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134ª Leva - 01/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Angel Cabeza

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

BARRO

 

Deus criou nas trevas
os vinte dedos do homem
e sua caligrafia cinzenta.
Cego, imaginou
o som do sangue.
Num súbito lampejo,
investiu no sujo da têmpora;
teceu chumbo nas escápulas
da criação.
Impedido de voar,
o homem consumiu o céu
com olhos vitralizados;
expeliu todo o fogo herdado.
Inferno abaixo da terra nunca existiu.
Esse peso de Sísifo…
Esse vislumbre do voo…
Desde então o homem
segue agradecendo diariamente
a falha nas asas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

SACRAMENTO

 

Abandonar o pó
e esquecer a terra,
quebrar o corpo
e esconder espinhos:
somos o sal
de um deus barroco
temperando intervalos
entre pedras.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ALONGAMENTO

 

Alongo os olhos
nesta manhã
e curvo a mão
sobre o teu peito:
frêmito de asas
que toma a forma
do chumbo
da cidade.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

CAVIDADE

 

Coloca meu nome entre dentes
e trinca.
Amacia o escuro
que nele mora e rememora
o gosto acetoso:
uma manhã envernizada
e virgem devorando
a extensa e já vazia noite.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

MILAGRES

 

Os céticos anunciam não existir milagres
que comprovem uma santidade ou fé.
Tudo é matéria oca e sem divinização.
Somos duros e ácidos e inventivos
em nossas brumas.
Construímos uma religião
para o desespero do pão.
Entretanto, abrimos diariamente um mar
ao observar nossa rasteira plenitude
de extremos — fuligem na carne.

O silêncio atravessa o raso
à procura de novas terras.
Não seria milagre
o som dessas salgadas águas?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

SOBRE FICAR

 

Lacerar a pele
e manter as
sensações expostas.

Fender a epiderme
e ferir a cicatriz
do tempo.

 

Angel Cabeza nasceu no Rio de Janeiro. Cursou Letras e Jornalismo. É poeta, cronista, coordenador editorial e produtor gráfico. Autor de ”Canção para os seus olhos e outros castanhos” (Urutau, 2019), participou das antologias “O Casulo” (Patuá), 29 de abril, o verso da violência (Patuá), Qasaêd lla falastin — Poemas para a Palestina (Patuá) e das revistas Odara, Escrita Droide, Vício Velho, Literatura e Fechadura, Gueto, Germina, Zunái, Subversa, Cuarto Propio (Porto Rico), Verso Destierro (México), Generación Espontánea (Madri), entre outras.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Olhares

Olhares

Anseios da luz

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

A roda da vida gira. Há paisagens anunciadas pelos matizes de uma aurora deslocada no tempo. A curiosidade de quem observa os interstícios da existência sonda os mais variados momentos em que tudo transcorre. É preciso que aconteça o gesto natural das coisas, mecanismo de se deixar levar por tudo aquilo que acontece diante dos olhos. Quem contempla a manifestação dos elementos dispersos por entre os dias, sabe que a palavra rotina é somente uma mera tentativa de definir o espetáculo cíclico das coisas.

Ainda que pareça não haver nada de novo sob o sol que nos abraça, o sabor das primeiras visões e descobertas é chama acesa em nossos sentidos. Entre o espanto e o encantamento, podemos ser surpreendidos por aquilo que mobilize e quiçá rasure a nossa maneira de vislumbrar os fenômenos do mundo. E é desse modo que a fotografia é capaz de nos impactar, trazendo a lume registros que bailam entre o traçado da memória e a revelação daquilo que passa despercebido em meio à cronologia de nossa trajetória.

