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	<title>139ª Leva &#8211; 06/2020 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<description>entre caminhos e palavras</description>
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	<title>139ª Leva &#8211; 06/2020 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<item>
		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 12:27:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[139ª Leva]]></category>
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		<category><![CDATA[edição]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 139ª Leva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Fernanda-B-1.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="385" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Fernanda-B-1.jpg" alt="" class="wp-image-18022" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Fernanda-B-1.jpg 385w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Fernanda-B-1-231x300.jpg 231w" sizes="(max-width: 385px) 100vw, 385px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Desenho: Fernanda Bienhachewski</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nestes tempos de relativo confinamento, muitos de nós percebemos o quanto a arte é fundamental. E ela não é tão somente a preenchedora dos instantes envoltos no ócio, mas a que tende a chacoalhar a rotina dos dias, propondo-nos um sem fim de caminhos. De todo o repertório possível, há mergulhos que nos impactam com mais intensidade do que outros. Seja na literatura, cinema, música, teatro ou artes visuais, para ficar nalguns exemplos, há sempre distintas chances de assimilação dos conteúdos. Mesmo que algumas dessas fruições não representem qualquer tipo de transformação do sujeito ou de sua realidade, ainda assim este pode ser atravessado pelos temas dispostos bem diante de seus sentidos. As obras também são instrumentos de comunicação que nos falam do quanto o estar no mundo significa muito. Quantos de nós não se sentem, em algum momento da vida, representados por determinadas narrativas artísticas? Certamente, há tanto processos naturais de identificação com obras específicas quanto o contrário. Sentir-se parte de algo, ainda que no campo ficcional, já parece nos dizer um pouco sobre o que somos. Pensando desse modo, o artista é também uma espécie de porta-voz de muitos ímpetos inconfessáveis, pois um dia talvez tenha faltado coragem a alguém de exprimi-los. Daí, percebemos o fio tênue entre dois mundos, o interno e o externo, através do qual a arte encontra seus deslizamentos. Dizer o indizível, provocar, balançar as fundações, desacomodar certezas, eis algumas investidas que podem muito bem não corresponder a um mero efeito retórico. E assim as estruturas vão se delineando e movimentando narrativas que nos atraem também por seus apelos inusitados. Nesse sentido, observamos, por exemplo, a capacidade que os poemas de gente como <strong>Alexandre Pilati</strong>, <strong>Helena Arruda</strong>, <strong>Neuzamaria Kerner</strong>, <strong>Juliana Sbrito</strong>, <strong>Vanessa Teodoro Trajano </strong>e <strong>Jorge Lucio de Campos </strong>têm de atrair nossas atenções. Quando o tema é discorrer sobre certas veredas literárias na contemporaneidade, a entrevista com o escritor <strong>Rodrigo Melo </strong>nos sugere perspectivas e reflexões bastante interessantes. É <strong>Vivian Pizzinga </strong>quem nos ciceroneia pelos caminhos de “haverá festa com o que restar”, livro de poemas de <strong>Francisco Mallmann</strong>. E há também espaço para as pulsações intensas nos contos de <strong>Adriano B. Espíndola Santos </strong>e <strong>Enio Jelihovschi</strong>. No nosso caderno de cinema, <strong>Guilherme Preger </strong>traz à tona algumas discussões sobre o instigante filme sueco “Border”.&nbsp; <strong>Rans Spectro </strong>relembra o impacto causado por “Sobrevivendo no Inferno”, disco antológico dos <strong>Racionais MC’s</strong>. Por seu curso, <strong>Gustavo Rios </strong>nos oferta seus agudos olhares para “Bartolomeu”, romance de <strong>Bruno Ribeiro</strong>. Por todos os cantos de nossa mais nova edição, fomos brindados com uma exposição dos desenhos de <strong>Fernanda Bienhachewski</strong>, que tem como um de seus temas centrais as delicadas nuances do corpo. E assim se firma a nossa 139ª Leva, repleta de caminhos e acolhidas. Boas leituras!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-ii-76/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 12:23:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[Evas]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Neuzamaria Kerner]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[A presença contemporânea e reveladora de Neuzamaria Kerner

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Neuzamaria Kerner</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-4.jpg"><img decoding="async" width="361" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-4.jpg" alt="" class="wp-image-17993" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-4.jpg 361w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-4-217x300.jpg 217w" sizes="(max-width: 361px) 100vw, 361px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Desenho: Fernanda Bienhachewski</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ESCREVIVENDO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrever e viver<br />
se misturam<br />
quando os olhos se apuram<br />
para ver o traçado da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que o meu sentido veja<br />
o percurso das veias<br />
que levam sangue e sentimento<br />
na vida em circulação</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que eu veja e seja<br />
percurso e veia então</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste percurso inscrito na alma<br />
eu me inscrevo na vida<br />
e sigo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrever é fazer autópsia<br />
dos vivos sentimentos<br />
que borbulham em cada passo<br />
veia, sentido e laço<br />
no traço dos meus caminhos</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>VIRULÊNCIA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia<br />
nossos olhos se abriram<br />
e não estávamos sós</p>



<p class="wp-block-paragraph">Prosseguimos desbravando</p>



<p class="wp-block-paragraph">Noutro dia<br />
como pedras atritadas<br />
palavras começaram um incêndio</p>



<p class="wp-block-paragraph">Prosseguimos debatendo</p>



<p class="wp-block-paragraph">De repente<br />
nos vimos apartados<br />
olhos tapados contra o sol<br />
desabraços legislados<br />
obrigados num exílio<br />
que dá dó</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos morrendo</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>FÚRIA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pior fúria é a silenciosa<br />
A fúria disfarçada de um<br />
Atrai a fúria oculta de outro<br />
Nos barulhos a fúria tapa ouvidos<br />
Nos silêncios a fúria age<br />
Pressente oportunidades<br />
Embaralha sentimentos<br />
Finge felicidades<br />
Permanece má passageira<br />
No colo que embala a raiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SÚPLICA POR UM INCÊNDIO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em verdade<br />
nunca fui um vulcão<br />
em permanente erupção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em aparência<br />
sempre soltei labaredas de vida<br />
para viver as necessidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No imo<br />
busquei o sentido para continuar<br />
meu sentido interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que há no centro dos ossos nossos<br />
escapa aos olhos do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas meus passos pararam<br />
quando descobri que do nada<br />
só têm saído nadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma pequena fagulha<br />
pode reacender uma chama<br />
e eu preciso me queimar<br />
nem tanto nem pouco<br />
como sempre foi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dá-me um fósforo, ó meu Pai!<br />
Um pequeno incêndio<br />
já vale uma vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SITIADOS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transito na transição<br />
mas não imune<br />
aos vírus que enrugam minha cara</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste trânsito que penso infindo<br />
outros também transitam<br />
com suas carquilhas expostas</p>



<p class="wp-block-paragraph">De costas os vírus<br />
metáforas do horror<br />
riem discórdias<br />
matando o espírito crítico<br />
ou seja lá que espírito for</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na dor de onde vinda não sei<br />
pobre cães ladram e atacam<br />
as caravanas que passam</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PONTUALIDADES</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu me divido em minutos<br />
o tempo em eternidades.<br />
Eu sempre gerundiando<br />
o tempo imperativista.<br />
Eu vivendo de atrasos<br />
o tempo de nunca mais.<br />
Eu compasso de esperas<br />
o tempo sempre passando.<br />
Eu cheia de reticências&#8230;<br />
o tempo de pontos finais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Neuzamaria Kerner</em></strong><em>, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Gramofone</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-73/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 12:12:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[disco]]></category>
		<category><![CDATA[Racionais MC’s]]></category>
		<category><![CDATA[Rans Spectro]]></category>
		<category><![CDATA[rap]]></category>
		<category><![CDATA[Sobrevivendo no Inferno]]></category>
