Em nossas mais remotas e pueris fantasias, a Terra parece ser uma reunião de lugares relativamente infinitos. Sustentamos a vivos olhos que mares, desertos e florestas não encontram limites em ponto algum. Encantados com belas, imponentes e enigmáticas paisagens, nos rendemos à magnitude da natureza, pois somos apenas parte de um colossal cenário de imagens e manifestações que estão acima do nosso controle e compreensão mais imediatos.
Tantos séculos se passaram e continuamos achando que temos o domínio sobre a natureza e os demais seres que nela fazem morada. Nossa tão exortada racionalidade mais parece um permanente estado de soberba quando nos julgamos superiores aos outros reinos que também habitam nosso planeta. Por outro lado, ainda bem que não somos páreo para desafiar muitos fenômenos da natureza. Estes últimos têm o poder de nos mostrar que andamos bem se nos contentarmos em levar a cabo o gesto de não intervenção em mecanismos que jamais poderemos alterar.
Talvez as paisagens e todos os seus seres dispersos pelo globo estejam a pedir de nós mais contemplação e pouca ou nenhuma interferência nos seus destinos. Dito assim, até parece um clamor utópico, mas o fato é que já vilipendiamos por demais esse vasto mundo em que vivemos, quer no aspecto físico, quando fracassamos nas questões ambientais, quer no humano, quando nos comportamos como canibais de nós mesmos.
Foto: Cristiano Xavier
Quantas vezes precisamos de uma pausa para desacelerar os tropeços de nossa espécie? Penso que todos os dias. E ter a arte como instrumento dessa reflexão é algo revelador e grandioso. É justamente tal sensação que parece permear o trabalho de alguém como o fotógrafo Cristiano Xavier.
As imagens de Cristiano dão conta dum verdadeiro percurso pelo mundo em seus mais distantes rincões. Ao deitar seu olhar para lugares como Madagascar, Namíbia, Irã, Mongólia, Indonésia, Patagônia, entre outros, inclusive conduzindo pessoas através de expedições, o artista nos apresenta uma diversidade de cenários que reforçam uma atenção especial à natureza. Nesse quesito, o fotógrafo tem percorrido o planeta buscando registrar árvores, tendo como foco espécimes raros e isolados. O resultado de tal investida é algo que encanta pelas descobertas inusitadas e também pelo universo de formas e texturas que nos remetem a paisagens exóticas. O próprio fotógrafo confessa que seu objetivo é despertar a atenção das pessoas para a beleza que se abriga nas árvores marcadas pela raridade. Para cobrir esse intento, ele lança mão das técnicas de fotografia noturna e light painting, transitando entre o digital e o analógico.
Foto: Cristiano Xavier
Mas o mundo em Cristiano Xavier também é aquele que abriga recortes possíveis para o humano. Nesse sentido, o artista retrata pessoas em rituais cotidianos que expressam as particularidades de suas existências. Aonde quer que passe com suas lentes, o fotógrafo se posiciona como alguém que preserva o protagonismo das mais diferentes culturas dispersas pelo mundo. Somem-se a isso ingredientes como a contemplação e o silêncio, os quais tanto marcam as posições de observador e observado.
Com tamanho apuro no olhar e nos recursos técnicos empregados, Cristiano logrou relevantes êxitos em sua trajetória profissional, dentre os quais o primeiro lugar no concurso mundial International Landscape Photographer of the Year 2017 – Abstract Aerial Award e a melhor colocação de um brasileiro no Epson Pano Awards 2017 – Nature/Landscape. Além disso, sua obra está exposta em galerias do Brasil, França e Estados Unidos.
Cristiano Xavier trava o bom combate quando nos conclama a apreciar a beleza que se espraia no mundo. E o faz evidenciando o poder sensível e transformador que emana do silêncio e da contemplação. Estas são duas ferramentas que instrumentalizam a fotografia para que ela adentre um verdadeiro estado de poesia. A predileção por cenários diferentes, inusitados e impactantes é uma acertada provocação para enxergamos além.
Foto: Cristiano Xavier
* As fotografias de Cristiano Xavier são parte integrante da galeria e dos textos da 140ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
A multidão
de estranhas peles,
gravatas, panos turvos.
O silêncio é o som
possível, o não-grito.
E esses rostos,
parados no tempo,
nunca mencionaram
o descabido
de aparecer só
e coberto
de escamas.
***
MENSAGEM
Faria um poema
de amor.
Mas penso em aviões
que decolam,
trens partindo,
em filmes antigos,
gavetas vazias,
a marca do quadro
na parede,
o livro embrulhado
para presente
e coberto de pó.
Este é meu poema
de amor.
***
OBLÍVIO
Um espinho na palma da mão,
a herança ou a graça.
Um nome, história
escrita em rocha, em pluma,
no canto dos olhos.
Uma planta, um tempo,
uma gema que amamos,
queremos,
e sem garantias,
sem garras e armas,
aprendemos,
grão por grão,
a esquecer.