Se o que julgamos como sendo o Belo estiver confinado ao campo de nossas vivências e crenças pessoais, então o despertar da arte em nós parece ser mais o exercício puro de nossa individualidade. No caso da fotografia, talvez seja o misto de constatação imediata e sugestão que nos mobilize rumo ao território vasto das percepções. Por constatação imediata, leia-se aquilo que se corporifica como a concretude que salta aos olhos, enquanto que a sugestão é esse abrigo permanente em torno do mistério, embalada que está pelos dotes da intermitência e da relativa infinitude.

De todo modo, é possível considerar que as linhas iniciais deste texto encontram correspondência direta com a trajetória de certos artistas. Pensando nisso é que vale mencionar aqui a obra de um fotógrafo como Hermes Polycarpo. Do artista em questão, trazemos à tona o esmero das formas, seja na busca por se retratar a figura humana, seja na maneira em se deter sobre objetos e temas afetos à natureza. Nesse trajeto de observações muito peculiares, o fotógrafo evidencia o ritmo dinâmico que está por trás das jornadas pessoais de gente dos mais diferentes estratos sociais. Pode ser um mero transeunte das vias públicas ou quiçá um alguém a mirar o mar de esperanças sem fim. Pode ser o corpo que repousa em luz e sombra ou o olhar inquiridor de um menino. Pode ser a paisagem que redimensiona a natureza ou então a geometria das alamedas.

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

O fato é que em Hermes nada parece fugir aos desígnios da sutileza, essa mão invisível que conduz os temas abordados. Não há dúvida de que a técnica está a serviço de toda uma demanda de subjetividade e poesia que emanam das imagens concebidas. Em meio à solidão que atravessa pessoas e suas sinas, lá está também o olhar do artista capaz de tornar suaves certas missões imperativas da existência. Desse modo, homens, em seus engenhos de labuta e contemplação, aparentam ser muito mais do que meros operários de suas rotinas.

A recorrência do mar no trabalho de Hermes Polycarpo parece metaforizar o sentimento de renovação que o movimento das águas suscita. Ao mesmo tempo, lembra o desembocar de anseios todas as vezes que alguém mira, absorto em pensamentos de silêncio e quietude, o imensurável horizonte oceânico à sua frente.

Natural de Ilhéus, na Bahia, Hermes despertou para a fotografia em 2007, quando residia no Rio de Janeiro. Em seu processo criativo, busca, na confluência entre técnica e sensibilidade, um resultado que faça uso extremamente reduzido de recursos de edição. Mostra-se como um fotógrafo de ímpeto eclético, explorando paisagens e imagens conceituais, e confessa estar sempre em busca de novas incidências de luz.

Lançando mão duma exuberância de cores, Hermes Polycarpo também assinala através delas a marca efusiva do humano e suas intervenções espaciais. À paisagem urbana misturam-se gestos diversos, plenos de uma espontaneidade que só a observação serena do fotógrafo é capaz de preservar. No caminho que exalta a luz como fonte norteadora, a arte instaura suas delicadas faces, vias que nos mostram a pulsação dos tempos e que mobilizam em seu âmago expressões abrigadas em toda sorte de gestos.

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

* As fotografias de Hermes Polycarpo são parte integrante da galeria e dos textos da 134ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Maurício Pinheiro

 

LIVIA NERY – ESTRANHA MELODIA

 

 

Pensando sobre o que vem a ser o “estranho”, a partir do espectro psicanalítico, inda que superficialmente, termino por acatá-lo como aquilo que só o é porque, de alguma forma, há nele algo de familiar, traço esse cuja ausência me remeteria ao assustador, ao que amedronta, o que não vem ao caso aqui e agora. Fiquemos, portanto, ligados a esse estranhamento que nos é inquietante, infamiliar, impactante, algo que se apresenta como fora de uma ordem quiçá instituída a partir do Outro ou, mais apropriadamente, a algo que em nós recalcamos e que, de alguma maneira muito particular, se reapresenta a nós nos detalhes do nosso próprio real, quando displicentemente deixamos o disco tocar.

