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133ª Leva - 05/2019 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Pintura: Canato

 

Aos poucos, mais um ano se despede de nossos domínios. Sem dúvida alguma, é outro ciclo de realizações que completamos no transcurso histórico da revista. É impagável manter a chama acesa, ter vontade permanente de seguir com um projeto editorial dessa monta. Acima de tudo, é incomensurável o retorno que emana como resultado das ações todas. O ânimo se renova cada vez que percebemos o interesse das pessoas em alimentar nosso caminho com colaborações que são fruto de suas vivências e mergulhos no fértil terreno da Arte. E aqui decompomos o termo para abarcar as expressões literárias, cinematográficas, musicais, teatrais, a fotografia, a pintura, as ilustrações e desenhos dos mais variados participantes. Enfim, inúmeras são as possibilidades de atuação no contexto da Diversos Afins. Ao mesmo tempo, notamos que se forma um movimento espontâneo de pessoas em torno do projeto, dinâmica tal que move encontros nos campos da palavra e da imagem. Realizar é preciso. Coisas precisam ser ditas. O pensamento necessita da amplitude dos horizontes. A Arte é instrumento de comunicação. Mais ainda, é território de expansão das nossas humanidades, da consciência do nosso lugar no mundo. Ela também é ferramenta de partilha social em plena contemporaneidade, era que vem apresentando tensões em escala global, seja no aspecto geopolítico, seja no quesito ideológico, para não dizer em outros muitos mais. Cada autor que aqui desfila suas criações é, em última instância, alguém a dividir conosco (editores e leitores) saberes e sabores desse complexo denominado existência. Para além dos instintos mais básicos, de que realmente temos fome? Arriscamos em considerar que temos fome de poesia, dessa a que aludem os versos de gente como Alex Simões, Clarissa Macedo, André Rosa, Bárbara Bittencourt e Pedro Vale. Desejamos também os sinais da perplexidade presentes nos contos de Viviane de Santana Paulo e Rodrigo Melo. Agora somos contemplados com a reinvenção do humano abordada nas pinturas de Canato e que estão dispostas pelas vias da nossa nova edição. É Helena Terra quem nos mostra suas reflexões sobre o livro de estreia da poeta Priscila Pasko, Como se mata uma ilha. Com sua verve analítica sempre atenta, Guilherme Preger fala a respeito do instigante filme sul-coreano Parasita. Numa entrevista, a escritora Lelita Oliveira Benoit expressa reflexões sobre seu novo livro, bem como areja ideias em torno de sua trajetória e outros afins literários. Vinicius de Oliveira discute aspectos do romance Rio Negro, 50, obra de Nei Lopes que traz à tona abordagens históricas sobre a questão racial brasileira.   Apresentando suas observações sobre a peça Nastácia, que é baseada na obra de Dostoiévski, Vivian Pizzinga adentra as vias da seara teatral. Com sua pesquisa musical sempre ativa, Pérola Mathias desfila entre nós as suas sensações para o disco Na Base do Cabula, do cantor e compositor Roberto Mendes. A julgar pelo acervo aqui apresentado, há um conjunto de partilhas disponíveis. E é com grande prazer que anunciamos que ele faz parte de nossa 133ª Leva. Boas leituras e mergulhos!

Os Leveiros

 

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133ª Leva - 05/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa I

Rodrigo Melo

 

Pintura: Canato

 

SÓ ELE VOLTOU

 

Alguns dizem que ele a matou e a jogou, com carro e tudo, num dos brejos lá da serra, um daqueles que ninguém sabe direito como chegar. E, acredite, tem uma porção de brejos assim por lá. Mas a maioria acha que tudo realmente aconteceu: que eles foram levados para algum tipo de experiência e que, por algum motivo indecifrável, só ele voltou. Eu mesmo não sei dizer o que é verdade. Cada um tem a sua opinião e a depender do jeito que falam, acabo acreditando em quase tudo.

A história que todos conhecem é que eles tinham saído para jantar. Era uma quinta-feira como outra qualquer, sem nenhuma data comemorativa ou algo assim. Alguém lembrou depois que eles quase nunca saíam juntos, mas há muitas coincidências na vida e essa pode ter sido apenas mais uma. De qualquer modo, foram até uma pizzaria, aquela que fica na esquina do cinema, e se sentaram em uma das mesas da varanda. Ele deixou Norma escolher o tamanho, família, e os sabores, e ela pediu metade de calabresa e a outra metade de manjericão roxo. Comeram sem conversar, como muitos outros casais, cada um sentado em um lado da mesa. Ela bebeu refrigerante e ele, uma lata de cerveja. A garçonete disse que Norma perguntou se era possível embrulhar os dois pedaços que haviam sobrado e que ele, ao descer o batente da pizzaria, disse:

– Cuidado, querida, para não tropeçar.

Entraram no carro e partiram. E, depois disso, tudo o que a gente sabe foi o que ele contou.

Ele disse que seguiram pela estrada que leva aos brejos. Era o caminho mais longo, mas ela gostava de ir por ali. Escutavam música francesa: Allan Barriere e Charles Aznavour. Conversavam sobre o desabamento de um prédio que tinham visto na tv. Tudo ia bem, quando, depois de passar pelas velhas fábricas, ao entrar à direita para pegar a grande reta que os levaria para casa, o carro de um segundo para o outro parou – não havia desligado, assim como não parecia haver qualquer problema mecânico. Apenas deixou de ir para a frente, de seguir a linha que vinha seguindo. E o mais estranho daquilo era que, mesmo acelerando e quase afundando o pé no assoalho do carro, continuavam sem sair do lugar. Era como se um enorme ímã os segurasse. E então, abruptamente, o carro ficou suspenso no ar e começou a se afastar do chão. Ele disse que não demorou a deduzir que estavam sendo abduzidos por alguma nave espacial, pois era a única coisa que poderia estar acontecendo. E ela, a nave, era enorme e muito clara, tão clara a ponto de quase cegá-lo, por isso teve que fechar os seus olhos. E apagou. Quando despertou, horas ou dias depois, se deparou com aquelas duas criaturas curvadas sobre si. Eram bem diferentes das que vira em qualquer filme sobre aliens, pois tinham o corpo gelatinoso e andavam sem esforço algum, como se flutuassem a dois palmos do chão. Curiosamente, ao invés de lhe causarem medo ou asco, lhe davam uma surpreendente sensação de paz e segurança. Elas o colocaram numa espécie de redoma de vidro, que chacoalhou por algum tempo e depois parou.  Nesse tempo, ele acabou apagando mais uma vez.

Na manhã seguinte, encontrava-se completamente nu, deitado sobre o asfalto, quando um cachorro veio e lhe lambeu o rosto. Não havia nenhum sinal do carro, muito menos de Norma. E ele, sem ter mais o que fazer, simplesmente se levantou e correu para casa, de onde ligou imediatamente para a polícia.

Tem cinco anos que isso aconteceu. O caso continua em aberto, pois nunca acharam o corpo, mas a bem verdade é que quase todo mundo acreditou na história que ele contou. Às vezes, até eu. Nos finais de semana, quando o tempo está bom, alguns turistas aparecem e vão até a estrada que leva aos brejos, hoje tão movimentada quanto qualquer rua comercial. Procuram por uma queimadura no asfalto ou qualquer coisa que os convença de que tudo de fato aconteceu, e por vezes até encontram algo, e, alvoroçados, começam a falar alto e a sorrir, como se dependesse daquilo atestar que tudo tinha sido mesmo verdade. Em seguida, rumam em caravana até a frente da casa em que o casal morava, onde hoje há uma lojinha na garagem. Em alguns dias, ele aparece, acompanhado da nova esposa, uma loira, quinze anos mais jovem, e tira fotos, conta para todos como foi a louca e maravilhosa experiência que teve a sorte de vivenciar. E aquelas pessoas então o abraçam, lhe pedem autógrafos, e, ao seu modo, o reverenciam, porque, apesar de tudo, ele conseguiu sobreviver.

Parece que na semana que vem, lá na praça em frente à pizzaria, vão inaugurar uma estátua dele montado em um disco voador.

 

Rodrigo Melo é prosador e vive em Ilhéus, Sul da Bahia. Publicará, no início de 2020, o romance Riviera.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

André Rosa

 

Pintura: Canato

 

O poema da dor

À Heitor Brasileiro

 

O poema nasce da dor
Da indizível dor
A dor precária e suja

O poema é a própria dor
Narrada em desespero
A dor calada e velha

O poema traduz a dor
Sem rimas
A dor miúda e desvalida.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Giroscópios

 

Entretanto vigio a frase
Escorregadia membrana
Sob chuva de amarelos
Que preparam o dia
Vai-se o corte, a espera
A frase de magnólia
Que apodrece
As plantas, os giroscópios,
A escama, o chumbo do dia.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Faca do Sol

 

Me fiz rio navegável,
Faca do sol.

Nasci peixe feio
Sob as trovoadas de junho.

Banho as patas do gado,
Alimento seu existir.
Converso em água e sal,
Convulso o caminho
Em que me arrasto.

Sou verde, castanho ou negro.
Dependo dos olhos que fitam.

Sou agora rio: antes e depois.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Hábito

 

Onde os meus olhos
Eram noite e transitórios,
Julgo a tessitura do tempo
E transitório serei
Aos teus olhos suspensos.

Perdoa se me invento
A cada espelho,
A cada sumo da rudeza.

Ao arrepio dos pelos
Desprezo a demasia do hábito.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Nu

 

Durmo nu
Apesar dos latidos.
Sou ermo e rotina,
Spleen nos ilhéus.
Durmo nu e
Ninguém me anuncia
Mesmo que grite
O líquido da rua.
Durmo nu
E invisível.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Vento agrário

 

Quem detiver o tempo nos dentes
Irá quedar o desejo,
Conduzir águas ao extremo
No sereno em furta-cor,
No desmaio sumário do sol.

Quem guardar as ruas nas unhas
Irá dedilhar os rastros da noite
Antes que a morte navegue
O seu barco sírio.

Há um vento agrário no ranger da flor.

 

André Rosa é Ilheense, nascido na Maternidade Santa Isabel. Autor de “Morte e gênero: um estudo sobre a obra de Jorge Amado” e “Quintais do Tempo”.  Coordena o Prêmio Sosigenes Costa de Poesia e compõe a comissão organizadora da Festa Literária de Ilhéus.  Atualmente está presidente da Academia de Letras de Ilhéus.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Vozes que ecoam na síncope

Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira

 

 

No carnaval de 2019, o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira contou a história não oficial do Brasil, a partir da versão de quem construiu o país e logo após foi largado à própria sorte. Desde a abolição da escravidão, tanto a história oficial quanto o senso comum contam que as pessoas escravizadas tiveram as mesmas oportunidades na dinâmica da sociedade. Porém, o Brasil foi o último país do Ocidente a por fim à escravidão. A vida brasileira foi marcada por um período cuja dor da experiência dessa violência permeia até hoje as relações sociais, e isso vai formando um imaginário pejorativo sobre os negros, relegando-os à ocupação de subempregos com baixa remuneração e de maior esforço físico, e sua produção artística e intelectual quase sempre é associada à cultura subalternizada.