***
DUO
Cordões, cadarços,
todos esses nós
atando angústias.
Mormaço, enjoo
dos dedos à cabeça.
E então você diz
– Vem,
desliza
pelos meus cabelos.
E um arco cresce
entre som e ar,
desfaz nódulos, dá fome.
Os pés
descalços.
***
MAPA
Tentei ser mau,
cortar as asas dos pássaros,
atravessar a nado
o lago no inverno.
Comprei facas e explosivos,
fechei os olhos
ao velho e seu cão,
mortos de fome na praça.
Quase anjo torto.
E era só amor.
Até além do ridículo.
Eu sei.
Só para você anotei,
no bloco da cozinha,
o lugar exato
onde está
emparedado
o meu corpo.
***
BISCOITOS
Imerso no terno
de corte exato,
em seu carro moderno,
cuja marca não sabe,
Franz aguça o olhar.
Como jovens animais,
fareja o ar
à procura
de respostas.
Havia um cheiro de biscoitos
em latas antigas.
Era uma forma
de completude
e revelação.
Mas Franz sente espinhos
nas vértebras.
Aviso
de que os tempos
dos milagres
acabaram.
Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. Autor de “Incompleto movimento” (José Olympio Editora, 2011), “Sem passagem para Barcelona” (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura – Poesia de 2015), “Fundamentos de ventilação e apneia” (Editora Patuá, 2019) e “Hidroavião” (Editora Patuá, 2020). Integra, entre outras, as antologias “Outras ruminações” (Dobra editorial, 2014), “Pessoa – Littérature brésilienne contemporaine” (Revista Pessoa, édition spéciale – Salon du Livre de Paris, 2015), “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016), “Hiperconexões: sangue e titânio” (Editora Patuá, 2017) e “Ruínas” (Editora Patuá, 2020). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.
Neste ano em que a pandemia instaurou uma nova operacionalização da existência, a leitura e a escrita tornaram-se ferramentas de possível manutenção da sanidade. Publicado em março, o livro As solas dos pés de meu avô, de Tiago D. Oliveira, vem construindo um percurso de alegria para um escritor cujo zelo com a palavra é notório. Para mapear alguns trajetos, entre o Tejo, o Tororó, o Paraguaçu e outras paisagens, sondei linhas de acesso ao livro mencionado, além de projetos em movimento e futuros, a conquista do Selo João Ubaldo Ribeiro e a sensação que o isolamento social impôs à face literária do autor.
Celebradas pela posição de finalista do Oceanos, um dos marcadores do campo literário atual, As solas… possibilitam uma pausa para a territorialização dos fios invisíveis cibernéticos e um chamado à memória-ancestralidade na figura de um avô desencarnado que enseja uma profunda contemplação do mundo. A memória, essa construção imprecisa de sensações e acontecimentos, exige um afastamento da imposição do agora para a passagem de um outro instante, um instante passado. Em As solas…, além do que pude desvelar no prefácio do volume, interessa-me, neste momento, a cisão que a obra provoca ao abordar um lócus que transcende as cibermalhas, pois a elas resiste: o espaço fora dos centros. Nesse aspecto, são dois os móbiles de insurgência que me intrigam, modulados, por sua vez, através da fratura do tempo e da abertura ao exterior da tela, desencadeando uma narrativa poética que ilustra uma saga a partir dos pés, da ancestralidade e do amor.
Guy Debord afirma que a espetacularização comporta uma mediação de imagens e aparências. As redes sociais, o apego à digitalização de tudo e a própria internet contêm o fetichismo do espetacularizado que reveste, no contemporâneo, todas as zonas do humano. A urdidura do digital, como interfere na condição humana e quais as formas de vivenciar o toque na tela que nos toca são questões que se impõem. A literatura é um terreno aberto para isso, um domínio de resistência onde o digital é sangrado e desvelado. Por isso, ler Tiago D. Oliveira, hoje, em que a pandemia permanece muito por conta de notícias inverídicas a respeito do vírus que a move, parece-me necessário. Desde Distraído, passando por Contações, até o livro mais recente, a qualidade estética, as referências textuais (Tiago é um leitor voraz) e a reterritorialização conformam uma obra cuja matriz é a da beleza.
Abaixo, segue a conversa que tive com o autor. Desde já, agradeço a Tiago D. Oliveira, por ter cedido um pouco de seu tempo para nós, e ao editorial da Diversos Afins pelo crédito do espaço. Abraços e boa leitura.
Tiago D, Oliveira / Foto: arquivo pessoal
DA – Em As solas dos pés de meu avô, difícil não notar a figura de um patriarca a marcar o percurso narrativo-poético. Há um movimento catártico e/ou de expurgação (independentemente se factual ou mais propriamente ficcional)?
