como o reflexo que passa
rápido no negro da pantera
assim teu desenho suporta
meu corpo – tão suporte
quanto uma abortada fuga
paro um instante como
param as pequenas tartarugas
levadas pelas águas, das que
preferem não voar, das que
querem tua mão, reflexo que
passa devagar no tigre branco
– luz confundida com a pele
assim desejo teus dedos do
lado de dentro: como quando
se sente levemente o mar bater
na altura da boca, sem a agonia
dos lagartos dançando para pular
do bico das aves que tiveram medo
de atacar algo maior, porque o voo
é leve, o cigarro acaba, a dose se perde
no corpo. quero que dose as mãos
com a tinta da dor inventada e comece
a riscar meus pés, primeiro passo
no mar. depois suba como sobe o sal
ao sol, ardente, bronzeando o pelo
da pantera na cor do tigre branco
mas quando chegar à boca não afogue
empurre o corpo na onda que dá espaço
para outra anatomia, por não poder
jamais tocar apenas uma única pele
***
Maria na Procissão da Penha
oca em
sua oca
foi oferenda
devolvida
ardida
pelo sal
da praia
da penha
***
cirurgia
admiro as utopias que o cineasta
berri fez falar galeano
por dizer, sem ensaios, que
os sonhos impossíveis servem
para nos fazer caminhar
admiro a sensatez de borges
que narrou um encontro consigo
pois narrar é muito íntimo
admiro quem não precisa
de religião para negar o vinho
admiro as ginastas que parecem
ser o vinho quando dançam
em suas taças, de tão sangrentas
e leves, como a dor que se
esvai ao adormecermos cansados
admiro quem desaba porque deve
ser boa a sensação de reconstruir
às vezes admiro o silêncio dos
bichos presos só porque podem
fazer isso, aquietar-se
em mim a sensibilidade opera
está como a metafísica do vestido
que rasga sem querer e desnuda a pele
bisturí é o tempo. às vezes o corte sangra
***
energia
teu ódio não resta
no resto de capim
raiz inalcançada pelo
cavalo de madeira
não regressa
o dente
de leão solto
pelo tempo
não despedaça o
barco de papel
que navega
nas profundezas
não cerra
a pálpebra
daquele que
nunca dorme
não ergue
o feto
forçado
à forca
teu ódio é grego:
sangra
e em vão cava
a cova dos 300
é flecha que foca
o calcanhar
mas volta
às mãos de páris
constrói o oco
que em ti faz eco
e refazendo-me
se desfaz
no olhar da velha
com alzheimer
que carregou pedras
pras três pirâmides
mas num suspiro
de lembrança
sentou na areia
africana
e por algum
motivo
esqueceu
***
infância apodrecida
cresci ouvindo gatos
no telhado da casa
e fazendo as goteiras
inquietarem sonos
cresci ouvindo ratos
no telhado da casa
e sentindo goteiras
adormecerem sonhos
***
paixão
a asa se viu
pousada no costume
de ser mirada pelo caçador:
quando a ameaça
se aproximava
penava, mas não voava mais
***
fóssil
teu crânio em minhas mãos
e a imagem do canto mais
escuro de olhos
que tocam brancos
como se a liberdade
deixasse de ser sensação
e passasse a ter ossos
que ficam quando
a alma já não cabe
na estrutura da carcaça
Jennifer Trajano é natural de João Pessoa-PB, professora de Língua Portuguesa e revisora textual. É autora do livro de poemas “Latíbulos” (Editora Escaleras, 2019). A leitura do texto literário para ela é uma espécie de borboleta amarela (referência: Cem anos de Solidão) que pousa no imaginário para anunciar um novo mundo capaz de fazer chorar, sorrir, revolucionar etc..
A Literatura é esse território repleto de vivências, cenários e impressões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, é atividade que ultrapassa o real e, algumas vezes, não se rende a necessárias relações com ele. O mister de um autor é também algo que não se digna a maiores explicações, a tentativas exaustivas de classificação. Se definir é limitar, cobrar de um escritor as exatas diretrizes de seu engenho com as palavras não parece ser nem um pouco um gesto razoável.
