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141ª Leva - 01/2021 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Geometria da Palavra

 

2021 ensaia suas primeiras investidas. Diante de tudo o que vivemos no ano passado, alguma sombra de desconfiança ainda repousará sobre nossas vidas por certo tempo. É o efeito de uma pandemia jamais experimentada por muitas gerações de pessoas, algo que, além de nos obrigar a encarar perdas humanas vertiginosas e irreparáveis, nos lançou o desafio do isolamento social agudo. Normalidade é uma palavra que há muito não frequenta nossos espaços de convivência e, arriscamos dizer, é incabível se falar em qualquer outro tipo de normalidade e suas falaciosas derivações. Não há lugar para a naturalização de tamanha tragédia humana, ainda  mais quando muitos desprezam os fatos a ponto de negarem tudo o que nos acomete há quase um ano. Pelo mundo afora, muitas vidas se foram, afetando tantas famílias. No Brasil, atingimos por agora a impressionante e avassaladora marca de 200 mil mortes. E muita coisa precisa ainda ser repensada para que tudo não passe de mera estatística a contabilizar os efeitos de um tempo de insensibilidades. Devemos seguir em frente, bem sabemos, mas isso não nos tira a responsabilidade de tentarmos soluções para os males decorrentes do atual estado de coisas com o qual nos deparamos. Há de se recorrer também à preservação da memória de todos os que ficaram pelo caminho. Dedicamos, pois, a nossa primeira edição do ano às pessoas que não mais estão conosco em face do que nos vem ocorrendo em escala global. Nos caminhos literários e artísticos, também encontramos razões para celebrar a vida, acreditando que um dia muitas coisas possam se renovar de algum modo. Nossas janelas poéticas trazem os versos contundentes de Mônica Ribeiro, Marcus Groza, Bruna Mitrano, Mírian Freitas e Cristiano Silva Rato. No território musical, Larissa Mendes nos conduz pelos recantos de “Cinco”, mais novo disco do cantor e compositor Silva. Pela resenha de Gustavo Rios, somos apresentados ao mais recente livro de Pawlo Cidade, o romance “Rio das Almas”. E o olhar cinéfilo de Guilherme Preger está voltado agora para a nova versão de “Berlin Alexanderplatz”, filme do diretor Burhan Qurbani. Nossos dedos de prosa recebem os contos de Cinthia Kriemler e Thaís Fernandes, além da crônica de Kátia Borges. Numa entrevista bastante especial concedida a Fabrício Brandão, a poeta Dheyne de Souza partilha conosco um pouco de suas vivências literárias e seu sensível olhar sobre algumas inquietudes de nossa contemporaneidade. Vinicius de Oliveira nos traz importantes reflexões a partir do livro “O amor como revolução”, do pastor Henrique Vieira. Abrilhantam todos os espaços desta Leva 141 os desenhos de Vinha Oliveira, artista que funda suas criações no que considera ser a geometria da palavra. Bons mergulhos!

Os Leveiros

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

NOTAS SOBRE UM POVOADO MÁGICO

Por Gustavo Rios


 

São evidentes os elementos que vinculam o livro Rio das Almas, do escritor baiano Pawlo Cidade, à tradição do Realismo Fantástico. Das famílias que atravessam o tempo da narrativa com suas histórias e idiossincrasias, às situações inusitadas envolvendo determinado rol de personagens, Pawlo nos traz uma obra interessante. E parece bem à vontade nesse universo.

Publicado pela portuguesa Chiado Editora, o romance Rio das Almas conta a trajetória de um povoado de mesmo nome que viveu seu apogeu com a extração de carvão (fato importante na trama) e com as ferrovias. Em suas 304 páginas, somos convidados a conhecer esse lugar mágico, que aos poucos vai se mostrando a alegoria perfeita para as ambições do seu criador.

No primeiro capítulo nos deparamos com o hidrólogo Pedro Parigot. Pedro, movido por uma espécie de milagre (uma cura que o personagem tenta entender com o olhar da ciência), viaja até o povoado na busca de respostas. O ano é 1968, período marcante para a história brasileira – e não é raro encontramos laços entre o mundo proposto pelo autor e o real, historicamente falando.

Dentro desse enredo inicial e aparentemente simples, e entre observações precisas e competentes do ambiente e da situação em si (o encontro entre dois desconhecidos, Pedro e o andarilho de nome Miguel Cervantes, num cenário que tenta fugir do trivial tão comum nos livros “regionais”), Pawlo dá início à sua jornada. E o que poderia ser o “núcleo duro” do livro, no caso a busca de Pedro Parigot por respostas, acaba por se converter numa parte. Fundamental no todo, mas nunca limitadora do muito.

E não demora nada para que outros personagens, com suas histórias inusitadas e bem construídas, surjam, ampliando o escopo do autor e nos mostrando o tamanho exato de suas ambições.

A mudança de cenário, por assim dizer, já começa no segundo capítulo. Nele, embarcamos com Pawlo Cidade, enxergando cada vez mais seus propósitos e a força de sua escrita.

 

O “povoado dos Santos”    

Seguindo a linha de trabalho escolhida pelo artista ilheense, é importante destacar algo que prende o leitor e terá certamente a capacidade de mantê-lo no prumo: a história dos Santos.

Em minha opinião, as páginas em que ele descreve as peculiaridades dessa família (para usar um termo bem comportado) são umas das melhores partes do romance – talvez pela lembrança que me trouxe dos tipos que habitam Macondo.

Da família que “(…) todos os sábados, no lombo de burros, iam à feira de Rio das Almas negociar os alimentos que produziam na fazenda: leite, batatas, alface, mandioca, inhame, gabiroba e algumas peças artesanais como embornais (…)”, avançamos entre belas representações (lembro que a crueldade apresentada é parte do jogo; parte da necessária construção literária: aqui, então, justifico o termo “belo”), envolvidos por um ambiente mítico.

Para exemplificar parte dessa ideia inicial, e mostrar como Cidade trabalha tais questões, cito o trecho abaixo:

“A cada meia hora, Jairo Santos, arrastando os pés nas tábuas aparelhadas do piso da sala, saía na varanda e olhava para o céu, anunciando a chegada de uma chuva que nunca vinha. Com o dedo em riste, dava ordens à mulher e às filhas, apontando a direção, sem precisar dar uma palavra. De tanto apontar o dedo na direção das coisas e dos acontecimentos, o indicador da mão direita endureceu. A mulher, que era espichada, achou engraçado. Disse que o dedo duro foi castigo de Deus pelas vezes que ele a fez crescer, forçada, mas ‘por amor’, até ficar do tamanho dele. Dona Santaninha dos Santos cedera ao desejo desvairado e esdrúxulo do marido de fazê-la se esticar até ficar de sua estatura, para que os filhos, quando nascessem, tivessem o mesmo tamanho dos pais”.