TIAGO D. OLIVEIRA – O primeiro pensamento sobre a escrita desses poemas foi na direção de um resgate. Ele nasceu de uma necessidade, a de tentar entender o muito além dos deslocamentos dos corpos, o que fica quando não há mais a chance de um abraço. Eu, que já havia me distanciado geograficamente, pois vivia em Portugal na época, agora via a distância girar em seu próprio eixo como faz tão naturalmente a natureza. A distância não seria só material e seguiria o rio de nossas existências para outro lugar. Coloquei para fora o primeiro e segundo poema da sequência que se tornaria um livro bem depois. Inicialmente não havia uma vontade de livro. O que existia era a necessidade de colocar na mesa as minhas armas para gerir o desconhecido que me limitava, já que não podia largar o emprego em Lisboa nem tinha condições financeiras para voltar ao Brasil e beijar a testa de meu avô. Escreveria. Os poemas foram nascendo deste momento, mas só escrevi o terceiro quando já estava no Brasil, alguns poucos anos depois. Os versos foram ganhando especulações, leituras, rememorações, recriações, tatuagem que se desenhava em minha carne ao passo em que as geografias do afeto afloravam em mim paulatinamente. O sentimento de saudade em Portugal é uma experiência muito especial e única, aqui no Brasil ele se tornou mais pesado quando caminhei na terra com os pés descalços. Refletir sobre o método catártico que Freud aponta e no fim concluir que estes versos são uma voz que procura o equilíbrio saudável a partir da linguagem, uma voz que busca substituir o sentimento da impossibilidade do ato por um movimento realizado pela linguagem, pela escrita em si, foi o que entendi nesse caminho. Aqui o patriarca exerce a continuação de sua caminhada impondo à morte a vitalidade da escrita a partir de quem ficou. E já não há ficção nem realidade, tudo é transpassado continuamente pelos revérberos e arrepios que acontecem após cada leitura destes versos, destes caminhos, em cada leitor.
DA – Como você estava em Portugal, mais precisamente em Lisboa, a distância do Brasil, e, logo, de seu avô, funcionou como parte do processo de construção do livro. Além disso, como foi experienciar a terra de Fernando Pessoa também na condição de escritor – e brasileiro? A cisão, ao menos em parte, com a pátria, sob o signo do estrangeiro, o corte tátil com a geografia da Bahia: tudo isso impactou sua literatura de algum modo?
TIAGO D. OLIVEIRA – Andar pelas ruas de Lisboa produz um sentimento familiar, é a mesma sensação da folha em branco diante de mim. A cidade oferece uma intimidade maior com os versos que lia na UNL ou no meu quarto. A sensação que tinha era a de viver constantemente no trânsito das leituras, só que tocando, caminhando sobre as palavras, os versos. Um amigo de infância, que também morava em Lisboa na época, teve a sorte de morar ao lado de uma das casas em que viveu Fernando Pessoa e nunca percebeu aquela sorte, o que mudou quando fui visitá-lo pela primeira vez e depois disso aquela imagem não saiu mais de minha cabeça. Outros episódios como esse foram somados durante os anos, mas o que ainda é forte no emaranhado das imagens de minhas lembranças é o desenho afetivo que a cidade constrói em nós. As ruas, a arquitetura, o movimento da carris durante o dia, o tejo, tudo figura como a construção de uma literatura em face de sua realização a qualquer momento. E assim aconteceu um convite para participar de uma antologia de poemas, depois de contos e lá estava eu usando a cidade para recriar a própria cidade, pois era esse o sentimento quando escrevia sobre minhas impressões ao mergulhar cada vez mais na cultura do lugar, era um brasileiro vivendo em outra cultura e reproduzindo aquelas influências a partir de uma escrita em constante transformação. Penso que a minha poesia começou a entender que a transformação é a melhor linguagem exatamente nesse momento. O corte com a minha Bahia começava a se desfazer ali, diante da saudade a escrita, já envolvida pela cultura lusitana, pelos poetas todos, acontecia como instrumento funcional para re/criar, re/viver. Comecei a pensar e sentir novamente a minha terra, agora de uma maneira muito mais profunda e real, depois que percebi que por mais que viajasse, a natureza de meu olhar, mesmo estrangeiro, carregaria sempre o Brasil, a Bahia em mim. O impacto sempre foi o de elevação, sempre olhei e senti assim, para frente.
DA – Muito produtiva a relação reterritorializada com os espaços Portugal-Brasil e que, aliás, é bastante cortejada pela crítica lusófona. Interessante mencionar, nesse aspecto, o prêmio Oceanos, de literaturas de língua portuguesa, em que você é finalista este ano com As solas dos pés de meu avô. Como tem sido essa experiência?
