Nestes tempos sombrios e catastróficos de pandemia, nunca foi tão necessário um mergulho quiçá mais aprofundado em nós mesmos. A ideia de confinamento acaba por sugerir uma dedicação maior de nossa parte sobre temas que abraçam nossas indivualidades, nosso íntimo espaço de abstrações pessoais. Há quem leia mais livros, ouça mais discos, veja mais filmes, intercambie ideias com outras pessoas no ambiente virtual, seja nas enxurradas de lives ou prosas em vídeo privadas. Alguns hábitos foram remodelados diante de tamanha limitação do ir e vir humano, mas talvez o aspecto mais difícil dessas mudanças seja lidar com a desaceleração dos ritmos habituais. No campo da criação literária e artística, por exemplo, poderíamos até supor que o isolamento compulsório nos levaria a um estado garantido e deveras frutífero de produção. Mas as coisas não são bem assim. Há quem se queixe de certa apatia diante da realidade trágica do mundo a ponto de nada conseguir pensar, quanto mais criar. De repente, somos tomados pelo medo de imaginar o futuro, já que o presente é devastador. A paúra do amanhã obriga muitos a supor que talvez não haja um refúgio garantido. E a imposição do recolhimento acaba por flertar com dificuldades até certo ponto extremas para muita gente. Uma delas é a condição de ter que silenciar, emudecer por alguns momentos, o que certamente viabilizará combates dos mais diferentes sujeitos com as suas próprias mentes e consciências. De todo modo, cada um irá elaborar sua própria estratégia de sobrevivência para não sucumbir diante de um cenário nunca experimentado pelas mais distintas gerações que aí estão. Enquanto a tormenta global não passa, é possível descortinarmos mundos e seres sem sairmos de nossas moradas. Mesmo quem não está habituado pode se permitir um percurso por livros, discos, filmes, fotografias, desenhos, pinturas, enfim, sensações das mais diversas. O vasto território da Literatura e da Arte possui um acervo capaz de abarcar as mais diferentes procuras. Suportes como a Diversos Afins, mais do que nunca, são pontes para descobertas, para aproximações, a partir do ambiente cultural. Nosso caminhar segue em frente, sugerindo alternativas para atravessar um estado de coisas que tende à imobilidade das trajetórias. Assim, trazemos à tona conexões com a vida nos versos de poetas como Jennifer Trajano, Carla Diacov, Wesley Correia, Lílian Almeida e Maria Clara Escobar. São de Vivian Pizzinga as linhas que debatem os temas presentes no espetáculo teatral “Pá de Cal”. É Vinicius de Oliveira quem nos recomenda a leitura de “O corpo encantado das ruas”, livro de ensaios de Luiz Antônio Simas. Nossos cadernos de prosa de agora, estão marcados pela poética de Priscilla Menezes e pelos contos de Rodrigo Melo e Alê Motta. Seguindo as trilhas cinéfilas, Guilherme Preger analisa criticamente o filme “O Poço”, instigante produção espanhola. “Gigaton”, novo álbum da banda Pearl Jam, está na mira detalhada das abordagens de Wilfredo Lessa Jr. Numa entrevista concedida a Fabrício Brandão, o escritor Paulo Bono fala sobre seu novo livro e outros provocantes temas literários e mundanos. Durante toda a nossa atual edição, os desenhos de Ana Luiza Tavares compõem uma valiosa exposição que se volta com vigor para o universo feminino. Isole-se bem, cara leitora, caro leitor! Isole-se com mergulhos culturais. Eis a nossa 135ª Leva!
………………………..Teu homem não virá.
A melodia que, há pouco,
semeaste pelos sulcos da tua pele,
enquanto, aflito, tentavas te limpar ………………………………………………..de ti mesmo, ………………………………………………..não brotará, ………………………………………………..mas restará, seca, ….no fundo das mãos vazias, quedará num
canto do cômodo rarefeito,
e a partitura, então ininteligível, …………………………………….se executará ………………………………no adverso da regência.
………………………..Teu homem não virá.
Do desejo que imprimiste às ervas aromáticas,
do amor-quase-morte com que,
devotamente, temperaste
.o peixe para o jantar, permanecerá,
tão somente, ..o espasmo de uma premeditação, …..o sintoma de uma precipitação, ………..a réstia de uma palpitação, ……………….uma deletéria ilusão, ……………………..e uma excitação, ….que nunca tarda em dissipar-se.
………………………..Teu homem não virá.
Recolhe, pois, os pratos, os sapatos, ……………………………….os gatos, os gastos.
Recolhe tuas ânsias, teu querer bem, ………………e tua boca ardente a morder …………a carne improvável da alegria, ………………………………recolhe-a, também.
E recolhe teu pelo eriçado,
os teus arfares, ai, os teus arfares,
recolhe-os todos!,
e recolhe-te, enfim, a ti mesmo,
quando a chuva, tua confidente,
vier anunciar a noite comprida.
………………………..Teu homem não virá.
Nem hoje ……………nem amanhã …………………nem depois.
Ama-te, por fim, e sê tu teu próprio homem,
e escandaliza-te com as seivas
de teu corpo transbordante, e ria-se da entrega, e
beije-te a boca, e envolve-te no teu próprio
abraço, e aquece-te no teu calor, ……….e goza contigo, que teu homem aí está.
***
Galope
O bêbado levita sobre a maciez
de teu dorso bravio
e tu relinchas.
Ele guarda na mão direita
o redemoinho das caatingas impossíveis
e traz no pé esquerdo
o Décimo Nono Arcano Maior.
Teus olhos são
de esfinge alada
reluzente.
Tu galopas o chão etéreo,
e bebes a secura da terra,
o bêbado ri das profecias mortas.
A vida é sentinela.
***
Noite
À noite, tinjo-me de estrelas
e penetro, com o salto
do meu sapato de verniz,
as pedras da cidade.
Fecundo as rochas.
Gasto meu batom azul
em corpos efêmeros,
dou a todos eles os tons
do riso e do prazer.
Pela manhã, volto à rotina:
pego ônibus lotado;
bato ponto;
carimbo dezenas de papéis,
que engendram a máquina colossal,
e chego, sem memória,
ao final do expediente.
Vou pra casa, pintado de constelações
com meu coração sem estrelas. ……..Meu coração sem estrelas ……..tem parido luzes cintilantes.
***
Imaginário
Pende entre minhas pernas pretas
um mito gorduroso,
quase impossível de carregar.
E na sua plena atividade,
na diabólica plasticidade,
me arqueia o dorso,
me alquebra o corpo
até interditá-lo.
E na sua robustez de mito,
me debilita a frágil saúde
ainda mais,
nas suas dimensões de mito,
me diminui a forma
ainda mais,
na sua centralidade de mito,
me reduz a toda solidão
do cais.
Por isso, não morram
se eu resolver
extirpá-lo amanhã.
É que minhas pernas pretas
marcham melhor
sem o seu peso incômodo,
minha cabeça preta
se equilibra melhor
sem o seu peso incômodo,
todo o meu corpo preto
se ergue maior
sem o seu peso incômodo.
***
Memória do sol
o sorriso
a beleza,
a luz, a pluma e a comoção.
arde-me a fantasia deste sentido querer-te.