Então, usando o “amor” como justificativa, “(…) antes mesmo do sol cobrir todo o Vale dos Absurdos, Jairo Santos deitava a mulher sobre o ‘estirador’, um instrumento que inventou para alongar a estatura do corpo, embora um aparelho similar tenha estado em uso durante toda a Idade Média, sobretudo por padres inquisidores que o utilizavam para extrair confissões e que ficara conhecido com a alcunha de ‘cavalete’”.

Pawlo Cidade, pseudônimo do escritor João Paulo Couto Santos, prossegue com firmeza no uso dos ingredientes comuns a essa literatura chamada de fantástica: a família que “conversa animadamente” com os animais do pasto; a família que cria gatos selvagens em coleiras para torná-los mais mansos; os Santos, que devem aprender a viver como raposas e corujas que se escondem em buracos no chão, pois “(…) lá será o destino de toda vida na face da Terra.”, já que, segundo o velho Jairo Santos, “um dia o sol cresceria tanto que queimaria quase toda a terra e só depois de tanto crescer ele explodiria. ‘Toda a luz se tornará em trevas para sempre’”.

Ainda que eu destaque o uso de tais elementos, que vão muito além da família Santos no decorrer das páginas, devo lembrar que essa escolha não restringe as ideias do autor. Ou seja: não existe cópia, apenas inspirações certamente assumidas (a citação do livro Incidente em Antares, por exemplo), e outras talvez mais sutis (o cheiro dos grãos de mamona num copo de metal me lembrou das amêndoas amargas que deram fim às “inquietações da memória” de um tal refugiado antilhano; mas isso é pura especulação de minha parte). Para fechar a questão, digo que nada é deliberado nem confuso, apesar de nos parecer muitas vezes que a cronologia e o enredo se perdem.

A verdade é que Pawlo também joga com isso, e joga bem. Ele nos traz novos personagens, novas vidas que se mostram ao longo da obra. Em seu romance, o tempo pode dar um salto entre um capítulo e o outro (anos, às vezes décadas), mas essa escolha tem o efeito de nos manter interessados em seus desfechos, na promessa de algo mais.

E essa diversidade de personagens, de casos, de tempos que saltam e de vidas distintas, acaba sendo a grandeza do livro. E o enredo ganha com isso.

 

Ressurreição e Bíblia

Deocleciano, um velho que após perder o grande amor de sua vida está “determinado a morrer”, sem conseguir finalizar o ato, é o primeiro a perceber que a morte talvez tenha abandonado o povoado. E para um livro que tem como epígrafe um trecho da Bíblia (“’E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles’”), não à toa do famoso Apocalipse (que também significa Revelação), é interessante analisar o romance na tentativa de ligar os pontos. Tentar associar uma ideia bíblica com a vida da localidade em si.

O livro sagrado (ao menos para algumas religiões) vez por outra é citado na história, seja pelos personagens ou mesmo pelo autor-narrador. Quando Deocleciano grita na página 35 que “A morte morreu, Céo!”, ou mesmo quando ele escuta sua amiga, Céo, repetir o mesmo trecho da epígrafe, “(…) meio absorta, olhando através da janela, os malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos”, podemos inferir a ideia de Pawlo em colocar na obra uma ideia comum, mas bastante aceitável e apropriada: a religiosidade característica em diversas regiões do país. Na literatura brasileira os exemplos são fartos. E, para não ficar no vazio, cito Dias Gomes e Hermilo B. Filho, entre tantos outros.

O cotidiano do povoado merece destaque, visto que é o arcabouço do romance, obviamente. Todavia, aqui a gente também enxerga o fabuloso na medida certa, no detalhe e no comezinho, não somente no evento que pode mudar de alguma forma o destino da trama.

Além disso, suspeito que nesse fabuloso “miúdo” exista um pouco de cinematográfico, do tipo cinema-que-devaneia-e-amplia: parte do trecho citado acima (“malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos”) deve me ajudar a explicar a ideia, na medida em que surge como algo trivial. Como se “malditos redemoinhos” não fossem acontecimentos tão incomuns para aquela gente.

Do Conselho de Anciãos que “(…) se reunia para tratar dos assuntos mais complexos do povoado.”, podendo ser convocado por qualquer cidadão, à uma rotina que envolvia um Deocleciano que às “(…) 15h, lia sobre os grandes filósofos da humanidade: Sócrates, Descartes, Aristóteles, Platão; às 16h, compartilhava o que havia lido com os jovens que o esperavam na praça do Chafariz, induzindo-os à busca de si mesmos e à solução dos problemas mais simples da humanidade, sempre com base na filosofia e nos seus questionamentos pertinentes (…)”, o leitor vai construindo em sua mente Rio das Almas. Suas ruas, seus habitantes, os acontecimentos e a magia que cabe dentro dele. Assim, esse mesmo leitor vai se tornando algo além de um mero espectador. Seu olhar vai se igualando em essência aos dos moradores do lugar.

Também a forma escolhida pelo escritor para pôr no livro tamanha variedade de situações se mostra acertada, na proporção em que ele resolve os dilemas propostos, e faz as devidas ligações ao longo do texto: a falsa impressão de que, em parte da obra, estamos diante de cenas descontinuadas, não impede de vermos a beleza do conjunto (o capítulo 17 pode ser um bom exemplo, e não só pela questão da cronologia, mas pela inventividade). No final das contas, esse método valoriza o trabalho, na justaposição de situações curiosas, belíssimas, engraçadas, incríveis e literárias, no sentido lato da palavra.

Usando como base o Realismo Fantástico, Cidade nos agrada com os mais diferentes acontecimentos, tendo como pano de fundo aquilo que chamamos realidade. Mas que podem muito bem subverter essa mesma realidade amuada e sem graça, extraindo dela o encantamento, o pomposo, a picardia e o mundano. Tudo que esperamos para combater essa vida que insiste num cinza duradouro e sufocante.