No panorama das narrativas ficcionais, há quem seja profundamente estimulado a criar tendo como norte a necessidade de contar uma história. Mas não é apenas isso. É construir um texto cuja consistência narrativa confira qualidade ao que se está dizendo, sobretudo através da consciência de que aspectos técnicos também são imprescindíveis para quem pretende dizer algo através dos conteúdos elaborados. E quando encontramos alguém movido pelo intuito de trazer ao mundo uma boa história, supomos de pronto que os primeiros indícios de um trabalho digno de ser apreciado estão se delineando. É o caso de Paulo Bono, escritor cuja obra merece especial atenção em razão dos empenhos exitosos com a construção narrativa.
Baiano de Salvador, Bono é um escritor cujos textos prendem a atenção do leitor pela sua fluidez, ritmo e potencial imagético. Some-se a tais atributos a peculiar capacidade que o autor tem de elaborar diálogos que acabam funcionando como verdadeiros atrativos. Diga-se de passagem, muitos desses diálogos têm por virtude maior dar sustentação às expressões dos personagens. E aqui é preciso mencionar que os tipos humanos engendrados por ele encontram correspondência com personalidades que transitam aos montes no nosso cotidiano. O xis da questão é que o autor os molda com habilidade dentro de um universo de cenários e possibilidades comuns a tantas existências diluídas no conjunto dos dias.
Autor do livro de contos e crônicas “Espalitando” (Ed. Cousa, 2013), dentre participações em antologias e coletâneas, Paulo Bono foi também roteirista do curta-metragem “O Garoto”, lançado em 2014. Mas o seu momento atual está voltado para os desdobramentos tidos a partir de seu primeiro romance, “Sexy Ugly”, lançado em 2019 pela Editora Mondrongo. O livro mostra Bono cada vez mais à vontade em sua lida com as palavras, tecendo uma narrativa que subverte expectativas e que tem como um de seus motes o protagonismo de pessoas costumeiramente não aceitas nos padrões de beleza socialmente impostos. E para falar da experiência com seu novo rebento e de outros temas relacionados às vias literárias e mundanas, Paulo Bono recebeu a Diversos Afins para uma conversa marcada por opiniões diretas e certeiras, prova inconteste de que a objetividade é uma das valiosas ferramentas de expressão do pensamento.
Foto: Vinicius Xavier
DA – Seu mais recente livro, “Sexy Ugly”, tem um olhar aguçado sobre cenas contemporâneas, pois há nele também uma crítica sutil sobre o sujeito mergulhado em dilemas pessoais que envolvem a luta pela sobrevivência, os desejos sexuais e os afetos. Como foi arquitetar a construção narrativa nesse território cheio de tensões tão nossas?
PAULO BONO – Foi uma arquitetura de idas e vindas. Aquela coisa de levantar e derrubar pilastras o tempo todo. Na primeira versão do livro o protagonismo era da Propaganda. A história era sobre os bastidores das agências. Com muito mais casos e entrelinhas desse ambiente. Mas achei que estava se tornando um livro de gueto. Joguei tudo fora e recomecei com uma história tipicamente noir. Com mais peso nos crimes, no sexo e no mistério. Mas veio uma necessidade de conhecer melhor o detetive. Foi então que Deco Ramone virou o mestre de obras dessa construção. Descobri que a história era sobre ele. Os bandidos, a femme fatale, os amigos bizarros, a filha, as agências e o puteiro eram na verdade um espelho de Deco. Assim os crimes perderam peso, o noir virou linguagem e a propaganda passou para pano de fundo. O livro seria sobre um publicitário falido que precisava descobrir como vender um puteiro para pessoas feias enquanto lidava com bandidos, com o futuro incerto e com o distanciamento de sua filha. Uma história sobre sobrevivência, expectativas frustradas, autodecepção, sobre a beleza da feiura e a feiura da beleza. Acredito que desta forma a investigação de Deco se tornou mais universal e ele descobriu que somos todos sexy ugly. Ah, e preferi pintar as paredes com humor. De drama já basta a vida.
