134 edições percorridas. Poderia ser apenas mero índice numérico, não fosse o conteúdo abrigado em tantas levas publicadas na revista. E não é apenas o gesto de colecionar textos e imagens aquilo que nos define no plano editorial. É muito mais que isso. É, por exemplo, saber que temas variados se entrecruzaram, que encontros pela e para a palavra se deram de modo substancial, sustentando todo um ideal de diversidade desejado por nós desde sempre. Cria do ambiente eletrônico, a Diversos Afins seguiu expandindo seus horizontes. Em meio ao oceânico universo da internet, a disponibilidade de acesso aos conteúdos gerou sempre mais encontros e aproximações. Ainda que experimentemos, enquanto sociedade, a crescente enxurrada de informações presentes em nossa rotina de conexão permanente aos dispositivos comunicacionais de toda ordem, somos capazes de selecionar o que desejamos consumir no amplo espectro cultural. Mesmo que o cardápio de oportunidades seja gigantesco, as predileções acabam por nortear os mergulhos pessoais de leitores e apreciadores dos temas ligados à Literatura e à Arte em geral. Talvez não seja um exagero afirmar que há espaço para todo tipo de expressão, bem como uma recepção disposta a acompanhar a multiplicidade de criadores imersos na pangeia contemporânea. Afortunados estamos quando nos é possível saborear e internalizar toda a sorte de obras que comunicam a experiência humana. Nesse momento, a arte parece revelar a face daquilo que somos, pensamos e reproduzimos no convívio com nossos iguais. Seguindo essa trilha, os diferentes modos de conceber a realidade, e também o que a transcende, são férteis instrumentos de criação. Vejamos, pois, quantos mundos estão dispostos nas narrativas de autores como Giovana Damaceno, Caio Russo, Tiago Chaves e Berg Morazzi, que passam por nós com seus pungentes contos. Difícil determinar. Mas eis que também o terreno condensado e catártico da poesia vem nos ofertar agora as aparições de Angel Cabeza, André Luiz Pinto, Maria Fernanda Elias Maglio, Romério Rômulo e Fernanda Nali. Vigoram entre nós as marcas complexas de nossas humanidades na entrevista do escritor Itamar Vieira Junior, que, além de falar um pouco sobre as repercussões de seu novo livro, transita lucidamente sobre questões de nosso tempo. São de Sérgio Tavares as impressões sobre o mais recente livro de Dênisson Padilha Filho, a reunião de contos intitulada “Um chevette girando no meio da tarde”. Certamente, os olhares sensíveis de Maurício Pinheiro para o álbum de estreia da cantora e compositora Livia Nery são algo arrebatadores. Daí ser quase impossível não ficarmos curiosos em pelo menos sondar as canções de “Estranha Melodia”. Imbuído por suas sempre impactantes descobertas cinéfilas, Guilherme Preger nos apresenta as delicadas tramas do filme russo “Uma Mulher Alta”. Todo o percurso empreendido até aqui conta com as sutilezas que marcam as fotografias de Hermes Polycarpo, dispostas nos mais diferentes recantos de nossa edição. A atual Leva é uma pequena amostra do que pretendemos materializar nesse recém-nascido 2020. Permitam-se seguir conosco, cara leitora, caro leitor!
Para Priscila Faccini, viragem do meu ponto sem volta
[…]
é muito diferente de cadeiras, não, o sofá é a expressão, a encarnação mesma da solidão, no sofá, deitada sob sua superfície sendo eu mesma o sofá, o que eu posso ser, o que eu posso fazer, eu me concentro, eu me concentro no ponto fixo da parede e deixo que a ausência tome conta de mim como se eu fosse eu mesma um tipo muito particular de necrotério de mim mesma, uma cidade subterrânea de tudo aquilo que não fui e não chegarei a ser. E ali, bem ali no sofá, nesse lugar, nessa terra, nesse plano, nessa superfície de que é feita para o pensar e do pensar, o que eu podia fazer, o que eu podia verdadeiramente fazer? Eu podia me perder, me perder um instante, me desmanchar um tantinho que fosse, eu podia seguir ali deitada e continuar deitada, fazer parte da atmosfera, me condensar no pequeno vento que vinha da fresta de uma janela aberta num dos lugares da casa, essa casa, essa mesma casa, a casa de todos os dias, a casa que antes não tinha asfalto mas agora tem, uma casa asfaltada há muito tempo
[…]
mas deitada no sofá, olhando esse ponto fixo, talvez uma mosca, talvez um qualquer coisa, talvez eu mesma, olhando esse ponto, me permanecendo nele, dançando ao redor dele, gritando em rituais da qual sou a única inventora na separação dele como parte dele mesmo, o que vem, o que vem de um lugar que eu não sei mas que existe em mim, vem um tipo de instinto, um tipo de cheiro, um tipo de radar performático que me faz perceber e notar o que eu sou sem ter de fato sido mas ainda por restar, mas quando estou sendo isso me dói, isso me dói sobremaneira nas articulações
[…]
isso me dói também no próprio estase de me encontrar completamente extática sobre o sofá, o sofá me dói um pouco, posso dizer que o sofá também me dói um pouco, posso dizer assim e só, no entanto, há um problema, há um problema maior que me demanda no sofá, pois o sofá é o lugar em que eu posso não estar, em que eu posso escapar, num pequeno buraco da parede, para o lado de lá do real, plainando num vaporoso continente de espera em vias de balbuciar um algo ainda
[…]
mas confesso, a simplicidade da cadeira me faz navegar no naufrágio de não saber me manter sentada, só deitada, amarrada ao mastro o canto da sereia me fascina de morbidez adolescente, por isso serei sempre a criança perdida no mercado sem mão que lhe conduza os sentidos, uma tautológica menina numa extensa sessão de enlatados, circulando entre gôndolas num repetitivo pendular desde o medo sufocante, perdi muito, perdi o que não deveria ter perdido, o que não poderia, perdi o fundamento do perder, mas algo se passa sem que eu saiba, um anonimato de rosto escondido, um deixar-se descer até ao fundo sem roteiro de mapa no retorno, como um mergulhador das superfícies estriadas, um rasgo no tecido do lembrar, uma farpa de memória a sustentar meu imenso edifício de lamentos, tenho vocação para carpideira, conheço a marcenaria da lágrima desde o abaulado da gota, esculpo as paredes do choro no burilar que me faz faiscar, como um enxame de vaga-lumes noturnos, o cobre da minha desesperança
[…]
mas há um algo, há aquilo que se passa e que chamo de dor porque a criatividade de nominalista sempre me fez tamanha falta, denomino dor o momento exato em que ela se interrompe, o clima de alívio é sintetizado nesse hesitar cinzento de que logo volte, de que logo as ruínas se ergam nos confins de um pouco de lama presa na sola, de que minha banalidade não atravesse o odor de café no insólito da manhã vindoura, aí eu me preocupo, me inicio na escuta do que em mim há de estanque, o que há de destituído em ídolos a não ser no vazio do templo, sou a barragem de mim mesma, o empecilho sem caminho sedimentado, a imobilidade na pedagogia das pedras
Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética Contemporânea, Teoria Literária e História da Arte.
“... e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.”
