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	<title>145ª Leva &#8211; 05/2021 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<description>entre caminhos e palavras</description>
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	<title>145ª Leva &#8211; 05/2021 &#8211; Diversos Afins</title>
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		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 15:16:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[145ª Leva]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 145ª Leva – 15 anos de revista ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/PAULA-DE-AGUIAR-7.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="435" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/PAULA-DE-AGUIAR-7.jpg" alt="" class="wp-image-19112" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/PAULA-DE-AGUIAR-7.jpg 435w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/PAULA-DE-AGUIAR-7-261x300.jpg 261w" sizes="(max-width: 435px) 100vw, 435px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Paula de Aguiar</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O agora longínquo ano de 2006 lançava as bases iniciais da nossa caminhada com a Diversos Afins. Àquela época, ainda se percebia certa efervescência em torno dos <em>blogs</em> pessoais de autores e artistas dos mais variados. Eram espaços que se propunham a exprimir conteúdos demarcadores de liberdade criativa e que também alimentavam trocas entre os seus articuladores. Por seu curso, havia um quê de incipiência nas redes sociais de então, pois estas não possuíam a pujança informacional e interativa de que hoje são as mais alvissareiras representantes. As possibilidades de leitura não desfrutavam ainda dos inúmeros aparatos tecnológicos tão típicos da era da mobilidade. Certamente, também não vivenciávamos ali o estado de hiperconexão ao qual estamos enredados no tempo presente. Uma vastidão de coisas se processou de lá para cá. Na seara eletrônica, vimos surgirem projetos editoriais de fôlego, envolvendo gente com garra suficiente para trilhar caminhos valiosos em torna da Literatura e das Artes. Testemunhamos um sem fim de autores e artistas se aproximando do nosso convívio, ofertando para a revista não somente a qualidade de sua potência criativa, seus textos e imagens, mas principalmente um rico diálogo de vida. Todos eles foram e são responsáveis pela Diversos Afins que construímos. Celebrar 15 anos de existência é lembrar travessias e encontros, todos eles movidos pelo encantamento em se percorrer as vias culturais. Nesse momento, nossa memória editorial evoca a pluralidade de vozes que por aqui compartilharam conosco a expressividade de suas visões de mundo. As veredas da arte são arrebatadoras quando nos propõem visitas a lugares outros, desarmados de certezas, dotados de irreverência, tomados pela beleza e também pela inquietude. O saldo do presente é imensurável aos olhos e sentidos, sendo que a gratidão se faz tamanha. A revista é verdadeira família edificada ao longo dos anos, gesto coletivo que engendra existências, gira mundos no mundo. E não seria possível nunca esquecer quão importantes são os laços estabelecidos e as pessoas que desejam seguir adiante conosco, viabilizando cenários de atuação em benefício de outras palavras e imagens mais. Nossa edição atual é dedicada à memória de <strong>Vicente Franz Cecim</strong>, escritor das paragens amazônicas que em muitas ocasiões descortinou andanças míticas e especiais entre nós. Assim, chegamos a 145 levas pensando um menu de arroubos de vida. E no traçado poético de tal celebração, estão presentes agora os versos de <strong>Roberta Tostes Daniel</strong>, <strong>Gabrielle Dal Molin</strong>, <strong>Jéssica Iancoski</strong>, <strong>Constança Guimarães </strong>e <strong>Sílvia Barros</strong>. Numa entrevista bastante especial, o poeta capixaba <strong>Jorge Elias Neto </strong>acentua aspectos importantes sobre o seu modo de pensar a Literatura e a contemporaneidade. São de <strong>Sandro Ornellas</strong> as impressões atentas sobre “Pulsares”, livro da poeta <strong>Lílian Almeida</strong>. Desbravando novos territórios sonoros, contamos com a resenha de <strong>Larissa Mendes </strong>para o disco “Lonjura”, do cantor e compositor pernambucano <strong>Juvenil Silva</strong>. Adentram conosco os bem elaborados nichos da prosa os contos de <strong>André Mitidieri</strong>, <strong>Adriano B. Espíndola Santos </strong>e <strong>Marcus Vinícius Rodrigues</strong>. Com suas escolhas sempre aguçadas, <strong>Guilherme Preger </strong>traz à baila o seu olhar para “Druk”, longa dinamarquês que ousa tocar em delicados pontos da condição humana. Com riqueza habitual de detalhes, <strong>Gustavo Rios </strong>mergulha habilmente no universo de “Riviera”, romance de <strong>Rodrigo Melo</strong>. Como é de costume em todas as nossas edições, as artes visuais tomam conta dos recantos da nossa leva de aniversário. Desta feita, estão conosco as poéticas ilustrações de <strong>Paula de Aguiar</strong>, contemplando nossos espaços com seu peculiar olhar sobre a vida. E assim debutamos na estrada cultural desejando que, mais uma vez, nossos leitores sejam abraçados pelos diálogos aqui propostos. Bons mergulhos a todos!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