 

O protagonista que interessa: o ser humano

É um erro pensar, todavia, que Rio das Almas não passa de um amontoado de histórias absurdas, com personagens marcantes e loucuras no atacado e no varejo. Ainda que Pawlo tenha optado por uma narrativa não linear em parte do livro – como já dito e recontado acima, às vezes um detalhe só é explicado alguns capítulos depois (vide o momento em que Chico Rola ressuscita “sem mastro e sem bandeira”, fato explicado várias páginas depois) -, o que prevalece mesmo é a história do humano em si. O verdadeiro eixo de tudo. Para o autor, o que importa é o que cada indivíduo sente e como ele age diante do mundo que se apresenta, ainda que esse mundo seja do tipo que acolhe, sem sustos, uma Mulher Pisadeira que esmagava o peito das pessoas que dormiam de barriga cheia.

Rio das Almas, povoado, é uma potente metáfora sobre as tais idiossincrasias do ser humano. Tornando-se uma espécie de síntese criativa e instigante que coloca o homem no protagonismo, à frente e acima.

Em Rio das Almas, livro, o que salta aos olhos de verdade são as pessoas. Os amores, as amizades, as crenças e os rancores. O que releva nas 304 páginas são as fronteiras e as nuances. As buscas e as perdas. Tudo bem estruturado num cenário fascinante, que não confunde o leitor com enganações.

Não é a ressurreição ocorrida na história que se destaca no final das contas, mas os motivos e as causas da morte que não acontece. Da traição nunca perdoada, à velhice que deixa o Chico Rola impotente (“deixou de ser cavalo para ser égua”), passando pela dor da viuvez, onde Deocleciano vê a interrupção dolorosa de uma rotina em que ele “(…) às 17h, voltava correndo para casa, pegava a esposa, e regressava outra vez para a praça, onde podiam contemplar, às 17h45, carinhosamente abraçados, o pôr do sol, a hora mais espetacular do povoado, em que o céu tingia-se de tons azul-violáceos, rosa choque, roxo, tons alaranjados e uma infinidade de tons vermelhos que se distribuíam em degradê pelo Monte Marrom.”, o que enxergamos é o personagem no centro de tudo.

A injustiça social causada pelo lucro e pela ganância também é assunto presente no livro, tendo como mote a existência da Betânia and San Francisco Railway Company, empresa de mineração de carvão. Desse modo, além de conter os tais elementos fantásticos (forma, labor e estilo), o livro traz também a lembrança de quanto os humanos são absorvidos e devorados pela ganância, pela desumanização e pela fome de lucro (realidade e conteúdo).

 

A voz narrativa e as escolhas

Um ponto que talvez incomode a quem vai ler a obra é o jeitão por vezes empolado com que o artista prossegue no romance. Mesmo em cenas engraçadas, provavelmente ao se deparar com trechos tais como “(…) inalar, involuntariamente, os odores nada agradáveis de suas flatulências” o leitor vai achar algo exagerado.

Outros exemplos reforçam tal impressão: “chorou copiosamente”; “Cria nisso. Como creu naquela noite”; “nitidamente absorto”; “assaz eufóricos”; “desmesuradamente perplexos”, entre outros.

Todavia, diante do que li (a obra em seu conjunto), consigo entrar em defesa do Cidade com alguns argumentos que talvez consigam explicar o caso: para mim, é outra voz que nos narra Rio das Almas; além disso, Pawlo trabalha no livro com um tipo de narrador que conversa diretamente com quem o lê.

Sobre a primeira hipótese, posso resumir da seguinte forma: a voz do livro pode não ser a do João Paulo ou mesmo a do Pawlo Cidade. Mas a de alguém criado por ele (ou eles) para tal.

Deixando de lado a questão do pseudônimo para não confundir, e sendo o autor do livro um dramaturgo, acredito na capacidade dele em “dar voz” a outros – como um “item de série”, digamos, para um bom homem de teatro. Com isso, e considerando sua experiência, acho que Cidade optou por criar uma persona que deve falar desse jeito “assaz” presunçoso.

Um narrador que precisa explicar o que é bronha (“o ato de se masturbar”), por exemplo, é o mesmo que pode nos deixar um pouco confusos quando fala sobre os telômeros que não conseguem mais se dividir (outros trechos me fazem suspeitar que a voz do livro seria a de um médico aposentado, meio sábio, bom de copo e de prato, chegado numa picardia e um grande observador; mas isso é especulação minha, um jogo interessante para o Gustavo leitor).

Sobre a voz ser a do tipo narrador que conversa com o leitor, diferentes momentos podem comprovar essa ideia. Na medida em que ele opina e compartilha experiências.

Como exemplo, cito os trechos a seguir (com grifos meus):

“Se fôssemos enumerar as coisas absurdas (e incríveis!) que povoavam o Vale, como o fato de uma vez por ano o sol brilhar em plena meia-noite, seria preciso escrever outro livro.

Vamos ver se consigo explicar. Quando completou sete décadas de vida, o filósofo professor leigo e funcionário da Estação de Tratamento de Água de Rio das Almas (…)”

Enfim, Rio das Almas é um livro que merece ser lido. Com atenção e prazer, se permitindo entrar no jogo proposto por seu criador.

E entre coveiros gêmeos bivitelinos de pais diferentes, burros alados, olhos violetas e assombrações, acredito valer muito a pena entrar, sim, no jogo. Na deliciosa leitura desse mundo-povoado. Lá, onde bar se chama taverna. E onde “A fragrância das gardênias só era abandonada quando as flores da Praça da Matriz desabrochavam com grande intensidade e magnificência”. Um lugar que eu gostaria muito de passar uns dias. Ou mesmo passar uma vida inteira, quem sabe.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.