(Guimarães Rosa)
Gosto das paredes emboloradas
Do lodo nas quinas das garagens escuras
O capim-gordura crescendo no vão do cimento
O calor claustrofóbico das cozinhas oleosas
Das rachaduras nos tijolos
A carne da construção revelada pela negligência
Do tempo
Das gentes
Dos desencontros
Gosto dos sentimentos sem nome
Das saudades que são também repulsa
Esquecimento
Do amor que é também raiva
Que é também amor
Das nojeiras inconfessáveis
Cativas nos instantes de solidão
Ranhos lambidos com a ponta da língua
Unhas mastigadas
Cascas de feridas partidas na força dos dentes
Gosto dos bichos que não são estimados
Piolhos dentando a pele do crânio
Baratas gordas se espremendo no estreito do ralo
As antenas por último
Prenúncio de tudo que é imundo
Gosto das ausências
Os cantos não preenchidos por móveis
A cama não repartida
O prato vazio
Sem farelo de comida recente
De tudo que não é recente
Lutos petrificados pela austeridade dos anos
Casas erguidas por braços mortos
Há tantos anos mortos
Gosto da morte
O silêncio das alamedas de sombras
As filas das formigas alargando as trincas dos túmulos
O cheiro mineral das fendas
Não me interessam as flores violetas
Crescendo na sombra das amoreiras
Nem as amoras
Cajus suculentos
Cactos ostentando folhas
Que também são caules
Que também são folhas
Eu quero o escuro do debaixo da terra
Pretendo a fundura
O miolo do acontecer
Ossos ocultos
Mortos de ninguém
Nem cruz, nem placa de bronze
Não me importa a superfície
O lado de fora do chão
Anseio veios subterrâneos
Lençóis freáticos
O magma fervendo no coração do mundo
Nada me vale o mar turquesa
Ondas esfarelando na areia
Desmanchando conchas
Eu quero o oceano profundo
Peixes abissais de couro transparente e sexo hermafrodita
Enguias elétricas sem olho nem boca
Contorcendo a escuridão
Não me comove jardins semeados
As filas simétricas das rosas e das margaridas
Árvores podadas em círculo
Gosto das florestas indômitas
Cipós estrangulando troncos
O chão úmido do musgo apodrecido
Camadas de folhas secas dando abrigo a aranhas fluorescentes
Escorpiões, formigas ruivas, lacraias de mil pés
Não quero o cruzeiro do sul, a via láctea, saturno
Não me interessam cometas e a composição do solo da lua
Tenciono matéria escura, as bordas de fora do universo
O buraco negro e a gula que engole o tempo
O passado obliterado e o futuro cindido em um milhão
Doze milhões de futuros
Não sei em que possibilidade me perdi
No destino estilhaçado em que eu era
Uma camponesa na revolução mexicana
Um padre na inquisição
Uma corça de pata fraturada
Um peixe remando o rio
O rio
Eu era o rio
Era morna e fresca
O limo das margens
As águas cáusticas matando carpas
Botos
Lontras
E aguapés
Depois eu era os aguapés
Era o fundo e os barcos de papel
As crianças brincando na beira
Sete crianças soltando barquinhos
Uma delas era eu
A menina de vestido azul
Escapulário
E olhos líquidos
Chorava pelas orelhas
A vida escorrendo nas fendas
E de novo rio
Para sempre eu era o rio
***
E NÃO TEM ESTRADA QUE EU NÃO QUEIRA
Quero a vida de cara limpa
Não quero maconha, yoga, sertralina
Quero hoje e muito
O ontem e o atrás
Quero dor sem intermédio
Maternidade sem consolo
Não quero vírgula, hiato, camisinha
Quero onde e nunca
O longe e o depois de amanhã
Quero Líbia e Guatemala
Esquimós e aborígenes
Quero sal, umbigo e quinta-feira
Quero ontem o que não quis amanhã
Quero dentes firmes e coxas flácidas
Quando não quero nada quero muito
E quero muito cada quando
Quero lá-aqui-nunca e dentro-fundo-depois
Quero o através, o avesso, o atravessado
E não tem estrada que eu não queira
Nem caminho que minhas pernas não pretendam
Quero o reverso da falha e o verso da perfeição
Quero dormir de cansaço e acordar sem sol
Quero sonho sem sono
E sono povoado de estrelas cadentes
***
AGORA QUE TEM ÁGUA EM MARTE
a segunda de manhã me escorreu com a urina
e a noite de quarta evaporou no suor das minhas axilas
o tempo é alguma coisa tão líquida
que escorre e evapora
de um jeito que só os líquidos fazem
ontem eu quis ser uma pessoa melhor
hoje me esqueci
descobriram água em Marte
e é água mesmo
não é gelo, gás metano, prata derretida
o tempo de Marte também deve escorrer
pelos rios subterrâneos
lotados de bactérias marcianas
microrganismos de antenas azuis
agora que tem água em Marte
não dá tempo de ser uma pessoa melhor
o ser humano anda pela terra há 200 mil anos
o universo tem a idade de 13,7 bilhões
o ser humano é o microrganismo de antenas azuis
do universo
agora que tem água em Marte
a gente precisa deixar de ter insônia
e culpa
agora que tem água em Marte
a gente está absolvido para sempre
até os próximos 3,8 bilhões de anos
quando não vai ter água aqui
só em Marte
agora que tem água em Marte
eu nunca mais vou deixar de sentir sede
***
EU ERA PRIMATA E SEGURAVA PRIMATA
Não me lembro o que eu era antes de ser mãe
Alguma coisa entre tijolo e rã
(sólida e escorregadia)
O tempo de antes ficou sujo de uma coisa
que eu não sei
A vida principiou naquele dia
e depois só futuro
E era um futuro tão velho que parecia passado
Quando eu coloquei no colo minha filha
Era como se carregasse minha mãe
Ou a mãe da minha mãe
Ou a primeira mulher do mundo
Que era gente e era macaco
Ali eu era primata e segurava primata
E doía tanto
***
PONTES DE EINSTEIN-ROSEN
Para Gabriel
não, não parece que foi ontem
foi há dois séculos
talvez três
a gente se encontrou numa dessas dobras do tempo
quando o passado é também futuro
e é também passado
não há dia, nem ano, nem verão
o tempo é só um tecido vincado
vai ver a gente sempre esteve lá
no passado que não é passado
no começo do mundo e também no fim
você me salvando todos os dias
eu morrendo todas as noites
Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP. É escritora e defensora pública, trabalha fazendo a defesa de pessoas pobres que estão cumprindo pena. Seu primeiro livro, “Enfim, imperatriz” (Patuá, 2017), venceu o Prêmio Jabuti 2018 na categoria contos. Em dezembro de 2019, lançou “179. Resistência” (poesias) também pela editora Patuá.
Esse sol na minha cara que queima, que se eu pudesse saía daqui e ia pra sombra esperar. Ai, que eu me mexo e dói, e então é melhor ficar parado, esperando. E olhando assim pro céu vejo agora esses prédios que sobem pela avenida. Que na verdade os prédios estão subindo agora em todos os lugares e todos os espaços, mas é que eu nunca tinha reparado assim, olhando pra cima. Estou sempre olhando pra baixo. E agora aqui parado eu vejo esse tanto de janela que sobe, sobe, e que em cada janela dessas deve ter uma família morando. Será que é uma família feliz?
