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138ª Leva - 05/2020 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

Nunca é demais lembrar do grande poeta Drummond quando este exortava, em versos, que deveríamos seguir de mãos dadas. Mesmo que não saibamos ao certo para qual futuro rumaremos, cabe a partilha dos instantes, os caminhos construídos coletivamente, pois talvez jamais cheguemos a muito longe sozinhos. Ah, o mundo, essa construção dialógica e difusa que não cessa de propagar seus sintomas! Esse verdadeiro painel de contrastes, desacordos, discordâncias, ao mesmo tempo em que agrega gente afinada e disposta a estabelecer trocas úteis por um bem comum. Mas o que seria de nós sem as diferenças de pensamento, sem o contraditório? Um estado de coisas no qual tudo permaneceria inerte? Um cotidiano atravessado pela visão permanente e totalizante sobre tudo? O menor esforço em ensaiar tal cenário uniformizante já nos causaria desassossego. Certamente, há algum saldo construtivo dentro da lógica das oposições de pensamento, daquelas que não se furtam a debater ideias com respeito e equilíbrio. No território das artes e da literatura, por exemplo, é deveras positivo ver a profusão de temas e ideias que sustentam as mais diferentes expressões. Cada autor ou artista confere a uma obra seu próprio tom, sua narrativa, ao nos mostrar olhares peculiares sobre o mundo. E assim vamos movimentando essa gigantesca e complexa roda da vida, estabelecendo pontes dentro e fora de nós mesmos. Na estrada que vai seguindo, encontramos mais gente disposta a somar. É, por sinal, o caso dos poetas Michaela v. Schmaedel, Ramayana Vargens, Samantha Abreu, Tales Pereira e Léa Costa Santana, cujos versos comunicam nuances da vida. Gustavo Rios vem nos trazer ao centro de sua análise a nova obra de Ney Anderson, o livro de contos “O Espetáculo da Ausência”. Por sua vez, Kátia Borges entrevista o escritor Lima Trindade, conversa regada a percursos sobre literatura, música e quadrinhos, dentre outros temas. Guilherme Preger é quem nos oferta seus olhares atentos para o filme brasileiro “Meu nome é Bagdá”. Nossos cadernos de prosa abrigam agora as densas narrativas de Dênisson Padilha Filho, Anderson Fonseca e Wilfredo Lessa Jr. Na seara musical, o disco “<atrás/além>”, da banda O Terno, é tema das anotações de Rogério Coutinho. Nas linhas de Geraldo Lavigne de Lemos, há instigantes mergulhos na obra “Sonetos em crise”, do poeta Jorge Elias Neto. Esta edição está entrecortada pelas imagens do fotógrafo Ricardo Stuckert, cujo trabalho evidencia também um sensível e importante olhar sobre os mais diferentes povos indígenas do Brasil. Sobre esta exposição fotográfica e outros apontamentos em torno da obra de Ricardo, há uma breve análise de Fabrício Brandão. Sejam, bem-vindos, queridas leitoras e leitores, à nossa 138ª Leva!

Os Leveiros

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Anderson Fonseca

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

Aforismos

para um ensaio autobiográfico

(Fragmentos de uma obra em processo de criação)

 

1.Maria, minha mãe, de 57 anos, tem esquizofrenia.
2. Nada é mais doce que a tortura cotidiana para deformar o espírito de uma pessoa. Mamãe explicava com muita clareza o método de vovó.
3.Porque o dizer importa! – exclamava Maria a seu marido. Não, ela não dizia a ele sequer uma frase completa. Maria dirigia sua voz ao invisível que habitava as paredes. Contradizendo o valor do inaudito, ela ressignificava o dizer. A ruptura do silêncio era o emergir de uma nova percepção do espaço que a envolvia. Percepção essa manifestada na palavra. Cada elemento desse objeto sonoro, apenas exercia a função narcisista de realçar a subjetividade de Maria. …quanto mais falava, mais percebia a si mesma.
4.– A esquizofrenia de Maria obedece à 2ª lei da Termodinâmica. É irreversível. A desordem tende a aumentar até um estado futuro em que você não mais a reconheça. Antes desse dia chegar, é melhor não estar com ela. – sentenciou o médico.
5. Em 1992, mamãe saiu de casa. Desde então, vivo em 1992.
6.Existem três verdades sobre Anderson:
………a) Ele, enquanto nome e sujeito, não passa de uma crença reforçada pelo tempo.
………b) Houve cinco Andersons em três décadas e meia. O atual é a soma dos anteriores.
………c) O atual existe em conflito com os anteriores.
7.Quanto a Anderson não sei o que afirmar, porque:

……..a) O original durou do nascimento até o dia em que uma tempestade se manifestou em sua cabeça.
……..b) O segundo apareceu em 1992, levando à morte o primeiro*.
……..c) Já o outro veio a surgir na virada do século 20, durante o curso de Letras.
……..d) E o quarto sorriu em 2012, assim que suas mãos envolveram a pequena Ana Clara.
……..e) Mal conheceu a traição, o quinto emergiu.

…. Daí a impossibilidade.
Estou certo disso: o segundo é uma constante que molda todos os posteriores.

8.Um parasita controla o cérebro de minha mãe. No exato instante em que o ingeriu, perdeu o domínio das emoções. Agora não sei dizer se ainda há algo nela que possa ser Maria.

9.Em 26 anos, ela desapareceu.

10.Mas antes de esvanecer, Maria foi:

………………a) A mão que rascunhou minhas fantasias.
………………b) Os cabelos encaracolados que enovelavam-se em meus dedos.
………………c) O riso ante o grito e a angústia.

11.Em 26 anos, percebo agora que eu também esvaneci; mas para quem?
12.Deus ama os seres mutilados.
13.A ordem era que, com oito semanas, o prepúcio que envolve a glande fosse cortado. Mas, somente com oito anos, tive esse privilégio.
14.Quando a pele foi arrancada, Deus tirou de mim o prazer. Em seu lugar, a graça de uma vida clemente.
15.A Bíblia tornou-se minha penitência. E após um tempo que não sei determinar, me converti.
16.Na conversão perdi o meu nome. Perder o nome é o mesmo que cindir o ser.
17.Eu sou um homem mutilado.
18.As mutilações foram três sequencialmente:
………………a) Maria.
………………b) O prepúcio.
………………c) A traição.
19.Deus me ama.
20. A loucura constitui-se em um crime contra seu possuidor. Há quem o converta em poesia. Não o louco. Com que paga seu crime? Barganhando o corpo. É uma oferta generosa: perder um pouco de si para ganhar alivio à dor.

21.O louco, meu amigo, é um penitente.

22. A oferta teve um lucro: Kelly.

23.A avó não permitiu que Maria cuidasse da própria filha. Kelly foi tomada. O louco não é apto para cuidar de uma criança. Que pena! Ninguém permitiu que criasse os filhos. Nem Deus, nem o marido, depois nem o primogênito. Acusada, foi banida.