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		<title>Aperitivo da Palavra I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitvopalavrai/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 15:03:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Dizeres Alegres]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Lílian Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Sandro Ornellas]]></category>
		<category><![CDATA[versos]]></category>
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					<description><![CDATA[Sandro Ornellas trilha vias em “Pulsares”, livro de Lílian Almeida 

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>DIZERES ALEGRES</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong><em>Por Sandro Ornellas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/CAPA-PULSARES.jpg"><img decoding="async" width="298" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/CAPA-PULSARES.jpg" alt="" class="wp-image-19074" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/CAPA-PULSARES.jpg 298w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/CAPA-PULSARES-199x300.jpg 199w" sizes="(max-width: 298px) 100vw, 298px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Pulsares</em> é o segundo livro de Lílian Almeida, primeiro em versos, pois o anterior, <em>Todas as cartas de amor</em>, foi uma ficção poética. Publicado em 2019 pela Caramurê, divide-se em três partes: “Pulsares”, “Siderações” e “Eclipses”. São poemas curtos, à maneira de pequenos quadros carregados de lirismo e de certa forma organizados tematicamente em cada uma das partes. Cada uma delas parece desenhar uma mitologia específica da poeta, embora também possuam traços em comum na brevidade, nos versos curtos, no ritmo das imagens, sempre tendendo à construção de uma cosmologia poética muito pessoal, mas ao mesmo tempo inteligível pelo leitor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na primeira parte, a maior delas e homônima ao livro – ou seja, de alguma maneira a que orienta as demais ao longo da leitura – é onde percebemos alguns dos elementos mais característicos do lirismo de Lílian nesse livro: uma busca por associar, pelas palavras, o sujeito a elementos da natureza. Não que aquele seja constituído por estes, mas que ambos são aproximados como semelhança em suas constituições, como em “A imensidão das folhas / é silêncio de palavras”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a presença da natureza na poesia de Lílian não se limita a elementos do ambiente. Sua subjetivação se dá <em>pari-passu</em> a certos rimos e processos naturais, como no poema que abre o livro, “Crisálida”: “Grávida do ser que me habita / vou parir a mim mesma. / Outra. // Quando a lua anunciar negruras / já serei o que sou. // [&#8230;]”; ou em “Fiat lux”: “A vida é o acender / e o apagar / da luz”; ou ainda em “Tuaregue”: “Tempestade de areia / açoita a alma / em desafio. // O sentido de seguir / inalienável / à revelia de qualquer intempérie. // Viver é deserto”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa cosmologia se aterrará na segunda parte do livro “Siderações”. Antes, no entanto, quero ainda me deter nos dois últimos poemas de “Pulsares”, intitulados “Contemplação do infinito I e II”, nos quais percebemos um pouco da técnica de composição de Lílian. No primeiro, vemos três breves fragmentos se sucedendo e montando quadros que não se seguem ao modo de uma narrativa, mas se sobrepõem ao modo de fotografias em discreto diálogo, tanto que poderiam funcionar independentes, uma estrofe da outra, quanto em conjunto: “Fugaz passar de nuvens / em coração de menino. // Olhar pousado / em passado presente / de tanto chorar. // O azul derrama memórias / guardadas / no peito do céu”. Mas mesmo não construindo narrativas, a poesia de Lílian formula o que posso chamar de imagens em movimento, como na primeira estrofe do segundo poema da série, onde lemos: “Levita na tarde / um coração azul / mas rubro”, lembrando-nos que poesia é precisamente esse uso mágico da linguagem – “um coração azul / mas rubro” – fazendo um coração mudar de cor bem diante dos nossos olhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Disse acima que a cosmologia da primeira parte se aterraria na segunda, “Siderações”. Pois é quando “a memória / das estrelas”, do poema que abre a segunda parte se transforma no primeiro verso do poema seguinte “Saudade”: “há um cheiro de saudade nesta casa”. Da memória para a saudade, das estrelas para a casa, a ancestralidade ausente se faz presente no “chão”, “no varal”, “nas roupas”, nas “mãos da mulher”, “na cidade alba”, “na rua marechal mallet”, nos “pneus dos automóveis”. Afinal, toda ancestralidade, bem como toda poesia que se preze, é sempre o instante da “Presença”: “Os meus passados / passam-me / de trás para frente / em busca de futuros / cheios de agora.