Ai, que de vez em quando vem uma pontada de dor! Mesmo eu tentando ficar parado, mesmo eu estando calado. Uma dor me futucando. Quando eu respiro fundo acaba incomodando. Vou respirando devagar.
As pessoas ao meu redor vão falando que é pra eu ficar calmo, que vai dá tudo certo. Todos falando, cochichando, com cara de pena pra mim, com celular me filmando. Quantos celulares apontados pra mim. Ai, que dor! Será que vou passar na televisão? Uma moça segura a minha mão, diz que a ambulância já vem.
Eu juro que olhando assim, bem rápido, esse monte de gente perto de mim, bem que parece uma festa, todo mundo conversando, rindo, contando piada, comendo e bebendo, e todos eles me olhando e querendo falar comigo ao mesmo tempo. Eu nunca tive uma festa assim com tanta gente. Se eu fechar os olhos consigo escutar a música.
Tá que dói. Fica difícil de respirar a cada tempinho que passa. Me dá vontade dormir um pouquinho. Estou ficando cansado, mas não pelo tiro que tomei, não pela hora que estou aqui deitado esperando socorro. Estou cansado de muito tempo, desde que tenho que ajudar mainha a comprar comida pra casa, desde que tenho de acordar de madrugada pra trabalhar, desde que tenho que pegar serviço no fim de semana, desde que tomo esculacho de minha mãe, desde que tomo esculacho dos namorados de minha mãe, desde que tomo esculacho do meu chefe, desde que tomo esculacho do cliente playboy, desde que tomo esculacho da polícia. Estou esperando socorro de muito tempo, bem de antes de eu tomar esse tiro, e só agora uma moça segura minha mão e diz que vou ter ajuda. É preciso sangrar pra chamar a atenção de alguém.
Respiro cada vez menos. Respiro cada vez mais forte. Ai, que dor!
Daqui deitado eu vejo os pés das pessoas. Pés tão diferentes uns dos outros. Pé de povo. De tantas maneiras calçados, mas vejo também uns pés descalços, uns pés machucados. Dá pra ver que alguns são de meninos, daqueles pés pequenos que correm com força, pisando direto no chão. Uns pés agitados.
Daqui deitado eu vejo o chão, as pedras e as sujeiras. Já não consigo olhar pra cima, de tão cansado, de tanta dor. Aqui também tem muita história. Olha pra isso! Tem a calçada, a rua, os carros passando, as lojas abertas. Tenho vontade de mostrar isso tudo que estou vendo agora, só agora em minha vida. As lojas vendem roupas, vendem coisas de casa, vendem livros. Vejo também sangue no chão, que já é muito. Um vermelho manchando o asfalto, uma lama. Uma onda que invade, avança e as pessoas vão se afastando. Ninguém quer se sujar. Eu sou uma ilha. Pedaço de terra cercada por mar.
Ai, já não sinto tanta dor. Apenas uma vontade de dormir.
A moça ainda segura minha mão, ainda diz que a ambulância vai chegar. Tem outras pessoas também e elas falam coisas. Já não consigo entender o que elas dizem. Só vou me lembrando do momento que eu estava parado, olhando na loja uma cuscuzeira pra comprar. Gosto de comer cuscuz de manhã. Estava saindo da loja e ouvi um estouro de bala, as pessoas correndo desesperadas. Senti um ardido forte nas costas e vi homens correndo com armas nas mãos. Foi uma bala perdida que me encontrou. Sou um corpo caído e vi um dos homens com arma na mão ficar parado me olhando, parecendo que vem falar comigo, com cara de preocupado. Mas o homem foge, correndo pela avenida.
Olho bem pra moça, que ainda segura minha mão. Não consigo mais entender o que ela diz. Queria dizer pra ela que ela é bem bonita. A gente podia se casar e ela ia fazer cuscuz pra mim todos os dias de manhã. Não sai mais voz.
Não sinto mais dor. Estou com um pouco de medo. Estou cansado. Aperto a mão da moça.
Vou tentar falar com ela que não consigo mais deixar os olhos abertos. Vou descansar um pouco. Queria pedir a ela pra avisar a mainha que vai ficar tudo bem. Que a ambulância vai chegar e eu vou pro hospital.
Acho que não consigo esperar mais, desculpa.
Tiago Chaves é formado pela Universidade Católica do Salvador em Letras Vernáculas e Literatura da Língua Portuguesa. Ministrou aulas de gramática e literatura em escolas públicas e particulares. Ingressou no Grupo Teatral Oco Teatro Laboratório em 2007 e fez curso extensão de Análise de Espetáculos Teatrais pela UFBA. Apresentou e ministrou oficinas de teatro em alguns países e, também, em diversos estados do Brasil. Trabalhou como assistente de produção no Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia de 2008 a 2011.
Uma mulher alta (Дылда), de Kantemir Balagov, é um filme excepcional, dos melhores dos últimos tempos. É duro, amoral e cruel como só os filmes pós-soviéticos conseguem ser. Mas oferece um olhar da era estalinista com sobriedade e justeza. A partir do romance da escritora Nobel Svetlana Aleksiévitch, A Guerra não tem rosto de mulher, o filme reconstrói o período imediatamente posterior à Batalha do Século, em Stalingrado entre russos e alemães, ou entre comunistas e nazistas.
O filme se passa em Leningrado, atual São Petersburgo. Uma mulher alta é Ilya (Viktoria Miroshnichenko), chamada de “Grandona” por suas colegas (uma tradução mais fiel para esse termo que dá título ao filme seria “varapau”). Ilya trabalha como enfermeira num hospital dedicado aos feridos de guerra e é, ela própria, uma ex-combatente. Ferida no front, ela sofreu uma concussão cerebral que eventualmente lhe gera uma paralisia. Trata-se de um efeito pós-traumático, sequela da guerra, que terá uma consequência crucial na narrativa. Além de seu trabalho, ela cuida de uma pequena criança, Sasha, que inicialmente acreditamos ser seu filho. Muito alta, quase albina, suas características físicas não usuais são logo ressaltadas pelo enquadramento de câmera e no contraste com suas colegas. No entanto, sua singularidade não está em sua estranheza física, mas na condução de seu destino, conforme tortuosos desejos e imprevistas circunstâncias.
Foto: divulgação
Após uma tragédia pessoal, que reverbera com a tragédia da própria guerra, Ilya reencontra sua companheira de front, Masha (Vasilisa Perelygina). Saberemos rapidamente que Masha é a verdadeira mãe de Sasha, e que ela retorna para reclamar seu filho. Para superar a tragédia que as une irremediavelmente, elas saem na noite fria de Leningrado para “dançar”, isto é, para encontrar homens e eventualmente fazer sexo. Pelo menos esse é o desejo de Masha, enquanto Ilya parece sofrer de um bloqueio sexual ou um desgosto pelo sexo. Elas se juntam no passeio a dois jovens homens que estão em busca de diversão.