Wesley Correia nasceu em 21 de Outubro de 1980, em Cruz das Almas, Bahia, e aos dezessete anos publicou seu primeiro conto no Jornal A Tarde. É autor de “Pausa para um beijo e outros poemas” (2006), “Deus é negro” (2013) e “Íntimo Vesúvio” (2017). Atualmente, é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – IFBA, onde ministra aulas na Pós-graduação em Estudos Étnicos e Raciais, e outros cursos.
O grunge morreu. De overdose, de velhice, de Boy Band. Ainda assim, permanece imantado a nossa realidade cultural, seja na imagem de Cobain, seja nas playlists de Rock n’ Roll (onde virou clássico, que horror!). A única banda dessa geração que nunca parou foi o Pearl Jam. Cada vez mais longe dos seus próprios clássicos (Ten, Versus e Vitalogy) e mais próxima de New Young, tanto na excelência quanto no desapego ao passado, em se tratando dos discos. Só por isso eles já merecem palmas.
Gigaton (2020) é um disco que se aproxima muito de Bruce Springsteen fase “Lucky Town” (1992). É um disco de 12 canções em que Eddie Vedder fala sobre tudo (política, machismo etc.) sem abandonar um certo messianismo e aquela autoanálise autoindulgente que pode soar totalmente mala, mas também vale pra boomer se sentir o próprio (quem? eu…?).
Faixa a faixa:
1- Who ever said – se você já ouviu PJ, você já ouviu essa, tem todas as convenções, mudanças melódicas e tals . Traz já de cara uma letra olhando pra dentro. Num mundo de incertezas e inércia, de verdades distorcidas e doloridas, pra que o Rock? Resposta, pra ter “Satisfaction”.
2- Superblood Wolfmoon – essa pra mim deveria abrir o disco, rápida, agressiva e um tanto polêmica. É a faixa “me too” dos caras, onde Eddie não só faz uma autocrítica, mas também manda descer do pedestal. Ele fala de um homem acuado, irritado e culpado, que ainda não sabe como lidar com a “loba” na lua cheia.
3- Dance of the Clairvoyants – faixa de lançamento, causou uma comoção entre os fãs que acharam muito “eletrônica”, mas a mim veio “Cannonball”, do Breeders, e “Ulysses”, do Franz Ferdinand, no refrão. Mais temas de confusão e angústia em relação a uma modernidade que não veio pra resolver, mas pra piorar.
4- Quick Scape – fazia tempo que eu não ouvia uma faixa tão Zeppelin dos caras, seja nas guitarras, na cozinha ou no refrão. A letra, bem anti-trump, justifica sua “saída rápida” pra arrumar as ideias no meio dessa lama. Sugiro umas cervejinhas ou um chá.
Foto: divulgação
5- Alright – Essa é tão neo hippie que exala patchouli. Discursinho tirado a U2 tentando mostrar que se importa. Não, obrigado!
6- Seven O’Clock – Bruce Springsteen devia cobrar direitos autorais por essa. Panfletária (Trump escroto!), funciona muito porque o estribilho faz tudo soar sincero.
7- Never Destination – outra das minhas preferidas, direta, reta e energética. Muito legal pensar que uma banda com esse tempo de estrada ainda soa tão crua quando quer.
8- Take the Long Way – tem um riff quebrado muito interessante, me lembra “Life Wasted” na melodia, desce redondo e não desanima.
9- Bucle Up – faixa passável, passe pra próxima.
10- Comes then Goes – melhor balada do disco, de longe. Violão de cordas de aço, sempre roqueiros. Influência Country sem soar mala, uma das coisas que o PJ sabe bem.
11- Retrograde – aposto que essa foi encomendada para o vídeo do Partido Democrata, messianismo embalado a vácuo. Boa pra Ioga de manhã cedo. Amanhã eu começo, tá?
12- River Cross – segunda faixa roubada do “Boss”, última do disco, uma súplica por luz em tempos sombrios, não funcionou pra mim, mas talvez vire a sua “música da crise”. Se cuida. Tamo junto.
O disco funciona, seja pra quem é fã, porque não foge muito do som deles, seja pra quem quer ouvir um disco de rock que trate do estado atual das coisas sem querer lhe dizer o que fazer, mas perguntando por que fazer. Pearl Jam ainda me causa um certo orgulho, boomer nostálgico que sou.
Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.
Era uma noite quente naquele apartamento do outro lado da cidade e eu estava deitado sobre o sofá que ela havia comprado uma semana antes – o sofá macio, de vinil preto, dividido em doze vezes no cartão. Pensava no conto que teria que escrever para uma revista. O prazo estava perto de acabar e eu ainda não tinha conseguido um único parágrafo. As coisas muitas vezes parecem mais complicadas quando se tem um prazo. Na tevê passava um faroeste. Dois sujeitos, um de frente para o outro, no meio de uma rua empoeirada, com as mãos sobre os seus coldres, à espera de um sinal. Talvez se eu fumasse o baseado que tinha no bolso as ideias começassem a vir e a história ganhasse forma e eu conseguisse finalizá-la a tempo. O problema era que ela não gostava do cheiro. Por conta disso, eu teria que ir até a praça lá embaixo, escolher um dos bancos que ficavam meio escondidos pela sombra das árvores e fazer tudo muito rápido, na esperança de que não aparecesse qualquer carro de polícia.
Um dos sujeitos na tevê era louro, alto e tinha uma estrela no peito. O outro era só um mexicano com o seu chapéu redondo e as suas roupas sujas e o seu sorriso era o sorriso de quem não tinha muito a perder. Talvez estivesse bêbado. De repente, ele puxou a arma e a apontou para o cara com a estrela no peito. Antes que conseguisse atirar, recebeu dois tirambaços e caiu estatelado no chão. E então, vinda do saloom e das casas ao redor, uma multidão começou a se formar em volta do seu corpo.
– O que é isso, Fófis? – ela perguntou, segurando uma vasilha com pipocas na mão.
– A vida – respondi.
– Não seria a morte?
– As duas. Às vezes as duas se misturam e viram uma coisa só.
Ela jogou um punhado de pipocas para dentro da boca e ficou a me olhar.
– O que ele fez para ser morto?
– Era mexicano.
– Só?
– Só… O nome desse loiro com a arma na mão é Randolph Scott. Tenho um amigo que é fã dele.
– Bonitão.
– Dizem que era gay. Mantinha um caso com outro famoso. Não lembro o nome.
– Não deve ser verdade, Fófis. Olha só pra ele, olha para o jeito dos ombros, dos braços. Posso colocar a mão no fogo por um homem assim.
– Escuta, não quero ser chato nem nada, mas não gostei desse apelido que me deu. Prefiro que me chame pelo nome, se não se importar.
– Tudo bem, eu não me importo. Tem certeza de que quer assistir isso?
– Não. Vou descer para fumar.
– Vai lá na praça?
– Sim.
Vê se não demora. Fico preocupada.
Era geóloga, mexia com pedras, matéria morta, tinha um gato que às vezes desaparecia e, tempos antes, numa noite feito aquela, foi até o quarto e voltou com uma caixa enorme, de onde tirou duas facas, uma taça de metal e uma porção de cartas com desenhos estranhos. Jogou tudo sobre a mesa, acendeu dois incensos e disse que a minha alma era velha e teimosa e que eu precisava evoluir. Disse ainda que a minha vibração tinha uma tonalidade verde escuro ou azul, o que poderia significar uma infinidade de coisas. Eu gostava dela, mas achava aquilo chato e com o passar do tempo tudo começou a soar exagerado, como se fosse uma espécie de resgate entre nós dois. Nos encontrávamos apenas para trepar, comer e assistir tevê, sendo que cada vez mais comíamos e assistíamos tevê.