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141ª Leva - 01/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Bruna Mitrano

 

Desenho: Geometria da palavra

 

 

tem espinhos na língua.
o encontro é quando lambe o racho da minha sola.
até que o primeiro lapso nos levante às pressas –
ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.
nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.
é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?
sim, estaremos sempre sozinhos –
guardo nossos segredos com muitas mãos,
seu sangue seco nas minhas coxas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

você não sabe se enxugar,
eu disse rindo.
das suas pernas encharcadas brotavam poças escuras
que no corredor escuro
pareciam buracos –
eu não desviava,
espalhava seus abismos.
até que ficava insuportável te ver escorrer
e eu me agachava e lambia dos seus extremos até o pé,
a língua desmoronando em cada dobra,
enquanto você ardia por toda a dor do mundo.

e foi por ela,
foi por toda a dor do mundo
que chorei em seus pés
e supus as linhas do seu rosto quando minhas águas,
lágrimas, coriza, bichos,
tanto amor,
amornaram seus dedos.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ainda falava em reparação
o nariz bicando a asa de frango frita
boca e mãos luzindo engorduradas –
meu bem, seu amor é patético ao meio dia.
e a cara amarela desde a manhã
se havia
um grito vinha da cozinha
geladeira velha
bebo água e a voz grave do vizinho me treme
outro copo quebrado
varro mal
esqueço e
ah esse calor terrível
deito no chão –
você acha que vai chover?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

choque
uns passos
segundo plano
acho que vi um milagre!
acho que vi!
as mãos estavam vazias
quando o homem louco
aos berros no meio da rua
esclareceu
o último gole
a raiva ainda alinhada –
é difícil, ele disse,
morrer.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

rasgava a camisa com os dentes
a raiva desnudada de pavor
e se deixava à beira –
como adestrar a mão convulsa?
o mijo morno entre as cobertas era como peitos grandes pietá
aninhava-se no turbilhão do que era
reconhecia
seu corpo
erguendo à boca a própria armadilha
e lembrava das frutas que nasceram podres
as que nasceriam pra sempre.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

deito, abro as pernas em pássaro e curvo a cervical pra, daqui, te ver. no centro, os lábios úmidos do animal todo boca devoram a sua imagem diminuída pela máxima distância suportada – sobre o corpo inerte, não obstante o grito esmurrar a película que encobre o peito, no golpe extático da pequena morte, dançam o líquido branco espesso e meus muitos coágulos – emaranham-se, escorrem. as mãos, não soltamos.

 

Bruna Mitrano vive na periferia do Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em Literatura pela UERJ, professora, escritora, desenhista e articuladora cultural. Publicou poemas, contos e desenhos em jornais, revistas e antologias no Brasil e no exterior. É autora do livro Não (Ed. Patuá, 2016).

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Thaís Fernandes

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Deixou que tomasse conta de si a noite gélida e calada. Lembrou-se de ter-lhe beijado o rosto e sentido o gosto salgado de suas lágrimas.

 

 

 

***

 

 

 

Cansado do frio da madrugada, às manhãs envoltas em papelão, foi buscar abrigo no palco da Igreja. Aquela noite sonhou com o sino tocando sua vida inteira num horizonte à frente.

 

 

 

***

 

 

 

A velhice bateu-lhe à porta e ele a convidou para entrar. Largou-se aos recônditos da amargura, em desmemória, vendo os seus pés fincarem lentamente naquele lugar.

 

 

 

***

 

 

 

Vi as lágrimas escorrerem e lhe borrarem a maquiagem. Pintou-se para elevar a autoestima, mas por dentro o coração flutuava nas águas.

 

 

 

***

 

 

 

Entre o nada e o tudo, viram-se em um abismo silencioso, de onde refletia a profundidade das próprias mágoas.

 

 

 

***

 

 

 

Não raras vezes, o cheiro de santidade exalava de seu corpo. Era um homem esbelto, viçoso, aparentemente leitor de clássicos, cujos títulos poderiam condizer com a entoação de sua voz em latim e com o seu comportamento reservado, isso graças àquele ar cerimonioso.

 

 

 

***

 

 

 

Assim como a água, límpida e calma, pediu que cuidasse também das rosas, da alma de cada pétala, recepcionadas pelo silêncio agora, onde jazem o Reino dos Céus.

 

 

 

***

 

 

 

Esperançosa, acreditou que após recorrer à terapia ele fosse capaz de costurar os rasgos feitos nos corações alheios, e do arrependimento uma nova chance de perdão.

 

 

 

***

 

 

 

Ela preferia ali ficar, envolta na sua angustia existencial.

 

 

 

***

 

 

 

As fotografias antigas eram tudo que ele tinha, ainda em preto e branco, como um resgate memorial que o ajudava a envelhecer sorrindo.

 

Thaís Fernandes é natural de São Paulo — SP. Graduou-se em Letras (Português-Inglês), possui especialização em Língua Inglesa e suas Literaturas e desenvolve pesquisa em Estudos da Tradução (FFLCH/USP). Tem textos poéticos e traduções publicadas em jornais e revistas eletrônicas nacionais e internacionais, incluindo The Mark Literary Review, (n.t.) Revista Literária em Tradução, Revista PHILIA | Filosofia, Literatura & Arte, Zunái — Revista de Poesia e Debates, Revista LiteraLivre, Tuck Magazine, Gueto — Revista Literária Luso-Brasileira. Traduziu, entre outros, Maya Angelou, Katherine Mansfield, Mark Twain e ensaios literários de C.S. Lewis, Ralph Waldo Emerson e Robert Louis Stevenson.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Mírian Freitas

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Instante

 

Mas para que serve o instante?
Na sobrevida do momento íntimo
flâmulas acesas chamuscam
no escuro da parede de tijolo cru
pavio insano aceso
entorpece os olhos nus
duas biroscas matizadas
no reflexo da luz e da sombra
–fotografia nas instâncias letais
do corpo—
infinitude
incompletude
o instante se faz ausente.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Solidão

 

Olhe para dentro,
há o turbilhão das vozes,
íntimas raízes, mortos que falam.
O solitário não fala, mente.
Traduz de si para si
o calendário da alma.
Dentro
–realisticamente–
ninguém
ninguém.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

À flor da pele

 

Labaredas da alma acesas
como fogueira incessante
a queimar os poros
as células viciantes do corpo
a vicissitude do instinto
o bojo dos lábios,
o fogo,
incêndio no pedestal da cabeça.
Fogo!
respira fundo,
o fogo nos ossos
a crepitar no instante do último fôlego.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

A Morte dos bois

 

Os bois antes de morrer, choram.
Cabisbaixos,
lagrimejam os grandes olhos
sabem que vão ser mortos.
A caminho do matadouro,
em fila indiana,
os mais delicados sussurram seu pranto triste.
Outros, ao berros, urram de medo
e desespero.

Quem, afinal, gosta de morrer?
Quem, afinal, vê na morte uma necessidade?

Sofridos, desalentados,
os bois choram.
Inútil chorar.
As algemas da morte estão atadas
não perdoam.