24.Internada em um hospício, fugiu.

25.Em um instante de frenesi, quando o delírio toma as feições do espírito e o poeta manifesta-se cantando o porvir, Maria gritava nos corredores do hospital.
26.Sem filhos, assim ela passou o resto da vida.
27.Maria morreu em uma cama de hospital sem estar cercada pelos próprios filhos.
28.Morta, Maria foi sepultada.
29.Kelly esteve presente, apenas.
30.Sem Maria tudo é permitido.
31.Sem ela, Anderson é responsável por qualquer dor que a escolha lhe trouxer. Não pode mais culpá-la.
32.É tarde

 

* N.A.: O primeiro não é o mesmo que o original, cujo sentido etimológico é creatio ex nihilo.

Anderson Fonseca é autor dos livros “Sr. Bergier e outras histórias (2016)” e “O que eu disse ao general (2014)”. Atualmente, cursa Mestrado em Filosofia na Universidade Federal de São João Del Rei.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Samantha Abreu

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

IV

 

Os pelos de uma mulher crescem tão silenciosos
que
não sabem deles os grandes debatedores políticos,
os educadores de biologia,
os poetas inspirados pelas musas.

Nenhuma legislação precisa ser criada para que os pelos cresçam inabaláveis,
não precisam de autorização para tomarem o corpo como se conquistassem um reino.

Não escutaram seus ruídos os compositores que foram capazes de finalizar o Réquiem,
não são perceptíveis aos cineastas iranianos nem cabem no silêncio do menino Antoine Doinel olhando as franjas das ondas.

Os pelos brotam no rosto de Clémentine Delait
sem que os bichos sintam inveja, sem que um gato se arrepie diante do mistério,
Senhoras Doloridas enfim não precisam inventar encantamentos para seus rostos de cavaleiros.

Os pelos de uma mulher crescem tão silenciosos
que
somente ela os sabe
quando se observa e se acarinha,
a aspereza das pontas abrindo os poros.

Algumas profecias dizem que
todas as vezes
que uma mulher corta, raspa ou depila seus pelos
– tomando para si o disfarce da lisura -,
seus restos descem pelo ralo e alimentam os monstros que um dia invadirão o mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Putas

 

Elas passam pelas ruas de todas as horas arrastando pedaços de seus corpos anteriores,
pedaços de suas trompas,
suas pontas de astros.
Passam altivas carregando o peso de antigos seios de tantas mamadas,
braços marcados por unhas e barbas,
genitálias explodidas por muitos nãos que foram ditos entre berros,
cabelos enozados por coágulos e vômitos cuspindo dentes.

Caminham juntas, passo a passo, cantando dolorosamente sua elegia da carne viva, enquanto as ruas as observam
quase vivas,
garantidas por um mandado de segurança: cem metros de distância
e maquiagens de alta definição – uma renovação pela graça de grandes laboratórios dirigidos por homens cientistas.

As boas pessoas que assistem ao cortejo rezam de cabeça baixa pedindo
a benção do esquecimento, mas as mulheres seguem
ensanguentadas
em direção ao espaço reservado aos que pagam penitências e culpas: putas!

 

 

 

***

 

 

 

Uma mulher é uma imagem em pé

 

Uma mulher caminha roçando suas asas nas pernas dos sonhos
e as asas flamejam e estalam,
as asas chicoteiam quando a mulher se levanta pisando no acolchoamento de nuvens.

Sempre que a mulher se ergue
– de dentro do vapor suado que circula o mundo –,
sempre que ela se mostra, sempre que a mulher caminha

eu entendo que anjos e demônios usam seu corpo,
que anjos e demônios se irmanam

sob as formas que ela encontrou de entender o mistério.

 

 

 

***

 

 

 

As rezas que inauguram o dia

 

Há algum tempo eu me convenci de que poemas estão no início e no fim.

Então me levanto pela manhã com metáforas enroladas na língua; com visões plenas de abismos.

Não respondo um bom dia sequer,
mas já repeti dois ou três versos em silêncio, um ritmo mental,
a incandescência do dia.
O poema do início, uma fundação.

Quando as lutas se acalmam e se abaixam as espadas,
eu volto ao poema em busca do fôlego, o fim da fadiga.
Abro os vãos da casa e avisto um descampado,
infinito campo de unguento.

O poema que é fim de tudo,
o impronunciável: um soluço que interrompe a lágrima.

 

 

 

***

 

 

 

Da incapacidade de matar o poema

 

Você mira a boca aberta do poema e mete nela meia dúzia de tiros;

Você observa a ontologia do poema enquanto espana o ar com as mãos para dissipar a fumaça dos tiros;

Você quer se vingar da arrogância do poema que decorou as sagradas escrituras do seu tórax;

Mas você mal suspirou aliviada e o rabo do poema já concedeu a ele um novo corpo de matéria pegajosa;

O poema rasteja e imobiliza seu assombro quando você dá de cara com o fenômeno:

O corpo asqueroso do poema é sua própria mão.

 

 

 

***

 

 

 

Eu tenho nas mãos o coração de um pássaro

 

Eu abro o peito do pássaro: sinto o coração bater na ponta do dedo
e tenho penas de todas as dores
enquanto o pássaro me observa segurando seu coração.

O pássaro ainda se debate com violência
mas não pode voar
e eu já não sei mais como devolver-lhe as palpitações,
pois a morte agarrou minhas mãos e está tentando fechá-la.
Ela quer esmagar a beleza do coração que pulsa,
a beleza,
ela quer parar o coração do pássaro.

Eu não resisto e esmurro fortemente o chão,
deixando que o sangue dos meus dedos se misture ao do coração dilacerado.

O pássaro emudeceu e não me olha mais.

Então eu sepulto seu pequeno corpo sob todas as formas que tenho
de gritar em silêncio

 

Samantha Abreu é escritora, professora e pesquisadora, mestre em literatura brasileira pela UEL. Participa e organiza eventos literários e publicou os livros “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011); “Mulheres sob Descontrole” (Atrito Arte, 2015); “A Pequena Mão da Criança Morta” (Penalux, 2018). “Debaixo das Unhas (Olaria Cartonera, 2020). Também já foi publicada em antologias, sites, revistas e teve textos adaptados para o teatro. Integra o Coletivo Versa, que pesquisa e divulga autoras londrinenses.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

O olhar atento do escritor 

Por Gustavo Rios

 

 

Acredito na ideia do escritor que trabalha com o que observa. E pouco me importa se esse argumento já foi repetido aos milhões ou bilhões, das mais variadas formas. Para mim, tal atributo costuma render bons livros, independente de ser um lance nato ou inato – sendo o “não nascido” aquele que aprende no caminho, sob o desejo de lastrear a imaginação e enriquecer a própria narrativa.