Em vez de descer, fui até a cozinha e abri a geladeira. Havia uma lata de Malzebier escondida na parte dos tomates. Me sentei num banquinho ao lado do fogão e acendi um cigarro. Dei grandes goles e longos tragos. Por um instante, fechei os olhos e tentei me imaginar longe dali, talvez nadando em uma piscina aquecida, comendo profiterolis numa sacada de frente para o mar, andando de bicicleta em alguma paragem sagrada e especial. Por algum motivo, não consegui. Abri novamente os olhos e enxerguei, através do basculante na cozinha, o reflexo das luzes lá fora – as luzes de ilhéus, a cidade em que nasci e continuava a viver. Pensei que àquela hora, em alguma outro lugar, alguém talvez compreendesse tudo o que lhe acontecia e até se sentisse feliz. Alguém que não ficasse o tempo inteiro se perguntando o que cada coisa poderia significar.
Ela havia mudado de canal quando voltei. Os cabelos negros caíam sobre o sofá e suas pernas morenas se esticavam até a mesinha de centro.
– Tô indo.
– Pensei que já estivesse voltando.
– Tô indo pra casa.
Ela se virou e ficou a me olhar.
– Está chateado?
– Não. Tenho que entregar um texto até amanhã.
– Escreve ele aqui.
– Deixei o rascunho em casa. Melhor eu ir.
Caminhei até a porta e ela me seguiu. Nos beijamos. Sua boca tinha gosto de manteiga e sal. Havia qualquer coisa diferente no seu olhar. Como se soubesse que aquela seria a última vez.
Saí do prédio, caminhei até o fusca, dei a partida nele e coloquei uma música para tocar. Era Kingdons Of Rain, de Mark Lanegan. Ao meu redor, a cidade adormecia, uma e outra janela acesa, e por um momento me pus a imaginar as histórias que aquelas janelas guardavam e tornei a acreditar em belos e intermináveis amores e pensei em como tudo pode ser bonito e intocável quando a gente realmente precisa ou quer. Repentinamente, lembrei do nome do outro ator, mas já não importava mais. Tanto ele, quanto as cartas de tarô e o sofá de vinil haviam ficado para trás. Naquele instante, eu era apenas aquele sujeito a cruzar a cidade dentro do seu fusca bege, acendendo um baseado, calculando que talvez uma hora todas as coisas fizessem sentido e que bastava não desistir. Bastava peitar a fera e continuar, neblina adentro, até a vista clarear. E foi assim que segui: escutando a voz triste e rasgada de Mark Lanegan e sentindo que a cada tragada e a cada metro que o fusca vencia, eu me transformava em um homem mais livre, mais perto da verdade, e, por isso, um homem também melhor. E pensar aquilo me fez um enorme bem. E eu então comecei a sorrir.
Rodrigo Melo vive em Ilhéus, no sul da Bahia, e é autor de Riviera, romance prestes a ser lançado pela Editora Mondrongo.
Grávida do ser que me habita
vou parir a mim mesma.
Outra.
Quando a lua anunciar negruras
já serei o que sou.
Mariposas cintilam lilases
voos e auroras.
***
Costuro palavras
no assoalho dos dias
a ver se liberto
os pés
de existir entre homens.
***
Fênix
Para Rita Santana
No chão, os meus restantes.
Estatelei-me no voo.
Esfacelada, a altura era o solo.
Uma asa esmagada
um pé quebrado
os olhos parados
o tronco desconjuntado.
Restantes em fragmento do que te dei inteiro.
Recolhi as partes.
Lavei com lágrimas
sequei com rotos sorrisos.
Secreto unguentos de sangue e muco
e cicatrizo os cortes.
Suturo as dores com o preto fio dos meus cabelos
para deixar marcado, no corpo da fênix,
a porção mulher que há em mim.
***
Abaeté
A água escorre dos olhos
sobre a face escura.
A água escorre das roupas
dentro das mãos negras.
Escorre dos olhos
das mãos da mulher
a dor dos dias.
A água escura da lagoa
lava as roupas
e a alma.
***
De cor
na cidade alba
os olhos brilham retinas cegas.
entre alvos passos
e braços
o invisível caminha.
***
Cio
A fêmea exala
o cheiro rubro
da vida
Baiana de Salvador, Lílian Almeida é professora adjunta na Universidade do Estado da Bahia e doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Participa de “Além dos quartos: coletânea erótica negra Louva Deusas”, “CartoGRAFIAS” (Funceb) e “Profundanças 2: antologia literária e fotográfica”. Publicou “Todas as cartas de amor” (ficção) em 2014, pela Editora Quarteto. Venceu o prêmio Edital Caramurê de Literatura 2019 com o livro “Pulsares”.
Nesses tempos de quarentena forçada (e não podemos nos esquecer de seu caráter forçado ou autoforçado, isto é, “não livre”), como tantas outras atividades, as salas de exibição fecham e o cinema perde seu caráter coletivo e público. Isolados em nossas casas (ao menos a classe média assalariada que tem condições para “bancar” esse isolamento), nos vemos irremediavelmente condenados às plataformas digitais de entretenimento, especialmente as plataformas de vídeo sob demanda como a globalizada Netflix. A quarentena vem então acentuar a tendência já presente de erosão dos espaços coletivos de fruição estética, espaços cuja principal função é contextualizar para os espectadores as formas cosmopolitas da cinematografia contemporânea.
Um dos maiores perigos deste atual período é a crescente “domesticação” de nossa atenção estética e a perda consequente de sua politização. Em especial, o cinema foi a aparelhagem que nos forneceu, durante todo o século XX e na era contemporânea, os principais equipamentos conceituais para uma crítica política da imagem técnica e digital. Mas esses conceitos sempre foram dependentes da recepção coletiva. As plataformas sob demanda não apenas individualizam a recepção estética, mas também a direcionam, via os ubíquos algoritmos que interligam os perfis dos usuários aos interesses particulares. Na plataforma Netflix, por exemplo, há ausência dos clássicos cinematográficos em detrimento das séries ou seriados audiovisuais. Estes traduzem em termos audiovisuais a linearidade folhetinesca da narrativa imagética, temporada à temporada, para a captura da atenção individualizada.
O próprio sucesso da Netflix a encaminha da seleção do conteúdo para sua produção. Assim, filmes de “arte” como Roma, do mexicano Alfonso Cuaron, Democracia em Vertigem, da brasileira Petra Costa, e O Irlandês, do consagrado Martin Scorsese, são “bancados” financeiramente pela plataforma. E é, na confluência e na coincidência do período global da quarentena, também o caso do premiado filme O Poço (El Hoyo, no original), do cineasta basco Galder Gaztelu-Urrutia, que se tornou sucesso instantâneo. Ao contrário dos filmes anteriores, trata-se neste último caso de uma aposta do sítio, pois o diretor é estreante cinematográfico.