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					<description><![CDATA[Rans Spectro rememora “Sobrevivendo no Inferno”, disco emblemático dos Racionais MC’s ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Rans Spectro</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RACIONAIS MC’S – SOBREVIVENDO NO INFERNO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Sobrevivendo_no_Inferno.jpg"><img decoding="async" width="350" height="350" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Sobrevivendo_no_Inferno.jpg" alt="" class="wp-image-18041" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Sobrevivendo_no_Inferno.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Sobrevivendo_no_Inferno-300x300.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Sobrevivendo_no_Inferno-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;O ano era 1997. Enquanto o mundo se distraía tragicamente com o desenrolar da morte de Lady Di, vítima da insanidade midiática ao extremo, e com a trama científica da clonagem da ovelha Dolly, o Brasil seguia sob as vacilantes rédeas neoliberais da era FHC. Na TV, no mesmo canal onde Zé Ramalho cantava as agruras da &#8220;Vida de Gado&#8221; na abertura da novela, o ainda semi grisalho Bonner noticiava extasiado em rede nacional a prisão da banda Planet Hemp.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Grande ano da música brasileira, com lançamentos de discos que ajudariam a notabilizar ainda mais os produtivos anos 90, e imprimiria definitivamente suas digitais na subjetiva calçada da fama nacional. O citado grupo de Marcelo D2, antes de ir preso por falar de maconha, agraciou o mercado com o fantástico <em>Os Cães Ladram Mas a Caravana não Para</em>. O ano também contaria com pedradas, a exemplo do primeiro cd do Charlie Brown, e o <em>Quebra-Cabeças</em>, sucesso estrondoso e pop de Gabriel o Pensador. Sem esquecer de mencionar também o <em>Lapadas do Povo</em>, quarto disco de estúdio da melhor fase dos Raimundos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas foi em dezembro, precisamente no dia 20, poucos dias antes do Natal, que fomos presenteados com um dos discos mais relevantes da música negra mundial, 14° mais importante do Brasil, segundo ranking da Rolling Stone, e, sem dúvida alguma, um dos mais notáveis lançamentos do gênero Rap de todos os tempos no país e no mundo. Sim, ele mesmo, o quarto disco dos Racionais MC’s, o histórico <em>Sobrevivendo no Inferno</em>. Obra que extrapola o universo do hip-hop, flerta com fotografia, literatura e jornalismo de denúncia. Mais do que um disco, é um verdadeiro manifesto político da periferia, álbum que colocou merecidamente em definitivo os Racionais no panteão sagrado dos grandes nomes da música.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em maio de 2018, o álbum foi incluso na lista de leitura obrigatória para o vestibular de 2020 da Unicamp.&nbsp;Meses depois, a obra virou livro, lançado pela Companhia das Letras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <em>Sobrevivendo no Inferno</em> é um divisor de águas não só na carreira dos Racionais, mas para o rap nacional. O grupo, que seguia uma trajetória ascendente na qualidade dos seus lançamentos, incluindo o primeiro grande disco independente de sucesso (<em>Raio X do Brasil</em>, lançado em 1994), ajudou a impetrar no imaginário coletivo das periferias brasileiras narrativas complexas e reais, que dialogavam assustadoramente com a realidade. Narrativas essas com notáveis teores de reflexões sociais, críticas ao sistema e a explicitação de realidades não presentes para a maioria dos brasileiros: o dia a dia do sistema carcerário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/racionaisdivulgacao-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/racionaisdivulgacao-1.jpg" alt="Foto: divulgação" class="wp-image-18032" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/racionaisdivulgacao-1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/racionaisdivulgacao-1-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Racionais MC&#8217;s / Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além da evolução das letras e narrativas, a sofisticação da estética da capa e das bases chamou a atenção, deixando claro que o grupo não passaria despercebido perante outros setores da sociedade até então não alcançados pelas narrativas da periferia do rap.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O disco é iniciado com uma bela versão de “Jorge de Capadócia”, oração de guarnição dos adeptos de São Jorge, imortalizada pelo homônimo cantor de sobrenome Ben. Na sequência, o interlude “Gênesis” e, após, a faixa “Capítulo 4, Versículo 2”, um verdadeiro soco no estômago da sociedade brasileira, até então nunca &#8220;afrontada&#8221; de maneira a se deparar com o formato musical duro e sofisticado do que o grupo define por &#8220;efeito colateral que seu sistema fez&#8221;. A música conta com a participação do ex-goleiro do Santos, e filho de Pelé, Edinho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também são destaques no disco as faixas &#8220;Tô ouvindo alguém me chamar&#8221;, que, a meu ver, é um curta-metragem no formato rap, além da incrível &#8220;Diário de um detento&#8221;, que alçou os Racionais a porta vozes e interlocutores das parcelas excluídas e marginalizadas da sociedade e ganhou um histórico videoclipe.&nbsp; Surgiam os primeiros ídolos musicais da periferia com conteúdo altamente politizado recheado de ferrenhas críticas sociais, totalmente independentes e sem depender dos grandes meios de comunicação. Um fenômeno da indústria cultural sem precedentes até então no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo informações divulgadas pelo Racionais, o disco <em>Sobrevivendo no Inferno</em> vendeu cerca de 1 milhão e 500 mil cópias. A metade pirata.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/pK1viMNdYp0" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Rans Spectro</em></strong><em> é Randolpho Segundo Santos Gomes. MC, sócio fundador da empresa OQuadro Corporation e jornalista.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poertica-iv/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 12:04:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[Cônicas de categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Juliana SBrito]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[Os espaços particulares na voz intimista de Juliana SBrito]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Juliana SBrito</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Fernanda-B.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="331" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Fernanda-B.jpg" alt="" class="wp-image-17983" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Fernanda-B.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Fernanda-B-300x199.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Desenho: Fernanda Bienhachewski</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Pedra tumular&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O silêncio também pode ser pedra<br />
recusa, ponto final.<br />
Encerra a impossibilidade do pouco que é possível<br />
do pouco, do mínimo, do íntimo<br />
que nos é permitido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É arma automática<br />
Permanentemente acionada<br />
Granada escondida à flor da pele<br />
A matéria depois da bomba atômica</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até quando falarei sozinha?<br />
Ficarei para sempre com o tiro no peito<br />
Eternamente em exílio<br />
Sob silêncio sepulcral?</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sob o microscópio</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Seres fronteiriços<br />
Em constante movimento<br />
Abertos<br />
Feridos<br />
Cindidos<br />
Em devir<br />
Lacunares<br />
Sempre estrangeiros</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Diante do Umbral</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Essa espera sujeitada<br />
Que me força a aguardar<br />
Por uma porta que se abra<br />
É terrível e suicida</p>



<p class="wp-block-paragraph">Arrombarei portas<br />
Construirei janelas<br />
Ou me entregarei<br />
Ao espaço sem limites</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um muro pode servir<br />
Um guardanapo sujo<br />
Um post virtual<br />
Ou mesmo o asfalto ensanguentado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vital é circular<br />
É dar luz<br />
Ao que tenho a dizer<br />
Forma visceral de existir</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Gratuidade</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Uma flor selvagem brotou no jardim<br />
Declamou uma poesia para o Sol<br />
Exalou um perfume sutil como uma borboleta<br />
E se entregou para a primeira abelha que passou</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Malabarista de uma perna só</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Tropeço nas pedras soltas das certezas<br />
Mergulho sem paraquedas nos abismos do sentir<br />
Me agarrando kamikase na neblina<br />
Inconsistente pratico nado sincronizado na fumaça<br />
Me desfaço em mil pedaços<br />
Fraturada até a raiz<br />
Tombo vertiginosamente no chão<br />
Como a pena daquele passarinho<br />
Que ninguém notou<br />
Soltou-se em pleno voo<br />
Beijando o solo em pirueta</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Recomendações</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Exigem que eu justifique meu texto<br />
Quanto devo recuar?<br />
As margens me oprimem<br />
Alinhar à direita ou à esquerda?<br />
O centro me descabela<br />
Me deixa ilegível<br />
Quero a página em giro<br />
Capa e contracapa em branco<br />
Ou preto?<br />
Romperei como Saramago<br />
Ou Joyce na cabeça da Molly Bloom<br />
Sem paradas para respirar<br />
Abolirei as vírgulas<br />
Ou inconsequente abusarei delas<br />
Ignorarei o sublinhado vermelho<br />
Que me grita: Há um erro!<br />
Em minúsculas itálicas<br />
Gravarei minha falta de estilo<br />
Sem direito a revisões.<br />
Salvar.<br />
Imprimir.<br />
Enviar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Juliana Sbrito</em></strong><em> é baiana de Vitória da Conquista. Graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Professora. Coordenadora do Clube do Livro Um Dedin de Prosa e Poesia. Colabora com o site&nbsp;<strong><a href="https://cronicasdecategoria.com/">Crônicas de Categoria</a></strong>.</em></p>
</blockquote>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Drops da Sétima Arte</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dropssetimaarte-17/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/dropssetimaarte-17/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 15:09:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[Ali Abbasi]]></category>