Masha, a outra protagonista da história, torna-se enfermeira do mesmo hospital, e assim descobrimos que, de tanto matar nazistas e se relacionar sexualmente com homens abusadores, ela possui uma espécie de amoralidade nietzschiana, “além do bem e do mal”. Incapaz de engravidar, devido a ferimentos de guerra, decide a qualquer custo ter mais um filho, e se torna disposta a tudo para alcançar seu desejo.
O diretor Kantemir Balagov, de 29 anos, fez um filme com um viés decididamente feminino e feminista: mulheres fortes, homens pusilânimes. Mesmo o dedicado médico chefe do hospital, Nikolay (Andrey Bykov), que toma decisões difíceis para aliviar o sofrimento dos feridos, é incapaz de se impor a Masha. O “namorado” que Masha encontra no passeio parece sofrer de retardo mental ou aleijão moral. Sua mãe, que pertence à alta nomenklatura, é cínica e cruel, enquanto seu pai é um ser calado e inoperante. A cena em que Masha conversa à mesa com a mãe de seu suposto noivo é um dos momentos mais tensos do filme. A dureza entre as duas mulheres é uma resposta à sociedade que emula a igualdade de sexo no front, mas dissimula a assimetria de poder de gênero na hierarquia social. A única exceção de coragem masculina é Stepan, um dos feridos de guerra que, imobilizado da cabeça para baixo, escolhe o direito a uma morte digna. Mas só as enfermeiras do hospital são capazes de assistir os pacientes mais graves em seus derradeiros momentos.
Foto: divulgação
Mesmo a cena do banho feminino, prototípica fantasia erótica masculina, é filmada com sobriedade. Ele serve na trama para mostrar tantos os ferimentos de Masha, como a feminilidade corporal de Ilya.
Nessa abordagem da amizade entre mulheres, o filme guarda semelhanças com o romeno 4 meses, 3 semanas e dois dias, e o francês La vie revée des anges. A amizade entre as mulheres não é baseada numa complementaridade entre espíritos opostos, mas em certo antagonismo que as estranha em jornadas violentas. Ilya e Masha são mulheres muito diferentes e muitas vezes a relação entre ambas é sublinhada por uma agressividade latente. Se Masha parece usar Ilya para alcançar seu desejo, a “Grandona” parece depender da amiga para ativar sua sexualidade.
Foto: divulgação
É antes a sororidade construída no aprendizado da guerra que é mais verdadeira do que a luta em nome de um patriotismo ou uma ideologia. Essa sororidade é, em certa medida, ela também uma luta por sobrevivência. O filme tem a grandeza de não figurar meramente uma ética da sobrevivência, mas uma ética do afeto e do desejo. As personagens querem mais do que apenas sobreviver: elas (e eles, os homens) querem amor e amizade.
Uma mulher alta, de Kantemir Balagov, é afinal um filme russo que reconstitui magistralmente um momento-chave da história soviética. Levando-se em conta que o diretor faz parte de uma geração que nasceu após o fim da URSS, seu filme não é um acerto de contas com o passado, mas busca um entendimento histórico dos sentidos da experiência revolucionária. Ele ganha em não submeter essa história a julgamento ou tampouco romantizá-la, mas em focar no drama humano das personagens. A história está então imbricada em seus corpos feridos e desejosos. É sabido que a batalha contra os nazistas foi vencida pelos soviéticos, definindo os contornos da história do século XX. O filme de Balagov mostra, no entanto, que numa guerra nunca há vencedores.
Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.
o anjo da morte me chega, olho de cobra
sua pupila ardente me retalha
meu foro íntimo é um corte de navalha
o mundo por inteiro é uma dobra.
2.
nasci agora e o meu amor nasceu
da tua pele feita madrugada.
quando eu escrevo é que a emoção morreu.
***
aqui, eu, jovem cão, enclausurado
bebi da fonte amarga do pecado
meu barco torto, bêbado, ardente
cortou a minha alma de indecente
em tudo fez-se a dura melodia
aguada do meu corpo que fugia
no fel dos candelabros dos infernos
ardi no fogo de 40 invernos.
***
que eu fosse a mulher do meu espanto
a minha alma fêmea destravada
a minha alma rígida se encanta
com a minha alma vivida de espanto
quando a paixão caminha sobre o nada
se a paixão que bebo no meu canto
forjar a minha mão enclausurada
eu mulher vívida que peso cada pranto
relato bêbada a paixão que me embriaga
tomada da miséria e do quebranto
que pisa a minha alma depravada
eu verto sobre a carne o meu encanto
que eu fosse todo o corpo em que eu levanto
que eu fosse a paixão mais do que vaga
que eu fosse a mulher do meu espanto!
***
ítaca e áfrica
de ítaca roubei helenas tantas
em áfrica montei os sete mares
casei-me com mulheres todas santas
cobri meu corpo gasto de alamares.
as vidas são mais tantas e mais quantas
em muros e desejos sacripantas
castrados e vertidos pelos ares?
poetas são delírios bem vulgares.
***
a língua de camões
1.
mais amaríeis meu cortado canto
se mais soubésseis como sois amada
e navegásseis pelo meu espanto.
2.
se me amásseis tamanho eu vos diria
da dura solidão dos precipícios
da falsa imensidão dos sodalícios
da cortada razão dos meus ofícios
se me amásseis por certo eu vos diria
e a minha voz em voz por todo canto
decerto iria quebrar-vos em espanto.
3.
senhora, eu vos amei por tanto, em tudo
que de camões busquei o meu primeiro
estado de um estado verdadeiro
e vos cantei canções que são veludo.
4.
se os arcabouços meus em vós levásseis
e se dormísseis no meu louco porto
e mais amásseis o meu antro torto
e se acordásseis meu poema morto
faríeis meus duelos bem mais fáceis.
***
“eu que já fui cavalo e cavaleiro”
eu que já fui cavalo e cavaleiro
rangi os trapos num cerrado chucro,
pavoneei às feras meus intentos,
sofri imensidões como se gotas.
cavalo e cavaleiro que já fui
por anos repisados de novilhos
brandi os versos como fossem trilhos
de intensa solidão. agora rui
o meu intento de quixote e sancho
ter uma dulce, marília, o que me leva
a ser cavalo, cavaleiro e treva
pelos adros das ilhas que não sei.
eu que já fui cavalo e cavaleiro
de tronos abissais em que entorpeço
arranco os estilhaços de um berreiro
e me destravo, nu, no meu avesso.
cavalo e cavaleiro fui.
cavalo, cavaleiro e rei.
Romério Rômulo é professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto, MG. Poeta e editor, tem publicados os livros de poesia “Bené para Flauta & Murilo” (1990), a caixa “Tempo Quando” (4 livros, 2 volumes, 1996), “Matéria Bruta” (2006), “Per Augusto & Machina” (2009), “Si yo fuera Maradona”(bilingue,português/espanhol, 2015), entre outros. Tem uma coluna semanal de poesias no Jornal GGN, editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.