Como o racismo sufoca o protagonismo negro e funciona como parte do projeto de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como produtores de saber e de cultura, Rio Negro, 50, do escritor e sambista Nei Lopes, reconta a história oficial dando visibilidade aos saberes e às culturas afro-brasileiras. Nesse sentido, vale destacar que o projeto que visa o apagamento das culturas, religiões e saberes do povo negro ainda se encontra em funcionamento, visto que a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro detém em sua posse cerca de 200 peças, entre imagens religiosas e instrumentos musicais apreendidos na década de 1920 dos candomblés e rodas de capoeiras, em uma época na qual o  Código Penal (de 1890) criminalizava os centros de umbanda, os terreiros de candomblé, a capoeira e o samba.

Já no prólogo do livro, vêm à tona duas cenas de racismo. Na primeira, com algumas doses de machismo e homofobia, após a derrota da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1950 para a seleção uruguaia, um grupo de jovens “confunde” um homem que salta do trem da Central do Brasil com Bigode, meio-campista da seleção brasileira, e por motivos puramente associados à cor da pele, começam os xingamentos e os tapas, um verdadeiro linchamento físico e verbal na então capital da república, tudo isso em uma manhã de segunda-feira: “Negro sem-vergonha! Cadê o outro viado, seu filha da puta? Mete-lhe a ripa! Toma, seu puto caga-leite! Para aprender a ser homem”.

Na segunda, Nei Lopes dá algumas pistas e deixa que o leitor tire suas conclusões. O diálogo entre um jovem professor e um embaixador, no qual este desaconselha aquele de trabalhar no Itamarati, sugerindo-lhe o trabalho no cais do porto devido ao seu porte físico musculoso, é confirmado pelo narrador como se fosse outro caso de racismo: “Se tivesse esse físico, esses músculos, eu ia era trabalhar no cais do porto, meu filho. Você nunca vai conseguir entrar para o Itamaraty. E, assim, o professor foi saindo do palácio sem ver nem ouvir nada, nem mesmo o outro linchamento que acontecia na velha Rua Larga de São Joaquim”.

 

Intelectualidade e cultura

 

O narrador apresenta uma rica galeria de personagens — ora nominadas, ora anônimas, ora do mundo real que se atravessam, desarquivando a história do Brasil, reafirmando e confirmando os saberes daqueles que a todo o momento têm sua cultura subjugada. O Café e Bar Rio Negro e Bar-Restaurante Abará, ambos na região da Cinelândia, são pontos de encontro da intelectualidade negra, que ali discute as contradições de uma cidade que se pretendia moderna. Mobilidade urbana, moradia, favela e política são temas recorrentes nas mesas dos bares.

Entre intelectuais, músicos e compositores, o encaminhamento narrativo indica que a cena intelectual e cultural da década de 1950 é composta, a rigor, por negros. Paula Assis é um advogado negro que denuncia ao Ministério Público o referido crime da Copa, cujas suspeitas recaíam, por todo o romance, sobre os três jovens negros. Após nove anos do crime, foram identificados os responsáveis, porém eram filhos de pais com cargos importantes na sociedade. Quando o novo promotor assume o caso, dispensa a ajuda de Paula Assis (lembre-se que este é um advogado negro que se empenha para a elucidação do crime) e se posiciona a favor da manutenção do status quo “tudo não teria passado de um caso fortuito, de uma triste obra do acaso”. Outros intelectuais recriados na narrativa são Esdras e Paulo Cordeiro. Este é sociólogo e jornalista com estudos e reportagens sobre tradições populares, principalmente a do povo negro; aquele é ator, dramaturgo e militante pelos direitos dos afro-brasileiros, além de um transgressor destemido, tendo como sua maior ambição formar um grupo de teatro de negros.

Além de dar visibilidade à intelectualidade negra, o autor formula com maestria o encontro de duas potências culturais de resistência do povo negro, o samba e o jazz, evidenciado na chegada do trompetista americano Dizzy Gillespie ao Rio de Janeiro: “Apresentou-se na moderníssima TV tupi, tocou com a magnífica orquestra do maestro cipó, saxofonista dos grandes… E agora, antes de pegar o avião de volta, aproveita para dar uma chegada até a estação de Oswaldo Cruz, à Portela, para conhecer o samba”.

Muito além de visibilizar o protagonismo de personagens negros a partir de uma intelectualidade acadêmica, os temas da negritude também são discutidos por personagens cuja simplicidade de expressão linguística, normalmente, marca o lugar social das camadas subalternizadas: “Esses doutô que me desculpe, mas tem preto que despreza o próprio preto. É só melhorar um tiquinho…Tem mãe é que quer é ver as filha com branco. Tem homem que só quer saber de mulher loura”.

O diálogo entre João (apelidado de Mani no bar Rio Negro) e Tia Caetana revela uma prática social vigente em uma época cujo estímulo à educação eugênica era política de Estado, tanto que os três ministros de Educação da Era Vargas, Francisco Campos, Belisário Pena e Gustavo Capanema, eram adeptos deste ideal de base racista. Nesse sentido, apesar do cruel imaginário formado do negro, João é contundente “De tanto escutar que preto é inferior, feio, sujo, preguiçoso, a pessoa de cabeça fraca acaba acreditando nisso”.

Mani foi separado da mãe quando pequeno e criado em um orfanato no interior de São Paulo, ouvindo das freiras que sua mãe era uma vagabunda e por este motivo teria que viver distante dela. O menino jamais soube que fora criado por pessoas com ideais higienistas. “Tudo isso dentro de uma orientação política que eliminasse qualquer traço que impedisse o Brasil de se parecer uma nação europeia”.

O documentário Menino 23: infâncias Perdidas no Brasil, dirigido pelo cineasta Belisário Franca, resultado da tese de doutorado do historiador Sidney Aguilar, conta a história de 50 meninos negros levados de um orfanato do Rio de Janeiro para trabalhar em situação análoga à escravidão na fazenda Santa Albertina (SP), cuja dona, a família Rocha Miranda, era adepta ao eugenismo. Nele, chama a atenção uma observação feita pela historiadora Ediogenes Santos sobre práticas racistas da época, na qual os operadores dos bondes — chamados de motorneiros, em sua maioria negros — não podiam aparecer nas comemorações e nas fotografias dos passageiros.

É contra os resquícios da escravidão que Rio Negro, 50 reverbera na síncope as vozes dos silenciados, recontando a história oficial através da voz (oprimida) e do violão (que chora), criando dissonância e contraponto ao enredo oficial da história do Brasil.

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca  formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre  produções literárias e culturais cariocas.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

ROBERTO MENDES – NA BASE DO CABULA

 

 

“O samba já existia antes do samba?”. A frase é um verso de uma das canções que Roberto Mendes reuniu em seu último disco, Na Base do Cabula, que é mais um passo da construção de uma obra que retoma as raízes do samba do recôncavo da Bahia em seus diversos formatos, como a chula ou a cabula – expresso já no título do disco.

O álbum, que chegou depois de um intervalo de 11 anos desde o último lançamento de Roberto Mendes, reúne diversas músicas que ele já havia gravado em discos anteriores e algumas novidades. A grande diferença aqui é que desta vez ouvimos apenas voz e violão, e todo o ritmo das tradições musicais pesquisadas por Mendes em sua composição vêm trabalhadas no seu instrumento despido de qualquer acompanhamento.

Da parceria de uma vida com Jorge Portugal, escutamos no disco novas versões para as faixas “O samba antes do samba”, “A beira e o mar” e “Baianos Luz”. A primeira, a qual o verso que cito no início deste texto pertence, reivindica o recôncavo baiano como berço do samba, onde supostamente o gênero teria nascido – discussão que é divertida quando se trata de poesia, mas um tanto caduca quando levamos pro lado acadêmico da pesquisa.

 

Roberto Mendes / Foto: divulgação

 

“A beira e o mar” pode ser considerada um clássico. Gravada por Maria Bethânia em 1984, a música também deu nome ao álbum da cantora. Também filha do recôncavo, do clã Viana Teles Veloso, Bethânia gravou diversas músicas de Roberto Mendes, como “Yayá Massemba”, “Olhar Estrangeiro”, dentre outras. É difícil escolher os versos mais bonitos ou marcantes dentre os cantados por Roberto Mendes, mas merece destaque a imagem trazida na poesia de “A beira e o mar”: Mesmo que desamanheça e o mundo possa parar / Nem nada mais me pareça, invento outro lugar / Faço subir à cabeça o meu poder de sonhar / Faço que a mão obedeça o que o coração mandar”. Na versão gravada por Bethânia, Roberto Mendes gravou os violões junto com Toninho Horta, que fez o arranjo. É interessante o exercício de ouvir a versão da cantora; a do próprio Mendes no disco Tradução, de 2000; a versão de Moreno Veloso no disco Solo in Tokyo, de 2011;  e a que é apresentada em Na Base do Cabula.

Por se tratar de uma homenagem, “Baianos Luz”, que vem por último no disco, talvez seja a de menos destaque. Mas não menos carregada de significados, já que a música relembra o legado dos baianos que mudaram a forma de pensar e fazer arte no Brasil – os tropicalistas -, fazendo com que depois deles déssemos um salto para o futuro, em diversos sentidos.

Na Base do Cabula foi produzido pelos dois filhos de Roberto, que também são músicos: Leo Mendes, o mais velho, e João Roberto Caribé Mendes Filho. “Deu foi dó”, inclusive, é uma parceria entre Roberto e João que acrescenta mais novidade ao disco.

 

Roberto Mendes / Foto: divulgação

 

Por fim, o sincretismo religioso do Recôncavo surge em forma de poesia musicada em faixas também anteriormente já gravadas como “Mãe Senhora”, faixa de abertura que pede a benção para começar. Além de “Bom começo, parceria com o poeta José Carlos Capinan, para se cantar em forma de oração a Oxalá e Senhor do Bonfim. Com Na Base do Cabula podemos mentalizar um fim de ano tranquilo e continuar com ele até pelo menos a segunda quinta-feira de janeiro, dia de subir a colina sagrada, sem enjoar.

