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	<title>144ª Leva &#8211; 04/2021 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<title>144ª Leva &#8211; 04/2021 &#8211; Diversos Afins</title>
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		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 May 2021 17:25:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 144ª Leva.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/LuBrito_Diversos_e_Afins_23.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/LuBrito_Diversos_e_Afins_23.jpg" alt="" class="wp-image-18932" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/LuBrito_Diversos_e_Afins_23.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/LuBrito_Diversos_e_Afins_23-300x200.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Lu Brito</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O melhor lugar do mundo é aqui e agora”, canta nosso célebre Gilberto Gil em uma de suas mais reflexivas e tocantes composições. Posto assim de imediato, esse trecho da canção acentua o presente como sendo o instante mais precioso de todos, aquele sobre o qual temos a consciência do que estamos vivendo. Daí que está conosco a tarefa de prestar atenção no hoje, nesse agora que acontece e merece nosso cuidado para que se torne o mais pleno possível. E tanto nos convém olhar para tudo daquilo que se coloca ao nosso redor e no exato momento em que pensamos e agimos. No estar presente, interagimos com o Outro e com ele estabelecemos uma ponte de comunicação que também nos auxilia na compreensão do mundo. Diante de nossos sentidos, passam tantas imagens e a todo tempo somos convocados a contribuir com uma parcela de reflexões e ações sobre as coisas. Estar no mundo é, pois, escolher entre ser parte e atuar ou portar-se como um mero observador dos fenômenos que se nos apresentam. Por óbvio, há consequências naturais para qualquer que seja o caminho eleito. Nesse sentido, ter a ciência e a possibilidade de mover as alternativas parece ser a via mais pertinente para os que não temem os mais variados e desafiadores cenários da existência. E o que dizer do quanto aprendemos com todos aqueles que cruzam a nossa jornada? Por certo, o saldo é imensurável, ainda mais se tratando das perspectivas engendradas pela arte. Em nossa edição atual, por exemplo, há um banquete de palavras e imagens encerradas nas contribuições dos que se permitiram trilhar as estradas da revista. É gente como <strong>Fernanda Paz</strong>, <strong>Dheyne de Souza</strong> e <strong>Wellington Amâncio da Silva</strong>, que com suas narrativas em prosa provocam nossas mais aguçadas visões. No norte da poesia, nos alimentamos dos versos de <strong>Milena Moura</strong>, <strong>Carla Diacov</strong>, <strong>Rafael Nolli</strong>, <strong>Anna Apolinário</strong> e <strong>Rafael de Oliveira Fernandes</strong>. É <strong>Sidney Rocha </strong>quem nos apresenta o instigante “Todo suicídio é um homicídio”, novo livro do poeta <strong>Lupeu Lacerda</strong>. Conduzida por <strong>Elis Matos</strong>, temos a entrevista com a escritora e atriz <strong>Tereza Sá</strong>, potente voz da literatura e da arte baiana. Pelas mãos de <strong>Guilherme Preger</strong>, estão atentas análises sobre o denso filme chinês “Dead Pigs”. Com sua pesquisa musical apurada, <strong>Larissa Mendes </strong>nos brinda com uma resenha sobre “Você Não Sabe de Nada”, disco de estreia da banda <strong>O Grilo</strong>. Por sua vez, <strong>Vinicius de Oliveira </strong>aborda percursos possíveis em torno de “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, importante obra da escritora <strong>Bell Hooks</strong>. Por todos os recantos de nossa nova investida editorial, temos a companhia especial das fotografias de <strong>Lu Brito</strong>, cujo olhar atravessa sentidos especiais dispersos em corpos, espaços e cores. Bons mergulhos em nossa 144ª Leva!</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-72/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 May 2021 17:22:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Dheyne de Souza]]></category>
		<category><![CDATA[Doroteia]]></category>
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		<category><![CDATA[silêncio]]></category>
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					<description><![CDATA[A face silenciosa do encontro no conto de Dheyne de Souza

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Dheyne de Souza</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/LuBrito_Diversos_e_Afins_81.jpg"><img decoding="async" width="281" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/LuBrito_Diversos_e_Afins_81.jpg" alt="" class="wp-image-18911" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/LuBrito_Diversos_e_Afins_81.jpg 281w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/LuBrito_Diversos_e_Afins_81-169x300.jpg 169w" sizes="(max-width: 281px) 100vw, 281px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Lu Brito</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Doroteia</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vi Doroteia uma única vez. Assustei-a parece que para sempre. Mas desde então, e isso já faz três dias, ela vem me perseguindo a lembrança a ponto de conhecê-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gritei quando a vi. Na verdade, antes de vê-la. Apavoramo-nos ambas. Eu de ver um vulto estrangeiro cair atrás de mim no momento em que movimento a porta e acendo a luz. Ela de perceber meu semblante aterrado movimentando a porta no mesmo instante de acender a luz. Corremos para cantos opostos. Acalmamo-nos, aparentemente. Fui eu quem deu o primeiro passo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sabia ainda o seu nome, Doroteia. Dei três passos e pude contemplar seu silêncio indescritível. Era tão fiel sua ausência completa de movimento que era mesmo possível acreditar que não estava ali, o que era justamente o que ela queria; era mais que perceptível, sensível. Cometi nossa espécie mais chula de pecado e fingi que cri.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sei exato. É possível que tenha me dito seu nome, agora pensando bem, naquele tempo ali. Alguns minutos fiquei decorando a recorrência de padrões em sua pele. Fecho os olhos e posso rever sua textura. Jamais descrevê-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Busquei metáforas, perdi. Acredito agora também que não emiti som, também não acho que me lembre mais ultimamente o que é isso de a voz ter função externa. Sei que tentei falar-lhe. Provavelmente – agora é que isto me ocorre –, falei na altura com que me falo todo dia bom dia, com que rego as plantas, bebo o café, vejo o noticiário, abro a janela e volto à cama. Telepatia, acho que é essa a palavra que dizem. Diziam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Joguei fora uns passos na cozinha. Passei os dedos na mesa da sala. Pensei em lavar a cortina. Gastei uns segundos ou mais avaliando o gelo do congelador. Tirei duas batatas e carne moída, que tenho deixado assim os ingredientes soltos na pia a ver se me dizem como preferem renascer. Conferi a chave na porta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltei ao meio da sala. Olhei para a porta onde Doroteia e eu nos esbarramos há pouco. Foi nessa ocasião, agora é que me recordo, que elegi Doroteia como seu nome e acatei a ideia até então sorrateira de tê-la como nos filmes, nos livros ou nalguma anedota antiga de vizinho, não tenho tido propensão a exatificar as memórias, enfim, de tê-la como amiga. Comentar novelas. Reclamar dos preços. Bodejar à toa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dei mais dois passos em direção a ela, Doroteia. Estanquei avaliando a utilidade que seria. Nós duas feitas fraternas. Ela aparecer de repente, agarrada nas paredes. Fazer a pose de morta. Riríamos da primeira vez à porta. Você me desculpe é que não sabia. Eu que não sabia. Hahaha, hihihi. E aquela velha história de. Como é que se diz o nome? Conviva, conveva, convisser. Enfim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se bem me lembro, ainda a vi uma vez. Não, não foi. Senão começaria mentindo. Sei que, mesmo deixando a porta aberta, a luz acesa, o grito calado, quando voltei, Doroteia não estava mais em lugar algum. Olhei atrás, dentro e debaixo de todos os móveis. Encontrei, inclusive, uma meia que havia abandonado seu par. Nem parecia infeliz. Nem eu me havia dado conta. De qualquer modo, levei a meia para a máquina de lavar. Não quis ligar, menos pela energia que já aumentou vinte por cento mesmo com toda essa loucura acontecendo lá fora, mais porque ainda não sabia se Doroteia gostava de barulho alto. Ainda mais a essas horas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não. Agora eu tenho certeza porque, como já disse antes, embora ninguém confie em nada ou nada seja digno de, eu comecei a conhecê-la melhor. Doroteia. Fiquei um tempo escorada na máquina de lavar. Deixei a luz apagada. Ela também prefere assim. Nós combinamos tão bem. É uma pena que tenha durado tão pouco. Ou não. Ainda não sei. Pode ser que ela esteja ainda em algum lugar, espreitando-me, conhecendo-me. Não posso recriminar sua apreensão. E eu gritei deveras alto. Doroteia não disse nada. Um silêncio dos mais elegantes. Mesmo quando eu a devorava com esses olhos desumanos, nunca perdeu a compostura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhando aqui essa sombra que cai na área de serviço. Quando percebo, já estou imaginando Doroteia morando ali, uma cama perto do tanque, meio embaixo. Logo em seguida, peço milhões de perdões. Embora saiba que ela de modo algum vai desculpar esse desvio de conduta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Digo então, e de novo creio que em mente, que Doroteia fique à vontade para dormir, deitar, enfim, ter casa onde quiser apear. Só não parta. Não me abandone. Não vá pras ruas, é perigoso. Olho as janelas. Chego a me mover para fechá-las, para que Doroteia não se exponha. Abandono o ímpeto no ar. Não sei se precisa voltar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doroteia, quando digo esse nome, sai com uma pá de saudade e outra pitada de dor. O frio chega de madrugada. Sento-me na beirada do sofá. Olho o vulto das nuvens atrás dos prédios. Penso em cortar as unhas. Depois ouvir um vinil. Doroteia adora Bach. Ergo-me numa efusão acelerante. Qual sua uva preferida, senão shiraz. Peço escusas, Doroteia, hoje não tenho espumante. Brindemos a isso que a vida nos proporciona cruamente. O tempo. Sim. Essa migalha de pão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já faz tanto que não faço uma massa. Podemos tentar. Doroteia escolhe nhoque. Será uma pena sem sálvia. Quem sabe no mês que vem, quando formos ao supermercado. Escolhemos um dia de sol. Um horário mais pela tarde. Conferimos o movimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De repente, dou um pulo. Eu me assusto. Corro pra máquina de costura, sopro a poeira, escolho o retalho mais caro, procuro a linha azul da prússia. Vou lhe fazer uma máscara, Doroteia, belíssima. Você nem vai acreditar. Não sei se sabe o que está havendo. Senta, escuta, vou lhe contar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://dheyne.wordpress.com"><strong><em>Dheyne de Souza</em></strong></a><em> é goiana. Vive atualmente em São Paulo (SP). É doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Recém-publicou “lâminas” (poemas, pela Martelo Casa Editorial, 2020). Seu primeiro livro foi “pequenos mundos caóticos” (poemas, PUC/Kelps, 2011). Mantém ainda um <a href="http://dheyne.wordpress.com"><strong>blog</strong></a> e um canal de leitura de poemas chamado <a href="http://youtube.com/pequenosmundospoeticos"><strong>Pequenos Mundos</strong></a>. É membro do grupo goiano de vocalização de poesia Corpo de Voz.