TIAGO D. OLIVEIRA – Bacana você tocar nesse ponto, pois há aqui um lugar imenso de afeto, de reencontro. Ao passo que caminho pelas solas de meu avô nesse livro, conecto-me também com Portugal e percebo a cada dia que somos, nesta minha perspectiva, uma só experiência, a poesia. Estou vivendo um momento muito especial com o reconhecimento do meu trabalho, que geralmente é muito solitário e sem pretensão alguma. Há anos longe de Portugal, mas toda vez que escuto aquele sotaque, sinto como se tivesse retornado ontem para o Brasil, que o tempo não passou. A possibilidade do prêmio me fez acessar novamente um velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma. O conforto é que somos todos filhos de uma mesma língua, mesmo com inúmeros mecanismos internos de reconfigurações constantes, somos todos saídos de uma mesma boca. Mas o coração anda apertado com essa reconexão com um tempo muito feliz de além mar. Um lugar re/encontrado. A parte funcional de todo esse movimento chegado com a indicação de finalista para o Prêmio Oceanos 2020 é que a alegria é imensa, servir de exemplo para outros meninos de periferia, como eu fui, é uma chance de fazer algo bom, motivador. Mas o que fica depois do vento ainda é a página em branco e eu confesso sem medo que essa é a imutável realidade de quem escreve, é o chão de todo autor, é a certeira paz que me recebe de volta. Que bom! Mesmo sabendo da natureza passageira dos prêmios, confesso que é bom sentir as mensagens das pessoas, o carinho, o brilho nos olhos. Penso que As solas dos pés de meu avô ainda vão me levar para lugares diversos.
DA – O “velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma” remete à fragmentação tão incensada do indivíduo contemporâneo. Isso interfere noutros trabalhos, a exemplo de projetos anteriores ou mesmo inéditos? Ou o “chão de todo autor”, a página em branco, resvala em mistérios diferentes a cada livro? Consegue identificar tais aspectos na própria obra?
TIAGO D. OLIVEIRA – Essa fragmentação é realmente um traço contemporâneo que compõe o olhar de quem escreve. As nossas horas são invadidas por diversos tempos e espaços e muitas vezes já nem notamos, acostumados com o ritmo normal da vida imediata. Mas há a palavra escrita, a literatura. Assim são os dias, entre a memória e o tato. Penso que quanto mais o tempo passa, mais aumenta essa nossa busca por um pertencimento que se faz na fragmentação. E agora digo pensando também nas vidas criadas no papel. O meu trabalho está mergulhado nessas águas, a do Tejo e a do Dique. Estou inteiramente atravessado por essa chance do sentir, do criar, do referenciar, assim aconteceu com um livro que escrevi, Contações, que bebe de um lugar que não existe mais, de criaturas reimaginadas e grafadas como partes de um mural construído para essa ideia de pertencimento. Personagens inventados, rememorados, todos abraçados por essa fragmentação, cada um representa um lugar perdido de geografias e eras distintas. Quando escrevo, junto todas as naturezas sob a minha, paulatinamente a preencher a folha em branco com palavras. O chão que piso é feito de possibilidades, a cada livro que realizo pertenço um pouco mais a essa multiplicidade e ao mesmo tempo, sendo todos eles, fragmento-me um pouco mais. Talvez seja essa a ideia de modernidade que merecemos, a que não conseguiremos tão cedo nos livrar. Quando escrevi As solas dos pés de meu avô, novamente não consegui fugir dessa fragmentação que me faz. Lá estão o sertão profundo, a urbe e um outro país distante. Lá estão o avô, o pai e o neto. Três tempos e espaços distintos que são acessados pelo corpo da fragmentação intuído pelo sangue do autor, que escreve justamente por conseguir pertencer, mesmo sem nunca ter vivido. Estou a escrever um novo livro sobre Saveiros, o que me corre pelas mãos são as águas novamente, não as do Tejo nem as do Dique, mas as do Paraguaçu. Novamente escrevo com o sentimento de pertencimento, mesmo sem nunca ter vivido, o que me faz alcançar essa atmosfera de um recôncavo histórico que abastecia a capital é a fragmentação que me acolhe enquanto pesquisa, enquanto ato de talhar o verso. Os mistérios costurados na derme da escrita de cada livro são consequências de um caminho em que pertencer e não pertencer são faces de uma mesma moeda. O jogo da escrita possibilita também essa imagem. Agora olho para a janela e o silêncio da noite me faz ouvir o barulho do relógio, lembro de Pessoa diante do mundo e a heteronímia de sua criação. Lembro também de Drummond, em a Máquina do mundo, quando o poeta nega aquela imagem e vai embora. Sigo em posse dessa herança e gozo agora do silêncio que antecede o sono. Fim. Amanhã já não sei, pode ser tudo diferente.
Tiago D. Oliveira / Foto: arquivo pessoal
DA – Acima, você traça um pequeno tratado sobre os desdobramentos do ato de escrever, além de citar um livro inédito, Saveiros. Muitos autores, em meio à pandemia em curso, têm alegado que a escrita funciona como salvação. Como tem sido para você? Muitos projetos novos? Saveiros nasceu com a quarentena?