As lâminas afiadas cortam,
o sangue escorre.
Lágrimas, gemidos, sussurros tristes

de nada adiantam.
Morrer é preciso.
Morrer é urgente.
Os bois suportam o mundo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Come in

 

Cultiva-te em mim as tuas mãos
como se fossem galhos apressados, firmes,
molhados pela doçura do orvalho noturno.
Despoja-te em mim teu corpo
como um barco náufrago, afogando-se
no pranto da multidão
no poço das águas revoltas.
Mergulha-te em mim como um peixe
a esfregar tuas escamas no meus pelos negros
insanos
— rebeldes–.
Transborda-te em mim como um líquido
assim,
gotejando em silêncio, sem dizer palavra,
apenas abraçando-me na mudez
como a planta que ama
sem necessitar do verbo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Os que nascem em abril
comem maçãs vivas
enquanto pensam escuro lá dentro
na terra e nas folhas

relâmpagos sopram faíscas
luzes solitárias—vivas como os invertebrados,
além das luzes, o arfar do vento acende o termômetro
da vida pulsante
que não se atrasa para partir—.

Partir-se infiel a um outro
no escuro atrás das coisas
serpente nos olhos
–vibrantes— a vida no centro
submerge como os submarinos,

bolhas na água límpida flutuam espumantes
vozes indefinidas atrás das estâncias líquidas
naufragam o poema.

 

Mírian Freitas, mineira, reside em Juiz de Fora, doutora em Estudos de literatura (UFF), lecionou em Massachusetts,  EUA, por quase 10 anos e atualmente é professora do Núcleo de Línguas do IFSUDESTE/JF. Autora de “Intimidade vasculhada” (contos- Editora 7  Letras/Imprimatur), “Exílios naufrágios e outras passagens” (poesia- Editora Patuá), “Caio Fernando Abreu: Uma poética da alteridade e da identidade”- no Prelo- (Ensaio), foi uma das autoras da Antologia Lusófona I (poemas- Folheto Edições&Design, Leiria- Portugal). Possui textos espalhados em  revistas como CP Literatura (Editora Escala), Revista Cult, blogs e sites de literatura como o Releituras, portal Cronópios e outros.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Berlin Alexanderplatz. Alemanha/Holanda. 2020.

 

 

Nova versão cinematográfica do grande romance de Alfred Döblin (1929), Berlin Alexanderplatz foi apresentada ao público brasileiro apenas na Mostra de Filmes de São Paulo, sendo um dos filmes de maior repercussão. Trata-se de uma releitura, ou melhor dizendo, reconstrução do romance modernista, que também foi trazido para a linguagem audiovisual na célebre série televisiva de Rainer Fassbinder (1980).

Burhan Qurbani, diretor da versão 2020, é afegão e mora em Berlim. Nesta sua versão, ele atualiza o clássico de Döblin, trazendo a trama para o presente. Franz Biberkopf agora se torna Francis, refugiado negro de Guiné Bissau, vivido pelo ator Welket Bungué, que é conhecido do público brasileiro, pois participou de filmes do cinema nacional tal como Corpo Elétrico (2017) e Joaquim (2017).  Na reconstrução cinematográfica de Qurbani, Francis é um imigrante que entra ilegalmente na Alemanha e tenta a princípio se estabelecer legalmente em trabalhos na indústria. Mas como o Biberkopf original, Francis acaba por se desviar para as atividades ilícitas de comércio de drogas ou de cafetinagem. Nesse seu desvio de rota para a marginalidade, duas personagens lhe servem de balize. A primeira é Reinhold (extraordinariamente vivida pelo ator Albrecht Schuch), traficante de drogas, pessoa ambígua e demoníaca, na melhor tradição fabular alemã de Fausto e de Mefistofeles. Reinhold é perverso, impotente sexualmente e desenvolve uma união umbilical com Francis, que vê nele quase um irmão. A sexualidade de Francis também é ambígua, aparentemente bissexual, assim como sua própria ética existencial, dividida entre o Bem e o Mal, entre o desejo de se tornar um cidadão alemão normal ou um traficante, entre a amizade por Reinhold e o amor de Mieze.  Esta é outra personagem principal, de índole oposta (vivida pela atriz Jeela Haase), uma prostituta angelical que se casa com Francis e lhe serve de guia amoroso e espiritual. É dela a voz narrativa que justamente narra a peripécia de Francis em busca de sua Salvação, assim mesmo em maiúscula, para acentuar seu tom teológico (próprio ao nome do protagonista que lembra o nome do santo cristão).

 

Cena de Berlin Alexanderplatz / Foto: divulgação

 

Um diretor afegão, um herói negro imigrante no lugar de um branco, a obra de Qurbani tem tudo para se tornar uma verdadeira desconstrução do clássico literário germânico.  Mas, em certo sentido, trata-se de uma versão bastante fiel ao espírito original do romance. De fato, as desventuras de Franz na década de 20 na Alemanha, período imediatamente anterior à ascensão do fascismo, estão todas fielmente traçadas neste filme de 2020. Esta versão é longa, com 180 minutos, dividida em 5 partes, mas ainda bem menor do que a versão de Fassbinder, com seus 14 capítulos e 15 horas de duração.

Mas a obra modernista de Alfred Döblin tinha desde sempre uma forma plástica, feita para apropriações. O próprio autor realizou a primeira adaptação, ao fazer uma leitura de sua obra por transmissão radiofônica. Em seu famoso ensaio sobre o romance de Döblin, Walter Benjamin nos mostra como em Berlin Alexanderplatz a narrativa épica reaparece nas ruínas do Romance burguês. É através da transposição da montagem cinematográfica para dentro do Romance, que o discurso romanesco é implodido e, na verdade, desmontado. Para Benjamin, Alfred Döblin tem mais sucesso do que James Joyce nessa tarefa de desconstrução da narrativa moderna. Há nesta leitura benjaminiana claramente a influência de Brecht: o retorno da narrativa épica através da montagem é a vitória da memória coletiva, possibilitada pela técnica das massas, contra a interioridade burguesa e individualista do Romance de Formação. O mundo fronteiriço pequeno-burguês de Franz Biberkopf é típico dos heróis brechtianos: proxenetas, mafiosos e prostitutas, figuras de um mundo em dissolução. O tema da impossibilidade da bondade num mundo pérfido é recorrente. A única maneira de ser bom num mundo ruim é fazer a revolução e transformar o mundo. Do contrário, a bondade não passa de máscara hipócrita.