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não é só isso em “Siderações”, pois um poema como “Capoeira” ratifica o que disse anteriormente sobre os quadros montados pelos versos de Lílian: “O golpe girou no ar. // Açoite nas pernas / – velocidade e precisão. / Dorso no chão, / pés no alto: / rendição”. Quase homônimo de “o capoeira”, de Oswald de Andrade, a “Capoeira” de Lílian Almeida possui em seus três últimos versos a mesma imagem em movimento do poema oswaldiano no verso derradeiro. Tanto o último de Oswald (“pernas e cabeças na calçada”), quanto os últimos de Lílian (“Dorso no chão, / pés no alto: / rendição”) não possuem qualquer verbo, malgrado imporem ao olhar do leitor uma forte impressão de movimento dos substantivos que os compõem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora a terceira parte do livro, “Eclipse”, é claramente a seção erótica do poema, lembrando-me em alguns momentos a poesia da angolana Paula Tavares na conjunção erótica entre elementos naturais e o corpo feminino: “Concha aberta / engole mar proeminente. // Pérolas líquidas cintilam / mistérios gozosos / ao entardecer”. Mas o erotismo da poesia de Lílian é muito mais intenso do que o de Paula, com “Explosão de mares / em pernas fendidas / fundadas / no espesso amor / sobre os lençóis.” O que se tem aí é uma poesia erótica, e por isso, transgressora de leis morais que historicamente ligam o corpo da mulher a um território controlado pela sociedade patriarcal. Lílian Almeida toma posse do seu corpo e das palavras para dizê-lo sem esses interditos, como em “Aurora”: “floriu vermelho / meu sexo / na tua boca / de vontades azuis”. Ao romper os limites do interdito, Lílian faz da sua palavra poética instrumento para ditos alegres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não importando o assunto de um poema, todo bom poema é sempre feito de dizeres alegres, pois rompe com a mera função de comunicar o que quer que seja e vai ao cerne da palavra tirar dela o que há de mais vivo e mais comum, não o comum da comunicação, mas o uso comum da linguagem, aquele absolutamente livre de um sentido único, uma reta, um único uso. O uso comum é um uso qualquer. É justo aí que percebo a alegria da poesia de Lílian: pequenas frases, versos, estrofes e poemas que são como potências indicadoras de caminhos luminosos, como diz seu próprio título <em>Pulsares</em>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Sandro Ornellas</em></strong><em> é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-77/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 14:28:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval no Abismo]]></category>
		<category><![CDATA[Gabrielle Dal Molin]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Seiva]]></category>
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					<description><![CDATA[O silêncio percorrendo as linhas de Gabrielle Dal Molin]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Gabrielle Dal Molin</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-5.jpg"><img decoding="async" width="435" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-5.jpg" alt="" class="wp-image-19067" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-5.jpg 435w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-5-261x300.jpg 261w" sizes="(max-width: 435px) 100vw, 435px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Paula de Aguiar</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>RUAS DA MEMÓRIA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">silencio os estilhaços<br />
das pequenas tragédias<br />
semeando delícias<br />
todos os dias<br />
os homens criam apocalipses<br />
enquanto procuro os parques da minha infância</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>CARNAVAL NO ABISMO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">arisco feitiço</p>



<p class="wp-block-paragraph">nosso tempo é desse silêncio<br />
forte<br />
feito o mar sem grito</p>



<p class="wp-block-paragraph">é menor do que eu penso</p>



<p class="wp-block-paragraph">arrisco chamar de amor<br />
um carnaval nesse abismo</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>AMARGO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alcançar a tristeza dos dias<br />
Puxar a tristeza dos dias como um cobertor<br />
Para cobrir o corpo talvez cansado<br />
De estar exposto à alegria sem motivo<br />
E a esse calor constante<br />
