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142ª Leva - 02/2021 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Febre. Brasil. 2019.

 

 

Vencedor do Festival de Brasília de 2019, com vários prêmios em festivais internacionais, A Febre, filme de Maya Da-rin, infelizmente não pôde ser assistido nos cinemas brasileiros por causa da pandemia. Infelizmente porque ele é a prova de como uma obra de arte é capaz de premonição, de absorver imperceptíveis sinais de perigo e traduzi-los em imagens significantes. Filmado antes do período pandêmico e concebido há mais de uma década, o filme trabalha com a ideia de uma misteriosa febre que ocorre na cidade de Manaus. Essa febre ressoa no recente desastre sanitário do Coronavírus e a catástrofe das mortes sem atendimento na capital amazonense, bem como da variante da doença gerada na cidade.

O protagonista do filme é Justino (vivido pelo ator Regis Myrupu), de origem indígena da nação dos Tukanos, que trabalha como vigilante no cais das docas do grande porto de Manaus. Justino abandonou sua aldeia há muitos anos, é viúvo e tem uma filha, Vanessa (vivida por Rosa Peixoto), que é enfermeira e sonha em estudar medicina numa universidade pública. Vanessa passa no Enem para a UNB e está feliz com a possibilidade de estudar em Brasília. Deixará então sozinho seu pai com quem mantém forte relação de afeto. Logo após receber a notícia que sua filha passou no Enem, Justino passa a apresentar sintomas de uma misteriosa febre que não encontra diagnóstico. Paralelamente, a cidade de Manaus testemunha misteriosos ataques de supostas feras sobre porcos e outros animais domésticos. Alguns acreditam serem ataques de cães selvagens.

A proposta de ver além do que aparece está inscrita na própria concepção do filme. “O homem branco só consegue ver o que está diante dos seus olhos” é a ideia que faz mover o roteiro. O filme tem forte componente alegórico que contrasta com a descrição realista do cotidiano de Justino em suas idas e vindas de ônibus do trabalho. Mas a característica alegórica busca um efeito de tradução entre mundos incomensuráveis, não só aqueles entre brancos e indígenas. Logo na primeira cena do filme, Vanessa, filha de Justino, atende uma paciente indígena idosa num hospital público. A senhora lhe conta uma história em linguagem tukana que é incompreensível tanto para Vanessa como para os espectadores. Vanessa fala a língua geral tucana, mas essa nação tem muitos dialetos que são estranhos uns aos outros. Trata-se de uma nação de povos diferentes, enquanto os homens brancos veem apenas uma unidade étnica de “índios”.

 

Regis Myrupu no personagem de Justino / Foto: divulgação

 

Para traduzir as imagens entre mundos diferentes, a diretora Maya Da-rin se utiliza da força da fábula alegórica. Vemos Justino, também em fala tukana traduzida para a língua portuguesa em legendas, contando uma história para uma criança indígena. A fábula conta de um sonho em que um homem branco se perde na floresta e não consegue encontrar saída. Um casal de macacos então lhe aponta o caminho para o retorno à cidade. Como todo sonho, a história não fala apenas do progressivo desenraizamento de Justino, que na cidade grande vai perdendo o contato com o mundo da floresta. A narrativa também lhe vem como um presságio, como veremos adiante, e como o próprio “fio de Ariadne” que lhe permite se orientar nos labirintos formados pelas fronteiras. Como diria o doutor Freud, todo sonho é a realização de um desejo.