DA – O personagem Deco Ramone é, assim como você, alguém envolvido com publicidade. Em “Espalitando”, seu livro anterior, as narrativas remontam ao bairro da Lapinha, lugar de Salvador que marcou a sua trajetória pessoal. Não há como não observar, na sua obra, essa recorrência a referências que falam de você em alguma instância. De que modo você reflete sobre isso?
PAULO BONO – É como disse o Hemingway, você tem que escrever sobre o que conhece. O roteirista Charlie Kaufman também comentou uma vez que só podia escrever sobre ele mesmo, pois era o único assunto que escreveria sem errar. E olha que as histórias do Kaufman são bem loucas e inventivas. Acho que é por aí. O “Espalitando” era uma parada mais pessoal até porque veio de um blog que funcionava quase como um diário. Já o “Sexy Ugly” não é sobre mim, estou longe de ser o Deco Ramone. Mas acrescentei muita coisa do que vivi em 20 anos de propaganda. Fante, Bukowski, Céline e muitos outros também iam por esse caminho. Alguns dizem que é um recurso menor, uma limitação. Foda-se. Não acho que há certo ou errado. O importante é o texto. Se ficar bom e verdadeiro, será universal, alguém vai se identificar e não será mais uma história sobre Bono. Recorrer às nossas referências é como dar um pulo num porto seguro só pra pegar uma arma secreta. Se um dia eu escrever sobre uma guerra intergaláctica, acredite, a Lapinha também estará presente.
DA – De fato, ainda há muita controvérsia, inclusive, sobre o próprio conceito de autoficção, algo até subestimado por alguns. Não lhe parece mais genuíno saber aliar o texto ao que vivemos, pois tudo sempre esteve no mundo e apenas transformamos as coisas ao nosso modo?
PAULO BONO – Por aí. Mas nem acho que exista um modo mais ou menos genuíno. Cada um faz o que acredita. Genuíno tem que ser o texto. Pra isso é legal saber o que está escrevendo. Claro que é mais difícil o cara fazer um conto sobre futebol de rua se ele nunca fudeu o joelho num baba no asfalto. As palavras acabam soando artificiais. Isso afeta a qualidade do texto. Mas um autor pode descrever bem uma mãe dando à luz sozinha num quarto escuro, se conheceu de perto e aprendeu alguma coisa sobre medos, dores e angústias das mulheres. Não sei se é questão de aliar o texto ao que vivemos. Mas talvez de usar o que vivemos como recurso. Sobre os que subestimam a autoficção, prefiro subestimar as histórias mal contadas.
Foto: Vinicius Xavier
DA –“Sexy Ugly” tem uma narrativa de forte apelo imagético, além de apresentar diálogos muito bem construídos e que prendem a atenção do leitor. São dois elementos constituintes, por exemplo, do cinema. Como é que você percebe essa aproximação?
PAULO BONO – O lance é que até os 20 anos li muito pouco. Minhas primeiras referências vieram do cinema. E antes de pegar em literatura eu já era roteirista de audiovisual. Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que qualquer coisa que eu escreva vai levar certa dose imagética. Apesar de serem linguagens bem diferentes, a depender do gênero, acredito que alguns recursos transitam bem entre a tela e a página. É o caso do universo noir do “Sexy Ugly”. O noir que levou o Dashiell Hammett pro cinema e equilibrou o Raymond Chandler entre livros e roteiros. Eu queria aquela estética na descrição das cenas, queria aquele ritmo tão específico e queria os diálogos rápidos e cínicos. Os diálogos do Sexy foram minha zona de segurança e meu parque de diversões. Ainda quero um dia ser dialoguista de filmes.
DA – “Sexy Ugly” tem, de fato, uma agilidade narrativa, um modo muito peculiar de contar a história, que muito se aproxima com a instantaneidade da própria vida contemporânea. Nestes tempos de excesso de informações, mídias sociais e tudo o mais, comunicar algo através da literatura é um desafio?