É possível ser triste perto do Equador<br />
É até comum<br />
Embora finjam que o Carnaval nos livre<br />
A liberdade e a tristeza se amam<br />
É preciso se dar o direito de chorar<br />
Muitos vivem presos na felicidade<br />
Aquele riso colado entre os dentes<br />
Colocar no café<br />
a tristeza ao invés do açúcar<br />
O amargo liberta a língua<br />
de ter que ser feliz sempre</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>OS PÉS NA TERRA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">minha avó anda firme com os pés na terra<br />
na beira do rio<br />
no silêncio do coração da mata<br />
no peito que bate na mangueira<br />
que abriga o espírito de uma grande mulher<br />
ela se lembra<br />
que seu pai rezava os bichos picados de cobra<br />
e que ele salvou seu cachorro<br />
meu bisavô que não sei o nome<br />
tem minha bênção onde quer que esteja<br />
minha tia que é mãe e avó e mãe duas vezes<br />
lembra que meu avô<br />
seu pai<br />
lhe deu os nomes das árvores<br />
quando pergunto ela me dá<br />
o nome da candeia e da quaresminha<br />
diz que vai lembrar o da flor amarela que agora não<br />
consegue<br />
confirma com sua mãe<br />
minha avó<br />
que seu pai sabia das plantas porque era reiseiro<br />
minha avó<br />
filha de rezador e mulher de rei<br />
em suas veias<br />
que hoje parecem coladas por cima da pele<br />
já passaram folhas<br />
filhos<br />
vida e morte<br />
seu cachorro ofendido pela cobra<br />
por sorte foi salvo<br />
e em meio a tantas outras<br />
ela também não foi ofendida<br />
mas perdoaria se fosse</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ENTRE TUAS ÁGUAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">esse mar de navegar no escuro<br />
é língua<br />
sobre terra firme</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>MÃOS DE MÃE</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">entre as selvagens passagens do tempo<br />
tenho notado que minhas mãos<br />
estão ficando iguais às da minha mãe<br />
as veias saltadas<br />
herdadas da minha vó<br />
os dedos grossos<br />
tortuosos como caules do cerrado<br />
as unhas maciças feito ardósia<br />
— gatázios prontos para a vida —<br />
entre os cabelos brancos das marias<br />
tenho notado que minhas mães<br />
de dentro e fora da matéria<br />
têm os pés da cor da terra</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Gabrielle Dal Molin</em></strong><em> nasceu em 1987, em São Paulo. Viveu no interior deste estado até se mudar para o Rio Grande do Norte. É professora de História, mestre em Antropologia e doula. Além de poemas, escreve sobre as vivências de ser mãe, bissexual e não monogâmica. Seu primeiro livro de poesia,&nbsp;“Seiva”&nbsp;(Ed. Multifoco) foi publicado em 2017 e o segundo,&nbsp;“Carnaval no Abismo”,&nbsp;acaba de ser publicado pela Munganga Edicões,&nbsp;contemplado pela Lei Aldir Blanc, através da Fundação&nbsp;José Augusto, do Governo do RN.&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-73/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 14:18:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Adriano B. Espíndola Santos]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Divina]]></category>
		<category><![CDATA[lembranças]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[Um fio de lembranças no conto de Adriano B. Espíndola Santos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Adriano B. Espíndola Santos</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-6.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="354" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-6.jpg" alt="" class="wp-image-19105" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-6.jpg 354w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-6-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 354px) 100vw, 354px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Paula de Aguiar</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Divina</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Divina, com o nome que faz jus, era a apoteose do escalão dos deuses. E a redundância, que atiça os sentidos, é justamente pela ausência de palavras que a descrevam: divina. Digo, com a pureza de uma nascente, ela foi a minha primeira e verdadeira paixão. Sim, dos tempos de escola – que extrapolou para a vida. Alguns até me chamavam de louco: “Como pode, Sebá, você amar uma mulher vinte anos mais velha?!”