Pensar sobre o sentido das estranhezas nossas de cada dia teve como gatilho a escuta do trabalho de estreia da cantora e compositora Livia Nery, baiana de Salvador, que nos apresenta uma obra para além do universo nagô, diferente dos registros apresentados nas rádios e televisões do Brasil que seguem em direção ao mundo apresentando produtos que identificam uma Bahia onde todos, de algum modo, podem e devem “passar uma tarde em Itapoan”, como num paraíso de verão onde tudo, alegria e felicidade, se torna possível sob a “chuva, o suor e a cerveja”.

Não desejo me deter nas intenções, no sucesso, ou mesmo formular uma crítica ao modo de funcionamento de uma indústria cultural que se baseia na “generosa” ideia de ampliação do acesso ao consumo da cultura de massa, mas desejo sim, a partir do trabalho de Livia Nery, abrir para os mais curiosos as tantas outras Bahias que não foram abduzidas e não se encontram nas prateleiras dos supermercados, mas se afirmam, somente para os mais curiosos, como algo capaz de promover estranhezas próprias e inseparáveis de um fazer artístico autêntico, extracontemporâneo e original.

 

Livia Nery / Foto: Caroline Bittencourt

 

Foi assim que displicentemente me percebi subtraído por uma fala poética e musical, que a mim dizia “eu sou uma macaca/que quer ficar pendurada/no seu tronco nu”. Diante desse espanto, foi como se algo completasse, “pontocompontobr”. Estava dito, ou melhor, estava posto diante de mim a macaca que sou quando faço parte do bom do amor. Nesses tempos de cólera, nos quais o macaco se tornou arma de morte para ferir e amaldiçoar as pessoas de pele negra, a mim, nesse disco, se apresentou como um bálsamo que revela, identifica e reitera como possível aquilo que soa primitivo na arte carnal do amor.

Mas não é só isso, muito sabiamente o disco foi nomeado com o título Estranha Melodia, música que abre esse trabalho e faixa na qual a autora revela seu desejo e nos convida generosamente a brincar nessa sua proposta de melodiar as suas e as nossas estranhezas. Aqui já fica claro o aspecto autoral presente em toda a obra, com exceção de Vinte Léguas, de autoria da inesquecível Evinha e Mariza Correa, mas que, ainda assim, tornou-se pessoalizada pela forma como foi relida, não destoando do todo, cuja autoria é da própria Livia Nery, que contou com o auxílio luxuoso de Curumim nessa singular produção.

Em outras canções, como no caso de Beco do Sossego, de cara surge uma batida que nos pega de jeito, e é desse lugar que se torna possível escutar essa mulher a nos dizer do poder que tem um chamego que não teme revelar seus segredos, enquanto segue docemente metaforizando a visão de balões a voar no céu, quando para mim o assunto é gozar. De fato, um tipo de amor próprio dos becos de todos os sossegos, de fato uma poesia feita para quem o amor importa.

Para além desse balão, tem ainda toda a filharada, a esteira e o credo de meu Deus, a coruja que sai da toca, algo que esmoreceu. Vixe, tem paca e milho verde, tem enxada e tem lajedo, um soneto brasileiro e uma viola encostada ao peito caçando sarna pra se coçar, tem a caça e o caçador a nos lembrar que aqui tudo é sintoma de amor nos dizendo como seria apavorante encontrar, num casebre ou num roçado, tanto faz, são essas as vinte léguas por onde caminham a poesia e a música dessa artista.

 

 

Livia Nery / Foto: Caroline Bittencourt

 

Essa é a Bahia de Livia, possuída e emancipada, uma Bahia que pode ser carioca e paulista. Na verdade, esse é o Brasil de Livia, um Brasil que cabe no mundo inteiro, ou ao menos no mundo daqueles que permitem se reconhecer nos diálogos propostos entre as mais variadas formas de som e a poesia dessa mulher que soa doce e forte, amante e política, branca, negra e amarela, uma mulher cujo trabalho não cede ao rótulo. Mas o grande responsável por fazer dessa Estranha Melodia um modo de se dizer que não cabe numa só pátria é o conjunto de sonoridades presentes nesse trabalho que, ao propor uma forma muito particular de ortopedia musical, termina por desconstruir toda a obviedade que o mercado precisa para categorizar um produto. Aqui não habitam toadas e não cabe o banquinho e o violão, definitivamente esse é um trabalho para quem não está à vontade!