 

 

Pérola Mathias, doutora em sociologia, pesquisa música contemporânea e é autora do blog Poro Aberto.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Bárbara Bittencourt

 

Pintura: Canato

 

a contragosto
.do relógio
cujos ponteiros
só apontam
em uma direção
decidi andar
pra
trás
e encarei espelhos
me olhando
…..de frente

o caminho
é este
……aponto

 

 

 

 

***

 

 

 

 

o verso
às vezes
surge do avesso
querendo ser
palavra contra
meus pensamentos

n…só quem entende
n…meus problemas
n…são os próprios
.n..poemas inteiros

 

 

 

 

***

 

 

 

 

meu poema favorito
tem no título
o mês do seu aniversário
tem na capa do livro
de capa dura
o teu rosto
que nem está ali
de fato
mas tem

tenho estado comigo
tenho pensado muito
tenho dormido mal
tenho nós num porta retrato
…………….empoeirado

 

 

 

 

***

 

 

 

 

tudo dói
inclusive teu nome
..que salga
..minha boca
…..seca
.e meus lábios
ásperos
de tanto
repetir vogais

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vejo um caminho
de formigas
pelos vãos
da casa
carregam um pouco
de mim
em suas costas rasas
quantas voltas
até levarem
todo o meu eu ?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

é fina
a linha do teu traço
que marca
a tua mandíbula
e o contorno
das gengivas
como o rejunte
que cola
e sustenta
nosso quarto

 

 

 

 

***

 

 

 

 

nas extremidades
dos meus dias
lembro de nós
..de
………..ponta
…….a
ponta

 

 

Bárbara é capixaba, mas mora no Rio de Janeiro. Médica Veterinária de formação, escreve contos e poesia na tentativa de fugir do caos cotidiano.

 

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana Paulo

 

Pintura: Canato

 

CENTO E ONZE

 

Parado em cima da ponte Rio-Niterói. A voragem. Um ponto indefinido lá no alto, na ponta de uma reta de metal, betão, piche. Carlos Henrique vacila. A dor dilacera o pensamento. A dor arranca-lhe o coração e o estômago. A dor é uma pesada pedra no peito. A imagem de seu filho perfurado, ensanguentado e morto. Fixada na memória como ferro quente. Queima, arde. A ponte, a água dura e profunda. Ele vacila. O vento passa pela face molhada. Não chove. O sol embaçado de poluição e mormaço. O calor derrete. Os olhos chovem. A injustiça abissal. O indestrutível Golias. O sofrimento maior. O peso do mar imóvel. E de novo a imagem do filho perfurado.

Furo, disparo. Tudo o perfura, atravessa o corpo, estraçalha a alma. Dói a realidade dentro dele. Na sua mente perfurada de chumbo. Tiros que o acertam e destroem a vontade de viver.

Esquecer é um bálsamo. Mas a memória dispara a imagem centenas de vezes. E tudo à volta o acerta, fura-lhe os olhos, a boca, o ouvido. Fura o pescoço. O sangue escorre e flui pelos olhos, pelas narinas, pela boca, pelos ouvidos, pelos furos nas veias…

Cento e onze.

No meio de um dia qualquer de novembro, o raio de sol refletia na janela. Nina lia o jornal, sentada no sofá da sala, no apartamento no Rio de Janeiro. Não gostava de ler jornais, raramente abria as páginas de um. Mas comprava de vez em quando no jornaleiro. Ele vendia exemplares do seu livro.

Ao ler os jornais parecia que tudo se tornava um problema. Desde que o povo acordou para a democracia era uma manifestação atrás da outra. Era cansativo! Ela se perguntava quando isso teria um fim e ela podia viver em paz sem as vicissitudes políticas e econômicas, sem ter que responder sobre sua opinião política nos eventos de literatura. Para ela, literatura não tinha nada a ver com política.

Lendo o jornal, os assassinatos a incomodavam. O artigo dizia que mais de sessenta mil pessoas morrem assassinadas em solo brasileiro, por ano. Quarenta e cinco mil, em acidentes automobilísticos. E mais adiante: Cento e onze tiros de pistola e fuzil contra o carro no qual estavam os jovens. Neste ano, são mais de onze mil, quinhentos e sessenta disparos pelos policiais do Batalhão de Irajá. Os policiais de São Gonçalo deram quinze mil setecentos e sete tiros. Somando com os do Batalhão de Niterói e do Bope chegam a quarenta e dois mil e quatrocentos e oitenta e sete mil disparos em um ano, e ainda faltava o mês de dezembro. A foto dos jovens Roberto de Souza Penha, dezesseis anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, dezesseis anos, Cleiton Correa de Souza, dezoito anos, Wilton Esteves Domingos Junior, de vinte anos, e Wesley Castro Rodrigues, vinte e cinco anos, horas antes do fuzilamento, mostrava a cara alegre e inocente de jovens afro-brasileiros.

Os ruídos dos disparos ecoavam. Muitas balas perfuraram o tronco, muitas balas entraram por cima, por trás e pelo lado direito do carro. O policial que mais atirou deu onze disparos com uma pistola Taurus e dezoito com um fuzil imbel M-964 FAL. “É um vazio no coração um pai sepultar um filho assim. Você nunca supera essa dor”.    

Ela passou na casa de seu editor, no condomínio CXI, na Av. Costa Barros. Um homossexual com cara de Oscar Wilde e gestos de Woody Allen. Ele, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, propôs: — Escreva sobre isso, então! Se está te incomodando tanto! Há meses que ele parou de fumar e engordou. Mas começou a fazer uma dieta rigorosa com o auxílio de uma jovem nutricionista. E fez um tratamento de branqueamento dos dentes. Sorria um sorriso imaculado. A editora é pequena e o número de leitores restrito, mas ele consegue financiamento de algumas empresas conhecidas do marido dela.

Nina sem inspiração. Não era ruim porque tudo o que ela escrevia seria publicado. O marido possuía amigos influentes que possuíam amigos influentes, e o irmão dela era jornalista. Seu círculo de leitores eram a maioria mulheres e ela vendia bastantes exemplares nas reuniões das instituições de caridades, promovidas pelas empresas dos conhecidos de seu marido. As boas resenhas nos jornais eram por conta dos amigos de seu irmão.

Cento e onze. Wesley Castro deixou um filho de dois anos. Wilton ia se formar como técnico em administração. Carlos Eduardo tinha acabado de concluir um curso de Petróleo e Gás e se preparava para tentar concurso para a Marinha. Roberto era Jovem Aprendiz no Atacadão de Guadalupe. “Primeiro emprego. Estava rindo à toa, estava bem com a vida. O primeiro salário que recebeu foi brincar no Parque Madureira com os colegas dele”.

Antes de voltar para casa, Nina passou no supermercado e fez a compra da semana. E cinco ramos de copos-de-leite brancos. Quando seu marido chegasse a janta estaria pronta. Ele reclamava que ela perdia tempo escrevendo ou lendo, mas quando alguém nasceu para escrever, ele somente poderá ser impedido se de alguma forma for morto. Como ela não se deixava matar, ela escrevia ainda mais. Seus três filhos quase a assassinaram, mas a empregada salvou-lhe a vida. Sem a Val ela jamais seria o que é agora, uma escritora mediana, casada com o superintendente de uma grande empresa, com três filhos homens adolescentes e o sobrinho que veio morar com eles depois da morte dos pais, em um acidente de automóvel.

O PM botou o fuzil na cara de Márcia Ferreira, mãe de Wilton. “Ninguém se aproxima do carro”, berrou. A mãe viu o seu filho e o amigo Carlos ainda vivos, gemendo. A mãe foi ameaçada por policiais, ela viu quando um deles colocou uma arma no chão, ao lado do carro, e tirou a chave do contato, jogou-a no porta-malas do veículo. “Minha cunhada queria ver o filho dentro daquele carro, mas o PM botou o fuzil na cara dela e disse que ia atirar em quem se aproximasse do carro. Quando chegamos deu para ver que o Wilton e o Carlos agonizavam e ainda estavam vivos. Pedimos para socorrer, mas eles não deixaram”.

Cento e onze pássaros alçaram voo. O bando estava pousado na árvore e no muro do grande jardim. Cinco ninhos nos galhos das árvores. A tarde caía. Nina sentou-se à mesa e não conseguia começar. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa. Roberto tinha recebido seu primeiro salário como auxiliar de supermercado e os cinco amigos foram comemorar. Moravam no Morro da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, onde os jovens negros morrem ou nas mãos dos bandidos ou da polícia, um bairro distante de onde Nina mora. Era como se fosse em outro país, em outro continente. Precisar conviver com a incerteza se o filho será vitima ou algoz. Era como uma guerra civil, um genocídio camuflado de perseguição e execução de criminosos. Horas antes a polícia tinha recebido um aviso sobre um roubo na redondeza e os suspeitos estavam dentro de um carro e uma moto. Na Curva Vinte e Um apareceu um carro e uma moto e isso foi o suficiente para a polícia atirar. Despreparo. Salário baixo. Risco de vida. Psicopatas. Psicologia. Despreparo.

Um dos países onde mais se mata.

Nina tinha medo de ir àquela região da cidade, mas buscava escrever uma história autêntica e para isso queria conhecer as famílias, as mães, pelo menos uma, precisava conversar com ela, saber sobre a vida dos rapazes. Soube, por meio de outro artigo de jornal, que o pai de Roberto foi um dos primeiros a chegar ao lugar da chacina, e não consegue esquecer a imagem do carro perfurado com o filho dentro. O adolescente recebeu 16 tiros. Soube que o alarme de Roberto toca regularmente às 6h30. O pai não sabe mexer no computador do filho para desativá-lo, e ouve o alarme tocar de segunda a sexta. O filho, de dezessete anos, nunca mais acordou para ir à escola.

O alarme tocou, seis e meia da manhã. Nina levantou-se e foi ao quarto acordar os meninos. Cinco luzes acesas. Eles tinham que ir à escola. O mais velho era o que mais lhe dava trabalho e era o último a se levantar. O sobrinho era o primeiro a se levantar. Eles não tomavam o café da manhã, se arrumavam e logo saíam.

— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele muito sensível!

Dois iam a pé, caminhavam pelas ruas do bairro até chegar à escola, atrás de uma praça arborizada. O sobrinho e o de dezesseis anos pegavam o ônibus especial da escola particular que passava na rua de cima.

Cento e onze. Gritos. Eram amigos de infância. Cinco amigos. No selfie, um deles sorri metálico com o aparelho corrigindo a felicidade. Cinco vidas. Josita, mãe de Roberto, morre três anos mais tarde, sem forças, anêmica, aos quarenta e quatro anos. Wilkerson, quinze anos, irmão de Wilton, que estava em uma moto com um amigo e conseguiu fugir dos disparos, morre de aneurisma cerebral, um ano depois.

Nina falou com a Val, que morava no bairro vizinho, sobre a possibilidade de vir a conversar com alguém da família.