. Mamãe, no entanto, achava bonitinho, um amor infantil, quando, mal sabia, me contorcia indócil no banheiro, sentindo o seu cheiro penetrar por todos os meus poros, do qual guardo a essência, presentemente, o perfume de jasmim. Papai, provocado pelo ânimo de ter um filho macho, “raçudo”, como dizia, atolava-me com revistas de mulher pelada; uma coleção de fazer inveja ao Marcos, que se vangloriava de seu pai fazer a assinatura da <em>Playboy</em>. Eu não queria saber nada daquilo; sexos escancarados, sodomizados, que me deixavam penalizado, amuado, com o sofrimento daquelas mulheres em posições circenses. Para mim, somente Divina. Maria Divina Assis dos Santos, seu nome completo. Foi a minha professora de português, na quinta e sexta séries. E, por ela e para ela, me converti num leitor contumaz, num crente da religião literária, para demonstrar-lhe do que era capaz. Mal ela chegava em sala e já me avocava, com um leve sinal, para saber qual era a novidade, que leitura estava fazendo no momento. Para impressioná-la, lia os clássicos da literatura brasileira, de Machado a Lispector, e me atrevia, ainda, aos grandes da literatura mundial, sobretudo dos séculos XIX e XX, como Dostoiévski, Tchekhov e Woolf. A professorinha, a mais linda dos séculos e séculos, posso acreditar, parava a aula para dizer aos meus coleguinhas que seguissem o meu exemplo e se dedicassem a ler não só a literatura recomendada pela escola, mas buscassem almejar “novos campos; verdes e imensos”; que devíamos conhecer os sabores e as liberdades conferidas pelo universo das letras. Houve um tempo em que o meu estado de ansiedade ultrapassou o razoável, com o que estava acostumado; podia ver-me, claramente, para além das nuvens, atônito: Divina estava doente e não viria à escola por, pelo menos, duas semanas ou, quiçá, um mês. Não nos comunicaram qual era a maldita doença; o que poderia suceder dessa catástrofe. Eu tentava elucidar, pelas mínimas sugestões, e em tudo me vinha à mente a gravidade de um problema cardíaco, pois que era muito lívida e miúda, pequenina e bonita como um lírio. Antônio, o mais espevitado dos garotos, logo que percebeu o meu tormento relatou uma mentira das grandes, mas que me fez cair ainda mais no poço da discórdia interior: Divina estava no hospital, sofrendo com as dores do parto. Mas como, se ela nem demonstrara estar grávida ou coisa do tipo? Que canalha a teria deflorado, tão pura que era? O carrasco queria mesmo me agoniar, como se ela tivesse e fosse dada a qualquer sujeitinho. E essa troça rápido se desfez, porque a constatação veio em forma de circular, direcionada aos pais. “Prezados pais, a Sra. Maria Divina dos Santos, professora de língua portuguesa, das turmas da quinta e sexta séries, está acometida por uma forte gripe e ficará afastada, para a sua segurança e também dos alunos, por cerca de um mês, até desaparecem todos os sintomas e, por conseguinte, os riscos. Contudo, no período, os discentes serão assistidos de perto pela direção do colégio, pela professora e coordenadora Mirtes, sem qualquer prejuízo no conteúdo. Gratos pela atenção, a Direção”. “Que troca absurda!” – pensei, revoltado. Mirtes teria sido minha professora em dois momentos, na segunda e quarta séries, nas disciplinas de ciências e estudos sociais. Ela tinha um quê militar, e, o pior, de megera desalmada. Tratava-nos com o mesmo prestígio que se trata um rebanho de bois. Quando ministrava as suas aulas, no mais das vezes, não levantava sequer os olhos para nos encontrar; aplicava os exercícios de maneira indiscriminada, para ganhar tempo, e, no fim, fazia-nos passar vergonha, tendo de ir à frente da sala explicar, tintim por tintim, sobre o que teríamos entendido do material. Vale salientar: em regra, o citado material era um calhamaço de vinte páginas, no mínimo, artigos científicos, que, por vezes, não chegavam à compreensão do mais esforçado dos alunos: eu. Olhavam-me com olhos de ajuda, suplicantes para que os tirasse da enrascada. Eu tinha pena e me juntava aos menos favorecidos, aos excluídos e discriminados pela falta de atenção. Jeferson, Cássio e Tânia, por exemplo, apesar de serem espertos – não bagunceiros, propriamente –, demonstravam certa dificuldade de concentração, por isso se ligavam a mim. Sempre eu e mais um ou uma ficávamos com a incumbência de esclarecer à turma o conteúdo dos trabalhos científicos. Ainda assim, por mais que nos esforçássemos, não seríamos capazes de decifrar os signos egípcios, se nem ao menos tínhamos base para isso. Quando os trabalhos degringolavam, Mirtes, como um furacão, caía sobre nós, dizendo que éramos lerdos e desinteressados; e, com isso, alertava-nos que teríamos uma “provinha” na próxima aula. E qual era o conteúdo? Ciências e estudos sociais; nada de português. Bem, numa dessas, me safei com palavras difíceis, como a algoz gostava. Ou seja, nem mesmo ela entendia o que tinha perguntado. Pedíamos aos céus com tanto ardor, para que a nossa mestra voltasse, pela sua recuperação, que fomos consideradas as crianças rezadeiras. Havia um revezamento na capelinha da escola, nos intervalos e nas horas da saída. Num dia radiante, Divina nos surpreendeu no meio de uma aula maçante da Mirtes. Apareceu como uma luz: divina. E disse que estava morrendo de saudade. E que já estaria conosco no segundo