podemos perceber os erros de circunstâncias históricas e de falsas verdades impostas pelos interesses de plantão. Podemos também alcançar nossas verdades. Há livros que nunca acabam, personagens que nunca nos deixam, frases tatuadas na lembrança, poemas que nos alimentam e advertem. Do ponto de vista do artista, a descoberta de sua vocação pode construir uma vida nova, uma vida plena, reconstruir o que parecia ruína. É importante, no entanto, ressaltar que, antes de tudo, é necessário que se tenha acesso à arte. E isto só é possível com a educação. Com alimentos na mesa e cidadania. Não somos um povo ilustrado. Poucas mudanças favorecem imensa parte da população, que se mantém dentro de uma bolha isolante da cultura – e de tanto mais – desde o período colonial. Alguns projetos pioneiros, sabemos, têm grande sucesso, levando livros, música e dança a comunidades carentes. Que se multipliquem, prosperem. Seremos assim, um dia, quem sabe, uma sociedade melhor e mais feliz.
DA – Esse tema do acesso à arte é deveras interessante quando pensamos que, na contemporaneidade, a contribuição de autores e artistas contra-hegemônicos vem ganhando cada vez mais relevância. Muitos desses criadores, periféricos ao mainstream, encampam, através de suas obras, uma defesa afirmativa de suas identidades, de suas visões de mundo. Como você vislumbra a força que emana de tais subjetividades?
ALBERTO BRESCIANI – Com interesse, reconhecimento e muita simpatia. Somos diferentes em múltiplos sentidos. Infelizmente, a intolerância e o desrespeito sempre desaguaram na edificação de nichos e no aprisionamento, nesses nichos, de diferentes grupos, recusados pela compreensão dominante. São porções de matizes variados, separadas por hemisférios, circunstâncias históricas e sociais, gêneros, etnias, crenças. Todas têm legitimidade e direito à sobrevivência e ao acatamento pelas demais. Há também aquelas violências que a sociedade, como um todo, prefere ocultar. A literatura é o espaço da denúncia. Autores que não se moldam àquela compreensão dominante ou ao protótipo consagrado traduzem, com a força de sua escrita, experiências de vida muitas vezes desconhecidas ou nunca pensadas com atenção. Por alienação, pelo impacto da grande mídia ou por lacunas de vivências, verdades são esquecidas. Ao pronunciá-las, esses autores permitem a tomada ou a renovação de consciência, com a possibilidade, após alguma decantação, de construção de novas regras de convívio, de alargamento da razão. Se há liberdade de expressão, é de valor extremo toda contribuição que permita a evolução do que se compreende como “o humano”. Mesmo que a prática da literatura, dentro do mainstream, não seja, necessariamente, condenação eterna ao último círculo da desqualificação, romper seus limites, como efeito da forma ou da temática, por si, já é coisa boa.
DA – Voltando ao seu novo livro, é possível perceber nele a ideia de que sua poética está mergulhada nos imperativos colocados pelo presente em que nossas humanidades estão mergulhadas. Enquanto escritor, em que medida você assume a condição de dar um testemunho de seu tempo?
ALBERTO BRESCIANI – A literatura fotografa o momento histórico em que acontece. Aliás, é uma fonte de pesquisa histórica fabulosa. É impossível não reagir ao que o mundo nos oferece ou empurra garganta abaixo. Vivemos em um país de diferenças sociais inimagináveis. Isto me incomoda a vida inteira. Sou juiz do trabalho já há muito tempo. Não direi que, entre erros e acertos, o trabalhador sempre está com a razão. Mas também não posso ignorar a enormidade de horrores que a experiência me apresenta. São humilhações impostas a quem não vende a quantidade de produtos desejada pelo empregador, com castigos que ultrapassam o absurdo, acidentes do trabalho em volume trágico, com perdas de vidas e mutilações, crianças trabalhando e longe dos estudos, pessoas escravizadas, a miséria que nos assola desde tempos coloniais. Além da bagagem profissional, um caminhar pelas ruas das grandes cidades, conhecer zonas de extrema pobreza de nosso país-continente trazem marcas desoladoras. Ao lado disso, o noticiário nos abarrota de visões catastróficas da fome, dos abusos, da falta de compaixão no mundo inteiro. Somos testemunhas de uma época terrível. Algumas dessas situações transparecem em Fundamentos de ventilação e apneia e tendem a estar ainda mais presentes em meus próximos livros.