		<category><![CDATA[Border]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Drops da Sétima Arte]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[Guilherme Preger]]></category>
		<category><![CDATA[Suécia]]></category>
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					<description><![CDATA[O filme sueco “Border” pela perspectiva de Guilherme Preger

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Guilherme Preger</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Border. Suécia/Dinamarca. 2018.</strong></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/cartaz-Border-m-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="314" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/cartaz-Border-m-1.jpg" alt="" class="wp-image-17977" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/cartaz-Border-m-1.jpg 314w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/cartaz-Border-m-1-209x300.jpg 209w" sizes="auto, (max-width: 314px) 100vw, 314px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Obra que estreou no Festival de Cannes de 2018 e somente através das plataformas de vídeo por demanda chega ao grande público, <em>Border</em> (<em>Gräns</em>), de Ali Abbasi, é um filme sueco que causou debate e mal-estar por onde passou. Mas parece totalmente apropriado para os tempos pandêmicos em que a humanidade está submergida nos terrores de sua própria existência no planeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme trata da história de Tina (vivida pela atriz Eva Melander), uma policial alfandegária que trabalha num aeroporto da Suécia. O aspecto assombroso de Tina, ligeiramente andrógino, é devido a uma suposta “anomalia cromossômica”. Tina desenvolveu uma aptidão extraordinária de farejar o odor dos corpos e relacioná-los aos afetos das pessoas. Esse seu dom lhe é de valia em sua profissão, na qual Tina pode detectar, através do faro, a culpabilidade de possíveis criminosos que atravessam a alfândega, como, por exemplo, o caso de um viajante que carrega imagens pedófilas na memória de sua câmera fotográfica.&nbsp; Esse reconhecimento permite à polícia desbaratar uma rede sueca de pedofilia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas Tina falha absolutamente na identificação de Vore (vivido por Eero Milonoff), cujo aspecto é tão bizarro quanto o dela, mas que Tina acredita guardar algum segredo. Na verdade, Vore, que possui uma compleição masculina, é, na verdade, do sexo feminino, e a incapacidade da personagem protagonista de identificar seu sexo causa-lhe um grande constrangimento na revista. Por esse erro, e por uma secreta sintonia com Vore, Tina lhe oferece abrigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marcada por sua silhueta bizarra, por uma atestada infertilidade, por cicatrizes no corpo, Tina apesar de tudo tenta estar integrada à sociedade: mora com um amigo, tem emprego, visita o pai habitualmente num asilo de idosos, tem a confiança dos colegas de trabalho que admiram e tiram proveito de seu “poder” paranormal. No entanto, a personagem está na “borda” da sociedade normal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Imagem-1-divulgação.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="281" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Imagem-1-divulgação.jpg" alt="" class="wp-image-17979" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Imagem-1-divulgação.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Imagem-1-divulgação-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caráter limítrofe de Tina é o mesmo do filme de Ali Abbasi. <em>Border</em> é uma obra entre o fantástico e o realista. Saberemos que Tina e Vore são trolls, seres mitológicos das culturas eslava e celta. Os aspectos supostamente monstruosos de suas silhuetas são na verdade naturais. A monstruosidade é, portanto, questão de perspectiva. Efetivamente, Tina e Vore estão mais próximos da natureza do que estão os humanos. Se eles assustam os humanos e os cães domesticados, comunicam-se com raposas e outros animais selvagens de maneira mais direta. Estão muito mais em casa na floresta do que no meio da sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Border</em> foi bastante criticado, no entanto, pelas cenas de sexo aberrante e pela crueldade. É preciso entender, no entanto, qual a função formal dessas cenas em relação à montagem cinematográfica. O filme apresenta dois mundos que seriam incompatíveis: o mundo dos humanos e o mundo dos trolls. O perspectivismo narrativo traz os dois pontos de vista e como eles parecem inconciliáveis: aquilo que é “natural” num dos lados da “fronteira” é não natural na outra e vice-versa. Aquilo que parece aberrante num dos lados surge como erótico no outro. Essa separação entre mundos, no entanto, é rompida (ou ultrapassada) de diversos modos. Daí, por exemplo, a metáfora “alfandegária” da profissão de Tina e sua participação profissional nessa exata “passagem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O espírito transgressivo do filme está justamente nos modos narrativos onde a separação entre mundos é violada. Tina é considerada “infértil” pelos padrões da sexualidade humana. Numa das cenas, o amigo de Tina quer transar com ela e é rejeitado. A questão básica é que Tina não sente desejo entre humanos. Sua infertilidade não é devido a uma anomalia genética como lhe dizem, mas porque ela não está em “casa” na sociedade humana. É Vore que conduzirá Tina a recuperar sua libido própria. Essa libido já estava transparente desde as primeiras cenas em que Tina se banha nua num lago das redondezas. Não havia nada de “errado” com a sexualidade da personagem. Ela só não a encontrava no lugar certo ou melhor: sua sexualidade não tinha “lugar” em sua vida a não ser quando estava sozinha na natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A crueldade se dá em outro modo, dentro do comércio entre humanos e trolls. Ela antes liga do que afasta as duas espécies. Por um lado, há a própria crueldade “aberrante” da sociedade humana, na pedofilia, ou no especicídio, forma mais abrangente de tantos genocídios a que se dedica a espécie sapiens. De outro, há o ressentimento, que não é exclusividade também dos trolls, mas abunda em nossa sociedade. A crueldade é a matéria mesma da guerra e a guerra não deixa de ser um “intercurso” entre as sociedades.</p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Imagem-2-divulgação.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="237" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Imagem-2-divulgação.jpg" alt="" class="wp-image-17980" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Imagem-2-divulgação.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Imagem-2-divulgação-300x142.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A guerra é ambígua entre acabar ou manter as fronteiras. Mas a guerra também pode ser infletida para dentro, o que significa que a fronteira é deslocada para o interior da própria sociedade humana. Se Tina hesita na sua relação com Vore é também por sua fidelidade ao trabalho, aos colegas, aos vizinhos, enfim à sociedade da qual faz parte. Em última análise, a decisão de Tina, de ordem ética, é um elemento de sua humanidade. A fronteira não está entre espécies ou entre grupos de indivíduos. A fronteira está no interior da própria individualidade. O nome dessa fronteira é subjetividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A potência de <em>Border</em> está na figuração da fronteira e sua transposição da narrativa interior para o ato cinematográfico propriamente dito. A fronteira dos gêneros, completamente transfigurada na representação dos sexos de Tina e Vore, se transplanta para a fronteira dos gêneros estilísticos: a do filme realista e a do filme fantástico. Como na história, o filme de Ali Abbasi cruza frequentemente a fronteira dos gêneros narrativos. É essa ultrapassagem que gera o efeito de choque apontado por tantos espectadores. Em algum momento da trama é revelado que na Finlândia há uma comunidade sobrevivente de trolls que vivem em liberdade. A comunidade é um “enclave” utópico livre de guerras e livre para o erotismo entre os iguais da espécie. A estranheza provocada por <em>Border </em>vem dessa opção estética de nunca apenas “sobrevoar” esses mundos acima de suas fronteiras; ao contrário, a opção da obra é fazer com que todo o filme seja uma habitação da fronteira. Não há nada além da fronteira, o que vale para os humanos e trolls, bem como para a demarcação entre fantasia e realidade: só existe o poder que emana de suas imagens. Além dessa fronteira há apenas a utopia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/uFFdVdsUpJg" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Guilherme Preger</em></strong><em> é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética <a href="http://canetalentepincel.art.blog"><strong>Caneta Lente e Pincel</strong></a>. Escreveu sobre cinema para o site <a href="http://ambrosia.com.br"><strong>Ambrosia</strong></a>. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://diversosafins.com.br/diversos/dropssetimaarte-17/feed/</wfw:commentRss>
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			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética V</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-v-72/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 15:00:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[Clarissa Macedo]]></category>
		<category><![CDATA[espanhol]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Vanessa Teodoro Trajano]]></category>
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					<description><![CDATA[Poemas de Vanessa Teodoro Trajano traduzidos para o espanhol]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Vanessa Teodoro Trajano</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="450" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-3.jpg" alt="" class="wp-image-17971" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-3.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-3-300x300.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-3-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Desenho: Fernanda Bienhachewski</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mulher em partes</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu não sou inteira<br />