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-76/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 May 2021 17:01:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Obituário]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Rafel Nolli]]></category>
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					<description><![CDATA[Um canto doloroso e revelador dos dias atuais por Rafael Nolli]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Rafael Nolli</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Lu-brito-2.jpg"><img decoding="async" width="500" height="370" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Lu-brito-2.jpg" alt="" class="wp-image-18901" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Lu-brito-2.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Lu-brito-2-300x222.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Lu Brito</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Obituário</strong><br />
(ano da peste, 3 de abril de dois mil e vinte e um)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">1<br />
Em algum momento<br />
(o nome certo é passado)<br />
Reclamávamos das correntes infindáveis<br />
Das mensagens – tão automáticas – de bom dia<br />
Ignorávamos, dávamos deslike<br />
Protestávamos com efusivos textões<br />
(os tempos eram outros<br />
havia tempo para isso)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em algum momento<br />
(o nome certo é passado)<br />
Reclamávamos das fotos bonitinhas<br />
– de peixes, de pássaros, de flores, de jardins –<br />
Emolduradas com frases bíblicas<br />
Ou enfeitadas com poemas de péssima qualidade<br />
(os tempos eram outros<br />
havia tempo para isso)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje – não há como chamar de presente –<br />
As fotos postadas vão mudando de cor<br />
(um inverno terrível se alastrando)<br />
As imagens coloridas – antiga regra –<br />
Vão dando lugar a outras tonalidades</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os registros sorridentes – nas fotos de perfil –<br />
Sendo trocadas pela bandeira negra da dor<br />
E só a palavra LUTO prospera entre as postagens</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">2<br />
“o sofrimento maior<br />
na maioria dos casos<br />
é não poder fazer nada”<br />
– alguém postou hoje, de manhã</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tudo que nos cerca<br />
– em qualquer uma das redes sociais –<br />
É um imenso obituário</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">3<br />
Riscar a palavra futuro dos dicionários<br />
Como se apaga uma ilha do mapa<br />
(a bomba derradeira, armada ali<br />
em uma de suas mais belas praias)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que se divisa no horizonte<br />
– daqui de onde falo<br />
até onde a vista alcança –<br />
Tem o cheiro sombrio da morte</p>



<p class="wp-block-paragraph">E os maus ventos<br />
– que nunca foram tantos –<br />
Não se furtam em propagá-lo</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">4<br />
Não há casa que ela não tenha sondado<br />
Não há família em que ela não tenha rondado<br />
Não há perfil em que ela não tenha visitado<br />
(mesmo que distante, só de passagem)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Incansável a sua mão, incansável a sua pena<br />
Infinitas as florestas (sombrias) de onde vem o seu papel<br />
Infinitas as usinas (sombrias) de onde vem a sua tinta<br />
Infinitas as fábricas (sombrias) de onde vem os seus livros</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que as pessoas – memento mori –<br />
Que tiveram o nome escrito nessas páginas<br />
Descansem em paz</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">5<br />
Os aliados da morte<br />
Sorrindo, enchem os pulmões de ar<br />
E cada uma de suas palavras<br />
É uma nova vala que se escava</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os entusiastas da peste<br />
Sorrindo, enchem os pulmões de ar<br />
E cada uma de suas palavras<br />
É uma nova vala que se escava</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os capitães do mato do caos<br />
Sorrindo, enchem os pulmões de ar<br />
E cada uma de suas palavras<br />
É uma nova vala que se escava</p>



<p class="wp-block-paragraph">(dizer que falam, obviamente<br />
É um erro crasso, um exagero:<br />
Urram, mugem, guincham, relincham)</p>



<p class="wp-block-paragraph">E cada uma de suas palavras<br />
É uma nova vala que se escava</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">6<br />
Có có có corvos grasnam<br />
(os aliados da morte)<br />
E cada grasnar có có có corvos<br />
É uma nova cova que se abre</p>



<p class="wp-block-paragraph">Có có có corvos grasnam<br />
(os entusiastas da peste)<br />
E cada grasnar có có có corvos<br />
É uma nova cova que se abre</p>



<p class="wp-block-paragraph">Có có có corvos grasnam<br />
(os capitães do mato da morte)<br />
E cada grasnar có có có corvos<br />
É uma nova cova que se abre</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">7<br />
À sombra circular dos abutres<br />
Descansam, exaustos, os coveiros</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Rafael Nolli</em></strong><em> é natural de Araxá, MG. Professor, formado em Letras e Geografia. Publicou livros de prosa e poesia, com destaque para “Isca” (poemas, lançado em 2020) e “Gertrude Sabe Tudo” (obra infanto-juvenil de 2016).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivopalavrai-6/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivopalavrai-6/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 May 2021 16:39:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[Lupeu Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Sidney Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[todo suicídio é um homicídio]]></category>
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					<description><![CDATA[O novo livro de Lupeu Lacerda na resenha de Sidney Rocha

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Lupeu corre, Lupeu em crise, </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Lupeu cresce, Lupeu envelhece</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Sidney Rocha</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="317" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM-1.jpg" alt="" class="wp-image-18893" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM-1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM-1-300x190.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aprendi recentemente um conceito novo, na minha vadiagem de leituras: “paraexcitação”. Embora não esteja nos dois dicionários de psicanálise de casa, é termo criado por Freud. Eu buscava algo novo para começar a escrever sobre <em>Todo suicídio é um homicídio,</em> o recente livro de Lupeu Lacerda, ele o escreve assim, a meu ver, sob paraexcitações. São defesas, são escudos. São escusas. Para-raios. Para-<em>brisas</em>. Paralamas. Paralemas. São paralupeus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E assim entendo melhor esse livro: na verdade uma carta, menos ao modo ridículo das cartas suicidas e de amor, e mais ao modo dos mapas, das cartografias, das batalhas navais, como está ali na página 96.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>1.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada investida sua no mundo editorial é um tipo de suicídio, porque depois de publicar um livro ele se cala, fica puto por qualquer coisa, os vizinhos o chateiam, os amigos antigos também, os mais novos não lhe interessam para nada, pois ele está de novo em xeque. Não comparece para corridas, não vai aos hipódromos dos autógrafos, foge das baias e das bahias dos <em>mise en scenes</em>. Sua melhor atuação é para dentro de seus livros, ele sabe disso, e não está interessado em nenhuma teoria mais, nem poesia, nem literatura, nem música. Ele está no melhor e no auge de sua máxima forma: está de novo só.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lupeu Lacerda escreve sobre Lupeu Lacerda a partir da leitura que Lupeu Lacerda faz de si e contra si. Muitos anos na literatura e na música fizeram dele seu leitorouvinte mais radical.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele não busca pontuar em concursos e fortunas críticas, senão escrever como o cara que conheci aos quinze anos. Temos 55, eu e ele. De lá para cá, Lupeu é um fenômeno. Ele emula todos os bons e maus modos da contracultura, anuncia certo descrédito pela leitura sistemática dos críticos e evoca para si o papel de leitor de si mesmo. Sua <em>persona</em> pública vive sob a aura da performance de sobrevivência, bem narrados nos seus poemas-coisas ou <em>prosoemas</em> e tocam os leitores mais jovens, os velhos e os mais velhos ainda como eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E por que nos tocam? Porque morremos, os mais velhos. Porque querem morrer, os mais novos. Porém, no caminho, resta isso, a morte destinada a quem não quer morrer: a velhice. Precisamos falar sobre ela, Kevin. Em breve. Na página 77?