DA – Qual o seu maior incômodo diante do cenário de retrocesso que experimentamos hoje no nosso país, sobretudo nos matizes culturais?
ALBERTO BRESCIANI – Sinto espanto, sobressalto. O pasmo segue em uma escadaria de Escher, pelo que está mais próximo e pelo que acontece em tantas partes do Globo. Circum-navegação do espanto e pela conivência. Uma amiga de muita inteligência diz que a humanidade e o país já passaram por provações tão diversificadas e, ao final, tudo foi superado. É preciso, nem que seja no fundo da alma, manter alguma esperança de ressurreição dos valores.
DA – Atualmente, é possível perceber que o mercado editorial vem se reconfigurando no que se refere às possibilidades de participação. No cerne desse processo, está a atuação das editoras independentes, as quais inauguraram modelos alternativos de negócio, oportunizando espaços para novos e anônimos escritores. Na sua avaliação, acredita que esse novo panorama veio para permanecer e transformar efetivamente as práticas de publicação e circulação das obras?
ALBERTO BRESCIANI – Percebo essa democratização da possibilidade de publicação com muita alegria. A realidade da internet, com seus portais e blogues, e das redes sociais, com a comunicação em tempo real, já fez muita diferença. Não consigo enxergar mérito nenhum em um sistema no qual somente grandes editoras podem consagrar vozes ou em que apenas determinados autores são os escolhidos. Todos que escrevem merecem espaço e algum crédito. Quem decidirá se terão direito à leitura e à permanência serão os leitores. E, aqui, vale lembrar que há públicos diferentes, que elegem seus estilos e gêneros. Pensando em poesia, há quem prefira textos fáceis, doces. Há quem prefira os que desafiam um pouco mais. As pequenas editoras têm permitido o acesso de autores e leitores à boa literatura, que, de outro modo, estaria condenada à gaveta eterna. Editoras como a Patuá – e não posso deixar de me referir ao Eduardo Lacerda, com seu heroísmo todo -, como a Penalux, de Tonho França e Wilson Gorj, tantas outras, são vias maravilhosas para a publicação de novos escritores de qualquer idade. Os livros têm qualidade editorial e circulam o suficiente para concorrerem aos maiores prêmios literários do país. Sei de jovens escritores acantonando editores e se esfalfando para merecer atenção das grandes editoras, e não vejo sentido. É muito bom ser publicado. É muito bom ser publicado por uma grande editora. No entanto, uma editora menor, com toda certeza, será mais atenciosa para com o autor e lhe poderá trazer muita sorte. Penso que, no momento, é um modelo que veio para ficar. Digo “no momento”, porque o mundo se tornou uma metamorfose permanente, com tecnologias que nos atropelam quando menos se espera.
Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal
DA – O curioso, dentro dessas tecnologias que nos atropelam, é perceber que alguns papéis se modificam nesse contexto de aparições digitais. Com certa frequência, autores deixam de ter a sua importância atrelada à obra e passam a ser incensados como celebridades apenas pelo que representam em matéria de performance pública. À reboque disso tudo, também há o fenômeno da superexposição da intimidade, no qual aspectos da vida privada dos escritores assumem um lugar de destaque, sobretudo em mídias sociais. De que modo esse estado de coisas pode comprometer as práticas literárias?