A intriga de O Poço é simples e esquemática. Uma imensa construção vertical fechada como uma prisão tem supostamente 200 andares para baixo. A cada andar há duas pessoas, de quaisquer sexos, que estão confinados como prisioneiros. Em cada andar há também um buraco em forma de retângulo. Pelo buraco desce uma plataforma uma vez ao dia com a comida preparada no andar zero. A plataforma com a comida passa em cada andar e pelo intervalo de dois minutos os prisioneiros podem se alimentar e, em seguida, ela vai descendo para os andares abaixo. No andar zero, a comida é ricamente preparada por dezenas de cozinheiros sob orientação de um chef rigoroso, bastante severo. Os primeiros andares têm, portanto, acesso aos pratos completos e bem preparados, mas conforme vai descendo a plataforma, a comida vai escasseando e ao mesmo tempo vai se desfazendo em pratos sujos e desmanchados. Os andares de baixo têm, portanto, acesso às sobras de comidas dos andares superiores e aos andares ainda mais inferiores chegam apenas pratos vazios. A ninguém é permitido reter alimentos, sob a pena de aumentar ou resfriar a temperatura da prisão a níveis intoleráveis. Todo esse infernal aparelho é comandado pela misteriosa Administração. A sinistra edificação serve como prisão aos seus “habitantes”, mas também como uma prova de desafio em que seus participantes ganham ao final, caso resistam, um misterioso certificado, que não se sabe para que serve.
Foto: divulgação
A trama de El Hoyo funde imagética e esteticamente dois tipos principais de produções: a das séries e dos filmes de sobrevivência (survival), nas quais um personagem ou ator atravessa diversos desafios. Podemos incluir nesse gênero as dezenas de reality shows, tipo Big Brother, o que está de acordo com o arranjo panóptico da Construção. E o filme também se funde com as séries e filmes distópicos, e neste caso a produção mais imediatamente relacionada é a famosa série Black Mirror. Esta, feita de episódios autônomos, é sem dúvida, a inspiração para o filme de Gaztelu-Urrutia. E aqui é preciso observar a inversão de linguagem: enquanto as séries televisivas ganharam proeminência reproduzindo a estética cinematográfica, são agora os filmes cinematográficos que miram as séries televisivas. Os roteiristas de O Poço já reconheceram a intenção de fazer uma continuação do filme. Essa característica de fusão de estéticas faz de O Poço um produto audiovisual híbrido, em que a distinção entre seriado e cinematografia já não existe.
O foco narrativo se concentra de início em dois personagens: o melancólico Goreng (Ivan Massagué) e o cínico Trimagasi (Zorion Eguileor) que dividem um andar, na altura do quadragésimo (a conta é para baixo). Enquanto este último é um condenado por crime, Goreng está na Construção por interesse próprio, para conseguir o seu misterioso “certificado”. O filme apresenta cenas em flashback da entrevista de Goreng com a “administradora” Miharu (Alexandra Masangkay) que veremos mais tarde como mais uma das “hóspedes” da prisão. Embora essa entrevista nos mostre que Goreng está indo por vontade própria para sua estadia (cujo período de testes é de 12 meses), também mostra que ele não sabe o que irá enfrentar lá dentro. Cada interno tem o direito de levar um único objeto. Enquanto Trimagasi leva uma faca “samurai plus”, instrumento de seu crime, o bem intencionado Goreng leva um exemplar de Dom Quixote de La Mancha. Trimagasi é uma espécie de “tutor” de Goreng e o inicia no aprendizado do funcionamento da Construção. Esse aprendizado também serve para o espectador que aos poucos vai aprendendo sobre o funcionamento do horror claustrofóbico da gigantesca prisão. Saberemos que os andares superiores não têm qualquer solidariedade com os andares inferiores e não poupam a comida que poderia ser dividida por todos caso fosse racionada. E que os que estão alojados nesses andares têm muitas vezes que recorrer a medidas extremas como o canibalismo. E assim aprendemos a utilidade da faca trazida por Trimagasi e da aparente inutilidade do livro de Goreng.
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Mas o pior está ainda por ser revelado. A permanência em cada andar é provisória e a cada mês os participantes adormecem e acordam aleatoriamente em outro andar, que pode ser mais acima ou abaixo. Goreng e Trimagasi vão acordar em outro andar muito mais abaixo e aí a situação despenca para muito pior. Além do cínico assassino, Goreng também partilha os andares com mais dois outros personagens: a andrógina administradora Miharu e o desesperado Baharat. A primeira também desce à Construção por sua própria vontade, para tentar provar que é possível uma “solidariedade espontânea”. Se a cada andar os detentos racionarem e comerem apenas o essencial, será possível que a plataforma alimente todos os supostos 400 presos dos 200 andares. Essa solidariedade espontânea tem um fundo lógico: como a estadia em cada andar é inteiramente arbitrária, todos poderão estar numa situação desesperadora mais cedo ou mais tarde. No entanto, quando ela tenta transmitir essa solidariedade para os andares inferiores, falha completamente. Os presos não querem saber de economizar comida para pensar nos andares inferiores, e assim o egoísmo é que se transmite ao invés da solidariedade. Com o negro Baharat, que arquiteta formas de escapar da prisão, e com quem se encontra no sexto andar, um dos mais privilegiados, Goreng consegue propor um pacto mais audaz: entrar na plataforma armados de ferros tirados das camas para impedir que nenhum dos detentos nos 50 primeiros andares se alimente, e permitir que a comida chegue em quantidade suficiente aos andares inferiores. Nesse sentido o melancólico Goreng e o bravo Baharat compõem uma dupla que se assemelha a Quixote e seu escudeiro Sancho Pança, tentando trazer justiça a um ambiente inóspito.
No caminho ao fundo da Construção, ambos encontram um sábio que lhes diz que a melhor coisa a fazer é enviar um prato ainda intacto de uma delicada panacota (tipo de manjar) à Administração, como uma mensagem codificada. A mensagem seria destinada aos cozinheiros e provaria que a solidariedade é possível mesmo no inferno da prisão. Em sua descida ao fundo do poço, Goreng e Baharat descobrem que a Construção tem 333 andares para baixo, e portanto, 666 detentos. E assim descobrem que a comida preparada para 400 presos nunca seria realmente capaz de atender a todos. Lá no fundo do poço, que é uma figuração do “fundo dos infernos”, afinal descobrem uma criança aparentemente saudável, o que desmente o que a Administração havia dito de que não havia crianças no experimento. É para ela a quem entregam a panacota. E lá descobrem que a criança é a verdadeira mensagem que deveria ser transmitida à Administração.
Assim O Poço se constrói como uma enorme espécie de “arapuca ficcional” distópica. É impressionante como a infernal Construção alegórica, tão fechada e claustrofóbica, provoca múltiplas interpretações. De início, a própria bizarra e coincidente situação na qual a série estreou, a de um confinamento mundial imposto pela pandemia que nos deixa aprisionados no interior de um novo totalitarismo digital do “capitalismo de plataforma”. Apesar de sua estrutura hermética, as implicações políticas são imediatas: a estrutura fechada é a de um sistema totalitário que divide a sociedade entre “os de cima” e “os de baixo”, entre as classes privilegiadas e a plebe subalterna abismada na invisibilidade. Assim, o discurso político do filme parece ser o do populismo de esquerda ao estilo do partido espanhol “Podemos”: não mais a divisão clássica entre esquerda versus direita, mas a separação entre os de “baixo” contra os de “cima”.