PAULO BONO – Em tempos de radicalismos, dificuldades de interpretação, quando tudo é tudo, e opinião é verdade, eu diria que é um puta desafio. Hoje, por exemplo, é difícil escrever um personagem escroto, machista, mesquinho e com pensamentos assassinos sem aparecer alguém pra achar que aquilo é seu ponto de vista. E se colocam isso nas redes, fudeu, vira a verdade. Tem autor que hoje escreve segurando dicionário, bíblia e constituição. O tempo todo julgando previamente seus personagens para não ser ele o condenado. Acho que o perigo está aí. Quando o autor, para ser aceito e por medo de ser mal interpretado, acaba matando a própria arte. Não deixa de ser também um suicídio. Não sei, é difícil. Ritmo, linguagem, estrutura, construção de personagens. As ferramentas estão aí pra vencer esse desafio. Não vai sair legal algumas vezes. Se a comunicação falha até num “bom dia” de elevador, imagina na literatura. Só não pode desistir.
DA – Longe de recursos panfletários, como é que os escritores podem se posicionar diante desse estado de coisas em que vivemos?
PAULO BONO – É complicado dizer como cada um deve se posicionar. Já temos muitos heróis, juízes e vigilantes por aí. Escritor patrulhando escritor é foda. Acho assim, acredita numa bandeira? Vai lá, parceiro. Acha que tal caminho é o melhor pra sua escrita? Jogue duro. Quer escrever tal coisa pra ficar bem na fita? Vale também. Mas faça bem feito, conte uma boa história. Só não venha explanar uma cartilha de posturas. Não venha me dizer que eu deveria colocar uma gravata borboleta no meu texto. Isso complica ainda mais esse estado em que vivemos. Acho que é isso. Fazer o que acredita e deixar o outro em paz.
DA – O bom mocismo é um desserviço à Literatura?
PAULO BONO – Para mim desserviço são as regrinhas implícitas, os manuais de bom comportamento da escrita, como se a boa literatura fosse produzida de itens de editais. Não é questão de bom mocismo. Existem milhares de livros sensacionais com histórias transformadoras, personagens grandiosos, mensagens bonitas e temas ligados a causas importantes. Problema é elevar esse bom mocismo ao patamar de pedra fundamental deixando a literatura em segundo plano. Não curto muito esse papo de livro necessário. Necessário é contar bem uma boa história.
Foto: Vinicius Xavier
DA – Como é que você avalia o papel das editoras independentes na cena literária brasileira atual?
PAULO BONO – Se fosse no futebol, acho que a editora independente seria como um jogador da lateral. Precisa defender lá atrás sua sobrevivência todos os dias e ainda ter fôlego e agilidade pra chegar na linha de fundo e cruzar bem a bola para os autores tentarem marcar um golzinho. Tudo isso jogando contra uma seleção de impostos, altos custos, comissões extorsivas das livrarias, falta de incentivos e um estádio lotado torcendo contra. Porque estamos falando de um país que não lê. Quando você trabalha com uma editora pequena, claro que terá dificuldades em distribuição, por exemplo. Mas autor e editor independente jogam no mesmo time. Se jogarem limpo com diálogo e honestidade, já é uma boa parceria.
DA – Somos um país de leitores subestimados?
PAULO BONO – Acho que o último dado que saiu foi que brasileiro lê menos que dois livros por ano. Eu conheço muita gente que afirma com certo orgulho que não gosta de ler. Filmes com legenda? Esquece. Por aqui só se lê manchetes, memes e textos de WhatsApp quando convém. E duvide da interpretação correta dos mesmos. Se somos um país de leitores subestimados? Acho que nem leitores somos. Adoraria que alguém argumentasse o contrário e mostrasse que sou apenas um pessimista falando bobagem.
DA – Agora estamos vivendo um período nefasto de pandemia mundial, fato talvez imaginável apenas nos livros de ficção. De que modo você observa esse momento que estamos testemunhando? Estamos em xeque sob vários aspectos?