ALBERTO BRESCIANI – A chegada da internet e das redes sociais trouxe uma quantidade muito grande de questionamentos e alterações sensíveis no comportamento das pessoas. Há muitos estudiosos, como Castells, que se dedicam ao tema. Não sou especialista e respondo como expectador interessado. A performance como meio de promoção pessoal não é um fenômeno contemporâneo às redes sociais e peculiar aos escritores. Existia antes. Existia e existe em outras áreas de atuação. Convenhamos que já não há tanto espaço para o escritor recolhido, misterioso, recluso. Ou há, mas o alcance de sua literatura será, muito provavelmente, restrito. As editoras não têm tempo ou energia para a divulgação de todos os autores que publicam. Vale para as grandes editoras também. É necessário que o autor se ocupe com a sua própria divulgação, com a divulgação de seu trabalho. Isto, porque, exatamente pela quantidade de autores no mercado, outro feito do presente é colocar maior foco no leitor e no que lê do que nos autores propriamente ditos. As redes sociais facilitam aquele trabalho. Também é preciso considerar que o conceito ou o valor da privacidade não tem o mesmo feitio para as gerações mais jovens. Assim, há quem transforme sua vida em um livro aberto, um relato ou uma autoficção online. E com sucesso. Conquistam milhares de seguidores e vendem milhares de livros. Há quem adoeça nesse processo e adquira obsessão pelo monitoramento de seus perfis nas redes sociais e deixe de produzir ou, então, rebaixe a qualidade de sua produção ao que é mais palatável para as redes. A performance – e é preciso ter talento para isso –, como eu dizia, por si, não é necessariamente má, quando busca a divulgação de obra de qualidade. Causará algum prejuízo quando representar o exemplo de trabalho sem qualidade literária. Como o exemplo arrasta, notaremos – e notamos – outros escritores, com grande potencial artístico, tentados a reproduzir o comportamento e aquele formato menor em sua produção. De qualquer modo, a literatura ainda é maior e mais do que tudo isso. Ainda.
DA – Há quem sustente que a crítica literária perdeu sua força no Brasil, a ponto de praticamente não mais existir. Concorda com essa percepção?
ALBERTO BRESCIANI – Pelo viés tradicional e canônico, concordo. Com a quase extinção dos cadernos especializados e com as dificuldades por que passam jornais impressos, os espaços até então reservados aos críticos desse molde diminuíram. A crítica, com características mais convencionais, migrou, de certo modo e em parte, para a academia, com menor alcance em termos de público e sob formato mais técnico e, assim, hermético. A própria natureza e as exigências do trabalho acadêmico, ao lado do extenso número de livros hoje publicados, também impedem a velocidade, a atualidade e, em consequência, o debate mais vivo. É evidente que os trabalhos assim produzidos têm qualidade e importância. Em contrapartida, um novo modelo de crítica surge com a atuação contemporânea de jornalistas, de escritores, pela via da resenha, de matérias e da concessão de visibilidade às obras que esses formadores de opinião – e também o mercado – decidem que merecem destaque. Ressalvados poucos jornais literários e revistas impressas que ainda resistem bravamente, a avaliação, que se poderia talvez dizer mais suave, é publicada em periódicos virtuais, o que, apesar de limitar seu alcance a usuários habituados a endereços eletrônicos e às redes sociais, repele filtros que a grande mídia costuma impor. Torna-se mais democrática.
DA – Somos apenas um corpo com finitude decretada?
ALBERTO BRESCIANI – Pergunta delicada. A sobrevivência (e a morte em paralelo) é um dos temas centrais de Fundamentos de ventilação e apneia. A compreensão da morte tem movimentado mentes privilegiadas. De Platão a Todd May, passando por Schopenhauer, Montaigne, Sartre e tantos outros. Vejo a morte como parte da vida. Mas não, não somos apenas um corpo com a finitude decretada. Todos os seres vivos morrem. Não há dúvidas. Nisso, irmanamo-nos. Os outros animais, no entanto, enxergam a morte somente quando ela os ameaça, como o meu porco-espinho, acantonado pelas feras. Os humanos, diferentemente, são capazes de pensar a respeito, mesmo que saudáveis e protegidos. A morte dá sentido à vida, nubla o tédio da eternidade física ainda impossível, faz com que desafiemos o destino, como antílopes que atravessam rios repletos de crocodilos, buscando o futuro, um novo presente, logo ali na outra margem. A morte amplifica o valor do presente. Assim como killifishes, nunca teremos a certeza de uma nova chuva que nos permita (sobre)viver. Somos, assim, corpos destinados às experiências e repletos de possibilidades enquanto conservarmos a consciência. Se a perdermos, o fim antecederá o perecimento do corpo. De maneira sincrética, acredito em Deus. Do mesmo modo, sinto que a morte do corpo não representa absoluta finitude.