Na montagem de A Febre são figuradas várias fronteiras: a fronteira entre brancos e índios, a fronteira entre línguas, entre cidade e floresta, entre sonho e vigília, entre narrativa oral e linguagem cinematográfica digital. É, por assim dizer, um filme fronteiriço, e uma de suas principais virtudes é permanecer na habitação dessas bordas, simuladas ao enquadramento da câmara. Uma dessas fronteiras figuradas é a do vestiário do cais do porto, onde Justino tira o uniforme e troca de posto com um colega. Este é um segurança branco que chegou de Rondônia e tem enorme preconceito de índios. Debocha de Justino chamando-o de “índio amansado” e diz que já enfrentou e matou muitos “índios de verdade” em seu trabalho anterior. No vestiário, encena-se então as divisões entre o branco racista e o índio oprimido, entre o dia e a noite, entre o trabalho e a folga e entre a lei e a criminalidade. O trabalho de Justino não lhe exige muito. Ele se mantém em vigilância como um “caçador sem caça”, como ele mesmo diz. Mas muitas vezes, com a falta do que fazer, Justino cai no sono e então sonha, configurando então mais outra fronteira entre a vigília e o sono e entre a alienação do trabalho e a polissemia oracular do sonho.

E nas várias cenas de retorno de Justino do seu trabalho, num ônibus lotado, descobrimos que ele mora na fronteira da fronteira de Manaus. Para chegar em sua casa ele atravessa uma pequena mata a partir da estrada, traçando a mais importante de todas as divisas figuradas pelo filme: aquela entre a cidade e a floresta. Sua casa, que tem um quintal bucólico onde Justino pode ficar “à vontade” sem camisa, se localiza justamente entre o meio urbano e o meio rural. A floresta é o “outro lugar” que se estende além da vista e onde o homem branco se perde por não conseguir enxergar através de sua intrincada complexidade.

 

A Febre / Foto: divulgação

 

No roteiro, dois eventos cruzam essa fronteira nebulosa. Um deles é a visita do irmão de Justino e de sua companheira. Eles permaneceram na comunidade indígena e se mantêm ligados às suas tradições. Há um mal-estar familiar de que Justino deixou para trás sua comunidade para viver no mundo dos brancos. Eles trazem uma visão estrangeira (para o filme e para a cidade) que é crítica, mas também compreensiva: seu irmão percebe com agudeza o dilema de Justino entre a felicidade por sua filha passar no Enem e a melancolia pela solidão que o espera. O segundo evento se refere aos misteriosos ataques de feras a animais domésticos. Essas feras são animais da cidade como cães ou animais selvagens da floresta? Essa fantasmagoria atravessa a fronteira entre o realismo da narrativa cinematográfica e o imaginário onírico da fábula.

No final das contas, é a capacidade de olhar para além dessas fronteiras que decidirá o dilema de Justino. Essa capacidade exige a sabedoria de reconhecer e decifrar as mensagens desconhecidas que vêm do outro lado. Entre os mundos incomensuráveis não há apenas uma linha, mas uma faixa ou zona de passagem. Interpretar nas entrelinhas significa a capacidade de entender a linguagem do outro ao deixar suas marcas exatamente nessa zona de passagem.  A febre é assim a metáfora maior das várias linhas divisórias que o filme apresenta e que se bifurcam: ela abre o espaço emaranhado de coexistência entre a sentinela e o sono e entre o imaginário e a corporeidade. A febre é o sinal de alarme que oscila entre a doença e a saúde.  Se é verdade que a palavra “filme” se referia originariamente à pele de animal, a película de A Febre expressa a pele de um corpo febril, o da obra. Na cena em que Justino atravessa o sinuoso rio de igarapés, raízes e cipós e desembarca na outra (terceira?) margem, a câmera se mantém na pequena canoa enquanto o personagem se distancia pela floresta. A grande virtude do filme de Maya Da-rin é sua decisão por habitar e permanecer nessa zona febril, o que faz de seu enredo um tecido entrelaçado de ideias e imagens, uma floresta impregnada de sinais, premonições e augúrios.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Marize Castro

 

Foto: Joice Kreiss

 

[…]

 

 

De aço e seixos são meus lábios.
Misturo-os com os lábios do homem-mulher
e da mulher-homem

Giramos na mesma rotação até rompermos
o que de mais precioso possuímos

Então a miséria nos suspende
O amor se espalha em nosso sangue
e segreda: não se imobilizem

Daí a luz entra e já somos outros:
subterrâneos para os subterrâneos
translúcidos para a ternura

A coragem se mostra entre plátanos e feras
(na estranheza a bondade ancora)

 

 

[…]

 

 

A verdade é mesmo só um grão nunca visto?