A versão de Fassbinder recupera outra dimensão pela qual o texto de Benjamin passa batido: a saga de Biberkopf é outra versão da mitologia fáustica, mefistofélica, representada pelo antagonista Reinhold, cuja maldição assombra a cultura germânica. Fassbinder, que é o mais agudo crítico da Alemanha do pós-guerra, vê no pacto burguês após a catástrofe do Holocausto novos sinais desse pacto demoníaco. A transposição medial de Fassbinder é então realizada através de outra técnica. Ele recupera a dimensão folhetinesca do romance de Döblin e a traduz para o ambiente da televisão. A serialização televisiva dissolve o poder contrastante e implosivo da montagem cinematográfica. A dissolução da classe trabalhadora que permitiu o nazismo se torna então figurada pelo pacto pequeno-burguês que essa mesma classe derrotada faz com as forças do imperialismo americano para recuperar a autoestima da nação germânica sobre as cinzas de milhões de judeus assassinados.

Na versão de 2020 do afegão Burhan Qurbani outro giro acontece. Curiosamente, a serialização trazida por Fassbinder ganhou uma súbita contemporaneidade nas séries audiovisuais das plataformas de vídeo sob demanda. Mas Qurbani retoma novamente a força da montagem cinematográfica, das múltiplas perspectivas de ponto de vista, para recuperar a força política original. E, ao mesmo tempo, une essas perspectivas ao folhetim melodramático que marca a versão de Fassbinder. Ao trazer a situação dos imigrantes africanos para o centro da trama, esse movimento desloca politicamente a mitologia germânica. Mais ainda do que em Fassbinder, o pacto entre Francis (cujo nome remete ao atual Papa) e Reinhold é novamente mefistofélico. O filme ainda é serializado, mas a divisão em capítulos não distende a trama, mas a comprime e tensiona. A versão de Qurbani consegue ser mais “fiel” do que a de Fassbinder, no sentido em que toda a técnica da montagem cinematográfica, agora digitalizada, é manobrada na direção da guerra contra o mito. O Romance de Formação burguês se transforma no relato audiovisual da sobrevivência dos imigrantes internacionais, que são o verdadeiro “sangue germânico”, mais alemães do que os próprios alemães, como diz a certa altura um bem sucedido Francis aos seus companheiros africanos, negros como ele.

 

Cena de Berlin Alexanderplatz / Foto: divulgação

 

A versão 2020 assim restabelece a potência cinematográfica da montagem para não perder sua potência política. A mesma ameaça que pairava sobre os trabalhadores alemães da década de 20 do século passado retorna no medo contra o crescimento do movimento de extrema-direita na Europa, assustada com o “espectro do imigrante”, novo corpo do proletariado transnacional. Nesse aspecto, Reinhold assume um típico arquétipo do membro direitista, ressentido, pervertido, alimentador do desprezo pelo outro e, ao mesmo tempo, sequioso por recuperar o desejo de luxúria perdido pela impotência social do neoliberalismo econômico.

Por outro lado, algumas críticas feministas reclamaram da caracterização das personagens mulheres no filme, todas elas “prostitutas”, inclusive a angelical Mieze, que faz o contraponto a Reinhold. Mas é verdade que este mesmo submundo já estava desde sempre retratado na obra original. Walter Benjamin não perdeu isso de vista, ao observar que esta sociabilidade, de fundo pequeno-burguesa, era uma espécie de “fim de linha” à burguesia, e para o proletariado representava o elemento dissoluto de sua subordinação de classe. Este submundo de prostitutas e traficantes está amarrado à trama visual do novo filme entrelaçada, à maneira contemporânea, pela pulsação rítmica e ambientação vertiginosa que o atravessa.  O melodrama pequeno-burguês da obra original é reconfigurado pela pulsão desejante dos corpos marginais, sobretudo do corpo imigrante, negro e mutilado de Francis. Como sonhava Benjamin, há uma vibração ébria e emancipatória trepidando nessa atmosfera sonora e visual. É essa vibração que reverbera na semiose fascinante da nova versão. Ela marca o compasso na trajetória narrativa de Francis de sua Danação à sua Salvação. Quem sabe, nos anos que se seguem à crise pandêmica, haverá esse reencontro com nossos corpos perdidos ou esquecidos na vibração de outros desejos de mundo.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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141ª Leva - 01/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Kátia Borges

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A aerodinâmica dos pássaros

 

Parece inacreditável hoje, mas na infância participei de uma caça a passarinhos com estilingue. Fomos, eu e Silverinha, no sítio de um tio no Litoral Norte. Não recordo com exatidão todas as circunstâncias, mas lembro que caminhamos dentro da mata até bem longe de casa e que, após atingir as aves com as pedras que levava nos bolsos, ele espetava os corpos dos pássaros caídos no arame farpado.

Fiquei vendo Silverinha fazer aquilo e, confesso, o horror me tomou inteira. Decidi voltar sozinha para a sede do sítio, mas acabei perdida no caminho. Distraída desde sempre, andei uns poucos metros entre árvores que pareciam surgir pela primeira vez na minha frente. Era apenas o sítio de meu tio, onde tantas e tantas vezes brinquei com os primos, e não a floresta misteriosa de As Brumas de Avalon.

Sabia que os adultos da casa não sentiriam logo minha ausência. De vez em quando eu me aventurava no rio que ficava no terreno ou desaparecia por algumas horas, catando licuri para encher o tonel que ficava na varanda, isso quando não estava escalando árvores, para sentir de perto o cheiro das folhas, arrancar as frutas no galho ou simplesmente ter, do alto, a visão do verde das coisas.

Minha mãe bem que tentava acompanhar tanto movimento. Para colocar um freio em minhas aventuras no sítio, fez com que toda a família reforçasse as lendas de que havia um jacaré dentro do rio. O bicho ali representava o “homem do saco” das ruas de Salvador, sempre pronto a levar as crianças desobedientes para uma espécie de limbo.  Mal sabia que aquela história teria em mim um efeito contrário.

Localizar o jacaré do rio passou a ser a minha obsessão nas férias — aumentaram ainda mais, os meus sumiços no sítio. Só não sei até hoje como me meti nessa caça a passarinhos com Silverinha. Ele era bem mais velho e penso que me desafiou a mostrar coragem. Mas a verdade é que a coragem de matar as aves, eu simplesmente não possuía. Muito menos a habilidade necessária para armar a pedra no badogue.

Naquele dia, como se cumprisse um itinerário de tortura, engolindo a raiva e a vergonha, precisei esperar durante horas até que Silverinha ficasse cansado de acertar as aves com as pedras. E tudo aquilo pesou bastante nas decisões que tenho tomado desde então. Me refiro aos desafios aceitos só por orgulho. Aos amigos que pedem conselho, sempre falo sobre a queda que antecede o voo dos pássaros. Eu os observo da varanda do apartamento onde moro, no décimo-segundo andar de um prédio.