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>2.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM2.jpg" alt="" class="wp-image-18894" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM2.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM2-210x300.jpg 210w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Tolstoi caminha por sua propriedade rural:<br />messianismo sem fé, mas esperança</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada investida sua no mundo editorial é um tipo de homicídio. Esse seu <em>Todo suicídio&#8230; </em>já tem o título todo na contramão comercial. Paira algo de messiânico nele, de domesticável, e pode não agradar a alguns, mas Lupeu não parece estar muito aí para isso. E inaugura sua ironia, seu ‘tolstoismo’ particular. Como Lupeu sabe, Tolstoi, já velho, aos 50 anos, vivia atordoado por pensamentos suicidas ou pela na morte, mas sempre esperava algo a mais da vida. Um místico para além da mística, eu diria. Um escritor atormentado pela filosofia na sua potência máxima. Também serve. Dadas as proporções certas, Lacerda sempre foi alguém assim. Mas a ele se acrescente a ironia trazida pelo narrador de <em>Todo suicídio</em>&#8230;, livro de auto-leitura numa transleitura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra “leitura” vem de eleição, de escolha. E o autor faz muitas, boas e más, nesse novo trabalho. São sensações, parasensações; estesias, parestesias; paraexcitações, como eu disse. Seus leitores gostam. Escreve para os confins e os confinados do século da Peste.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>3.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde 2019 foi retirado outro mal do jarro de Pandora. A Covid. Neste maio de 2021, já somos mais de 400 mil mortos, cuja paisagem mais fiel está na página 59, à espera do Deus anunciado dez páginas antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o deus da pandemia, de Lupeu, é Pã, chamado de Lupércio, pelos latinos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A divindade nesse seu novo livro é esse Pã e não aquele Tânatos, de <em>Entre o alho e o sal, </em>(2007)<em>,</em> por exemplo. Mesmo quando esse deus festeiro namore Senectus (de onde vem a palavra geração, essa velhice). O narrador de <em>Todo suicídio&#8230; </em>é um Titônio moderno, transformado em imortal, mas sem o privilégio da eterna juventude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deixe-me provocar lembrança mais recente a quem lê esta resenha: se Alex, o personagem central do romance <em>A laranja mecânica</em> (1962), de Anthony Burgess, envelhecesse, seria ele o narrador de <em>Todo suicídio&#8230;</em> A aproximação não é deslocada. Lacerda aponta de forma consciente para o leitor ou leitora algo distópicos, descrentes, amantes de Cioran mesmo sem conhecê-lo para além das epígrafes ou aforismos, para quem os clichês da linguagem precisam ser reconhecidos de imediato. E seus leitores são fisgados justo por essa familiaridade. Somente depois seu poema ou narrativa vão se inovando. Lupeu é um escritor que poderíamos chamar de <em>cult</em>. De seguidores. E acerta bem na lata: o público interessado na rebeldia em relação às convenções sociais e literárias. Sua única novidade é garantir vitória sobre o desafio violento de se manter o mesmo. E isso não é fácil no mundo como o nosso, sobretudo o submundo literário. Esse compromisso mantém o autor vivo, me parece. Certa irregularidade, comum a todo autor, faz parte da verossimilhança, dessa atmosfera criada por Lacerda, onde se inclui <em>persona</em> &amp; obra que, com exceção de um livro, <em>Caos Tecnicolor </em>(Virtual books, poemas, 2012), mantém escalada bastante visível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>4.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Todo suicídio&#8230;</em> está entre a realidade da lobotomia e as sensações e emoções sem filtros, isso inclui a inteligência; entre o mundo mecânico e o digital, um reino de linguagem pessimista/realista que define bem o personagem-narrador do livro. Suspenso na dupla impossibilidade de dois mundos, o personagem percorre o livro, viaja pelo mundo idealizado buscando a Beleza das coisas e como já não acreditasse tanto nela. Isso me lembrou Rimbaud. Não era o poeta Rimbaud quem disse ter sentado a Beleza no colo para injuriá-la? O leitor ou a leitora desta resenha devem dar uma olhada nos livros para ver se não estou confundindo Rimbaud com Baudelaire, mas acho ter sido Rimbaud: “Sentei o Beleza no colo e a injuriei”. Algo assim. Esse sentimento me arrastou para dentro do livro de Lupeu, ou seja: “Tá, tudo bem, há a Beleza nas coisas, o.k. mas e aí, o quanto mesmo isso muda lá em casa?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">É esse o narrador que marca encontro conosco no livro, alguém encurralado nessa dupla tentativa, a ambi-existência. Alguém disposto a dar ao mundano a beleza sem dar tanta ênfase aos seus efeitos e eloquências. Por isso o livro se aproxima mais do poema e menos da prosa, na busca do registro, da palavra certa e vã. Ali está um dos pontos bons do livro. Esse paralelismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a senhora aqui não é a Morte nem a Beleza. É mesmo a Velhice.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso não soa mal a lembrança do personagem Coelho, o Harry da trilogia de John Updike, no começo desta resenha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo, não é tão à toa aparecer o fóssil na capa. Ele está dentro da pedra. Contudo, é preciso quebrá-la lhe adivinhando seu sentido ou longitude, se se quer mesmo encontrar a esqueletaria, o peixe antes jovem e buliçoso; agora, só fantasmagoria, representação somente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eternamente morto e velho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é em vão o intertítulo: “prosoemas para ninar dinossauros.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim é assim o narrador que Lupeu retira da pedra, desse livro novovelho: alguém condenado à velhice, mas sem lamentar a vida nem pedir para morrer nem para lhe matarem, mas que, de alguma forma, toquem a flauta do fauno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="350" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM3.jpg" alt="" class="wp-image-18895" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM3.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM3-300x210.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>5.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Há 14 anos, escrevi sobre o recém-lançado <em>Entre o alho e o sal</em>, publicado pelo selo Outsider, da Kabalah Editora:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Tiro do bolso a última bala. Ela tem um brilho estranho, daqui, contra o Sol do Recife. A pólvora rescende a um último verso, talvez. Fi-la dormir no tambor da arma. É uma criança linda. Use-a você, meu amigo. Talvez você queira acertar o autor com ela, ou usá-la em benefício próprio, sabe-se lá.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa escolha serve ainda para a leitura de <em>Todo suicídio&#8230;</em> que, diferentemente, não se curva sobre o “eu”, como é o caso de <em>Entre o alho e o sal</em>. Já <em>Todo suicídio&#8230;</em> trata mais do Ele, o Louco, o Homem, o Palhaço, o Cujo, o Cospe-Bula, o Caga-Regras, o Indivíduo, o Dito, o Idiota. Este livro é sobre o Você.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>6.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM4.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="332" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM4.jpg" alt="" class="wp-image-18896" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM4.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/IMAGEM4-300x199.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Lucha libre, religião mexicana.</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No nosso último encontro, eu e Lupeu nos desencontramos e quebramos tudo em torno de nós, nada ficou de pé nem vivo, e terminamos humilhados pelo cansaço e a asma e a velhice, nos esmurrando com golpes que eram mais velhas carícias, porque inúteis e inofensivas. Só nos unimos por um instante: para esmurrar quem tentava apartar nossas mágoas. E voltamos para nossas tesouras-voadoras, nossa religião, nossa “lucha libre”. Olhos roxos, descobrimos de nossa amizade aceitar sermos ao mesmo tempo velhacos e velhos, dois grandiosíssimos filhos da puta, desses <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Wrestler"><em>wrestler</em></a><em>s</em> mascarados que não precisamos mais das cordas, por sabermos de nossa velhice ser agora o ringue mais verdadeiro, a parte mais revolucionária de nossas vidas. E seguimos intrigados um do outro, intrigados um com o outro, mas não a ponto de não nos reconhecermos: dois escritores-pedras da mesma montanha. Pedras inencontráveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É sobre aquela revolução, romântica, a anunciação do seu novo e mais velho livro, <em>Todo suicídio é um homicídio, </em>que vocês precisam ler. Ler, não: praticar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uns contra os outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Sidney Rocha </em></strong><em>é escritor.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iv-80/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 May 2021 15:33:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Anna Apolinário Anna Apolinário]]></category>
		<category><![CDATA[Ja]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[As marcas singulares do universo poético de Anna Apolinário]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Anna Apolinário</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Lu-Brito-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Lu-Brito-1.jpg" alt="" class="wp-image-18885" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Lu-Brito-1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Lu-Brito-1-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Lu Brito</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quaerens Quem Devoret</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Panteras em transe<br />