período do dia; lembro até hoje dessa data: cinco de setembro de 1994. Nada mais que a agoniante Mirtes falava valia a pena. As provas e os castigos seriam apagados com o sopro celestial de nossa deidade maior. O meu alívio, especialmente, foi em reconhecer em Divina a esperança, o amor renascido. Ela estava esplêndida, com roupas mais leves, encantadas, que me levavam a outro plano. No retorno do recreio, não conseguíamos nos acalmar com a música de acolhida, que era uma estratégia aplicada pela direção para esfriar os nervos. Olhávamos para ela, felizes e gratos, com sorrisos que eram propriamente abraços – eu ainda mais. Ela entendeu e nos cobriu de paz, com o poema Regresso, de Miguel Torga. Sabíamos que, ali, estávamos enfim seguros. Mas, a mim, desandou o calor de uma partida, pois que o ano estava terminando. Só eu, com as minhas íntimas aflições, fiquei enterrado na cadeira, quando a hora da aula acabou. “Você não ficou feliz com a minha volta, Sebastião?”. “Sim, professora; sim! Mas lembrei que o ano está terminando, e…”. “Não se preocupe, querido, estarei sempre aqui. E a literatura será a nossa mãe protetora”. Deu-me um beijo demorado na testa, que, até hoje, estala entre desejos e vontades. Onde estará o meu amor, Divina?</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Adriano B. Espíndola Santos</em></strong><em> é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. </em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Gramofone</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-79/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 14:12:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[disco]]></category>
		<category><![CDATA[Gramofone]]></category>
		<category><![CDATA[Juvenil Silva]]></category>
		<category><![CDATA[Larissa Mendes]]></category>
		<category><![CDATA[Lonjura]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[Pernambuco]]></category>
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					<description><![CDATA[Larissa Mendes e seu deleite em “Lonjura”, disco de Juvenil Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Larissa Mendes </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>JUVENIL SILVA – LONJURA</strong></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/capa-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/capa-1.jpg" alt="" class="wp-image-19050" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/capa-1.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/capa-1-300x300.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/capa-1-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>
“E o médico perguntou: o que sentes? Sinto lonjuras, doutor. 
Sofro de distâncias”.
(Denison Mendes)

</em></pre>



<p class="wp-block-paragraph">A frase perfeitamente aplicável a nossa realidade nestes últimos anos dá a tônica do que é transformar o sentimento de sozinhez em arte. E se “todo mundo é uma ilha” nesse período pandêmico, o criativo, multifacetado (e boa praça) artista pernambucano <strong>Juvenil Silva</strong> – que figura há praticamente duas décadas na cena <em>underground</em> – é um arquipélago inteiro. O “compositor, tocador e cantante” como define a <em>bio</em> do músico no <em>Instagram</em>, iniciou sua trajetória na banda Canivetes e hoje, além de sua carreira solo lançada com o álbum <em>Desapego</em> (2013) – sucesso de público e crítica – mantêm os projetos <em>Dunas do Barato</em>, <em>Avoada</em> e <em>FREVO 70</em>, ao lado de outros artistas<em>. </em>Juvenil tornou-se conhecido também – ainda que não se considere exatamente um produtor cultural – por comandar por 10 anos, em Recife, <em>A Noite do Desbunde Elétrico</em>, conhecido como “o festival anual de <em>rock</em> independente ou a noite mais doida do ano”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Lonjura</em> (2021), seu quarto trabalho solo, foi registrado à distância durante o início do isolamento social, praticamente sem ensaios e com músicos alastrados pelo país (e até mesmo no exterior, caso de Marcos Gonzatto da clássica banda curitibana Faichecleres, que participou de Londres). Transitando entre <em>folk </em>e <em>pop</em> psicodélico, o EP sucede os álbuns <em>Super Qualquer no Meio de Lugar Nenhum</em> (2014) e <em>Suspenso</em> (2018). As 6 faixas versam sobre a incerteza e distopia do futuro, mantendo o mesmo olhar crítico e sarcástico habituais na obra de Juvenil Silva, porém, desta vez, em uma atmosfera mais melódica e melancólica.</p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/interna.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="334" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/interna.jpg" alt="" class="wp-image-19049" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/interna.