— Você enlouqueceu? Foi a pronta resposta de Val. Eu não conheço ninguém daquele bairro. Não piso os pés lá.

— Mas você não poderia ver se alguém conhece uma daquelas mães?

— De jeito nenhum! E como você vai até lá? Nem táxi circula naquela região.

— Mas as pessoas vivem lá. Há muitos que vivem lá e não são todos criminosos. São a maioria gente como nós. Não são? Como eu e você que batalhamos na vida!

Uma série de argumentações passou pela mente de Val. Ela não era como a patroa. E respondeu apenas, “eu não posso lhe ajudar. Pergunte ao seu irmão, ele é jornalista!”.

De repente, a chuva.

— Val, tira a roupa do varal. Está começando a chover! Val correu para o quintal. Mas, não demorou muito, a chuva parou. Cento e onze gotas de chuva na poça no quintal.

“Não atira! Somos moradores!” O braço para fora do carro em sinal de aviso. “Não atira! Somos moradores!”

O maxilar solto por causa da potência das balas, pendurado

Cento e onze.

O advogado pediu ao Tribunal de Justiça que obrigasse o Estado a custear atendimento psicológico para mãe e filha. Em primeira instância, o pedido foi negado — a juíza considerou que a solicitação só poderia ser atendida após a condenação dos PMs. 

Cento e onze.

Nina pensou que a Val sempre a teve nas mãos. Ela era de confiança, rápida no serviço, prática, gostava de crianças e Nina não sabia de onde ela tirava tanta sabedoria sobre o relacionamento entre as pessoas. Há vinte anos que ela trabalhava na família. Com a convivência se afeiçoaram uma a outra. Val era determinada, Nina podia se dar ao luxo de se perder na realidade, o luxo do devaneio.

Adriana, mãe de Carlos Eduardo parou de falar. As palavras estraçalhadas dentro dela, a mudez sufocando. E o grito, a agressividade, os antidepressivos. As tentativas de suicídio. O mar. As ondas para engolir a dor. A dor acorrentando os pés. O caminhar no pântano. Na mão uma carta do filho, presente do Dia das Mães: “Escrevo essa carta para te dizer que tenho a melhor mãe do mundo, não porque seja a minha, e sim porque, se buscasse no mundo inteiro, não vou encontrar outra igual, nem parecida”. Monica Aparecida Santana Corrêa, mãe de Cleiton, vive à base de antidepressivos e medo de sair de casa.

O marido chegou do trabalho. Nina preparou a janta que Val cozinhou. No prato, cento e onze grãos. O filho mais velho fez dezoito anos, no mês anterior, e ganhou um Audi A3 sedã branco de presente. Desde então ele não respeitava mais o horário da janta. Nina o orientou a não sair do bairro, não dirigir o carro por aí, longe. Aquele bairro era seguro, os dois bairros vizinhos também, mas ao se afastar para a zona norte, poderia acontecer roubo ou rapto. Nina se preocupava. Quatro jovens em casa, quatro filhos lhe davam trabalho. Nervoso. Paciência. Paciência. Nervoso. O de dezesseis anos costumava deitar a cabeça em seu colo, no sofá da sala, vendo televisão. Ele tinha crescido. Desta vez, Nina deitou a cabeça no peito dele. Cento e onze batidas do coração. — Lembro de quando você nasceu, um bebê gorduchinho! Meu fofo!

Cento e onze. Márcia Ferreira de Oliveira, mãe de Wilton: “Que segurança é essa nossa que a gente é patrão deles porque o pagamento é a gente que paga com o nosso suor e a gente paga para eles poderem matar os nossos filhos da forma que o meu filho e os amigos deles de infância foram mortos? Não tinha bandido dentro daquele carro não. Tinha um bando de adolescente querendo se divertir, querendo fazer de um sábado um dia diferente, um dia de alegria, e hoje eu estou aqui, na porta do IML tirando o corpo do meu filho dali. Que UPP é essa? Ele acabou com cinco famílias. O meu filho tinha 18 anos, mas era uma criança. Ele deitou no meu colo e falou ‘mãe me faz um cafuné?’, como se fosse um bebê. E amanhã eu tenho que enterrar o meu filho”. 

A mãe saía para trabalhar, Wilton fazia o jantar e cuidava da irmã pequena, de 6 anos. De vez em quando, ela o chamava de “pai”.

Um ano depois, Nina sentou-se à mesa e não conseguia escrever. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa.

No apartamento de seu editor, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, ele propôs: — Escreva então sobre os refugiados! Faça uma viagem pela Europa e escreva sobre os refugiados. Este é um tema que está em voga atualmente, e é um tema internacional. Seus avós eram húngaros, seu marido é descendente de italianos. Conte a história de sua família! Seus avós fugiram, na época da guerra, eram judeus, não eram? Escreva sobre isso! Para ser sincero, eu sabia que você não conseguiria escrever sobre estas mortes. Elas acontecem demais! Fazem parte do cotidiano brasileiro. Nós, brasileiros, lemos isso nos jornais o tempo todo! Esses jovens não são os primeiros e não serão os últimos e a maioria da população não se importa. Este é um tema muito vinculado à vida na favela e as favelas não são o Brasil. Favela é favela! Isso não é um tema internacional e você não conseguiria vender os livros nas instituições importantes. Eles não gostam destes temas polêmicos! E poderíamos ter problemas com a polícia e com o financiamento para a publicação. Eu somente sugeri para você pensar e se ocupar um pouco. Você mesmo veria que não é pra você, e foi o que aconteceu. Escreva sobre os refugiados na Europa, sobre a ditadura e a imigração brasileira! A matança nas favelas é horrível, mas a maioria não consegue se identificar com isso e não quer saber de violência, droga, crime, policiais despreparados, corruptos, sanguinários ou bandidos cruéis ou jovens inocentes. Já chega os filmes norte-americanos! É um tema muito pesado! É um tema masculino! Você não é Paulo Lins ou Drauzio Varella! Escreva sobre a ditadura! O tio-avô de seu marido não esteve preso? Você me falou disso certa vez. Uma namorada dele sumiu. Ela era professora na universidade e foi depor, depois disso nunca mais foi encontrada. Vamos pensar em um livro que possa lhe trazer prêmios internacionais!

Uma centena, uma dezena, uma unidade. Um número harshad mais um. Jorge Roberto Lima e Penha, pai de Roberto, trabalhava de montador da Odebrecht e faz faculdade de Direito. “Ele era quase um bebê, e não vai poder nem me ver de beca. Não é por mim, em si, porque tudo que sempre fiz foi pelos meus filhos.”

Cento e onze.

“Quando ando com essa cara triste pelo morro escuto as piores coisas que uma mãe pode ouvir. Dizem que vai doer menos se eu me conformar, que não sou a única no mundo a ter perdido um filho, que eu quero ficar famosa. Já me falaram até que não tenho motivo para sofrer porque fiquei rica com a indenização do estado. O governo não nos deu dinheiro algum, e a verdade é que não quero um centavo. Só quero sair daqui. Preciso salvar meus outros filhos.”

“Às vezes, ela volta do trabalho chorando o caminho todo. Era o único filho. Só tinha o Wesley!”

Nina partiu para a Europa, passou três semanas. Os rapazes foram junto. Visitaram diversos pontos turísticos e Nina recebeu autorização para visitar um campo de refugiados, na Grécia, mas não quis expor os rapazes àquela realidade deprimente de pessoas presas. Guerra, miséria, pobreza, promessa, ilusão. Ainda mais que o sobrinho terminou o tratamento psicológico há pouco tempo. Dois anos fazendo terapia por causa da morte dos pais. Nina dedicava-lhe, às vezes, especial atenção e pedia para os outros garotos terem paciência com ele, ajudá-lo. Eram bons rapazes, carinhosos, bons filhos. Levou-os para curtir a praia turquesa e mansa. Crepúsculo rosado. Cento e onze estratos transparentes no imenso azul do céu.

— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele sensível!

Ela escreveu um romance sobre uma fotógrafa apaixonada por um refugiado sírio, engenheiro, que consegue falsificar os documentos e acompanhá-la para o Brasil. Menção à ditadura grega e brasileira. Ganhou um prêmio internacional.

Cento e onze disparos atravessaram a lataria branca do automóvel, entraram no corpo macio e quente dos jovens, perfuraram os ossos, transpassaram o tórax, o quadril, o abdômen, o pescoço, estraçalharam o queixo, a cabeça… o sangue gelatinoso e escuro espalhou-se no assento, no chão. Cento e onze balas de ferro, duras e mortais, geladas e inanimadas. No céu o final da tarde. À noite as estrelas caladas. Sem brilho. Assustadas.

“Quem deveria nos proteger está nos matando”.

Cento e onze.

“Cada vez que escuto um tiro penso no que Cleiton sentiu quando entrou a primeira bala. Não consigo parar de pensar nisso. Nenhuma mãe suporta ver um arranhão em seu filho, imagine vê-lo transformado em picadinho. Meu filho foi enterrado nu, porque não era mais um corpo que pudesse ser vestido.”

O filho mais velho de Nina, agora com vinte anos, conseguiu o seu primeiro emprego como assistente de auditoria, através da recomendação do pai. O seu curriculum foi o menos atrativo, ele não tinha experiência e estudou em uma faculdade particular. O mais velho nunca foi de estudar, faltou muito nas aulas e pagou amigos estudiosos para escrever os seus trabalhos. Mas no final, tudo deu certo e ele conseguiu o diploma de administrador de empresas. Um mês depois ele recebeu o seu primeiro salário. Estava feliz. Encontrou os irmãos, na quadra de tênis do prédio, e um amigo dele. — Vamos pro restaurante, no shopping?

Naquele início de noite, vento fresco e cheiro adocicado no ar. Alegres, os cinco jovens saíram com o Audi A3 sedã branco e foram comemorar.