Dançam sob minha pele<br />
Cerro meus olhos e sinto<br />
A furiosa partitura nas artérias<br />
E a sinfonia dos caninos acesos<br />
Lacerando a carne<br />
A febre cresce e decifro<br />
A fábula canibalesca</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>A Carne Flamante das Metáforas</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Irmã fronteiriça<br />
Alia bestial delícia<br />
Ao seu léxico luxurioso<br />
Colhe especiarias na mata<br />
Tece um amuleto de enigmas<br />
Sangria de grafemas e signos<br />
Rumorosa raptora<br />
Transita e transborda<br />
Salta entre as páginas</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>A Doçura Peçonhenta dos Feitiços</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meus seios sussurram preces em tuas mãos<br />
Rosários lambem teu espírito enfurecido<br />
Os meus feitiços roçam os céus de tua fome<br />
Sílaba a sílaba, sacrílega<br />
Tempero um apocalipse<br />
Com a tempestade dos nossos nomes</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>As Mil Portas do Poema Ardem</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cinco voltas<br />
Ferozes<br />
À fechadura</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Códex</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma canção toma de assalto a minha boca<br />
e estilhaça a paz que não queremos.<br />
Dentro da casa que erguemos,<br />
não há mordaça que baste:<br />
o sonho cresce selvagem no sangue.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um verso acende molotovs na língua,<br />
verve virulenta inventa a rebelião.<br />
Um gatilho para o tumulto,<br />
entre corpos pacatos e obedientes,<br />
um acorde eriça a revolução.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Teia</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francesca Woodman desliza<br />
por dentro das fotografias.<br />
Com olhos aranhiços,<br />
a face sublime suicida.<br />
Francesca dança<br />
nua<br />
levita e tece.<br />
Penélope suspensa<br />
espreita,<br />
espera.<br />
De súbito, o rapto<br />
Francesca nos dilacera.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O balanço do fim do mundo</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Um céu deliciosamente louco nos convida<br />
ao beijo vertiginoso do abismo.<br />
Ardilosos feiticeiros, driblamos a morte<br />
e nos encontramos como dois pássaros infinitos<br />
em cósmico voo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Talismã</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas mãos de um anjo<br />
o mineral mistério<br />
onde o desejo se enraíza<br />
e diabólico, floresce<br />
cruel e escura ferida<br />
no coração de Deus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Anna Apolinário</em></strong><em> (João Pessoa &#8211; PB, 1986). Bruxa, poeta, produtora cultural independente, organizadora do “Sarau Selváticas”, co-fundadora da “Cia Quimera”&nbsp; &#8211; Teatro &amp; Poesia, colaboradora da Revista Acrobata – Literatura e Artes Visuais. Autora dos livros “</em><em>Solfejo de Eros”</em><em> (CBJE, 2010), “</em><em>Mistrais”</em><em>&nbsp; (Prêmio Literário Augusto dos Anjos &#8211; Funesc, 2014), “</em><em>Zarabatana”</em><em> (Patuá, 2016), “Magmáticas Medusas” (Cintra/ARC Edições, 2018), “Las Máscaras del Aire” (Poema Colectivo &#8211; Cintra/Arc Edições, 2020), “A Chave Selvagem do Sonho” ( Triluna, 2020), “Furor de Máscaras” – Poemas automáticos em coautoria (Cintra/ARC Edições, 2021).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-73/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-73/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 May 2021 15:21:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Wellington Amâncio da Silva]]></category>
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					<description><![CDATA[Porções de vida nos contos de Wellington Amâncio da Silva

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Wellington Amâncio da Silva</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="333" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna-1.jpg" alt="" class="wp-image-18905" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna-1.jpg 333w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna-1-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Lu Brito</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Por que o editor sumiu?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um sonho. Lá está ela, nos dias de Junho, durante o auge do solstício de inverno. Lá está ela, no mais alto plano do hemisfério austral, próxima à constelação de Órion. Liúna é uma galáxia, para quem pode vê-la. A mais estrelada do universo. Espiralada, cinco linhas circulares, paralelas, mas que se tocam de leve. Predominam o dourado, o anilado, o prateado, e tons de ardósia nas bordas. Sua figura se consolida no dodecaedro. Veste-se de seda inconsútil, imaculada, e apenas disto se veste. Possui o poder universal de suster os luminares, por isso nenhuma contristação sente, e não há o mais leve sinal de que ela não sinta demais outros sensos. Diz-se que no centro do seu alvor reside a mais fulgurante estrela, que se observada através de um prisma especial, contar-se-á oito pontas, e cinco ao centro. Seus olhos de âmbar transparente e claro transfixam-nos constantemente (por isso a impressão de que somos observados e ao mesmo tempo protegidos). As entidades mágicas de variegados domínios e graus podem pensar, voar, pairar, andar, circunvagar, existir, morrer e reexistir como queiram, quando e onde, segundo os auspícios de Liúna. Debruçam-se sobre as esferas, clarificam certos âmbitos, domínios, e administram certos campos, segundo o que apraz Liúna. E ela estende as mãos e nos toma para si — sua miração primeira possui dois ângulos abertíssimos, e no centro, o adentramento e o anelo. E pode transmutar-se ao coração do homem em dura gnaisse, ou em matéria vaporosa e volátil. Eis a porta aberta, o fogo, irresistível umectância! E ele, o Carlos, abriu uma das mãos, ao máximo, até as pontas dos dedos curvarem-se para cima; desceu as mãos sobre a coxa lisa e dura, perto da virilha dela; parecia tocar em brasas (não porque estivesse quente como o fogo — muito porque a perna, a coxa, em que se toca, muda a sina das mãos, embaralha a ordem das coisas, desfaz o sossego da mente, e eriça alguma coisa dentro do peito — perdição); bordeou a orla da fundura de Liúna, e caiu, de corpo penso, ao fundo. Sentiu estremecimento antigo. Lançou-se, num ímpeto, imerso, e atravessou-se para lá. E em Liúna o editor sumiu. Um sonho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Formação</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alceu Vivalma compositor de samba das antigas! Reverenciado, ainda que “dissidente” da Portela. Do tipo “raciado”, porque trazia os sinais supremos do autêntico e do febril criador. Ébrio-de-cara-inchada e pálpebras caídas, ao modo do equilíbrio entre o sadio e o patológico, do fígado não muito cirrosado, porque só no final, tal e qual o auge, amadurece no ser do boêmio aquele horizonte trágico, apaixonado, entre a indiferença do artista diante da proximidade do fim e o seu mais inspirado e fervoroso momento de criação (certamente evidente no último disco lançado). Isto quer dizer — como pensam alguns radicais — que a obra póstuma, por vezes incompleta, é a obra máxima do artista, “a obra de porta aberta”, em que os críticos têm pano pra manga. E a obra-prima é aquela que nos lega espaços vazios e brancos, suscetíveis a enchimentos interpretativos, e aos questionamentos de todos os tipos, sem os quais a conversa não se prolongaria, nem a crítica se lamberia, e a rodada de cerveja vai que se acaba em breve. E é preciso que digam alguma coisa e sempre, nos jornais, na roda de samba, na esquina cotidiana, dentro dos lares, dentro do pensamento de quem curte a coisa toda, porque se se acabar o converseiro sobre o artista quando morto, ele pode ainda morrer novamente. E é essa “segunda morte”, o silêncio da boca do povo, que o artista tem medo de morrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diziam que os “iniciados” o reconheciam em qualquer lugar, sem requerer dele nenhum imperativo de palavras de apresentação. Era necessário o silêncio para que reverberasse o som. Cantava ao violão Di Giorgio 1979. Voz de barítono levemente alcoolizada e rouca. Alguém batucava de leve num pandeiro deitado sobre a mesa — “<em>A vida é assim/ Eu sou assim/ Não me leva a mal&#8230;</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após, Alceu Vivalma ainda recebia os aplausos, quando Safiro do Borel cochichou no seu ouvido. Em seguida, num canto do bar, ambos conversavam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Alceu, meu amigo, agora é a tua hora, o teu primeiro disco. Por favor, não diga não desta vez! A oferta é irrecusável. Fubica disse que ele mesmo produzirá o teu disco! Aceita, homem! Fubica é gênio de mixagem, e Aloísio um mestre do <em>merchandising</em>, das rádios, da tevê. Aceita, homem! Ou vai morrer cantando em bares? Compondo música para tocar em mesa de boteco? Teu repertório, bicho, está fadado ao sucesso! Vai estourar! Fubica é um mestre! Aloísio é um mestre! Você é um mestre! Vai tocar em todo mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alceu, com ar de pensativo, disse, pondo a mão direita sobre o peito:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não me vendo, meu amigo. Tu sabes porque resisto. Tu sabes&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Safiro se aperreava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Homem! Eu sei das tuas filosofias. Mas, seja um pouco mais flexível. Seja sábio desta vez! Ou prefere mofar naquele barraco?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alceu enrugava as sobrancelhas, como se estivesse zangado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ninguém é sábio, rapaz!&nbsp; Essas gravadoras todas não iriam desvirtuar minha imagem e minha música? Eles gostam de meter o dedo em tudo. Lembra-se que modificaram a minha capa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Águas passadas, meu amigo. Pode crer. E os caras da OMD são imbatíveis, profissionais!