Por fim, se essa inquietação lhe pareceu demasiada, se dê mais uma chance. Feche os olhos por um instante e se entregue à bela Spiritual, canção em língua inglesa que encerra sofisticadamente o disco e nos devolve com força renovada à nossa realidade, que no caso se dá sob à governança de um recalcado! Que trabalhos como este continuem acontecendo para que não percamos nunca o norte do amor, material custoso e raro, que só a espécie humana tem e sabiamente pode usá-lo para continuar e se manter de pé.

 

 

Maurício Pinheiro é psicanalista e vive numa cidade onde todas as coisas ganham grandes proporções.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

André Luiz Pinto

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Ouvi-los.
Fixa no tempo
a forma
remediando
…………………..o branco.

Guardá-los.
Quantos forem os bocados.
Deixa na planura
um gesto,
mais parece socorro.

Ouvi-los
depois que o repetir
sob o acorde
de aranhas.

Um nexo.
Um corrimão avulso.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Pior, no plano
do cordeiro,
sabendo o homem,
eis o lobo.

O cruel da carne,
acredite,
zero a zero,
imenso o rosto.

Amadurece,
podendo advir
quando um bote
ave de rapina.

E o que retorna
ao sabor das mãos:
livre é o medo
no intercâmbio das coisas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Mas como fugir dessa linguagem
impoluta, sufocada dia após dia,
intercedendo sobre tais minérios?
E como, arrisco-me por conhecer
nenhuma lei, alivia-se a boca
sob a estase dos ventos? Mais se parecem
do que negam, o verdadeiro valor
da conta, cântico dos quânticos
no descortinado meio-dia; aliás,
Sofia engole a cidade, convenhamos
que Sofia é morta e nos atende por Antônio
Gonçalves Dias, nosso primeiro narciso.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Primeiro arrebenta,
desemparelhado em sua fúria.
Um problema comum
ao ministério de todos, até mesmo
em suas abstrações: um galho que venha romper;
depois, no dia seguinte, análogo
ao anterior, você o encontra, naquela posição
inócua, promíscua, reposto ao ministério
da árvore. Como reagiria a esse beco?
Encerra os olhos, ali, na hora
de encontrá-lo, como um galho que pensou.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Quero da palavra sua ruga,
a mancha da camisa sem sossego,
os tempos louros
que só cheiravam a jasmim.
É sempre o mesmo desespero,
o mesmo pé de valsa
sobre o capim.
Quero a palavra ‘carne’,
verbo que ilumina,
labirinto sem Deus.
Quero a palavra ‘morte’
o terreno da sorte
zero à esquerda
até nos momentos de gol.
Inescapável
como a fome
baixo e vil até no nome
é certo que o Rio não é mais.
A regra
é o que reza pedir.
Quero a palavra ‘cobra’
com suas
dobras e rugas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Eu sou o chaveiro, mais do que
a chave de Só se passar por mim

O que atrai
a tantos
ou é tão covarde
que morde os donos?

E tem também
o oráculo de Delfos
esculpido
em tuas mãos.

No canto
da página
como água parada

o amor – sob custódia.