O conceito acima é simples, mas não simplório: o escritor deve olhar tudo atentamente. E deve gostar do jogo. Sem titubear, o “escriba” tem de ser aquele tipo de artista que passeia, capta, dando um novo significado ao seu entorno. Talvez algo bem próximo do que Walter Benjamim descreveu em seu livro, A modernidade e os modernos, ao citar G. K. Chesterton que, por sua vez, falava sobre Dickens: “(…) Dickens não absorvia no seu espírito a cópia das coisas; antes era ele que imprimia seu espírito nas coisas”.

Ney Anderson, escritor e crítico literário pernambucano, é um cara jovem e tarimbado que gosta realmente de livros. Em seu site Angústia Criadora, desde 2011 ele vem nos mostrando isso através de resenhas lúcidas e cuidadosas e de entrevistas. Como se não bastasse, Ney parece não ter grilos com essa coisa de participar de oficinas literárias, apesar dos riscos (uma oficina deve ampliar as escolhas do aluno, não formatá-lo; mas esse papo fica pra depois). O que me leva a crer que ele é do time dos que trabalham e retrabalham a escrita. Encarando sua arte com esmero.

O Espetáculo da Ausência, lançado pela editora Patuá em meados de março, é um livro de contos com uma belíssima capa (precisamos falar sobre essas pequenas obras de arte, o excelente trabalho do artista gráfico Leonardo Mathias). Surpreendido em meio ao estrago que a pandemia nos causou e ainda vem causando, O Espetáculo da Ausência bem que anda merecendo um maior destaque fora do metiê, lugar onde teve boa repercussão entre os pares. O Ney tarimbado que apontei acima foi referendado por gente de renome. E ele bem que merece, diante do seu já extenso currículo que inclui resenhas para a imprensa, participações em diversas coletâneas e o seu trabalho como colunista de literatura na rádio CBN de Recife.

Pegando carona na apresentação de Raimundo Carrero, e roubando um de seus adjetivos, posso afirmar também que Anderson é um cara sofisticado – e parece que isso vai além do trabalho literário. Em seu livro, cada detalhe, fala e cada gesto nunca surge à toa. Fruto do bom observador que ele é, suas descrições são exatas, finíssimas (falo do cuidado e do critério, tipo lâmina e corte, não de pedantismo), sejam elas um cigarro aceso ou uma taça de vinho e alguns comprimidos. Ou até mesmo uma viagem de metrô onde um micro universo de vozes se impõe, num dos melhores momentos do livro (vejam o conto “Estação final”).

Com Ney não tem essa de acaso, considerando aqui “acaso” como aquela frase solta, desvinculada, perdida e inútil.

A forma com que as histórias são contadas demonstra em si um profundo respeito pelo humano, sujeito-objeto de sua labuta. E pelo o que esse mesmo sujeito esconde dentro de sua cabeça e de sua alma. O olhar atento do jornalista, aquela coisa do repórter que investiga, parece se misturar ao do escritor, vai o mais fundo possível, enxergando o monstro que habita dentro de nós, parafraseando numa boa outra das ideias do Carrero.

Já de cara a gente percebe o talento. Em “Máscara rasgada”, por exemplo, o primeiro conto, somos convidados a acompanhar bem de perto os passos e as escolhas do personagem, seguindo com ele como voyeurs de ocasião. Os passos que vagueiam por esquinas onde se “guardam segredos que poucos conheciam” são visíveis, palpáveis, mas sugerem e escondem muito. E o protagonista sem nome (recurso que potencializa o mistério) quando age, obediente ao próprio desejo, nos leva junto com ele, num momento que pode parecer ruptura, mas que, ao final, se mostra talvez corriqueiro – a imagem da máscara rasgada no chão de um apartamento dá o tom perfeito à ideia de nos mostrar que, ao menos em algumas noites, nenhuma máscara cabe, esconde ou serve.

Não demora nada para termos outras boas evidências. Na sequência, “Nana neném” nos arrebata diante de um sofrimento inesperado, e de suas consequências, enquanto que em “Neon horizontal” a mudança ágil de vozes e perspectivas, aliada aos cortes temporais feitos com precisão digna de uma navalha das antigas, nos prendem e nos empolgam sob o efeito de frases tais como “Quer algo mais estúpido e sem graça do que o nome morte? Mas para que adiantaria um nome bonito para a morte?”.

Não achem, contudo, que a obra pede convencimento através do uso batido de frases meio, digamos, filosóficas. Ainda que Ney, com sua tarimba, provavelmente conseguisse trabalhar nessa base, sem escorregar praquela coisa chata do “papo cabeça” que desvirtua a voz do personagem, as escolhas que ele fez para conduzir o livro se apóiam na simplicidade (o “papo cabeça” quando surge faz parte do conjunto e das intenções; a voz correta no momento idem). No encaixe exato, porém amplo. No gesto banal descrito abertamente, aquele movimento antes da ruptura ou mesmo da descoberta. Gesto que carrega um mundo de possibilidades, sugerindo algo, tudo contribuindo para que o conto funcione e nos agrade.

 

O diapasão Carver      

 

Outro ponto a ser destacado é a minuciosa forma de narrar esses pequenos momentos e fatos, recurso que sustenta o livro na maioria das páginas. Nessa riqueza de detalhes e na descrição das ações, pude identificar afinidades benquistas com o Raymond Carver, um dos maiores contistas que o mundo conheceu (em minha humilde e reverente opinião). Assim como o Carver, Anderson estica até o limite do possível suas histórias, gerando a tensão necessária para que não o abandonemos em qualquer rua à beira do Capibaribe.

Como bons exemplos, posso listar os contos “Tela em branco”, uma aventura meio pictórica, “A história nunca termina”, “Janela secreta”, “Já não sou o único que encontrou a paz” ou o já citado “Máscara rasgada”. A técnica que Ney usou para construir tais narrativas se parece com a do ficcionista Carver em seus melhores momentos. Contudo, ao afinar a escrita dessa forma, Ney conseguiu trazer para o contexto escolhido por ele (seus personagens, a comovente lembrança de seu pai e o lado mais sombrio e volátil da metrópole Recife) a influência do Raymond, sem, contudo, ser um imitador vulgar do estadudinense: em O Espetáculo da Ausência a influência do Raymond serve como um diapasão, não impedindo que Anderson siga firme na busca de sua própria melodia.

E não é só isso, obviamente. Em outros textos, podemos ver o autor que arrisca na forma e que usa da ironia para criar seu universo (“Contrato exclusivo” e “Todos os corpos”). Vemos também um escritor que constroi a profundidade em suas histórias, sem ser um janota, sendo “A casa vazia” um bom exemplo: a fundura nesse caso aparece de forma natural, como consequência e desdobramento do propósito do escritor, dos caminhos trilhados por ele.

Outro elemento que merece destaque, talvez pela surpresa que me causou, é o jeitão particular e eficiente de utilizar, sem vacilos, um pouco dos macetes comuns às narrativas de suspense e, por que não dizer, de terror. Aqui ele também dá conta do recado (“Um conto possível”).

Típico de quem gosta da literatura e de quem tem domínio sobre ela (ou seria um pacto, um acordo entre amigos?), a gente se depara com trechos marcantes, tais como:

“- A gente deve virar música quando morre.”

