Atravessamos um agora refletido numa espécie inesperada e inusitada de caos, coincidente com o reflexo do que muitos carregam teimosos ou até raivosos dentro de si: o desequilíbrio evidente, a sombra de um medo avassalador disputando espaços entre os transeuntes das ruas, inseguros em plena luz do dia. Há que se refletir o dissabor do momento, são muitos os avisos de pare, pense, olhe para dentro de si e enxergue o outro como parte de você mesmo. Conscientes desse espaço tempo que desfrutamos, faz-se mais que urgente uma expansão de um polo positivo que podemos acessar dentro de nós, feito de pensamentos, traduzido em sentimentos e ações. Convém não banalizar a chegada dos incertos novos tempos, é muito provável que resista quem conseguir acessar melhores lugares de uma consciência mais alargada. Os espaços da arte jamais perderão seu estado de movimento, transformação constante que o universo impõe. A mudança de perspectivas e de paradigmas nunca foi tão impositiva e real. O instante exige a guinada instantânea de atitudes, sem muitos melindres ou culpas externadas ao que vem de fora. A era exige o afastamento da ideia limitadora de materialidade das coisas todas que nos cercam, exige, sobretudo, uma chance ao amor. Eis aqui, nesse sentido de dar lugar ao espaço intemporal e salvador da arte e do amor, a Diversos Afins construindo e abrindo mais lugares e alamedas desnudadas em muita reflexão e luz. Nessa dinâmica, as janelas poéticas traduzem subjetividades nos versos de Laisa Kaos, Dheyne de Souza, Jorge Elias Neto, Lorena Ribeiro e Dalila Teles Veras. As narrativas cortantes e conectadas de Viviane de Santana Paulo, Carlos Vilarinho e Adriano B. Espíndola Santos nos direciona ao cerne dos acontecimentos. As inspiradoras imagens artísticas de Roberto Pitella atravessam todos os espaços intertextuais aqui presentes, evidenciando em si mesmas uma ideia de expansão da linguagem iconográfica. É Kátia Borges quem nos oferta um percurso de leituras sensíveis para “As solas dos pés de meu avô”, novo livro de poemas de Tiago D. Oliveira. No texto de Wilfredo Lessa Jr., as escutas todas voltadas para “Só”, o novo álbum de Adriana Calcanhotto. A poeta Clarissa Macedo é a entrevistada deste momento, enfocando um pensamento fortemente voltado para alguns de nossos dilemas contemporâneos. O longa chileno “Ema”, do diretor Pablo Larraín, está no centro das atenções da resenha crítica de Guilherme Preger. Por seu curso, Gustavo Rios desfila impressões em torno do romance “Sexy Ugly”, de Paulo Bono. Com toda uma gama de expressões, eis a nossa 136ª Leva!
Devo este breve olhar sobre “As solas dos pés de meu avô” (Patuá, 2020), novo livro de poemas de Tiago D. Oliveira, desde antes da pandemia que sacudiu nossas vidas. Eu já o havia lido, antes mesmo de sua publicação, numa deferência deste jovem poeta, que acompanho há muito. O tempo é um texto que tem seus mistérios e este que se instalou entre a primeira leitura dos inéditos e esta leitura de agora, após a edição e o lançamento, pôs em relevo novas perspectivas sobre o conteúdo que certamente não teriam sido consideradas do mesmo modo em um “passado próximo”.
é pelos pés de meu avô que entendo a vida.
morto de cima de nove décadas esculpidas
nas rachaduras das solas duras, naquele
mesmo quarto de estreitos e sonhos.
caminho nos cascos a figurar seu povo,
na herança do sangue no olho
que o eco de sua voz ainda vive.
é pelos pés do morto, numa cama de pau,
que vejo a luz do dia chegar.
o choro, a reza, a morrinha de paz que fica
Na perspectiva do que ora vivemos – e das elipses de nossas histórias forçadas pelo longo distanciamento – arrisco dizer, sem recorrer a subterfúgios, que escrevo precisamente no momento certo. Isto porque os poemas contidos em “As solas dos pés de meu avô” repousam sobre o exercício da memória, e de processos mnemônicos que implicam muitas vezes em esquecer para lembrar. O esquecimento, enganosamente, costuma dispersar os detalhes, em modos de expansão da nossa capacidade mental de preservar aquilo que é “mais importante”. Ironicamente, no entanto, são os detalhes que delimitam a importância daquilo que se preserva.
ter na morte um rosto
ao tempo nu e ilusório
que a falta pendura em nós,
que acura se dá em desgosto.
meu avô é hoje afecção.
nada mais falta em seu corpo
que ausente existe no que ficou,
nos objetos estranhos à imagem.
em quem ficou, na impotência
que assume o poema sobre
a mnemônica arte deste improviso
Esta controversa relação entre aquilo que se configura como aparentemente irrelevante e o que se mantém na extensão da memória como afirmação de pertença é o norte dos poemas que compõem “As solas dos pés de meu avô”. Não me refiro aqui, portanto, ao simples resgate das memórias de certa época. Mas da ativação de um todo compacto que se carrega no corpo como um dispositivo. Uma memória-dispositivo que se compõe de forma orgânica, não linear ou previsível, e que é ordenada pela lógica do sentir em seus deslocamentos.
as memórias se movimentam com o deitar dos sóis.
vão se transformando em um calor pendular:
longe do toque, perto da imaginação. gosto de guardá-lo como poeta.
O modo como este tempo-memória-dispositivo atua, movimentando-se em ciclos de reinvenção no imaginário do poeta é, portanto, instável e impreciso. Mas é nesse percurso temporal reconstruído, a partir dos detalhes que o orientam desde o título, e em um espaço íntimo ativado pelo lirismo, que Tiago D. Oliveira transita em “A sola dos pés de meu avô”. E os pés do avô são calcinados, marcados pelo caminhar em um tempo possível de esperança e desesperanças, também legado e lida, herança e rito.
fecho os olhos e escuto a sua voz
dentro de uma pega de boi no mato.
o corpo do vaqueiro é o seu mundo,
cada galho e espinho a marcar
a pele, seu manto sagrado:
perneira, gibão, chapéu, peitoral, luvas, botas.
fecho os olhos e não há mais fim,
apenas o boi correndo solto
como um trovão sem chuva
a ecoar em labirintos
o desvencilhar dos pingos
até alcançarem a terra.
É o tempo do avô que o neto instaura em seus versos, como sói acontecer quando se olha afetivamente para trás. Coragem será preciso, para não se deixar enrijecer nessa mirada. Nem sempre é peso ou leveza o que se carrega na bagagem ao deixar a casa, e tudo que se fez e ela fez de (em) nós. A casa entendida/estendida ao que nos abriga enquanto aprendemos/apreendemos o mundo lá fora. Se pensarmos o demiurgo nesse resgate do perdido, figura recorrente na literatura, podemos situar esta poesia em par com outras que também revisitam as lembranças pelo viés do mesmo dispositivo, a exemplo de Cacaso e de Ruy Espinheira Filho.
as rinhas de galo num quintal
de flores e homens.
a mesma casa da música
no domingo de manhã. passou
diante dos gestos engessados
que só as horas sabem
do quando em que vão chegar.
estavam lá, até mesmo depois.
lutar até morrer, gritavam
até não mais restar galos,
nem flores, só as rinhas
ficarão para o tempo abraçar:
em qual caminho se perdeu
a minha paz? este silêncio
nas marcas da testa
de meu avô. o rinhadeiro
já não responde mais
no colher derradeiro,
no crescer de teixos.
seguimos a tentar entender
de algum lugar que passou
a distância entre rir e chorar.
É deste modo, no domínio do território da memória, que se reinventa único pela experiência, que Tiago D. Oliveira se permite o trafegar suave entre temas que lhe são caros e que não o conectam a apenas essa ou aquela vertente poética. Tal característica o singulariza fortemente no universo recente da literatura brasileira. Este “As solas dos pés de meu avô” é um exemplo desta opção pela liberdade criativa, ao se voltar inteiro para dentro e se distanciar de outras abordagens do mesmo autor. Assim pensado, o livro se revela objeto-projeto inteiro e que se sustenta de seu próprio espaço-tempo.
Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).
nas réstias
fugidias
a mariposa
tonta, voa ………….à roda ………….à roda
sombras
sobradas
da tarde
efêmeros
desenhos
ilusões
de luz
provisão ……/
acalanto
para a noite
insone
que se avizinha
***
morte asséptica
nos hospitais
a morte
chega
de madrugada
(morte asséptica
morte a sós)
pela manhã, o
comunicado
e (a seco)
as instruções
o corpo
a burocracia do corpo
a família
:
diante do nada
***
poeminha pseudomístico
confrontar-se
com o invisível
(pedras ,,,,,,,x
entidades)
embate
nas trevas
arrepio
(sinais?)
***
sob os ditames do (meu) tempo
experimento
desconfio
testo
provo
entranho
arcaísmos e tecnologia
manuscritos e digitação
papel, cartas, selos blog, e-mail msg whatsapp, live
alternâncias
velocidades
minha alma
antiga
protesta
a consciência deste
tempo me diz
:
problematizar
(para compreender)
***
marinhas
Mas, se vamos despertandoCala a voz, e há só o mar
Fernando Pessoa
havia manhãs
em que, ao abrir da janela
era só o mar e o mar ………………………o mar ………………………o mar ………………………o mar
aqui e além, barcos
quebravam em dois
o azul
inauguravam o branco
desenhavam a espuma
e não havia palavras
só as ondas .,,,….as ondas ..,,,…as ondas
via, ouvia ………….calava
***
esquecimento pela fé
romecleide, a diarista
arrimo de família, marido
bêbado e desempregado
sete filhos, agora cinco
enlouqueceu pela primeira vez
quando perdeu duas filhas
no passeio à praia grande
(afogamento)
pelos vizinhos evangélicos
confortada, rendeu-se à fé
e aos ditames canônicos
romecleide, a neopastora
(a casa transformada em templo)
prega
a fé que lhe foi ensinada
prega e esquece
esquece e prega
pregada que está
na segunda loucura
Dalila Teles Veras, nascida em Portugal, vive no Brasil desde a infância. Escritora, editora e ativista cultural. Publicou mais de duas dezenas de livros nos gêneros poesia, crônica e ensaio: “tempo em fúria”, 2019, “a mulher antiga”, 2017; “SETENTA anos poemas leitores”, poemas escolhidos por 70 leitores, por ocasião dos seus 70 anos, 2016, “solidões da memória”, 2015 e “estranhas formas de vida”, 2013, os mais recentes, todos de poesia. Dirige a Alpharrabio Livraria, Editora e Espaço Cultural, em Santo André – SP, desde 1992.
Tudo devia começar com um grito, como aquela pintura que parecia tintas derretidas que vi no museu enquanto varria do lado de fora, na calçada do elegante e nobre bairro da Vitória, em Salvador. Um grito de desespero que chegava a segurar a cabeça e expressava horror e medo. Mas começava assim: um rapaz cujo único trabalho foi sentir prazer antes que eu nascesse, jamais soube quem eu era. Muito menos eu lhe pus os olhos. Talvez ele, caso houvesse interesse em me conhecer, acalentasse minha alma daquelas situações rasteiras de dissabores raciais, por exemplo. Não sei qual foi a pior situação, se a minha ou a de Amanda. Com minha irmã, além da cor da pele, minha mãe não tinha certeza, entre três rapazes, qual deles era o pai dela. Portanto, quando a médica disse “dispneia”, pensávamos se tratar de algo letal como câncer. Tudo de ruim acontecia com pobre e preto desvalido. Nessa época, eu contava com doze anos, Amanda com oito. Minha mãe nunca conheceu as Letras, talvez por isso o serviço do rapaz foi mais fácil para que culminasse na minha existência. Nasci quando minha mãe completava quinze anos. Nasci um negro de periferia. Aos poucos quase me tornava ressentido e rancoroso pelo que faziam comigo e com os outros negros, pobres diabos no mundo. Não foi difícil deduzir que se tratava de racismo aqueles tratamentos díspares, ainda que me faltassem leitura e Educação. Nunca esqueci uma professora que tive quando estudei na escola da prefeitura quando tinha nove anos. Gostava de ouvir e ler histórias de pessoas que provocavam diferenças na vida e se tornavam essenciais à sociedade. Ela nos mostrou uma coleção de fotos de pessoas importantes que venceram com coragem as adversidades. Entre as fotos havia de uma pequenina menina negra chamada Ruby Bridges. A professora disse que nos espelhássemos naqueles exemplos. Toda vez que me sentia ultrajado com troças de racistas pensava em Ruby, aquilo me fortalecia. Mas não era fácil, o racista corrompia a alma alheia sem se inibir. Parecia um vestígio característico do ser humano. Quase ficava com vergonha de minha pele, não havia ninguém que me acalentasse.
Havia passado trinta e três dias. Contava desde que aquele jornalista apareceu em minha casa dentro da televisão. Avisava da quarentena e anunciava a primeira morte. Trinta e três era um número cabalístico. Quer dizer, sempre ouvia dizer essas coisas, na verdade não sabia do que se tratava. Sabia que Jesus havia morrido com trinta e três anos, mais nada. Despois de quarenta anos de idade, vinte varrendo as ruas de Salvador, me sentia finalmente essencial à humanidade. Nos meus primeiros vinte anos de existência, sonhei um dia em ser médico. Quando vi uma delas salvar minha irmã da tuberculose. Era uma boa médica, cuidadosa, zelosa e carinhosa. Além disso, foi ela quem alertou o outro problema que Amanda carregava desde que nasceu.
‒ Parece que ela tem dispneia.
Uma vez, na idade adulta, ainda jovem, quando corria para jogar futebol. Já praticava meu ofício com destreza e afinco, varria as ruas de minha cidade com orgulho de ter nascido na Bahia, mesmo com todas as diferenças que eram acentuadas com discrição e silêncio. Tinha quase certeza que as pessoas na grande maioria disfarçavam o que sentiam verdadeiramente umas pelas outras. Não que eu fosse desconfiado, talvez nem eu nem ninguém tivesse razão para andar cismado, mas algo dentro de mim dizia que somente a própria pessoa conhece a ela própria. Participava de uma partida num campo de várzea, jogávamos todos sem que distinguíssemos o nível econômico das pessoas. Simplesmente formalizávamos a liberdade e empreendíamos a democracia que se traduziam na prática do esporte, pelo menos. Evidentemente não havia como distinguir naquele momento as diferenças acentuadas entre seus praticantes, cada equipe e cada jogador preocupavam-se em vencer. Além de tudo, exercitávamos a coletividade. Enquanto jogávamos, ouvi de um rapaz, acho na mesma idade que a minha, praticamente bradar a pulmões um desaforo gratuito e preconceituoso, sem nenhuma razão para humilhações, a não ser que um drible que lhe ofereci entre as pernas fosse considerado insulto. Fiz o que o momento da partida oferecia e que valia e valorizava o jogo, não foi menosprezo, sobretudo era uma brincadeira entre as pessoas. Mas ele criou sanha e como um rapaz mimado despejou cólera desnecessária. Soube depois que estudava outras Línguas e foi destaque num colégio tradicional de classe bem afortunada. Segundo esse cidadão estudado e bem nutrido e que fazia um juízo final somente dele, agregado a um desprezo gratuito e arrogante que o consumia depois que a bola saiu do seu controle, disse-me entre dezenas de injúrias, que o meu cérebro não captava mensagens e nunca seria capaz de reproduzir uma história. Não se sabe se tudo isso por ignorância, distúrbio psíquico ou mal banal. Acho que era ódio por ódio mesmo. Era o que bastava para me entristecer aquele arroto de poder. Pois agora, anos depois, ao contrariar toda uma gama de descontentes‒ inclusive o rapaz de notória altivez que envelhecia comigo e protagonizava um teatro de rancor, jamais me cumprimentou por uma tolice, atualmente tossia desesperado com falta de ar ‒ eles, soberbos, não tinham como alimentar ambição de ganhar mais do que possuía e era suficiente, pois o vírus não deixava. Pois agora, ao dar vazão ao meu pensamento e mesmo com os contrastes de desigualdade social expostos, fui designado pelo Universo a narrar com imaginação sagaz de um gari convicto o que ocorria na quarentena. Posso adiantar que se tratavam de histórias coletivas da humanidade e que ficaria no imaginário de quem sobrevivesse.
Não era dispneia. Na verdade era um problema maior, diagnosticado por outro médico dono da casa que minha mãe trabalhava como diarista.
‒ Catalepsia patológica.
Não tenho certeza se receitou algo, mas Amanda ficava como estátua de cera toda vez que algo sério e triste acontecia entre nós. E algo sério e triste não era raridade em nosso casebre.
Com dificuldade aprendi as Letras, tomava gosto pela leitura. Gostava de ouvir e pesquisar nomes que surgiam novos para mim. Desde que aprendi a ler, eu mesmo procurava minhas histórias preferidas. Aos poucos assinei meu nome em Letras cursivas, mas vacilantes e tremidas: José de Arimatéia de Jesus. Com o tempo melhorei o traço de minha letra, ficou legível na medida do possível e das minhas condições. Certamente melhor do que antes. Não sei porque Jesus foi parar em meu nome, mas sempre achei bom ter essa referência. Por outro lado, a professora me disse que José de Arimatéia foi um grande homem rico e poderoso e que muito conversava com Jesus. Mas não sei se minha mãe sabia disso. Tenho certeza que ela não fez nenhum estudo onomástico ‒ esse foi o nome que ouvi de uma pesquisadora do IBGE enquanto indagada pelos moradores do lugar que morava sobre a razão daquele censo, só havia pobre por ali, não sei por que ela usou esse termo se ninguém na comunidade ia saber do que se tratava, mas eu pesquisei ‒. Amanda, que tinha mais tempo e era muito curiosa, aprendeu a ler mais rápido do que eu, era quem inicialmente lia a bíblia para nossa genitora quando ela disse que havia se entregado ao Senhor e deixado o cachimbo das drogas. Mas não demorou muito e morreu. Deixou um vão oco onde nos espremíamos e dividíamos o espaço de acordo com as atividades domésticas. Mais tarde, eu e Amanda construímos, de fato, uma casa.
Assim, não tive dificuldade em perceber que meu sonho de menino, em me tornar médico, dificilmente se realizaria. Provavelmente não deixariam sem que eu apresentasse uma chancela, como se certas profissões eram guardadas para quem apresentasse aval, de quem ninguém sabia. Pois, a dificuldade era infinitamente maior do que para um branco bem nascido, que estudou, teve vantagens e oportunidades singulares que eu jamais teria, muito menos imaginasse que existisse. Um branco assim vestia jaleco, era esse o referendo para ser médico no Brasil. Às vezes me entristecia, e ao mesmo tempo me indignava com o rumo das coisas. Pior era quando caía em mim e entendia que aquilo era a regra do mundo e jamais mudaria. Certo dia, em casa de manhã cedinho, antes de o dia clarear, ouvi uma reportagem no rádio. A mulher que falava era de uma dessas entidades que defendem os negros, ela dizia que o racismo estrutural era o pior de todos porque nos transformava em dados de estatísticas como animais. Aquilo não saiu de minha cabeça. Não sei as outras pessoas, conhecia pouca coisa e bem menos as outras pessoas. Havia mundos que não sabia que existiam, mas sentia necessidade em me tornar útil de alguma forma. A ideia que tinha quando comecei a varrer as ruas era que dificilmente seria notado, as pessoas só olhavam médicos, professores, jornalistas, enfim. Um gari negro que varria ruas era invisível e facilmente substituível. Tentei desesperadamente estudar e aprender, mas tudo era difícil. Não tinha livros, não havia ninguém que soubesse mais do que eu para calçar minha necessidade de aprendizagem. Começava a era de computador, eu não sabia ao menos como ligar aquela máquina. Por fim, o sentimento de impotência acentuava minha alma a cada dia pela manhã, enquanto eu varria e nem um bom dia recebia.
Uma vez, enquanto varria próximo ao Campus Universitário da Bahia, ouvi dois rapazes que conversavam. Pela aparência jovial e os trajes à vontade intuí que eram estudantes de algum curso na Universidade. Um deles inclusive me presentou com um livro sobre mitologia grega. Fiquei apaixonado por Afrodite. Tempos depois, disse ao rapaz o amor que nutria pela Deusa. Imaginava, sendo gari, como conversar com meus colegas sobre Afrodite, Zeus, Atena e Hermes. Enquanto lia sobre os deuses, pensava sobre as relações que podiam existir entre eles e entre tudo na vida. Até que ao chegar em Hermes, algo me chamava atenção. Uma vez, enquanto nos reuníamos para saber a rota que seguíamos a cada dia para varrição, deu-se um estalo em minha mente, ruminava as coisas que lia. Naquele dia entendi como tudo o que lia se processava, era o cérebro que buscava acarear informações. E então, comparei Hermes com Exu. E conversei brevemente com o rapaz sobre a minha comparação. Ele tirou os óculos para me enxergar melhor, ao que parece, riu e disse que estava surpreso, jamais achava que aquela leitura ia me interessar.
‒ Continue a ler, talvez haja alguma diferença em você que você propriamente ainda não sabe.
Esse que me deu regalo reclamava incomodado como a família o tratava. Segundo ele, a cobrança e a preocupação eram muito rigorosas. Parei de varrer um instante e pensei naquela frase. Como minha mãe teria me ajudado se por acaso cobrasse meus estudos. Mas não havia jeito, talvez o conhecimento fosse para poucos e nunca chegou até a mim. Ao mesmo tempo, pensava sobre esse parecer, se isso for procedente, se for real, a humanidade e a civilização seriam o maior e único exemplo de vileza e abjeção. E, é claro, não seria também um absurdo, pois só o referendo do racismo já atestava a imundície de certos humanos. Não valia a pena existir. No entanto, vou me valer de que apesar de todos os meus esforços para ser notado como gente, talvez as coisas sejam irreais e haja outros mundos paralelos ao nosso. E cada vez mais eu era invisível, ainda assim, me sentia bem limpando os arredores. Varria as ruas para não deixar o coronavírus se espalhar. Aquele ofício, simples, de fácil manuseio e que denotava asco nas pessoas era o que me tornava essencial à sociedade. A limpeza fazia parte do mundo civilizado, mas parecia ser tão trivial que as pessoas que como eu cuidavam da higiene recebiam de volta o nariz tampado e o fastio e repulsa de quem passa sobre o lixo varrido.
Agora as ruas estavam vazias, pareciam mais limpas. O vírus limpava o mundo, isso era curioso. Enquanto as pessoas ficavam em casa, para não se contaminar, não havia fardo de sujeira que o próprio ser humano reunia pelos cantos, ou até mesmo abertamente em qualquer parte da praça, próximos onde se sentavam para comer, conversar, ler, namorar ou para ficarem quietos. Fazia de tudo para não tocar na máscara que protegia do covid 19, mas desde criança tinha rinite e o incomodo era incessante, não havia jeito, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Trinta e três dias de quarentena. A ausência das pessoas nas ruas é o que me tornava tão importante. Era tão curioso pensar assim como que o vírus limpava o mundo. E gostava sempre de pensar nas coisas, pois ao pensar profundamente, diriam aqueles rapazes do Campus Universitário, chegava-se à conclusão de que aquela era a prova de que a humanidade não tinha educação. Qualquer tipo de educação. Estava evidente que as pessoas não cuidavam de nada que não pertencesse a elas próprias. Quando lia a bíblia para minha mãe junto com Amanda, se não me engano, havia um questionamento sobre se algo pertencia ao ser humano, a não ser o que se produzia com o pensamento. As ruas precisavam de pessoas como eu. Mas tudo isso que foi constatado por somente quem limpa o que está sujo. Era uma constatação sem importância que emergia de filosofia barata e sem sustentação social e política. Isso devia ser constatado pelo poder. Pelos poderosos. Mas ouvia dizer que o governante do Brasil não se importava com os vulneráveis. Diziam pelas ruas, ou quando trabalhadores se reuniam para discutir data-base, que houve governante melhor, mas que foi preso acusado de corrupção. Mas quem não subornava no Brasil? Era uma interrogação insinuante e que ecoava como coro de torcida organizada. Parecia que todos que apareciam de outros cantos do mundo e aportavam no Brasil carregavam essa interrogação no semblante. Não lhes tirava a razão, pois, a injustiça, o aliciamento, a deturpação, a desvirtuação, a adulteração et cétera e et cétera… Contaminavam como vírus por aqui, e nesses atributos as máscaras já estavam assentadas, irremovíveis e firmes em cada rosto que lidava, ostentava e recorria a essas divindades diariamente. Portanto, quem não subornava no Brasil? Havia algum tempo, antes desses trinta e três dias, esse cantinho aqui vivia cheio de copos descartáveis, guardanapos, talheres plásticos, preservativos sexuais usados, absorventes sujos de sangue. Às vezes, tudo junto fazia uma bolo de lama e bactérias. Eu era quem varria aquele canto, muitas vezes as pessoas passavam e cuspiam de lado. Eu continuava a varrer. E mesmo assim não éramos valorizados como essenciais. Invisíveis asquerosos do lixo. Meu colega Joílson era um rastafári que dançava com sua vassoura enquanto varria. Ele imitava James Brown. Nunca pisou na escola, mas fazia de conta que era mestre em inglês. Então, ele cantava e dançava ao meu lado Sex Machine, depois varria satisfeito e, como se imitasse minhas idiossincrasias, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Em seguida dizia.
‒ O show não pode parar.
Alguns poucos o cumprimentavam de dentro dos ônibus, pobres como nós. Os outros, dentro dos carrões, apressados, estressados, buzinavam para que saíssemos da frente. Esses pareciam que tinham raiva de gente pobre. Filisteus. Muitos desses não suportavam ser solidários, sentiam-se mal na fragilidade que o momento impunha a todos. Todos na televisão e os governantes do momento de cada lugar no Brasil diziam que não podíamos ficar juntos; segundo eles, o vírus atacava e acabava com as células que existiam em nós. Como se não bastassem os massacres da sociedade sobre nossas cabeças. Toda noite eu ficava na dúvida. Na Europa, as pessoas não saíam de casa, se protegiam para não se contaminar. Ouvi o repórter da noite dizer que o governo de lá tomou providências. O governante maior daqui, não. E cada vez mais, mais dúvidas se acentuavam nos meus pensamentos com relação a esse povo do governo. Mas, como um alento de todas as coisas da vida, enquanto varria novamente lá perto do Campus Universitário, ouvi dessa vez dois senhores que conversavam, um dizia ao outro.
‒ Sempre é bom ter dúvidas.
Enquanto varria, em um dos dias da semana de pandemia, próximo a um hospital, nas imediações do Porto da Barra, as pessoas choravam. Parei e observei penalizado aquela gente. Enquanto estava parado e observava, vi um homem na sacada de um dos quartos do hospital, no sexto andar do prédio, dependurou-se e gritou com os poucos pulmões que lhe restavam:
‒ A humanidade não deu certo.
Aquela frase me envolvia, sentia que havia sido capturado por aquela simples sentença como mágica lexical.
Em seguida, não se soube como, ateou fogo no quarto do hospital e pulou da sacada. Quebrou as duas pernas e algumas costelas. Morreu dias depois de insuficiência cardíaca. No entanto, os médicos ainda não sabiam se ele estava ou não contaminado com o Covid 19.
Sentia falta do movimento das ruas, mesmo menosprezado. Curioso, quando passei à condição de essencial à sociedade, promovido pelos órgãos do governo, para deixar limpo e dificultar a circulação do vírus letal ninguém circulava mais. Não havia ninguém para atestar a importância de um varredor de ruas. Isso só confirmava nossa invisibilidade. Todos os dias, quando era escalado na rota do Centro da cidade, na Avenida Sete, no Largo Dois de Julho ou nas imediações do Pelourinho e Barroquinha, sabia que em qualquer lugar daquele que varresse seria servido um lanche para mim e Joílson. Na Praça Castro Alves, por exemplo, havia Zezinho, povo como nós dois, sofredor da vida, vendia pipoca doce e salgada e cantava músicas românticas. De preferência, Julio Iglesias num portunhol inepto e confuso. Quando chegávamos era uma festa de pipocas e cantorias produzida por ele e Joílson. Os dois faziam troça da estátua de Castro Alves, diziam que o poeta estava com a mão estendida pedindo esmolas para publicar poemas. E, ainda em troça, perguntavam entre si como um poeta fazia para comer se poesia não dava dinheiro. Zezinho deixava que comêssemos pipoca à vontade. Não sabia imaginar como Zezinho se virava com aquela quarentena. Provavelmente passava o dia numa fila de agência lotérica, ou da Caixa Econômica, e tentava resgatar o que o governo oferecia. Era a humilhação em forma de auxílio emergencial. Ouvi dizer que as pessoas deviam baixar aplicativos de internet. Imaginava então quem nunca se encontrou em frente a um computador como fazia para finalmente acessar o dinheiro e em seguida gastá-lo com as necessidades primordiais. Enquanto varria a Praça Castro Alves, dia desses, ouvia reportagens no rádio portátil que sempre carregava no bolso do macacão de uniforme e um desses estudiosos acadêmicos importantes dizia que havia milhões de pessoas no Brasil que não sabiam o que era internet. O sofrimento era iminente e diário. Sempre quando parava para pensar, as dificuldades do dia a dia passeavam em minha mente e também o que fazer para vencê-las. Ah, antes que me esqueça, é bom fazer todos os registros; no mesmo dia que ouvi, lá em frente ao Campus Universitário, um dos senhores falar sobre a dúvida, também escutei a resposta do outro.
‒ É importante sempre pensar.
Achava que o vírus veio para eliminar quem não prestava. Tinha uma imaginação fértil e mágica quanto a isso, achava que a natureza observava de tempos remotos o comportamento das pessoas com as pessoas. Quem não era fraterno, a flecha da natureza, como a de Eros, só que ao contrário, sem paixão, sem amor, sem erotismo, contaminava sem dó, como uma punição. Mas não era nada disso, quer dizer, continuava a achar que a natureza estava metida nessa mixórdia, mas eliminava qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer condição. Tempos depois, durante a quarentena, quando varria a Praça Castro Alves vazia e me sentia essencial à vida, senti falta de Zezinho. E Joílson me contou que soube que o pipoqueiro havia sido contaminado, morreu e deixou dois filhos e mulher.
No Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho, sempre havia muito trabalho, a varrição era gigante. As flores vendidas nas barracas deixavam muitas pétalas espalhadas no chão. Como em qualquer lugar da cidade, ali estava ermo naquela quarentena. A algaravia que emergia no Largo todos os dias era contagiante. Normalmente o clima era de pessoas que contagiavam pessoas com alegria, bom humor e satisfação. Havia contágio de tristeza, mau humor e aborrecimento também. Pessoas especialmente para cuidar desses desconsolos, muitas vezes proposital. Mas não era o caso de alguns do Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho. Havia a senhora Lurdes, que vendia flores na barraca da esquina, ao lado do restaurante chinês. E Maria Inês que fazia jogos de loteria ilegal, do lado oposto ao restaurante de Kim Xing Ming. Kim assim que nos via, eu e Joílson, acenava desesperadamente. Fazia-nos entrar e ir ao fundo do restaurante, lá por dentro a bagaceira de tripas, pelos, órgãos era insuportável. Nunca conseguimos identificar que animais eram aqueles. Diziam que chineses comiam cachorros, mas não sei se aquilo eram restos caninos. Kim pedia quase sempre implorando para que limpássemos aquilo. Muitas vezes ele misturava as Línguas, falava mandarim, depois um português embolado, o fato era que quase nunca entendíamos. Kim fazia isso sempre no momento de acertar algum conosco e, então, aceitávamos o que ele dava sem entender muita coisa. Era um trabalho de Hércules, mas tirávamos tudo. Descobrimos depois que Kim só pedia para fazer aquela limpeza em seu restaurante quando a dupla de garis era eu e Joílson. Além do mais éramos funcionários da prefeitura e varríamos as ruas. Era um daqueles subornos que geralmente brasileiro dizia ser jeitinho. Era ilegal fazer limpezas particulares, não era nosso ofício. Mas a vida era tão difícil e tínhamos tão pouco que sucumbíamos e nos deixávamos ser aliciados também. Soube que um dia Kim Xing Ming pediu a outros dois que foram escalados para aquela rota em nossa ausência, não lembrava o motivo, achava que eu e Joílson folgávamos e os rapazes não se recusaram a fazer. Eram Joselito e Raimundo. Disseram que o que ele pedia era um serviço extra, o que não deixava de ser, e queriam administrar a negociata com lucros maiores. Eu e Joílson não fazíamos isso. Das duas, uma. Ou as duas de vez. Ou a corrupção no Brasil nascia nos níveis mais baixos e grotescos que se há, em progressão aritmética e infinita, ou ela chegava em via inversa, ou expressa, vinda de todos os níveis possíveis, aceitáveis, existentes e inexistentes até o mais baixo e grotesco. E como trânsito de avenida, ia e vinha ininterruptamente.
Mas quem não subornava no Brasil? Ecoava insinuante insistente e sempre em qualquer imaginário do mundo.
Joselito pegou covid 19, foi internado, depois de vinte e cinco dias teve alta curado. Raimundo também foi diagnosticado positivo, mas era assintomático. Foi orientado para ficar em casa durante quinze dias. Kim Xing Ming fechou o restaurante quando a quarentena engrenou. Ouvíamos histórias de que Xing Ming estava com febre alta e tossia muito. Não funcionou através de delivery, como a maioria dos restaurantes do Centro da cidade faziam. Aliás, as coisas não ficaram boas para Kim Xing Ming, os moradores do Dois de Julho e comerciantes acusavam-no de participar de uma teoria da conspiração. Segundo as pessoas em geral incentivadas pela fake news de um ministro do governo. Aliás, governo esse que parecia fazer de tudo para que todos se contaminassem. As pessoas começavam a acreditar que o chinês disseminava o vírus entre os mais pobres do centro da cidade numa comparação em menor nível e proporcional aos esdrúxulos comentários divulgados na mídia, feitas pelo então ministro do governo. Começava a circular que o mundo ia sucumbir em razão do vírus que havia sido criado e dispersado pelos chineses. Curioso era que, de fato, a população mais pobre se contaminava com maior facilidade. E morria rápido. Maria Inês, que vivia de conversa com Joílson e ensaiava romance com o parceiro gari, dormiu durante dias na porta de um hospital esperando notícias da mãe hipertensa e diabética que contraiu o Covid 19. Inês era uma das que acusavam Kim. Segundo ela, a mãe voltou sentindo-se mal depois que almoçou no restaurante do oriental. Infelizmente não sabia precisar se a mãe de Inês conseguiu escapar do corona. Não havia mais ninguém no Largo do Mocambinho e as notícias não chegavam.
Mas a senhora Lurdes era o que de melhor havia no Largo do Mocambinho. Antes de passar no chinês Xing Ming, antes de fazer a fé nos jogos ilegais da loteria de Inês, antes de discutir futebol com o fanático torcedor tricolor que parecia dono de uma loja de miudezas na esquina, enfim, parávamos na barraca de flores da senhora Lurdes. Não havia jeito, assim que dobrávamos aquele pedaço na Carlos Gomes era a primeira imagem que tínhamos; a senhora Lurdes sentada em sua barraca de flores, com dois netos em cada lado, geralmente cada um com a boca cheia de doces e ela observava quem entrava e quem saía no Largo Dois de Julho. Havia sempre uma merenda que ela guardava e nos oferecia assim que aparecêssemos. De praxe; café com leite e pão, às vezes uma fatia de queijo. Ou bolo de chocolate. Ou tapioca com manteiga. Uma ou duas bananas, às vezes. Deixávamos tudo limpo e bem sequinho ao redor de todas as barracas de flores, no entanto dispensávamos atenção especial à da senhora Lurdes. Era uma senhora com muito bom humor e senso de parceria. Aliás, era uma sinergia fácil de achar e de conquistar entre a camada mais fraca socialmente na economia. Quando o pobre via-se em apuros, era com rapidez acolhido por outro, e por outro, e por outro. Nova progressão aritmética, dessa vez para o bem. Tinha a prova disso quando levantei minha casa e de Amanda junto com os vizinhos, se não tivéssemos contado com eles dificilmente cavaríamos fundo para a fundação e levantaríamos os blocos. Não que não tivéssemos forças, mas o trabalho era descomunal para um homem e uma mulher que não nutria muita saúde, não esqueçamos da catalepsia que tomava minha irmã desde criança. Senhora Lurdes fazia a festa do seu modo, não era como Zezinho, por exemplo, que vivia em cantorias com Joílson, em outro exemplo de colaboração mútua. Deus o tenha Zezinho. Mas a senhora deitava falação. A senhora Lurdes conhecia todos e sabia de tudo referente a cada um que ela comentava. Assim soubemos da marmelada e falcatrua dos outros dois garis juntos com Xing Ming. Soubemos que a mulher do homem que discutia futebol comigo saía às escondidas toda quarta-feira à tarde, como senhora Lurdes soube disso é um mistério, mas procedia a verdade. O homem descobriu onde enfiava-se a companheira ‒ acompanhada de outro ‒ e o sentimento de traição cobriu-lhe de violência. Naqueles tempos, muito se via na mídia reportagens de misoginia, muito mais do que de racismo estrutural. Os taxistas ficavam parados no ponto, um deles conversava sempre comigo em tom professoral, emitia sugestões filosóficas sobre a humanidade e comparava com uns filósofos que eu não sabia pronunciar os nomes, segundo ele, tudo procedia conforme o pensamento de Nietzsche. Fiquei na dúvida como pronunciar cinco consoantes de uma vez, ainda que uma fosse muda. Mesmo assim nada sabia sobre Nietzsche. Ele dizia saber tudo. O rapaz que conversava comigo sobre mitologia grega no Campus Universitário, que me presentou com o livro, um dia, antes da quarentena, me disse que a atitude de quem diz saber tudo é porque não sabe nada. O taxista, depois de algum tempo, quando ele deixou que eu emitisse um parecer qualquer, não lembro sobre o que, espantou-se quando confrontei aquela situação que conversávamos com deuses gregos da mitologia. E desde então, quando me via com a vassoura na mão me aproximar da barraca de flores da senhora Lurdes, o tal corria e falava algo com relação a qualquer coisa e esperava para ouvir o que eu tinha a dizer, em seguida perguntava se havia algum Deus grego que se comportasse daquela forma. Soube através da senhora Lurdes que ele havia morrido do covid 19 e contaminado toda a família. Foi também através de senhora Lurdes que Joílson soube do interesse de Inês por ele. Lamentavelmente soube há poucos dias, agora Inês passava dia e noite na porta do hospital e requeria notícias da mãe. A velha havia sido transferida duas vezes de leito e de hospital, finalmente encontraram um respirador numa UTI de periferia. Além de tomar conta da vida alheia, senhora Lurdes colecionou ao longo dos anos sabedoria popular. Ela pensava sobre as coisas assim como eu. E nos dávamos muito bem quando parávamos para conversar. Foi ela quem definiu com curiosidade, talvez até sabedoria, o que essa quarentena, o vírus e toda a humanidade significavam naquele momento terrível.
‒ Pode escrever, isso tudo vai desandar somente para três caminhos: solução, prazo de validade e lição de vida.
Senhora Lurdes me disse essas coisas quando tínhamos dez ou doze dias de quarentena. As ruas já estavam vazias e, por acaso, encontrei ela que separava as flores que não havia apodrecido das outras. Não estava vendendo nada, primeiro que não podia, segundo que não havia quem as comprasse. Flores alijadas. Curioso que ela me disse sobre aqueles três caminhos com um leve sorriso no rosto. Dias depois que percebi que aquele sorriso era de abdicação. Em primeira mão, achei que senhora Lurdes ainda não havia dado em si do prejuízo que ela teria. Ela e todos comerciantes ambulantes. Mas ela sabia de tudo, sim. Dias depois, com a quarentena em andamento e muito depois do nosso último encontro quando ela separava as flores boas das podres, encontrei a senhora novamente. Ela estava sentada em frente à barraca de flores e bebia café. Desculpou-se conosco por não haver merenda. Usava uma máscara florida que protegia o queixo e a papada. A boca e o nariz estavam desprotegidos em desânimo. E já não era a mesma senhora que conheci durante esses vinte anos que varria as ruas de Salvador. Abatida, havia emagrecido, carregava um semblante padecido, tinha olheiras marrons ao redor dos olhos, principalmente na parte inferior, e tossia com frequência. Disse que não teve febre, mas os dois netos tiveram. Foi ela quem nos deu a notícia da mãe de Inês. A velha tinha sido enterrada coletivamente numa vala do cemitério de Brotas. E finalmente falou com desânimo para mim e Joílson.
‒ Perdi todas as minhas flores, acho que estou doente. Aliás, onde moro a maioria das pessoas estão tossindo, mesmo assim não se entregam e saem às ruas para buscar o que comer, um vende café, outro cata latas, eu vendia flores, não tenho mais o que vender, Inês perdeu a mãe e os jogos ilegais não correm mais durante a quarentena… Isso veio acabar com a vida do pobre. Essa é a solução que eles querem, o prazo de validade está acabando e a lição de vida… Rum! É que ninguém quer aprender lição de vida nenhuma.
Desde que me falou, no início da quarentena, sobre esses três caminhos da humanidade, que pensava sobre isso. Inicialmente concordava com ela. Tínhamos que tirar algo do que acontecia. A humanidade devia voltar, ou começar, a confiar nela própria. Uns nos outros. Acontece que parecia que havia uma distância, um poço tão fundo quanto o oitavo anel do inferno, para duas coisas que deviam ser a mesma coisa. Ou no pior dos casos, coisas afins e próximas. Mas afinidades e proximidades não procediam. Muitas vezes esse abismo aparecia entre humanidade e ser humano.
‒ A humanidade não deu certo.
A frase do homem que pulou da sacada do hospital tomava efeito em meu pensamento.
Aquele trigésimo terceiro dia de quarentena caiu num domingo cinzento de maio. Mesmo que surgissem outros sóis, aquela tristeza cinza não abandonaria o dia. Um vento frio soprava na rua vazia. Mesmo o calor do girassol que havia na minha porta não denotava ternura naqueles tempos. Aquela flor foi presente da senhora Lurdes. Ela dizia que o meu jeito pensativo e sereno lhe passava tranquilidade. Joílson, como sabemos, era falante como ela, eu só ouvia e ria. Mesmo o serviço de varrer as ruas não me deixava estressado e impaciente. Se não me resignasse quando aprendi as Letras e escrevi meu nome, mesmo que trêmulo e inseguro, talvez não desse certo para a vida. Mas parecia que a minha existência teve uma finalidade. A comunidade que morava era de uma pobreza extensa, às vezes o esgoto alagava as ruas e a água podre entrava nas casas. Muitos políticos andavam por ali, prometiam valas e higiene sanitária, mas nunca foi feito nada para benefício das pessoas naquele lugar esquecido. Algumas vezes, quando tinha o prazer de estar presente quando os políticos apareciam, tinha a impressão ao olhar as emoções no rosto daqueles homens que não existia emoção. Tudo era ensaiado. Nada nem ninguém interessava ou provocava misericórdia ou compaixão naqueles homens. Só o voto de cabresto. Como a fome parecia ter um contrato de coexistência com a comunidade, sempre e somente em épocas de eleição eram servidos feijoadas, churrascos, galinhadas e cervejas a rodo para as pessoas que estavam famintas ali há tempos. Depois as obras de contenção de encostas, onde aqueles que comiam as feijoadas, os churrascos, as galinhadas e bebiam cervejas, também morriam soterrados, e os políticos que ofereciam aqueles banquetes lamentavam todas as mortes sem emoção. As creches não apareciam e as crianças ficavam nas ruas, os empregos e os projetos sociais jamais ninguém viu. Todos ali viviam como podiam, as casas em sua maioria eram de barro batido, ou, as melhores, de bloco cozido com uma laje que não se sabia se havia fundação para suportar o peso. Morava com Amanda e nós dois conseguimos construir uma casa que nos protegia. Durante a construção tivemos ajuda dos vizinhos, todos juntos, cavamos a fundação e suspendemos as paredes com bloco e batemos a laje. Conseguimos doações de piso, além do que achávamos no lixo e ainda estava em condições de ser usado. Só não rebocamos, faltava dinheiro, mas conversávamos sobre isso e combinávamos de quando o vírus se for, se se for, íamos terminá-la. Alguns ficavam dentro de casa durante a pandemia, a maioria ficava nas portas, ou na rua de barro. Achavam-se imunes, ou não acreditavam que havia o vírus letal. Quando acreditavam e tinham medo, não podiam ficar em casa porque se não, não comiam. Então saíam para trabalhar, muitas vezes sem nenhuma proteção. As casas eram minúsculas e geralmente havia no mínimo quatro pessoas em cada casa. Não sabia como os homens do poder podiam dormir com aquelas pessoas sem condições mínimas de, ao menos, sobreviver naturalmente onde se encontravam e procuravam para se proteger de um vírus fatal que assolava o mundo. Os homens do poder não se interessavam pelas pessoas, o líder maior no meu país aparecia nos telejornais para pedir que as pessoas não se afastassem umas das outras, que as coisas não parassem de funcionar e agradecia a Deus por tudo. Sem falar as casas construídas nos barrancos, era época de chuva e a cada tromba d’água o temor que tudo ruísse era gigante. Já dissemos sobre a não contenção de encostas A prefeitura instalou uma sirene que soava e avisava do perigo de desabamento para que as pessoas deixassem suas casas e não corressem risco de morte. Mas quase ninguém saía, preferiam morrer soterradas com elas. Também não tinham para onde ir, além do mais perdiam tudo que conseguiam com esforço. Ou no desabamento, ou, quando não desabava e soterrava tudo junto, pessoas, móveis, papéis et cétera… A água da chuva invadia as casas e acabava com o que tinha lá dentro. Eu era um dos poucos que trabalhava e tinha o dinheiro certo ao final do mês. Foi assim que comecei a pensar sobre a minha condição. E uma alegria individual que quase não existia na comunidade tomava conta de mim discretamente. Uma alegria que durava pouco quando olhava ao redor de minha gente. Passei a uma condição de essencial à sociedade e à vida e entendi que a minha presença estava comprometida no lugar que morava. Fui o primeiro a dividir os mantimentos que a prefeitura distribuía entre os garis. Na verdade, já recebíamos uma cesta básica sobre o salário; com a pandemia e quarentena aqueles mantimentos dobravam. Era o mínimo que se fazia por nós. E não faziam mais nada do que isso. Amanda trabalhava na casa do médico que nossa mãe trabalhou antes de morrer com uma doença adquirida na época que usava cachimbos com drogas. Minha irmã entendeu melhor o que houve com ela, mas só chorava e não conseguia me explicar direito. O médico, desde que nossa mãe se foi, não deixava que faltasse nada para ela e, consequentemente, para mim também. Não havia naquele homem aquele abismo existencial que separava as pessoas da humanidade. Então muita coisa sobrava. Sentíamos obrigação de dividir com vizinhos. A fome em comunidades como aquela que morávamos jamais deixou de ser parceira.
Naquele dia, o trigésimo terceiro, algumas coisas chamavam atenção da comunidade. Primeiro era a rebeldia dos jovens. Estava em casa com Amanda, conversávamos sobre nossos trabalhos. No meio da tarde, ouvíamos passos de gente reunida. Olhávamos discretamente pela janela, como diziam que pobre fazia, olhava pelas frestas e víamos um grupo de jovens que dançava sem parar. Dois deles conversavam embaixo da minha janela.
‒ Não aguentava mais, brigava comigo mesmo em casa… Sem falar que meu pai xingava todo mundo, xingava o presidente, xingava o patrão dele, aí começava a me xingar porque sou gay e acabava dando tapas em minha mãe… Dizia que a culpa era toda dela pelas misérias do mundo e por eu ser gay… Meu pai é um homem horrível.
‒ E ainda dizem para ter esperanças que dias melhores virão.
‒ Acho que o mundo vai acabar.
Em seguida, quase ao mesmo tempo da reunião dos jovens no meio da tarde, o que me fazia pensar era quando passavam hordas de evangélicos sem máscaras de proteção ao vírus covid. Gritavam pelo Senhor e suplicavam misericórdia. A maioria dos religiosos diziam que o Senhor os livraria do vírus. Só no lugar que morava soube do desaparecimento de dezenas deles tossindo e com falta de ar. Comparava com os jovens, alguns de máscaras, outros sem usá-las, que dançavam sem parar. Chegavam notícias que havia doze ou treze deles contaminados na comunidade. E a dúvida acentuava. Lembrava do senhor lá no Campus Universitário que dizia ser bom ter dúvidas, ao que o outro respondia que também era bom que pensássemos. E não conseguia responder a mim mesmo um questionamento que se seguiu enquanto olhava aquelas duas condutas.
‒ Qual das duas vertentes era incapaz de sentir prazer em viver?
No entanto, talvez fossem comportamentos que pedissem ajuda com gritos silenciosos de desespero como aquele expressionista começava a história. Cada um em seu extremo.
A fome era a porta de entrada de todos infortúnios de quem era pobre em qualquer país do mundo. No Brasil e na comunidade que morava não era diferente, aliás, o incômodo no estômago levava as pessoas a se comportarem de outras maneiras que não eram consideradas habitualmente costumeiras. Mas é claro, além da fenda social, a fome enlouquecia. O vírus tinha um crescimento exponencial, principalmente nas comunidades como a que morava com Amanda, eram sentimentos de limitação, impotência e medo. Somada a essas agruras, ou como consequência, aparecia serelepe, imponente e de certo modo fascinante, a violência. No fim da tarde do trigésimo terceiro dia, ecoavam no ar saraivada de tiros.
Havia desde cedo um movimento diferente na comunidade. Aquilo não era boa coisa. Alguns homens de semblantes não muito bons iam e vinham acompanhados de alguns outros que moravam por lá. Isso desde a madrugada do sábado. Depois uma quietude tomou conta do lugar. Um silêncio torturante ganhou os ares daquele domingo, no trigésimo terceiro dia de quarentena. Depois que os jovens desceram a rua e, em seguida, os religiosos evangélicos se acomodavam no templo que eles construíram e de lá suplicavam louvores. Um clima de testemunha silenciosa se apoderava na comunidade. Aquele suspense sinistro foi quebrado no começo da noite pela algaravia dos tiros. Houve uma correria e depois a rua ficou erma. Enquanto olhava pela fresta da janela e ouvia os cânticos religiosos, pensava na humanidade e seus crimes. Aquelas pessoas, muitas gritavam por Jesus em desespero, para mim uma atitude inexplicável e intolerante. Ainda que o corona vírus andasse à espreita, tínhamos que nos cuidar, manter distanciamento social e a quarentena dentro de casa. O resto realmente era com Deus. Mas tinha dúvidas se aquela gritaria faria Deus, ou o Senhor Jesus, ouvir e descer para acudir a todos nós. Talvez, antes de toda súplica misericordiosa, devêssemos assumir os pecados. Ou os erros propriamente ditos e afiançados. Para aqueles evangélicos, e todos os outros, não havia sido ninguém que rompia o silencio do lugar com tiros, mas o diabo.
As notícias não tardavam e minutos depois soubemos a razão dos tiros e sua consequência. É bom que se diga algo sobre essas coisas: somente em comunidades pobres que os policiais decidiam valer a autoridade. Isso acontecia em todos os cantos do Brasil, quiçá do mundo. E sempre descambava para aquela discussão do racismo estrutural. Mas era racismo, sim. Não sei se estrutural. Provavelmente, não. Racismo, ponto final. O pior é que não havia respostas para tanta brutalidade e força exagerada num lugar em que as pessoas lutavam dia após dia para sobreviver. Nem sequer viver, mas sobreviver. Num lugar onde as pessoas não tinham oportunidade, talvez quando tivessem não sabiam como agarrar. Faltava-lhes estudo. Faltava-lhes conhecimento. Faltava-lhes incentivo para sair da escuridão. Nenhum político, daqueles que distribuíam comida e cerveja, em sua pré-eleição, gostava de ver sua gente discutir cultura com sabedoria. Queria que vivessem como gado. Queriam que a gente pobre se contaminasse com o covid 19 e morresse para diminuir o peso da Previdência. Quanto mais mortos, melhor. E ainda assim a gente resignava-se, como eu, por exemplo, que lia por conta própria. E emitia comentários, conselhos e sugestões a outros. Como aquele taxista que corria ao me ver abraçado a minha vassoura e aprender mais sobre mitologia grega. Cada pessoa em lugares como esse devia pensar o que fazer em cada passo que desse em sua caminhada. Em cada respiração. Eu e Amanda somos exemplos vivos desse aperto. Temos que provar todos os dias e horas que éramos pessoas capazes. Daí, minha satisfação em ser transformado em essencial para a sociedade por um vírus, na ironia da vida. Parecia que cada negro que nascia nas comunidades, tinha que pagar o preço do erro, primeiramente por ser negro, aquilo parecia realmente um erro, nascer negro. Em seguida, pelas faltas e crimes que nasciam naturalmente na alma de quem as provocava. Era negro, branco, mestiço. Rico ou pobre. Assim como preto e pobre emergia e vivia do crime, no pensamento de quem tinha poder e girava o dinheiro na própria gangorra financeira. Rico e branco também espalhavam drogas, sonegavam imposto, lavavam dinheiro, surrupiavam dinheiro público, espancavam mulheres, desrespeitavam funcionários públicos de cargo inferior, criavam milícias et cétera… E parecia que nada disso era marginal às regras. Não aparecia, não havia força descomunal de polícia que contrariasse, que combatesse esses crimes, com a mesma veemência da periferia, nos lugares deles. Mas lá, no lugar dos fracos, lá onde não havia o que comer, lá onde não havia moradia decente com banho quente nas noites de chuva e frio, mas muito medo de tudo desabar barranco abaixo depois de soar a sirene da aflição, lá onde as máscaras de proteção ao corona vírus eram somente um pedaço de pano, às vezes engordurado, para cobrir a metade do rosto, lá matava-se quem não tinha nada a ver, que por um capricho do destino tinha um vizinho suspeito. E para contabilizar na estrutura, somente quem tinha a pele preta cometia atrocidades. Começava a entender a fala da mulher que defendia movimento negro e que se pronunciava na reportagem do rádio de manhã cedinho antes do dia clarear. Aquele era o horário para indignar-se da dor e da injustiça, quando acordava para ir à luta com o dia sem apresentar aurora definida.
Os policiais invadiram a comunidade em perseguição a traficantes de facção, segundo disseram. Falavam que eram recebidos a tiros pelos meliantes. Revidavam, e assim foi baleado com fatalidade o menino Carlos Augusto de quatorze anos. Carlos, negro, estudante do nono ano do Ensino Fundamental, sonhava em ser jogador de futebol. Estava dentro de casa sentado no sofá e assistia a um jogo antigo da seleção brasileira, a final da copa do mundo de 2002 contra a Alemanha. O Brasil ganhava de dois a zero e relembrava a euforia orgulhosa de ser brasileiro e pentacampeão naquele domingo cinzento do trigésimo terceiro dia de quarentena sobre o coronavírus. Carlos Augusto não foi vítima do covid 19.
‒ A humanidade não deu certo.
Emiti sem querer aquela frase que me capturou a alma.
Carlos Vilarinho, nascido em setembro de 1963. Conhecido como Pensador das Ruas como atestam seus textos e personagens que surgem e passeiam livremente pelo Centro de Salvador. Autor de: “Labirinto-Homem” (Romance, Editora Kalango, 2013); “Baculejo e outras histórias” (Contos, Editora Via Litterarum, 2017) e “Barroquinha” (Romance, Editora Via Litterarum, 2019).
Minha cara trazia segredos pálidos
Ouvia de longe os passos arrastados no corredor
Todos curando suas dores aos gritos
Havia um corredor de azulejos brancos
Cada quadrado com seu cheiro de éter
A cara da morte me dava beijos frios na espinha
Passava quase sexualmente a língua pelo meu rosto gelado
E se lambuzava com o pavor que escorria da minha testa
Acordo.
Foi um sonho ruim. Ainda.
***
39
Quis sair da fossa. Mas não.
Preferi mergulhar
Escancarar até o pescoço
Afogar soltando espumas
Rasgada, afundada, assumida
Dor cravada na carne é pior que gripe mal curada
(e ambas causam um mal terrível para os pulmões)
E eu.
Morro de medo de morrer.
Ou viver sufocada.
***
ESPASMO (PARA LER COMO QUISER)
Em mim tudo é escândalo
Histeria
Doença nervosa
Convulsão uterina
O afago afoga
O peito berra
O abraço sufoca
O corpo inunda
Em mim tudo é múltiplo
De sofrimentos a orgasmos.
***
Lábios abertos
Poros abertos
Peito rasgado
E a poesia – vida – corrente
Que me pulsa
Ventre
Adentro
***
(PARA OS MEUS 50 ANOS)
Se soubesses tu dessa tal inquietude
Engoliria com afinco
Todas as inseguranças que não te cabem
E guardaria para mim a tua pele
Não tão pura, não tão calma, não tão minha
Leve como tudo breve
Por onde passei lábio e língua
Tatuando em ti baixos poemas
E gozos d’alma.
***
Carta de não-amor para um não poeta
Síndrome
Bukowskiana
Contemporânea
Quarentenária
Só que sem a originalidade.
Já que a mesma morreu lá em 1994.
Desculpe “baby”
Sofro da mesma síndrome
Mas assumo somente a parte da sinceridade
E possível alcoolismo
Não existe fé no sucesso póstumo
Não existe fé nas leituras pagas
Não existe fé.
Só o amargo da verdade me convence.
Mas não existe fé
Nas tuas
Verdades.
Laisa Kaos é poeta e publicou “Lábio Aberto”, seu primeiro livro, em 2019. Nascida em Belém do Pará, graduou-se em história e cedo encantou-se pelas possibilidades das palavras e das artes. Mudou-se para São Paulo, onde estudou as expressões artísticas. Atualmente é pós-graduanda do Instituto Federal de São Paulo e trabalha em seu segundo livro.
Ema, mais recente produção do chileno Pablo Larraín, estreou no Festival de Veneza, em 2019. Chegaria às salas de exibição públicas não fosse a interrupção do confinamento provocado pela pandemia. No dia 1º de Maio, como homenagem ao Dia do Trabalho, a plataforma Mubi disponibilizou uma sessão gratuita do filme por 24 horas.
Larrain se tornou conhecido do grande público por sua trilogia de filmes Tony Manero, Post Mortem e No. A trilogia é uma extraordinária filmografia da ditadura chilena pinochista. Os três filmes têm a presença do grande ator Alfredo Castro, espécie de ator-fetiche de Larraín.
À parte a importância história e política imediata da trilogia, os três filmes também representam esteticamente uma reflexão do diretor sobre as relações de tradução da cultura da metrópole para a colônia, ou das relações ideológicas entre o centro e periferia. Sobretudo em Tony Manero (2008), um dos filmes latino-americanos mais importantes do século XXI, estão em jogo as formas de dependência estética e da assimilação (ou apropriação) que a periferia faz da cultura globalizada hegemônica numa situação de ditadura militar.
O Clube (2015), sobre a “prisão domiciliar” onde padres católicos são afastados de suas atividades pela própria Igreja, devido a questões sexuais ou crimes de pedofilia, parece ser um filme de transição entre o retrato fílmico histórico e o dilema entre indivíduo e instituição.
Os últimos filmes de Larraín, feitos quase paralelamente, sobre as vidas históricas de (Pablo) Neruda e Jackie (Kennedy) (2016) trazem entre eles esse jogo de relações, entre influência e apropriação, da polaridade centro-periferia que os filmes anteriores da trilogia abordam internamente. Ema também traz a participação do ator internacional Gael Garcia Bernal, outra presença constante nos filmes do diretor (em No e Neruda).
Em Ema, no entanto, temos a abordagem de uma vida singular ficcional que não está imediatamente vinculada a um contexto histórico. Neste aspecto, o filme se aproxima de Uma Mulher Fantástica, de Sebastian Lelio, filme que teve produção do próprio Larraín. Pois é exatamente a singularidade de uma vida comum que é nesse filme retratada.
Ema (vivida por Mariana Di Girolamo) é bailarina profissional numa companhia de dança moderna na cidade de Valparaíso. Ela é casada com o coreógrafo da companhia (Gael Garcia Bernal). Juntos decidem adotar uma criança, mas devido a incompatibilidades e incidentes acabam por devolver a criança ao orfanato de onde veio. Essa experiência frustrada de adoção e rejeição é traumática para a vida do casal. Ambos começam a partir de então a se questionar sobre a relação conjugal, sobre suas moralidades e mesmo sobre suas sexualidades. A principal questão parece ser que ambos, a mulher e o homem, aparentam viver de formas diferentes o fracasso da relação de maternidade e paternidade.
Foto: divulgação
A questão de devolver a criança é um ato dramático e traumático e é irreparável tanto para o casal como para a criança. O filme já começa com tal fracasso tendo acontecido. O espectador não sabe ao certo a motivação dele. Há acusações recíprocas de responsabilidade. A irmã de Ema aparece com o rosto gravemente queimado e esse incidente parece ter a ver com a criança. A narrativa do filme transcorre embaralhando a passagem do tempo e a linearidade entre passado e presente, de modo que o espectador também não consegue reconstruir o contexto daquela decisão. O roteiro nos dá a indicação de que o próprio casal não sabe exatamente como justificá-la, pois devolver a criança parece ser também uma confissão da incapacidade de assumir responsabilidades ou do sentimento de incompatibilidade com seus papéis parentais. É o que lhes diz a senhoria que testemunhou a favor deles no processo e agora se arrepende após o fracasso da adoção.
O ponto de vista do roteiro é o de Ema. Ela parece como decidida a reparar o erro de sua decisão. Ela é sem dúvida uma personagem singular e obstinada. Jovem, bela e de poucas palavras, é mais capaz de se expressar através de seu corpo do que com suas palavras. A característica mais notável é sua predileção por um lança-chamas. Ela o carrega pelas ruas de Valparaíso à noite para lançar labaredas pelas ruas da cidade, rendendo belíssimas imagens cinematográficas. Em suas andanças, ela costuma ser acompanhada pelas amigas bailarinas da mesma companhia. Elas gostam de dançar reaggeton nas horas de folga e o filme tem incríveis cenas de dança urbana.
Estilisticamente, Ema é o filme mais deslumbrante visualmente do diretor chileno. Ema e suas amigas, em suas andanças e danças, em suas conversas e em suas transas, com seus corpos femininos ou andróginos exuberantes, imbricam o filme em seu contexto espaço-temporal. Espacialmente, pois é a reconstituição paisagística e arquitetônica da extraordinária cidade portuária chilena, reconhecida por ser uma cidade de jovens, repleta de grafites, com uma importante universidade. Temporalmente, porque as vidas jovens e libertas de Ema e suas amigas, cheias de sensualidade e sororidade, formulam novas formas de solidariedade e de vivência social.
Foto: divulgação
A certa altura do filme há uma discussão entre as mulheres bailarinas e o coreógrafo homem. Ele questiona o gosto de suas alunas por dançar reaggeton pelas ruas da cidade enquanto a companhia ensaia uma reformulação coreográfica de danças folclóricas chilenas em estilo moderno. Para o coreógrafo o reaggeton não é mais do que um ritmo simplificado e sexual. Mais do que simplesmente uma discussão acadêmica, de viés frankfurtiano, entre música de indústria e música sofisticada, o que temos neste diálogo é o contraste entre modos de vida que se traduzem esteticamente. Está claro que o coreógrafo inveja a liberdade sexual de suas bailarinas. Neste diálogo vemos reencenado o jogo entre a cultura do centro (dominante) e a cultura da periferia, que se apresenta nas outras obras de Larraín.
Ao final, é precisamente a belíssima cenografia e a maravilhosa coreografia que transborda dos espaços fechados para as ruas, bem como a exposição das vidas livres das jovens que fornece a esta obra cinematográfica um viés utópico. Se, por um lado, o móvel de toda trama é um trauma, um conflito individual à procura de resolução e reparação, por outro, esse conflito é o paradoxo que movimenta o desejo, os corpos e os gestos. Pablo Larraín articula em Ema a emergência de novas formas de se viver o amor, a amizade, o sexo e as relações parentais, e as relaciona não apenas à juventude, mas sobretudo à existência periférica. Esta virtude do filme não é pequena. Que seja acrescentada a ela a casualidade do filme estrear num momento em que a liberdade de movimento dos espectadores está tolhida. Mas é nessas horas de inflexão e clausura que os sonhos voltam a se adensar com os desejos e os devaneios de outras vidas e futuros possíveis. Larraín, Ema e suas amigas, e mesmo o próprio Gael, nos fazem sonhar com um futuro de mais liberdade dos corpos e reparado.
Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.
Suas letras passam rápido
Mal consigo ler o que elas têm a dizer
Se são de verdade,
ou de mentira, como saber?
Sempre que as encontro
Sou levada a um momento inexistente
Nem passado, nem futuro
E de tão breve, nem presente
Um estado de graça
Que mora numa farsa
Onde me vejo imersa
Cada dia um pouco mais
***
…Transita suavemente ………entre a superfície
e a profundidade, ……………….o simplório …….e a complexidade,
como dois seres …….habitando em um.
….Um deles vaga livre
entre ocasos e auroras, ………enquanto dorme
o que espera o amanhecer, ……………. não do dia, …………………..mas da vida.
***
AS PALAVRAS DO SILÊNCIO
No silêncio dessa noite,
volto em muitas outras …………noites, ……………………madrugadas, …………………………….alvoradas
Cheias de barulho,
desse que de fora não se ouve
Mas há de estar lá,
Gritando dentro da cabeça
Escorrendo pelos dedos
Saltando palavras despretensiosas …….Agitadas, …………….fugitivas
Esse é um jogo interessante
Uma disputa que ninguém ganha
Nem quem grita
Nem quem corre
Nem quem salta
Uma fuga temporária
Dos laços, ………..traços, …………………pedaços
Que, ao final, se unem aos cacos
E voltam todos para a caixa.
***
Sentir era tudo que estava ………Presente na saudade, …………………………..palavras, ………………………….nostalgia. …………..Presente na ausência,
na permanência da imagem. ………..O sentir parecia intenso, ………………tão grande. …..Ora restos, sobras demais. ……………..Fazia trocas de verbo ……………………Do sagrado verbo …….que ousaram pronunciar.
***
Como provar do tão abstrato …… e.n.c.a.n.t.a.m.e.n.t.o ? ……………………Seu brilho, ……………….luzes e cores, …………….vejo da sombra. …….A que torna o dia noite, ……………………….todo dia …………….L.o.n.g.o.s dias ……….a prever o teu sinal. …………..Rastro de medo, …………………fuga, …………………… saudade.
***
Incompleto
Guardo-me incompleto
na prateleira
meio bebido,
meio consumido,
meio gasto
um tanto preenchido,
um tanto abastecido,
um tanto conformado
Ora destilado velho,
recipiente empoeirado
Ora bebida cara,
de raro sabor
pelo tempo aprimorado
Um meio cheio
do que se acha valer
Um meio vazio
do que ainda quer ter
Um tanto ausente
do que deixou de ser
Um incompleto volátil
que não se pode conter.
Lorena é licenciada em Física, Mestre em Ensino de Física. Tem pela escrita encantamento e curiosidade. Procura nas palavras aconchego, distração, refúgio dos cansaços diários
O tempo, que era meu aliado, virou vilão. A gravidade e o colágeno, também. O silicone, que tornava fausto o meu corpo, escorre sinuoso pelas nádegas e pernas, alojando-se, invariavelmente, nos tornozelos. Incham, e não me deixam andar; uma passada ao banheiro é um parto que nunca tive. O rosto é um enigma variável, meses sim, dias não, me apresenta novidades, com formas que despertam certos sustos ou surtos ao acordar.
As inseguranças lancinantes me agravam o peito, muito mais que a aparência. Marli falava, “a beleza… ah, a beleza é troço fugaz, menina, escapa feito um átimo de cocaína”. Escapou-me, lisa, sorrateira. Aliás, parece que me escapou. E aí? Sem bronca.
Aproveitei. Pode apostar que sim, aproveitei. E digo que foram dias de glória, regados a champanhe – né esses trens de mentira, que enchem a boca para dizer: “Champagne!”. Emergentes brazileiros são mesmo risíveis…
Sou estudada e tenho classe, mas, ao contrário do que possa pensar, nunca levei desaforo para casa – daí concluía a força da mulher que domou o mundo com as mãos. Só não fui precursora de Rogéria porque abdiquei do trono, por um sumo amor – que jamais poderia revelar, para não comprometer uma morte, quiçá, tranquila.
Fiz o que fiz, não me arrependo um segundo. Aguarei minhas vontades e desejos quando ninguém sabia o que era mulher trans. E aí? Sobrevivi, mon amour, digna, altiva. Apenas me atormenta o tempo, que corre ligeiro. Ah, não fosse esse maldito delay entre mim e ele…
Fui a prostituta mais querida, badalada nos recantos que percorri, Europa, sobretudo Paris; e ainda, pasme, recebo elogios velados ou rasgados de lá, do outro lado do Atlântico. Sinto-me viva, pelo menos. Aqui me olham com desprezo, como velha meretriz. Só aqui. Tudo bem. Olhar não arranca pedaço. Não mexendo comigo, ah, meu bem, aí viro bicho.
Estou tentando me aliar ao tempo. Damos voltas; uma hora vamos nos encontrar e correr juntos, lado a lado, até o fim dos dias, oxalá que sim.
***
Orientações para o embarque
No quadro de pendências, antes de viajar, como de costume, aponto uma série de medidas, as quais me incumbo de resolver, para que minha mente permaneça tranquila – em parte. Não sou tão metódica (ou excêntrica) como mãe, dona Germânia, que no mês anterior à viagem já tem uma “lista de afazeres”, com medidas “exóticas”, quais sejam, podóloga para arrancar os cantos de unhas; trocas dos mega hair e aplicações de unhas de porcelana; intervenção com a toxina botulínica ou, no popular, estiramento de rosto, para chegar “bem apessoada”, entre outras cositas más, que não vêm ao caso – vou evitar o embrulho na leitura.
Dessa vez, por disposição minha, vou de mala e cuia para Brasília. Definitivamente, Mauriti deixou de me comportar – para lhe situar, caro leitor, falo de uma pequena cidade do interior, do interior do Ceará.
Estou há meses conversando com o Inácio. Parece ser uma boa pessoa; sabe cozinhar, limpar a casa, essas coisas que todo homem deveria fazer. Na lida do sertão, no máximo, os homens aprumam uma porta quebrada, as telhas (se as tiver), um calço na mesa, pequenos ajustes, nada demais. É uma afronta à sacra masculinidade mandar um homem lavar a louça, arrumar a cama, por exemplo – onde já se viu! Meu pai saiu de casa por desgosto, segundo bodejou por aí. A extravagante senhora minha mãe começou a ganhar dinheiro vendendo pães caseiros. Montou uma minipadaria, com os trocados que ia juntando. Resolveu, por si, assumir as dívidas de casa – muitas –, e meu pai, como um sensato cidadão que é, mandou ela ir se lascar com o seu dinheiro: “Não sou homem para ser sustentado por mulher!”. Mãe acolheu a decisão. Não quis mais saber de homem nenhum; se fosse de prestar, dizia, teria de ser o pai. Para ela, o peso daquela masculinidade atrapalharia os seus planos. Feminista e não sabia.
De lá para cá, perdi gradativamente o contato com pai, “o ser humano mais humilhado da paróquia” – foi o que me contou por último, chorando. Eu até entendo, de certa forma, bruto como papel de enrolar prego, limitado e açoitado pela vida, não podia expandir muito. Há séculos o cenário se reproduzia igual, ali, homem manda e mulher obedece. Ainda bem que não resultou em morte. Nos arredores de Mauriti contaram-se, no último mês, três feminicídios – um dos motivos pelo qual vou me debandar daqui.
Parece que mulher é ameaça; é indignidade à existência do homem, “é pau para estropiar um cristão”, nas mesmíssimas palavras de pai, o velho Sebastião. “Mulher não é maldição” – tive vontade de dizer –, nunca aceitei isso. É uma fobia tresloucada, uma fragilidade sem tamanho, só pode, diante da imensidão que a mulher traz consigo.
…
O tempo da existência circunscrita à labuta familiar passou. Eu mesma me orgulho de dizer que já superei isso. Sou filha única, bem-criada por mãe, e pude estudar longe, em Fortaleza, de onde agarrei, com unhas e dentes, a oportunidade de me formar em Filosofia. Minhas primas, coitadas, foram excomungadas pelas mães à constrição marital, uma com quatorze e outra com quinze. Pegaram dois buchos, em seguida. “Pronto, estão desgraçadas; o ‘destino maligno’ as impôs cuidar dos filhos e da casa”, pensei. Dito e feito. Os canalhas dos seus maridos, já muito folgados na condição, volta e meia os encontrava numa vaquejada, numa festinha; e as mulheres ralando para amparar as crias.
…
Quando desembarquei em Brasília, Inácio veio me encontrar logo no aeroporto. Espiritualizada, senti-me abraçada; um sentimento pleno de outras vidas. Deleitamo-nos em conversas, que não paravam de gerar outras, e outras, num loop infinito.
Sei bem que naquele dia, 21/01/2011, cabalístico, vibrava entre a excitação, a novidade e o encantamento. Inácio, que não era bobo nem nada, quis me levar direto para o seu ap. Caí como uma patinha. Fomos. O local parecia mais um abatedouro, com roupas espalhadas por todos os lugares; até calcinha vi. Perguntei se havia mulher morando com ele. Num acesso de loucura, agarrou-me pelo braço e esbravejou: “Você chegou agora, mocinha, já quer ditar as regras?!”. Assustei-me, comecei a chorar de medo. Não tinha o que fazer. Portas fechadas, sensação claustrofóbica. Deu-me um pânico e comecei a gritar: “Abre essa porta! Abre essa porta!”. Ele, parecendo que havia caído em si, voltou do transe, soltou o meu braço e desabou na cama aos prantos: “Me desculpa, vai?! Fui demitido essa semana. Estou um trapo… Fica comigo?!”. A demonstração de total descontrole emocional do sujeito desconectou qualquer expectativa de relação e, sem olhar para trás, de cabeça baixa, despedi-me e saí, para nunca mais.
Passados sete meses, entre abusos e desaforos, consegui entrar pela porta estreita da UNB. Antes, muito antes, nem sabia que esse mundo chocante existia. Penso, absorta, como a vida deu uma guinada para o norte. Só dependeu de mim – obviamente, com o suporte inestimável de mãe – estar no Mestrado em Filosofia e Sociedade. Vou concluir o curso com a dissertação acerca do patriarcado e dos modos seculares de controle social, e pisar na cabeça do machismo. Agora sou eu quem vai estropiá-lo. Boa linhagem essa de mãe, benza Deus.
Adriano B. Espíndola Santos nasceu em Fortaleza, Ceará. Autor dos livros “Flor no caos” (Desconcertos Editora, 2018) e “Contículos de dores refratárias” (Editora Penalux, 2020). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem prosas publicadas nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
É legal quando eu me deparo com um escritor fino, talentoso e sincero – quase um refrão do Lulu. Aquele tipo de pessoa que sabe aonde quer chegar. Que não se envergonha de suas influências, as usando com talento e sagacidade. Tudo em prol de um bom livro.
Paulo Bono é desses. Não se intimida se é Bukowski quem sopra melodias em seu ouvido. Ou se algo de Hammet desliza no teclado de seu computador. Ele segue na boa. Na busca de uma boa história.
Lançado em 2019, Sexy Ugly é um livro de 133 páginas editado pela baiana Mondrongo. Livro que me surpreendeu por vários motivos. Dos diálogos certeiros que dizem mais do que mostram, ao humor sem assepsias, esse escritor baiano, além de publicitário e flamenguista, mostrou ser um daqueles que respeitam o leitor.
E por que digo que fiquei surpreso? Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a “surpresa” em questão não tem a ver com a suposição de que Paulo fosse um escritor meia boca. É bem verdade que, antes de Sexy Ugly, havia lido pouca coisa dele – e isso tem mais a ver com minhas limitações. E também é fato que eu andava desconfiado de autores que assumiam o risco que Bono assumiu: transpor para uma realidade verossímil (e bem tacanha) aquela pegada forte e densa comum ao tipo de literatura que gente como nós admira.
O lance é que esse flamenguista assumiu o risco e vendeu o peixe. Desde a capa sensacional até cada palavra escrita, o que vi foi um autor com domínio total de suas intenções. Do começo ao fim.
De cara, posso dizer que Paulo é daqueles que curtem os escritores de “pegada forte”. Além dos já citados acima, identifiquei no livro coisas do Fante, por exemplo, mesmo com todo o humor inserido. Todavia, não falo aqui de imitações toscas, um tipo de literatura que simplesmente copia para um universo próximo – a realidade do autor, “por supuesto” – o estilo sem firulas dos gringos. Ao ser franco com suas certezas e ter em mente exatamente o que desejava, ainda que isso demandasse um trabalho de “levantar e derrubar pilastras”, Bono soube escolher o tom de sua obra. E tais autores serviram justamente pra isso: dar o tom; lastrear a história do Deco Ramone, o protagonista.
Os personagens são caricatos, mas não falsos. E nos lembram outras grandes figuras literárias e cinematográficas da mesma estirpe. A linguagem é crua e suja, sem desculpas nem receios. Algo louvável, principalmente em tempos de álcool gel e outras assepsias – ou, como bem disse o capixaba Saulo Ribeiro na orelha do livro: “lirismo de chorume”. De sujeitos com chapéus de cowboy, a femme fatales, temos um desfile genial, divertido e convincente (dentro da proposta do escritor) de pessoas que nos prendem e nos cativam. Pouco importando se elas conhecem o Conjunto Habitacional Feira VI ou se tomam umas no Rio Vermelho.
Daí o primeiro risco: ao escolher trabalhar com indivíduos tão marcantes, os colocando em “cenários” tão próximos – Salvador e Feira de Santana -, Bono poderia ter errado feio a mão. Ou a demão. Não foram poucos os livros que li onde o artista, preso ao sedutor “complexo de Factótum”, apenas copiou, de forma deliberada, ideias centrais e batidas dos escritores pertencentes a essa linhagem. Ainda que suas influências fossem claras, e aparentemente pensadas, Paulo soube dosar bem o uso de tais “personas”. Ele foi muito hábil ao mesclar tais escolhas com suas próprias experiências. E nada sobra no desenrolar da narrativa.
Assim como Paulo Bono, Deco Ramone, protagonista do romance, é um publicitário à beira de algum abismo. Sem grana, sem escolhas, e prestes a ficar longe da filha, ele é contratado para um estranho “job”: criar um roteiro para uma casa de tolerância que atende somente aleijados e párias em geral, incluindo os de “pau pequeno”.
A partir desse ponto, o que vemos é uma obra deliciosamente maldosa, ácida, direta, sedutora, curta e instigante. Em resumo: arriscada.
E isso se deve não somente às inspirações vindas da literatura. Ao ler Sexy Ugly, coisa que fiz em duas tardes (e isso não é demérito), percebi que o também roteirista Paulo bebeu (e fumou) em outras fontes artisticamente válidas: falo dos grandes seriados que, nas últimas décadas, vêm mudando nossa maneira de entender e perceber a linguagem televisiva e/ou cinematográfica.
De Breaking Bad à série A Sete Palmos, desconfio que Bono captou algo escrito pelo jornalista Brett Martin em seu livro Homens Difíceis. Além disso, suspeito que ele também compartilha, de certa forma, alguma coisa das ideias defendidas pelo Enrique Vila-Matas, num artigo onde o espanhol cita Mad Men e sua reconciliação com o que ele chamou de “formas breves”.
Isso sem falar no Tarantino ou no lendário Lebowski, presentes diretamente em Sexy Ugly.
Existe muito de cinematográfico no andamento de sua escrita, bem como na elaboração dos diálogos, outro ponto fundamental na obra: os diálogos são o seu “parque de diversões”, como ele mesmo chegou a dizer numa entrevista aquimesmo. As conversas, por si só, conseguem preencher boa parte do livro, sem travar a leitura nem trazer confusão. Capítulos inteiros (apesar de curtos) são “só” isso. E “tudo“ isso é feito de forma tão direta e ritmada, que até as reticências se tornam menos reticentes.
Paulo põe na boca (sem malícia, por enquanto) dos personagens falas que refletem o que ele realmente deseja mostrar: se profundidade ou escracho, tanto faz. Entretanto, mesmo que a ideia seja filosofar ou sacanear (coisas bem parecidas às vezes), tudo é feito com destreza e humor, umas das melhores formas de entender, enxergar e suportar esse mundinho que precisa lavar as mãos, inclusive entre os dedos.
“ – Sério, pai? Você deu em cima da Cássia Eller?
– Só pra descolar uns ingressos.
– E aí?
– Ela preferiu minha namorada.
– Eu queria muito ter ido num show dela.
– É, mas só pagodeiro que não morre. “
Isso é Deco e sua linguagem suja. Para que possamos lavar a alma…
Quanto à profundidade, elemento tão buscado no fazer literário, não posso afirmar que Bono teve isso em mente durante o processo. Acho até que não foi sua intenção: continuo acreditando que ele buscava uma boa história. O que já vale muito a pena.
Contudo, e nem sei bem por qual motivo, em alguns momentos consegui perceber e enxergar algo mais, digamos, “cabeça”. Como uma mensagem subliminar e escondida, meio de bobeira. E isso tem muito a ver com o humor, elemento chave em Sexy Ugly.
“Comerciais de presunto. Nada mais distante da realidade. Ninguém ostenta tantas fatias de presunto dentro do pão. Lembro de quando garoto. Era preciso dividir uma fatia entre quatro irmãos. É uma das poucas vantagens de alcançar a vida adulta. Comer quantas fatias de presunto o rabo aguentar.”
Tudo bem, tudo bem, já até posso enxergar um ou outro torcendo a boca. Perguntando-se como Gustavo enxergou profundidade nisso. E não vou elencar as possíveis mensagens contidas nesse trecho ácido e bem humorado. Entretanto, creio que não podemos também esvaziar por completo o fragmento acima. Defendo a ideia de que o leitor faz o livro. E costumo exercitar isso com frequência.
Além do mais, podemos enxergar críticas ao que somos nesses dias terríveis em outras páginas: do racismo na publicidade à necessidade de gourmetizar tudo que é bom e vital, incluindo sorvetes e churros. Numa vidinha morna e sem lactose.
Na base do humor (sempre ele), e de um cinismo bem articulado, Deco Ramone nos atiça com questões que geralmente deixamos pra lá, enquanto ele mesmo luta para sobreviver. Todavia, o cara faz isso sem forçar a barra. Sem querer voltar no tempo, e viver sob o mesmo teto que a Simone de Beauvoir.
Bem sei que toda resenha é tendenciosa. E, sempre que faço uma, pareço exagerado nos elogios – e provavelmente não muito retórico nas justificativas. Porém, ao ler Sexy Ugly, realmente enxerguei um bom livro. Sincero, bem contado, engraçado e direto.
E pouco me importa se ele será criticado pela suposta imitação de um estilo “maldito”, o tal clubinho Factótum (nada a ver com a moçada boa que divide com Paulo inspirações e viagens literárias). Quando o autor, ao trabalhar em sua obra, se sente conciliado com as próprias escolhas, tudo dá certo. Na medida em que ele também se insere nela.
O fato é que Bono é um cara de talento. E, ainda que algumas figuras presentes no livro nos pareçam a priori estereótipos, como o sujeito com pinta de cowboy num bar do Rio Vermelho, a dúvida sobre o artista e suas capacidades acaba se diluindo no caminho. Ao vermos que o desejo do mesmo é o de nos contar uma história. Sabendo como nos conduzir em sua ideia.
Ao trazer aquele tipo meio caricato de pária e marginal, essencial para que Sexy Ugly funcione, Paulo bem que poderia ter caído no ridículo. Se a gente pensar nos autores sem talento que costumam replicar suas influências, reescrevendo um bando de figuras deslocadas e sem brio.
Para mim, entretanto, de nada vai adiantar reduzir o valor da obra com teorias vazias e rancorosas. Se um cara resolve tocar um bom blues, Howlin’ Woolf deve ser lembrado. O mesmo pra Gonzagão.
Com isso, pensar em criticar Bono pelas escolhas, é meio que reforçar a ideia de que, enquanto nordestinos, somos eternamente responsáveis por um tipo de reserva estilística. Aquele regionalismo arrastado e chato, ou aquela urbanidade estereotipada, multicolorida e batuqueira (não sejam mesquinhos ao interpretar essa ideia, por favor).
Acredito que devemos ser livres. E devemos confiar em nossos passos cada vez mais longe desse “comportamento de Nonada”. Se tal comportamento resultar em bons livros, obviamente.
Foi o caso de Paulo. E é por isso que digo: confiem nele. Nele, no livro e no Deco Ramone. A viagem será boa, eu mesmo garanto.
Gustavo Rios é baiano. Autor de “Rapsódia Bruta”, entre outros.
memória, essa lâmina que não vem só com corte mas o cheiro dos móveis o vapor do olhar a temperatura do dolo
as horas em torno
memória, esse som
que escava
regurgita
apodrece
o urro mais largo
o vazio da prece
memória, essa língua dentada
esse punho tombado
essa voz sem assento
memória
esse eco sozinho
esse tempo sombrio
a saudade de cada
memória,
esse espólio de guerra
***
nãos tempos
não temos tempo de perder o trem
olhar no olho
parar ouvir
não temos, tempo, veja bem as horas
veja bem a
veja
não temos saldo paz joelho asilo
temos fome miséria temos filhos
não temos tempo de pedir à mãe ao pai à amada
pátria, não temos tempo de dizer
não
não temos tempo de tratar a morte o açoite a voz
não temos tempo de temer
sequer
***
ontologia
o que é isso que a vida
tem feito conosco
passam-se os anos
fincam-se as farpas
o que é isso que o tempo
crava na pele
enrugando a coragem
constipando a voz
o que é isso que a gente
tem permitido
jazigos de sonho
esses nossos co
pos
o que é isso amigo
você está longe
aonde foi que embarcamos
ou
o que é isso que há
feito fumos lúcidos
tragamos
o que mais podemos
o que é
escute
não olhe no espelho
em que ponto da rua
nos
***
amor dest’era
o nosso amor tem o som de um animal sofrendo
o nosso amor, eu não sei, anda puxando uma perna
ou talvez tenha deficiência de sol
o nosso amor, parece, dorme no enorme vão de ar que atravessa nossas espinhas
à noite
o nosso amor tem visto demais e escutado palavras extremas
o nosso amor perece
não sei
perdendo
até aqui
o nosso amor tem uma bala
no ventre
***
à meia voz envio
um sorriso
um alento
uma mão
uma linha
quem sabe para guardar, quem sabe para sempre, quem sabe em algum lugar virtual onde a memória suspende onde compartilhamos a vida quem sabe pra gente com certeza pra poucos que sentem mas os bem poucos e seu poder imensurável que se querem sabem de tudo e usam sem rastro a vida moldando a memória soterrando o bagaço ameaçando a mão esfumando o alento apreendendo sorrisos
essa meia voz não
é o nosso presente
não cala
***
ah a vida e esse cheiro que vela
como um cavalo no escuro no pesadelo da espora
como uma grama que acorda molhada pra ser pisada
como um refém que habita o esconderijo da porta
como uma escolta. paulatina. versando que a vida há
Dheyne de Souza é goiana, está morando em São Paulo e sustém um blog. Tem um canal de leitura de poemas, em parceria com Helô Sanvoy. Os poemas desta seleção estão no recém-lançado “lâminas”, pela Martelo Casa Editorial.