A meu ver, no entanto, o filme, em seu “inconsciente político”, acaba justamente por desconstruir essa leitura. Em primeiro lugar, a divisão dos andares é totalmente arbitrária e homogênea, e portanto, não “piramidal”. Não significa a luta dos 99% contra 1%. A arbitrariedade em que os ocupantes são jogados em cada andar após o “sono” social é a tradução do caráter arbitrário da divisão de classes, em que cada um é “jogado” numa classe não devido ao seu mérito pessoal (“meritocracia”), mas às suas condições aleatórias de nascimento e pertença, cor de pele, sexo e origem étnica.
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Por outro lado, o foco narrativo se prende a um andar específico, ocupado pelo idealista Goreng, que é de “esquerda” (“comunista”) e o cínico e cruel Trimagasi, que é de “direita”, absolutamente “conformado” à estrutura injusta da torre. É Trimagasi quem dá o mote do filme: na Construção há os de cima, os de baixo e aqueles que se atiram no poço. O debate entre Goreng e Trimagasi é exatamente um discurso clássico entre “esquerda” x “direita”, entre transformação e resignação. Mas o que há entre os dois? Justamente “o poço”, a fenda que atravessa abissalmente a edificação. Essa abertura é momentaneamente “preenchida” pela plataforma que traz a comida, inicialmente preparada com requinte pelos cozinheiros da Administração. O requinte é o excedente de “luxo” (ou de luxúria) que se acrescenta à necessidade da alimentação. O filme sugere que são esses cozinheiros os verdadeiros “proletários” do aparelho fílmico. Os detentos assim não passam do “lumpem-proletariado” esquecido e abandonado, à margem dos trabalhadores da “economia real”.
Ora, não é a abertura do poço, sua fenda, que serve de passagem entre os andares, exatamente aquilo que chamamos de “luta de classes”? Ela se encontra precisamente entre as posições de Goreng e de Trimagasi, criando um intervalo entre seus discursos. A luta de classes assim não é a louca luta de sobrevivência pela comida da plataforma, mas a luta pela “abertura” representada pela fenda retangular que atravessa o “corpo social” e que se comunica com o andar zero dos trabalhadores e da Adminstração. É possível mesmo entender que a verdadeira luta emancipatória não se dá nos andares profundos da edificação, mas em seu andar zero. É por isso que a mensagem salvífica que o filme apresenta é a de uma criança. Há nisso, obviamente, uma ingenuidade (as crianças como a “esperança do mundo”), mas o corpo (aliás “asiático”) infantil é a alegoria da força libidinal da “reprodução social”, a criança é a criação renovada do proletariado, aquele cuja única riqueza é a sua prole.
Mas essa leitura política é também um excedente interpretativo que se acrescenta ao aparelho narrativo de O Poço. Nesse sentido há mesmo uma contradição entre o enclave alegórico hermético e sua abertura hermenêutica. O filme de Gaztelu-Urrutia nos joga noutra armadilha ficcional: a da mimese “realista”, a de insistir em ver o filme como a “representação” do “mundo lá fora”, nesse caso fora da caverna cinematográfica, de sua “câmera escura”. Talvez o signo de travessia do filme não seja a criança que se eleva a um destino incerto, mas ao igualmente misterioso exemplar de Dom Quixote, trazido por Goreng, que se opõe de imediato à faca “samurai” de Trimagasi. Enquanto esta é um fetiche que está ligada à história “real” de sua prisão e causa de sua condição de prisioneiro na Construção, o exemplar de Cervantes espanta por sua aparente inutilidade e arbitrariedade. Mas fica clara a caracterização melancólica de Goreng como uma tradução da “Triste figura” do cavaleiro peregrino de La Mancha. Será a monstruosa edificação um novo “moinho de vento”, em sua ilusão metafórica?
Talvez outra interpretação possível de O Poço seja mais literária, ou “estética”. E se, tal como os ocupantes da edificação, jogados à sua sorte em um infernal e arbitrário jogo de regras, não sejamos nós todos personagens de outros inenarráveis aparelhos ficcionais que nos transcendem? Seguindo regras, roteiros e algoritmos que não foram escritos por nós mesmos, estamos enredados em suas tramas ficcionais, em sua malha de signos. O Poço seria assim a metáfora estritamente estética do “mise en abyme“, a estrutura das bonecas russas que estão uma dentro da outra: as narrativas todas seguem a mesma lógica: são narrativas dentro de narrativas. Esta leitura é outra perspectiva que se aproveita dessa abertura abissal, que tanto se estende para cima como para baixo, tanto se projeta como se “retrojeta”. Talvez o “real” não seja outra coisa que essa abertura, por onde se comunicam as pluralidades de mundos que habitam o planeta.
Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.
Essa cadeira, que fica na sala
Eu escolhi com medo
De não combinar
Com a outra
Que escolhi com medo
De não combinar com essa
A mesa, o sofá, foram negociações medrosas
Em que dividir no cartão me dava medo
De depois não poder pagar
Me inscrevi no curso com medo
De me constranger
Afinal estou velha
Afinal terei que conversar
Melhor nem ir
Da prova de condução desisti
Ele ficava lá só pra me ver errar
Melhor
em casa?
Acompanhada da cadeira, da mesa e do meu sofá
Que do medo conquistei
E com o medo pactuei
Esse medo que vira objeto
Não um elefante no meio da sala
Não um hipopótamo de sainha
Mas uma mulher, gigante
Que agora olha pra mim
***
do lugar que não há horizonte
do lugar que me querem ver morta
decidi não morrer
entro nela, sinto ela
meu corpo e o dela
eles querem nos matar
foi o que eu disse
eles querem nos matar
chorei
sonhei essa noite que ela me dizia que eu estava doida
acordei
com ódio
eles querem nos matar, ela disse
mas
eles não vão?
conseguir
estou dentro dela.
moro aqui agora.
e essa casa, de onde se vê o horizonte extenso, cheio de gente, de árvore, de água,
de coisa e de vida
é
também medo
mas não é
morte
***
a solidão é uma coisinha chata
um dia se acorda bem
e de repente ela está na sala
as mulheres perguntam se não dá medo ficar sozinha em casa
o dia todo sinal de coragem
não pela solidão
mas pelo ladrão
que pode entrar
e elas nem sabem que o pior é a solidão
que é do tamanho da quantidade de ar
que o ventilador faz circular e é densa
como paredes antigas
como a muralha da china
***
Na rua escura
Apresso o passo
Um homem virou
Apresso o passo
Agora vem, dois
Do outro lado da rua
Já não dá pra atravessar
Finjo calma
Depois, apresso o passo
Esses passaram
O que está atrás de mim segue
Ele também anda rápido
Sou obrigada a apressar ainda mais
O passo
Melhor correr agora do que
Se arrepender depois
Apresso o passo
Ele também tem pressa
Mudo a rota
Viro a esquina, respiro
Depois lembro, com um novo homem cruzando a esquina
Que estou na rua escura
Volto a andar
Rápido
Eles vêm de todos os lados
Eu sou uma corredora
A marcha atlética é o estilo feminino noturno
Maria Clara Escobar é roteirista e realizadora de cinema. Dirigiu e escreveu os filmes Os Dias Com Ele e Desterro – selecionado para a Tiger Competition do Festival de Roterdã, 2020. MEDO, MEDO, MEDO é seu livro de estreia.