 

 

[…]

 

 

Sonhei com o céu azul em meu ombro
e nele o meu rei estava
Suas árvores e seus segredos agora são meus

Tudo dele irradia e sobrevive em mim

Aonde ele foi?
Aonde irei?

Nenhum e todo lugar te espera
diz o meu coração enquanto se entrega
ao enigma mais distante

 

 

[…]

 

 

À luz de spots pavões esperam, o desejo lateja
Seivas de dríades deslocam-se

Na ilha de Circe, redefino-me

Em páginas secretas escrevo o que me golpeia:
terra e céu clareiam quando me esqueço
terra e céu agonizam quando te esqueço

Ouço os olhos do silêncio:
aquela mulher te ama porque te quer míssil
aquele homem te ama porque te quer pântano

Mãos imperfeitas libertam sépalas
Mulheres mancas e macias espraiam-se em areias remotas
Elas sabem: nada terá tido lugar senão o lugar

Em amor, território primeiro e último, vigio a morte
Ergo-me queimada entre campânulas
e restos de êxtase trazem-me de volta
(aprendi a deixar nascer as coisas)

 

 

[…]

 

 

Depois procurar o céu e exigir uma saída
para este país de sol e morte

Eis que com a tempestade a delicadeza surge
e guarda em cântaros de aço palavras como
pélago, guirlanda, alabastro

À noite lembro que a poeta Liu Xia
continua presa e seu homem amado está morto
lembro que Marielle está morta
e permanece sendo assassinada
– nove balas não são suficientes –

Monstros nos gabinetes ordenam:
destruam o êxtase e a verdade
São eles os inimigos, gritam os atrozes

 

 

[…]

 

 

À margem e sempre abismada, pergunto:
quem ouve e beija minha alma neste tempo
de enorme gravidade?
o garoto que no trânsito se banha em cristais?
a amiga que no alto da colina sorri, estratosférica?
o menino despido na casa que alcança o céu?
a  outra miga que se afoga no mar?
o rapaz trans que me oferta o sexo?

Busco a lanterna mágica de Tsvetáieva
Aquela que amou loucamente as palavras
seu aspecto
seu som
sua inconstância
sua imutabilidade

Sim e sim: amar com o mesmo amor
– nossa bênção e nosso anátema –

(tudo suave e ácido, cintilação e sombra)

Em mútuo desamparo, amantes sussurram:
…………………………………………Tânatos é puro

Um claustro se abre
e línguas de argila e ardor são arremessadas
na superfície do mundo

Seu coração em minha boca, minha boca em seu coração:
sorvo e ascendo

 

Marize Castro (Natal-RN, 1962) é autora dos livros de poemas Marrons Crepons Marfins (1984); Rito (1993); poço. festim. mosaico (1996); Esperado ouro (2005); Lábios-espelhos (2009); Habitar teu nome (2011) e A mesma fome (2016). É graduada em Jornalismo, tem mestrado em Educação e doutorado em Estudos da Linguagem. Editou nos anos 1980 o jornal O Galo e, nos anos 1990, a revista Odisseia. Edita seus livros por sua própria editora, a Una, que define como deliciosa e desamparada viagem.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Borgón

 

Foto: Joice Kreiss
Foto: Joice Kreiss

 

UM PESADELO ENTRE OS DENTES

 