Sou feita de partes<br />
Não todas juntas<br />
Nem apartadas<br />
Apenas somadas<br />
Uma a uma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há partes minhas<br />
Por aí soltas<br />
E, quando eu as<br />
encontrar<br />
Perderei outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Partes, quantas partes?<br />
Fazei de mim tudo<br />
Que cada parte queira<br />
Qualquer coisa<br />
Menos inteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mujer en partes</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Traducción: Clarissa Macedo </em><br />
<em>Revisión: Irina Henríquez</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No soy entera<br />
estoy hecha de partes<br />
no todas juntas<br />
ni lejanas<br />
solamente sumadas<br />
una a una.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hay partes mías<br />
por ahí sueltas<br />
Y, cuándo yo las<br />
encuentre<br />
perderé otras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">¿Partes, cuántas partes?<br />
haz de mi todo<br />
lo que cada parte quiera<br />
cualquier cosa<br />
menos entera.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Puteiro</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No puteiro da D. Eudóxia<br />
é sempre meia noite<br />
oportuna transição<br />
entre os que nasceram tarde<br />
e morreram ontem<br />
sobretudo anteontem</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lá reside a mulher fatal<br />
vermelho nos pés<br />
vermelho no corpo<br />
vermelho na alma<br />
alma propositalmente fatalista<br />
na mão um cigarro<br />
na outra a bebida<br />
a boca vermelha, ferida</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sugere o poema e o giz:<br />
se te entrego minhas forças<br />
sou louca, não trouxa<br />
melhor ser infeliz<br />
vestir verdade<br />
sem roupa</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas os dentes,<br />
afiados na infantaria,<br />
avisam:<br />
cuidado com o sorriso<br />
que ambientou desgraças<br />
dele não se morre<br />
por ele se mata.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Prostíbulo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Traducción: Clarissa Macedo</em><br />
<em>Revisión: Irina Henríquez</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">En el prostíbulo de D. Eudóxia<br />
es siempre media noche<br />
oportuna transición<br />
entre los que nacieron tarde<br />
y murieron ayer<br />
sobre todo anteayer</p>



<p class="wp-block-paragraph">Allí reside la mujer fatal<br />
rojo en los pies<br />
rojo en el cuerpo<br />
rojo en el alma<br />
alma intencionalmente fatalista<br />
en la mano un cigarrillo<br />
en la otra la bebida<br />
la boca roja, herida</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sugiere el poema y el lápiz:<br />
si te entrego mis fuerzas<br />
soy loca, no tonta<br />
mejor ser infeliz<br />
vestir la verdad<br />
sin ropa</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pero los dientes,<br />
afilados en la infantería,<br />
advierten:<br />
cuidado con la sonrisa<br />
que alardeó desgracias<br />
de él no se muere<br />
por él se mata.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Etimologia de prostíbulo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se ser meretriz ou leviana<br />
É roubar o corpo e o bolso<br />
De muitos homens<br />
E não amá-los noutro amor<br />
Que não for o da gana<br />
Peço então que somente me chamem<br />
Por esse nome que diz<br />
Que uma mulher só pode ser feliz<br />
Quando pela pura vaidade<br />
Muitos corações ela engana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Etimología de prostíbulo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Traducción: Clarissa Macedo </em><br />
<em>Revisión: Irina Henríquez</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Si ser prostituta o frívola<br />
Es robar el cuerpo y el bolsillo<br />
De muchos hombres<br />
Y no amarlos en un amor<br />
Que no sea el de la gana<br />
Pido entonces que sólo me llamen<br />
Por ese nombre que dice<br />
Que una mujer sólo puede ser feliz<br />
Cuando por pura vanidad<br />
Muchos corazones engaña.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Vanessa Teodoro Trajano</em></strong><em> é natural de Teresina-Piauí e atualmente reside em em Brasília-DF. Além de escritora, é professora de língua portuguesa com mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Piauí. Participou do projeto Arte da Palavra promovido pelo SESC em 2017, em que viajou por diversas cidades do Brasil como palestrante e oficineira, e do 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas na Colômbia em 2018. Possui ao total 10 publicações, entre antologias e obras individuais, as quais se destacam: Mulheres Incomuns (2012, contos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, romance). Ela não é mulher pra casar (2019) é o seu quarto livro.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Vanessa Teodoro Trajano</em></strong><em> es de Teresina-Piauí y actualmente vive en Brasília-DF. Alem de escritora, es profesora de lengua portuguesa con maestría en Estudios Literarios por la Universidad Federal del Piauí. Ha participado del proyecto Arte de la Palabra promovido por el SESC en 2017, viajando por diversas ciudades de Brasil como maestrante y tallerista, e del 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas en Colombia en 2018. Tiene, al total, 10 publicaciones, entre antologías y obras individuales, a ejemplo de Mulheres Incomuns (2012, cuentos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, novela). </em><em>Ela não é mulher pra casar (2019) es </em><em>su cuarto</em><em> libro.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-68/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-68/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 14:58:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Enio Jelihovschi]]></category>
		<category><![CDATA[fabulação]]></category>
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					<description><![CDATA[A fabulação provocante do conto de Enio Jelihovschi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Enio Jelihovschi</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="353" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-2.jpg" alt="" class="wp-image-17963" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-2.jpg 353w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-2-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 353px) 100vw, 353px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Desenho: Fernanda Bienhachewski</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A meia morte de Chico Cego</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Chico cego viveu meia vida e meia morte, só foi inteiro quando morreu. Por isso mesmo durante toda sua meia vida conheceu a morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Amanhã, morro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onofre e Herculano riram:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas, como, Chico Cego?, disseram em uníssono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não acordo mais, ou acordo morto. Acaba minha meia vida, já conheço bem o escuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra escuro tinha um significado metafórico para ele, fora da realidade, pelo simples fato de que nascera cego e, sem nunca saber o que era luz, não tinha como comparar. Escuro para ele era um nome que tanto podia ser branco, colorido ou até luminoso. Durante a vida, em sonhos ou em grandes bebedeiras, brilhos espocaram pela sua mente, mas ele não tinha como descrever para si mesmo aquelas coisas na cabeça, por lhe faltarem as comparações, que na mente de uma pessoa não cega são corriqueiras. Seu mundo era tátil e sonoro, luz para ele era algo etéreo descrito por mera formalidade, por meio daqueles dois sentidos. Luz, cores, brilhos eram palavras sem sentido, usadas somente para melhor se comunicar com as pessoas “normais” do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onofre e Herculano eram seus parceiros de bar, sempre bebendo e sempre conversando. Eles falavam do mundo da luz, das mulheres bonitas, o que Chico Cego entendia com as mãos. O que era uma mulher bonita?, ele perguntou uma vez. Os amigos se olharam entre risos. Mulher bonita tinha um corpo bem feito, um sorriso com dentinhos alvos, olhar distraído de donzela e rebolava ao andar. Como fazia Chico Cego para entender estas coisas com as mãos? Teria de tocar o traseiro de algumas e ir apalpando enquanto ela andava. Chico Cego então tocou o seu próprio e mexeu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ah! Então isto é uma mulher bonita!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez perguntou à mãe, quando ainda criança, o que era a morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; A morte é a escuridão total.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Mas, mãe, você me disse que o cego vive na escuridão porque não enxerga. Então eu estou morto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não, meu filho, você tá vivo, é que você é cego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chico Cego não entendeu e desde então viveu convencido de que estava morto, ou melhor, meio morto. Hoje, sentiu, lá no fundo, que amanhã seria morto inteiro, deixaria a metade viva de lado. Para ele seria um ato normal, sem muitas consequências. Como foi que sentiu, não sabe explicar. Sentiu. Talvez, depois de beber alguns goles de uma cachaça, da boa, pudesse encontrar as palavras. Chico Cego sempre gostou dos goles, a cachaça fazia aparecer coisas na sua cabeça, seria isto luz? Os amigos descreviam coisas como chispas brancas, algo dourado como o sol, mas sol para ele era somente um calor que queimava a cabeça e ardia as costas. Ele chamava isto de coisas, não conseguia encontrar outras palavras e por isto continuaram coisas. Eram as coisas desconhecidas que apareciam na cabeça, depois dos goles.