 

Viviane de Santana Paulo é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Alex Simões

 

Pintura: Canato

 

um poema para Oxóssi


a Augusto Soledade, a partir da lenda yoruba recolhida por Pierre Verger
 

certa feita, o Rei de Ifé,
vulgo Olofín Odudua,
como era de costume
fez a festa dos inhames,
proibindo que seu povo
comesse desse alimento
antes da celebração
mais esperada do ano

não que fosse um rei cruel.
essa tal interdição
se fazia necessária
garantindo que a colheita
fosse próspera e seu povo
tivesse acesso ao alimento
importante para o reino
que hoje fica na Nigéria.

e eis que chega o grande dia:
Olofín estava sentado,
vestido pra ocasião,
cercado de suas mulheres
– um rei podia ter muitas –
e também de seus ministros
cujos conselhos valiam
tanto quanto uns bons inhames.

como fazia calor
que atraía muitas moscas
os escravos de Olofín
– um rei podia ter muitos –
ao mesmo tempo o abanavam
e espantavam as tais malditas
de modo que o rei tivesse
o conforto merecido

e pudesse apreciar
toda a beleza da festa,
tudo feito em seu louvor:
os tambores que tocavam,
os cantos que entoavam,
os incensos que queimavam,
as mulheres que bailavam,
homens dançavam também.

todo mundo reunido,
conversando alegremente,
fofocando e paquerando,
festejando a vida farta,
comendo os novos inhames,
bebendo vinho da palma,
uma bebida africana,
até não mais aguentar.

só que um fato muito estranho,
antes nunca acontecido
em nenhum reino de África
se abateu sobre essa festa.
de repente escureceu
quando ainda era dia
e quando olharam pro céu
todos ficaram espantados

um pássaro gigantesco
sobrevoando Ifé
resolveu, assim, do nada,
pousar bem exatamente
sobre o teto do palácio
justo no prédio central
onde ficava o pátio
em que a festa ocorria.

acontece que o abutre
lá não estava por acaso
ele obedecia as ordens
das terríveis feiticeiras
as Ìyámi Òṣòròngà
donas de todos os pássaros
que usavam ao bel prazer
pra fazer suas maldades

logo que caiu a ficha
de onde veio a maldição
mais ainda apavorado
o povo de Ifé ficou.
o conselho de ministros
logo se reuniu com o rei
para resolver de pronto
a terrível situação.

matutaram, matutaram
e lembraram dos “odé”
– em iorubá, “caçador” –
que também são os “oxó”
– “guarda”, em língua iorubá,
já que o caçador tem armas
e a destreza para usá-las,
deles vinha a solução.

foi então que convocaram
o temível Oxotogun,
caçador das vinte flechas,
oriundo de Idô,
que chegou paramentado
com uma bela vestimenta,
seu grande arco e suas flechas
miradas ao alvo em vão

mas alguém lembrou que tinha
outro odé mais temeroso.
foram buscar em Moré
o bravo Oxotogí,
o das quarenta flechadas
atiradas para nada.
nem de raspão uma delas
atingiu o grande pássaro.

a terceira tentativa
veio lá de Ilarê:
o das cinquenta flechadas
chamado Oxotadotá.
igual aos anteriores,
chegou se achando o tal,
tirou onda e prometeu
o que não logrou cumprir.

acontece que uma caça
não depende tão somente
de destreza e habilidade
de um nobre caçador
tem de pedir proteção,
saber a quem de direito,
que comidas, que palavras
entoar e oferecer.

foi quando Oxotokanxoxô,
o de uma flechada só,
veio acudir Ifé
ao tempo que sua mãe,
lá na vila de Iremã,
pediu a um babalaô
que protegesse seu filho
e que o mal não lhe abatesse.

na consulta ele lhe disse:
“o seu filho está a um passo
da morte ou da riqueza,
faça uma oferenda e a morte
há de se tornar riqueza”.
ela pegou uma galinha
e a ofertou em sacrifício
às terríveis feiticeiras.

fez a oferta na estrada,
abrindo o peito do bicho.
com o respeito à natureza
e às ordens do Orun,
ela repetiu três vezes
o que o sábio lhe ensinou:
pois “que o peito do pássaro
receba esta oferenda”.

e foi que na mesma hora
que ela despachava o ebó,
seu filho lançava a flecha ,
a sua flechada só.
e eis que o pássaro gigante
abre o peito pra oferenda
feita pela mãe do Odé
de modo que relaxou

e ao invés da oferenda
recebeu de peito aberto
de Oxotokanxoxô
a sua flechada certeira
se debatendo de um lado
caindo pesadamente,
fazendo a terra tremer
e logo depois morrendo.

foi assim que o odé oxó
aclamado pelo povo
foi chamado popular,
que é o que quer dizer seu nome:
“Caçador é popular”
Oxóssi, okê arô,
caçador que é Rei de Kêtu,
viva Oxotokanxoxô!

 

 

 

 

***

 

 

 

sessão de poesia para a tropa[1]

 

a Gilberto Natalini

 

eu era muito jovem e escrevia
poesia e as minhas poesias… tinha
poesias românticas, de protesto
contra o regime. eu era um poeta
razoável. depois eu desisti.
escrevia poemas que cobravam
dos generais, dos coronéis e tal…
escrevia sobre a libertação
do Brasil, sobre a liberdade, sobre
a tal democracia… até que um dia
ele me pegou, que dia foi, não
lembro…me despiu, me colocou
em pé sobre uma poça d’água, o fio
desencapado e atado em meu corpo
foi ligado por ele, que chamou
pessoalmente a tropa, a sua turma:
torturadores, uns soldados que
tomavam conta ali, eis a plateia,
a quem supostamente eu deveria
fazer declamação de poesia.
uma sessão de poesia para a tropa
na qual eu declamasse o que escrevia
contra o regime para os que a favor
me escutassem. e ficou lá por horas
com uma vara na mão que eu não lembro
exatamente o que era: um cipó,
alguma coisa com que me batia,
ele mesmo, pessoalmente, ali,
enquanto coordenava os outros a dar
choque, o fio desencapado e atado
no corpo do que era então poeta
recebendo telefones que não
aparelhos de comunicação,
mas muitos tapas dados com as mãos
sobre os ouvidos em posição côncava
numa sessão de poesia e eletrochoque
em que não declamava, mas ouvia
zumbidos de tortura e as risadas
que hoje só escuto parcialmente.
uma democracia por um fio
desencapado e atado em um corpo
que já não mais escreve poesia,
porém ouve os zumbidos da tortura.

_______________________________

[1] shorturl.at/np489

 

 

 

***

 

 


damarianas

 

 

I

se o habitat faz o monge
quem visitou a oca do poeta
outorga-se o habite-se da taba
onde a palavra mora se não nela
mesma pergunta que outra me deflagra

 

II

se a casa da palavra fica ao longe
lá onde mora agora o que não nela
a moça barda que é uma monja às pressas
se não habita lá a vida é bela
ela inter(p)ela:
longe de onde?

 

III

eu nem sabia nada
nada de onde aquilo ia dar
o que importa é que ele estava lá
antes que eu era
grafando nos cartazes mal me lidos
por entre umas vitrines tinha livros
e uns versos feitos pra dependurar:
deu-me origamis de papéis dispersos
não só suspensos: fáceis de(s)dobrar

 

IV

poemóbiles
orai pros natos nobilis
e as folhas podres dos bares avulsos
postando cibersóbrios veredísticos
sobre a nossa eterna embriaguez
de que só doma a razão em sendo louco
caso algo morra que não seja a plêiade
que só tenho certeza o seu talvez

 

V

e pelo exposto me interessa menos
acertar de onde viemos
do que errar para onde nós v(o)amos

 

 

 

***

 

 

 

pólen de flor

 

para Blande Viana

 

uma vez a
professora de botânica
estranhou
o fato de ter visto
uma placa
que dizia
VENDEMOS PÓLEN DE FLORES.
“de que mais haveria de ser?”,
ironizou.

o que me fez pensar primeiro
em polens das flores de plástico
alimentando gerações de abelhas mecânicas,
substitutas das suas matrizes
em adiantado processo de extinção.
elas, as extinguíveis, vão nos levar a todos,
dizem
.
.
.

um par de semanas depois,
lembrei que livros de poemas
gostam de miolos com papel
pólen
……………………………….soft
……………………………….&
……………………………… bold

nome que talvez se deva a sua cor
amarelada
e que reflete menos luz,
proporcionando uma leitura mais confortável.

oxalá
estas palavras percam sentido
num futuro cheio de
polens
de
flor

abelhas
&
leitores.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

era

 

para Antonia Avelina Ninha, in memoriam

era
3 anos mais velha
10 quilos mais gorda
um tanto mais alta
gostava de me pegar pelos braços
girar girar girar
………………………………&
…………………………………..s…………o…… l……t…..a…..r
um dia
……………………..as costas na pedra grande da rua

estrelas piscando num fundo vermelho
soltaram faíscas

e então
perdi o medo
……………………..de
re
……..vi
………….dar

 

 

 

 

***

 

 

 

 

A Educação pela Pedrada

 

para Jorge Augusto

 

Porque a pedrada é pra: pegar visão;
para aprender na tora, é uma bala
a queima-roupa, um cachação verbal
(um cínico litotes, uma fala
neg-afirm-ativa, pedagogia
da dura, do chepo, não burilada,
nem bostética, a ideia reta
sem nada de caô, que vai na lata),
lição da pedrada que vai pro centro
da periferia e a tudo empala.

Outra pedrada educativa: o não,
(do centro pro gueto, bem antipática)
pra aquele que não sabe se ligar
(e talvez não adiantasse nada)
que dar pedrada na selva de pedra
é faísca no paiol da barricada.

 

 

alexsim é um poeta criado na avenida Bahia, número 1, Fazenda Grande do Retiro, Salvador, meu amor, Bahia. é também performer, professor de português para estrangeiros e revisor de textos alheios, entre outros. publicou alguns livros, o último intitulado trans formas são. às vezes traduz, critica, resenha, edita e torna público o que faz. às vezes, troca de pele e de nome.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

De que geografia e de que mortes, afinal, Priscila Pasko fala?

 Por Helena Terra

 

 

“Como se mata uma ilha”. O título, se fosse um livro de poemas, já seria impactante e original verso.

Mas não é.

É um livro, não, é mais que um livro, é uma requintada literatura de contos e de alegorias de várias ilhas ou torrões ou grãos de areia humanos ou, ao contrário, da comunhão de toda essa humanidade em um arquipélago de palavras ancoradas na perspectiva, na sensibilidade e no desprendimento da escritora e de cada leitora ou leitor.

Umberto Eco diria se tratar de uma obra aberta pronta para se desdobrar e desdobrar.

Salvador Dalí a pintaria com sua visão de mundo surrealista, exigindo o olhar astuto e atento aos símbolos em crítica e em movimento que permeiam as entrelinhas.

Simone de Beauvoir, acredito, aplaudiria, assinando embaixo de cada texto, de cada potente testemunho e testamento de que o que somos nem sempre é o que nascemos e menos ainda por nossa livre e espontânea vontade.

Por quê?

Porque o “Como se mata uma ilha” fala de nós, as mulheres, dentro dos territórios sociais, culturais, corporais e psicológicos em que vivemos e dentro de nós mesmas. Nós, as mulheres, sendo o útero e o parto que embala a criação – em seu sentido mais óbvio e, também, em seu mais complexo – e nós, as mulheres, sendo forçadas a ser os limites e a sepultura do que inspira e dignifica a existência em seu todo e em nossas particularidades.