Flanar distraidamente é um tesouro. Perder-se em pensamentos. Absorto. O corpo em piloto automático. E ao voltar à tona, encontrar-se no rumo certo. Sem desvios enganosos. Mas desta vez, não. Devo ter exagerado nos devaneios. O caminho era desconhecido. Tudo me parecia estranho, remoto. Estradinha de cascalho. Lembrança distante. Não tenho certeza. Pode ser o cheiro de barro molhado. Cinzeiros de argila na escolinha. Meu pai os recebia com sorriso medido. Talvez antevendo o enfisema que lhe consumiria os pulmões. O cansaço sobrepesava minhas pernas. Não escutava nada. Nenhum rumor de humanidade. Só minhas próprias pisadas naquele chão pedregoso e escorregadio. Sequer lembrava de onde parti. O sapato deve ter sido emprestado a mim. Me escapava o calcanhar a cada passada. E estava sem meias, coisa incomum. Depois de quase uma hora andando por aquela trilha rudimentar, avistei uma luz acesa. Era um bar, vazio. Um homem de idade avançada cochilava atrás do balcão. A TV ligada mostrava o padrão em cores. Há tempos eu não via aquilo. Os canais costumam varar a madrugada exibindo programas religiosos. Pastores negociando terrenos no céu. Ou prosperidade ainda na terra. Pagamento adiantado, irmão. Glória a Deus.

Dei umas batidinhas no balcão, como fazemos à porta. O velho acordou e me olhou com espanto. Corri a mão nos bolsos, mas não os achei. Usava uma calça sem bolsos. Ele se levantou, e perguntou se eu estava com sede. Respondi que sim, mas não tinha dinheiro. Eu não queria entrar em detalhes e explicar que não sabia o que fazia ali. E além de perdido, ainda estava sem nenhum documento. Ele me serviu uma água mineral em garrafa de vidro. Olhava desconfiado, me examinando de cima a baixo.  Isso me deixou um pouco tenso. Bebi a água lentamente, aos tragos. Num giro de pescoço, corri os olhos pelo ambiente. Examinei as paredes a fim de encontrar algum indício que pudesse me localizar no mapa. Deparei com um telefone público, vermelho. Daqueles que utilizavam fichas.

“Ainda funciona?”

“Claro. Quer ligar para alguém?”

Respondi de modo afirmativo, meneando a cabeça. Temia que ele me perguntasse se eu estava perdido. Certamente eu exibia um semblante extraviado. Uma cara de quem não estava ali. Como se minha alma e meu corpo tivessem se desencontrado. E foi exatamente o que ele quis saber. Meio ressabiado, achei melhor negar. Inventei que estava numa festa. Aborrecido com a bebedeira geral, resolvi cair fora antes do fim. Precisava apenas entrar em contato com alguém que pudesse me buscar, ou chamar um táxi.

“Era uma festa à fantasia?”

Esbocei um sorriso. Julguei que fosse uma piada. Ele olhava detidamente para minhas vestes. Eu não havia me tocado. Estava usando uma espécie de farda. Cinza, semelhante a do pessoal de “serviços gerais”. Uma sigla bordada na camisa, SSP. Uma mentira nunca vem sozinha. Sempre precisa de outras para sustentá-la. E no arrepio daquele clima inamistoso, forjar uma farsa plausível não era tarefa das mais fáceis. Peguei a primeira roupa que vi pela frente, falei. Dito assim, mais parecia egresso de um grande bacanal. Arrumei uma piscina, churrasco e todo mundo em trajes de banho.  O cenário estava devidamente montado. Era só evitar os detalhes. É neles que a gente tropeça.

Ele desligou a TV e ligou o rádio numa estação AM. Pediu para que eu ficasse à vontade. Iria lá dentro e já voltava. Sua voz gutural ecoava por trás dos engradados de Crush. Conversava com alguém que, ao contrário dele, não se podia ouvir a voz. Tentei escutar a conversa, mas o rádio atrapalhava. O locutor esbravejava contra o comunismo, subversivos, terroristas. De fundo, o hino nacional. Ele voltou, expressão ainda carregada. Disse que não passava táxi àquela hora.

“Eu aceito aquela ficha que o senhor me ofereceu.”