DA – O quanto Alberto Bresciani conhece Alberto Bresciani?
ALBERTO BRESCIANI – Eu pediria alguns anos para responder melhor. Sei ou tento saber do que se passou comigo, do que testemunho agora. Para o futuro, insistir é o que posso. Sou, normalmente, silencioso, melhor com a escrita do que com a voz. Verbalizar é sempre um risco de exageros. O silêncio me obriga à minha companhia com intensidade, a conviver com toda a perplexidade do que não consigo compreender, com o maravilhamento das coisas belas que alcanço, com todas as boas e más memórias, erros e acertos. Tenho o vício da busca de informação, com o desassossego que vem no estojo. Sou um “olhador”, um contemplativo. Posso me esquecer do mundo e da vida diante de uma planta que desafia o cimento da calçada. Gosto da eloquência silenciosa dos livros. Gosto das palavras e dos livros, do poder da música, de ficar em casa, de chocolate, terra, vegetais e animais, de abusar do conforto e do abrigo da minha família.
DA – Afinal, por que escrever?
ALBERTO BRESCIANI – Catarse, coragem ou covardia, justificativa? Copio René Char, é como se houvesse um atraso em relação à vida, que compele à superação. Porque é preciso dizer mais do que a voz permite.
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Wilton Cardoso é poeta e ensaísta. Mantém o blog O engenheiro onírico, onde disponibiliza toda sua obra para download. É autor de nAve aleatória (poesia), publicado pela Editora Kelps. Nasceu em 1971, mora em Goiânia e é funcionário público estadual. Formou-se em Jornalismo e é pós-graduado em Estudos Literários pela UFG.
Dor e Glória, do espanhol Pedro Almodóvar, é o mais recente filme de um diretor consagrado. Há nisso uma ironia, pois o diretor começou sua já extensa carreira cinematográfica como um enfant terrible do cinema espanhol. O filme estreou no último Festival de Cannes, depois de três anos sem o diretor estrear produções (o anterior é Julieta, de 2016). Lá ele recebeu a atenção devida a um dos maiores artistas visuais contemporâneos e o mais renomado artista espanhol. Dor e Glória está certamente à altura de sua grandeza, aquela que não precisa provar mais nada ao público, e por isso pode se lançar a um olhar sóbrio e introspectivo sobre sua própria trajetória.
Retrospectivamente, sua obra é contemporânea da redemocratização espanhola após o regime franquista. Seu primeiro filme, Pepa, Luci, Bom y otras chicas de montón, é de 1980, e apresenta uma liberdade formal que parece a própria expressão da liberdade política democrática que se tornava imperiosa. Uma liberdade que transborda para o comportamento sexual. Almodóvar tornou-se um dos maiores porta-vozes da liberdade sexual homoafetiva e dos direitos das mulheres, protagonistas frequentes de sua obra.
Dolor y gloria (DG) é a história de um aclamado diretor de cinema, Salvador Mallo, vivido por Antonio Banderas, o ator masculino mais presente na filmografia do espanhol. O protagonista encontra-se num momento de ocaso, sofrendo paralisia criativa devido a dores por todo corpo, sobretudo na coluna vertebral. As comemorações de seu primeiro filme, de título Sabor, realizado no início dos anos 80, o levam a procurar o ator protagonista Alberto (Asier Etxeandia), com quem se desentendeu na época. Essa procura se dá num afã de reconciliação, não só com o ator, mas também com sua primeira obra. O ator, que também está num período de ostracismo, apresenta ao diretor a droga heroína. A briga em torno do consumo de drogas havia sido o pretexto do desentendimento passado entre os dois. A droga ajuda Salvador a suportar suas dores físicas, ao mesmo tempo em que intensifica suas memórias. Mas o filme dá a entender que é o não reconhecimento do talento de Alberto a real razão do afastamento entre ambos.