Gosto de tê-los perto por alguns segundos, como se não se incomodassem com a minha presença. É com certo prazer que me aproximo o quanto posso e deixo que sintam que nada desejo, nem mesmo capturar sua beleza. Nada nessa vida se compara à confiança de uma ave em sua queda. Um pássaro desconhece os princípios básicos da aerodinâmica.  Ele apenas confia em seu instinto.

Fico surpresa ao saber que cientistas ainda pesquisam de que modo os pássaros enfrentam as correntes de vento. Fico pasma com a perenidade de alguns mistérios. Como as aves dormem enquanto voam? Alemães estudaram uma espécie conhecida como Fragata de Galápagos e descobriram que ela plana quando adormece, usando apenas um dos hemisférios do cérebro. E até sonha (até sonha!) durante cinco minutos.

Cientistas, sempre eles, divulgaram uma pesquisa em 2017 sobre a adaptação das asas das aves às correntes de ar. Pretendem usar esse conhecimento nos cada vez mais detestáveis e invasivos drones. O mundo é um lugar horrível? Tá certo. Mas, ao mesmo tempo, ele é repleto de beleza. Na internet, por exemplo, alguém perguntou outro dia por que os pássaros não voam até a Lua em um site de buscas.

 

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Escreve crônicas no jornal Correio semanalmente desde 2018. A teoria da felicidade (Patuá, 2020) é o seu sétimo livro.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Cristiano Silva Rato

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Venha até mim

 

Como é ridículo falar amor
E, belo, falar dor.
Ah, duas palavras, rimam,
mas uma é água
e a outra é lama sufocando lentamente o rio.

Ah! Por que querem que eu fale sobre o ódio?
Quero dizer coisas ridículas,
que esta raiva passe
e gritar pelado, pelas avenidas, ruas e becos
Amor,
Amor, venha me salvar da selva,
venha salvar meu corpo caído
estancar o sangue que corre como lama
por este buraco de bala.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Sem resposta

 

Sei, estou fora do tom,
do dom
da porra toda.

Recomeçar é difícil
como uma cãibra
no meio da madrugada
enquanto se dorme.

Mas não movo
um dedo.
Observo
toda a velocidade
os amigos que saem,
as pessoas que se vão

Estou no centro
não sou ninguém.
Quem é você?
Me perguntam.
Eu sou uma selfie muda.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Para os fracos

 

Nesta época
não se pode fazer poemas de amor,
temos que ser fortes
e sentimentos não combinam com a luta.
Tempos de guerra,
tempo líquido, gasoso, sem piedade.
De venenos destilados,
jogados em passeatas.
Mas me recuso, tudo me afeta,
a falta, a presença,
os raios de sol,
os sorrisos que não tenho mais.
O amor é para os fracos,
para os pobres,
para os que perderam,
para quem nunca teve,
aqueles que não conseguem dizer uma palavra
sem lembrar da sensação de um beijo.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Dormente

 

Outra noite, e algo estava perdido,
minha consciência já não existia mais,
não era eu.
Você pode me odiar
me ridicularizar,
mas minha mente se foi,
eu não lembro.

Outro dia,
o álcool já não fazia mais efeito,
a cocaína já não era tão boa assim,
o thc já não me acalmava,
minha alma já não era minha,
eu não lembro,
minha mente se foi.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

… 1

 

Não me agradeça
repetidas vezes.
Não diga obrigado
quando eu lhe entregar as chaves.
Não diga obrigado
quando eu lhe der uma palavra.
Não diga nada,
não me olhe nos olhos.
Não ouço mais as revoadas de pássaros,
os latidos.
Eu não tenho mais que levantar,
não consigo mais.
Não me agradeça,
eu sinto um grito agudo,
uma canção de Dylan
e lágrimas,
acho que estou mole,
hoje em mim bate um silêncio,
não quero mais poesia e
palavras em
primeira
pessoa.

 

Cristiano Silva Rato é autor de “Todos que conheço são suicidas” (2019, Editora Caos & Letras) e “Sentido Suspenso!” (2012, Multifoco), tem diversos textos espalhados pela internet e em antologias. Documentarista, ajudou a criar e dirigiu o programa de websérie Literatura no Boteco. É Coordenador do Coletivo Terra Firme, responsável pelo selo editorial e agência multimídia Marginália Comunicação, locutor e produtor do programa Cemitério dos Vivos, na Matula Web Rádio, co-fundador e editor na Editora Caos & Letras. cristianorato@caoseletras.com

 

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141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 Amém e Axé: o diálogo que emana afeto

 Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira

 

 

Em agosto de 2014, oito traficantes cariocas foram presos por ataques a terreiro de candomblé, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Na investigação conduzida pelo delegado do caso, identificou-se que a ação foi coordenada pela Facção Terceiro Comando Puro, chefiada por um suposto pastor.

Parece um contrassenso falar de traficantes evangélicos, porém, o fundamentalismo religioso em ascensão no Brasil, com sua face mais exposta na Cidade do Rio de Janeiro — tendo em vista a entrada política de líderes religiosos neste cenário, desacredita toda e qualquer forma de espiritualidade diferente do cristianismo, além de produzir um discurso de ódio e de morte.

Nesse sentido, o livro  O amor como revolução, do pastor Henrique Vieira, é esperança em meio à brutalidade e um convite para o exercício permanente do amor nas nossas relações: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”.

Quem lê a “Oração da felicidade”, que funciona como o prólogo do livro, terá noção daquilo que vai encontrar ao longo da obra. À exceção do leitor dogmático e fundamentalista, o livro, por falar de diálogo e do poder renovador do amor, pode circular com tranquilidade por leitores de todos os credos, tanto que na capa temos relatos da Jornalista Flávia Oliveira, cuja fé é professada na Umbanda.

Pastor, escritor e militante de direitos humanos, Henrique Vieira conta que sua experiência com Deus ganha maiores contornos aos 16 anos, diante do desamparo da vida, condição que, segundo o autor, acomete a todos, independentemente de credo. “Nessa solidão há um drama existencial que atravessa todas as pessoas, uma comunhão universal na condição do desamparo”. É nessa busca pelo encontro consigo mesmo e pelo autoconhecimento que, em geral, os seres humanos procuram uma experiência transcendental que proporcione a superação do desamparo, sem deixar de perceber que também no sofrimento é possível evoluir como cidadão e como ser.