“Ambulantes gritam os preços de suas mercadorias, pessoas correm para entrar nos ônibus, outras descem dos coletivos, caminham a passos largos. Os amigos conversando amenidades. A cidade é dele. A agitação, o cheiro, as pessoas. O Recife do extremo calor. E ali, naquele centrão, tudo se encontra. Você sabe, não é, meu filho? Eu estou em cada pedaço dessa cidade.”

Ou então:

“E segue. Não acredito em literatura que não tenha uma base no real. Um real fantástico até, interessante e fora do comum. Preciso sempre que algo de verdade tome conta de mim e me faça querer escrever. Que seja mais forte e violento do que qualquer coisa.”    

Ainda que em alguns casos o Ney tenha, talvez por escolha, evitado riscos maiores – coisa que escondeu um pouco seu talento – temos aqui um grande livro a ser descoberto. E diante de tudo disso, a leitura das 33 histórias me confirmou a ideia de que Ney Anderson respeita demais o fazer literário. E que seus contos, trabalhados com primazia e atenção, são retratos humanos riquíssimos, um mosaico de “gentes” e almas que habita a cidade do Recife. Sempre vivendo no limite do limite de algo. Para o deleite de todos nós, leitores sortudos e, certamente, atentos e felizes voyeurs de ocasião.

 

Gustavo Rios é baiano e autor de Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Tales Pereira

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

ÓBICE (1)

 

Deitei sob a terra
Medos infundados
Geleiras afundaram-me
Em fractais anseios

Tudo faço em ciclones
Tumulto na sala de estar
A anfitriã opaca
E o café frio do sono
Convida-me ao deleite
Bolos mofados
E sonhos escatológicos

Revirei o celeiro
Entre plumas e palhas
Para enterrar-me no agulheiro
Pântano de pontas soltas

Subi ao sótão
E aspirei as lembranças
Bati tapetes
Amamentei traças
Servi pulsos aos cacos de vitrais
Fiz guisado de tempo
Com sobra de ossos
de meus antepassados

Varri a varanda
Inaugurando passagens
Entulhei pecados
No tapete surrado da porta
Dancei com folhas vencidas
De qualquer outono

Plantei heras e horas
Na murcha véspera da tarde
Reguei-as com águas de soluço
Cortei videiras atrevidas
E suas hastes indevidas
Colhi azevinhos
Na espera infértil
De quem sabe um beijo seco

Talhei entranhas
Com a faca da cozinha
Mil cortes
Em minha espessa pele
Com bílis aspergi os cômodos
Cruzei o corredor
Em tudo untando
E bendizendo
Risquei no chão
Áspero alicerce
O início da chama

 

 

 

***

 

 

 

PILATOS SE BANHA

 

Eu hoje volto
Com as mãos sujas de sangue
E não sei de quem
Já secou e mancharam
Vestes brancas e encardidas
Da sujeira do mundo

Tentei alvejá-las
Mas o cheiro fica
Entranhado na mente
Inundando as narinas

Ouço as vozes
De corpos que gritam
E o pavor me acorda
Em noites insones e nebulosas

Olho para as mãos
E estão rubras
Um alerta indelével
E as cubro com luvas
Para esquecer o sangue

Saio nas ruas
Paralelepípedos violentos
Jogados contra um crânio qualquer
Lançam-me num mar sangrento
Vejo vísceras e miúdos
Numa carnificina aterrorizante
Mas fecho os olhos
Tapo os ouvidos
Emudeço…

Sobram delitos
Para cada morte sentenciada
Tento convencer-me
Há no silêncio a virtude dos justos
E quem se resguarda
Tem o privilégio da vida

Sigo pela rua deserta
Não pela falta de gente
São seres de retidão
Que não gritam e nem se aborrecem
Inofensivos e cheios de bem
De branco trajados
E com luvas
Mesmo distante o inverno…

 

 

 

***

 

 

 

ARREMETIMENTO

 

Faço compêndios
Arrisco inscrições
Dentro de páginas ariscas
Eu sangro letras
E cada gota
Já é minha parte
No pacto maculado

Embaraço lãs
Entre agulhas agonizantes
Meu tear tem pressa
Em capturar
O fio do nada
E sua tenuidade
Na tapeçaria do tempo

Lavro atas obscuras
Cego no labor de sectários
Assino no anverso
O lado de fora
Da minha pele fugidia
Meus dias são documentos
Arquivos do morto passar

Corto a fita de cetim
Inaugural arquitetura
De voltas retorcidas
Abro esse mesmo caminho
E o pavimento
Sob o que em mim
Desiste e não recomeça
Curvas precedem
Diagonais flutuações

Abro imensas galerias
Nessa terra que há
Em busca de cínicos cristais
E nada do que busco
Minera a dor
Já o magma flui
Tão denso queimor
Meu solo alcalino
Ferido em ravinas

 

 

 

***

 

 

 

A BOTA ACIMA DOS PESCOÇOS

 

A bota acima dos pescoços
Brilhante e ilustríssima
Engraxada na melhor saliva
E com panos caríssimos
De decentes cidadãos

A bota acima dos pescoços
Dizem que é cega
Tal qual a deusa da balança
Mas tem forte predileção
Por tingir-se de sangue retinto

A bota acima dos pescoços
Curtida em puro couro militar
Orgulho da pátria
Item customizado na nação
Uma bela babá para o sono das elites

A bota acima dos pescoços
Pisando vigorosa no chão
De favelas e subúrbios
O solado tem fome animal
E devora ossos marginais

A bota acima dos pescoços
Pisa em folhas flutuantes
Balé adestrado e perfeito
Quando dança nos salões
Dos bairros da nobreza

A bota acima dos pescoços
Sabe de toda a carnificina
E sente-se orgulhosa
Do seu idioma de dor e violência
Abatem presas para um deus odioso

Os pescoços debaixo da bota
Ouvem a sinfonia macabra
De ossos partidos
E seus gritos desvanecem
Há falta de ar no país
E os pulmões precários
Tentam capturar
Qualquer sinal de vida

 

 

 

***

 

 

 

À NOITE NO BATEKOOL

 

Vejo línguas infames
Mortais verbos
De afiar navalhas

Esparramam na rua
Closes certos
E muito atrake
Abrindo esparcates
Em pernas longuíssimas

Giro pombagiresco
Voam as mechas
Das laces alucinantes
Cabeças como rodas da fortuna
E o futuro é tombamento

Magias profanas
Antigas conjurações
Ocultação dos mistérios
E o universo acuendando
E tudo sumindo
Num buraco negro

A Super Lua montada
Do céu brindava
E fazendo o lipsync
Banhava todas
Criaturas insubmissas
Na fronteira
Da folia
Daquelas que apenas
Deslizam

 

Tales Pereira. (Ar)risco versos desde os nove anos e até agora tenho essa maquina rota de fazer versilharias. Trago também meu corpo de beesha para esta tessitura, e uso desse verbo viado para enviadescer palavras e conceitos. Tenho vários palcos para uma multidão inquieta. Às vezes Thallyz Mann vem rodar essa gira comigo, ou eu com ela e vice-versa. E vamos todas girar: a doutoranda, a aspirante a performer, a cantora de chuveiros e tantas outras.  