 

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, leciona na FAETEC e SEEDUC. É autor de: “Flor à margem! (1999), “Um brinco de cetim / Un pediente de satén” (Maneco, 2003), “Primeiro de Abril” (Hedra, 2004), “ISTO” (Espectro Editorial, 2005), “Ao léu” (Bem-te-vi, 2007), “Terno Novo” (7Letras, 2012), “Mas valia” (Megamíni, 2016), “Nós os Dinossauros” (Patuá, 2016), “Migalha” (7Letras, 2019) e, em parceria com Armando Freitas Filho, “Na rua” (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema para os documentários “André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu” e “Autobiografias poético-politicas”, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

 

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

De quantas travessias é feito o caminho com as palavras? Certamente de uma infinidade delas. No entanto, há algo na jornada de um escritor que confere um sentido especial às experiências vividas. Esse algo não está na busca meramente exasperada por melhores soluções criativas; tampouco reside no terreno das exposições de uma personalidade que se mostra incensada e cultuada na esfera pública, arena que também alimenta vaidades de ocasião. Estamos a falar aqui do vigor que uma obra ganha quando volta suas atenções para perceber o humano em suas mais diversas acepções.

A noção de que as paragens literárias são instrumento de comunicação e expressão das nossas humanidades é ponto de destaque para uma literatura que fratura apagamentos sociais. E não somente a denúncia de nossas mais comezinhas e seculares mazelas aflora nesse percurso que incomoda, mas também a ideia de que é preciso mostrar universos de existência que trazem suas peculiaridades, seus modos naturais de ser e estar no mundo sem que tal matéria seja reduzida aos cínicos requintes do exotismo.

Refletir sobre certas invisibilidades e inscrevê-las na pele do texto demonstra ser um relevante objetivo para um alguém como o escritor baiano Itamar Vieira Junior. Dono de uma escrita segura e atenta às questões de seu tempo, Itamar vem construindo sua trajetória literária de modo deveras consistente. Desde livros de contos como “Dias” (Caramurê, 2012) e “A Oração do Carrasco” (Mondrongo, 2017), este último finalista do Prêmio Jabuti, já era possível perceber como o autor acenava com um domínio técnico e criativo afinado com a qualidade.

Se Itamar já nos chamava atenção com seus livros anteriores, é com seu último trabalho, o romance “Torto Arado” (Todavia, 2019), que sua obra parece atingir uma espécie de apogeu das percepções. E falar desse ponto alto não significa apenas abordar a ótima repercussão que o livro obteve, incluindo aí uma premiação internacional, mas referendar a continuidade de um processo que é marca registrada do escritor, sua capacidade de olhar para o povo negro e mostrá-lo protagonista diante das reiteradas investidas de invisibilidade patentes em nossa história. A partir da impactante atmosfera de seu recente livro, pudemos conversar com o autor sobre os processos atinentes à escrita de tão significativa obra, além de transitarmos sobre questões fundamentalmente relacionadas à condição humana e algumas de suas implicações no trato social. De todo o dito, Itamar Vieira Junior é um nome de relevância no contexto atual da literatura brasileira, não apenas pela qualidade de seus escritos, mas também pela propriedade do seu pensamento crítico e desperto diante da realidade.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Lendo “Torto Arado”, é impossível não pensar no Brasil profundo que ali está, principalmente se considerarmos tensões que envolvem as populações quilombolas e seu, digamos assim, permanente desterro. De que maneira você mergulhou no cotidiano dessas comunidades e dali retirou subsídios para a feitura do livro?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou geógrafo de formação e há quase 14 anos eu trabalho com as populações do campo. Primeiro no estado do Maranhão, onde conheci comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sem-terra, e depois no estado da Bahia. Anos mais tarde fui fazer meu doutoramento em Estudos Étnicos e Africanos, que estava intrinsecamente relacionado com o meu trabalho como servidor público, e pude aprofundar minha pesquisa. A história de “Torto Arado” me acompanha há mais de 20 anos. O título, inclusive, remanesce dessa minha primeira tentativa de escrevê-lo – sem êxito – na adolescência. A história das irmãs, a relação com o pai que fala com os espíritos, todo esse núcleo central da trama permaneceu. Com o passar dos anos a história incorporou questões de ordem sociológica que refletem a minha formação, a minha ancestralidade e o interesse pela história do Brasil. Ao longo de anos – eu que nasci numa grande cidade -, tive o privilégio de conviver com camponeses, escutá-los, aprender sobre a vida no campo e conhecer suas histórias. Era o que eu precisava para retomar esse antigo projeto de escrita.