A interpretação dos sonhos de Dênisson Padilha Filho
Por Sérgio Tavares
Escrito em 1876, o conto “O sonho”, do russo Ivan Turgêniev, é considerado um arauto da modernidade psicológica, pois prenunciava, por meio da ficção, temas que seriam a base da psicanálise no século 20. Na trama, um jovem começa a ter sonhos repetidos com o pai, que morreu quando ele tinha seis anos. Os encontros são antecedidos por andanças pelo subconsciente, frequentando pessoas e cenários de composições substancialmente realistas. Até que, em meio a um festejo local, o protagonista se depara com o mesmo homem do sonho e planta-se a dúvida se está no mundo concreto ou dentro de uma produção onírica.
Turgêniev dosa, de forma impecável, a ambiguidade no movimento entre esses planos, fornecendo ao texto uma característica ímpar de tornar a assimilação do sonho narrado numa experiência muito próxima do que seria a de um sonho de verdade. Duas décadas depois, no volume “A interpretação dos sonhos”, Freud cita o filósofo alemão Karl Burdach para decifrar tal fenômeno na configuração de chaves que levam a coleção de memórias a simular os acontecimentos em estado de vigília. “Mesmo quando toda a nossa mente está repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de espírito e representar a realidade em símbolos”. Neste caso, sonhar nada mais é que prolongar o vivido por meio de representações. Os sonhos, invariavelmente, levam à vida comum, em vez de se apartarem dela. Em outras palavras, por mais transgressiva que possa ser a experiência onírica, sempre será uma amálgama do que foi experimentado internamente e externamente.
O baiano Dênisson Padilha Filho bebe desse conceito em seu mais recente livro de contos, “Um chevette girando no meio da tarde”. São 10 narrativas curtas, cuja matéria nuclear é o sonho em sua projeção difusa e sensorial, porém reproduzida a partir de uma mecânica na qual o desenho do cotidiano nunca deixa de ser como o conhecemos. Não se trata de alucinações ou experimentações insólitas, e sim de imagens de consistência estranha, embora familiar. O inusitado não se filia a uma percepção dilatada, mas a vertentes da interpretação do mundo no qual a frequência dos sentimentos se sintoniza a uma estática dualista, inclusive através de comentários sociais.
Vide “Barracão de enlatados explode no ar”, conto que abre o livro. Um sujeito, que participa de uma tal Festa do Mar, resolve ir a um bar gourmetizado e, enquanto toma uma cerveja, começa a enxergar a fauna local em sua forma antropomórfica: a beluga, o leão-marinho, a baleia branca etc. O autor trata essas manifestações psíquicas com um traço de humor, mas também usa desses arquétipos para criticar o comportamento forasteiro, a adesão do estrangeirismo na cultura e nos hábitos regionais.
O texto seguinte, “Livro de contos no painel de um velho Boeing”, evidencia a busca por uma qualidade estética, valendo-se das possibilidades pitorescas do sonho de modo a se criar composições visuais muitas vezes mais vigorosas que o próprio desenvolvimento do enredo. O narrador (sugestivamente um segundo eu do autor) descobre-se dentro de um velho Boeing da Varig, arrastando-se na pista em meio aos carros, enquanto atravessa a cidade. Trata-se de um insight narrativo que canaliza seu alto poder imagético para a discussão do desamparo do escritor diante do inevitável fracasso da escrita. “Talvez, cada um de nós seja esse avião obsoleto que não consegue voar”, conjectura.
Assim como Turgêniev, Padilha guia o andamento de suas tramas através de um senso de imprecisão entre o que é estado onírico e o que é estado de vigília. “Aqui vamos nós mais uma vez” e “Um chevette girando no meio da tarde” remontam o período do colégio, da infância plena, sobre a qual, segundo Freud, incorre, com mais intensidade, os sonhos de angústia, aqueles cujos “sentimentos desprazerosos nos retêm em suas garras até despertarmos”, representando “indisfarçáveis realizações de desejos”.
“Um amigo em dia com a moda” segue no tema da angústia, só que a literária, como que numa resposta desesperançosa ao personagem no interior do Boeing. “Nunca serão leões” lança mão outra vez do arquétipo antropomórfico para dar significado a uma alegoria sociopolítica, enquanto “As camisolas dos monges tibetanos” recorre a um teor satírico para falar de meditação, terapia junguiana e clichês literários, executando um inesperado movimento de metalinguagem que sugere o fecho de uma parte.
A coletânea se encerra com “Trilogia de sal e vento”, cujo tom naturalista e uma certa dissensão entre vida pedestre e voos farsescos trazem à memória o Copi, de “A Internacional Argentina”, e os trechos marítimos de “Um ano”, do chileno Juan Emar. O conto final, “Não são cavalos-marinhos”, evoca uma entidade mitológica de modo a construir uma metáfora sobre o quão penoso é tentar domar os galopes selvagens da criação literária.
Os sonhos de Dênisson Padilha Filho podem não ter enredos complexos, mas são enriquecidos pelo jogo construtivo da ambiguidade, plasmando um território onde imaginação e experiência direta do autor surpreendem ao trazer uma sensação de inconsistência no tratamento de temas tão objetivos. Combinam fugas visuais concretas com abstrações generalizadas, a partir de um impasse extraído do subconsciente que parece indagar: se, ao fim, o fracasso espera, por que insistir no sonho de ser escritor? Diante das possibilidades de tantas interpretações, penso que essa questão nem Freud explica.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.
Tocam, as mãos – esse aparato para o tato
o meneável frênulo – primeira manufatura
E dedilham, como abertura, o úmido períneo
inundando os vasos e nervos
de assoalho tão delicado.
A palma abraça o prepúcio: esse movimento lavrado
modula a temperatura das manilhas e falo
Como instrumento meu, corda e sopro
toco também com a boca
dentro o membro, prenhe, dura.
A língua, à viscosa água, saliva:
_Arfa. Espasma. Goza.
Chama o meu nome.
Depois reclame que me abra
sobre a carne, novamente, dura.
II.
Encontram os pés – planta semeadura em solo
um outro casco – pele fora da pele
e desliza o dorso, em toque pouco preciso
de metatarsos e falanges, nessa espessura
tateando, entre sono e vigília, nas rachaduras
a anatomia de estranhos calcanhares.
Os ossos livres das dimensões do sapato
amoldados na entre curvatura do arco
como concha, nessa postura se ajustam
vacilam no movimento, como pêndulo
nas margens até encostarem, titubeosos
as dobras de desconhecidos dedos.
Essa fricção em estrutura tão íntima
é deambulação por todo corpo – ranhura
marcando sobre um palimpsesto
a fundação de uma arquitetura segura.
III.
Arde sobre escorpião a minha prematura fome
farejo sob a armadura, onça descendo a rugosa fundura
tensionando_ rastro aroma sombra pureza, e encontra:
_dá-me a via do excesso, há anos-luz tem que espero
sóbria penetro com os dedos e retenho: esse antigo desejo
e já o encontro pronto, labirinto aberto sem pejo
mandíbulas na cartilagem tudo a minha boca come
sobre o teu sexo tocando a minha voz implora
que venha dentro: fecunda primeiro a última dobra
e cresço madura em seiva bruta folha nova.
IV.
Dobram-se as costas – como garças canoas
em remanso abandonadas, os braços remos
distraídos tocando, minúcia, leveza, delícia
a superfície de águas sopesadas, o descanso
Mas somente depois de força e loucura
essa dobradura se aceita: porque o amor
não compreende brandura que não seja
impudência arrefecida mornando alheia
sobre todas as nossas profundas fissuras.