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Chico, o que eu quero saber é: como você vai morrer? Você vai se matar, vai se jogar em cima de uma faca ou na frente do trem, ou então vai tomar veneno? Pois é, como? Ninguém morre só porque quer, ainda mais com uma saúde de ferro como a sua.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Herculano perguntou, enquanto coçava o cabelo ralo e mordia um dedo num tique nervoso. Os dois amigos se olharam, Chico Cego sentiu os olhares e sorriu. Como ele podia sentir olhares sendo cego? Dizia ele que isto era a visão do cego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu não sei como vai morrer o resto que me falta, disse ele, quem sabe um carro passa por cima de mim, ou um avião cai em cima de mim, mas não precisa muito, só falta um pedacinho. Quem sabe encontro a Francisca? A desgraçada me deixou, a mulher mais bonita do mundo. Um dia ela disse que me olhou nos olhos e perdeu a vontade de homem. O que é isso, “olhar nos olhos”? Eu não tenho olho, tenho uma coisa na cara, mas não enxergo, então não tenho olho. Será que ela morreu? Quem perde a vontade morre. Eu não perdi a vontade, mas, mesmo assim, vou morrer. E eu acho que, morto, encontro ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onofre e Herculano se lembraram da Francisca. Foram eles que a apresentaram a Chico Cego, era a mulher mais feia da cidade, tinha o rosto torcido, gordíssima, falava pelos cotovelos, condenada a viver sozinha. Chico Cego a conheceu com as mãos, apalpou, correu por todos os cantos e recantos e assim foi definindo seu conceito de mulher bonita. Quando terminou, registrou na mente o que seria a mulher mais bonita do mundo. Os dois amigos também sabiam que Francisca não aguentou a forma de Chico Cego olhar para ela com as mãos, ele a tocava tanto, rebuscava por todos os seus recônditos, não parava, dizia que estava olhando, desfrutando da sua beleza. Assim eu enlouqueço, desabafou ela um dia. No outro, foi embora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No dia seguinte ao anúncio, Chico Cego morreu. Foi atingido por um raio num dia de sol. Ninguém sabe como. Parece que havia uma nuvem esperando por ele na curva da estrada. Pouco antes de chegar em casa, ela avisou com dois trovões e, logo após, descarregou um tiro certeiro bem na cabeça. Disseram que, antes de morrer, ele gritou: luz!! Os amigos comentaram que neste segundo antes da morte, enquanto o raio penetrava pelo crânio adentro, ele viu. Eles então levantaram os copos de cerveja e fizeram um brinde ao amigo que, finalmente, conheceu a luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Enio Jelihovschi</em></strong><em> nasceu e cresceu em Belo Horizonte. Aprendeu a gostar de livros com o irmão mais velho com o qual dividia o quarto e as querelas. Com ele também aprendeu a escrever e que escrever bem depende de talento e muita labuta. Atualmente é professor da Universidade Estadual de Santa Cruz, onde gosta imensamente do trabalho que faz. Vive em Ilhéus, a qual considera a cidade mais charmosa de todas que conheceu. Publicou o livro de contos “Assassinos de Aluguel” (Editus – Editora da UESC, 2013). &nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
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		<title>Janela Poética VI</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-vi-15/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 14:50:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Jorge Lucio de Campos]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[O ritmo próprio da construção lírica de Jorge Lucio de Campos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Jorge Lucio de Campos</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/ferenanda-b.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="474" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/ferenanda-b.jpg" alt="" class="wp-image-17958" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/ferenanda-b.jpg 474w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/ferenanda-b-284x300.jpg 284w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Desenho: Fernanda Bienhachewski</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>GIRÂNDOLA&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um belo retrato<br />
alucina teus sapatos<br />
sujos de charco. Teus<br />
lábios cochicham textos<br />
de filosofia. Há deuses<br />
egípcios em tuas axilas.<br />
Já não és desse tempo.<br />
Diante de nós, rosas<br />
sangrentas te açoitam<br />
até o fim. Uma pulga<br />
de óculos nos convida<br />
a entrar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entramos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A NOITE SEGUINTE</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até sinto<br />
um traço<br />
entre as<br />
coisas em<br />
que toco e<br />
quase me<br />
impedem<br />
de existir –<br />
só não sei<br />
como.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>MACMANN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Salta o silêncio que corrói<br />
a miopia trevosa dos carretéis<br />
de teus cabelos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas latas de lixo, um abrir e fechar<br />
de tampas, um sussurro na terra<br />
deserta, sem direito a voz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra cinzenta não deve morrer,<br />
mesmo acuada na boca que mastiga<br />
línguas de papel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há a história de uma pedra perdida<br />
na floresta. Não quero perder-me<br />
na floresta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que floresta?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>RATOS E RATAZANAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daqui para frente,<br />
entrarei em órbita.<br />
Sacudirei as asas<br />
só pra te agradar.<br />
Entre as duas piscadas<br />
de um cachorro velho,<br />
uivarei para a casebre<br />
com a alma solta e<br />
pios de gaivota na<br />
tinta da chuva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o mundo,<br />
como um prato,<br />
continuará vazio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SERMÃO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foste minha<br />
sombra, minha<br />
epifania<br />
revolta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns degraus<br />
abaixo dos meus,<br />
estava aquele<br />
que te fez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não fui algo<br />
que te sirva.<br />
Apenas quis<br />
amar-te antes</p>



<p class="wp-block-paragraph">que fugisses<br />
como glosa<br />
pregada num<br />
deserto sem</p>



<p class="wp-block-paragraph">gavetas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CALEIDOSCÓPIO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dobras de raios<br />
de sol abrigam<br />
um criado-mudo e<br />
um fonógrafo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na cabeça cortada,<br />
um pavio aceso,<br />
uma escotilha<br />
em cada olho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No fim da tarde,<br />
um polvo rasteja,<br />
mesmo que eu<br />
não queira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Jorge Lucio de Campos </em></strong><em>é poeta, ensaísta e professor da ESDI/UERJ. Publicou diversos ensaios, entre os mais recentes estão: “Os nomes nômades”(Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Paisagem bárbara” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Sob a lâmpada de quartzo” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Desimagens” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020),”Impertinências” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020) e” Figuras para outras pessoas”(Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivopalavraii-18/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 14:23:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Bartolomeu]]></category>
		<category><![CDATA[Bruno Ribeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Rios]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[romance]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=17950</guid>

					<description><![CDATA[Gustavo Rios em seus trajetos por “Bartolomeu”, romance de Bruno Ribeiro

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como escrever bem sob uma rajada de tiros</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Gustavo Rios</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Bartolomeu-capa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="334" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Bartolomeu-capa.jpg" alt="" class="wp-image-17952" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Bartolomeu-capa.jpg 334w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/Bartolomeu-capa-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 334px) 100vw, 334px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao falar sobre quadrinhos, música <em>pop</em>, televisão e outros expedientes que, em tese, existem fora dos limites da arte mais elevada, por assim dizer, seria legal de minha parte citar aqui um fragmento de uma entrevista que Umberto Eco deu ao jornalista Ben Naparstek. Quando instigado a falar sobre cultura <em>pop</em>, Eco, que possuía na época 34 doutorados honorários, disse: <em>“muitos acadêmicos liam histórias de detetives e quadrinhos à noite, mas não falavam nisso porque era considerado uma masturbação”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda que eu não conheça nenhum dos acadêmicos citados pelo Umberto, e ainda que eu saiba que o <em>Pornhub </em>salvou muito escritor amigo meu em momentos difíceis, ao esconder a influência dos quadrinhos, da música chamada <em>pop</em> e da TV em nossa arte, negamos a outros conhecerem a fonte e a essência de uma boa fatia de nosso trabalho: a beleza do que produzimos como resultado de uma louca, inventiva e caótica junção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A coisa não se resume a essa trinca, evidentemente. Quando se trata de livros, a literatura conhecida como <em>Pulp </em>também deu a muita gente boa lastro e fôlego pra seguir em frente – ou mesmo pra se despedir em grande estilo, vide Nick Belane e o seu criador, o nosso querido Charles Bukowski.