 

DA – Nessa sua aproximação com as comunidades, certamente foram inúmeras as narrativas escutadas. Ao mesmo tempo em que você teve contato com esse manancial de depoimentos, percebeu também uma necessidade de visibilizar tais grupos no seu mister de escritor? Indo mais além, diria que “Torto Arado” encerra um clamor consciente?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Primeiro acho que é desejo de qualquer escritor contar uma boa história. Embora esteja previsto no meu projeto literário percorrer caminhos diferentes para refletir minimamente a grande diversidade da nossa sociedade, o que me levou a escrever “Torto Arado” foi a vontade de contar uma história que contemplasse o anacronismo dos nossos processos sociais, a herança da escravatura, a luta pela terra como o direito mais elementar da existência porque sem chão não há vida, movimento, não há alimento. O romance trata de um grupo de trabalhadores que, em contato com outros grupos que travam lutas por melhores condições de trabalho e por terra, se identifica como quilombola. Mas poderiam ser indígenas, ribeirinhos, geraizeiro, sem-terra, qualquer agrupamento humano que detivesse este elo de coexistência com a terra que nós, ocidentais e urbanos, parecemos ter perdido.

 

DA – As irmãs Belonísia e Bibiana são algo emblemáticas na medida em que expressam, dentro de duros enfrentamentos sociais, o vigor do universo íntimo que as atravessa. Pelo olhar de cada uma delas, o livro ganha uma pulsação narrativa diferenciada, evocando o duplo interno/externo a partir do modo como ambas pensam e vivem suas trajetórias. Diria que tal escolha narrativa lhe foi mais desafiadora?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Concebi a história inicialmente narrada por uma única irmã, a Belonísia.  A determinada altura da escrita eu percebi que a diferença e a complementaridade de suas vivências só poderiam ser transmitidas ao leitor de forma plena se conhecemos as suas perspectivas individuais. E por que são as mulheres, as narradoras, e não os homens? Pelo simples fato que nesta região, no interior do Nordeste, encontrei mulheres que pela ausência do homem por diversos fatores – morte por baixa expectativa de vida ou violência, emigração para o trabalho ou mesmo o abandono da família -, as mulheres assumem um protagonismo que precisava ser visibilizado. Por isso são elas a narrarem a história. E são três narradoras que contam as suas perspectivas sobre o que aflige a população de Água Negra: seja pelo olhar infantil e sonhador de Bibiana, ou pelos gestos duros de quem não sabe viver além da terra de Belonísia, ou pelo olhar de quem pôde atravessar a história para contar que o passado não nos abandona, por mais que tentemos nos afastar. Na nossa trajetória social quase sempre iremos alcançar as respostas sobre o presente em um passado aparentemente distante, mas que se perpetua em práticas vigentes que refletem uma segregação secular e colonial.

 

DA – A atmosfera de “Torto Arado” também nos lembra a existência daquilo que podemos chamar de invisibilidade em camadas, ou seja, de experiências de apagamento que, num efeito cumulativo, agregam simultaneamente a condição da negritude, da pobreza, do ser mulher, dentre outras. O que dizer desse delicado território de humanidades?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Com a tecnologia que dispomos acho que essa invisibilidade só persiste porque é interessante ao sistema. A literatura reflete também as diferenças deste mesmo sistema: quem tem acesso à educação de qualidade? Quem pode ler bons livros, escrever conforme a norma culta ou experimentar novas formas? E durante as últimas décadas, com honrosas exceções, a literatura não refletiu a nossa diversidade étnica e cultural. Esteve durante muito tempo voltada para os conflitos da classe média branca. Esse é um ponto crucial quando me proponho a escrever: quero que a literatura se volte para as clivagens sociais, os cantos esquecidos do país. Talvez nessas experiências limites de humanos ocultados por um sistema esteja a chave para entender o todo. É o que eu gostaria de capturar com a escrita: o mais profundo dessas existências, que consequentemente será nossa também.