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alceu o encara, põe a mão no ombro dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Quanto custará sua comissão por esta empreitada? Me diga!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Safiro do Borel ajeita a gola da camisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Homem, isso é de menos&#8230; o teu sucesso é o que importa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alceu o encarou por um instante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Me fale a verdade: lembra-se que modificaram a minha capa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Safiro coçou o topo da cabeça e olhou de lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Sim, sim. Há vinte anos atrás? E <em>tu</em> ainda se lembra disso, bicho? Deixa de orgulho, meu irmão! Aquela capa estava mais para disco de música clássica, ou caipira&#8230; do que para o teu disco de samba raiz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alceu descansou a mão direita novamente sobre o ombro de Safiro, e disse em voz demasiadamente pausada:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Além da capa, eles regravam os batuques, mudaram o ritmo, descartaram nosso partido alto, tiraram os graves do som.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ouviu a expressão “Partido Alto”, Safiro respirou fundo e calou-se. Tremeu-lhe o queixo. Encheu-se os olhos d’água, ainda encarando os do Alceu. Baixou a cabeça e foi-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, Abelardo e a esposa chegaram junto do Alceu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ouvi a conversa to-di-nha! — cochichou Abelardo, num tom assisado, e continuou — Novamente, Alceu!? Vai negar até quando a oportunidade de ouro? O tempo passa, meu irmão. E o nosso disco? E o nosso disco?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ah&#8230; Disso eu sei, Abelardo. Um dia eu gravo. Agora, não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Compadre, compadre, tome jeito! — disse Lurdinha, esposa de Abelardo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não sei o que dizer&#8230; — finalizou Alceu de cabeça baixa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lurdinha o encarava com aquele semblante de zangada, de quem exorta um amigo ou um parente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— E o senhor não dá a mínima para registrar a sua obra? E o nosso disco?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alceu passou a mão no rosto, de cima para baixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Do fundo do meu peito, vocês sabem que não minto. Digo o que penso. De verdade: quem quiser me ouvir, que venha até aqui me escutar tocar e cantar. Eu amo este bar, as pessoas, vocês dois&#8230; não porque vocês sejam os proprietários&#8230; eu amo este bar&#8230; há décadas nos reunimos aqui. E isso já me basta. Encontro paz e sossego, aqui. E eu acho, aliás, que a fama é exigente demais, sufoca o artista em demandas impossíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os três detiveram-se em silêncio por um instante. Lurdinha e Aberlado reconheciam sua genialidade, sua sinceridade, por isso o olhavam-no com orgulho e apreço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Como pode cantar canções tão belas?&#8230; — perguntou Lurdinha depois de longo silêncio. Os clientes observavam de longe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com esta pergunta, os olhos de Alceu encheram-se d’água:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Vou te contar algo que nunca antes disse a ninguém — ele falava entoado, com aquela rouquidão típica de sambista, que brota do fundo da garganta, quando se expressa e se expira desde o ventre —Sou íntimo de mim mesmo, quando não tem alguém por perto. Parece óbvio, mas não é.&nbsp; Assim, me debruço em mim mesmo e passo um tempo nisto, só cavando. Desço às profundezas do Alceu de verdade e reconheço a sua face de homem que nunca desistiu no meio das lutas, e vou buscar por lá, no fundo da alma, umas poesias, uma canções, o meu jeito mais particular de ser. Depois, apresento o que tudo naquela mesa, ali, aquela&#8230; sim, a minha mesa, a mesa que me basta. Mas, apresento porque&#8230; é o dever do artista, vocês sabem como é&#8230;. Depois descanso. Depois, missão cumprida. Depois, volto para casa. Fico por lá por alguns dias, olhando as paredes e as telas pintadas que os amigos me deram de presente. Leio umas coisas&#8230; leio Drummond, Bandeira e João Cabral e outros, e choro, mas ninguém vê, graças a Deus, porque lágrima verídica na cara de artista pode ser sinal de fraqueza, pode ser seu sim, dar em má interpretação. Se vissem as lágrimas que choro todo dia, meu samba perderia a graça, viraria um “caldo ralo”, porque só se pode ver a boa lágrima, com a poesia e tudo, no próprio samba, ali, naquela mesa, onde cada nota do violão e verso cantado é suada e chorada, mas o artista não pode chorar pra o mundo ver, somente no samba, eu já disse. Quando escrevo eu tomo um baque e a boca do mundo vem me visitar, me fazer sofrer, aí eu não suporto o seu peso — daí eu penso nas crianças jogadas, eu penso nos velhinhos&#8230; eu penso no amor negado a uma mulher fiel que por sofrer demais caiu na vida, eu penso no cara que morreu de tanto tomar pinga por causa de amor não correspondido, eu penso nessas coisas e penso no próprio samba, na coisa em si, tá entendendo? E após, eu lembro dos grandes que antes de mim cantaram, e a sua música fica tocando o dia todo dentro da minha cabeça, eu lembro da paixão de cada um deles, e as minhas pálpebras começam a pesar abaixo da testa, meus olhos ficam vermelhos, meu nariz se enche d’água e eu começo a fungar e a garganta dá um nó. Tudo isso que digo, a intimidade do artista, é cafona, apelativo, fora de moda? É. Mas sem essa matéria-prima não pode haver samba. Por isso gosto de ficar sozinho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Wellington Amâncio da Silva</em></strong><em>&nbsp;nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das <a href="http://www.edicoesparresia.com.br"><strong>Edições Parresia</strong></a>. É membro da equipe editorial da Revista&nbsp;Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se:&nbsp;Apoteose de Dermeval Carmo-Santo&nbsp;(2019),&nbsp;O Reneval&nbsp;(2018),&nbsp;O Quasi-Haikai&nbsp;(2017),&nbsp;Epifania Amarela&nbsp;(2016),&nbsp;Distímicos e Extrusivos&nbsp;(2016),&nbsp;Diálogos com Sebastos&nbsp;(2015),&nbsp;Primeiros poemas soturnos&nbsp;(2009) e&nbsp;Elegia da Imperfeição&nbsp;(2001). &nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Drops da Sétima Arte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 May 2021 15:08:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Cathy Yan]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Dead Pigs]]></category>
		<category><![CDATA[Drops da Sétima Arte]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[Guilherme Preger]]></category>
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					<description><![CDATA[O filme  “Dead Pigs” nas linhas reflexivas de Guilherme Preger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Guilherme Preger </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Dead Pigs. China. 2018.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Dead-Pigs-cartaz-m.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="303" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Dead-Pigs-cartaz-m.jpg" alt="" class="wp-image-18879" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Dead-Pigs-cartaz-m.jpg 303w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Dead-Pigs-cartaz-m-202x300.jpg 202w" sizes="auto, (max-width: 303px) 100vw, 303px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma diretora chinesa de sucesso que é chamada para os Estados Unidos para fazer um filme americano de grande estúdio. Não, não estamos nos referindo à atual ganhadora do Oscar, a diretora Chloé Zhao, de <em>Nomadland</em>. Estamos falando de Cathy Yan, diretora cujo filme de estreia é <em>Dead Pigs</em> (2018). Cathy fez sucesso no festival de Sundance nesse mesmo ano e depois foi convidada para dirigir o filme<em> Aves de Rapina</em> (<em>Birds of prey</em>) do grande estúdio DC Comics. <em>Dead pigs</em> foi lançado agora para a plateia global via plataforma de demanda MUBI. Embora tenha nascido em Xangai, Cathy Yan mora nos EUA. Apesar disso, seu primeiro filme aborda sua cidade e país natal, Xangai. É uma comédia falada em mandarim, produzida com o estado da arte da tecnologia, que traz o cotidiano e os conflitos da China contemporânea da maneira mais franca quanto possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não gostaria de realizar aqui uma comparação entre <em>Nomadland</em> e <em>Dead Pigs</em>, que são filmes quase diametralmente opostos, apesar da coincidência de situação de suas diretoras. A vitória do filme de Zhao no Oscar faz sua obra estar sendo bastante comentada. No caso da obra de Yan, no entanto, apesar da excelência de sua produção, é uma obra bem menos mencionada. No entanto, em termos de geopolítica, no momento mesmo em que voltamos a ingressar em um novo tipo de Guerra Fria econômica entre duas superpotências, esses dois filmes tornam-se de grande importância sociológica e histórica. A única comparação que arrisco é a curiosidade do contraste entre ambos: enquanto <em>Nomadland</em> investiga o nomadismo dos atingidos pela crise econômica americana, <em>Dead Pigs</em> observa, numa grande cidade chinesa, uma das maiores do mundo, o desejo de permanência e habitação, numa sociedade em que, mais do que os habitantes, o ambiente parece velozmente se alterar. Em outras palavras: no primeiro filme, as pessoas se mudam enquanto a sociedade está estaticamente congelada em seu consumismo sem remédio. No segundo filme, as pessoas querem se fincar às suas raízes, mas parecem levadas pela voragem do progresso acelerado.