Eu não conseguia completar a chamada. Tornei a perguntar se aquele aparelho funcionava. Até o início da noite haviam feito várias ligações nele, me respondeu. Após dezenas de tentativas, eu desisti. Meu dedo estava doendo de tanto de discar. Agradeci e deixei a ficha sobre o balcão. Ele continuava a me fitar de modo inquisidor. Eu mal conseguia disfarçar o incômodo que aquela situação estava me causando. O céu estava apagado. Nenhuma estrela ousava cintilar. O tempo se arrastava. Há quem acredite que universo conspira a seu favor. Ou a seu revés. A segunda opção parecia se anunciar. Tudo estava harmoniosamente combinado contra mim. “Fique atento aos sinais” – me disse minha mãe, poucos dias antes de atear fogo ao próprio corpo.

“Tem certeza que discava o número certo? Parecia ter número demais…”

“Tenho sim. O senhor não teria um celular para me emprestar?”

Ele apertou os olhos, como se não tivesse entendido o que eu havia perguntado. Um telefone celular, o senhor não tem? Voltei a dizer, frisando bem cada palavra. Continuou me encarando, cenho franzido. Olhou para o relógio e, de forma um pouco áspera, respondeu peremptoriamente: “não”.

Eu cogitei sair dali. Continuar andando, ver se encontrava alguma rodovia, pista, canal, o diabo que fosse. O embaraço das mentiras me corroía. Não conseguia mais encará-lo. De repente, um barulho de motor. O dono do bar saiu de trás do balcão. Ficou perto de mim, em posição ostensiva. Apesar de bastante nervoso, me recostei no balcão. Queria aparentar tranquilidade. Tomei mais um gole de água. Quem sabe, alguém que pudesse me dar uma carona.

Dois policiais entraram. Sem falar nada, vieram em minha direção. Coloquei as mãos na cabeça e perguntei o que estava acontecendo. Me mandaram virar de costas. Fui revistado. Em seguida, me algemaram braços e pernas. Conduzido ao camburão, percebi que era inútil fazer qualquer questionamento. Nem eu mesmo sabia o que fazia naquele lugar, àquela hora. Ir a uma delegacia não era mau negócio. Assim eu saberia onde me encontrava. Poderia ligar para um conhecido, me identificar. Estaria tudo resolvido. Do fundo da Veraneio, ouvi o dono do bar falando com os policiais:

“É do São Pedro, com certeza. Procurei saber se era funcionário, mas ele inventou um monte de coisa. Falou que tinha saído de uma festa numa piscina, ligou para um número inexistente e perguntou se eu tinha telefone celular.”

“Telefone o quê?” – indagou um dos guardas.

“Telefone celular”.

Caíram na gargalhada. Um dos policiais disse que não haviam recebido nenhum telefonema de “lá”. Mas tudo indicava que era mesmo um “fugido” do São Pedro.

Sim, a sigla bordada na minha camisa. SSP. Era óbvia a constatação: as duas últimas letras significavam São Pedro. Mas, e o primeiro “S”? O que significava aquele primeiro “S”? O carro arrancou em alta. Comecei conjecturar as possibilidades. Salão? Sindicato? Simpósio? Seminário? Com assombro, a incógnita se desvelou. Um portão imponente se abriu. Acima dele, a inscrição em ferro trabalhado formando um arco. Entrei em pânico só de pensar. Injeções, choques, camisa-de-força. Huxley falou em abrir as portas da percepção. Eu tive a percepção das portas abertas. Deram um enorme vacilo. Certas oportunidades não cruzam duas vezes o nosso caminho. Haviam me tirado as algemas. Deixaram o fundo do camburão aberto. O portão, escancarado. A liberdade gritou meu nome. Saí em disparada. Pela frente, um blecaute absoluto. Nem sei se havia algum caminho pronto. O breu não oferece alternativas, é a ausência delas. Correr de olhos fechados era mais seguro. Eu podia vislumbrar o trajeto. Dar lume à fantasia é a melhor forma de evitar as armadilhas da escuridão.