Diante do seu desamparo, a fé. Ao chegar ao oftalmologista para fazer um exame de vista, constatou que sofria de neurite óptica bilateral: “Voltei chorando para casa enquanto minha mão ligava para outros médicos pedindo orientação. Nos olhos da minha mãe, via minha dor sendo compartilhada; meu pai com semblante sempre sereno, me transmitia calma e confiança. Mais tarde, chegaram meus irmãos mais velhos, Ghilherme e Marcele, e todos juntos começamos a orar naquele quarto”.

O amor é definido como uma atitude revolucionária, que tem uma relação direta com a inconformidade, capaz de provocar comoção e reação diante de uma cena tão comum e naturalizada nas ruas cariocas, que é a da mendicância, e em muitos casos em ruas de áreas nobres e com grandes concentrações de templos evangélicos. Diante da sensibilidade do olhar afetuoso e do amor como prática diária, o autor afirma que ser cristão é se comover perante um mendigo, um detento, um jovem negro sendo sufocado, uma criança morta em uma favela ou por um assassinato motivado por orientação sexual: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”. Diante disso, pode a igreja se calar perante a morte de Marielle Franco? Ou da morte de Maria Eduarda dentro da Escola Municipal Daniel Piza, em Acari? É inaceitável que na Cidade do Rio de Janeiro lideranças religiosas dialoguem com um tipo de segurança pública forjada na lógica do extermínio, ignorando que Jesus foi preso sem culpa, torturado e morto pelo império romano, em uma sucessão de absurdos cometido pelo Estado.

Durante toda a obra, Henrique Vieira parece se vestir de palhaço para quebrar hierarquias e criar um ambiente de afeto e livre de preconceitos. O autor encaminha a narrativa para uma abertura espiritual que rejeita o dogmatismo e o fundamentalismo religioso, desconstruindo mentes machistas, apurando o olhar para entender que toda forma de amor é justa, aguçando a sensibilidade para nunca naturalizar desigualdades sociais e, fundamentalmente, apostando na convivência e respeito entre as religiões para desconstruir a noção de exclusividade de fé, que encoraja traficantes a agirem violentamente contra templos de religião de matriz africana: “Precisamos construir juntos um amém e um axé pela paz”.

Em tempos em que líderes disciplinam a experiência com Deus e criam uma agenda em que na segunda-feira Deus tem que dar uma bênção material; na quarta-feira uma cura e no domingo uma resposta para algum problema, crianças, expostas nas calçadas de caminhos de templos religiosos, seguem pedindo esmolas e desamparadas pelas famílias, pelo Estado e pela igreja. Da Sara Nossa Terra à Cara de Leão, seres humanos com cara de fome seguem ignorados nas suas individualidades e nas suas necessidades básicas, não respeitados em seus desejos sexuais, e quando são presos, torturados e mortos, agora pela máquina do ódio e pelo fundamentalismo religioso — não mais pelo império romano — a igreja silencia. E agora, Pai, que eles sabem o que fazem?

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Mônica Ribeiro

 

Desenho: Geometria da palavra

 

ÂNIMA

 

As coisas têm vida
se vida damos a elas

[quem me ensinou foi Patti Smith]

Mas eu já sabia
Só não tinha coragem
ainda
de falar com as coisas

E tinha menos coragem
ainda mais
ou ainda menos
de ouvir as respostas das coisas

Mas não

Coragem de ouvi-las
não tenho
ainda

Para tanto
é preciso saber
ouvir o dentro

As coisas não se ouvem de fora

 

 

 

 

***

 

 

 

 

PERNAS

 

As pernas da cabeça
bambas e trêmulas
não conseguiram
me fazer conseguir

Machucaram-se
as pernas da cabeça
Foi ataque dos pensamentos:
chutes, rasteiras, chaves de perna

As pernas da cabeça
agridem as pernas da cabeça
e permanecem firmes
torneadas
Nem um arranhão

As pernas da cabeça
agredidas pelas pernas da cabeça
doloridas, flácidas
não se levantam do chão

 

 

 

 

***

 

 

 

 

AMPULHETA

 

Não sei
quantos pontos
são necessários
para estancar
o sangue
de quem se corta
com cacos
de ampulheta

Não sei
quantas pinças
são necessárias
para tirar
do sangue
a areia do tempo
que escapou
da ampulheta quebrada

Não sei
quantos anos
sofridos
são necessários
para que a ampulheta
não se quebre

Há de se saber
que a ampulheta
é por si
torta
trincada
mal lacrada

Embora viva
morta

 

 

 

 

***

 

 

 

 

MEMÓRIA

 

Faz-me falta o que eu não tive
mas que sei muito bem
É coisa que retive
na não memória

É coisa do que não veio
do que não vem

Distraída disfarço
a falta
o cansaço

Retraída
eu perco
esta dança
e o compasso

 

 

 

 

***

 

 

 

 

TEMPESTADE DE AREIA

 

Dor não se mede
Dor desnorteia
Desagrega o ser
que agoniza
mesmo sem morrer

Dor é falta de ar
ventania que sufoca
hiperventilação arenosa
choro seco
de lágrimas secas

Dor é tempestade de areia
é falta de brisa
daquela que
em vez de ferir
alisa

 

 

 

 

***

 

 

 

 

FADO

 

Antes que fosse cedo
já se fez tarde
O tempo rompeu
a velocidade da luz
A vida escoou
aliada do tempo que é
A vida acabou
sobrou foi nada
Feneceu a vida que
como o tempo
é fadada

 

Mô Ribeiro, ou Mônica Ribeiro, é mineira de Belo Horizonte. Arquiteta de formação, descobriu-se poeta por insistência do inconsciente. Participou da antologia “É Urgente o Amor”, Edições Vieira da Silva, Portugal, e também da antologia “Ruínas”, da Editora Patuá. Foi publicada pelas revistas Caliban, Desvario, Germina, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mirada, Revista de Ouro, Revista Ser MulherArte e Ruído Manifesto, entre outras. Publicou, este ano, seu primeiro livro de poemas, PAGANÍSSIMA TRINDADE, pela Editora Penalux. Nasceu em 1971 e deu trabalho para vir à tona: o parto foi de fórceps. A escrita, ao contrário, vem nas contrações que dão à luz seus poemas. Partos rápidos, mas não sem dor, e depois o cuidado com a cria. Assim é sua escrita.