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Dead pigs</em> é baseado em fatos reais: em 2013, centenas de carcaças de porcos apareceram boiando no rio que corta a cidade de Xangai, durante vários dias. Descobriu-se que criadores de porcos estavam jogando seus porcos misteriosamente mortos no rio à noite, clandestinamente. Mortes misteriosas de porcos na China são sempre um caso de apreensão, em função das epidemias. Até os dias de hoje a causa da morte dos porcos se mantém não inteiramente esclarecida. Houve boatos de envenenamento na ração dos animais ou na água do rio, ou de uma misteriosa infecção suína que, no entanto, não se propagou para os humanos. No filme, Wang, um dos protagonistas da história, é criador de porcos e perde toda sua criação no misterioso incidente. Tal como nos fatos verídicos, Wang também se livra clandestinamente de seus porcos mortos. Trata-se de um momento de grande infortúnio para o personagem, pois ele também perdeu todo seu dinheiro, tomado emprestado, na Bolsa de Valores, seduzido pelas perspectivas de enriquecimento especulativo fácil. Wang torna-se assim endividado e é cobrado por suas dívidas pelas gangues chinesas de agiotas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Imagem-1-Divulgacao.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="268" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Imagem-1-Divulgacao.jpg" alt="" class="wp-image-18880" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Imagem-1-Divulgacao.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Imagem-1-Divulgacao-300x161.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Dead Pigs / Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Wang precisa recorrer à ajuda de sua irmã, Candy Wang, que é a principal protagonista do filme. Ela é vivida pela grande atriz internacional Vivian Wu, conhecida do público desde o <em>Último Imperador</em>, de Bertolucci, nos anos 80. O nome de Candy Wang ressoa com o de Cathy Yan, da diretora, o que não é acidental. Candy é a principal cabelereira de um salão de beleza. Seu lema é que não existe mulher feia, mas apenas preguiçosa. Mas o drama de Candy, solteira, é que ela vive sozinha na casa que pertenceu há décadas à sua família. Havia toda uma vizinhança com quem ela cresceu, porém agora sua casa é a única que resta, isolada no meio de um aterro sanitário de destroços, num imenso terreno que foi comprado por uma empreiteira chinesa. Esta empresa planeja, em parceria com investidores americanos, construir no lugar um empreendimento residencial temático, como se fosse numa Espanha romanticamente andaluza. A casa de Wang é a única que não foi vendida e ela se recusa não só a vendê-la, mas a se mudar do lugar onde nasceu e cresceu, mesmo degradado. Acontece que seu irmão está endividado e precisa que Candy venda a casa para pagar suas dívidas, sob o perigo de pena de morte nas mãos da gangue de agiotas. E aí está criado o conflito de família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há também o jovem Wang Zhen, filho de Wang e sobrinho de Candy. Ele trabalha num restaurante de luxo em Xangai, porém mente a seu pai que é um jovem bem sucedido. Zhen se apaixona pela jovem rica Xia Xia, que é filha de um milionário chinês. Esta sofre um acidente de carro ao atropelar um vendedor de melancias. Ela pertence à classe dos novos ricos chineses, cujo destino é estudar fora, e que vivem uma vida de luxo consumista num país comunista. Com Wang, Candy e Zhen está formado o núcleo familiar da trama.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das grandes virtudes da narrativa é entrelaçar à vida desses personagens os principais dramas das imensas transformações da China contemporânea. Wang é um criador de animais que é ao mesmo tempo um jogador da bolsa de valores. Ele está entre a vida rural e urbana, sendo o liame entre os dois polos da economia chinesa. Ele se diverte ao comprar óculos de imersão virtual 3D, ao mesmo tempo em que gosta de estar com amigos em jogos de tabuleiro tradicionais chineses. Sua falência é também a destruição de um estilo de vida tradicional popular, espremido entre as dívidas financeiras e as cobranças mafiosas de agiotas. Candy, como dona de um salão de beleza, a cada manhã reúne suas funcionárias para a tradicional dancinha de exaltação nacionalista. Ela é solitária e suas principais companhias são as pombas que alimenta em seu viveiro. Assim como seu irmão é vítima da especulação financeira, Candy é vítima da especulação imobiliária. Ela não quer deixar o lugar em que criou raízes e que se vê agora degradado. Já Zhen é um jovem que quer subir de vida, mas se vê às voltas com as grandes diferenças de classe que surgem num país outrora igualitário. Essas diferenças de classe interferem não só no seu orgulho (pois é humilhado por clientes ricos), mas também em sua vida amorosa quando se apaixona por uma jovem que é bem mais rica e que já tem valores bem diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Dead Pigs</em> desenvolve inicialmente uma montagem vertiginosa entre esses mundos, de modo que o espectador também se vê tão desorientado quanto os chineses de Xangai. O tom é de comédia, porém ácida e auto-irônica, muitas vezes burlesco. Nisso, um dos personagens é também importante. É o arquiteto americano Sean. Ele está na cidade como parceiro dos chineses para a construção de condomínios residenciais temáticos. Sean é um romântico da arquitetura, mas os chineses querem o espetáculo, a simulação e a ostentação que julgam características tipicamente americanas. Os chineses querem ser melhores do que os americanos no próprio sonho americano. O filme sugere que a guerra comercial entre americanos e chineses esconde parcerias e acoplamentos mais subterrâneos ou menos aparentes. Numa das passagens do roteiro, Sean tenta uma abordagem mais “humanista” para justificar a desapropriação dos terrenos antigos para a construção de novos condomínios, mas é como se ele estivesse se expressando numa linguagem desconhecida e quase poética, e o resultado é uma situação totalmente constrangedora e fora-do-lugar, mas que inesperadamente funciona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Imagem-2-Divulgacao.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="282" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Imagem-2-Divulgacao.jpg" alt="" class="wp-image-18875" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Imagem-2-Divulgacao.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Imagem-2-Divulgacao-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Dead Pigs / Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar do tom afetivo, a obra de estreia de Cathy Yan é bastante corajosa quando traz à cena os principais dilemas da vida chinesa que ambiciona se tornar a nova superpotência global. O filme nada censura sobre os reais problemas dos chineses de Xangai, tendo que se ver com a violência de máfias, a iminência cotidiana de uma nova epidemia, a crescente divisão de classes, e a soma das especulações financeiras e imobiliárias que estão intimamente conectadas, como o filme sugere. O pano de fundo histórico para todos esses problemas é o grande “Salto para Frente” do crescimento chinês, o maior de toda a história da humanidade. Na cena clímax do filme, em torno de um conflito que parece insolúvel, a saída do enredo é apresentar uma canção popular chinesa cantada por quase todo o elenco. O lirismo da canção pacifica e “supera” o conflito. Nesse momento de metalinguagem, o filme se volta para si mesmo, mas esta saída não é a mais fácil. Ela é antes a expressão de que os gigantescos problemas que os chineses comuns enfrentam diante das transformações incessantes não têm mesmo como ser resolvidos no plano individual. É nesse momento, ou nessa encruzilhada, que a potência da linguagem artística intervém. Ela não cria uma situação fantasiosa na qual os problemas magicamente desaparecem. Ela recorre e acentua o paradoxo da situação para mostrar que, em vez de simplesmente negar o conflito, é preciso usá-lo como a fonte que impulsiona tanto a História, com letra capital, quanto a pequena história individual e invisível, real ou imaginária, das pessoas que são exatamente comuns porque se reconhecem num momento de beleza compartilhada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/QPEhArGSfRo" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Guilherme Preger</em></strong><em>, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do <a href="http://clubedaleiturarj.blogspot.com/"><strong>Clube da Leitura</strong></a>, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog <a href="https://gfpreger.medium.com/"><strong>Fabulação Especulativa</strong></a> e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados <a href="https://uerj.academia.edu/GuilhermePreger"><strong>aqui</strong></a>. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Janela Poética V</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-v-77/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 May 2021 14:55:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Patuá]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Rafael de Oliveira Fernandes]]></category>
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					<description><![CDATA[As cenas enquadradas por Rafael de Oliveira Fernandes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Rafael de Oliveira Fernandes</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="371" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna.jpg" alt="" class="wp-image-18868" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna.jpg 371w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna-223x300.jpg 223w" sizes="auto, (max-width: 371px) 100vw, 371px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Lu Brito</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>As horas</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma trilha de formigas<br />
sobe a parede<br />
parecendo um ponteiro.<br />
Sai de trás de um relógio<br />
e cada uma<br />
parece um segundo<br />
em direção ao poço do prédio<br />
onde só há o esquecimento.<br />
Vão fugindo tão devagar<br />
que é possível fechar a janela<br />
para que o tempo<br />
não escape do quarto<br />
Para que as formigas deem voltas<br />
e mais voltas ao redor da gente<br />
como se o tempo parasse.<br />
Ou para que retornem ao relógio<br />
como se o tempo retrocedesse.<br />
Voltasse ao ponto<br />
em que instantes antes<br />
uma formiga andava pelo chão<br />
e você, numa cena linda<br />
com um copo de plástico<br />
retirou-a dali<br />
colocando-a nas plantas<br />