 

DA – A fixação do homem do campo à terra também levanta reflexões para quem lê seu livro. E estamos falando aqui duma noção de pertencimento ao solo ancestral, mesmo que não se tenha, por sucessivas gerações, a posse formal dos territórios em que tais pessoas habitam desde sempre. Na sua opinião, de que modo continuamos nos equivocando quando o assunto é pensar e viabilizar uma reforma agrária no país?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – O atual problema fundiário brasileiro reflete as questões da formação do país: a primeira diz respeito à exploração do solo brasileiro imposta pela colonização em modelo de sesmarias, que legou grandes extensões de terra a particulares que gozavam de status ante à Coroa. A segunda foi quando esse modelo de sesmarias foi substituído pela lei de terras de 1850, que firmou a compra como a única forma de acesso à terra. E quem poderia comprar? Foi assim que se consolidou parte da nossa desigualdade social, que poderia ter sido corrigida pela reforma agrária, que foi, nos últimos governos, incipiente, e agora se encontra definitivamente abandonada como política pública. Esta é a nossa mais elementar questão social, porque um país não pode prescindir de alimentar a sua população de forma extensiva e ambientalmente correta, protegendo a natureza. Não pode querer que sua população renuncie o direito à terra, porque sem a terra não há vida. Ainda não temos asas para vivermos suspensos na atmosfera, e mesmo os que têm, os pássaros, precisam descer para comer o que nasce do chão. Daí a importância dos muitos movimentos que lutam por seus territórios: indígenas, quilombolas, dos atingidos por barragem e ribeirinhos. Para essas populações, a terra não é um bem econômico, mas, sim, a sua história. É a extensão de seu corpo. É a sua morada. E o modelo neoliberal em curso privilegia as grandes corporações que não têm nenhum vínculo com a terra, que a usa como um recurso sem vida, sem passado ou qualquer esperança de futuro. Não há conciliação quando se tem os graves problemas fundiários, que não são somente fundiários, mas fundantes da nossa desigualdade social.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Nos últimos anos, o meio acadêmico tem sido cada vez mais palco de pesquisas, dissertações e teses que buscam discutir e repensar os diversos apagamentos sociais que enfrentamos cotidianamente. Você mesmo é egresso de um doutorado em Estudos Étnicos e Africanos, por exemplo. De que forma tais esforços podem romper o confinamento universitário e ser algo efetivos na sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – As pesquisas e o pensamento decolonial que encontraram abrigo nos centros universitários têm chegado de muitas formas à sociedade. A literatura é apenas um dos caminhos que tem sido percorrido. De forma pragmática, essa produção acadêmica tem sido atravessada pelo pensamento decolonial: da arquitetura às ciências humanas e sociais, passando pelas artes. Ela tem possibilitado a construção de uma sociedade menos desigual, onde se discute e se pensa formas de reduzir os danos de nossa própria história. Principalmente quando as pesquisas estão voltadas para fora da universidade, quando não se encerra nos gabinetes e salas de aula, e tenta pensar o mundo com os próprios sujeitos da história. É claro que essa evolução não é permanente, nem mesmo constante, um exemplo é o estado de regressão das pautas sociais em que o Brasil e o mundo mergulharam nos últimos anos. Mas a produção universitária continua, mesmo sob ataque, e será um farol para reconstruirmos o que está sendo destruído.