PAULO BONO – Claro que estamos em xeque. Estou no maior cagaço. Tenho conversado com muitos amigos e todos eles também estão com muito medo. Medo do vírus, medo da morte de pessoas queridas, medo do futuro. Ninguém sabe ao certo o que está por vir. Só não acredito que sairemos dessa pessoas melhores. Existe aí uma pandemia paralela de gente egoísta, mesquinha, exploradora, hipócrita, ignorante, oportunista e cheia de ódio que piora tudo. Com ou sem diminuição de curva, essas pessoas não vão mudar. Pra não achar que sou apenas pessimismo, acho que salvar o dia de hoje já ajuda. Leiam um livro, assistam a séries, escrevam, brinquem com seus filhos, façam suas lives, faça um bolo, ligue prum amigo, ouçam música, durmam até mais tarde. É normal despirocar de vez em quando. Mas não adianta muito pensar no futuro agora. É salvar o dia de hoje.
DA – Esse presente perturbador tem te desafiado a desenvolver algo específico em relação à literatura?
PAULO BONO – Não costumo escrever sobre algo recente. As coisas ficam muito embaralhadas, uma mistura de impressões. Não consigo focar em nada. Até porque sempre tento trabalhar com o humor, mas agora não está rolando. Tenho escrito algumas coisas nas redes, mas são apenas arrotos do cotidiano dessa loucura. Talvez no futuro apareça alguma história sobre um gordo apaixonado por uma prostituta em meio a uma pandemia mortal. Mas os planos para o futuro estão temporariamente fechados.
DA – Afinal, por que escrever?
PAULO BONO – Acho que não tenho um motivo nobre. Não escrevo para transformar as pessoas, contribuir pra uma sociedade melhor, defender causas ou despertar reflexões. Só sei que na primeira vez que consegui escrever um conto, acho que isso tem uns 18 anos, eu me senti muito bem. Estava na pior, sem grana e sem muitas perspectivas. Mas pensar na história, no que dizer e labutar aquilo no computador fazia eu me sentir vivo. Até hoje é assim. Pode estar tudo certo, pagando as contas, todos com saúde, mas se eu não estiver com um projeto ou texto engatilhado ou dialogando com um personagem, fico mal humorado, criando problema em casa e me sentindo a pior das criaturas. Então é isso. Escrevo pra salvar minha cabeça e não ser um pé no saco.
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.
A Arte não é apenas esse complexo de possibilidades, concretudes e experiências que se prestam ao território de uma já tão costumeira e reduzida noção de entretenimento. E talvez esse discurso visa reduzir o real impacto que o ofício artístico pode representar para quem se digna a produzir seus conteúdos. Ao lado disso, há a necessidade de percebermos que o artista é, para além de seus gestos humanamente transformadores e contemplativos, um alguém que vive do seu labor, um trabalhador que também oferta seus produtos e precisa se manter profissionalmente dentro de uma determinada lógica de sobrevivência.
Essa discussão toda acaba trazendo à tona o próprio valor que atribuímos aos bens culturais. E fica a questão: por qual razão ainda tomamos a Cultura como algo secundário numa sociedade que demanda sempre pautas urgentes? Indo mais além, por que a seara cultural não seria um gênero de primeira necessidade em nossas prateleiras pessoais? Talvez nos falte informação ou, melhor dizendo, educação suficiente para que consolidemos a Cultura num amplo nível de aceitação social.
Ilustração: Ana Luiza Tavares
Mas por que levantar todas essas questões num texto que se dedica a destinar olhares sobre uma artista em especial? A melhor resposta talvez seja considerar que, assim como poderia ocorrer com qualquer outro ramo de atividade profissional, as escolhas e o poder do chamamento pessoal influenciam e mudam rumos. Foi o que aconteceu com Ana Luiza Tavares, que, ao longo de anos consideráveis, viu-se dividida entre as feições de dentista e artista plástica. Ela confessa que, numa certa altura de sua vida, chegou a se afastar da arte por dilemas atinentes à subsistência financeira, chegando a colocar em xeque a própria vocação artística.
Para nossa satisfação e descoberta, o tempo, este senhor que também atenua fardos, foi capaz de apresentar a Ana Luiza caminhos de permanência pelas vias artísticas. Hoje, sua arte coexiste com a ainda trajetória de odontóloga, mas de modo mais firme, decisão que certamente redimensionou sua vida a patamares nítidos de realização pessoal.