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

 

O TERNO – <ATRÁS/ALÉM>

 

 

Uma das tentações mais recorrentes no estudo da obra de um determinado artista é dividi-la em vários períodos. Ainda que de forma controversa e simplificadora, fala-se das fases romântica e realista de Machado de Assis ou dos períodos coloridos e cubistas de Pablo Picasso, para ficar apenas em dois exemplos fáceis.

Quem acompanha o trabalho da banda paulistana O Terno e de seu principal expoente e compositor, o vocalista e multi-instrumentista Tim Bernardes, pode se sentir tomado pela mesma tentação. A banda, que lançou em 2012 seu elogiado álbum de estreia, 66, se notabilizou por um som com tintas neo-psicodélicas, um tanto quanto freak, na melhor acepção do termo.

Em <atrás/além>, o quarto disco do grupo, lançado em abril de 2019, há uma continuidade estética do primeiro voo solo de Bernardes, Recomeçar, de 2017, sem a companhia de seus colegas de banda Guilherme d’Almeida (baixo) e Biel Basile (bateria). Com o artista alcançando uma maior maturidade pessoal e criativa, <atrás/além> segue na procura por caminhos mais lapidados. As composições intimistas e melódicas mostram um Tim Bernardes com um sotaque próprio, típico de cantores-compositores de grande calibre.

 

O Terno / Foto: divulgação

 

Há uma grande coesão no álbum, muito em razão do grande zelo nos arranjos, que possuem uma qualidade cinemática, emoldurando os vocais cada vez mais idiossincráticos de Tim. Mesmo o balanço à Jorge Ben de “Bielzinho/Bielzinho” não soa deslocado e carrega alguns dos mesmos elementos de introspecção que permeiam os cinquenta minutos do disco. Aqui cabe destacar o talento de Tim não apenas como compositor, mas também como produtor, já que em <atrás/além> ele é creditado pela primeira vez na história da banda como produtor solo.

Tim Bernardes parece consciente de atravessar um movimento cíclico em sua vida e carreira, e os títulos das canções parecem retratar essa dicotomia: “Atrás/Além”, “Nada/Tudo”, “Profundo/Superficial”, “Passado/Futuro”. Ao se aproximar dos seus 30 anos de idade, Tim se autodiagnostica ao mesmo tempo no final de algo e no começo de outro, como nos versos de “Pegando Leve”: “Dividido, indeciso / Me cansam tantos hipsters e modernos de plantão / Me cansa ser mais um // Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim, recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu”.

Ao mesmo tempo em que celebra a coletividade em “Nada/Tudo” (“Como é que vai, Vaquinho? Como é que vai, Luiza? / Como é, my brother Charlie? Salve, Tute, salve, Geeza! / Companheiro Bielzinho, porows, peixe, nóis, clubinho / Mari e turma da pesada, não me sinto tão sozinho”) e homenageia o baterista Biel Basile em “Bielzinho/Bielzinho”, O Terno se torna cada vez mais um retrato de Tim. Falta-nos o distanciamento temporal para classificar onde termina o período “Terno” e onde começa o período “Tim”, ainda que eles coexistam nos dois discos mais recentes, o solo do Tim e <atrás/além>. De uma forma ou de outra, sejam quais forem os caminhos futuros, O Terno e Tim Bernardes já se configuram como objeto de estudo obrigatórios na música brasileira dos anos 2010.

 

 

Rogério Coutinho é operário museal, podcaster e publicitário de formação, não-praticante. Um homem do interior, em vários sentidos.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Wilfredo Lessa Jr.

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

Futuro do Pretérito

 

Primeiro ia tirar os sapatos. Perderia o medo dos pés sujos e entraria mata adentro, se despojando das roupas até estar nu. Enfrentado o terror da escuridão, o frio, os mosquitos, cobras e o que mais habitara sua insegurança infantil. Seguraria na Jurema, na fé antiga, e ia aprender a se perder de vez.

Viria tarde pra casa, cansado e com fome. Ansioso pelo banho e fazendo as contas pra fechar o mês e poder ir tomar umas caipirinhas na praia, dormir até tarde e lembrar qual a valia daquilo tudo. Entraria no apartamento com um sorriso, contaria uma história e colocaria as mãos nas costas dela, sentindo o cheiro do sono vindouro.

Acenderia a luz da sala. Sentaria na poltrona carrancudo. Três da manhã e ele não atendeu o celular uma única vez. Já teriam conversado longamente sobre ele. Assumiria a responsabilidade dessa vez. Não queria gritos. Queria encarar o idiota olho no olho e saber se estava bem e se tinha comido. Colocaria a sobra de almoço no prato e dentro do microondas.

Compraria seus próprios remédios. Sangue derramando no chão seria muito assustador pra ela. A cena teria de ser de sono. As despedidas e pedidos de desculpas teriam de estar escritos. Toda a operação iria se realizar de forma simples. O momento de ir tão longe quanto necessário pra escapar de si. Imaginaria o reencontro com ele e ia ter certeza que iam faltar dados e o livro do mestre, mas sempre valia mais ter um bom cenário. Teria vários planejados.

Sairia na rua sem avisar. Desligaria o celular. Andaria por horas sem rumo.

 

 

***

 

 

Coleiras

 

Fazia sol na praça. Poucas nuvens no céu, crianças correndo e gritando. Pipoca, algodão doce e aquela quentura gostosa, abrandada pelas folhas das amendoeiras que moravam ali.

Isolda detestava e amava tudo aquilo. Desprezava os guris e suas brincadeiras idiotas, mas amava o efeito que causava neles. Os olhos assustados, o modo como abriam espaço, a sensação de poder mudar o aspecto da praça inteira com sua simples presença. Dela e de Tião.

Dalila era uma linda! Alegre, brincalhona e boba. Só causava medo pelo tamanho. Era uma Fila brasileira imensa… a alegria da fazenda São Ciro. Depois do assalto, veio o medo, veio Conde, o Mastim Napolitano. Grande, severo e bem treinado. Não fez questão de ser mimado ou brincar. Seu trabalho era outro. Dalila tentou mas não conseguiu nada além da cruza. Conde era mesmo europeu.

A ninhada era apenas de três filhotes: duas fêmeas cinzentas (Loli e Poly) e um macho de pêlo negro e cara enrugada. Isolda tinha acabado de debutar seus quinze anos e vovô achou que era melhor dar um cachorro, que era de graça, do que um celular.