Não sei dizer por quanto tempo corri. Só parei quando estava esgotado. No limite das minhas forças. Ao abrir os olhos, uma estradinha de cascalho. Cheiro de barro molhado. Aula de artes no primário, trabalhos em argila. Meu pai carcomido pelo vício. Tudo me era incrivelmente familiar. Aquela claridade lá adiante. Uma espelunca metida a vintage, bar 24 horas. Atrás do balcão vou encontrar um velhote de cara amarrada, tenho certeza. Enfim, posso respirar aliviado. Achei o caminho de casa.

 

Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais, sites especializados em literatura, e coletâneas de contos. É autor da novela juvenil O Pênalti Perdido (P55 edições, 2016).

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Olhares

Olhares

No corpo do mundo

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Joice Kreiss

 

Dizer das coisas em imagens: eis uma definição possível para o ofício de um fotógrafo. Representar um universo de seres, objetos e lugares, tendo a luz como norte da criação. Ter a fotografia como o flagrante da vida que se manifesta em cada desavisado instante, propondo a quem contempla o resultado dos registros um mergulho também sobre o indizível.

Talvez o maior desafio para quem se proponha a captar a luz de um tudo seja o de apresentar recortes que mobilizem em nós algo de diferente. E aqui explico melhor para considerar que tal manifestação artística, quando foge da gratuidade e do óbvio, parece repercutir nos apreciadores o gesto da surpresa e de algum arrebatamento. Já que o mundo tem nos oferecido uma enxurrada de possibilidades imagéticas, podemos arriscar que os artistas que costumam sair do lugar comum produzem mais impacto com suas obras, pois se recusam a ter suas expressões diluídas no marasmo uniformizante dos excessos.

 

Foto: Joice Kreiss

 

O que chamo neste texto de corpo do mundo é, na verdade, todo um conjunto de possibilidades a alvejar sentimentos e percepções em torno de pessoas, gestos, coisas, lugares e fenômenos da natureza. E é nestas frentes vastas de observação que se espraia o trabalho de Joice Kreiss, artista sobre a qual ouso me debruçar agora e que evidencia em sua criação o ímpeto poético das representações.

Joice é fotógrafa de temática abrangente, pois perpassa o humano e também tudo o que o constitui interna e externamente. É, como ela mesma nos diz, alguém que tenta contar histórias através de suas lentes. No percurso narrativo proposto pela artista, temos uma profusão de movimentos ligados ao corpo humano, sinais que emanam de formas e gestos, de um ser e estar captado em meio ao turbilhão da rotina.

 

Foto: Joice Kreiss

 

Há também a Joice que vislumbra poesia e encantamento em diferentes paisagens do mundo, sejam elas urbanas ou marcadas por uma noção de bucolismo. Nesse seu trajeto, a fotógrafa parece eleger o silêncio dos lugares como algo que transborda para além das imagens captadas. Nos domínios da abstração, o olhar sobre a fisicalidade das coisas ganha contornos de reflexão sobre aquilo que parecemos enxergar como concreto, mas que nos é devolvido sob a forma do algo intangível.

Vivendo em Montenegro, no Rio Grande do Sul, Joice Kreiss sempre foi marcada pela fotografia e tem colecionado em sua trajetória participações em exposições, bem como premiações por alguns de seus trabalhos. A artista confessa que, nos últimos três anos, o estudo da fotografia se tornou algo mais consolidado em sua vida.

E assim temos a fotografia que enaltece variadas apreensões da luz. Há a luz que baila através dos corpos, outra que atravessa recantos de cidades. Vem à tona a luz que comunica o alvorecer dos dias e o fluxo das águas naturais. Também nos é permitido vislumbrar a luz que contempla as palavras esquecidas num canto qualquer da vida. Cada um destes fragmentos é instrumento da poesia de Joice Kreiss.