TIAGO D. OLIVEIRA – Com a pandemia vieram muitas mudanças rapidamente, tivemos que aceitar e transformar o que nos foi imposto com tanta força. A única realidade que não sofreu foi a leitura, a escrita. Aliás, finalmente havia tempo para a leitura, para a organização de algum projeto de escrita. E assim, mesmo continuando a dar aulas via internet, de alguma forma ficamos mais disponíveis para o sol se pondo, para o barulho do vento entrando em casa. Há tempos venho acumulando leituras sobre os saveiros para um futuro, o que nunca acontecia por causa da implacável falta de tempo, e nesses meses consegui ler muito do que desejava, dissertações, artigos, livros, reportagens, o que alimentou mais ainda a minha vontade de conviver com todo aquele universo. Então eu tinha tempo e uma vontade de escrever que só crescia. Iniciei os versos mesmo sem ter colocado nada no papel. Os poemas começaram a ser escritos em mim enquanto a liberdade reinventava um livro como rio para que aqueles saveiros, que criava como versos em minha cabeça, pudessem navegar novamente. Escrevo com os dias atravessando as palavras, tudo o que sei é medido por versos que repito biblicamente e tento aceitar o que não posso mudar e tomar o que me cabe. Os saveiros são mais uma ferramenta de resistência ao duro tempo que vivemos, assim como os acordes do violão, as contas amarradas na ponta do lápis, as lives ou as receitas de pão. A quarentena trouxe-me uma chance de desacelerar, mas também me possibilitou a construção de um projeto que vai muito mais além da minha condição de isolamento.
DA – Você ganhou este ano o Selo João Ubaldo Ribeiro. Pode comentar um pouco sobre?
TIAGO D. OLIVEIRA – Recebi uma ligação da rádio educadora me pedindo para falar sobre o selo João Ubaldo, que meu inédito, Soprando o vento, tinha sido contemplado neste ano de 2020. Fiquei muito feliz e acabou passando um pequeno filme em minha cabeça. Quando comecei a escrever poesia tinha a idade perfeita para sonhar, sem o coração calejado por alguns movimentos naturais da vida. Acho que aquele menino de Sete de Abril vibrou dentro de mim com a notícia. Ganhar um prêmio em minha cidade sempre foi uma imagem distante, mas algo brilhava ainda em mim e depois que a ficha caiu entendi que sou a melhor propaganda de que é possível nascer na periferia, sonhar com um mundo distante e um dia realizar. Esse prêmio do Selo João Ubaldo Ribeiro representa para mim uma semente plantada em tantos corações, tantos meninos e meninas de periferia que vão perceber que com leitura, estudo, fé, tudo acontece. Sigo acreditando na poesia e nas pessoas.
DA – Gostaria de deixar alguma mensagem para as suas leitoras e leitores?
TIAGO D. OLIVEIRA – Queria deixar aqui a alegria que sinto quando abro um livro. A paz que me toma quando termino de escrever algum projeto, quando os poemas estão dialogando. Queria deixar aqui a minha fé em um mundo feito por pessoas que acreditam nos livros, que se encantam com as pequenas alegrias. Queria dizer que a escrita se tornou uma maneira de entendimento e localização do mundo, cada livro escrito é um universo que re/descubro e aceito caminhar. Queria agradecer por uma troca tão agradável que foi essa entrevista. Estar aqui é acreditar na palavra, é seguir. Leiam. Leiam. A leitura é a grande riqueza nos dias.
Clarissa Macedo (Salvador – BA), mestra, doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora e pesquisadora. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e os livros Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; traduzido ao espanhol) e O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (Ofícios Terrestres, 2019).
Antes de falar, a mulher afastou a escovinha do rosto. Retocava o volume dos cílios com uma máscara preta. Eriçava-os para cima enquanto o olhar verde observava a moça que, há pouco, tinha entrado no banheiro. Ela tentava manter os seios dentro de um decote vermelho que insistia em mostrar demais.
— Você anda com fita na bolsa?
A moça lhe dirigiu os olhos castanhos muito brilhantes e esperançosos. Eram olhos juvenis contornados por uma maquiagem alegre.
A mulher enfiou a escovinha no frasco e o deixou em cima da pia. Vasculhou a bolsa de pedrarias pretas, que combinava com seu vestido também preto, bem fechado na frente e com um longo decote nas costas, até a cintura. Costas nuas.
— Já me vi em cada situação. Tenho linha, agulha, alfinete de segurança…
— Você é bem prevenida.
— Uma vez quase fiquei nua em um casamento, minha filha. Essas roupas são uma armadilha. Toma.
Tirou da bolsa a fita e a entregou à moça. O ar distraído. Sacou novamente a escovinha do vidro e se observou no espelho. A mão em suspenso sem saber se recomeçava a tarefa de avolumar os cílios que já estavam eriçados, negros e curvados para o alto. Daquela vistoria os olhos escorreram para a outra.