O “Como se mata uma ilha” fala sobre quem somos, nos discute e debate. No entanto, não nos julga. E quem não julga, não condena. É preciso coragem para evitar a autoridade das sentenças, para não optar por elas, para não aceitar e perpetuar os estigmas, os rótulos e os preconceitos. É preciso coragem para não condenar com a própria ignorância. E é preciso consciência, acréscimos de consciência, para não se deixar moldar e constituir por meio de opiniões carregadas de experiências, valores e indiferenças alheios.

As personagens, da Priscila Pasko, se parecem e não se parecem umas com as outras, exatamente, como nós, mulheres e homens, também, nos parecemos e não nos parecemos. Em comum, elas têm uma espécie de apego pela verdade e de intimidade com ela, do mesmo modo que a escritora tem com a laboriosa tarefa que é escrever.

Por incrível que pareça, o “Como se mata uma ilha” é o seu livro de estreia. Talvez, todos os livros, os bons livros, sejam mesmo de estreia por não se parecem com nada além de obras de arte.

 

Helena Terra é escritora, jornalista e coordenadora literária do grupo de leitura “A literatura tem nome de mulher”, que se propõe a ler e a pensar as obras escritas por mulheres, em Porto Alegre, na Livraria Cultura.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura segue como verdadeira ponte entre mundos, lugares que deslizam entre o vivido e o imaginado. Nesse ínterim, acepções das nossas humanidades se delineiam de modo a compor um painel difuso sobre as tramas da existência. Olhando assim de tal forma, escrever pode representar substancial exercício de vivências na linha sutil a divisar realidade e ficção. As paragens literárias comportam um contingente imensurável de subjetividades possíveis, de cenários e situações que marcam o indelével e imponderável espírito humano. Há sempre um quê do autor numa determinada obra, ainda que seja apenas algo alimentado pelo campo das referências, pela inalienável observação e assimilação dos fenômenos mundanos que se nos atravessam teimosamente por entre os dias.

Como poderíamos definir, por exemplo, o que seriam os caminhos da autoficção? Quem de fato nos conduz nesta complexa estrada que transborda do texto para a vida? Imprecisões à parte, parece ser melhor pensar que se desdobram eus no corpo vasto de uma certa escritura, relatos de si que reverberam experiências tidas ou imaginadas, as quais muitas vezes nos estimulam pela impressão de realidade que sugerem. Se estamos então mergulhados nas tensões cotidianas, aí é que os textos podem nos revelar mais do que meras predileções estéticas ou estilísticas.

Ficamos, pois, com os vestígios e marcas palpáveis da vida quando nos deparamos com um livro como O Enigma de Daniela. Nele, sua autora, Lelita Oliveira Benoit, mais do que uma obra autoficcional rica em informações e detalhes, constrói uma narrativa que envolve o leitor pela capacidade de mesclar percepções e relatos frutos de uma realidade que emerge brutal. Nesse sentido, o texto procura o leitor, seduzindo-o a ponto de fazê-lo (o leitor) testemunha próxima de tudo aquilo que é pormenorizadamente contado. À personagem-narradora coube a cuidadosa missão de contar a história verídica de Daniela, jovem médica que, ainda estudante, viu seu destino ser marcado por um irresponsável acidente automobilístico que limitou para sempre seus movimentos. A partir daí, desenrolam-se batalhas de superação pessoal da jovem diante de suas restrições físicas e, sobretudo, de sua readequação mental para seguir vivendo, além do enfrentamento judicial das questões que envolveram o acidente, tendo em vista que o motorista causador do atroz infortúnio estava embriagado na ocasião.

Lelita Oliveira Benoit, além de escritora, é psicanalista e Doutora em Filosofia pela USP. Sua tese de doutorado, Sociologia Comteana: Gênese e Devir (1999), publicada em livro pela Discurso Editorial/FAPESP, foi indicada ao Prêmio Jabuti em 2000, sendo que anos depois, em 2007, viria a ser traduzida para o francês e editada pela L’Harmattan. Também é autora de Livro da Madrugada (E de outras enigmáticas horas amorosas), livro de poemas publicado em 2013 pela Iluminuras. Com O Enigma de Daniela (2019), editado também pela mesma editora, a autora estreia na prosa. E foi justamente para falar desse seu novo momento literário que ela concedeu uma entrevista à Diversos Afins, pontuando aspectos fundamentais de seu processo criativo, desafios e perspectivas do mister. O saldo da conversa que agora segue é deveras positivo, não apenas pela expressão da intelectualidade de Lelita, mas principalmente por sua sensibilidade em dividir conosco reflexões profundas sobre a condição humana.

 

Foto: Julieta Benoit

 

DA – “O Enigma de Daniela” é um livro vigoroso na medida em que trata, de forma densa, delicada e informativa, de um tema que ainda nos é muito caro: as limitações do corpo físico diante da tragédia. Que espécie de desafios se configuraram de imediato em sua escolha narrativa?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Agradeço as suas fortes e sensíveis colocações iniciais. Me tocou muito ao sentir na minha pele, na minha alma, a sua leitura do meu romance de estreia. Indo agora em direção à sua pergunta. Diria que não fiz escolhas narrativas. Não tive como ponto de partida uma ou outra escolha ficcional. Diria sim que fui sugada pelo tempo – que era então, o tempo presente da minha vida passada. Foi essa a escolha, pela vida. Fiz da vida, ficção – como é inevitável no espaço da escrita do romance, ou talvez, do romance de qualquer ser humano. E acrescento mais. A escrita desta ordem particular, a do romance, para mim ao menos, acaba sendo máscara do eu – do meu eu. Pois não há outro caminho (methodos, em grego clássico) para ser Outro de si mesmo, no espaço ficcional. Me dupliquei. Me transformei em máscara do meu eu. Na escrita do romance, da poesia, sou (ou somos, não sei bem…) Outro sendo eu mesma. E confesso que tenho grande dificuldade em fazer a interpretação daquilo que lancei ao papel. Para clarificar um pouco a minha enodoada resposta, lembro aqui do segundo prefácio que Rousseau escreveu para o seu romance Julia, ou A nova Heloisa, que tem como subtítulo “Cartas de dois amantes de uma cidadezinha ao pé dos Alpes”.  No prefácio, é transcrita a conversa entre o filósofo-escritor com o seu editor, e este último se refere ao conteúdo do romance, composto por cartas. Pergunta o editor ao “homem de letras”: “Esta correspondência é real ou trata-se de uma ficção?” Lhe responde Rousseau: “Para dizer se um Livro é bom ou mau, que importa saber como foi feito?” Rousseau se refere à zona do fazer que me parece mergulhada na própria escrita literária. É a sua zona mais desordenada, tumultuada, caótica, sei lá… Pois é o espaço da criação artística. Implica a subjetividade do eu que escreve, entrelaçada às suas vivências e escolhas indeslindáveis, quase sempre. Poderia recorrer à psicanálise, a Freud. Mas prefiro outro caminho, mais nas proximidades da literatura ficcional.  Então me permito “roubar” aqui a fala de Mikhail Bakhtin, em O romance como gênero literário. Lá escreve o grande teórico da literatura que prefere escutar a voz do romancista ao invés de recorrer aos linguistas ou filósofos da linguagem. Prefere Bakhtin acolher as vozes de romancistas tais como Rousseau, ou Friedrich Schlegel, ou Dostoiévski e outros mais, pois são eles que “participam da formação viva do romance enquanto gênero literário”. Me coloco sempre ao lado da criação literária, portanto, ao lado da vida, e tendo a concordar com Bakhtin. Que parece ter escutado a minha voz de romancista.

 

DA – Dentro dos percursos autoficcionais, seu romance vai desfiando cenários, situações e personagens que envolvem o leitor numa sensação permanente de realidade. Nesse sentido, quem lê a obra está amparado por cuidadosos requintes descritivos e informativos a respeito de assuntos que transitam, por exemplo, entre os saberes médicos e jurídicos. Como você vislumbra tal perspectiva?

LELITA OLIVEIRA BENOIT –  O meu romance se fez da perspectiva de intenso desejo – e, assim espero, com delicadeza e muita poesia. O desejo de tocar com os meus dedos imaginários a realidade. Desejo amoroso sempre. É o amor que a tudo pode enlaçar, acredito eu. No meu romance, a  realidade emerge do fluxo do meu desejo amoroso, entre as letras e palavras, se desmanchando em fios – “desfiando”, na sua bela imagem – acontecimentos vivenciados, portanto situações verdadeiras, na alternância das histórias lá contadas, sempre com o meu eu-máscara enlaçado a elas. Sempre. O meu desejo amoroso foi recolhendo, aqui e ali,  saberes diversos e múltiplas vozes que foram costuradas –  não encontro palavra melhor… – às minhas diversas leituras  das belíssimas páginas da literatura judaica (Amós Oz, Bashevis Singer, Kafka, I.L. Peretz e outros mais), das narrativas fortes e poéticas da Bíblia Hebraica, da longeva história do povo judeu, e ainda de escritores não judeus, como Jorge Luis Borges que reverenciou esse povo milenar em sua produção literária – que se leia o magnífico “El Aleph”! Então, o meu desejante olhar amoroso – ou, o meu eu-máscara – foi guiando com delicadeza os meus dedos para que tocassem a realidade da sabedoria médica que, além da cura dos nossos corpos biológicos, procura sempre a Justiça como exercício da Ética, tão ausente agora, e talvez desde sempre. Lado a lado ao saber médico,  toquei a realidade de seu outro inseparável comparsa, o saber jurídico. Descobri que este último segue, quase que aos trancos e barrancos, tentando preencher os vazios que permeiam a medida humana do justo e do injusto. Algumas vezes, chega bem perto, em outras, falha completamente. Com os meus dedos de romancista segui tecendo um enredo, às vezes caótico para mim, no qual tanto o saber médico quanto o jurídico se mostravam quase que imobilizados diante da tragédia de um acidente automobilístico criminoso, que é o mote central de O Enigma de Daniela. Enfim, o romance – e não apenas o meu, com certeza! – é minha voz, voz reflexiva e altamente elaborada, incluindo certa desordem da minha escrita, que tem o poder de abrigar outras vozes, vozes íntimas e coletivas,  jurídicas e médicas, de professores e da estudante de medicina, do pai amoroso e da bela filha resgatada da tragédia pelo amor paterno, vozes dos amantes enlaçados pelo mútuo encontro feliz, e tantas outras vozes significativas. E sim, o meu romance toca a realidade presente e com beleza estética, desejar apontar futuros possíveis, e – tenho esperanças! – mais humanizados. Para que um dia, talvez – quem sabe ao certo? – consigamos nos libertar do Holocausto pós-moderno no qual estamos como que paralisados, literalmente sufocados pela injustiça universal – e agora me remetendo às inspiradoras palavras da poeta Maria Lúcia Dal Farra, que escreveu a apresentação de O Enigma de Daniela. Paralisados nós todos, e não apenas as pessoas portadoras de tetraplegia que o meu eu-máscara abrigou, acolheu com amor, no fluxo dessa minha narrativa romanceada de acontecidos reais, verdadeiros.