Isolda olhou para os cães com um desdém completo. Eram fofos, mas preferia tê-los como brinquedos da fazenda do que se encarregar dos cuidados, xixis e cocôs. Sua mãe ia encher pra que fosse ela, e não Neide, que fosse responsável pelo bicho. Ponderava a desculpa ideal pra se manter nas graças de vóvis e conseguir ao menos metade das parcelas do iPhone, que dinda cobriria o resto. Foi quando percebeu que Tião rosnava para as irmãs. Pegou ele no colo e foi amor derramando no chão.

Isolda treinou Tião com afinco naqueles três anos. Na disciplina cruel que só uma adolescente é capaz. Carinhos imensos e punições geladas. Era como se Tião tivesse de agradar duas donas diferentes, mas que cheiravam do mesmo jeito. Tião se tornou assustador, feroz e tenso. O corpanzil parecia ainda maior com a pelagem e os dentes brancos que brotavam da boca negra eram saídos de um conto de lobisomem.

Nem a mãe, nem o pai e nem Neide eram capazes de cuidar de Tião, mas era Isolda chegar e Tião se derretia em pulos e rosnados. Isolda permitia exatamente vinte segundos de afagos. No olhar, num simples olhar, Tião ficava teso. Estático e firme, sentado nas patas traseiras, olhando em súplica. Babando e esperando.

Tião ouvia os passos dela pela sala. Já havia compreendido todo o ritual. Podia sentir o cheiro dela mesmo do quintal. Ela tomaria banho e sairia com a coleira na mão. Era uma peça de couro firme, grossa e com três fechos de metal prateado e polido. Ligado a ela, uma corrente fina mas muito sólida. Não importava o quanto fosse difícil, tinha de se conter e esperar que ela prendesse a coleira no seu pescoço. Toda aquela ânsia de latir, morder e correr precisava ficar presa até a praça.

Isolda segura Tião com pulso firme. Sabe que ele jamais se afastaria dela pra morder ninguém. Mas eles não sabem, e é uma delícia. Tião rosna e ruge. Suas ameaças estrondam pela praça e todos os olhos estão em Isolda. Vestido florido, cabelo de presilha e óculos de menina estudiosa. Um contraste adorável. Tão adorável quanto a ausência da calcinha.

Isolda tinha mesmo algum poder.

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Léa Costa Santana

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

Urgência

 

Desistir enquanto há tempo e ensejo
Da casa sem frestas, das portas fechadas,
Das flores murchas e seus vasos quebrados,
De todos os domingos em branco e preto.

Desistir enquanto há tempo e ensejo
Das mãos que prendem sem nenhum abraço,
Das palavras mornas, do amor minguado,
Do sexo sem nenhuma estrela acesa.

Escrever cartas para o Papai Noel,
Fazer pedidos a estrelas cadentes
E aos santos meninos rezar novenas.

Aprender a pular as sete ondas do mar,
Construir torres e castelinhos de areia
Para neles se abrigarem as sereias.

 

 

 

***

 

 

 

Testamento

 

Ela bem sabia não fora amor.
Porém, casada. Por onde a coragem?
Não poucos lhe diziam: “É bom moço”.
Que pensasse nos filhos e no lar.

Ela bem sabia não fora amor.
Porém, calada. Por onde a coragem?
Era trêmulo o amarelo das dores
No recôndito do peito sangrado.

Ela bem sabia não fora amor.
Corpo tomado, rasgado, calado.
Os filhos distantes, partira o esposo.
Restaram as grades e os cadeados.

Ela bem sabia não fora amor.
Olhar tíbio, desejos sufocados.
Como ser corpo após tanto repouso,
Ferrolhos na voz, o riso guardado?

Ela bem queria ter sido amor.
Como bicho, como puta. Gozar
A liberdade de se prender ao outro
Em delírio: língua, dedos e falo.

Ela bem queria ter sido amor.
Como bicho, como puta. Gozar
As delícias do sexo sem pudores.
Amar sem limite, amar sem recato.

Ela bem queria ter sido amor.
Juiz impiedoso, amarelado,
O tempo, agora convertido em flores,
Espiava a urna a ser lançada ao mar.

Ré sem culpa, morreria de amor
Como bicho, como puta. Gozar
As delícias de se entregar ao ardor
Do corpo que para si resgatara.

 

 

 

***

 

 

 

Corpo calado

 

Por que tão tarde na rua?
– Ela desejava: era puta.

Por que tão curto o vestido?
– Ela provocava: era perdida.

Por que o rebolado e a cerveja?
– Ela queria: era rameira.

Por que tão feliz e risonha?
– Ela pedia: era piranha.

Estava sozinha a devassa.
Batom vermelho, talvez drogada.

No beco, no escuro:
Vestido rasgado,
Corpo violado.

– Puta, rameira, perdida!
Em deboche a polícia.

Na maca, às escuras:
Corpo sangrado.
Feto gorado.

– Acaso não merecera?
Em potestade a Igreja.

No túmulo, às claras:
Um corpo pálido.
Calado.

 

 

 

***

 

 

 

Urbanidades

 

A moça não parava.
Corria de um lado para o outro.
Arrancava os cabelos.
Dizia palavras desconexas.

Pintava-se de azul turquesa.
Pegava carona na lua.
Comia nuvens de algodão.
Brincava com os anjos do céu.

Era de vidro, de tons incolores.
Chovia lá dentro, no peito.
Alguém levasse suas águas.
Era o clamor da moça na rua.

Que se chamasse o padre.
Ela queria confessar seus pecados.
Que se chamasse a polícia.
Ela queria confessar seu delito.

A moça sangrava.
Franzina, quebrada.
O trânsito parado.
Todos absortos.

Fumaça.
Trinta e três.
A cola e os pivetes.
Meninos e meninas.

Picolés e chicletes.
Tesourinhas e bonés.
Um real.
Dois reais.

Sinal vermelho.
Pavor e medo.
Luzes apagadas.
Vidros fechados.

 

 

 

***

 

 

 

Escrevivências

 

Num canto da sala, estava Nininha.
Nunca, dos lábios, um som ou palavra
Para que se percebesse a menina.
Dizia-se: “Nascera muda, coitada!”

Tudo, porém, era voz em Nininha.
Os olhos choviam e as mãos sangravam
Inscrições da cálida pequenina
Nas mobílias e paredes da sala.

Pura maldade: ceifaram paredes
E queimaram a madeira mofada.
“Tragam papel!”, implorava Nininha

Para compor registro de segredos
Escondidos nas ruínas sangradas.
Narradora de enredos, a Nininha.

 

Léa Costa Santana é doutora em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestra em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Especialista em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Professora de Literatura Brasileira da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Integra as coletâneas “Contos de Natal” (Lura Editorial, 2019), “Natal com poesia” (Biblio Editora, 2019), “Canarinho” (Porto de Lenha, 2019), “Toca a escrever” (In-Finita, 2020) entre outras.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Da crise à salvação: os novos poemas de Jorge Elias Neto

Por Geraldo Lavigne de Lemos

 

 

A recente publicação de formas fixas é um novo percurso na trajetória de Jorge Elias Neto e traduz os eventos mais contemporâneos: revisão de modelos e padrões. Contudo, a intenção do autor ultrapassa o presente, pois avalia a crise que a humanidade atravessa desde o Século XX, agravada nas últimas décadas. Nesse contexto, constrói variadas situações para conduzir o leitor por este grande observatório da alma que é Sonetos em crise. A poesia da obra resulta da ânsia da palavra enquanto entidade autônoma, desde quando apenas verbalizada até a presente escrita.