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso dos livros <em>Pulp,</em> talvez uma das características mais legais seja o desprendimento de seus autores na criação de universos – coisa sem relação alguma com descuido, friso. Nesses livrinhos, dogmas travando os limites da fantasia parecem não existir. Tampouco o desejo de entrar na marra para a história da literatura através de hermetismos e outras traquinagens. Do pouco que li e gostei desse divertido quinhão literário, as questões psicológicas eram facilmente resolvidas e a pancadaria comia solta. Naquelas páginas a linguagem era simples e eficaz, no final das contas. E até hoje tento imaginar o que seria do Paul Auster e do Thomas Pynchon sem as histórias de detetive.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bruno Ribeiro, autor do romance <em>Bartolomeu</em>, me parece o tipo do cara que curte um livrinho <em>Pulp</em>. Nas 122 páginas de sua <em>“sátira burocrática e violenta”</em> envolvendo <em>“assassinatos encomendados”,</em> nas palavras de Mateus Rodrigues no que parece ser um posfácio, o uso das estratégias comuns aos famosos livros de papel barato (<em>pulp paper</em>) abunda. Ou mesmo sobeja, se quisermos usar um termo à maneira do linguista e semiólogo italiano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com um enredo eficaz e interessante, mesmo para os que nunca curtiram a literatura “barata”, <em>Bartolomeu</em> salta aos olhos. Dono de uma linguagem rápida e multifacetada, que evolui de maneira alucinante, Bruno Ribeiro constrói a trama sem abrir mão de inovações.&nbsp; E de alguns riscos. A forma que Ribeiro escolheu para seguir com seu livro foi muito feliz. E tal escolha deixou o trabalho acima da média de outros <em>Pulps</em> que conheci – se fizermos uma relação direta entre as opções e considerando meu conhecimento no tema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bartolomeu, o protagonista, é um assassino dos bons; um artista em seu ofício. Além de ser o eixo de todo o livro, esse anti-herói negro trabalha para uma empresa chamada Indústria. A Indústria é uma corporação regida por normas parecidas com as de qualquer grande firma – ou quase isso, já que ela dá a seus funcionários <em>“(&#8230;) desconto em motel, cesta básica, restaurante, férias, décimo terceiro recheado, desconto em lojas de departamentos, roupas estilosas e a puta que pariu”</em>. Afora ser uma corporação que tem “a puta que pariu” como benefício trabalhista, outro detalhe que a distingue das demais é o seu, digamos, ramo de negócio: a eliminação de pessoas sob encomenda, aqui conhecidas como Trabalhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Indústria, que emprega <em>hackers</em>, <em>snipers</em> e assassinos, possui semelhanças com outra “empresa”: a Comissão, da HQ <em>Umbrella Academy; </em>quadrinho que virou série na <em>Netflix</em> e que foi magistralmente desenhado pelo brasileiro Gabriel Bá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, diante das escolhas do Bruno, creio que posso assinalar dois pontos que me chamaram a atenção de imediato: a provável influência dos quadrinhos e o modo escolhido pelo autor para contar sua vibrante história</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Grosso modo</em>, a literatura <em>Pulp</em> transcorre de forma linear. A história é contada com começo meio e fim (com alguns <em>flashbacks</em>, é bem verdade), geralmente tendo uma voz narrativa firme durante o trajeto. Essa voz observa, pontua, muitas vezes ironiza e sacaneia, mas sempre se mantém estável, presa ao estilo e amarrada à personalidade do protagonista-narrador. No caso do Bruno a coisa funciona de forma diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo que o livro não se resuma a um amontoado de relatos, tipo papo de divã ou algo parecido (tem muita ação, muita coisa rolando), as páginas de <em>Bartolomeu</em> são um apanhando de vozes distintas. E tal expediente enriquece muito a história, em minha opinião.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Colegas, inimigos (ou colegas que viraram inimigos), pessoas, figuras macabras e tantas outras, falam sobre Bartolomeu na primeira pessoa. Cada uma o descreve de forma pessoal e única. Todo o processo, entretanto, ocorre sem que Ribeiro perca o fio condutor: raramente o novo elemento confunde o leitor, já que enxergamos o mesmo Bartolomeu à nossa frente. Com suas manias, escolhas, habilidades e aspectos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Criança Branca, Eraldo, Vegetal, Lobo Cego, entre outros, contam e vivenciam as mais variadas e perigosas situações. Assim sendo, a cada voz que surge (e incluo também Vegetal nessa onda, lá do seu jeito), fica óbvia a aptidão de Bruno em definir as características de cada personagem, mesmo que todos girem ao redor do protagonista. De Mona à Criança Branca, Bruno altera um pouco as regras do jogo<em> Pulp,</em> quando nos apresenta uma narrativa meio psicológica e individual. Indo além do uso atabalhoado de clichês.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Clichês são usados sempre que preciso, todavia. E esse procedimento em nada prejudica <em>Bartolomeu</em> &#8211; diante do fato de que tais clichês são o fundamento do estilo aparentemente escolhido por Bruno, ficamos bem em seguir com eles. Assim como <em>cowboys</em> devem usar chapéus e marcianos só conseguem invadir a terra se vierem de Marte, livros com a temática de <em>Bartolomeu</em> devem conter bebidas fortes, cigarros e charutos, drogas, quartos de hotel, socos, armas, tiros, conspirações, cadáveres, homens e mulheres ressentidos, tesão em suspenso, facadas, <em>femme fatales</em>, traições e gente esquisita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, esse mineiro radicado na Paraíba traz para o livro uma série de questões pertinentes e atuais. Referências à Lava Jato, ao presidente do executivo e à nossa política apodrecida, surgem com ironia e até justificam o rumo da história – vide o trecho, <em>“O troglodita chuta uma cadeira, ‘você é um dos maiores hackers do país, crioulo. Invadiu o celular do Moro e da galera da Lava Jato. Um gêniozinho (sic)’”</em>, página 18; ou então: <em>“O Brasil se tornou um paraíso para nós, mas os comunistas estão voltando. Povo brasileiro é besta. Não será uma eleição fácil, saca? Estão nos vigiando sem parar. Temos que nos manter mais discretos, pelo menos por enquanto.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Lirismo, imagética, tiros e escopetas</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>&nbsp;</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é tão raro identificamos em <em>Bartolomeu</em> passagens dotadas de lirismo e até mesmo com um pouco de poesia, diria eu. Esse recurso, quando aparece, sempre surge no momento exato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bruno, autor de <em>Febre de Enxofre,</em> livro escrito em Buenos Aires sob a orientação do poeta Guillermo Saavedra<em>, </em>trabalho que serviu como parte do mestrado em Escrita Criativa na <em>Universidad Nacional de Tres de Febrero, </em>parece gostar do jeitão portenho de se resolver as coisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é nessa mesma Buenos Aires que o lirismo e um pouco dessa poesia ficam evidentes pela primeira vez: <em>“Sou conhecido como a Criança Branca e estou em Buenos Aires, hospedado em um quarto na Pousada Díaz, no bairro de San Telmo. Local apertado, cama com cheiro de mofo, aquecedor pequeno, poltrona com desenhos tribais e um abajur quebrado. Um paraíso às avessas” –</em> destaco aqui a última frase.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outro instante o canto de uma coruja se converte em <em>“(&#8230;) um assovio em forma de enterro.”, </em>enquanto nas já citadas páginas iniciais, o tiro disparado por uma mulher surte efeito semelhante ao se transformar em&nbsp; <em>“(&#8230;) o assovio de um pássaro negro, o canto de uma flauta doce, tão doce quanto aquele cheiro que agora significava o meu fim.” </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda que pareça repetição, achei legal a definição literária que Bruno Ribeiro deu para a morte. Para mim, uma boa estratégia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ironia também é outro item presente em <em>Bartolomeu</em>. E isso não poderia faltar de qualquer forma. A começar pelos nomes e codinomes dos personagens, desembocando nas frases em que Bruno descreve, de forma macabra e ácida, situações e trejeitos do seu rol de personagens pra lá de excêntricos, me flagrei diversas vezes rindo alto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cito como exemplos os trechos: <em>“Vegetal só verbaliza grunhidos através da sua máscara de gás surrada e acinzentada. Regata branca desbotada da banda Legião Urbana. Jeans preto e rasgado. Um corpo esquelético e meio morto. Os olhos azuis arregalados no vidro da máscara encaram Bartolomeu, que depois de alguns segundos, decidiu pedir uma água para o garçom.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“’Não precisa ter medo. O Vegetal aqui tem uma função nessa reunião.’”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">No que Bartolomeu, tempos depois, retruca: “’<em>Da próxima vez, não traga o psicólogo. Não confio em quem gosta de Legião Urbana.’”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Fundamental para o bom andamento da obra, a linguagem simples também dá o tom. Assim como a agilidade das frases e uma forte carga imagética na descrição de algumas cenas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Os meninos estão felizes. Eles insistem em perguntar sobre minhas armas e a resposta é sempre a mesma ‘papai gosta de colecionar’. Tão pequenos, sagazes, tão vivos. Deito na grama, enquanto a esposa cuida da janta. Digo que é tarde, devemos entrar. A janta está maravilhosa. Elogio minha esposa. Coloco os meninos na cama. Transo com minha esposa. Pego a cadeira de balanço e coloco do lado de fora. Em meus braços, a escopeta carregada. Três carteiras de cigarro no bolso da jaqueta preta: refeição para uma madrugada.