 

DA – Nunca é demais pensarmos sobre o que realmente desejamos para o Outro, exercício de alteridade no qual a promoção do bem coletivo nalguns momentos parece resvalar na utopia. Acredita que estamos presenciando, em escala global, um acelerado processo de desumanização?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Para responder à sua pergunta, retorno a Mikhail Bakhtin que, nos dias de hoje, muito me tem inspirado com a sua teoria do romance. Escreve Bakhtin que, no gênero romance, a realidade fica de tal forma próxima da ficção que é como se aquela pudesse ser agarrada e tocada pelas mãos do escritor, ou colocada de pernas para o ar, ou exibida em suas vísceras carnais. Essa grande proximidade com o presente produz, no gênero romance, o seu permanente inacabamento que o abre ao futuro, em leituras que seguem o recriando a qualquer momento e sempre. O gênero romance se estabelece como mais próximo do futuro do que do passado, resvalando às vezes na utopia, comenta ainda Bakhtin. O que isto tudo pode nos inspirar? Que o romancista tende a se encostar sim em certa utopia, no nenhum-lugar,  no lugar do supostamente irrealizável, porém desenhado nas páginas de milhares de romances.   Pois, do outro lado da escrita ficcional,  do romance, se encontra o seu Leitor.  Este último vai preenchendo o vazio ou o adensamento excessivo entre as palavras, essa rara espécie de nenhum-lugar, com o cimento da própria experiência existencial. É assim criado um tipo particular de diálogo no âmago da escrita ficcional. Do Escritor do romance e de seu Leitor:  inseparáveis no tempo da leitura ou das reflexões elaboradas após a leitura, e que talvez acompanhem o Leitor por toda a sua existência. Refletindo um pouco mais em torno do elo entre o Escritor e o Leitor.  Ao menos para mim, que me bebo também nas fontes da filosofia, os diálogos de Sócrates, contados por Platão, seriam romances de vidas, pois narram histórias reais. E há muito mais a dizer. O diálogo socrático está ali não como mera possibilidade de ser vivenciada por Outro, um suposto Leitor, mas está lá de corpo presente, cravado em palavras e se entrecruzando na forma dialógica da escrita de Platão. No que também tendo a concordar com Bakhtin, que viu nos diálogos platônico-socráticos os primórdios do romance europeu. E do nosso, por consequência. O rápido processo de desumanização – ao qual você se refere e com o qual tristemente tenho que concordar – poderia talvez ser sustado com o retorno ao romance, à poesia, à totalidade da literatura e, é claro, com o retorno às demais criações culturais: artes plásticas, cinema e qualquer tipo de invenção artística (que se fragmentam em múltiplas formas de aparição, nos dias de hoje). Li há pouco um discurso proferido pelo poeta Federico Garcia Lorca, no dia da inauguração de uma biblioteca pública em sua cidade natal.  Nesse discurso lírico, afirma o poeta que não só de pão vive o ser humano. E se por acaso ele, o poeta, estivesse faminto, pediria metade de um pão e um livro. É esse um provável caminho, quem sabe… Lembro ainda que tive o privilégio de, em pequeníssima parte,  vivenciar algo semelhante, desde 1985, como professora de Filosofia em escolas de ensino superior, direcionadas particularmente a trabalhadores pobres. A fome (ou, nos dias de hoje, a alimentação carente de nutrientes necessários à vida)  se manifesta na fala e na escrita da maioria dos estudantes. Mas é em igual medida que os mesmos estudantes manifestam fome por cultura. Se o pão lhes foi negado – mesmo que no corpo perverso da “comida” atual – a cultura igualmente lhes foi roubada descaradamente. E nos dois sentidos, o fosso é muito profundo entre a fome e o se sentir saciado.

 

Foto : Julieta Benoit

 

DA – Essa ideia de saciedade pelo acesso aos bens culturais deveria ser respeitada como um direito humano inalienável, posto que também estimula a formação do pensamento crítico. Você aposta na libertação do sujeito pela fruição da arte?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Gostaria de dar um toque psicanalítico a minha resposta. Breve retorno a Sigmund Freud, nas questões da arte e dos artistas. Relembro de um curto texto no qual o psicanalista-fundador discorre sobre o “princípio de prazer” e o “princípio de realidade”. Segundo Freud,  esses dois princípios parecem guiar, dar direções ou doar significados à vida psíquica de cada ser humano. O princípio de prazer é quase onipresente em nossas primeiras escolhas, ainda no berço, na primeira infância. Sua tarefa mais importante seria, a todo custo, evitar o desprazer. Mas aos poucos, o princípio de realidade coloca interdições ao primeiro, vai se impondo e ganha cada vez maior espaço no psiquismo humano, determinando nossas decisões relacionadas ao mundo exterior, à sociedade em que vivemos. Às vezes, chega quase a sufocar por completo o princípio de prazer. Trocando em miúdos, seria algo bem semelhante ao princípio de adaptação à realidade.
E me desculpe se faço um resumo tão tosco de reflexões tão poderosas! Mas prossigo, apesar da precariedade. O artista é aquele que, por um talento inexplicável, consegue aproximar, entrelaçar os dois princípios de funcionamento do psiquismo quando produz uma obra de arte. A um só tempo, a obra artística dá prazer ao próprio criador e ao seu fruidor. Enfim, a obra passa a compor a realidade e surge nela como objeto artístico. Observação muito importante: o artista se recusa à aceitação do princípio de realidade e, de certa forma, faz a sua negação, mesmo que parcial. O fruidor da arte é aquele que compactua – talvez, secretamente ou inconscientemente – com a insubmissão do artista ao mundo em que vivemos, embora não consiga realizar o ato de rebeldia, a obra de arte. No nosso tempo presente, vigora a sensação de que prevalece apenas o sufocante e puro princípio de realidade. É muito triste que assim seja. A arte e o seu criador, o artista, são censurados,  banidos ou ignorados o tempo todo e por diversos meios.  Não há horizonte visível, ao menos para mim, de libertação dos seres humanos pela fruição da arte. E me pergunto muitas vezes que significado pode ter um direito, mesmo que inalienável, se não se pode o exercer, ainda que parcialmente? Me permita repetir o que já disse antes: o fosso é muito profundo entre a fome e o se sentir saciado, tanto pelo pão quanto pela cultura. Diria que é o fosso da terrível desigualdade, em todas as suas formas de aparição, na realidade contemporânea. E contudo, quando se sente fome, acredito que ainda vale parafrasear o poeta Garcia Lorca – e há ainda quem o faça sim! e aos gritos! – que meio pedaço de pão aplacaria a necessidade básica de todo ser humano, caso chegasse acompanhado de um bom romance.

 

DA – Por falar em psicanálise, há um exercício de escutas que norteia a relação entre a personagem-narradora e  Daniela, servindo de base para a exposição dos relatos e situações. Em que medida a sua porção de psicanalista auxiliou nessa construção?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Você tocou num assunto muito importante para o processo de elaboração do meu romance. Antes de tudo, devo confessar que o meu ser psicanalista só se mostrou por inteiro após finalizar as escutas de Daniela.  Me explico. Foi a moça que me revelou o que eu não sabia ainda, ou não era bastante claro para mim. Daniela me disse que eu tinha sido a sua psicanalista durante um longo tempo, um ano ou mais. Se bem que,  acrescento eu, não nos moldes tradicionais. Era eu que me deslocava até o apartamento de Daniela. Não havia, como o habitual, o consultório da psicanalista.  Não recebi  pagamento em dinheiro por tais escutas.  Porém outros detalhes ocorriam. Dois significativos exemplos: o tempo sempre fechado da escuta e Daniela me revelando segredos. Sim, segredos os quais, após o romance já composto, ela resistiu bastante quanto à publicação de alguns trechos, pois seriam seus “segredos”. Hoje, quando  junto as pontas do já acontecido,  se revela para mim um exercício de inspiração psicanalítica intensa no decorrer da escuta não apenas de Daniela, mas igualmente, do pai da moça, o médico Alberto, da advogada Cleide e das demais pessoas, de cujas falas me ocupei para a construção – um tanto caótica, confesso –  do enredo do meu romance. Veja só que precisei de mais de quatro anos até colocar um ponto final em tudo. E enquanto isso não acontecia, não era muito claro para mim o significado e os limites da minha experiência de escutas de inspiradas na psicanálise. E vou além. Penso que  as pessoas – que pelo ato mágico da escrita ficcional, tornaram-se personagens do meu romance – todas elas são singularidades humanas, são únicas e insubstituíveis, e se faltasse uma apenas, o enredo não seria o mesmo, se enfraqueceria muito, ou talvez nem sequer existiria. Pois nunca se tratou de um enredo construído conscientemente, foi muito mais uma escrita beirando a desordem, durante aquele tempo em que fui sugada pela vida.  Talvez por isso, no romance finalizado, conservei por inteiro as vozes que escutei. Mesmo que eu tenha enlaçado  as falas das pessoas-personagens naquilo que é só meu, a minha rede de pescadora das vozes de Outros e que resultou no meu eu-literário.  Aquela que sou sustentou aquela que inventou a fantasia de Outros e a minha, a um só tempo. Isto tudo acontece sempre na escrita de qualquer romance? É a minha pergunta ainda sem resposta. E nem pretendo encontrar uma que seja acabada e, portanto, sem vida, fria e morta.