Antonio Banderas na pele de Salvador Mallo / Foto: divulgação
A reaproximação entre Salvador e Alberto é o mote para passar sua história a limpo. Ela ocorre entremeada com as memórias de Salvador de sua infância, da vivência com sua mãe e seu pai, no interior ensolarado da Espanha. Essa rememoração do personagem é trabalhada na tela através da técnica do flashback. As memórias lhe vêm com as imagens de sua mãe jovem, vivida por Penélope Cruz, e com ela mais idosa, próxima à sua morte, vivida por Julieta Serrano. Entendemos então que o impasse criativo do diretor tem relação com a depressão nunca superada pela morte recente de sua mãe e pela sensação de não ter lhe correspondido às expectativas.
Salvador é confessadamente um alterego de Almodóvar, vivido pelo seu “ator-fetiche”. Não é, no entanto, o primeiro filme de memórias do diretor. Há mesmo uma trilogia da memória em sua filmografia, composta pelos filmes Tudo sobre minha mãe, Carne trêmula e Má educação. Nestes três filmes, a memória pessoal é construída ficcionalmente. A ficção é a forma mesmo na qual a memória pode se expressar. São filmes que não destoam de toda sua produção anterior. DG, no entanto, é um filme mais claramente pessoal, muito próximo ao relato autobiográfico. Mas em Almodóvar, toda ficção é sempre equívoca. O cinema não é o campo do realismo mimético. Sempre se admirou a intensidade cromática dos filmes do diretor associada à intensidade passional de seus personagens, sempre à beira de um ataque de nervos, da histeria e do excesso. DG abre com densas abstrações cromáticas, como se fossemos jogados num quadro de Jackson Pollock animado. A textura da tinta na tela e as composições de suas formas indicam o campo movediço onde se constrói a memória e se configura a própria realidade.
DG não é uma autobiografia, mas uma autoficção. A obra de Almodóvar está mais próxima a Oito e Meio de Fellini do que de Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman. O filme é exemplar, aliás, da diferença entre os dois modos de relato. O cinema autobiográfico procura traduzir em imagens as cenas de uma vida. A autoficção é, por outro lado, um jogo entre representação da memória e fantasia da ficção. Entre as duas, há o enquadramento da câmera. Na autoficção, a autorreferência da forma traz o enquadramento para o interior da imagem, de modo que o espectador (o receptor) perde a referência de qual plano efetivamente ele se encontra.
É um jogo com a memória e não sua representação. Por isso, embora seu primeiro filme lhe parecesse canhestro nos anos 80, e a atuação de Alberto lhe parecesse fraca, quando rememorados do presente, tudo muda de sentido, a própria consistência das memórias é transformada. A glória posterior redime a dor passada, mas por outro lado, é a dor do presente que torna glorioso o passado. Um dos maiores interesses deste filme é justamente uma releitura dos anos 80, década considerada “perdida” e conservadora, mas que no filme é resgatada como uma época de alegria, excesso existencial e experimentação artística. Ou em outros termos, o cinema de Almodóvar é um contraponto barroco ao puritanismo político de uma época marcada pela AIDS, o yuppismo e a regressão neoliberal.
Nora Navas e Antonio Banderas em Dor e Glória / Foto: divulgação
Em termos políticos, há outro elemento importante nesta última obra de um diretor engajado tanto nas lutas clássicas da esquerda como naquelas da identidade, sobretudo na questão da sexualidade e do gênero. Como disse um crítico, é bom ver um filme de Almodóvar em que não haja uma mulher que tenha sido violentada. De fato, em filmes como Ata-me, Fale com Ela, ou a Pele em que habito, figuram mulheres sequestradas ou imobilizadas por homens. Ninguém duvida do protagonismo feminino na obra de Almodóvar e como seu cinema trabalha a ideia da emancipação feminina através da emergência de sua fala. Fala que emerge a partir de corpo, ou da “carne trêmula”. Em particular, em Habla con ella, a ausência da fala na mulher em coma significa mais fortemente o seu cárcere corporal e é através da conversa furtiva que ela encontra a sua redenção, pois, por mais desesperançada, a fala sempre retorna em diálogo, ao contrário da unilateralidade da violência sexual.