— Acho que tem de fazer uma tirinha mais fina. Deixa eu pegar uma tesourinha.
— O decote é muito aberto.
A mulher cortou um pedaço de fita e depois o dividiu ao meio.
— Tenta agora.
A moça agradeceu. Parecia atrapalhada com a operação, tentava a todo custo evitar que os seios ficassem à mostra.
— Coloca a fita mais pra dentro para manter o franzido do tecido. Ninguém nem vai notar.
Continuava olhando através do espelho e se colocou em um ângulo em que não podia mais ver a moça enquanto perguntava.
— Gostando da festa?
— Animada. Tem gente famosa.
— Ah! Sempre tem um ou outro… e muito famosinho arroz de festa. Você vai ver.
— Ai. Grudou tudo. Vou fazer outra. Você não se chateia, não, né?
— Olha… eu… a fita? Nada. Pode usar à vontade.
— Não está gostando da festa?
— Maçante. São todas iguais. Mas tem de vir, né. Quando fico entediada venho retocar a maquiagem. Adoro. Já teve vezes de eu mudar a cor da sombra no meio de uma festa… Ninguém notou. É a vida.
A frase a fez pegar o estojo de sombra. Decidida, enfiou o pincel no dourado.
— E não tem como escapar, né?
Empurrava o seio para dentro do decote enquanto falava. Parecia arrependida das escolhas que tinha feito. Os tamanhos.
— Agora é ir até o fim. Paciência. Estou acostumada a esperar as coisas acabarem. O que não é pra vida toda a gente aguenta. Noblesse oblige.
Murmurou para si mesma o noblesse oblige e descartou o dourado. Limpou o pincel e procurou uma outra cor. Decidiu-se pelo bronze fosco. Começou a retocar os olhos, que até então tinham uma maquiagem mais suave.
— Uma festa de caridade…
A mulher teve de parar a maquiagem para rir.
— Olha meu vestido. Uma festa de caridade. Ele não me avisou de nada.
— Não tem motivo para você se preocupar. Aqui…
— Quem ia imaginar uma festa de…
Voltou-se para a moça. Até então só a tinha visto pelo reflexo do espelho. O cabelo era muito loiro e liso. Alisado. O vestido era mesmo muito justo. O decote deveria ser natural com várias dobras, mas como era um número menor, faltou tecido.
— Deixa eu lhe ajudar.
Cortou novas tiras da fita e começou uma nova operação. Tinha de tocar nos seios. Não havia outro jeito.
— Não tem problema.
— E você nunca veio numa festa…
— De caridade? Nunca nem imaginei…
— Espera. Não se mexe… o bom é que é firme. Vai segurar.
— Me custou muito.
O decote se acomodou nos seios. Não corria mais para os lados.
— Tenho medo de escapar se eu me mexer muito.
— Por enquanto você não vai ter de se mexer. Vai ficar sentada… ereta… vai sorrir suavemente e esperar acabar a festa.
A moça riu.
— Obrigado. Vai ficar o final de semana?
Foi a vez da mulher rir.
— Não. Domingo de manhã tem culto.
A risada da moça congelou num espanto. A mulher se voltou para o espelho. Não se decidia a retornar para a maquiagem.
— O fim de semana inteiro, né?
A moça já não ria. Jogava os restos de fita na lixeira.
— Você é mesmo muito prevenida. Tenho de aprender essas coisas.
A mulher guardou a fita e a tesourinha na bolsa e tirou de lá um estojo pequeno. Dois comprimidos surgiram em sua mão. Um azul e outro branco.
— Toma.
A jovem recebeu os comprimidos em sua mão pela inércia da surpresa.
— O que é isso? Eu não curto…
— Eu vi você mais cedo. Acho que vai precisar. Não é pra você.
— O azul… eu acho que não vai precisar.
— Pelo que eu vi, vai. Amassa e coloca na bebida. Funciona bem.
— Mas não é perigoso?
— Pra você, não.
A moça olhava para os comprimidos sem saber o que fazer. Estava presa em um momento em que a compreensão de algum mistério está prestes a se relevar. Aquele momento em que se tira a venda e a luz da visão primeiro cega antes de deixar aparecer a paisagem. Ela estendia a mão como uma pergunta.
— Com o outro você faz a mesma coisa. Amassa e coloca na bebida. Esse é pro caso de você correr perigo.
Os comprimidos foram postos na minúscula bolsa prateada. A jovem tinha, agora, os olhos mortiços, olhos que enxergavam melhor.
— Obrigado. Não vem para a festa?
— Vou depois.
A moça saiu do banheiro e a mulher retomou a sua maquiagem. Decidiu-se novamente pelo dourado e o passou com generosidade furiosa. Tudo se iluminou em torno de seus olhos muito verdes e muito escuros.