 

DA – Em escala global, acredita que estamos vivendo um processo de desumanização?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não creio. Se olharmos a trajetória da humanidade, cercada de violência e grandes calamidades, vivemos uma época de ouro. Houve avanços para os direitos humanos no século XX, muitos surgidos a partir de grandes tragédias, como o holocausto nazista. É claro que vivemos em um mundo conservador, pouco afeito às mudanças, então elas quase sempre vêm acompanhadas de reações, como as que vivemos atualmente com a ascensão política da extrema-direita e dos regimes autocráticos em alguns países. Mas a humanidade tem ganhado consciência, humanidade, e nosso século promete mais avanços em relação aos direitos humanos.

 

DA – Sua carreira literária hoje assinala uma visibilidade bastante significativa, com sua obra sendo reconhecida e atingindo repercussão dentro e fora do país. O que mudou, de fato, em sua trajetória em face dessa projeção? O homem Itamar hoje é sujeito de ânimo renovado em face dos aprendizados? 

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o mais interessante disso tudo foi o contato que pude estabelecer com escritores e leitores, seja no Brasil ou em Portugal. E também o fato do livro ter sido editado por um grande grupo editorial me fez conhecer o trabalho dos editores de carreira, as estratégias de marketing e a profissionalização da escrita. Tenho aprendido muito, mas, de fato, pouca coisa mudou. Porque o que continua a me mover é a paixão pela literatura, e para tanto não precisei estabelecer uma carreira ou obter um prêmio, apenas dei liberdade à minha intuição.

 

DA- Há quem sustente que mergulhar nos caminhos da arte seja também uma alternativa para suportar o peso que a realidade das coisas nos impõe em certa medida. É razoável considerar essa espécie de fuga diante do universo oceânico e desafiador que é o autoconhecimento?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não considero a arte uma “fuga”, ela é parte da experiência humana. Desde as pinturas rupestres, que datam de 40 mil anos, aos nossos dias, o que existe e persiste é a necessidade do homem criar e comunicar a sua existência. Concordo que dentro do conjunto de expressões humanas, a arte talvez seja a que nos permita “suportar o peso da realidade”, porque está intrinsecamente relacionada à nossa dimensão subjetiva. É nela ou a partir dela que nos autoconhecemos: o medo, os afetos, as grandes questões da vida, ainda que num plano subjetivo. Por ser subjetivo, talvez nos permita emular a nossa própria vida e enfrentar os problemas que estejam por vir. A literatura, em especial, é generosa neste sentido: quando pegamos um livro para ler nós estabelecemos um “contrato” com o autor e as personagens de que, durante um período, no processo silencioso e íntimo da leitura, “viveremos” aquelas vidas. Assim, nos colocamos no lugar do outro num denso movimento de humanização. É o que chamamos de empatia.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Esta é uma pergunta interminável, porque não se encerra em nenhuma resposta. Lembro de ainda adolescente ter lido uma entrevista da escritora Rachel de Queiroz e fiquei muito intrigado com a resposta à mesma pergunta, onde ela dizia que escrevia porque não sabia cozinhar. Anos depois vi uma lendária entrevista do jornalista Jaime Lerner à escritora Clarice Lispector que devolvia a pergunta com outra pergunta: “e eu sei?”. Eu imagino que esse imenso desejo humano de se comunicar e legar para as gerações futuras um registro é que nos move a ler e interpretar o mundo através da arte. Penso nos homens e mulheres que nos deixaram registros da arte rupestre, quais eram as suas intenções ao pintar as paredes das cavernas que habitavam? Certamente queriam comunicar algo aos seus pares e legar, quiçá, registros para as gerações que viriam. O que me move a escrever é a vontade pessoal de registrar o meu tempo, de comunicar aos que se interessarem o meu olhar sobre o mundo, que reflete por sua vez os olhares dos que me influenciaram. Ao mesmo tempo, escrever reflete uma fé inabalável na literatura, não de que ela possa mudar ou alterar nada, mas de que possa ser um exílio, confortável ou não, para os que buscam conhecer a si mesmo.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Galeria

Foto: Hermes Polycarpo

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