Fiz doze cirurgias ao longo da vida. Ando com auxílio de uma bengala. Uso bombinha de asma, tomo onze comprimidos por dia e gotinhas de própolis, porque me acostumei com elas, quando tive uma gripe no verão.
Depois das seis da tarde coloco um casaquinho, mesmo que não esteja frio. Tenho sempre um guarda-chuva na bolsa. Sou aquela velhinha que a família inteira acha que vai morrer todo ano. Uma chatice completa. Cansei.
De uns tempos para cá resolvi ousar. Só coloco goiabada, sorvete e biscoito de chocolate no meu carrinho de compras. Fiz uma tatuagem no braço direito. Uma flor pequenina. Meus filhos quase surtaram.
Troquei de manicure e agora pinto minhas unhas com cores divertidas, tons azuis, verdes e alaranjados. Não quero que olhem para minha bengala, quero que olhem para o meu visual. Todo sábado de noite durmo com bobes, para no culto do domingo de manhã meu cabelo amanhecer estiloso.
Faço depilação, limpeza de pele e massoterapia.
Tenho mimado meus netinhos além da conta e constantemente ignoro meus filhos, quando me mandam fazer exames ou voltar a algum dos meus muitos médicos.
Sim, estou cheia de manias e esquisitices novas. Hoje mesmo estou na praia. Fazendo topless. Uma novidade na minha vida. Nunca tinha feito. Tenho oitenta e cinco anos, era hora de testar. Meus peitos estão muito caídos e estou causando um certo mau estar na rapaziada. Mas eu vou ficar por aqui, curtindo esse sol gostoso nos meus peitos por muitas horas. Trouxe até uma bolsa com lanche. Tem goiabada e biscoito de chocolate.
O sorvete compro depois, com o moreno lindo que passa vendendo toda hora.
***
Esquecimentos
Esqueci o que fui fazer no quintal. Tenho esses momentos de esquecimento, todos os dias.
Vou para a cozinha e não faço ideia do que ia fazer com a peneira grande e a colher de pau que tenho nas mãos. Saio para a rua e constato que não sei o meu destino.
Esqueci de tomar banho algumas vezes, no mês passado. Ou talvez não tenha esquecido. Não posso afirmar.
Tem alguma coisa acontecendo comigo. Desconfio que seja deficiência de vitaminas. O problema é não lembrar o quanto já tomei, quando tomei, para que finalidade tomei. Fico tensa desde o momento em que acordo, até a hora em que me deito para dormir. Todos os dias são assombros, espantos.
Ontem fui parar no meio da rua. Uma caminhonete prata buzinou e eu saltitei para a calçada. Tive que abraçar um poste, porque fiquei tonta.
Hoje acordei e o dia está lindo, um céu azul maravilhoso, trinta graus. É meu aniversário de sessenta e cinco anos. Fiz tapioca para o café da manhã.
Um, dois, três… Dezessete pessoas aqui na minha casa.
Toda família está na minha sala e na minha cozinha.
O relógio da parede marca 19:25h.
Trouxeram bolo, risadas e salgadinhos.
Não lembro nada do que aconteceu desde o café da manhã. Olho para a bancada e não há indícios da frigideira e da tapioca. Todos conversam, tem música tocando. Meu ombro esquerdo está dolorido de tanto tapinha de Eeee, parabéns!, estou comendo uma coxinha deliciosa, rodeada de netos lindos.
Devo ter uma doença terminal. Nunca fizeram uma festa assim para mim – com toda a família. Se fizeram, não lembro.
***
Herança
Meu avô é um velho inconveniente que faz todas as perguntas que não devia fazer nos eventos familiares.
Além de fazer perguntas medonhas, ele me encara e comenta que eu engordei, afirma que minha amiga é sapatão, que eu nunca vou arrumar emprego com o curso que faço na universidade, mas tudo bem, porque sou um fracassado igual ao meu pai e fala isso dando aquela risadinha sarcástica de quem está determinado a se meter.
Meu avô consegue azedar qualquer reunião familiar. Ele começa discussão, ofende. Zomba, magoa. A todos.
Ele tem olhinhos azuis, cabelo todo branquinho, é gorducho e caminha pulando. Quem olha de longe vê um velho fofo. Quem convive de perto está louco pra ir ao seu funeral.
Ele maltrata a vovó. Chama de lesada, define as roupas que ela deve usar e onde pode ir. Se e quando pode ir. E com quem. Joga o prato no chão se a comida não está do jeito que ele quer. Ela não reage.
Ele espancava os filhos quando pequenos – meu pai e meus tios. E agora que os filhos estão adultos, sempre se dirige a eles com sarcasmos ou palavrões.
Ele nunca nos abraçou. Me chama de Breno e meu nome é Bruno. A Carla ele apelidou de Saco de Banha!, ela é a minha prima complicada com o controle do peso. Já tentou se matar, é depressiva. Minha tia fica arrasada. Meus primos gêmeos ele chama de “os dois” e outro primo, o Gil, de “o menino”. A minha prima Cássia, eita!, essa ele ignora. Tem tatuagens e piercings, para ele não existe. Ela diz – Olá, avô! Ele vira a cara.
Estamos na delegacia. Meus pais, tios, tias, primos, primas e vovó. Depois desse ridículo e desprezível almoço de natal. Vovó é a única que chora e repete Tadinho, tadinho.
Meu avô nunca mais escarnecerá de ninguém. Foi esfaqueado, enquanto dormia, após o almoço, com a faca nova de cortar o peru. Durante o almoço ele ofendeu, zombou e xingou a todos.
Impressionante sua capacidade de humilhar, menosprezar e detonar. Meu avô era brilhante na maldade.
Somos muitos e somos todos suspeitos, mas o delegado já ganhou uma graninha e semana que vem todos ficarão sabendo da tentativa frustrada de assalto. E co mentarão, impressionados, da valentia do meu avô, que sozinho no quarto, reagiu. O resultado final foi que, infelizmente, ele não resistiu aos ferimentos na luta feroz, corpo a corpo com o marginal.
A vida seguirá. E a maldade da minha família, que era só do velho, agora está em todos nós.
***
Visitas
Quando ele chegou – depois de cinco anos sem dar notícias – ficou puxando as flores do arranjo cafona da mesinha de centro da sala e fazendo comentários imbecis do último jogo do Flamengo. Eu sabia que era enrolação.
Tenho setenta e oito anos, mas a força de um garoto. Meu soco é brutal. Faço longas caminhadas e cavalgo todos os dias, com muita facilidade.
Quando eu ouvi o
Tio,esse sítio é um fim de mundo. A oferta é ótima, eu tô sem grana. Quero adiantar o que vai acontecer mesmo, quando o senhor morrer!,
Não aguentei.
Retirei e recoloquei no lugar todos os quadros, os cinzeiros, a folhinha da farmácia, as duas almofadas que estão puídas e perdendo o enchimento. Passei o pano úmido em tudo, várias vezes.
Toda a madeira da sala está precisando ser envernizada. Amanhã vou à cidade comprar verniz fosco e aromatizador. Hoje não dá tempo. Preciso enterrar, bem escondido, o corpo desse sobrinho insolente.
Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia “14 novos autores brasileiros!, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de “Interrompidos” (Editora Reformatório, 2017) e “Velhos” (Editora Reformatório, 2020).
Do corpo surrado ao corpo encantado: um drible no precário
Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira
Talvez se vivencie no Brasil um dos períodos mais difíceis e contraditórios da história do país. Difícil por conta dos ataques sistemáticos à cultura, à educação, às religiões de matrizes africanas, sem falar na precarização da vida, acentuada pela expropriação do trabalhador, esta materializada na ideia de que se virar para ganhar a vida é empreendedorismo; contraditória porque os ataques vêm de governos instituídos democraticamente. Tudo isso toma proporções maiores na cidade do Rio de Janeiro quando o chefe do executivo estadual diz que vai passar de helicóptero por cima de uma favela atirando em quem portar fuzil, desconsiderando que uma boa parcela da massa de trabalhadores lá reside; ou as absurdas afirmações do chefe do executivo municipal quando diz que investirá em creches ao invés de investir no carnaval, como se uma coisa anulasse a outra.
Os problemas de ordem estrutural da cidade do Rio de Janeiro, como a falta de vagas em creche na rede municipal, na qualidade da água fornecida pela CEDAE, na mobilidade urbana, na qual os moradores da Zona Oeste da Cidade são os mais prejudicados, tendo que levar três horas para chegar ao centro da cidade, ou ir espremido no BRT (ou nem mesmo conseguir entrar) para trabalhar na Barra da Tijuca, passando pelos ataques a terreiros cada vez mais frequentes e pela “milicianização” da vida, desenha as linhas de uma Cidade doente e mítica. Diante deste cenário caótico, como pensar a Cidade sem romantizar o precário? O corpo encantado das ruas, de Luiz Antônio Simas, faz isso ao narrar a história de gente miúda que faz “da chibata de surrar o lombo a baqueta de bater no coro”.
Com o título inspirado no livro do João do Rio, A alma encantadora das ruas, que discute as contradições da Cidade com olhar sobre os tipos humanos e sobre a desigualdade social no início do século XX, o autor de O corpo encantado da rua flaina pelas ruas do Rio de Janeiro observando aquilo que contrasta com o modelo de Cidade que se quer europeia. Enquanto João do Rio fala sobre pequenas profissões, músicos ambulantes, mulheres mendigas e pessoas encarceradas, Simas narra história de “capoeiristas, malandros, sambistas, chorões, vendedoras de comida de rua, mãe de santo, coveiros, empregadas domésticas, caçadores de rato” e, não se limitando apenas a isso, conta como essa gente miúda inventa a vida na fresta “dando um nó no rabo da cascavel” e como ela produz cultura “onde só deveria existir o esforço braçal e a morte silenciosa”.
Com um baralhamento de linguagem, ora historiográfica, ora literária (ou encantada?), o autor de Pedrinhas Miudinhas fala de fé, de encruzilhadas e intuições que perfazem caminhos que nos transportam de uma situação aparentemente precária e de desencanto para caminhos de riquezas de saberes e modos de vida geralmente entendidos por alguns como desimportantes. Através de seus 42 ensaios, todos começando por “As ruas” e terminando com “rua”, o craque Simas vai inserindo na gira todo tipo de gente massacrada pelo projeto colonial, pensando a Cidade a partir do mito de origem da Umbanda, que consiste em um culto no qual pretos e índios poderão dar sua mensagem, criando, assim, uma “história a contrapelo”, na qual gente miúda vai contrapor o projeto de identidade nacional de cunho eurocêntrico.
Grosso modo, Simas discute de que forma se dá o movimento do Corpo nos espaços, que são as ruas. Corpo aqui entendido como os elementos menores da sociedade carioca, que não fazem parte da cultura oficial. As ruas são entidades representativas, são lugares nos quais acontecem manifestações diversas. O autor, no ensaio que fala da “Arenização da cidade”, cita a morte simbólica do Maracanã, que teve extintas a geral e a arquibancada, acabando com “espaços coletivos de movimentação imponderáveis, soluções criativas do ato de torcer, lugares de abraços suados e eventuais porradas”. Porém, cita também uma disputa que mostra que o debate continua vivo ao observar faixas reivindicando justiça: “As faixas para Marielle mostram que o jogo não acabou. Tem gente disposta a continuar disputando as arquibancadas, e consequentemente, a cidade”.
A cidade em disputa, tensionada, que “ama e odeia carnaval”, está o tempo todo nos dando amostra desse embate. Assim como o Maracanã, o Sambódromo, local no qual acontecem os desfiles do grupo de acesso e do grupo especial das escolas de samba, sofre com a “arenização”, tendo sido invadido pela “cultura do evento”, onde se formam camarotes com preços altíssimos que abrigam gente que não está nem aí para o “evento da cultura”. Mas as escolas de samba sabem driblar o oportunismo e preservar suas bases comunitárias. Assim como fazia em épocas de letras de sambas-enredo que falavam da história oficial, mas a batida da bateria era para Oxossi, no carnaval de 2020, o desfile das campeãs teve enredos sobre as Lavadeiras da Bahia, sobre Joãozinho da Goméia, sobre Exus e o Povo da Rua, sobre Elza Soares, sobre Benjamin de Oliveira e sobre um Jesus pobre e negro, todos eles dialogando com a cultura de matriz africana no meio de um lugar “arenizado”, porém “terreirizado”.
Nessa esteira do carnaval de 2020, no exato momento em que a Escola de Samba da Mocidade Independente de Padre Miguel, situada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, passava na avenida, caía uma chuva torrencial no bairro de Padre Miguel, e em grande parte da Zona Oeste, que fez estragos no bairro. Qual a relação entre os dois fatos? Simas diria a máxima de Beto sem Braço: “o que espanta miséria é festa”. Isso é cultura de síncope. O povo precisa gingar para escapar do precário; precisa ter a inventividade do surdo de terceira para sair da previsibilidade. No último carro da escola, passa Elza Soares, homenageada com o enredo “Elza Deusa Soares”, com os punhos erguidos e com os dizeres na parte traseira do carro alegórico: “Nós não vamos sucumbir”. Ao ver a escola passar e o bairro alagar, um delírio duplo tomou conta de quem vos escreve: o do encantamento da Elza Deusa Soares na avenida e do desencanto de quem precisou atravessar a outra avenida (a Brasil) para chegar até a Zona Oeste. Num Rio cheio de contradições, a Escola de Padre Miguel deu o recado: não vamos sucumbir, ainda que tenhamos um ano cheio de quartas-feiras de cinzas, e com ela a dureza da travessia de caminhos submersos pelo descaso.
Embora apenas um ensaio cite um lugar inserido na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a Vila Kennedy, as formas de reivindicar saberes e visão de mundo são genéricas. A Zona Oeste do Rio de Janeiro se configura como um subúrbio com características diferentes como em outros. Nela, conjugam-se favela, milícia, rural com o pior do urbano, que são os engarrafamentos. Com uma linha de metrô no final da Barra da Tijuca e uma estação ferroviária em Santa Cruz, estes dois ramais polarizados são “ligados” por um BRT que contraditoriamente significa Transporte Rápido por Ônibus, do inglês Bus Rapid Transit. Os usuários do transporte público sentem diariamente a precariedade para trabalhar e, registre-se, para se divertir também, visto que aos finais de semana o número de veículos é drasticamente reduzido. Com isso, cria-se um lugar exclusivo para dormitório, no qual brincar é proibido.