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Se estivéssemos fora da sala eu já poderia prever os olhares mortos em nossa direção. A última marcha nessa enorme empresa, entre os corredores infinitos e largos, paredes nuas, sem janelas, portas distantes, fechadas e cheias de códigos, espectros de terno e sem terno, heróis e codinomes sem noção, e eu me perguntando se tudo isso faria sentido, e eu me perguntando: onde fica a Indústria? Até hoje não sabemos&#8230; Chegamos aqui e não sabemos como, mas chegamos. Em algum ponto entre São Paulo e Rio de Janeiro. Um ponto recôndito, eterno. E os homens e mulheres deste estabelecimento de morbidez e cifrão finado balançando a cabeça, falando em suas mentes ‘meus pêsames’ para o nosso Departamento, enquanto caminhamos rumo ao céu aberto, o exterior, o mundo real. E ali, a qualquer momento, nossas vidas seriam extraídas dos corpos, seja por Bartolomeu ou por qualquer um, o nome não importa.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Digressões também são bem vindas, já que romances permitem isso com o manejo adequado. E no caso do Ribeiro as digressões me lembraram do Tarantino: personagens falando sobre Bolsa de Valores, sobre a obsolescência de produtos industrializados e sobre orgasmo feminino antecedem fatos novos, muita ação e rupturas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A presença de raríssimos ecos, pleonasmos e assonâncias não prejudica tanto a leitura. Porém, como não captei a intenção do escritor em ser irônico ou mesmo poético nesses trechos, fato que permitiria mexer e brincar com a sonoridade sem derrapar, melhor seria se ele revisasse algumas frases, tais como: <em>“Todos nós simulamos um luto. O silêncio não é absoluto, pois meus soluços (&#8230;)” </em>e <em>“ (&#8230;)um ruído sutil foi audível (&#8230;).”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>A pressa: o inimigo mais perigoso para Bartolomeu </em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>&nbsp;</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na leitura que fiz de <em>Bartolomeu, </em>não pude deixar de perceber alguns erros simples de se resolver: se considerarmos o suporte em que o livro foi lançado (digital), é crível que Bruno os reveja.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da grafia da palavra iPhone que surgiu por duas vezes como “iPHONE” e uma vez como “Iphone”, até o uso da palavra Nordeste – digitada como “nordeste” em outra página, sendo que ambas pareciam ter a mesma finalidade -, temos aí itens que merecem atenção. Outra coisa que pode melhorar é a formatação do texto que, no livro, parece ser aquela do tipo “justificada” (usem essa resenha como exemplo). Espaçamentos menores nos diálogos também ajudariam na leitura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Certamente no afã de entregar um trabalho ao seu público, que não é dos menores e me parece bem qualificado, Bruno e os revisores devem ter se passado em tais questões. Esses vacilos, contudo, não diminuem o itinerário do Bruno nem o livro, com absoluta certeza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Finalmente, diante de tudo que vi e li, indico com sobra <em>Bartolomeu</em> para todos aqueles que curtem uma boa história. Para a turma que gosta de uma escrita ágil e cheia de surpresas, o livro do mineiro-nordestino Bruno Ribeiro é uma excelente pedida. Um tiro certeiro, sem dúvida. Ou uma rajada de tiros, a depender do caso, do Trabalho e da encomenda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Gustavo Rios</strong></em><em> é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Pequena Sabatina ao Artista</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/pequena-sabatina-ao-artista-72/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2020 14:43:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[139ª Leva - 06/2020]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Fabrício Brandão]]></category>
		<category><![CDATA[Pequena Sabatina ao Artista]]></category>
		<category><![CDATA[Riviera]]></category>
		<category><![CDATA[Rodrigo Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[Entre travessias literárias e os apelos contemporâneos, uma entrevista com o escritor Rodrigo Melo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Fabrício Brandão</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrever pode ser algo parecido com uma tentativa de agarrar o mundo com as mãos. Ou com a cabeça. A mente que fervilha ideias em busca da criação atravessa, em grande instância, os lampejos da natureza humana, esse grande caldeirão de imagens, atos e investidas. Achar-se pronto para demarcar uma obra que se queira definitiva talvez não passe de uma quimera, flerte com o inatingível. Para alguns, a angústia da criação é motor de soluções; para outros, é penoso caminho que jamais se resolve.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comunicar bem através de uma obra literária é, sem dúvida, um dos requisitos que conferem sentido ao trabalho do autor. Assim, leva-se em consideração que não estamos sós a engendrar os escritos, pois estes um dia tendem a encontrar amparo nas recepções mais diversas possíveis. Nesse sentido, a ideia de escrever para ninguém mais parece uma falácia ou tentativa de distração do debate. Divisões à parte, é preferível ficar com quem advoga pela melhor forma de se contar uma boa história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No eixo que transita entre obra e leitor, há muita gente interessada em apurar seu trabalho com as palavras, fazendo com que o texto, em suas múltiplas estratégias narrativas, alcance pessoas. Tal processo jamais pode ser confundido como um esforço do autor para agradar quem quer que seja. Pelo contrário, traduz a busca de quem escreve por modos de instigar a atenção do leitor, ofertando-lhe possibilidades para o mergulho pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Rodrigo Melo </strong>é um desses escritores que sempre está à cata de algo consistente para dizer e nos apresentar. E sua obra está na ordem do dia quando o propósito é sondar o traçado cotidiano das nossas vidas em suspensão. O autor é hábil nos arremates, engendra meticulosamente a arquitetura de seus personagens e os faz produtos do meio em que vivem ou vice-versa. Seu estilo de narrar abarca diálogos certeiros, ágeis e que recorrentemente mostram-se provocantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O momento atual desse escritor baiano nos leva ao seu romance “Riviera” (Ed. Mondrongo, 2020), livro que apresenta uma ótica muito peculiar quando o tema é o amor. Longe dos ardis tradicionais do assunto, Rodrigo movimenta seus personagens dentro de um contexto que sabe a idealizações, devaneios e a crueza dos dias mundanos. Tudo isso somado a sacadas inteligentes e a recursos narrativos dotados de simplicidade no manejo da linguagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trazendo em sua bagagem obras como “O Sangue que corre nas veias” (Ed. Mondrongo, contos, 2013), “Jogando dardos sem mirar o alvo” (Ed. Mondrongo, contos, 2016), dentre outros livros e participações em antologias, Rodrigo Melo concede uma nova entrevista para a Diversos Afins. Desta feita, além de mencionar os trajetos que o levaram ao seu novo livro, o autor dividiu conosco suas impressões sobre o fazer literário, refletindo especialmente acerca da contemporaneidade, esse estado de coisas que tanto nos tem tirado do sério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-1-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="375" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-1-1.jpg" alt="" class="wp-image-18011" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-1-1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-1-1-300x225.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: arquivo pessoal</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; &#8220;Riviera&#8221; é um livro que transita pelas paisagens urbanas tendo como mote os atravessamentos da paixão. Nesse sentido, Michel Rodrigues, o protagonista, é aquele que busca por alguém na sua construção própria sobre o amor. Com tanta dispersão e desencontros a que estamos submetidos na contemporaneidade, o que resta para a literatura quando o desafio é falar desse desejo pelo outro?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Acho que o amor sempre foi uma fonte generosa para a literatura, e continuará a ser, mesmo nesses tempos tão puxados, porque ele simplesmente precisa existir. Amar é se movimentar. Em Riviera, ele também está lá: um tanto inocente, mas também derramado, exagerado e sofrido como nas velhas canções. Porque a história pedia que fosse assim. Quando o protagonista abandona toda a sua antiga vida e parte, feito num jogo de azar, para o Rio de Janeiro em busca de sua amada, ele está apenas fazendo a roda girar. Há quem acorde todos os dias por causa de dinheiro, outros por poder. Michel Rodrigues sentia amor ou qualquer coisa parecida com isso. E foi esse sentimento, universal e atemporal, que o fez deixar tudo para trás.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; O Rio de Janeiro é essa cidade evocada em canções, misto de &#8220;maravilhosa&#8221; com o tal &#8220;purgatório da beleza e do caos&#8221;. E você tem uma trajetória pessoal de vivência na metrópole confusa e difusa. Em que medida foi importante ter a cidade como pano de fundo para o livro?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Mais que importante, foi necessário. Não conseguiria escrever sobre algo que não conheço e que, consequentemente, não me alcança. Foi Kurt Vonnegut quem disse que é preciso falar do próprio umbigo, porque ninguém mais o fará, e ele tinha razão. Fazer literatura talvez seja, por vezes, simplesmente mostrar o nosso prisma dos acontecimentos e das coisas. Claro, tem que se buscar o lirismo, a propriedade, mas falando sobre o mundo ao nosso redor. Eu morava no Rio quando nasceu a ideia de escrever essa história, e desde o início ela tinha a energia da cidade, de tudo o que eu pensava, sentia e fazia diariamente. Fui corretor em uma imobiliária na Zona Sul e também trabalhei em uma empresa de caminhões munck, lá em Ramos, como o personagem, e, embora uma boa parte do que está no livro tenha sido inventada, foram essas experiências reais que deram a base para que eu pudesse escrever todo o resto. A cidade como fundo e, ao mesmo tempo, como mais um personagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; De certa forma, a luta pela sobrevivência também é um tema presente no seu romance. E Michel Rodrigues personifica isso na odisseia que empreende pela cidade, quando precisa ter condições financeiras de continuar sua jornada pessoal. Entre o sonho e a realidade, paga-se um preço para poder suportar humilhações e outros fardos. Como pensar essa questão dos cenários de exploração em que a própria condição humana é precarizada?