V.
Repousa o pescoço sobre a fímbria do colo
[o faro preparado para todos os ciclos do cio]
as pernas arqueiam uma moldura para os quadris
é breve esse intervalo.
O ombro como alavanca se inclina e acrobata
[é a intimidade inesperada tua singular diferença]
junto à cintura sincroniza a rotação das vértebras
até a extensão dos braços.
De joelhos me segura de quatro, como potro bravo
É por trás que captura a cavidade e me suspende à altura
grassando absurdo e teso mais perto dos testículos
uma pintura na projeção do espelho.
Sobre os cotovelos suporto o peso, a tortura de tê-lo
no equilíbrio instável dos artelhos e sob o teu nariz
me devolve ao mundo mais madura e safo
sempre por um triz.
Fernanda Nali nasceu em Vitória, ES. É autora de “território inominado” (Cousa, 2018, Prêmio de Obras Literárias da Secretaria de Cultura do Governo do Estado Espírito Santo), atua na elaboração e execução de projetos culturais e cursa doutorado no programa de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.
Era aniversário de um ano de casamento. Meu segundo casamento. Decidimos fazer um pequeno jantar para comemorar, convidamos alguns amigos. Eu não conhecia todos os amigos de Marina, acho que ela já conhecia todos os meus, pois não eram muitos.
Fui ao supermercado em busca de um bom vinho, pensei em levar um argentino, mas isso me remetia à minha antiga esposa. Acabei levando um italiano. Comprei mais umas azeitonas e amendoins, a maior parte dos convidados tornou-se adeptos do veganismo. Os que não fossem veganos teriam que comer nossas comidas. A regra da casa era “sem crueldade animal”.
Na fila que eu peguei havia uma velha na frente. Sempre as velhas. Ela tinha o carrinho mais cheio que a conta bancária de Bill Gates. Logo atrás de mim uma mulher linda, cabelos pretos, ondulados, pouco menos de um metro e setenta. Levava apenas uma garrafa de vinho, um vinho chileno que eu adorava.
– Ótima escolha. – apontei para a garrafa.
Ela estava meio distraída. Quando processou o que eu disse, respondeu:
– Ah, sim! Adoro esse vinho. Na verdade, adoro os vinhos chilenos, têm bons preços e o sabor raramente deixa a desejar.
– Concordo.
Ela tinha algo além da beleza óbvia, seduzia com seu jeito de andar ou falar. Tinha um tipo de magnetismo que não me deixava desviar o olhar.
A velha passou as compras e deixei a mulher passar na minha frente, fui gentil, acho que todo mundo deveria ser. Nem sempre fui legal assim, mas a vida ensina que devemos ser menos cuzões e fazer algo de bom, ainda que pareça pequeno.
Num piscar de olhos a atendente passou o vinho dela, que por sua vez pagou na mesma rapidez, com dinheiro trocado, também dispensando o uso de sacola plástica. Despediu-se de mim, agradecendo a gentileza. Desceu para o estacionamento.
Paguei minhas compras, também desci para o estacionamento. Coloquei as compras no banco do carona, pois não levaria ninguém. Quando arranquei com o carro, fui fechado por um SUV prata. Abaixei a janela, pronto para ser rude e começar a gritar feito um imbecil, mas lembrei do que vinha me dizendo mentalmente: “vamos tentar ser menos bosta”.
Umas madeixas pretas e onduladas saíram da janela do motorista do carro à frente:
– Desculpe!
Não tive outra reação, a não ser gritar:
– Tudo bem!
Coloquei o carro na garagem. Antes de subir, fumei um cigarro. Marina não gostava do cheiro de cigarro, dizia que lembrava seu pai, e ela o odiava. Eu até a entendia e fazia o possível, menos parar de fumar.
Terminei, coloquei uma bala de hortelã da boca, subi. Quando cheguei no penúltimo degrau, lembrei que as coisas ficaram no carro. Voltei para buscá-las.
Alguns convidados já estavam lá. Meu melhor amigo, André, com sua nova noiva. Acho que era a terceira ou quarta. Eu o entendia, relacionamentos são difíceis. Tinha chegado também um amigo escroto de Marina. Era do TI do trabalho dela, cantava nos bares da cidade nos fins de semana, achava que seria o próximo Tim Maia. Eu odiava aquele cara, ele quase acabou com meu casamento uma vez.
Cumprimentei meu amigo e sua noiva com um caloroso abraço, ele sempre teve bom gosto para as garotas, eram lindas e gentis. Não fui tão cortês com o outro, apenas acenei com a cabeça, de longe.
Levei as compras até a cozinha, Marina me seguiu.
– Você pode tentar ser menos babaca? – ela veio se aproximando de mim com raiva.
– Não com ele.
Para quebrar o gelo, dei-lhe uma flor, que estava meio amassada por estar na sacola, abracei e beijei-a.
– Você é um babaca, mas é o meu babaca.
– Estou sendo menos babaca ultimamente, mas não menos seu.
Preparei alguns petiscos, enquanto isso os outros convidados chegavam. Minha surpresa foi tanta que quase deixei cair a bandeja no chão. A mulher do supermercado sentada dentro de minha casa.
Ela se levantou ao me ver, sem esconder a surpresa.
– Vocês se conhecem?
– Não. – minha resposta.
– Sim. – resposta dela, que logo emendou. – Ele me deixou passar na frente da fila do supermercado.
– Sinal que as sessões de terapia estão funcionando. – Marina ironizou.
Cheguei perto do ouvido dela:
– Não precisa falar dos meus problemas para os outros.
Sem censura, ela escandalizou:
– Daniela não se encaixa na categoria de “os outros”. É minha melhor amiga, dividimos apartamento na época da faculdade. Ela só não veio ao nosso casamento porque estava morando em Chicago. Chegou há uma semana.
Senti tanta vergonha que deu vontade de enfiar a cabeça no chão, como um avestruz. A moça esticou a garrafa de vinho para mim.
– Muito prazer, Daniela Portillo.
Peguei a garrafa, sorrindo timidamente.
– Hugo Saavedra.
Jantamos, bebemos, conversamos, rimos, todos nós. Até ignorei o olhar estranho do babaca do TI e aquela sudorese nojenta nas axilas. Daniela era discreta, mas quando queria, tomava a atenção de todos. Tinha boas ideias, boas histórias. Bom decote também, que eu lutava para não ficar encarando.
Pouco a pouco os convidados iam saindo. Em questão de menos de uma hora, não havia mais nenhum. Eu e minha esposa levávamos as coisas para a cozinha.
– O que você achou, meu amor? – perguntei à Marina.
– Adorei, foi tudo incrível. A noiva do André é linda e muito simpática…
– É mesmo, ele tem bom gosto.
– Já a Karen, meu Deus! Quem é aquele peixe morto que ela foi arrumar? Ele deveria deixar a barba crescer, assim não ia parecer ter acabado de sair do ensino fundamental.
– Verdade.
– Ela engordou também, nem devem estar transando.
Ri alto.
– Duvido! Ela é ninfomaníaca.