 

DA – É interessante perceber que o processo autoral no seu romance acaba resultando numa convergência de vozes. É a sensação ali de não se ter uma autoria fixa, centrada num sujeito apenas, mas na intersecção de subjetividades. Desde sempre você apostou conscientemente nisso?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – “Convergência de vozes” e  “intersecção de subjetividades”: bonito! Gostei das expressões, ou melhor, da sua interpretação. Essa pergunta me conduz a  Roland Barthes (brilhante escritor, quase “démodé”, infelizmente…). Me recordo de Barthes discorrendo sobre a “morte do Autor” e dando a própria interpretação da literatura e do romance, em particular.  “A escritura é a destruição de toda voz, de toda a origem… a começar pela do corpo que escreve”.  Destruição das origens, a do corpo que escreve e de sua voz. Com qual finalidade Barthes decreta a morte do Autor? Para realçar, penso eu, a própria escrita ficcional e dar espaço para que falem as múltiplas vozes ali acolhidas. E igualmente, para destacar a importância singular do Leitor.  Sem leitores não há romance que se sustente no presente, ou que perdure por muito tempo. Você me perguntou se foi escolha consciente o ato de descentralizar ou dissolver a minha autoria na “intersecção de subjetividades”. Respondo que sim, foi consciente, e ao mesmo tempo, que não foi consciente. Explico o sim: é porque pertenço a uma geração que tendia ao coletivo,  ao partilhado. O romance é lugar ideal para manifestar as vozes que me habitam. E Barthes, de certo modo, falava e escrevia para esse meu outro tempo, talvez por isso esteja um pouco fora de moda. Agora, o não. E é bem difícil de explicar que não foi inteiramente um ato consciente, que eu me inclinava, de certo modo, à minha anulação. Dei voz a  tantos, partilhei com muitos a minha voz de escritora.  Olhe, tenho que detalhar alguns dos meus procedimentos literários.   O gravador de voz  foi o instrumento mais importante para realizar as escutas. Escutava ao mesmo tempo que gravava e depois, eu mesma elaborava as falas, cuidadosa em conservar o melhor: o ouro, ou o mais precioso delas. Ressalto, ainda uma vez mais, que há outras vozes – além das pessoas reais, transformadas em personagens da minha ficção – vozes que recolhi da história escrita do povo judeu, do melhor da literatura judaica, das preciosas citações da Bíblia Hebraica. E é certo que, poucas vezes, me deixei falar, a minha voz é silenciosa, quase ausente. E quando aconteceu de eu falar… Bem, você já sabe, é o meu eu-literário que se apresenta, um “eu” que é ficção do que eu sou. No meu romance, outra vez trocando em miúdos, me apresento como uma quase mentira de mim mesma, fantasia do meu eu.

 

DA – É impossível não notar como a ideia da fé atravessa todo o seu livro. Nesse contexto, as citações de passagens da Bíblia Hebraica estão sempre a introduzir cada capítulo e acabam dialogando, de algum modo, com a atmosfera que emana das narrativas. Diga-se de passagem, a saga do povo judeu, em especial, é algo emblemática no transcurso da história, sobretudo pelos desafios enfrentados. O caminho da espiritualidade é uma via de esperança?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – As suas perguntas me jogam sempre para o lado de escritores que me apaixonam! Como a atual. E agradeço por me dar a oportunidade de dizer algo, ainda que bem sucinto, em torno do escritor judeu israelense Amós Oz. A Bíblia Hebraica entrou no meu romance por intermédio dos seus ensaios de Os judeus e as Palavras. Oz, em um deles, se autodenomina “escritor secular” e demonstra ver na Bíblia Hebraica o lugar da pura literatura, e da mais alta qualidade, encontrando nela poesia e encantamento. De passagem, recordo que Amós Oz possuía uma grande e fértil erudição, que se manifestou em diversas direções, como no romance Judas e na autobiografia De Amor e Trevas. E há mais, muito mais que não caberá nesta simples resposta. Oz escreveu, neste ensaio que citei,  que o povo judeu tem uma relação muito particular com as palavras. Durante séculos e séculos, não tiveram outra terra ou país a não ser o das palavras, a começar pela Bíblia Hebraica, ou a Torá, para ser mais precisa. E quando alguém folheia, de modo despreocupado, o meu romance O Enigma de Daniela, encontrando lá, em suas páginas, citações bíblicas, norteadoras de cada um dos seus capítulos, poderá talvez pensar: “Caramba, este deve ser um romance religioso”. Mas não é de modo algum. É, isto sim, um livro que muito  gostaria de cativar os seus leitores com palavras e apenas palavras, através de existências humanas significativas, vivas, como quando ocorre, em suas páginas, o enfrentamento de quase intransponíveis desafios diante de um acidente criminoso e que abruptamente atingiu a jovem mulher judia Daniela, de apenas 23 anos, roubando-lhe os movimentos mais importantes do seu corpo. Para completar, lembro aqui de um tema presente no meu romance, o da complicadíssima relação entre religião e tradição judaicas. Dou um exemplo que me chega das minhas relações pessoais, portanto, de fora do romance.   Tenho uma grande amiga cujo pai era  judeu alemão e que imigrou para o Brasil nos anos da 2ª Guerra Mundial. Este senhor era ateu e marxista, no entanto, colaborou financeiramente para a construção da Sinagoga do Rio de Janeiro. Me parece que muitas vezes é bem complicada para os judeus e judias resolverem a equação religião versus tradição. Enfim,  se tenho alguma fé, é nas palavras escritas, no seu poder de encantamento, que pode mover o íntimo das pessoas para algum lugar melhor, dentro ou fora delas. Mas há também, nos dias atuais – e aliás, sempre existiram –  palavras que ferem e, às vezes, são letais. Difícil de responder… Me afasto sempre de caminhos pré-fabricados. E de um poema me lembro agora, do espanhol Antonio Machado, que assim escreveu: “Caminante no hay caminho, sino estellas en la mar”.  A ver

 

Foto: Julieta Benoit

 

 DA – Que espécie de polêmica a capa do seu romance gerou?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Ótima pergunta, que me possibilita dizer algo a esse respeito. Mas, antes de tudo, gostaria de agradecer ao excelente e prestigiado fotógrafo Ângelo Pastorello, que assina a foto de capa do meu romance. E também ao artista Eder Cardoso que compôs a capa a partir da foto de Pastorello, e ainda é o criador do bonito projeto gráfico do meu livro. Indo agora direto à polêmica, que dividiu opiniões. Alguns, que criticaram insistentemente a foto, disseram que se trata de um resultado fotográfico resvalando a publicidade, talvez um kitsch fotográfico. Outros, que a aprovaram – aliás, a maioria – viram nela algo próximo a conceitos da “pop art”. É engraçado, pensei, que uma opinião não anula a outra, mas se complementam. Preferi  então beber na fonte e fui conversar com o fotógrafo Ângelo Pastorello.  Diálogo bastante interessante e  bem surpreendente, pois  me remeteu às minhas escolhas – ou não-escolhas, para ser mais precisa – na escrita de O Enigma de Daniela. Veja, de forma bem sucinta, o que Pastorello me revelou. Que nunca teve como ponto de partida um conceito, em particular. A sua única escolha foi a de fazer um portrait, ou seja, um retrato espontâneo, sem truques, em interação viva e livre entre o fotógrafo e a pessoa fotografada, no caso, Daniela.  Para fazer o retrato, apenas escolheu, isto sim,  o tipo de luz, uma luz mais volumosa, luz de cinema,  para acentuar as expressões faciais e corporais da moça. De resto, completou, tudo aconteceu de maneira empírica e espontânea, entre o fotógrafo e Daniela.  Enfim, Pastorello ressaltou bastante que não foi guiado por um ou outro conceito, e é bastante subjetivo falar de conceitos em fotografia. Se dissesse, por exemplo, que a intenção era a de passar a seriedade ou o humor da moça, isto não seria completamente verdadeiro.  Pois sempre é o ponto de vista do fotógrafo que prevalece, um olhar apoiado por um aparato técnico-fotográfico. Enfim, nada tem a ver com conceitos pré-estabelecidos, específicos e, durante a sessão de fotos – que se prolongou por um dia inteiro –, nas palavras de Pastorello, “deu-se a liberdade de improvisar”. E concluiu me explicando, uma vez mais, que a imagem carrega muito da subjetividade do próprio fotógrafo, mas acima de tudo, a de quem olha a foto.  Na verdade, é ainda mais importante, pois a pessoa olha e sente a imagem de acordo com o seu Universo próprio e único.

 

DA – Você me confidenciou que estava trabalhando num novo livro. O que pode nos dizer a respeito desse futuro projeto?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Sim, revelei um segredo para você. Mas posso adiantar algo sobre esse novo projeto, já em curso. Será (ou já está sendo) um romance de vidas, como foi O Enigma de Daniela. São muitas vidas femininas que estou agora abrindo a minha escuta às suas vozes internas: seus gritos de aflição, de dolorida existência e também, aos seus desejos mais intensos. Os meus dedos de romancista tocam a vida real de mulheres, envoltas em grandes dificuldades e lutando contra elas, o tempo todo. São dificuldades, diria eu, diferentes daquelas enfrentadas pela família judia Bortman e, em particular, pela mulher Daniela. São dificuldades vivenciadas por muitas mulheres que se remetem à pobreza material,  à falta de moradia digna, de uma formação escolar humana.  Sendo de natureza material e espiritual, as muralhas erguidas por tantas dificuldades seguem tentando impedir ou talvez, espedaçar o futuro dessas mulheres entristecidas, mas resistentes. Os seus sonhos femininos persistem com tenacidade, com admirável beleza, apesar de tudo e contra tudo, insistem em existir.  Sobreviventes no caos do dia a dia, universo que as sufoca. Ao sofrimento feminino estou abrindo a minha escuta neste novo romance de vidas. Nele, insisto, é acima de tudo a voz feminina que fala. Já tenho um título, talvez provisório: O deserto e o canteiro belo. Invenção de uma jovem mulher, desprovida de tudo, mas ainda assim, dotada de imensa criatividade. Aliás, como o atual romance, O Enigma de Daniela, cujo título foi escolhido pelo médico neurocirurgião Alberto Bortman, pai de Daniela.  Pois, a criação de um romance de vidas envolve sempre a escritora, o meu eu-literário, e as vozes que nele acolho – como que encantada! Sim, encantada, surpreendida e, sobretudo, emudecida. Sempre tentando transformar tragédias em literatura, em romances, em poemas. Mesmo que apenas seja beleza literária, e no papel lançada.

 

DA- Afinal, por que escrever?

LELITA OLIVEIRA BENOIT – Sem escrever, nada sou. É tão natural como respirar, sabia?  Sem escrever, não há como eu sobreviver. Questão de vida ou morte, ao menos para mim. Escrevo como respiro: se me faltar a possibilidade de escrever, é o mesmo que me sentir sufocada ou sem ar respirável. Ao final do processo de escrever poemas ou romances, ou até mesmo, artigos ou livros de filosofia ou psicanálise, sinto –  é sensação, sim! – que vozes múltiplas falam através das minhas palavras. De certo modo, já me habitavam desde não sei quando.   Sou apenas a voz de Outro.  Procuro ser a transcrição poética das vozes que sendo de Outro, coincidem, de algum modo, com o meu eu-literário, o eu que escreve – e respira! Reforço: até mesmo na escrita teórica, de natureza filosófica ou psicanalítica. Como disse no começo desta conversa inspiradora – à qual só tenho que agradecer a oportunidade – sinto intransponível dificuldade de interpretar a minha escrita. Respiro: eis tudo… Quando faço tentativas de buscar sentidos na minha escrita, o ar me falta, fico ofegante, gaguejo, ou sei lá o quê… O que pode ter acontecido, no decorrer desta entrevista.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.