Ilustração: Ana Luiza Tavares
A seu modo, os desenhos de Ana Luiza Tavares rendem especiais visitas a um universo feminino que sabe a territórios de delicadeza e força. Nesse ínterim, chama especial atenção o emprego das cores, pois estas representam um verdadeiro termômetro de sensações aplicadas às personagens que nos são apresentadas. Cada tom utilizado traduz a performance feminina diante dos mais distintos cenários mundanos, condição tal que pode refletir tanto serenidades quanto inquietudes.
Flertando com elementos poéticos, dos quais a síntese se destaca, Ana Luiza condensa imageticamente sentimentos que pulsam na intimidade humana. Dessa maneira, percebemos alguns de seus desenhos comunicando e reunindo, a um só tempo, temas como o silêncio e o recolhimento, gestos tão necessários em meio ao turbilhão contemporâneo a que somos submetidos.
Ilustração: Ana Luiza Tavares
A artista, nascida em Salvador, vive no Rio de Janeiro há cinco anos. Desde muito pequena, testemunhou no seio de sua família a presença ativa da arte, pois sua mãe é ceramista e seu pai um geólogo aficionado por artes plásticas, literatura e música. Quando retomou seu ofício artístico, Ana viu as coisas acontecerem numa velocidade que nem supunha pudessem ocorrer. Conseguiu impulsionar sua carreira de ilustradora, passando a divulgar e comercializar suas obras tanto nas bandas virtuais quanto em espaços físicos no Rio.
Há o algo que se destaca na expressão facial das mulheres dispostas nos desenhos da artista. É como se cada gesto, cada olhar em particular, nos despertasse para contextos peculiares de contemplação e reflexão, sugerindo mergulhos ensimesmados e nem sempre leves de assunção. Aliás, dizer do que somos também denota um infindável complexo de narrativas marcadas por tensões de natureza múltipla. Seja na via de um clamor profundo ou na transmissão de um simples encantamento com a vida, as mulheres de Ana Luiza Tavares olham bem dentro nos nossos olhos, ofertando-nos possivelmente um banquete de estranhamentos e espantos.
Ilustração: Ana Luiza Tavares
* As ilustrações de Ana Luiza Tavares são parte integrante da galeria e dos textos da 135ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.
dentro da música que
conta aquela vez
encontrar encontrar algum
espaço para a quarentena da
calma – prorrogo vossa estúpida santidade –
***
quem sabe o tempo
disso tudo um jovem muito
mau costureiro quem sabe
o dia em que
suavemente
a emenda perceba a outra
para
além do confisco lacrimoso
sonho com um casaco feito
dessas penas
***
vai passar
continuarei a odiar continuarei
a trombar o coração nas quinas
dos móveis que se mistificam
da primeira letra do seu
nome
***
sola circular
que lugar é o lugar
de frente para a janela você pensa
outra janela à parte o lugar
será diagnosticado em tempo é
o lugar é acreditar a noite molhada à
janela esmigalhar entre os dedos enrugados
um perdido de grande amor
dormir cheirando os dedos é o lugar
***
solavanco
rendem-se os calcanhares ao
isolamento agora o projeto é
a sombra a obediência é dançar o
contra das outras vezes em que
nas pontas dos pés estava a partitura
do solavanco
***
um silêncio e meio
a duração do perfil da pomba
três pombas e um quarto
a
duração da sombra
nove sombras e um meio silêncio
peso e altura da espera
cor e resistência da minha janela
***
empilhar luas
a flecha ideal de quando
um antigo amor está e está a dizer
você
você é a flecha e a boca não
é
você é você o tempo
da flecha rente
à língua a flecha original e o vaticinado
furo
Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Escreveu Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), bater bater no yuri (livro on-line pela Enfermaria 6, 2017), A Munição Compro Depois (Cozinha Experimental, 2018), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (Casa Mãe, Portugal, 2017/Edições Macondo, 2020).