– Como você sabe disso?
– André…
– Eles já?
– Várias vezes. Uma vez teve até participação da garota que dividia apartamento com ela.
Marina colocou a mão no rosto, tocando a orelha esquerda com as pontas dos dedos, como sempre fazia quando estava surpresa.
– Ela nunca me disse isso.
– Você tem o jeito muito fechado, sua cabeça é muito fechada.
Vi seu rosto enrubescer, eu conhecia bem aquela mulher, sabia que ela não estava brava, mas tímida. O problema é que quando ficava tímida, aumentava o tom de voz, num tom quase que de briga.
– De onde você tirou que eu tenho a cabeça fechada?
– Você faria um ménage?
– Nunca pensei sobre isso.
Ela me conhecia o suficiente para saber que se passava sacanagem na minha cabeça, quando eu abaixava a cabeça e dava um sorriso de lado.
– Você já, não é mesmo?
– Ah… sabe… eu acho que seria uma coisa legal de experimentar.
– Não sei.
Sua voz titubeou, havia uma brecha. Eu tinha que tentar.
– Já que você confia tanto na Daniela… Seria legal. Queria dizer, ela parece ser legal.
– Acho que ela não é do tipo que faria isso.
É sim! – gritei em pensamento.
– Só tem um jeito de saber.
– Qual é?
– Fazendo o convite a ela.
Era minha última jogada, não sabia o que vinha depois, podia ser o xeque mate. Ela me olhou nos olhos, ficou alguns segundos assim, então respondeu:
– Tudo bem, vou falar. Agora vamos acabar de arrumar essas coisas aqui, a noite ainda não acabou para nós.
Transamos a noite toda, foi incrível. Alguns meses depois estávamos divorciados. Nunca mais vi ela ou Daniela. Não tivemos um ménage a trois. Talvez no meu terceiro casamento.
Berg Morazzi, nascido em 17 de maio de 1992, em uma pequena cidade de Minas Gerais. É escritor, roteirista, audiodescritor e ativista vegano. Autor dos livros “Sobre a lucidez e outras farsas”, “Obsolescência Cotidiana”, “Isso nunca foi sobre o amor”, “Enquanto a cidade dorme”, “As flores morrem o ano todo” e “A um passo do precipício”. Traz em sua prosa uma mistura exótica de Paulo Coelho, Gabriel Garcia Marques e Charles Bukowski. Mostrando o doce e o amargo da vida cotidiana, criando personagens profundos e histórias reflexivas.
A repórter se ajeitou no banquinho de madeira rente ao chão, enquanto Dalmira tentava controlar o choro para continuar seu relato. Levava ao rosto o lenço gasto e parava o olhar, perdido, a mirar o passado. Na face cansada e velha, apesar dos quarenta e poucos anos, escorriam as lágrimas expressivas dos sentimentos de uma existência. Firmino Neves morrera há nove meses; Dalmira agora já não frequentava o casarão do dono “daquelas terra tudo”, inclusive do pequeno povoado de Encruzilhada do Cipó. Mudara-se em definitivo para sua casa.
Chegou menina-moça na fazenda para trabalhar e, ainda que sem corpo de mulher pronta, deixava rastros de suspiros por onde transitava. Diziam que era feita de café com leite e açúcar queimadinho, devido ao tom da pele, e provocava lambidas de beiços na homarada, sem dar confiança para ninguém. Porém, o patrão Firmino Neves foi o único a provar o sabor de café com leite tão cobiçado em Encruzilhada do Cipó. Não apenas a tez morena, mas o balançar dos quadris e a voz de criança faceira que cantarolava pelos corredores nas tarefas diárias faziam o poderoso fazendeiro tremer de vontades. Firmino Neves se considerava dono dos empregados e logo determinou para si que Dalmira era sua pertença, sem se importar em quando lhe colocaria as mãos; seria apenas questão de tempo. Aguardou a potra arisca se acalmar sem pressa, para aprimorar a doma na cama; logo ficaria doce e fácil.
Assim, Dalmira se tornou mais uma entre as mancebas de Firmino Neves. Ganhou uma casa sua e passou a receber cinquenta dinheiros por dia para servir a seu senhor em meio aos lençóis e nos afazeres domésticos. Fora comprada e “bem-paga”, do mesmo modo que as outras, mantidas em cada sede. Dalmira cuidava pessoalmente da comida, das roupas, das botas, do quarto, dos banhos. Era presenteada com vestidos, brincos, pulseiras, colares, fitas de cabelo, teve a casa mobiliada e até um aparelho de som, no qual colocava suas músicas preferidas para tocar e rodopiava pela sala, quando Firmino Neves não estava ou não a chamava. Não levantava os olhos, respondia às ordens com ações, quase não falava. Como a ninfa Eco, condenada à maldição de apenas repetir a voz de Narciso, objeto de sua cupidez, alienava-se e enfurnava seus próprios desejos. Estava sempre pronta, arrumada e perfumada, pois Firmino Neves cismava de querer seus préstimos a qualquer hora.
Não teve criança; fora obrigada a entregar menino nascido ou a botar fora a cria, logo que lhe atrasavam as regras. Nunca saiu da fazenda, não conheceu parente. Nasceu criada, encarou a lida em troca de morar e comer, tornou-se amante de Firmino Neves e nada soube de si.
— Conheço ninguém, não, senhora, a não ser os daqui. Fico sozinha neste fim de mundo até morrer.
Sem pressa e em detalhes, Dalmira discorria acerca de seus dias ao lado de Firmino Neves a uma jornalista lívida. A matéria, pensada minuciosamente, contaria as experiências de mulheres do interior do país, que atravessaram a vida sob o jugo de seus coronéis, servindo-lhes a própria carne. A exemplo das amasiadas de Firmino Neves, muitas poderiam existir pelos cantões do país, e a revista seguia atrás dessas histórias.
A personagem escolhida para a primeira reportagem da série “Cama e Mesa” envelhecia rápido e prematuramente, contudo se conservava jovem no gosto de se mostrar enfeitada, de sombra nos olhos, vestido florido de saia rodada. A repórter acreditava que a trajetória de Dalmira seria perfeita para sua pauta – saturada de dor e tormento, coagida pela dominação, pelo poder, pelo dinheiro, pelo descaso de uma sociedade conivente com a submissão e subserviência femininas. Alheou-se à entrevista, imaginando Dalmira infeliz, dias e noites em claro, o anseio por ir embora, sumir dali, abandonar Firmino Neves para ser livre, ao lado de alguém que a honrasse e construísse com ela uma família em uma relação de amor.
— Saudade? – a repórter se deu conta de que escapulira em devaneios – o que disse?
— Que sinto saudades de Firmino Neves, sinto falta do meu homem.
— E o seu sofrimento nesse tempo todo? – perguntou a repórter, confusa.
— Que sofrimento? A vida não me deu nada, não, dona; Firmino Neves foi quem me deu tudo. Amei quieta, servi com gosto, recebi em troca mais do que esperei. Felicidade era ter Firmino Neves. Agora que foi embora, resta esperar minha vez e ir no encalço dele.