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Faz um bom tempo que o homem circula por aí, centenas, milhares de anos, a subjugar o próprio homem. Quem tem grana e poder segue aumentando essa grana e esse poder, e quem não tem segue enxergando pouquíssimas chances de sair de sua situação. Há diferenças mais que gritantes entre determinadas vidas e dessas diferenças é que brotam as explorações. Uns dizem que sempre foi assim, outros dizem que todos passam pelas mesmas atribulações. A verdade, no entanto, é que entre uma quadra e outra há alguém morrendo de fome e alguém ostentando um carro de meio milhão. Lembro de ler <em>Germinal</em>, de Zola, e ficar impactado com a forma de trabalho que aquelas pessoas eram obrigadas a encarar. Aquilo não era viver, apenas sobreviver. A literatura tem essa força, ela nos puxa sem cerimônia e nos faz pensar nas coisas que passam despercebidas porque, de uma forma ou de outra, não fazem parte do nosso dia a dia. Os vendedores de balas no sinal, as prostitutas nas esquinas, os guardadores de carro, os moleques que fazem avião, sempre foram esses os personagens do meu Germinal. Assim como Michel Rodrigues, que vive entre o feijão e o sonho, a necessidade de comer e de continuar a sonhar. Como muitos, ele descobre da pior forma que às vezes é melhor depender do acaso do que da justiça ou da benevolência dos homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; O mundo é um lugar cada vez mais distópico?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Parece que sim. Não que caminhemos para a distopia, porque já estamos nela há bastante tempo. Entre o céu e o inferno, entre a evolução e a perpetuação dos defeitos, seguimos alimentando os defeitos. É mais fácil e cômodo, pelo menos para quem não passa apertos. Os escolhidos para cuidar dos outros, os eleitos, acabam por cuidar de si mesmos e daqueles que lhes compram a alma, e dessa forma vivemos em uma espécie de looping em que os mais favorecidos ampliam seus domínios e os menos favorecidos são apartados do rebanho e vistos como não merecedores. A banalização das diferenças. A aceitação de que tudo sempre caminhou dessa mesma maneira. Porque toda luta, em essência, é em causa própria, mas poucos têm armas para lutar. Bendito seja o dia em que se descortine a verdade de que todos que nascem têm direito a tudo o que o planeta dá. Bendito seja o dia em que os eleitos, quem quer que sejam, passem a ser mais cobrados do que idolatrados. Mas hoje, analisando o que acontece com o mundo, e sobretudo com o nosso país, a constatação é de que as coisas evoluem muito mais rápido que as pessoas. Os carros têm computadores de bordo, os elevadores são mais rápidos, os celulares servem para tudo, mas ainda se vende um copo de água, ainda se morre de doença ou de fome, os corredores dos hospitais lotados, os desabamentos nos morros. A distopia, antes de ser algo para o qual precisamos nos preparar, é, por fim, a injusta realidade ao nosso redor. E um coro de gente a afirmar que a vida é mesmo assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; Você é daqueles que depositam fé na humanidade?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Deposito muita fé, porque estou no meio dessa humanidade. Talvez seja uma obrigação acreditar nela. Há muito perigo, mas ao mesmo tempo também há muito encanto nas pessoas, sobretudo quando se mostram verdadeiramente, e é bem possível que venha daí a nossa salvação. O pão que se faz pela vigésima vez é melhor do que aquele feito na primeira vez, pois o destino de tudo é melhorar. Vive-se, sonha-se, sofre-se, aprende-se – se tivermos sorte. Não é raro escutar alguém dizer que hoje há mais violência, mais injustiças, mais diferenças e separações. Por meu lado, penso que há menos, mas tudo tem ficado, aos poucos, mais à vista, mais à tona, e isso nos traz essa sensação de que o mundo nunca foi tão ruim. Ele sempre foi muito parecido com o que é hoje, posto que o ser humano mudou muito pouco, mas consigo mesmo enxergar uma caminhada rumo a uma evolução, ao bem comum, a uma chamada de consciência maior. Ainda há casos de pedofilia? Sim, centenas. Ainda se mata em nome de Deus? Sim. Mas a transparência é maior, as cobranças são maiores, sobre quase tudo pode se colocar um foco de luz. É o que vejo. Ou, pelo menos, imagino ver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-2-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="375" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-2-1.jpg" alt="" class="wp-image-18012" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-2-1.jpg 375w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2020/10/interna-2-1-225x300.jpg 225w" sizes="auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: arquivo pessoal</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; A Literatura é motor de transformação de alguma coisa?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Tudo o que o mundo é tem ligação direta com a literatura, sobretudo se levarmos em conta que ela existe desde as primeiras narrativas, mesmo orais, e influenciou decisões e caminhos. Literatura, afinal, é contar histórias, passar mensagens, e essas coisas não estão apenas nos livros. &nbsp;&nbsp;Um quadro tem a sua parte de literatura, assim como uma música ou uma peça de teatro. Por esse prisma, ela pode ser considerada uma geradora de muitas outras expressões artísticas e o seu poder de transformação passa a ser ainda maior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; Antes de ganhar as ruas, os impressos e as redes sociais, estas últimas lugares de aplausos fáceis, os textos literários não mereceriam certa maturação e tratamento?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Há uma grande diferença entre textos publicados em livros daqueles compartilhados em redes sociais. O texto publicado em livro deve sempre passar pelos processos de revisão e maturação. É preciso, como se diz, dar um tratamento para que, enfim publicado, represente a sua melhor versão. Os textos compartilhados em redes sociais, por sua vez, variam de acordo com quem os compartilha. Autores com mais experiência certamente terão um cuidado maior com seus escritos. Mas há ali gente de todo jeito, movida por todo tipo de combustível, em diferentes estágios. Tem a turma do aplauso fácil, tem aqueles que, pelo pouco tempo no ofício da escrita, querem simplesmente uma resposta, e tem aqueles outros que só têm o espaço das redes sociais para se externar. E muitas vezes não é só a questão da pressa que os faz compartilhar seu material em grande quantidade, sem precaução: é a limitação das técnicas, ou das manhas, que vêm com a prática. Fazendo uma analogia, é como pegar uma porção desses novos cantores de arrocha ou de novas bandas de death metal, há centenas deles e delas por aí. Muitos produzirão e jogarão seus trabalhos no mercado sem cuidado algum. Mas, no meio de todas as tentativas, alguns vão perseverar, aprimorar suas técnicas e ser muito bons naquilo a que se propuseram fazer. O talento não vinga sem coragem, disciplina, que se torna algo automático com o tempo, e dedicação. E, claro, às vezes também com um pouco de cara de pau.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; O que podem os escritores nesses tempos de pós-verdade, fake news e guerras de narrativas? </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Alguém disse, e agora realmente não lembro quem, que a literatura não tem dado conta da realidade. Nós ainda falamos de amores frustrados, enquanto Flor de Lis, com a ajuda de alguns filhos, mata o marido e depois vai até o enterro, encharcada de lágrimas; ainda tentamos desvendar os pecados, enquanto João de Deus estupra fiéis em seu doce charlatanismo, e padres, em um acobertamento que viola tudo o que a sua pretensa crença defende, seguem a se satisfazer e a fazer vítimas sem nunca serem responsabilizados pelo rastro de terror que deixam atrás de si; ainda escrevemos sobre a liberdade, quando grande parte do país, informada ou não, idolatra políticos e os defende como se fossem advogados de defesa, como se realmente tivessem certeza de tudo o que se passa na alma de quem leva os dias a se propagandear. Vivemos em uma espécie de anestesia coletiva, sem entender muito bem o que está acontecendo, seguindo no piloto automático, tentando nos legitimar socialmente e nos dando conta da realidade anos depois, quando nada mais pode ser feito e, o pior, quando não se pode mais voltar atrás. A literatura, bem como outras expressões artísticas, precisa estar acima disso, olhar a tudo com os olhos do distanciamento para, assim, absorver e analisar com limpidez e propriedade. E então dar conta do seu tempo. Antes de entretenimento e cultura, os livros são ainda o registro de uma época.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RODRIGO MELO &#8211; </strong>Acho que pelo mesmo motivo que um cineasta começa a fazer os seus filmes ou um rapper a compor as suas músicas: dar seu testemunho, tentar pegar o mundo todo num ouvido só. Toda pessoa tem um recado a dar, uma análise particular da vida e das coisas, um grito, uma bronca, um louvor, e a arte é um caminho para despejar isso. O motivo de ser a literatura, especificamente, é que sempre gostei de boas histórias. Meu pai é um grande narrador e lembro de que quando viajávamos juntos, eu passava todo o tempo escutando ele falar. Isso certamente contou. Como nunca tive um leque tão grande de boas histórias, comecei a inventar algumas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Fabrício Brandão</em></strong><em> é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
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