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/interna-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Juvenil Silva / Foto: Thaís Rodrigues</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A balada,<em> a la </em>Jovem Guarda<em>, Dias Impossíveis (olha, nesses dias impossíveis/onde o medo anda na moda/empatando a foda, risos, laços, nós/quero que você tome cuidado)</em>, parceria com o paraibano Seu Pereira, composta logo nos primeiros momentos de quarentena e lançada em março, elucida a aura pós-apocalíptica que tem pairado sobre nossos dias. A faixa ganhou ainda um simpático “videoclipe coletivo”, editado a partir de vídeos enviados por seus fãs. <em>Alpinismo</em> <em>(e eu também já desci, já desci/e me esqueci como eram os sonhos/que mesmo com asas cortadas podia voar)</em>, outra parceria, dessa vez com Guilherme Cobelo, vocalista da banda brasiliense Joe Silhueta, é um <em>folk</em> animadinho que tece uma crítica à escalada social. <em>Horários Bagunçados (ando com os horários bagunçados/tesão desregulado/cabeça sem lugar/gaveta que nem fecha/cinzeiro a transbordar/você me acalma) </em>– talvez uma das mais belas canções do EP – aborda a nova dinâmica afetiva desses tempos obscuros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A malemolente <em>Regalia (na periferia não tem regalia/ você sabe, mas não sabe como é/um supermercado inteiro ele cabe na barriga/mas não cabe nem metade, da metade da metade, no meu bolso)</em>, primeiro <em>single</em> divulgado ainda em 2020, filosofa sobre o “idealismo burguês” e parece ter profetizado a alta dos preços. A balada<em> Você Mulher (eu queria te dizer/coisa pra caramba/da minha cabeça/eu queria mesmo era saber/como você anda/tudo que fez hoje/e desde que nasceu) </em>é uma sincera declaração de amor e saudade. Aliás, a canção recentemente ganhou um belíssimo videoclipe, ou melhor, “uma fotonovela audiovisual” escrita, dirigida e estrelada pela <em>trans</em> colombiana Ava Reyna Bárbara e composta por mais de 2 mil fotos. A dramática <em>O Mal de Nós Mesmos (quem fica com cara pra cima não enxerga tão bem/quem cai com a cara no chão já percebe melhor) </em>encerra o disco com um <em>blues</em> tropicalista num diálogo entre o bem e o mal que habita em cada um de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Disponível em todas as plataformas digitais,<em> Lonjura</em> possui também uma “versão comercial” com três faixas bônus (para adquirir, basta entrar em contato através do <a href="https://www.instagram.com/juvenil_silva/"><strong><em>Instagram</em></strong></a> do artista). Tal versão segue o projeto <em>Discos Off-line</em>, que já rendeu os EPs <em>Isolamento Acústico Vol. 1 e Vol. 2, Não Amolem os Canivetes</em>, <em>Cinzas de Um Ano Morto, Calendário dos Sonhos </em>e o novíssimo<em> Farol das Esperanças</em>. Trata-se de discos que não são lançados nas plataformas de <em>streaming</em>, disponibilizados exclusivamente via <em>e-mail</em> com as faixas em <em>wav/mp3</em> e encartes com fotos e letras mediante o “pague quanto puder/quiser”. Vale ressaltar ainda que além do EP, Juvenil acaba de lançar, em parceria com o jovem músico Tonho Nolasco, o selo musical <em>Plurivox</em>.&nbsp; A dupla prevê o lançamento de novos artistas tão logo seja concluído seu estúdio que está em fase final. Cria, agrega, resiste e voa, Juvenil, que “<em>voar não se limita em romper as nuvens</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/6YYAF8lGRSM" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Larissa Mendes</em></strong><em> também sofre de lonjura, Dr. Juvenil. Inclusive de lonjura dos editores Fabrício Brandão e Leila Andrade, que me impedem de abraçá-los pelos 15 anos de arte, cultura e Diversos Afins. </em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iv-81/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Aug 2021 15:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[a mulher espera]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Poemas para meu corpo nu]]></category>
		<category><![CDATA[Sílvia Barros]]></category>
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					<description><![CDATA[O ciclo de poemas ”A mulher espera” por Sílvia Barros]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Sílvia Barros</em></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="435" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-3.jpg" alt="" class="wp-image-19043" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-3.jpg 435w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-3-261x300.jpg 261w" sizes="auto, (max-width: 435px) 100vw, 435px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Paula de Aguiar</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentir fúria, banzo<br />
Certeza e espanto<br />
Meus direitos inviolavelmente<br />
Humanos.</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">Embora fraca<br />
Sigo firme<br />
Embora feia<br />
Sigo bela<br />
Embora viva<br />