***
Pé de não sei quê
E o maldito pé de não sei quê enfim pendeu de vez, mortinho. Arqueou o tronco fino lentamente, perdendo sua força; tentou apoiar no muro, mas minha vontade que virasse um molho de folhas secas pareceu vencer o que lhe restava de viço. E ali está: acabado, sem chance de voltar a assombrar minhas lembranças e a se manter como guardião do jardim do amor eterno, como se agora me ameaçasse com sua presença muda. E feia.
Ele caiu. E com ele se foram as últimas lágrimas. As últimas que choraria de raiva, de humilhação. Agora o choro é de foda-se! Desabou o último representante de uma fase sombria.
Dez anos durou aquele arbusto. O mesmo tempo em que dividimos o teto, a cama, a comida, o chão. O mesmo tempo em que nos enganamos ou que eu me enganei. Era pra ser o símbolo da nossa união e da nossa felicidade. Foi o primeiro ser vivo a fazer parte do que seria um lar, em dia especialmente escolhido, com direito a ritual a dois. Recebeu o apelido de pé de não sei quê, pois não sabíamos nada sobre plantas, muito menos que nome teria a arvorezinha que levamos para a casa em obra. Ríamos disso.
O que nunca prevemos é que o mundo é real, com problemas reais e suas consequências. Com as mudanças, mágoas e rancores. Com a maldade pura e fria. Foi uma década de olhos baixos, sorrisos pela metade, concordâncias falsas, cessões por simples favor. E, ao final, o transbordamento de tanto desgaste pela via mais torpe: a violência.
Encaro o pé de não sei quê com ódio. O peso de significados que carregava o levou à queda. Eu não resisti, ele também não. Aguentei o que pude, levei a sério o que aprendi com o padre e com meus pais: segurar o casamento, pelo bem dos filhos. Balela. Tornamo-nos todos infelizes – eu, ele e eles – por não sermos capazes de dizer não. Eu não fui capaz de dizer não.
Confesso que dei uma ajudazinha: deixei que se virasse. Se chovesse, teria água; caso contrário, ah, que pena. Era frágil, o pé de não sei quê. Bem parecido comigo lá no início da história. Passei pela manipulação, pela pressão, pelo descaso, pelo abuso. Ele só teve sede e absorveu minhas vibrações negativas para que definhasse sozinho. Finalmente, parou de exalar seu perfume nauseante no fim da tarde.
Por que não o derrubei? Afinal, seria mais rápido me livrar da representação tão marcante dos meus dias de infortúnio. Porque preferi ser cruel. Queria vê-lo se dobrar diante dos meus olhos, vergar o que era altivo e vultoso, beijar o chão. Entregar -se.
Em pouco tempo o caule enrugou, as folhas amarelaram e começaram a cair. Mais uns dias e estava encurvado, até tombar de vez. Morte assistida e comemorada com o que de pior tenho em mim. Imagino que me olha com desprezo, enquanto o encaro com sarcasmo.
Era o que eu queria ter feito, meses atrás, mas não tive tempo, nem jeito. O ódio me faria a arrancar-lhe unha a unha, até ajoelhar e pedir perdão. O ódio que o surpreenderia na madrugada com o quarto em chamas, até sucumbir sufocado. O ódio a mim, por ter me submetido e suportado sem resposta. O ódio por tudo em que se transformou essa existência fracassada. O ódio que me moveu a fazê-lo pagar com a vida, sem sentir nada do que me fez penar.
***
Desenlace de Família
Aquele rosto me era estranho. Não porque jazesse inerte, dentro do caixão. Não porque, coberto de flores, não pudesse reconhecer-lhe o físico. Não porque cheirasse mal. A tez morena, avermelhada, feito índio; os cabelos brancos encaracolados; os lábios finos, sem curvatura, como se traçados num único risco de dois lápis. Aquele rosto me inspirava desprezo, somente. Não me interessava recordar dele vivo, pois à memória retornaria a expressão de fúria nas lides diárias ou descendo o cacete nas filhas.
Agora a carcaça do brutamontes estava cercada pelo choro das mulheres que subjugou. Não atinava como pessoas tão judiadas fossem capazes de lamentar a morte de seu carrasco. Olhei ao redor e não encontrei a caçula, a única das filhas que conversava comigo, a mais doce e cordata. Havia algo que nos unia, um laço entre almas. Não reagia às corretivas do pai, ao contrário, demonstrava afeto por ele, não manifestava revolta pelo tratamento opressivo, não chorava e nem reclamava pelos cantos. Apesar de castigá-la como às outras, Rejane era a única filha que contava com um mínimo de carinho e certo excesso de atenção do “tio” Cadô. As irmãs se ressentiam, enquanto a mãe notava a diferença, mas deduzia como preferência natural – quem não tem seu filho dileto? Compreenderia se qualquer das filhas faltasse ao velório, no entanto foi Rejane que não velou o pai.
E eu? O que estava fazendo naquela sala escura com cheiro de flor e vela, suor e café? Fora arrastada pelo meu irmão, Lucas, sem explicações; disse “morreu” e me tirou de uma festa para o velório. Não tivesse apenas treze anos e igualmente criada abaixo de porrada, teria questionado “E eu com isso?”.
Seria a minha primeira vez na quermesse, sem a mãe; a primeira vez de olhos sombreados e batom; a primeira noite com amigas. Combináramos de andar na festa de braços dados, pedir música e mandar mensagens aos rapazes pelo autofalante. Não poderia passar das dez horas, sob a ameaça da varinha de marmelo de papai, que me aguardaria na varanda, a contar os primeiros segundos de atraso. Como “tio” Cadô fazia com Rejane, papai me cobria de mimos exagerados, contudo não me poupava das sovas quando lhe convinha ou se me rebelasse contra seus afagos melosos.
Quis me afastar do caixão, porém meu irmão me segurava, e se mantinha contrito diante do corpo do homem que admirara. Temente a Deus, frequentava a igreja aos domingos, pai exemplar, bom provedor, trabalhador, honesto, corrigia esposa e filhas com precisão, educava com rigor, rude, tosco, grosso, mau, violento, cruel. Na verdade, não era parente nosso; amigo chegado de papai, fora escolhido para apadrinhar Lucas. Embora as duas famílias tenham se constituído praticamente juntas, até então, mamãe tolerava essa amizade em silêncio.
Não assisti ao enterro. Acompanhei o caixão sair no carro funerário, entrei em casa, do outro lado da rua, e emburrei. Sobre a causa da morte, passei muitos anos sem saber. No velório escutara rumores sobre um tombo da marquise e minúcias que não se arranjaram de modo lógico no meu raciocínio. Este mês faz dez anos que “tio” Cadô se foi. Também são dez anos sem ver Rejane, a filha que pagou na cadeia pelo assassinato do pai, com a paulada que o derrubou do beiral da janela, onde emendava um fio. Deve estar prestes a sair da prisão. Agora, se quiser, poderá viver. Eu escolhi fugir.
Giovana Damaceno é jornalista e escritora. Autora dos livros: “Mania de escrever” (2010), “Depois da chuva, o recomeço” (2012) e “Do lado esquerdo do peito” (2013). Membro da Academia Volta-redondense de Letras e integrante do Coletivo Feminista Literário Mulherio das Letras.