para que aquele pequeno segundo<br />
jamais<br />
se perdesse</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Cena</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Ver você através da janela<br />
como se os limpadores de para-brisa<br />
fossem os pincéis numa cena<br />
que vai virando passado<br />
à medida em que o ônibus<br />
se aproxima.<br />
Como uma pintura que vemos na sala<br />
e imaginamos apenas<br />
os movimentos do pincel<br />
atrás das cores.<br />
Ou uma música em que imaginamos<br />
o que fazíamos e onde estávamos<br />
ao ouvi-la da primeira vez.<br />
Como se no ônibus eu estivesse<br />
com fones de ouvido<br />
e assim que chegasse,<br />
a cena do encontro já estivesse<br />
em um dos seus desenhos.<br />
E tudo que parecia acontecer<br />
pela primeira vez<br />
os sons, as cores, as lembranças que teria<br />
quando chegasse<br />
fosse algo que eu apenas recordasse<br />
pois você já teria me mostrado<br />
no caminho<br />
há muito tempo</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Viagem dentro de um quadro</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Ela olhava pra fora<br />
do carro como se houvesse uma pintura<br />
que ia se fazendo aos poucos.<br />
Então passava os dedos no vidro<br />
como se fosse ela<br />
que pintasse a paisagem.<br />
Primeiro pintava as árvores, contornando-as,<br />
ou as rosas, cujas pétalas<br />
pareciam sair da tintura vermelha das unhas,<br />
e um lago aparecia conforme a respiração<br />
embaçava o vidro e ela murmurava o barulho das águas.<br />
Depois, era a paisagem que entrava pelo vidro aberto,<br />
na luz que coloria a pele,<br />
no vento que trazia os cheiros das flores<br />
e desenhava seus cabelos<br />
como se fosse ela que estivesse dentro do quadro.<br />
Ela parecia dormir encostada no vidro,<br />
sonhar com a paisagem<br />
que aos poucos se formava.<br />
Por isso, ao atravessar um longo túnel,<br />
a lua aparecia como um olho brilhante que investigava<br />
tudo. E quando uma montanha na forma de<br />
menina enrolava toda a pintura,<br />
parecia ser ela se preparando para dormir<br />
do outro<br />
lado</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Caixa de sapatos</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Ela guardava suas fotos<br />
numa velha caixa de sapatos.<br />
Mas o olhar que a câmera<br />
capturava era o olhar que<br />
eu via todos os dias.<br />
Aquela doçura já lhe servia<br />
quando criança.<br />
E as olheiras lhe serviam<br />
à medida em que o corpo crescia.<br />
O olhar mais lindo que eu<br />
vi era como uma roupa<br />
que sempre a acompanhava<br />
e através dele eu podia imaginá-la<br />
ao meu lado mas também<br />
no corpo de antigamente e nos vestidos<br />
que usava naqueles dias.<br />
Era como um tênis<br />
cujo número nunca mudava.<br />
Que ela guardava numa caixa<br />
como se aquele tênis fosse também<br />
uma espécie de fotografia</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Rafael de Oliveira Fernandes</em></strong><em> nasceu em São Paulo, em 1981, é autor dos livros de poesia ”Menino no Telhado” e “Cadernos de Espiral” (ed. 7letras), e dos romances “Vista Parcial do Tejo” e “Baseado em Fantasmas Reais” (ed. Patuá).</em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivopalavraii-21/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 May 2021 22:04:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Bell Hooks]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[vinicius de oliveira]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=18853</guid>

					<description><![CDATA[Vinicius de Oliveira visita “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, de Bell Hooks 

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading"><strong>Do sentimento à ação: um olhar sobre a prática amorosa</strong></h4>



<h4 class="wp-block-heading"></h4>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Vinícius Gaudêncio de Oliveira</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-center"><figure><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Tudo-sobre-o-amor-novas-perspectivas-capa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-18857" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Tudo-sobre-o-amor-novas-perspectivas-capa.jpg" alt="" width="294" height="450" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Tudo-sobre-o-amor-novas-perspectivas-capa.jpg 294w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/Tudo-sobre-o-amor-novas-perspectivas-capa-196x300.jpg 196w" sizes="auto, (max-width: 294px) 100vw, 294px" /></a></figure></h4>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">As relações amorosas, sejam elas românticas ou comunitárias, têm sido impactadas diante do enfrentamento de males estruturais e estruturantes da sociedade, como o racismo e o patriarcado, elementos que operam através do domínio exercido pela força.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O combate ao racismo e a luta por igualdade de gênero, lutas legítimas e temas da ordem do dia, encontraram nas redes sociais um novo espaço público. Nesse sentido, as divergências entre amigos, familiares e até mesmo entre casais que vivem uma relação amorosa estão cada vez mais expostas, trazendo para o debate público a necessidade de uma autocrítica enquanto seres dispostos a abrir mão de relações opressivas, de maneira que o amor se manifeste de forma autêntica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, <em>“Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, </em>de Bell Hooks, dá uma substantiva contribuição ao debate, colocando o amor na centralidade das relações humanas: “Nós nos tornamos completamente humanos até que nos entreguemos uns aos outros no amor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro, primeiro da Trilogia do Amor, seguido de <em>Salvação: pessoas negras e amor e comunhão: a busca feminina pelo amor</em>, traz no capítulo 1 a importância de saber nomear o amor. O encaminhamento narrativo, sempre quando se referir a palavra amor, vai sugerir, para além de um forte sentimento, que o amor é a ação de comprometimento que promoverá crescimento mútuo. A autora, na sua busca pelo entendimento da palavra e pela palavra, traz definições intertextuais decisivas para formulação da sua tese, ao citar o psiquiatra M.Scott Peck, que vai dizer, no seu livro <em>A trilha menos percorrida: uma nova visão sobre a psicologia e o amor</em>, que o amor é “a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou de outra pessoa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desesperança, medo, solidão e desamor são elementos constitutivos e condicionantes da vida humana. Bell Hooks vai dizer, a partir da observação minuciosa do desespero de seus alunos, que a espiritualidade ajuda na superação de sentimentos de isolamento, proporcionando mais uma ferramenta na busca pelo amor, uma vez que ele, o amor, proporciona também elevação espiritual. “Todos precisam estar em contato com as necessidades de seu espírito. Essa conexão nos chama para o despertar espiritual para o amor’.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O capítulo 4, intitulado “Compromisso: que o amor seja o amor-próprio”, foi, segundo a autora, o mais difícil de escrever. Isto porque se faz uma confusão ao atribuir ao amor-próprio ideias equivocadas. “Precisamos parar de igualar covardemente o amor-próprio a egoísmo ou egocentrismo”. Não é difícil perceber nas redes socias essas ideias equivocadas. Basta observarmos páginas de influenciadores digitais de público majoritariamente feminino &#8211; que até formam redes positivas de acolhimento, de sororidade &#8211; mas por não saberem nomear o amor e entenderem que a base do amor-próprio é a prática amorosa, acabam passando uma mensagem distorcida e egocêntrica, desconsiderando que o amor-próprio genuíno é quando nos conhecemos e reconhecemos no outro aquilo que transborda da gente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A autora de<em> Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra </em>faz importantes considerações sobre a baixa autoestima, uma vilã da busca pelo autoconhecimento. Para isso, o livro aborda as seis dimensões para elevar a autoestima, dimensões propostas por Nathaniel Branden, no livro <em>Autoestima e seus pilares</em>. Chamo a atenção para a primeira delas, “a prática de viver conscientemente”, que vai significar pensar criticamente sobre si e sobre o mundo, nos ajudando a entender as transformações sociais ao longo do tempo e, fundamentalmente, &nbsp;buscando entender qual o nosso papel diante delas, nos aceitando e nos reconhecendo enquanto seres em permanente mudança e constituídos por dores, perdas e tristezas, mas também com capacidade de reinvenção e superação: “O coração ferido aprende o amor-próprio começando por superar a baixa autoestima”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após reconhecer as origens que levou a baixa autoestima, como socialização negativa, abusos e traumas, Bell Hooks fala da importância da atividade laboral na busca pelo amor-próprio, afirmando que, ainda que trabalhando com o que não gostamos, a única forma de lidar com a insatisfação é executar bem aquilo que nos é confiado, como melhor forma de lidar com as dores. A narrativa segue discutindo a relação entre vocação e dinheiro, e como podemos tirar proveito de situações as quais não nos agradam. Para isso, ela cita como o seu trabalho de cozinheira, do qual ela não gostava por odiar o barulho e a fumaça, se tornou uma oportunidade para realizar o seu sonho: “Trabalhar a noite me deixava livre para escrever durante o dia. Cada experiência aprimora o valor da outra”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Autora de <em>O Feminismo é para todo mundo, </em>Bell Hooks, ao falar de amor, dá uma consistente contribuição para o movimento feminista. Isso porque, embora militante fervorosa, a autora não cai no radicalismo de afirmar que o feminismo é um movimento que exclui o homem do debate, ao contrário, vai afirmar que a luta das mulheres por igualdade de gênero é, ao mesmo tempo, uma luta que vai combater a masculinidade tóxica que acaba por afetar também os homens: “A masculinidade patriarcal distancia os homens de sua identidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como o patriarcado é historicamente atravessado pelo desejo de poder, o feminismo é também, em última instância, a luta pelo resgate do amor genuíno. “Onde o desejo de poder é primordial, o amor estará ausente”. Nesse sentido, a honestidade diante da pessoa amada e o desejo de desconstrução de padrões machistas, nos quais os homens rigorosamente se inserem, são condições fundamentais para que o amor possa penetrar e encontrar terreno fértil, livre de opressão, fazendo com que o encantamento pela pessoa amada seja maior que o encantamento pelo poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em geral, quando falamos de amor, facilmente incorremos em clichês do tipo “felizes para sempre”, o que não ocorre em <em>“Tudo sobre o amor, novas perspectivas”. </em>Com uma linguagem simples, porém contundente, o livro assume a sua potência na medida em que define o amor sem apelar para uma autoajuda barata &#8211; e aponta caminhos consistentes para alcançarmos o amor, seja ele romântico, familiar ou entre amigos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na minha última resenha publicada nesta revista, falei sobre livro “O amor como revolução”, do pastor Henrique Vieira. Bell Hooks e Henrique conversam entre si e, através da palavra, concordam que é decisivo, se quisermos viver o amor genuíno, romper com padrões eurocêntricos de opressão, como o racismo, sexismo, exploração e preconceito religioso. Se a autora diz ser possível viver um grande amor sem ao menos ter contato com a pessoa amada, bastando que a prática amorosa eleve a si e o outro, por que os seres humanos, nas diversas relações de sociabilidade, ainda não são capazes se se abrir plenamente para o amor?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Vinicius Gaudêncio de Oliveira</em></strong><em> é carioca formado em Letras/Literatura.&nbsp; Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.</em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Gramofone</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-78/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 May 2021 14:27:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[144ª Leva - 04/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[disco]]></category>
		<category><![CDATA[Gramofone]]></category>
		<category><![CDATA[Larissa Mendes]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[O Grilo]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Você não sabe de nada]]></category>
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					<description><![CDATA[O disco inicial da banda O Grilo pelos ouvidos de Larissa Mendes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Larissa Mendes</em></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>O GRILO – VOCÊ NÃO SABE DE NADA</strong></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/capa-m.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/capa-m.jpg" alt="" class="wp-image-18847" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/capa-m.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/capa-m-300x300.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/capa-m-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>“(...) Faça como o grilo</em>
<em>Sem grilo canta pro seu bem chegar”</em>
<em>(4 Cabeça, Quem Canta)

</em></pre>



<p class="wp-block-paragraph">Se a adolescência é a etapa da existência que nos dá toda a coragem e certa petulância para enfrentar a tudo e a todos, é no início da vida adulta – e provavelmente durante toda ela – que nos damos conta de que “<em>por mais que a gente cresça, há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender</em>”, como diria Humberto Gessinger e seus <em>Engenheiros do Hawaii</em> em <em>Terra de Gigantes</em>, no já distante final dos anos 80. Mais de trinta anos depois, a banda paulistana <em>O Grilo</em> dispensa o apoio de <em>hey, mãe (!)</em> para reafirmar que ninguém sabe de coisa alguma. Composto atualmente por Pedro Martins (voz e composição), Felipe Martins, o “Fepa” (guitarra) <em>— </em>não, eles não são parentes! <em>—, </em>Lucas Teixeira (bateria) e Gabriel Cavallari (baixo), o grupo formado em 2017 (entre o final do Ensino Médio e o início da vida universitária) que queria fazer <em>covers</em> de música <em>indie</em> nacional passou por uma reformulação em 2019 e define-se hoje como um grupo de “Rock Popular Brasileiro”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de alguns <em>singles</em> e dois EPs lançados, o contagiante <em>Herói Do Futuro</em> (2017), com destaque para o hit <em>Serenata Existencialista</em> e de <em>O Grilo no Estúdio Showlivre — Ao Vivo</em> (2019), os meninos (sim, meninos; eles estão na faixa dos vinte e pouquíssimos anos) — que abriram o Lollapalooza Brasil 2019 (sonho de muito artista veterano) após vencer um concurso lançado pela Rádio Rock 89 FM — estão de volta. As 13 faixas autorais do disco de estreia <em>Você Não Sabe De Nada</em> (2021), gravado pelo selo Rockambole, foram produzidas pelo quarteto em parceria com Hugo Silva e alternam ritmos dançantes com momentos mais introspectivos. A sonoridade pop-tupiniquim mistura bossa, baião, <em>new wave</em>, <em>indie, pop, rock</em> e outros elementos brasileiros, que agora se apresentam de modo ainda mais intenso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A despretensiosa<em> Trela </em>(<em>o meu amor vem da terra e do mar/uma musa estendida na areia/anjo de um céu de estrelas do mar/um balé de mulher e baleia</em>)<em>, </em>primeiro <em>single</em> divulgado abre o álbum em ritmo de pop. A canção seguinte, <em>Guitarrada </em>(<em>é que eu sou mais eu, mas eu queria ser você/eu sou mais você/mas se você sou eu, agora eu quero te esquecer/eu quero me esquecer</em>), é um carimbó ou <em>forróck</em>, como a banda gosta de chamá-la e já tem videoclipe em fase de pós-produção. O samba-rock<em> Contramão </em>(<em>nada novo sob o sol/são aquelas mesmas mentiras/banhadas em formol</em>)<em>, </em>segunda música lançada, lembra de um carnaval de outrora, um amor entre coisa de cinema e quarta-feira de cinzas. Ainda há espaço para <em>Tudo e Mais um Pouco</em> e para a balada <em>Vou Levar. </em>A levemente vingativa<em> Meu Pior Amigo </em>(<em>eu só quero ver você cair/eu só vim pra ver, ver você cair/eu só quero ver você cair/em si</em>) manda um recado praquele alguém que você já guardou no lado esquerdo do peito e hoje figura no hall dos seus desafetos, enquanto <em>Infinito (-1) </em>(<em>vou partir o horizonte ao meio/vou me dividir/por todos os caminhos que eu quiser seguir</em>) passeia por caminhos mais experimentais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna.jpeg" alt="" class="wp-image-18848" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna.jpeg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/05/interna-300x200.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">O Grilo / Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na “mini-música”<em> Você Não Sabe de Nada</em>, <em>O Grilo</em> divide o refrão da faixa de pouco mais de 1 minuto e meio com diversos convidados, entre eles Gabriel Aragão, Reolamos e as bandas Maracatech e Pluma (da qual Teixeira também é baterista), o que é a deixa perfeita para a setentista<em> Meu Amor </em>(<em>meu amor/as coisas não precisam ser assim/pega uma lata de tônica, um copo de gin e vai dançar</em>)<em>, </em>que alterna refrão engraçadinho com uma crítica à indústria fonográfica, na qual “<em>a música mais bonita d’O Grilo tem que ter/um bilhão de curtidas/10 mil cópias vendidas/lotar estádios e avenidas/e tocar o coração das rádios Brasil afora</em>”. Se a vinheta<em> E daí, eu sei lá </em>prefere não opinar, eu me arrisco a dizer que ela é o abre-alas para o melhor bloco do álbum, composto pelas três últimas canções: a disco<em> Adeus (não dá pra esquecer alguém como você/mas bem que eu queria/o que te encanta em mim é você/sempre foi você e eu sabia/mas resolvi não me abandonar), </em>que ganhou até coreografia oficial no <em>TikTok</em>; a festiva<em> Onde Flor (onde flor não for jardim/eu não vou, eu sou assim/algo que não cabe mais em mim/ôô, eu quero viver um grande amor/e morrer de saudade), </em>que pode figurar ao lado de <em>Todo Carnaval Tem Seu Fim</em>, do Los Hermanos no catálogo de canções-foliãs que alegram nosso “carnaval fora de época” instantaneamente; o belíssimo bônus-track de voz e violão<em> Malabarista de Granadas (malabarista de granadas/me conta quantas fardas você já vestiu/pra manter a cabeça ocupada/enquanto o mundo te estraçalha como um tiro de fuzil)</em>, que finaliza o álbum com toda a doçura que pode haver na voz de Pedro Martins.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Responsável pelo projeto gráfico da obra, o cartunista Pietro Soldi idealizou também um livro que acompanha o disco. O personagem central de <em>Você Não Sabe De Nada</em> – o livro, é Lauro, sujeito de poucas palavras que traz em sua personalidade características físicas ou psicológicas de cada um dos integrantes da banda. Lauro já deu o ar da graça em 2020 nas capas dos três <em>singles</em> lançados: <em>Trela, Meu Amor </em>e<em> Contramão</em>. Além das tirinhas, o livro traz ainda cifras, fotos e canções comentadas, com direito a rabiscos, anotações e muita criatividade (revelada inclusive à luz negra). Os integrantes são bastante atuantes nas redes sociais e chama atenção a constante interação com seu público, seja através de <em>lives</em>, <em>posts,</em> <em>tweets</em> ou dancinhas no <em>TikTok</em>. Ou mais especificamente em seu <em>podcast (</em>ou melhor, <em>Grilocast) </em>e no canal no YouTube (o <em>GriloTube)</em>, com destaque para <em>Você Não Sabe de Nada — o Mini Doc</em>. Aproveitando o lançamento de VNSDN no final de março, os músicos têm disponibilizado em seus <em>stories</em> do <em>Instagram</em> cifras das canções no violão, comentários sobre as inspirações das faixas, enquetes e versões das músicas feitas por seus fãs. O Grilo está mais falante, dançante, maduro e criativo do que nunca. E é só o começo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/QtNyAhoMl_Q" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;<strong>Larissa Mendes</strong> se identifica com Lauro e tampouco sabe de muita coisa.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