Sigo morrendo<br />
Todo os dias pelos corpos<br />
Que desabam</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora seja infinito o céu<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>Sigo sendo<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>Apenas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>Uma<br />
<span style="color: #ffffff;">.</span>Nuvem</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é porque há guerra<br />
&#8212; e porque me juntei à falange –<br />
Que não possa desejar<br />
Um minuto de paz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">Se a vida não é<br />
Uma guerra<br />
Ou uma eterna escavação<br />
Nas entranhas<br />
De uma história<br />
Que começou<br />
Nem sei quando.<br />
Então estou<br />
Depositando cada miligrama<br />
De energia<br />
Numa ideia completamente errada<br />
Do que seja a existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Continuar<br />
(trabalhando, dormindo, sonhando)<br />
Como se tudo tivesse acontecido.<br />
Não me preocupo<br />
Se vai passar ou não<br />
– passar é rastro incontornável do tempo –<br />
Quero saber quem vai ficar<br />
E como fazer<br />
Uma vida de novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mulheres que se deitam<br />
Com os gatos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes com livros nas mãos<br />
Noutras com olhos cansados<br />
E corpos paralisados de futuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>Os lobos que se virem.</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltar para o corpo<br />
Quando uma mulher tem filhos<br />
Voltar para o corpo<br />
Quando a alma se desloca e voa<br />
Voltar para o corpo<br />
Quando a mente desassocia<br />
Voltar para o corpo<br />
Depois que engorda<br />
Voltar para o corpo<br />
Quando nunca deveria ter partido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Nasci em Natal, RN, mas cresci e vivo na cidade de Niterói, RJ. Sou professora por formação e escritora por nascimento. Atuo na educação básica e na pós-graduação. Sou doutora em literatura brasileira pela UFRJ, tenho três publicações individuais: “O belo trágico na literatura brasileira contemporânea” (ensaio), “Em tempos de guerra” (poesia) e “Poemas para meu corpo nu” (poesia). Tenho também participação em diversas antologias como Cadernos Negros volumes 41 e 42 e Negras Crônicas. Escrevo quinzenalmente a coluna Travessia, para a revista Ruído Manifesto. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Dedos de Prosa III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosaiii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Aug 2021 14:19:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Ilhéus]]></category>
		<category><![CDATA[Marcus Vinícius Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
		<category><![CDATA[rio Almada]]></category>
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					<description><![CDATA[O sensível fio da memória no conto inédito de Marcus Vinícius Rodrigues]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Marcus Vinícius Rodrigues</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Do-interior.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="435" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Do-interior.jpg" alt="" class="wp-image-19109" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Do-interior.jpg 435w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Do-interior-261x300.jpg 261w" sizes="auto, (max-width: 435px) 100vw, 435px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Paula de Aguiar</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EU NUNCA ATRAVESSEI O RIO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu nunca atravessei o rio Almada. Estive sempre em sua margem brincando no raso enquanto meus irmãos se aventuravam mais fundo, onde meus pés não alcançavam. Um fundo ainda raso porque, embora maiores, eles eram, como eu, crianças. Mas podiam nadar e mergulhar por baixo das canoas. Penso que poderia, também, fazer aqueles mergulhos. Uma vez eu tentei, mas parecia tão larga aquela canoa. Não tive coragem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minhas brincadeiras eram naquela beirinha em que o cobre do rio ficava mais transparente, como se um pouco de mel tivesse sido dissolvido na água. Eu sentava sentindo o sol nas costas e a água fresca nas pernas. &nbsp;Ali as piabas chegavam bem perto. Eu tentava cercá-las como quem pastoreia vacas no curral. Elas eram mais rápidas. Escapavam como as galinhas do quintal de minha avó, mas sem algazarra. Espantadas e silenciosas. Escorregavam pelos meus dedos como a água do rio talvez escorresse para o mar. Sim. Talvez. De meu raso eu não percebia a correnteza do meio do rio. O único movimento eram as ondas do mar no horizonte, onde o rio finalmente despejava suas águas castanhas no azul espumoso do oceano. