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137ª Leva - 04/2020 Ciceroneando

Ciceroneando

 

“Diálogo”: Claudio Parreira

 

Eis que a Diversos Afins completa 14 anos de existência. De lá para cá, navegamos muitas águas, movidos sempre pelos atrativos da palavra e da imagem. Acostumamo-nos ao flerte constante com todas as possibilidades narrativas que dialogam com nosso projeto editorial. Por ser um território difusor de expressões do pensamento através da arte, a revista tem logrado êxito porque, acima de tudo, conseguiu fomentar encontros. Sempre é bom lembrar que, por trás de cada colaboração presente em nossas páginas e galerias, há rostos que subscrevem suas criações, gente de carne e osso que nos conduz pelas alamedas de suas obras. A riqueza maior do nosso trabalho tem sido a construção de uma valiosa memória coletiva de textos e imagens, todos eles tributários de diversos segmentos culturais, tais como a literatura, o cinema, o teatro, a música e as artes visuais. Desde a fundação da revista, em 2006, um grande e plural acervo foi sendo construído e contempla, ao fim e ao cabo, registros de tempos, de movimentos internos dos escritores e artistas que foram sendo expostos voluntariamente ao longo dos anos. Todo o conjunto de publicações advoga pela defesa incontestável da manifestação do pensamento através da criação artística, e é sempre bom reafirmar isso, ainda mais no momento em que vivemos, o qual traz consigo a energia de algum obscurantismo a tentar nos devassar. De todo modo, não cederemos ao ideário de destruição que, por exemplo, teima em dinamitar o campo cultural brasileiro. Seguir adiante é mais do que resistir, significa exaltar vidas, mostrar que cada uma delas tem algo a nos dizer. Por isso, seguimos, prestando atenção nas vozes que se aproximam. E o momento traz até nós os poemas de gente como Ricardo Thadeu, Elizabeth Hazin, Galvanda Galvão, Wesley Peres e Ângela Coradini. É especial a entrevista que Sérgio Tavares fez com a escritora Ana Paula Lisboa, cujo pensamento nos instiga a refletir sobre demandas urgentes de nosso tempo, como é o caso do racismo. Girando no nosso Gramofone, está “Cinzento”, o novo disco de Marcos Valle pelas impressões de Pérola Mathias. Nas linhas de Geraldo Lima, uma leitura para “Cinevertigem”, livro de Ricardo Soares. Nossos cadernos de prosa, são embalados pelas narrativas de Jonatan Magella, Maria Lutterbach e Aleilton Fonseca. Com todo seu apreço pela sétima arte, Guilherme Preger nos brinda com uma atenta análise sobre o filme brasileiro “Piedade”, do diretor Claudio Assis. Nas reflexões de Gabriel Morais Medeiros, a temática da necrocidade perpassa a poesia contemporânea. São as colagens digitais de Claudio Parreira que, com o brilhantismo das inquietações, povoam todos os recantos de nossa nova jornada editorial. Dedicamos a 137ª Leva a todos aqueles que tiveram suas vidas ceifadas pela covid-19, pois para nós essas existências jamais serão meras estatísticas. Nosso muito obrigado a todos os leitores e colaboradores das mais distintas eras. Salve!

Os Leveiros

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Galvanda Galvão

 

“Muita fumaça na cabeça”: Claudio Parreira

 

3la

 

ela acendia todos os cigarros
adorava a memória dos dias
a pressa e as caixas
globos de fogo nas mãos, a corrosão

no burburinho do barco ouvia-se toda a família
a mãe o irmão da mãe o pai numa fotografia obscurecida
não se falava ali
ela insistia numa cantilena
não a conheço e a amo
inventava sinais pra abrir labirintos
vozes nos corredores
a indeterminação
a sombra
a repetição  –  fica
demoro-me numa obra aberta
espero o mar

 

 

 

***

 

 

 

se você me encontrar? atravessa-me

 

ela sob a muralha da China
instinto de liberdade diz
a companhia presente de solidão
mão pé um corpo nas manhãs
a noite não tem cor
grafava as linhas caídas do papel
abstraía vendaval com barbitúricos
a massa gritada no comercial atrás da porta
a raiz quadrada
o fazer
havia um nome no indeterminável
não ser ela resquício de existência
meudeus
triturava as correntes o sal
a barbárie no giro do relógio
quebrar a cabeça
soprar as minhocas

estamos e não estamos
num mundo voluntariamente sibilino
precisão de certeza

 

 

 

***

 

 

 

protocolo clinico e diretrizes terapêuticas
essas palavras ecoaram quando desenhava o risco
Michaux num alfabeto não nomeado
todas as letras escapavam
davam-nos sinuosas sombras
fechava os olhos
círculos birutas prolegômenos ou introdução
o feminino são dois
pedras adensavam a ventania
meu suor e medo estáticos
raízes em doses homeopáticas

um bárbaro pinta Beatriz vermelha
performance erótica de um anjo
contra uma identidade trágica a violência da serpente
rasgava a bula
não acentuava palavra

 

 

 

***

 

 

 

ela pensava as trilhas com K
no Egito o sol tem os braços peludos

nos mínimos detalhes
o pertencimento
a realidade no caos reverbera

perto desarranjava
a língua os objetos
fora de lugar
único e multiplicado
pele transparente
pulsa ante a força aquática
o que está junto se mistura

palavra-mão
o infinito
pergunta insistente

sem pressa continuar

o vão o silêncio a montanha
na pedra o deserto
superfície, abismo
memória instantânea
o corpo extraviado
o que fica da aparência
vigor destilado
cadente morte
…………………………………………. [outra

 

 

 

***

 

 

 

o peixe elétrico
saltava Sodoma
em verso Dionísio
havia de beber
uma precisa liberdade
cogitava montanha
era rio
singular obsceno
tocava estrelas
viragem
explodia num corpo seu outro
guelra sangue coadunado
na pedra penetrava
lusco fusco burburinho
memórias acendiam o presente com cara de homens
a rede a morte
estendia olhos e dentes
ele sabia voar guardava um desassossego

 

 

 

***

 

 

 

Ela n.2

 

as mitologias nas prateleiras
num não lugar, diz-se, virtual
ela observava catálogos
páginas abertas para uma expressão singular
uma repetição contínua
a obsessão e o jogo
amianto na cidade, sufoca e protege

pulmões, árvores condicionados
o destino não enxerga correspondência
uma cartomante entrega muiraquitã numa piscadela
lembro de Levi Strauss
as palavras dela são as primeiras apagadas
vício de linguagem, sobrevivência
esta carta deve ser enterrada
afirma
já nem sei quem fala
os funâmbulos em páginas
mensuraram questões pontuaram
voltava às prateleiras

não lembrava o nome do deus

 

 

 

***

 

 

 

eu era Ana
avesso Cesar
cigarros e bombas
pensei
imaginava estrelas
queria enxergar longe
tocar estações
galo e sol enredados
cartografar continentes
carregar questões
ruminar o vazio na barriga do rei
varar geleiras
adentrar a pele
colar a sombra
descabelada voar

 

Galvanda Galvão, videoartista, colagista, fotógrafa, professora e escritora do livro UMLANCEDEDENTES da Edições Do Escriba & uxi.cão, 2017, reedição, 2019 e AMENINAANOLIMOC da editora uxi. Cão, 2013. Sou pesquisadora do PPGARTES-UFPA em Cinema sob orientação do Prof. Dr. Orlando Maneschy.  Participo do Projeto plataforma Kaquiado do Preamar de Cultura e Arte da Fundação Cultural do Pará coordenado por Felipe Pamplona 2020.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Piedade. Brasil. 2019.

 

 

Piedade é a última obra do diretor brasileiro Cláudio Assis. Lançada no Festival de Brasília de 2019, lamentavelmente por causa do período de pandemia, o filme não passou nas salas de exibição pública, sendo transmitido gratuitamente num único dia por uma plataforma de mídia digital sob demanda. Assim, infelizmente a assistência individual prejudicará a recepção coletiva dessa importante obra que coloca em questão os marcos econômicos, afetivos e civilizatórios da sociedade brasileira contemporânea.

A história do filme se passa numa praia próxima à cidade de Recife, denominada exatamente Piedade. A localidade é ficcional, não sendo necessariamente a praia de mesmo nome em município contíguo à capital pernambucana (na realidade, a produção da filmagem ocorreu em Cabo de Santo Agostinho).   No filme, a praia se encontra ao lado de um estaleiro de uma empresa de Petróleo denominada PetroGreen. O estaleiro lembra o Porto de Suape real (na verdade foi filmado a seu lado), cuja construção é considerada como o principal motivo dos constantes ataques de tubarões das praias ao redor. Na praia do filme também ninguém pode tomar banho de mar por causa dos tubarões, problema que se repete nas praias metropolitanas de Recife, inclusive na própria Piedade real.

A história envolve o bar de Dona Carminha, matriarca viúva vivida pela atriz Fernanda Montenegro. Aurélio (vivido pelo ator Matheus Nachtergaele) é enviado pela empresa petrolífera para comprar o bar que está à beira da praia de Piedade. O bar é o centro de uma comunidade local que se sustenta trabalhando no estabelecimento e dividindo comunitariamente os ganhos. A empresa de Aurélio pretende se expandir para a faixa litorânea onde o bar se situa. A oferta de Aurélio é tentadora, pois, devido à presença do estaleiro, os terrenos litorâneos estão desvalorizados. No entanto, o filho mais velho de dona Carminha, Omar (vivido por Irandhir Santos), se coloca contrário à venda.

 

Foto: divulgação

 

Omar é contrário ao negócio, pois, embora a praia esteja degradada pela presença lateral do estaleiro e a proibição do banho de mar pelo perigo dos tubarões, o bar ainda é um pedaço de natureza que resiste ao avanço da economia predatória. A vida livre e despreocupada da comunidade se dá num terreno fronteiriço, exatamente no limiar entre a economia extrativista do petróleo e a economia solidária, baseada no atendimento pessoal, na alimentação e na culinária marinha. Mais do que uma porção preservada de natureza, o que há na comunidade é uma amostra de sociabilidade nativa, que guarda a memória afetiva e histórica do território.

Mas Aurélio é um personagem fáustico que tem não apenas o dinheiro das indenizações a oferecer, mas também traz o discurso empreendedorista, com seus argumentos meritocráticos e individualistas, capazes de levantar a cobiça e a ambição dos moradores de Piedade. Contra a resistência que ele encontra da comunidade, em particular de Omar, ele desencava uma obscura história familiar de Dona Carminha que conduzirá a família a Sandro (vivido por Cauã Reymond), que é dono de um cinema pornô no Centro de Recife. Essa história irá emergir como uma bomba traumática no seio antes pacificado da família de Carminha e de Omar.

O enredo de Piedade então se constrói na oposição ferrenha entre dois modos de existência quase incompatíveis: o da comunidade livre e autossustentável e o da economia extrativista e predatória. Esses dois modos estão representados na caracterização antagonista entre o demoníaco Aurélio e o idealista Omar. Aurélio é um típico emergente paulistano, cínico, oportunista e endinheirado, que leva uma vida hedonista de conforto padronizado e inautêntico; enquanto Omar, sempre de bermudas, chinelo e cabelos longos desalinhados, tenta desfrutar da vida como ela se apresenta, sem grandes ambições. No entanto, há ruídos nessas caracterizações: o idealismo pacificado de Omar esconde sua insatisfação e sua revolta com a degradação ambiental do suposto progresso econômico ao seu redor, e a homossexualidade desabrida de Aurélio parece esconder a recusa vexaminosa de seu passado provinciano e conservador, representado por sua mãe, com quem conversa virtualmente.

 

Foto: divulgação

 

Neste filme de Cláudio Assis há semelhanças com o também pernambucano Aquarius, de Kleber Mendonça (2016), pois em ambos vemos a defesa de personagens contra a especulação imobiliária e a favor da memória afetiva, em Aquarius mais individual, enquanto em Piedade mais coletiva. Em ambos se apresenta o conflito entre os modos de vida locais e o avanço destruidor do progresso econômico. A comunidade nordestina algo idílica da praia ficcional de Piedade também lembra a existência livre da comunidade dos jovens artistas do filme Febre do Rato (2012), do mesmo Cláudio Assis. Os três filmes trazem também de semelhante a presença do ator Irandhir Santos. Mais do que influências mútuas ou mesmo referências comuns é preciso compreender a relação entre esses três filmes como uma espécie de conversação cinematográfica. Todos esses filmes colocam em questão a lógica da voracidade consumidora do modelo de extrativismo econômico das últimas décadas no Nordeste. Esse modelo devora não apenas os recursos naturais, mas também as linguagens, os modos de vida, as memórias e as esperanças dos personagens.

Daí que o protagonista do filme talvez seja mesmo o tubarão. A primeira cena deste filme de Cláudio Assis é de jovens surfistas nus e mascarados em cima de suas pranchas protestando por não poderem mais tomar banho de mar por causa do perigo dos tubarões. Mas a suposta agressividade desses peixes é tratada no filme não com temor, mas com solidariedade: os tubarões são tão vítimas quanto o povo pernambucano dos desequilíbrios ecológicos provocados pelo modelo extrativista. Na verdade, o tubarão-peixe é uma alegoria do verdadeiro tubarão-humano representado pelos empresários cínicos e diabólicos como a personagem de Aurélio. O modelo extrativista traz em seu bojo a lógica monocultural que se manifesta nos trajes acinzentados e na postura higienizada e desafetada da personagem ficcional de Nachtergaele.

 

Foto: divulgação

 

Pela via metafórica da imagem do tubarão pode-se entender a perspectiva fundamentalmente alegórica e memorial de Piedade. Nesse aspecto o filme está mais próximo da obra anterior de Assis, Big Jato, com o mesmo Matheus Nachtergaele, que era uma construção memorialística e alegórica da infância de seu autor, também escrito pelo roteirista Hilton Lacerda. É possível dizer que o filme trabalha com um deslocamento metonímico e alegórico em relação ao retrato da sociedade brasileira: há uma praia brasileira de Piedade que não é a mesma do filme. Há um estaleiro de Suape que também não é o mesmo retratado no enredo. A empresa poderia ser a Petrobrás, mas denomina-se PetroGreen. O cine-pornô de Sandro se chama Mercy, que é o termo em inglês para Piedade. Vários atores do filme, inclusive seu próprio filho, participaram de obras anteriores do diretor. Numa das cenas, que ocorre no cine-pornô, o projetor passa imagens do filme Baixio das Bestas (2006) e por um momento o corpo do ator Cauã Reymond é filmado em meio às projeções iluminadas do filme anterior de Assis.

Essas conversações cinematográficas com obras anteriores compõem um enredado de imagens que não apenas reflete e confronta outras representações mais diretas da assumida realidade brasileira do novo século, ou suas formações ideológicas, mas tecem uma trama figural daquilo que é e do que poderia ser. Ou seja, são figuras de mundos possíveis. Essa figuralidade fílmica ganha então uma potência onírica que é ambivalente, e por isso capta não apenas a guerra de poderes, mas também os desejos, as memórias e as esperanças de seus personagens. Justamente, em Piedade, a cena mais crucial do roteiro é indecidivelmente ambígua: trata-se de um sonho ou de uma cena vivida?

Assim, de modo contrário ao filme igualmente onírico Bacurau (2019), também de Kleber Mendonça, se o desfecho será de vitória ou de derrota para a resistência popular é de menos importância. Cláudio Assis tem desmontado a própria necessidade trágica dos desfechos catárticos ou sublimes. Piedade traz em seu título a recuperação de um afeto básico que está em falta nas elites dominantes e nos códigos monoculturais de seus modos de produção e exploração. O afeto da compaixão não tem sentido nesse mundo unidimensional, mas é ele que colore com maior ou menor melancolia as lentes desta obra mais recente do diretor pernambucano.

 

 

 

Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Maria Lutterbach

 

“Os Bodelaires”: Claudio Parreira

 

Fuga número 1

 

No meio do país ainda se acredita em Deus e no casamento, as pessoas vão à praça, fazem festas na calçada da igreja, sorriem e comem carne em churrascos civilizados lá no meio, longe de tudo, perto do mato e da água, onde poderiam ser mais selvagens, acreditam no progresso e confundem progresso com:

 

Deus
emprego
casamento
previdência
e morte

 

A gente não cresceu ainda, então é mais fácil fingir de doida e escapar da catequese para ir nadar, correr léguas da catequese e zunir da missa, cruzar a rodovia na garupa de uma moto e queimar a batata da perna, beijar atrás de um caminhão pisando em galho seco, fazer gangue para roubar bombom, se depilar na casa de uma tia
estranha
voar para muito longe dali
e nunca mais voltar

 

 

 

***

 

 

 

Fuga número 2

 

Se tudo começa quando a gente fala, então as palavras eram:

 

mapa
mala
festa de adeus
(último) contra-cheque
salto
medo
vontade

 

Socar tudo em duas portas de armário, vender a mãe e a sogra num mesmo pacote, telefonar para aquela prima distante, cavar uma carona no sete de setembro e varar as montanhas para pegar essa garoa que molha a alma e às vezes demora a secar.
mas seca
e a gente aprende que é bom
carregar capa de chuva

 

 

 

***

 

 

 

Fuga número 3

 

Ali está um bueiro (a palavra é alcantarilla, em espanhol) feito para quem não teme passeios pelo subsolo dos diabos brancos, como o da carta do tarô.

 

– desça, diz o lobo
no eco de um bom mistério

 

Metros abaixo, a vista embaralhada de desejo e perdição, exploro corredores compridos, sem bússola nem lanterninha. Viro menina-morfina sob um feitiço amoroso que abraça e paralisa.

 

– dance, ri o lobo
ao som dos seus maiores medos

 

Nas galerias que servem como salões de baile, sou vestido, maquiagem, laço grande no cabelo. Quase não sei por qual buraco entrei e tenho um arranhão vermelho no pescoço quando a festa termina.

 

– fuja, rosna o lobo.
com uma boca enorme que me morde forte
mas assopra sempre que o primeiro raio de luz
atravessa nosso quarto

 

Maria Lutterbach (1982) é mineira e vive no Rio de Janeiro, onde escreve e realiza projetos audiovisuais. Foi cronista do jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, e colunista convidada no blog da saudosa Cosac Naify. Seu romance de estreia, “Baixo Araguaia”, será lançado em breve pela editora Quelônio (SP).

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

MARCOS VALLE – CINZENTO

 

 

Claro que em janeiro não sabíamos o que estávamos prestes a viver pelos próximos 7 meses: uma pandemia. Mas já tínhamos fatos e dados suficientes para saber que, sendo brasileiros, teríamos um ano difícil – ou, no mínimo, desafiador. Ao menos em termos econômicos e políticos. E parece que o disco de Marcos Valle, lançado ainda no primeiro mês do ano, parecia já dar conta desse ar no qual estamos imersos. Seu título é “Cinzento”, e traz na capa uma foto em que Valle aparece sério, envolto por um plástico transparente.

Marcos Valle tem quase 60 anos de carreira. Seus discos marcaram fases e períodos diversos da música brasileira, justificando que um crítico o considerasse, ele mesmo, um gênero musical; caracterizado pelo “estilo valleano”, na qual cabe bossa, cabe experimentação, cabe jazz e cabe pop.

Ao ouvir “Cinzento”, três aspectos parecem saltar aos ouvidos. O primeiro são as letras e os arranjos. Elas soam atuais, urgentes, feitas mesmo com a consciência de que o agora precisa ser transformado para continuar existindo. O segundo é que o disco foi composto por parcerias diversas: a clássica de Marcos com seu irmão Paulo Sérgio e também com uma geração bastante conhecida de músicos cariocas, mais novos que Valle. Entre eles, Moreno Veloso, Domenico Lancellotti, Kassin e Bem Gil. O músico também recuperou uma parceria sua com Zélia Duncan, ainda inédita. Somam-se ao time, ainda, Jorge Vercillo e um dos maiores cancionistas do país, Ronaldo Bastos. A faixa de abertura e a faixa-título do disco são de uma parceria inusitada, porém bem sucedida, entre Valle e o rapper paulistano Emicida. O terceiro aspecto é a leveza com que o disco consegue ir de um retrato da realidade ao tema do amor. O que lembra o feito do músico no seu clássico “Previsão do tempo”, de 1973. E é preciso dizer que essa “leveza” é implícita no som característico de Valle, e não resultado de uma negação da aspereza da vida real.

 

Foto: Jorge Bispo

 

Logo no primeiro minuto, é impossível não se render ao groove de Valle somado aos versos “Se tudo é ciclo, me reciclo e volto mais bonito, ano que vem/Em tudo eu acho graça/Mesmo em meio à desgraça/Entendo e rendo graça/Que a vida ainda é de graça”, que soam como profecia ou mantra.  “Cinzento” também traz o tema do tempo, cita o deus Cronos como um ser de fome voraz. Mas sem o movimento do tempo, não há aprendizado. Admitindo a grandeza do tempo, é possível libertar a alma. E Valle e Emicida deixam o recado: “Pra ciência e outros campos que aciono/Alinhado com cada cromossomo/Grisalhos cabelos dizem bem como somos/Bem tranquila nos aguarda num domo/A cinza sabedoria de cajado e quimono”.

“Se proteja”, parceria com Bem Gil, também parece trazer um recado de como enfrentar dias difíceis: olhando para si mesmo. Diferente das composições que Valle assina com Moreno, Kassin e Domenico, nas quais predomina a temática amorosa. As músicas são “Redescobrir”, “Lugares distantes” e “Pelo Sim, Pelo Não”. Nesta última, a cantora Patrícia Alví, também esposa de Valle, canta junto a ele.

A letra de Jorge Vercillo em “Só penso em Jazz” faz tremer as teses críticas escritas por José Ramos Tinhorão nos idos dos anos de 1960. Nela, o sujeito revela uma completa paixão pelo jazz, que poderia ser completamente sem sentido, já que “cê fica louco” e “cê ganha pouco”, diz. Mas a alegria do som vale a pena e ele termina ligando nomes de diferentes vertentes da música brasileira, não apenas da bossa nova, ao jazz, como Ivone Lara, Capiba e Luiz Gonzaga.

“Cinzento” saiu pelo selo brasileiro Deck Discos, menos de um ano depois do disco “Sempre”, lançado em junho do ano passado pelo britânico Far Out Recordings. Esse último tem uma sonoridade mais ligada à bossa, enquanto o último soava mais funky e pop. O disco pode ser um belo afago para sua quarentena, caso ainda não tenha escutado.

 

 

Pérola Mathias, doutora em sociologia, pesquisa música contemporânea e é autora do blog Poro Aberto.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Wesley Peres

 

“Angústia”: Claudio Parreira

 

 

tatuagem
sonora nº2 para
criança de seis
anos e oboé

 

……………………….O  HOMEM COISA CÓDIGO  alguma
invertebração   recifra a  angústia  substância  limítrofe
e análoga ao  silencioso  gozo  sonoro   em  sua  morte
instilada  nos poros gemidos  bordas  erógenas  fazem
vibrar os  átomos  até  sangrarem  também  o  lugar do
corpus   da    palavra    minério   inervado  resto  vivo  o
nada   dos  corpos  ancestrais, rastros ventos pássaros
passaram     alando    túmulos    de    cadáveres    vivos:
palavras.   Gerações   passadas  restos  de cotidiano  e
restos     pelos    sonhos    sonoras   vertebrações   em
vértebras  vértices   remoendo o corpo parolando com
a morte esse eutro na sala enquanto o meu pó da pele
ele                     se iluminam de objetos

 

 

 

***

 

 

 

atoms at work

para Campos de Carvalho

 

A maçã sobre a cadeira.
Uma noite, dentro da maçã.
A criança, sequer vê o vento,
senta-se, trincando a noite
da matéria
(Os cães, sim, latem —
..os únicos a escutarem o instante
..em que o mundo se torna o mesmo).

 

Um homem esperando o trem

adivinha a criança

é mais feliz do que o outro
aguardando a eternidade.

 

A chuva imóvel contém
nossos possíveis passos.

A infância é mesmo indestrutível.

 

 

 

***

 

 

 

Poema gerado de implosões  do
Levítico      e      de    impressões
deixadas por haver   acontecido
o que não acontece em Goiânia
1987

 

 

E   ACONTECEU  O  QUE  NÃO  ACONTECE  E  DESCOBRIU-SE   QUE  AS  foices
também  podem    ser      azuis  e   foi um pássaro   amitológico   mortoabertorasgado
pela invisível  lâmina  azul que simulava  cidade  vista  de   cima  e à noite no corpo nu
da mulher  de longos  cabelos   dona  do   pássaro  amitológico   mortoabertorasgado
e  foi   na  cidade  de   sol   sólido  e  em  setembro  e  o sol  sólido  da cidade  e  tudo
permanecia   quando   alguma   pessoa   tocar    em   corpo   morto    ainda   que   não
soubesse,    contudo   será   ele  imundo  e  culpado. Culpada,  esse  o veredicto dado
pelo    polvo   de   mãos   alando   e  espedaçando  lápides  sobre  o  caixão da menina
eviscerada   pelo   azul  que  não  se  vê.   Porém  pode-se  usar da  gordura  de corpo
morto,  e  da  gordura  do   dilacerado  por  feras,  para  toda a obra, mas de nenhuma
maneira   a   comereis.  Invisível   e  sem  cheirodor  esse azul  esse maldororazul  que
captura   vísceras   e   lambe-lambeu   por   dentro  o  corpo  da menina  eviscerada  e
apedrejada    por     vozes     uma    verdadeira    aletria    sonora   corpodecão   outros
vitupérios singulares e  plurais.   E  aquilo  sobre  o   que  cair  alguma   parte   de  seu
corpo morto,  será  imundo;  o  forno  e  o  vaso de barro  serão  quebrados;  imundos
são.  E  quem   comer  do  seu  cadáver lavará as  suas vestes,  e   será  imundo  até  à
tarde; e quem levar o seu   corpo morto  lavará  as  suas vestes  e  será imundo  até  à
tarde.   E   todo   o   homem  entre  os  naturais,   ou   entre   estrangeiros, que comer
corpo  morto  ou  dilacerado,   lavará   as  suas  vestes  e se  banhará com água e será
imundo     até    à   tarde   e   depois   será   limpo.   E  devorada  de  azul  e   pedras  e
vitupérios   tentaram   fazê-la   ela   a  menina  eviscerada  morrer  uma segunda  vez,
assim como Judas  morreu    uma  segunda  morte  ao  trair  Cristo  antes  mesmo  de
morrer  a  primeira.   O  corpo  morto  e  o  dilacerado não comerá, para  que  não   se
contamine com ele.

 

 

 

***

 

 

 

AGORA SÓ ELA E SUA CAMA SÓ ELA  E seu
corpo    decalcado   na   cama.  Fala  decerto a
língua dos  mortos, decerto menos deserta do
que a língua dos  vivos.   Ela,  só,  na casa-de-
receber-enfermos.    Enfermo,   essa   palavra.
Recobre  apascenta a boca da palavra ausente.
(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou
a clareza  de seus olhos implodidos densos de
um  imenso sol soletrado pelo calmo ninguém
que habita o homem só com o seu corpo).

 

 

 

***

 

 

 

HOMEM, SUAS MORTES
iluminam Deus e os seus restos.
Guardo-me em qualquer silêncio.
Coleciono matérias.
O corpo é um Deus sem nome.

 

 

 

***

 

 

 

FALAR É OUVIR O VÔO DE UM pássaro que
não  há,   deslocar   Deus  de  casa  e  não dar
nome.  Falar é  experimentar  entre o olho e a
coisa dada  o  que há não há. E o pássaro que
voa, voa na  polpa seca da  chuva  que  aresta
os   sonhos.   Falar   é   haver  morrido,  tocar
outra voz.

 

Wesley Peres é escritor e psicanalista. Autor de As Pequenas Mortes (Rocco), Casa entre Vértebras (Record), Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo Casa Editorial), dentre outros. Mora em Catalão-GO

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Aleilton Fonseca

 

“Baudelaire”: Claudio Parreira

 

O SORRISO DA ESTRELA

 

Estava morta a minha irmã, ali entre jasmins e rosas, minha mãe à cabeceira chorava. Era uma noite inquieta, essa do velório em vigília e prantos por Estelinha, de quando em quando se rezavam benditos. O enterro iria seguir no outro dia, no meio da manhã de sol.

Estela estava morta, aos treze anos. E eu sentia dentro de mim esta morte. Era um pouco também eu morto, sem tempo de me redimir e poder amar minha irmã, como — só agora! — eu sabia ser capaz. Ela não morresse, eu iria brincar com ela, nunca mais uma zombaria, nem desprezo, nunquíssimo a chamaria de “sua doida”.

Pois agora eu começava a compreender sua linguagem; logo agora, desde que ela se fora para o hospital, eu comecei a entender seus diálogos compridos com as pedras, com os tocos de pau, com as folhagens ao vento. O silêncio de sua ausência no quintal se mostrou dentro de mim em tons de uma saudade estranha. Mas, ainda ali, eu não suspeitava do que me vinha na alma.

Tudo fora a ordem do tempo. Ela nascera primeiro, três anos antes de mim. Agora a diferença encurtava, mas justo quando eu me afogava nesse deserto de lágrimas. Pela primeira vez, eu dialogava com a minha irmã:

— Estela, acorde, vamos conversar com as pedras — sussurrei no seu ouvido, ninguém me escutasse.

A madrinha veio me consolar, eu tivesse paciência, fora a vontade de Deus, o melhor para ela, tão doentinha, coitada. Tive raiva de madrinha, no meu mais íntimo sofrimento. Continuei a conversa, até que me puxaram pelo braço, pois minha mãe redobrava-se no pranto.

— Estela, acredite em mim agora. Vamos correr picula.

O corpo dela suava, dormindo sem ressonar. Um pano envolvia seus cabelos castanhos e descia para sustentar seu queixo — talvez para conter o sorriso? Minha mãe enxugava o suor da morta com o mesmo lenço em que depositava as próprias lágrimas. O tempo voltasse, meu Deus! Eu só implorava um único milagre. As imagens desfilavam na minha memória, eu a escutava como se fosse agora:

— Vamos brincar, Dindinho.

— Não me chame de Dindinho! Meu nome é Pedro — respondia áspero, sem sequer olhar, e ia saindo.

Eu pensava odiar o fato de ter uma irmã assim. Ela insistia, amorosa, que me dava um constrangimento.

— Não, ninguém sabe, mas é Dindinho, seu nome bonito, eu chamo — dizia, como se eu continuasse presente.

Eu fugia de ter essa irmã. Os meninos me abusavam. Várias vezes briguei por me chamarem de Dindinho, o irmão da doida. Dindinho, eu mesmo não! Minha mãe já ia pegando o costume de me chamar assim, nas vontades de sempre agradar a filha. No contra, eu me rebelei, fugi de casa um dia inteiro. Minha Mãe me deu uma surra, depois, mas nunca mais me chamou daquele nome.

Por que ela existia? Eu não me dirigia a Estela. Mudava de rumo, baixava os olhos para não dar com ela. Eu a considerava um estrago na minha vida. Quis muito que morresse.

Ela me surpreendia, às vezes, antes que me mostrasse irritado, como quase sempre acontecia:

— Quando você morrer, Dindinho, de que cor você quer suas asas no céu?

Uma coisa tão sem sentido, que eu sequer respondia. Apenas fazia uma careta de enfado, balançava a cabeça negativamente. Ela me cercava os olhos, inventava brincadeiras cada vez mais estranhas, para conquistar minha atenção. Isso tudo mais me afastava. Os meninos, meus amigos, considerassem que eu não tinha irmã, pois mencioná-la era já motivo de desavenças. Fiquei de mal com alguns dos melhores, tempos e tempos, por essas causas.

Diante de minha repulsa, Estela intentava uns modos de me sensibilizar, sem o menor sucesso. Um dia, posto que eu a estivesse atentando muito, ela imaginou uma proposta das mais descabidas. No começo da noite, ela, depois de tanto silêncio, me propôs com a maior certeza do mundo:

— Eu lhe dou uma coisa para sempre, aquela estrela grande será só sua a vida toda e depois, Dindinho.

— Ora, quem pode ter uma estrela, “sua doida”? — desdenhei.

— Pois pode, porque é minha e eu lhe dou só pra você, Dindinho. Mas só se você sorrir para mim, todo dia, uma vez… Só uma… Você quer?

Nunca soube sorrir para você, Estela, me perdoe. Quando eu tomava posse de mim mesmo em mais profundo, quando um sorriso germinava no fundo de minha alma — e seria seu! —, você já não estava aqui. Até hoje só me vêm as lágrimas que nunca tive antes, quando você vivia em seu mundo de imagens, que só percebi depois. Eu era mesmo um Pedro, o coração tinindo na dureza, você foi me amaciando. Você, aos quase quatro anos, me carregou no colo. Eu era seu neném, como a nossa mãe me contou, depois de tudo, tardiamente. Estela… Tudo podia ser tão diferente!

A noite ia avançando, em horas que eu não conhecia, os meus olhos já desistentes. Eu me debruçava sobre a morta, o sono me empurrava para ela, nos movimentos bruscos dos cochilos. Minha mãe me mandou dormir, e eu, depois de insistir negativo, enfim saí cabisbaixo da sala, a solidão me completava. Não me dirigi ao meu quarto, mas ao que ficava ao lado. E examinei os ângulos daquele lugar, tudo tão limpo e arrumado numa ordem que eu não conhecia. Ali, enxerguei os contornos deste vazio que até hoje carrego. Fiz meia-volta e caminhei para o meu leito, mas não consegui me acomodar. O sono me apertava os olhos, uma agonia no peito teimava-me pela vigília. Quis retornar à sala, mas nossa mãe me suplicou que não, com um olhar terno, tão raro aquele olhar… Eu voltei, mas não para o meu quarto. E me deitei na cama de Estela, deixando na alfazema do travesseiro o sal dos meus olhos.

Eu me vi vivendo o melhor que nossa realidade. Estela me sorria, corria de mim, eu não tinha pressa de apanhá-la, era talvez picula. O nosso quintal se alargava, o caminho de plantas, paus e pedras ia-se margeando em nuvens sem um fim que se avistasse. Eu tinha o saber de tudo, mas não me importava, o sorriso de Estela me preenchia e me fazia leve, que então voávamos. Eu queria alcançar minha irmã, mas não podia lhe pedir que parasse. Estela tinha um voo firme e certo, e eu, me parece que só voava no seu vácuo. Mas eu a queria, buscava-a para um abraço que faltava em mim, um toque que me transmitisse os seus modos de sorrir. Eu queria conversar com as nuvens, e as pedras lá embaixo já me sorriam, as folhas acenavam para mim. Estela ia-se distanciando, eu me surpreendi no cansaço desse voo, as nuvens perdendo sua leveza. Estela! Estelinha, me dê a mão! Me leve com você! Mas o seu sorriso já me abandonava. Ela se foi fazendo em cor de nuvem, aos poucos me vi sem olhos para tê-la. E era tarde, muito tarde: tive um sobressalto, e tudo que agora eu via eram as telhas vãs do nosso quarto.

A manhã se ia acesa como as velas, numa rapidez que doía em nós. Vi que minha mãe não dormira, velara nessa noite toda uma vida ao lado da filha. Era um olhar cansado, dela para mim, com um desencanto mudo, enxergando o nosso vazio. Acerquei-me dela, os seus braços me tatearam. E logo me acariciava os cabelos com a mão direita, com a outra acariciava os cabelos de Estela. Inesquecível aquele gesto de nossa mãe, em toda a nossa vida, por seu corpo passando a nossa última sintonia.

As pessoas iam chegando, a hora do enterro se aproximava. Madrinha apagou os quatro tocos de vela acesos ao redor de Estela. Começaram a distribuir os ramos de flores para o acompanhamento. Eu reparava nos meninos e nas meninas que se acotovelavam para ver a morta. Alguns que sempre zombavam dela. Uns me pareciam tristes, outros apenas viviam uma aventura. Eu me sentia completamente afastado de todos.

Iam fechar o caixão. Minha mãe despejou mais lágrimas e inquiria Deus pela morte da filha. E até madrinha, pela vez primeira, soltou as rédeas do seu pranto. Eu me guardei no silêncio, peguei um ramo de rosas que estava próximo ao rosto de Estela. Não me pareceu que eu pudesse beijar o seu rosto agora, já que nunca o fizera em vida. Então beijei as flores e pus de volta no caixão.

Era hora, o enterro ia seguir. Quando me mandaram olhar minha irmã pela última vez, não chorei, pois me pareceu que ela sorria um sorriso longe só para eu sentir. Então percebi que ela agora se tornava como nuvens. Eu quis seguir com ela, mas não me deixaram. E me levaram Estela de mim.

O cortejo dobrou a primeira curva de nossa rua. Os meus olhos continuaram buscando, até hoje parados naquela curva sem nome. Madrinha varreu a casa, dos fundos para a porta da frente, juntando as folhas e restos de flores e tocos de velas. Deixou o montinho no pé de jambo que Estela chamava de “meu segundo amor”. Era onde minha irmã costumava ficar à sombra, enfeitando-se com as flores rubras de jambo. Ali eu derramei as minhas derradeiras lágrimas.

Minha irmã, ainda hoje eu contemplo a tua estrela e tenho uma vontade enorme de que fosse minha. Eu vejo tua imagem se projetando de lá, num sorriso longe que não me deixa desamparado. Era essa luz que você me oferecia, por apenas um sorriso, que já era seu sem que eu soubesse. Quantas estrelas no céu — e eu não possuo uma sequer!

O tempo me deu estes cabelos brancos, mas a minha memória guarda os sinais do semblante de Estela, com suas alegrias sem nenhum motivo. Em nosso quintal, as pedras, os tocos de pau, as folhagens ao vento puxam conversa comigo, mas eu continuo mudo. No entanto, agora sinto: eu sou Dindinho.

 

 

*Conto integrante do livro “O desterro dos mortos” (Caramurê, 2018)

 

Aleilton Fonseca é ilheense de adoção, nasceu em 1959, em Firmino Alves-Bahia, viveu e cresceu em Ilhéus, dos 4 aos 19 anos, e reside em Salvador. Escreve poesia, conto, romance e ensaios. É doutor em Letras pela USP e professor de Literatura da UEFS. Estreou em 1981, com o livro de poemas Movimento de Sondagem. Tem textos traduzidos para francês, espanhol, inglês, italiano, neerlandês e alemão. Publicou diversos livros, como: As formas do barro e Um rio nos olhos (poesia), O desterro dos mortos, O canto de Alvorada e As marcas da cidade (contos), Nhô Guimarães e O pêndulo de Euclides (romances) e O arlequim da Pauliceia (ensaio). Pertence à Academia de Letras da Bahia e à Academia de Letras de Ilhéus.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Necrocidade e poesia brasileira

 Por Gabriel Morais Medeiros

 

“O ovo primordial”: Claudio Parreira

 

I

 

Tenho tentado refletir sobre a cidade enquanto não-lugar, enquanto deserto gentrificado e militarizado, em poetas do Brasil contemporâneo. E, necessariamente, sobre os discursos de resistência que esse estado de cerco engendra, dialeticamente, em algumas vozes do tempo de agora.

Fábio Weintraub é autor de um verso que resume bem a contra-urbanidade que nos atravessa: a de um “país sem ruas” [Treme ainda, 34, 2015].

Rampas antimendigo, sistemas de sirene, a telepatia sibilante das cercas elétricas, drones de vigilância sobrevoando a churrasqueira e as cascatinhas pornográficas; guaritas e catracas cravejadas em canteiros que já foram públicos, num sonambulismo quase necromante; cartões magnéticos para carros blindados, que emergem de vidros elétricos brilhantes como rímel, nas portarias biométricas, à ponta de unhas sedosas (verso de Eugênio Gianetti), sob a carranca de seguranças impassíveis como totens, agentes secretos ou psicopompos. Bolsões residenciais cujo acesso é bloqueado por tonéis gigantes de concreto; rondas noturnas, esparsas ou constantes, camufláveis. Cidade de túneis, simbólicos ou cimentados, corcundas: numa palavra, necrocidades.

Chegou-se há muito ao estágio da arquitetura do medo como espetáculo de si mesma. Nas periferias-condomínios fechados, as clínicas de criogenia guardam em seus bancos de tutano as raízes de uns dentes-de-leite, em prol da des-utopia de futuro genético de alguns rebentos. “Você comeria um hambúrguer de células-tronco?” [Tudo pronto para o fim do mundo, 34, 2019], pergunta Bruno Brum, num verso que podia constar na tabuleta de cada mallzinho à entrada de um residencial de luxo, como a reposição do velho emblema diante da Cidade Dolente. Só que ao contrário: reconquistem toda a esperança, vocês que acessam este lugar.

Aos arredores dos recantos de segurança, minimiamis, vias de trânsito rápido, viadutos, ausências de linhas de ônibus e passarelas espaçadas, de longe a longe, como as pernas longilíneas dos elefantes de Dalí: um território, basicamente, onde é impossível andar a pé, por nele haver muitos campos-de-força que repelem quaisquer alteridades, mendicâncias, laços de fraternidade e/ou presenças alienígenas.

Do outro lado das autopistas, refletindo as gated communities, opondo-se aos macrocamarotes, estão periferias-quebradas, com corpos à mira de remotos helicópteros, que pipocam com sua “hélices de carne”, nas palavras de Bolaño.

 

 

“Hitch”: Claudio Parreira

 

II

 

Nos belíssimos versos de Mar Becker [A mulher submersa, Urutau, 2020] pode-se ver, por outro lado, o que terá ocorrido com a necrocidade. Seu tempo é o da rememoração e, justamente por isso, o da composição profética. Em Becker, a necrocidade é eixo quase abstrato, evanescente, que aguarda a desaparição.

Para a autora, o meio urbano é o sussurro de uma falência, de uma hecatombe anunciada. “Vem, precisamos fugir da cidade/para muito longe”, dizia Lichtenstein, num poema chamado O passeio [Der Ausflug, 1913].

Becker também estoura esse tipo de aclimatação urbana. O mundo vai acabar. E este mundo, no entanto, o atravessamos! Por isso, A mulher submersa cintila como uma barra de transferência fluorescente, bruxuleando no leito de uma cratera oceânica, num enigmático código-morse.

Assim, a linguagem dos mortos, e sobretudo das mortas, dirige-se a nós através desse livro, por meio de uma cartografia doméstico-marítima, e enquanto marítima, imapeável, desolada e insubordinável:

“a mulher da região da serra sem fim lava a calcinha sempre no
banheiro, sob esse outro paradigma náutico – quando no vapor
o espaço-tempo resgata o mar como desolação.”

[serra sem fim]

Paralelamente ao tempo diluvial, A mulher submersa reergue uma cidade de baldios e assombrações, que nos prometem meandros e ressignificações, transmitidas sempre do país desconhecido. Este é um dos motivos que talvez insira a poeta numa categoria de vocalização da transcendência. Na poesia de Becker, as ruínas reemergem das lagunas, e os mortos apontam as saídas:

“na casa fabula-se outra casa. em ruínas”.

[serra sem fim]

A necrocidade, para Becker, é fase-em-devir, e não categoria estanque. É algo que se vasculha no passado, redimível após a catástrofe que a poeta profetiza. As ruas e os dias se apagarão nos azimutais congelados sob o granizo das calotas polares. Cada época sonha a próxima.

Faz-se necessária, por fim, uma palavra sobre a forma de seus textos.

Ela bem reflete essa condição de transitoriedade diluível. De vias-vascularizações diferentes: as ruas de um inferno que pouco a pouco resfolega, inundado, encharcado, rompidas as barragens de Guarapiranga.

Porque os fluxos verbais e compassos da poeta são longas frases rítmicas, aquáticas, cadenciadas, como uma lagoa de neve sombria sob o manto de Desdêmona, lua de Urano; os versos de Mar Becker demoram, aparentam e segredam melancolia e agouro. São um Grande Oceano da Espera, uma paisagem lunar; um golfo de metais pesados, muito tempo após a extinção do Antropoceno.

Só que, pensando em seus dizeres, será que neles não germina, da mesma maneira, uma intensa felicidade? A que nos promete um outro mundo possível, num reino que não é deste mundo?

Não nos injetaria a poesia de Becker, na superação da necrocidade, uma dose cavalar de alegria?

 

 

“Sempre!”: Claudio Parreira

 

III

 

O grande poeta Reuben, com seus falares estranhos e enigmáticos, também atravessa a necrocidade, mas de forma diversa. A temporalidade de seus mundos é mais a do presente, a do acúmulo, a dos lixões, e a do empanturramento.

O mundo-lixo, em Reuben, é zigurate colossal; em Becker, já foi varrido do mapa há 400 milhões de anos, numa inundação mítica. A coordenada de Reuben é a de hoje; a de Becker, o que terá sido hoje.

Cercadas por um labirinto em decomposição, as vozes de Reuben abrem caminho, cavam trincheiras, comungam desejos, mas também enxergam transcendências: emissões pélvicas de luz, amoras glórias da terra, reggaes das bacantes, peixes boi de boa: vê-se que a natureza é que lhe assobia com fulgor, com fins em eternos-retornos. E também as visões espaciais, dimensionais, com ele se comunicam. Estive aqui muitas vezes/ainda acho bonito é um texto que bem o demonstra, com seus lindos heptassílabos.

E o mencionado amontoamento de monturos, entroncamento da necrocidade, e umas caçambas abarrotadas, mas cercadas pela transcendência (a natureza e o espaço sideral), por sua vez, os vemos em:

“d vz em qd a areia me visita
urubus reviram o meio da ilha
boto fogo no corpo a pé na ponte a
astronauta a pé no gargalo do dia
longes lobos guarás assoviam”

[Estrelas brilham, mastigam lixo, Jabuticaba, 2019].

De maneira análoga, o sujeito em Reuben é o das corporalidades múltiplas, que nunca se esvaziam ou desvanecem; ameaçadas, no entanto presentes num território não abandonado, e ainda não varrido pelos paredões aquáticos da hecatombe.

Ameaçados, estão à mira: os caiapós, os kanoés, os ka’apor e os mendigos.

Os drones os caçam – porque toda necrocidade estende-se aos céus, e se fundamenta no domínio dos céus, a fundo. Suas raízes são as nuvens, os limites do globo. Teoria do drone.

/ temporada de caça / ao índio ka’apor / drones tele guiam / kanoés / caiapós / varis vivos / encobrem a cova rasa urubus farejam / temporada de caça / / a navalha / some / na mão do mendigo / noite revirada / corpos d caídos estrelas brilham / mastigam lixo / incorporo a navalha da prosódia dos mendigos / cada narciso / come da / própria sede / a cabeça do justo / / esmagada na parede/ sentenças / vendidas por / juízes / / sentenças vendidas /por juízes / / fazendas maiores que países /

[Escaldante, Livros-fantasma, 2017].

Estrelas brilham/mastigam lixo: os olhos carecas das câmeras dos drones abatedores, por um lado, e a corporeidade dos caçados, por outro. A garra drônica da necrocidade, abstrata e letal como o capital, versus a fuga entocada do catador, térrea e teimosa como a vida. A morte que pode vir do céu ou da canetada jurídica, etérea e abstrata em ambos os casos.

Noutras palavras, agressão versus resistência.

Não à toa, o poema, ao denunciar a caçada humana, bate de frente com o latifúndio, o hectare produtor de covas: o latifúndio, metáfora última da necrocidade e de sua contra-utopia, projeto necropolítico de um país sem ruas.

 

Gabriel Morais Medeiros (Campinas-SP, 1988) é autor de ‘Pornografia em extinção’ (2019) e de ‘Andrômaca, quarenta semestres’ (2016), livros de poesia publicados pela Patuá. Tem trabalhado como professor de literatura no ensino médio, desde 2007, em diversas cidades do interior paulista. É responsável pela Ofícios Terrestres Edições, micro-editora voltada a humanidades e literatura, criada em 2019. 

 

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137ª Leva - 04/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ângela Coradini

 

“A prisão da alma”: Claudio Parreira

 

29.

 

há coisas tão bonitas
ditas com seus olhos
que devia,
como já faz,
desenhá-las na minha história
e mais,
em mim

 

 

 

***

 

 

 

31.

 

e prendo na memória
o vo-lu-me
das suas palavras
reouço, ouço,
lambo
o tom da sua voz
e a graça
nunca se gasta

 

 

 

***

 

 

 

32.

 

o que mais desejo
é que o que me toma
sobre você
seja só desejo

que seja uma piada espúria
um rouco choro
uma tristeza forasteira
uma sede de saliva
que me nega todos os dias

que seja apenas efêmero
e que me coma
só agora
um pedaço de vida
do riso
do cérebro

que suas ignorâncias
dias sim, dias nãos
me arranhem a sensatez
como você
me arranha
a carne

que me aperte
ao invés de entristecer
que deixe suor nos corpos
e não sombras sob meus olhos

que esse seu maldito riso
endoidecido
quando me mira doida
sobre você
embebede
minha língua
minha vida

que você seja corrosivo
e que com seu grito leve
sua voz breve
deixe sob as minhas unhas
sua pele

desejo de infinita sorte
que se chame apenas paixão
que seja, assim só,
espasmo de pequenas mortes

que será árduo
e irresistível
que leve de mim a luz
me tire do silêncio
que cobre cada curva
me arranque o medo

desejo que tudo que saia de mim por você
seja perto daquilo que leva o nome de ligeiro

que me consuma
o sexo
em fogo
e ausência de ar

que me rasgue
o dia
que me queime
e deixe para o vento
só pó
e mais nada

e se só você me deixar
a ruminar esse desejo
rogo que não sejam seus dentes
irreversíveis
porque quero poder enfim
num dia, talvez,
soprar suas cinzas
todas elas
de mim

 

 

 

***

 

 

 

e
prendo
na memória
o ritmo
dos versos
de todos os teus
não ditos

 

 

 

***

 

 

 

o tempo desafinou
e você estava lá
estando apenas em você

 

 

 

***

 

 

 

que não eu

 

era meio da tarde,
e sob a luz esbranquiçada
que criava sombra sob os seus olhos,
testemunhei sua boca explodir numa curva festiva
um leve balanço no rosto
um riso mudo
desacelerando em uma expressão de ternura

e eu senti ciúmes

ciúmes do emaranhado de coisas
atrás daquela tela para a qual você sorria
que não eu

 

 

 

***

 

 

 

não venha mais

 

trazia um bilhete entre os dedos
deixou-se no centro da sala, soturna
sem soluçar, sem desabar sobre nada
escorregou o papel pela mesa
três palavras escrita
“não venha mais”

adorava o passado do papel na madeira
odiava a alma molhada na face dela
ultimas palavras, última atenção
tudo ressoava a mesma agonia

e no verso do mesmo bilhete
com o lápis de alumbrar seu olhar
ela escreveu, no verso da dor

“(…)
e são horas mortas
nós vencidas
cada nota dessa lamúria
dá cor a minha sangria
ritmando a farsa dela

e no embalo do que nos toca
entrando pela fresta dessa porta
sinto a amargura apertar

entregue e pedante ela
emparedada eu
presa na minha mania de amortecer
e enquanto ela se vai em tempo
peço perdão, mais uma vez, ao medo”

 

Ângela Coradini é uma contadora de mentiras na poesia, na teoria e nos roteiros audiovisuais. Tem doutorado em Cultura Contemporânea (UFMT) e é editora na revista eletrônica Ruído Manifesto. É autora dos livros “…já não podem ser amanhã” (Carlini Caniato, 2020), “Imagens-Espectro de Futuridades no Amplo Presente” (Edufmt, 2020) e “Quatro nós” (Carlini Caniato) no prelo.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Uma leitura de Cinevertigem, livro instigante de Ricardo Soares

Por Geraldo Lima

 

 

Cinevertigem, de Ricardo Soares, é um livro inovador, provocador, escorregadio. Publicado pela Editora Record, em 2005, é obra que cruza a fronteira dos gêneros literários e busca, com certeza, ampliar os horizontes da criação literária. Durante a sua leitura, o leitor provavelmente indagará: isso é prosa ou poesia? É um romance ou um longo poema?

Num primeiro momento, o leitor, certamente, será tentado a ler essa obra como um longo poema, já que o ritmo, as aliterações, as rimas internas e as imagens atestam isso: “veloz dentro dessa noite oriunda quem, quem, quem me acende a boca do fogão que está entupida, quem que me frita um ovo do avesso, quem me paga comida, compra ração para o cão, entende que os livros estão espalhados pelo chão porque assim eles são…” A repetição do pronome “quem” enfatiza e reverbera o desejo do eu lírico [ou seria do narrador?], assinalando mais ainda o caráter poético do texto.  Assim se inicia o texto: “quem, quem, quem, quem, quem é que me cobre de beijos? Quem, quem me lambe a ponta do nariz…?” Essa repetição, que se pode dizer também icônica, já que indica um sentido de urgência, de obsessiva solicitação, aparece ora no início da estrofe [ou parágrafo?], ora no meio, mas sempre introduzindo um novo núcleo de ideias, de pedidos, de coisas desejadas, um novo rol de objetos, lugares, pessoas, profissões etc.

Cabe salientar aqui, e creio que sem perigo de dar spoiler, que estas são, também, as palavras que encerram o texto, expondo sua estrutura circular, ou inscrevendo-o no rol das obras que começam pelo final. O autor, num gesto tipicamente machadiano, marcado pela ironia, parece brincar com o leitor, querendo surpreendê-lo numa falta.  Senão, vejamos: “para os que começam lendo um livro pelo fim devo dizer que morri no meio da história; sou um defunto que jaz e pergunta: quem, quem…?” Há que se observar, também, que “veloz dentro dessa noite oriunda” é uma referência clara ao livro de poemas de Ferreira Gullar, Dentro da noite veloz, publicado pela Editora Civilização Brasileira, em 1975. Aliás, a referência a outras obras literárias, a personagens de ficção [“quem, quem, quem me dá essa vida de Macunaíma, brincando com o pau dentro do jirau…”], a nomes de autores ou figuras de destaque no mundo intelectual [“quem, quem, quem me dá a vida do cabeludo pajé Darcy, boca seca de tanto falar”] será, ao longo do texto, um procedimento bastante usado por Ricardo Soares, mas evitando, sempre, o tom de exaltação ou de discurso elevado.

Mas aí, na ficha catalográfica, diz que se trata de um romance. Entendemos que o romance é um gênero híbrido, que acomoda em sua estrutura outros gêneros, como bem nos mostrou Bakhtin, mas seria esse o caso deste livro do jornalista, diretor de TV e escritor Ricardo Soares? Se formos enumerar nele a presença de elementos próprios de um texto narrativo ou ficcional, talvez nos frustremos. O narrador, no caso, se confunde com o eu lírico da poesia. Há mais uma voz que explicita seus desejos, sua subjetividade, do que um ser fictício que conta uma história. É mais uma voz que clama, como numa oração, ou num cântico pagão, do que uma voz que narra. Não se trata nem mesmo de um poema narrativo, de caráter épico, já que não há a figura de um herói realizando grandes feitos, tampouco o tom elevado do discurso que caracteriza essa forma literária. [Da página 70 à 73 há de fato um poema, com versos, estrofes, rimas e composto num ritmo próprio da poesia feita pelos cordelistas; mas a inserção desse poema, claramente narrativo, no corpo do romance, – aqui admitindo-se que se trata de fato de um romance – encontra-se, ainda, dentro do caráter híbrido desse gênero narrativo.] Os personagens, ou pessoas referenciadas, melhor dizendo, não chegam a mover-se, dando início a uma ação concreta, progressiva. Vez ou outra surgem fragmentos de histórias que poderiam se desenvolver, mas logo se esgotam e somos introduzidos em outro núcleo de coisas evocadas pela voz masculina ou consciência desejosa de experimentar novas vivências. Os espaços são variados, já que há um vagar constante da alma ansiosa desse ser que se agita no texto. Desse modo, a narrativa em si, ou o escoar poético da voz que fala no texto, resulta num amplo passeio por vários lugares da nossa geografia, por vários aspectos da nossa cultura e da de outros povos, nessa tentativa angustiada de alcançar, realizar ou incorporar aquilo que se reitera com a pergunta: “quem, quem, quem, quem, quem é que me…?”

Para ampliar ainda mais o seu aspecto de obra fora do convencional, há a sua aproximação dos recursos da montagem cinematográfica. Cada bloco que se inicia, quase sempre com a pergunta obsessiva “quem, quem…”, parece expor um fotograma que registra uma unidade de desejo ou súplica que vai se desdobrando e agregando outros elementos ao núcleo temático, justapondo sensações ou ambientes, para ser, logo em seguida, substituída por outra, criando sempre uma atmosfera de vertigem. Mas, ainda que aparente ter uma estrutura fragmentária, há um sentido de encadeamento, de ligação, de amarra entre os parágrafos, ou as estrofes, ou as cenas, como queira. Como se dá isso? Às vezes a unidade seguinte ganha corpo a partir da retomada de uma palavra da unidade anterior, sugerindo a técnica de “palavra puxa palavra”. Um exemplo: “… este velho na ativa dava inveja a outros tropeiros…” Inicia-se, então, a unidade seguinte retomando a palavra “tropeiros” no singular: “quem, quem, quem me dá essa vida de tropeiro absoluto…” O vasto painel de realidades díspares que o autor vai agregando ao texto, ora com visão crítica sobre questões sociais e políticas, ora movido pela ironia e pelo espírito de carnavalização, cria a imagem de um mundo caótico, de cinema glauberiano, em que a câmera gira nervosa, registrando tanto o delírio poético do cineasta quanto o seu olhar que desvenda criticamente a nossa sociedade.

Em suma, o Cinevertigem de Ricardo Soares é esse passear delirante, aflitivo, obsessivo, desejoso por vários meandros do fazer humano, da experiência de vida do outro, enfim, da cultura, numa sequência que se processa entre o ritmo e a imagética da poesia e o possível novelo da narrativa ficcional que vai se desenrolando num único fôlego, até desembocar num final que é puro cinema, ou referência/reverência ao cinema.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor de “Uma mulher à beira do caminho” [contos, Editora Patuá, 2017], “Trinta gatos e um cão envenenado” [peça de teatro, encenada em 2016 em Brasília] e “O colar de Coralina” [roteiro de um longa de ficção dirigido pelo cineasta Reginaldo Gontijo]. E-mail: gerallimma@gmail.com