 

Foto: Joice Kreiss

 

* As fotografias de Joice Kreiss são parte integrante da galeria e dos textos da 142ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wilton Cardoso

 

Foto: Joice Kreiss

 

Rio do esquecimento

 

a vida escorre pelo ralo dos relógios
no inferno de cimento e piche
gases e automóveis

os sonhos derretem no asfalto
o alto dos edifícios é um abismo
no fundo: rio do esquecimento
em brancas nuvens

cocô de cachorro pedaços de
copos plásticos folhas secas
rolando sobre a grama seca
no ar quente e seco de setembro
canteiro
no meio da avenida
o sol martela a pele manchada
a imundície dos cabelos
a cara-cadáver noias
putas mendigos (de)ambulantes
viajam as vias (s)em volta
da rodoviária

 

 

 

***

 

 

 

Haicais crepusculares

 

folhas secas
bailam no asfalto
ao ritmo do vento

ruído
fiel companheiro
por horas a fio

é tarde
só poentes
brotam no horizonte

 

 

 

***

 

 

 

Paisagem muda
Rua 57, C 137

 

O lote limpo dos detritos:
retângulo de concreto
entre três muros
e a calçada.

Quem quer se lembrar
da dor que irradia
da cápsula ao corpo,
do corpo à alma?

Do muro dos fundos
um grafite grita
a dor soterrada
no concreto do lote.

Um grafite grafa
as letras de Leide
que não vai mais andar
em nossa cidade.

Só um grafite
(arte de negros)
corta o silêncio
de concreto do lote

e desenterra a dor
(grito invisível)
dos que não têm voz.

 

 

 

***

 

 

 

A alma podre do poeta

 

Do lado de dentro da máscara
burocrata, um solo putrefato
gesta uma flor feia e ex-
uberante, um poeta etílico
de rosto lúcido, límpido,
barbeado e banho tomado.

Do lado de dentro uma flor
suja, um olor fétido, enraizado
na face sombria da alma e, mais
ao fundo, se afunda no lodo
podre da cidade, alma de asfalto
e cimento, vidro e plástico, corpo
atravessado de horários e cifrões.

Do lado de dentro da fantasia feliz que desfila
no carnaval do dia a dia (de patrões
e labuta, dos negócios, do gozo
cinza e furioso do consumo) se dis-
semina a onda bacante, a erva
daninha, praga sem serventia,
a poesia.

 

 

 

***

 

 

 

A noite que vem

 

A noite tem a cor do medo e do ódio
A noite cheira à tristeza e vingança
A noite com sangue nos olhos
é mais escura que o breu
O coração das trevas da noite
exala um hálito verde-oliva
A noite e seus campos ressequidos
na terra que definha
A noite e seu rebanho de bestas-feras
A noite dos chicotes
tangendo o rebanho ao abismo
A noite dos pastores ensandecidos
À noite
o pastoreio da morte

 

 

 

***

 

 

 

Alguma coisa

 

Alguém
presta atenção às folhas
na praça dançando ao vento, ao vento
que entra pela janela e acaricia
os poros, na memória lenta dos mortos,
no emaranhado de fios sobre a avenida,
no vai e vem sem sentido das formigas
humanas, às ruas do dia cheias
de carros, nas ruas vazias
da noite, à noite de luzes
e gatos da cidade, ao mendigo
que dorme na calçada, à letra
da música, em alguma
poesia?

Alguém consegue………..prestar atenção
……………………………….em alguma coisa?

 

Wilton Cardoso nasceu em 1971 em Morrinhos-GO. Formou-se em Jornalismo e cursou pós-graduação em Estudos Literários pela UFG. Trabalhou como programador de computadores e professor de língua portuguesa e literatura. Atualmente é servidor público do Estado de Goiás e mora em Goiânia. Além de poemas, escreve ensaios e mantém o blog pessoal O engenheiro onírico, onde disponibiliza as suas obras sob licença copyleft.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Galeria

Foto: Joice Kreiss

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Foto: Joice Kreiss