ESCREVENDO UM CONTO
As primeiras frases deste conto surgiram-me durante uma entrevista que dei a Suênio Campos de Lucena, em junho de 2019. A entrevista ainda está inédita. No meio de uma longa resposta sobre meu processo criativo, eu disse:
“Ou mais: que tal pensar outros contos que tenham como ponto de partida objetos ou produtos usados apenas por mulheres? Sutiã, salto alto, cílios postiços, a antiga anágua… já imagino uma mulher no banheiro de uma festa bem chique dizendo à outra: “Eu tenho fita dupla face aqui. Quer?” “Você anda com isso na bolsa?” “Já me vi em cada roubada. Tenho linha e agulha, alfinete de segurança… Já fiquei nua na rua, minha filha. Essas roupas sexies são uma armadilha”… acabo de escrever esse diálogo e já quero saber como foi a história de ter ficado nua. Mas interessante mesmo deve ser a outra que, certamente, tem uma roupa que está mostrando demais e talvez nem tenha se dado conta. Quem são essas mulheres?”.
Esse diálogo ficou guardado no meu computador.
Em setembro de 2020, fiz uma oficina de dramaturgia com Marcos Gomes. Um dos exercícios pedia uma cena entre dois personagens que se referisse a algo fora da cena. Voltei às duas mulheres no banheiro e fiz uma cena curta.
Agora, Fabrício Brandão me pediu mais um conto para a revista. Poderia ser qualquer conto que eu tivesse nas gavetas. Eu lhe pedi uma encomenda: um tema. Já tínhamos feito isso antes: O sabor dos anjos e A frestaforam feitos sob encomenda. Pecados capitais: gula e inveja. Desta vez, Fabrício me pediu com o tema “cidadão de bem” e sobre hipocrisia. Usei as mesmas personagens. Mudei o rumo da conversa entre elas e aí está. Talvez seja um conto ainda em processo. Não sei. Deixemos descansar, desta vez não na gaveta, mas em praça pública.
Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019) Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) e Cada dia sobre a terra (contos, Ed. Caramurê, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.
High Life. França/Alemanha/Reino Unido/Polônia. 2018.
High Life é uma produção internacional de 2018, de idioma inglês, da consagrada diretora francesa Claire Denis, que infelizmente não passou nos cinemas públicos brasileiros, mas que pode ser visualizada pela plataforma You Tube, mediante pagamento. Sendo a primeira obra de ficção científica da autora, é um filme que se adequa a esse período de confinamento pandêmico por causa de seu enredo claustrofóbico sobre a vida artificial. É certamente a produção mais cara da diretora.
Denis é conhecida pelos seus filmes que abordam a sexualidade e o corpo. Seu filme mais importante, Beau Travail (1999), que se passa na África (Denis viveu em vários países africanos quando jovem, acompanhando o trabalho de seu pai), é sobre um affair homoafetivo não declarado entre dois militares, um comandante e um subordinado da Legião Estrangeira Francesa na Argélia. A relação se dá numa mistura de jogo de poder e desejo reprimido, e supõe a troca de papéis, ao estilo “Senhor e Escravo”. Muitas vezes, os filmes da autora abordam as questões do sexo e do desejo na fronteira das transgressões, dos tabus e dos jogos de poder (que frequentemente são também jogos eróticos).
Em High Life, uma missão espacial se dirige para fora do sistema solar e objetiva se aproximar de um buraco negro para estudá-lo. Descobrimos que toda sua tripulação é composta de criminosos que foram condenados na Terra, mas a quem foi dado o direito de substituir suas penas pela participação na missão espacial, “para servir à Ciência”. Aos poucos, todos descobrem que a missão não visa retorno possível à Terra. Em flashback, um cientista denuncia que a expedição é desumana por não supor o retorno dos tripulantes, o que é o mesmo que condená-los a uma espécie de prisão perpétua ou mesmo à pena capital. É ambíguo no filme se os participantes realmente desconhecem seu destino.
Duas personagens se destacam. A primeira é a “doutora” Dibbs (vivida por Juliette Binoche, frequente colaboradora da diretora). Ela é a médica da missão e é também responsável pela “pesquisa” científica a respeito da fertilidade humana nas condições de radiação do espaço sideral. Não se sabe se esta é uma pesquisa “inventada” pela médica ou já decidida pelos cientistas projetistas. Tampouco se sabe se seu posto de médica e pesquisadora foi definido antecipadamente. Aos poucos, saberemos que Dibbs é uma criminosa condenada tal como os demais membros da tripulação. Ela certamente mantém uma ascendência de poder sobre todos que muitas vezes se submetem aos seus experimentos genéticos (fornecem fluidos sexuais). No entanto, nas condições irremediavelmente longínquas da nave, o poder ditatorial e severo que Dibbs exerce sobre os demais poderia ser alvo facilmente de uma rebelião. Mas os outros passageiros parecem passivos demais para lhe questionar o poder. Parte dessa inércia vem do fato de que Dibbs tem acesso a drogas narcóticas que tornam a longa viagem mais suportável.