O espetáculo ‘Pá de Cal’ e a inverossímil terceirização do luto
Por Vivian Pizzinga
Foto: divulgação
O que devemos fazer quando não amamos, ou quando acontece de não termos êxito em nossa tentativa de amar pessoas que, supostamente, deveríamos amar? O que devemos fazer quando não conseguimos ter o devido afeto por familiares, seja pelo motivo que for? Como lidar com a culpa quando, enfim, nos escutamos e a percepção de que não amamos nosso filho, nossa mãe, nosso irmão é suficientemente audível (e talvez faça um barulho danado)? Podemos nos perguntar até: o que devemos fazer quando nossa tentativa fracassada gera repercussão, quando isso tem efeitos, quando o nosso desamor – mais ou menos exposto, mais ou menos visível – é notado? Indo além: e se acreditamos que a responsabilidade é nossa de amar o outro – mais do que do outro de nos amar ou de fazer de si um objeto digno de amor -, como lidar com a culpa diante da constatação? As indagações que dizem respeito a essa temática (junto a outras, como a própria morte e o suicídio) são tangenciadas pela peça Pá de Cal, do dramaturgo Jô Bilac e com direção de Paulo Verlings, que entrou em cartaz no Teatro II do CCBB-RJ e só pôde fazer duas apresentações devido às medidas contra a pandemia (a promessa seria voltar em 15 dias, mas talvez demore um pouco mais).
O espetáculo gira em torno de uma morte. Mais especificamente, um suicídio. Ele começa com reflexões diante de um espelho, aquele encontro íntimo conosco, através de nossa imagem, que muitas vezes evitamos. É ali e em contexto de tragédia pessoal que as mais urgentes questões existenciais são colocadas. É ali que repensamos e reavaliamos nossas escolhas, nossas limitações e os caminhos que fomos levados a tomar na vida. No caso de Pá de Cal, o pai do morto está diante de si mesmo no espelho, hesita em relação ao que fazer de si e ao que fazer da barba, ensaia um gesto e volta atrás, ensaia outro e interrompe, sente com a mão a textura do maxilar, um vaivém existencial ínfimo traduzida em diminutos movimentos.
Mas não é só o velório que está acontecendo. Não se trata apenas de uma despedida e do ponto zero de um processo de luto, o que já seria muito, mas de uma disputa judicial em relação à propriedade onde a história se desenrola. Nesse velório-disputa, de todos os familiares mais próximos, apenas o pai do personagem morto está presente, que o excelente Isaac Bernart encarna com grande sensibilidade, esse que havia titubeado diante do espelho na cena inicial. Outros familiares não estão lá, mas são representados por advogado, marido e etc. Há também uma ex-mulher, francesa, um pouco deslocada pela barreira da língua e da cultura. Na pele desses personagens estão Carolina Pismel, Orlando Caldeira, Pedro Henrique França e Ruth Mariana, além de Isaac.
A morte em questão evoca segredos familiares e histórias mal contadas, trazendo à tona silêncios alimentados há muito tempo, jogando luz em um mal-estar familiar que poderá ou não ser resolvido através de uma técnica terapêutica muito em voga na atualidade, a constelação familiar, conduzida por um dos personagens, representado por Orlando Caldeira, ótimo quando assume o papel de terapeuta (ou constelador).
O cenário, assinado por Mina Quental, é complexo e tem quatro planos diferentes, representando cômodos da casa onde o velório tem lugar e onde se dão as negociações, os reencontros, os desencontros, as revelações. Esses planos correspondem a uma varanda, um banheiro, uma espécie de cozinha ou copa e a sala de estar. Esses diferentes planos representando os diferentes cômodos da propriedade permitem que possamos acompanhar as conversas e os acontecimentos, e há encontros e desencontros em todos eles.