Mas Dor e Glória é um filme protagonizado por homens, apesar da sombra recorrente da mãe. Na cena em que o garoto Salvador jovem reconhece a sua sexualidade pela visão do corpo de um homem nu, a iminente chegada da mãe é o elemento repressivo que faz irromper o desejo. Mais tarde, há uma longa e íntima cena de beijo entre Salvador e seu antigo amante, Marcelo. É tanto um beijo que supera a separação e o tempo, quanto é também signo da provável despedida e da perda. Porém, é um testemunho que o desejo permanece vivo.
A homoafetividade masculina está de retorno neste filme com a força de seu ALei do Desejo (1986), um dos seus melhores e mais conhecidos filmes, e também com Antonio Banderas. Seu sucesso sugeriu o nome à própria produtora do diretor (junto com seu irmão Agustin). Isso nos faz lembrar que Almodóvar não é um cineasta nem da sexualidade nem do gênero, mas sim do desejo. Nos seus filmes, a fronteira correta não está entre a ficção e a realidade, mas no terreno ambíguo entre desejar e ser desejado. Geralmente, enfatizamos o primeiro dos termos e deixamos ao narcisismo individual o segundo.
Os anos 80, vistos à distância, parecem anos narcísicos, sem dúvida. Mas o que Pedro Almodóvar nos ensina é que não há realmente uma oposição entre os termos. Barroco, seu cinema é uma “coincidência dos opostos” (coincidentia oppositorum). Só desejamos para que, como seres desejantes, possamos ser desejados. Talvez esta seja a verdadeira lei de seu cinema: figurar o desejo, que não está na mulher, nem no homem, nem nas personagens de sexualidade híbrida, tão comuns em seus filmes. O desejo não está em um polo ou outro. Só existe desejo entre o sujeito e o objeto do desejo, entre esse que deseja e aquele desejado. O desejo é coincidência das partes, o cancelamento das oposições. É o desejo que se estende como película no cinema e não a tela que o figura. Afinal, só vamos ao cinema para aprender a desejar, já obedecendo desde sempre à sua Lei.
Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.
Meu pai faleceu há quase três anos, mas só recentemente desapareceu de vez deste mundo. Não lembro até quando, não faz muito tempo, ele ainda conversava comigo enquanto eu dormia – o sonho é lugar onde as pessoas realmente vivem.
Essa noite estive preso em um pesadelo, tentando me salvar de algo medonho, por não ter uma forma – faltava-lhe o nome. Só me senti um pouco mais tranquilo depois que Maya pariu corajosamente dois belos filhotes. O último deles me deixou intrigado, com o pêlo todo branco e uma única marca em forma de lágrima no canto do olho esquerdo. Uma palavra me distraía, não soava bem naquele verso, e isso ainda me aflige um pouco. As traças estavam terminando os poemas que o meu pai escrevia e nunca foram publicados. Ele não apareceu para comentar nada. Achei estranho. Tem sido assim nos últimos dias, parece ter experimentado a sua última morte.
***
A Vigília
O sol já estava se pondo. Iuri atravessou o jardim, caminhando lentamente em direção à rua. Seu cão pastor acompanhava-o quieto.
Talvez o companheiro tivesse adoecido, talvez ambos estivessem tristes somente. Esse dia parecia com o fim do mundo – não por uma catástrofe, mas como uma vela que se extinguisse aos poucos: logo não haveria mais sombras, tudo se apagaria.
Adiante deles, entre os telhados, viam crescer a mata que separava a vila das extensas plantações do vale lá embaixo. Em sua orla, os eucaliptos mostravam-se ainda mais altivos contra o céu derrotado.
Os dois continuavam andando para dentro da noite. Não lhes interessava mais o dia. Uma velha lâmpada incandescente havia se acendido no limite da brenha escura. Embora frágil e vacilante, estava pronta para a longa vigília.
Héber Sales nasceu em Pernambuco e reside em São Paulo, onde atua como professor e publicitário. Seus poemas, ensaios, prosas e entrevistas têm sido publicados em periódicos como Germina, Cronópios, Mallamargens, Digestivo Cultural e aqui, no Diversos Afins. Alguns textos seus também podem ser encontrados no blog coisas para fazer com palavras.