Juliette Binoche / Foto: divulgação
A segunda personagem protagonista é Monte (vivido pelo ator americano Robert Pattinson). Ele é o único passageiro que permanece fora da esfera de comando de Dibbs, nem participa de suas pesquisas e nem cede às suas demandas sexuais. Ele é um “celibatário” por sua própria decisão, o que lhe garante uma fortificada “pureza” e uma aura de integridade. Desde a primeira cena, sabemos que Monte será o único sobrevivente da missão, junto com uma criança, menina, recém-nascida. Ele mantém um jardim com estufa num dos compartimentos da nave espacial. A narrativa do filme é construída de forma totalmente não linear e varia com cenas da nave em momentos diferentes e cenas antes da partida, ou ainda com outras da própria juventude de Monte. Não sabemos de onde vem aquele insólito recém-nascido que está com ele nas primeiras cenas.
O antagonismo entre Monte e Dibbs estrutura um dos eixos do enredo. De um lado, a pureza de Monte permite que ele mantenha uma aura de sapiência diante da tripulação. Dibbs, por seu lado, é uma personagem ambígua. De um lado, seu poder vem de seu saber científico e instrumental. De outro, seus longos cabelos e seus pelos abundantes são índices ostensivos de sua feminilidade e de sua sexualidade. Uma das participantes femininas a chama de “bruxa”. A personagem de Binoche assedia sexualmente os homens, mas não consegue os favores de Monte. Há um compartimento da nave que é um cubículo onde ela pode se masturbar sobre um dispositivo fálico de cavalgadura. Assim, ela articula o poder da racionalidade científica e instrumental e o poder arquetípico da sexualidade feminina.
O outro eixo narrativo é o da própria missão, a utopia-distopia da viagem sideral. Claire Denis explicitamente organiza uma montagem cinematográfica em que vários filmes são referências: 2001, uma Odisseia no Espaço; Solaris; Alien, o Oitavo Passageiro; Perdido em Marte. Este último é referenciado pelo jardim interno mantido por Monte. De fato, um dos alvos temáticos de Denis é o projeto de colonização do espaço, em particular o projeto de Elon Musk (Tesla) de enviar uma nave tripulada à Marte sem retorno. As pesquisas de Dibbs sobre a viabilidade da fertilidade humana no espaço sideral estão inscritas nessa experiência de sobrevivência utópica da espécie quando as condições do planeta Terra estiverem irremediavelmente inóspitas (e também lembram a pesquisa do cientista androide de Alien com o material genético alienígena). High Life vai mais longe, para além do Sistema Solar. Porém, submete esse projeto de “escapar” do planeta e do Sistema a uma reversão irônica. A nave é caracterizada como um container grosseiro, como uma caixa de transporte e uma nave-prisão.
Robert Pattinson / Foto: divulgação
Numa de suas entrevistas sobre o filme, Claire Denis diz que nas condições absolutamente sem esperança das personagens, “o sexo é a única liberdade”. O sexo, o corpo e a carne estão presentes em todos os seus filmes. O que se observa neste último filme é um embate entre o sonho distópico da tecnociência e a espessura dos corpos carregados de sexualidade e desejo. Denis exibe em seus filmes um verdadeiro fascínio com o corpo, seja disforme ou mutilado. Denis é uma feminista diferente, fascinada com a masculinidade. A discussão de gênero está presente em sua obra não à maneira da performatividade discutida pela Teoria Queer, mas como um encrave sexual que acomete a carne, independentemente de seu código genético. Em seu filme clássico White Material (2009), o frágil corpo branco da personagem de Isabelle Huppert recebe uma caracterização de virilidade. O embaralhamento de gênero em seus filmes vem totalmente desprovido de classificações. É algo a ser vivido carnalmente pelas personagens.
Esse embaralhamento sexual também acontece em High Life. Mesmo com sua sexualidade arquetípica, é a personagem de Dibbs que está com o poder fálico da violência da posse. É assim que sua experiência científica terá êxito através de dois estupros em corpos de mulher e de homem. Já a personagem de Monte será retratada desde o início num claro viés maternal e virginal, com uma propensão ao cuidado e à proteção.
Para Denis, os corpos são andróginos. E o sexo é um assunto sobre o encontro desejoso (quase sempre violento) dos corpos. Quaisquer corpos. Mesmo (ou principalmente) com o seu próprio: sexo é também masturbação com o corpo do outro (podendo este ser o “outro de si”). Na relação contraditória entre esperança e desesperança, a ficção científica de High Life é um experimento cinematográfico e também um experimento mental. A viagem de escape para fora do Sistema Solar se dirige a um buraco negro. É o buraco negro que sintetiza as contradições entre mito e ciência, masculino e feminino, ideologia e utopia. E entre o monstruoso e o sublime da arte. O buraco negro é a alegoria da “fenda” do sexo, de sua passagem e de seu encerramento. Da posse que é também uma entrega: possessão.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.