Num lugar em que surgiu a “liga da justiça”, que teve apreendidos 117 fuzis em um condomínio de bacanas e com um número cada vez mais expressivo de evangélicos fundamentalistas, surge na “fenda da pedra” o Instituto Onikoja, localizado em Sepetiba, cujo objetivo é preservar e difundir a cultura de Matriz Africana, solidificando os saberes da herança africana. No local, são ministradas aulas de capoeira, oficina de percussão e uma oficina de bonecas africanas Ahosis, “terreirizando” Sepetiba e mostrando que lá tem um exército de guerreiras dispostas a combater a intolerância religiosa. Surgem também rodas de samba nos bairros dominados pela milícia, como em Cosmos, com o samba da Casa Velha Verde, Samba da Aurora, Samba Fulô e Samba da Ingrid, estes em Campo Grande. Com isso, há um resgate da ancestralidade da região, pois “nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidade comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão”.
Samba, futebol, macumba, festas, brincadeiras e Cidade são temas tratados pelo neto da Dona Deda, uma mãe de santo versada no xambá, jurema e encantaria. O babalaô não se acovarda diante de uma Cidade à beira do precipício. Suas reflexões encantadas sobre ela traz à tona não a resistência para dias difíceis, mas a reinvenção da vida precarizada, através de saberes, práticas e visão de mundo daqueles relegados ao nada, fruto da lógica de uma Cidade, que, como diz o autor, foi fundada para expulsar franceses, mas que um dia resolveu ser francesa para esconder suas africanidades.
Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura. Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.
A mulher em casa está em uma floresta. Entre seus dedos, invisível, existe uma lança e há terra constante em seus pés. A mulher em casa está vulnerável. A mulher em casa está em estado de sítio, onde todas as quinas lhe ameaçam e ela constrói barricadas. A mulher em casa está em uma zona de guerra e os intocáveis não serão poupados. A mulher em casa tem pensamentos perigosos. A mulher em casa atravessa um deserto onde recolhe vestígios ilegíveis de uma antiga civilização que ela mesmo fundou. A mulher em casa está em uma fronteira e é, a um só tempo, agente de controle e refugiada. A mulher em casa está no fundo do mar e inventou modos próprios de praticar apneia. A mulher em casa tem guelras e está sozinha. A mulher em casa não está esperando ninguém. A mulher em casa deseja estar em outro lugar. A mulher em casa está subindo pelas paredes e começa uma volta ao mundo sem planejar o seu retorno. A mulher em casa está se olhando generosamente pela primeira vez. A mulher em casa é monstruosa. A mulher em casa é uma horda de crianças e bichos que ameaçam as estruturas da casa. A mulher em casa é a última força a evitar a separação entre duas placas tectônicas. A mulher em casa sustenta a casa e não recebe nada a mais por isso. A mulher em casa faz amor com as sombras e gesta os seus filhos na escuridão. A mulher em casa é um eixo em torno do qual o mundo rotaciona na direção oposta ao que lá fora chamam de avanço. A mulher em casa troca a resistência do chuveiro e faz a comida. A mulher em casa quer colocar fogo na casa. A mulher em casa sente culpa. A mulher em casa é um vulcão adormecido. A mulher em casa está menstruada. A mulher em casa tem amantes como quem tem uma horta. A mulher em casa finalmente tem um teto todo seu. A mulher em casa toma conta de uma horta como quem cuida de amores. A mulher em casa quer escrever, mas acha que precisa lavar os azulejos primeiros. A mulher em casa está na rua. A mulher em casa não é facilmente encontrável. A mulher em casa coloca para fora a sua animalidade latente. A mulher em casa saiu.
***
Tales achou que era tudo água. Anaximandro inventou um nome próprio para a matéria infinita das coisas. Anaxímenes sabia que o fundamento da vida é o ar, a poeira e o espaço. Heráclito dizia que o princípio de todas as coisas está contido no fogo que a tudo destrói e refaz. Eu acho que essa cola imanente, que relaciona todas as coisas, é menos uma matéria e mais um conjunto de influências mutuamente realizadas. Seria preciso olhar o espaço entre as coisas como se olha uma ruína, um manuscrito antigo, o corpo de um animal raro. Apostar que entre nós e qualquer coisa pode haver uma relação como a que há entre a terra e o céu. Mapear analogias como mapeamos a influência dos planetas sobre os nossos modos de ser. E se percebêssemos por fim que tudo é signo? Por exemplo: verificar como a longevidade dos meses é análoga às bases das falanges dos dedos. Cume janeiro, declive fevereiro, assim por diante até a repetição dos ápices entre julho e agosto, que obriga a dar uma volta, passar por fora e recomeçar. Foi nesse intervalo que eu nasci. Talvez a minha existência seja regida por esse salto, por esse deslocamento pelo lado de fora. Para levar isso às últimas consequências seria preciso esquecer um pouco o que é uma mão e esquecer um pouco o que é uma vida. Para discernir como tudo incide sobre tudo talvez fosse preciso desaprender o que é matéria e desaprender o que é mundo. Nesse afrouxamento de convicções uma nova ciência poderia se estabelecer. Esquecer um pouco o que se é para conhecer a si em tudo que há, a mim isso soa como um plano.
***
Será que quando Francis Alÿs chegou bem perto do furacão os seus alvéolos começaram a rotacionar em torno de algum centro propulsor insurgido ali, na radicalidade dessa aproximação? Fico pensando se é possível chegar tão perto de um tornado sem se tornar algo como um tornado. Certamente sou um pouco você desde que cheguei mais perto. Eu me pergunto se naquela vez em que estive em um desastre eu extraí dele alguma qualidade desastrosa. Se na passagem por terras distantes eu esgarcei as possibilidades de me distanciar de mim. Se ao caminhar nas beiradas do abismo de Moher eu me tornei um pouco mais abismal. Se quando tive entre as mãos o corpo de um pássaro machucado eu também eu me abandonei em alguma força maior. Roger Callois investigou o fenômeno da metamorfose e chegou a uma misteriosa conclusão: que o mimetismo não seria uma prática de sobrevivência, como se pensa, mas uma espécie de loucura que desestabiliza as distinções entre meio e ser. O destino mimético seria menos um esconderijo e mais uma tentação. Vamos na direção das coisas que não somos porque não resistimos a elas e nos transformamos nelas porque não resistimos à transformação. Quando olho Francis Alÿs perseguindo tornados, quando penso nos caminhos até o abismo de Moher, quando me penso diante de você entendo que não resistir, às vezes, é um longo trabalho. Não resistir pode ser uma laboriosa forma de salvação.
Priscilla Menezes é artista, poeta e professora. Em 2017, lançou o livro “Erro tácito” pela Editora Patuá. Participou da coletânea “Tertúlia” lançada em 2018 pela editora Ágrafa. Em 2019, lançou o livro “Eu vou invadir os latifúndios que cercaram a minha carne”, pela editora Nadifúndio, e integrou a publicação coletiva São nossas as notícias que daremos produzida pelo Movimento Respeita!. Seu trabalho pode ser acompanhado através de seu instagram @lotahille.