O poeta anota logo de início que as mudanças acontecem em decorrência das necessárias buscas por alternativas à sobrevivência, como modo de enfrentamento das permanentes ameaças de extinção. A crise civilizatória abordada pelo autor atravessa o existencialismo e deságua na sociedade industrial de riscos e destruição, que a ciência deu azo, mas não deu cabo ainda.

Vê-se, então, um labor complexo para dar conta de tantas relações intersistêmicas: artes, desenvolvimento e sobrevivência amalgamados nestes dias presentes. Ora as rimas preciosas e incomuns apresentam o extenso léxico do autor, ora versos brancos e intertextualidades revelam o cabedal, ora a coloquialidade torna-se instrumento de intrusão e profusão na sociedade, ora os decassílabos remontam o clássico na contemporaneidade.

O Soneto em crise, que inspira o título do livro, persegue o sentido da vida e o divino, com o pesar do pecado que amaldiçoa a vida terrena. Tal maniqueísmo persiste durante toda a obra, sem esclarecer se originado na formação do próprio Jorge Elias Neto ou se utilizado como ferramenta do eu lírico para eliciar do leitor as reflexões pretendidas. Certo é que, ao longo das páginas, o poeta manifesta o conflito entre o divino e mundano, extraindo a tensão poética a partir das qualidades exigidas para ingressar no paraíso.

Nesse fazer, ele também questiona a religiosidade enquanto construção humana e utopia, ainda que essencial à vida. E do evidente conflito de racionalidade que nasce da religião, o poeta impõe o exame permanente da morte e a salvação pela arte, capaz de perpetuar um estado de sobrevivência com significado. A vida está em discussão e todos nós, enquanto leitores e viventes, somos compreendidos pela densa e irremediável temática que assombra a nossa espécie desde a mais remota inteligência.

Nem a busca pela perfeição escapa ao atento olhar de Jorge Elias Neto, rejeitando-a se porventura manchada pela vaidade. O autor quer a sabedoria e a simplicidade. Para tanto, importa deixar os espaços de poder e privilégio, bem como os espaços de conforto e segurança. Assim, ele traça a perspectiva rebaixado, donde, à margem das coisas, é possível ver por inteiro o significado dos acontecimentos. Um genuíno mergulho no íntimo e no silêncio das coisas, tornando-os despudoradamente públicos.

É um risco e tanto, e Jorge Elias Neto parece movido por uma força impávida. Contudo, essa incessante procura pela verdade é contraposta por um certo medo das consequências da razão plena. Dizem por aí que coragem é continuar o caminho a despeito do medo, e dizem igualmente que a abstração é um bom remédio para combater o choque da realidade. Suspeito que o eu lírico tomou algumas discretas doses destes absintos, pois ele segue e chega ao destino.

Acontece que a revelação exige a imersão nesse ambiente de certo torpor para conectar simultaneamente o poeta com o universo que o rodeia e o permeia. Sem jamais dissociar-se da consciência, a embriaguez é passageira e o remédio, um mero placebo. A razão cresce ao transitarmos pelos sonetos e a realidade é cada vez mais pungente. Ao cabo, ele alcança sóbrio o limiar da consciência, ainda que isso lhe custe autodefinições ultrajosas após lancinante embate. Enfim, sentindo-se vazio e diante do nada, sabe-se invencível e inteiro.

O retorno do poeta ganha luz, cores do outono e compaixão. Sim, ele retorna compassivo para nos trazer o seu relato, volta fecundo de sabedoria para aplacar o frio de seus semelhantes. Mesmo que a consciência ainda o importune, ele é esperançoso. E tal contrariedade incomodará o autor como um infortúnio. Tanto que o retorno do poeta também ganha sombra e ele deixa de ser um amedrontado para tornar-se um amedrontador, uma figura mítica e colossal a transitar entre o divino e o humano, um arauto e semideus.

A mensagem que Jorge Elias Neto porta não visa facilitar a vida do leitor, mas conduzi-lo à igual revelação, processo que pode ser tão penoso para o leitor quanto foi para o autor. Ele bem compreende o quão custoso pode ser tocar a lâmina da verdade, mas sabe também que esta é a única forma de libertar o ser humano, dando-lhe autonomia e consciência plena diante das absolutas incertezas da vida.

Diversas áreas de conhecimento se ocuparam com as balizas da existência humana valorosa e digna. Os pensadores conectaram-se com as pessoas dentro de um arco, tendo em seus extremos a objetividade e a subjetividade – e aqui leia-se a arte, conceito retomado em diversos poemas. Dito isto, entenda o curioso desfecho que o autor trará: arte e poesia são o caminho. Ainda que o leitor ingresse nessa jornada pelo poema, é a poesia o método de alcançar o que o autor pretende, renovando no leitor a forma de olhar o mundo e o tempo presente através da arte. Quem alcança a esperada revelação, ganha visão e consciência tão destoantes que, em geral, será tido como louco, quando, na verdade, será um dos poucos a vagar liberto e verdadeiramente vivo neste mundo.

Trata-se de um itinerário de purificação das pessoas e de humanização das divindades, que reduz a vaidosa autorreferência e sobreleva a alteridade, quebrando as engrenagens tradicionais e as lógicas científicas, dando espaço a um estado sobre-humano. Pode parecer estranho, todavia o poeta alcança a recriação do mesmo espaço e da mesma vida de um modo diferente, completo e outrossim imperfeito, porque tem que haver nada no tudo para que seja inteiro, tem que haver todos em cada um para que seja tudo.

 

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor de seis livros. Publicou literatura nas revistas Revista da Academia de Letras da Bahia, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa, InComunidade, Ser MulherArte e Acrobata, nos jornais Diário de Ilhéus (Ilhéus/BA), Fuxico (Feira de Santana/BA) e A Gazeta (Vitória/ES) e no blogue LiteraturaBR. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus, parecerista ad hoc da Editus e membro de comissão julgadora de concursos literários.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Meu nome é Bagdá. Brasil. 2020.

 

 

Consta que Meu Nome é Bagdá é o segundo longa da jovem diretora Caru Alves de Souza (o primeiro, De Menor, foi filmado em 2013). Mesmo assim, este longa de 2020 tem a energia impactante e renovada de uma obra de estreia. Foi apresentado no Festival de Berlim deste ano e ganhou o prêmio de Júri da Mostra Generation, que traz obras que enfocam a juventude. Na Berlinale, o filme foi aclamado pelo público. A diretora é filha da renomada cineasta Tata Amaral, e mãe e filha são sócias da produtora Tangerina.

Meu Nome é Bagdá conta a história de uma moça de 16 anos, de apelido Bagdá (vivida por Grace Orsato), que é skatista e vive na Freguesia do Ó, bairro de São Paulo, com sua mãe (interpretada pela cantora e atriz Karina Buhr) e duas irmãs mais jovens. A formação exclusivamente feminina da família é marcada logo nas primeiras cenas que retratam uma conversa familiar amistosa enquanto a mãe troca de roupa para sair. Apesar da simplicidade da vida doméstica periférica, o clima é de completude, no qual a necessidade econômica não parece intimidar.

Fora desse lar feminino, no entanto, Bagdá se relaciona com jovens rapazes, a maioria ainda adolescente, que também são skatistas. O skate é não apenas a maior diversão desses jovens (além do consumo eventual de maconha), mas também um modo de linguagem que se expressa na fala, na vestimenta e na relação social da “tribo”. Esse modo uniformiza os jovens em termos de visual e gestual, e a princípio também em termos de sexualidade. Na tribo, a solidariedade horizontal se sobrepõe a diferenças de sexo, gênero e cor. Há também a relação territorial com o bairro, que é um dos móveis do filme.

Há apenas um fino fio narrativo, sutil, a ligar cenas que variam nas manobras de skate e na música de rock punk, pop ou rap, ou nas conversas pontuadas pela gíria local, num quase dialeto. Bagdá, cujo nome de batismo é Tatiana, se integra à sua tribo e à solidariedade entre os pares por um apagamento, a princípio voluntário, de seu gênero. Na ausência de grandes conflitos e dramas, a história e a câmera giram em torno da ambivalência de gênero de Bagdá, que assume um modo de viver sua sexualidade emergente pela indecidibilidade.

 

Grace Orsato na pele de Bagdá / Foto: divulgação

 

Na verdade, é esta indecidibilidade de gênero que a obra procura sustentar. Numa das primeiras cenas dramáticas, uma “dura” de policiais militares sobre os adolescentes, com a constante achacação e com o exercício de terror, a jovem é questionada sobre sua sexualidade e responde apenas que “é de menor”, título aliás do primeiro longa da diretora. Essa resposta também sugere que a obra adota um enquadramento temático de “filme de passagem”, de “coming at age”, da perda de inocência com a transição da imaturidade para a maturidade.

A cena mais dramática do filme, no entanto, é a reemergência da questão do gênero vinda não como repressão de Estado, mas do próprio interior das relações de grupo, ou ainda da família. Primeiro com o afloramento de certo “ciúme” em relação à sexualidade mais ostensivamente feminina de sua irmã; em seguida, pelo desvelamento do machismo cortando violentamente a solidariedade horizontal tribal entre os jovens. Esse corte propicia o ressurgimento de outra solidariedade, enquanto sororidade entre as “manas”, já não mais simplesmente localizada no território, mas distribuída pela cidade. É essa relação entre territorialidade (do bairro ou da “freguesia”) e desterritorialidade (da sororidade enquanto solidariedade de gênero) que representa outro eixo formal da obra.

A tênue teia narrativa, criada em torno de conflitos específicos, é o fio de eventos que liga o filme à principal rede de imagens na qual se insere.  Meu Nome é Bagdá oscila entre o filme de registro, documental, e o filme de ficção e faz parte de uma recente produção cinematográfica brasileira que procura construir uma estética que mal poderíamos chamar de realista; termo talvez melhor seria hiperrealista. O filme estabelece um diálogo com os filmes da cidade mineira de Contagem, como os exemplos de obras como Ela volta na quinta, Temporada ou No coração do mundo, da produtora Filmes de Plástico. Ou com o pungente Arábia, cujo título equívoco ressoa com o nome Bagdá.  Podemos dizer que todas essas obras são filmes de registro que apagam a distinção entre filme ficcional e filme documental. Essas obras traçam uma fronteira não entre ficção e não ficção, mas criam outra distinção entre filme e contexto. O filme se transforma numa película digital de imagens que absorve os elementos significantes de seu contexto espaço-temporal (cronotópico). Esse contexto é o da sociedade brasileira periférica (das “quebradas”) dos trabalhadores informais e precários contemporâneos. Trata-se, portanto, de registro e não de representação, de absorção ou de permeabilidade aos signos concretos da vida urbana periférica e não de seu reflexo.

O filme é a forma que emerge a partir da seleção de elementos de um meio de concretude vivencial, como se fosse um filtro desse meio. No entanto, a distinção entre ficção e não ficção não desaparece, mas reentra para o interior do filme e passa a ser um dos elementos da montagem cinematográfica. Isso está claro na escolha de todas essas obras (incluindo as de Contagem) por não atores (ou atores locais) e pela escolha de um território contextual na qual o filme se imbrica enquanto mapa cinematográfico, no caso, da Freguesia do Ó. A narrativa do filme não apenas registra o cotidiano dos skatistas do lugar, mas os liga numa semiose temporal com a reminiscência da cena punk da periferia, eternizada na canção popular de Gilberto Gil.

 

Foto: divulgação

 

O jogo entre ficção e não ficção faz parte do roteiro. Esse jogo desmonta alguns dos momentos mais tensos do filme, por exemplo, na cena do ataque homofóbico no campo de futebol. Logo em seguida, esse momento dramático é desconstruído pelos esquetes que “quebram” a tensão do registro supostamente realista, criando um distanciamento quase brechtiano. Já no passeio de ônibus metropolitano até o Centro da capital (sua parte “rica”), é a total indistinção entre a ficção e não ficção que se torna um elemento da montagem cênica. A viagem de ônibus é e não é “real”. Finalmente, nas cenas dos jovens praticando skate nas rampas da Freguesia, ou nas ruas da cidade, ao som de rock, o registro videoclipado indica uma estética audiovisual natural, que, por fazer parte da formação desses mesmos jovens, não é menos “realista” do que as manobras arriscadas sobre suas pranchas de rodas. Todas se incluem no modo de vida que é próprio a esses jovens ou a essa tribo, no qual a estética não é um registro exterior.

O saldo do filme é francamente positivo ou otimista. Num momento tão absolutamente pessimista da vida nacional, no qual a cultura vem sendo sistematicamente atacada, quando não destruída, o filme de Caru Alves de Souza é uma brisa fresca de utopia. A cultura enquanto seiva vital flui através de Meu nome é Bagdá.  A conclusão não é que os jovens devem, para alcançar a maioridade, se adaptar às regras do jogo, seja do Estado (ou pior, do Mercado) quanto do sexo (ou do gênero). Nesse aspecto não há diferenças gritantes entre as escolhas dos adultos da história e as dos adolescentes. A obra na verdade relativiza as fronteiras que a sociedade tenta impor, através da lei ou dos códigos de moralidade. Ao desconstruir tais distinções, a obra de Caru mostra que a ação fortificada pelas solidariedades horizontais, de gênero ou de afinidade, é um empoderamento que não está para lá, mas para cá de Bagdá.

 

 

Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.