De fato, além de um cenário complexo, trabalhoso, a peça tem bons momentos em diálogos bem montados e cheios de humor, mas há algo de estranho na trama. Ou melhor, algo que não encaixa tão bem. O primeiro ponto de estranhamento diz respeito a um velório onde mãe e irmãs não estão presentes, em que as pessoas mais próximas (exceto o pai) não estão lá. A morte resultante de um suicídio é velada por representantes. No entanto, ainda que haja bons motivos pra isso (no caso da irmã grávida, a iminência de um trabalho de parto), essa terceirização do luto é algo realmente digno de estranhamento. Aliás, se há mesmo um trabalho de parto em curso, por que o marido não está ao seu lado, em vez de marcar presença no velório? Que sentido faz ele estar presente ali, sendo um cunhado meio distante que tem até momentos de conversas agradáveis, atravessadas por risadaria, durante a tarde (ou seja, não parece muito condoído)? Os motivos para as ausências não são convincentes, na medida em que a morte e o suicídio seriam muito maiores do que qualquer fato ou afeto passado que ocasionasse a distância. Traduzindo: ainda que se coloque, no enredo, motivos que justifiquem que o velório de um suicida aconteça daquele jeito, com aqueles personagens e não outros, é uma quantidade grande de ausentes significativos e presentes irrelevantes velando as cinzas do morto. E uma tendência ao realismo da peça não é suficiente para justificar um possível pragmatismo que essas ausências e suas respectivas representações evidenciam, caso tenha sido esse o objetivo. E até a carta que passa a circular à certa altura – uma carta com pedidos e possíveis revelações, deixada pelo suicida – parece surgir do nada.
Por outro lado, os personagens têm ligações tão enviesadas com os ausentes que representam, isto é, a mulher que representa uma das filhas, o advogado que representa a mãe, a mãe que é um elemento estranho e malquisto apenas referido, enfim, tudo isso faz com que nada seja muito simples de se compreender no sentido de quem é quem na trama. É preciso um exercício mental para ver as ligações, os laços afetivos entre os presentes, e fica tudo meio sem sentido, fácil de esquecer a toda hora.
Foto: divulgação
A peça tem mais um elemento de complicação, que também não me pareceu ter tanto sentido na trama: uma das personagens é francesa e não fala português. Tirando uma breve cena que se dá na varanda do cenário, de grande humor, não parece ter havido muito motivo para que ela fosse francesa, para que a escolha fosse essa. A cena a que fiz referência não é suficiente para compensar todas as outras, que geraram necessidade de ler uma legenda sempre que essa personagem falava. Não há problema com legendas, a não ser que sua presença faça um mínimo de sentido, e que não seja mais um elemento complicador na trama. Os diálogos ao telefone dessa personagem não foram tão bem amarrados, não eram naturais, ao menos não tanto quanto os diálogos que se dão ao vivo e a cores, entre os personagens que estão no palco. E ainda por cima, a legenda!
Por causa dos motivos acima apresentados, ainda que o esmero da montagem seja evidente, acaba por se perder uma boa oportunidade de discutir as temáticas que a peça evoca: a morte, o tempo, o suicídio, as escolhas, as relações familiares e seus percalços, a obrigação de amar, os silêncios e os segredos, para dizer o mínimo. Sim, porque Pá de Cal tangencia tudo isso, mas sem aproveitar tanto quanto poderia. A questão da obrigação de amar daria um ótimo caldo, tanto que foi a temática escolhida para abrir este texto. Mas também as outras: o que fazer quando uma morte acontece e você está há anos sem falar com alguém cujo laço de sangue e familiar é forte, incontornável? Você quebra esse silêncio, você não quebra, como você se comporta? E o que fazemos de certos arrependimentos? O que fazer do perdão? De fato, a morte é um momento ímpar, que, para além de todo o sofrimento da perda e de toda a saudade, pode suscitar grande complexidade na hora de resolver questões, de tomar decisões, de se aproximar ou não de alguém, de rever a própria vida.
Infelizmente, a sensação que fica é que a peça, de qualidade em vários sentidos, tem sua trama comprometida, assim como as questões interessantes que tenta cercar, por uma série de elementos que complicam o enredo. Faltou simplicidade, porque o assunto e seus desdobramentos já seriam ricos o suficiente. É como se a peça não estivesse à altura do que se propôs e precisasse amadurecer um pouco mais, precisasse de tempo para que se traduzisse em um enredo sensível e com um pouco mais de verossimilhança. É como se a peça não estivesse, ainda, à altura de si mesma.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.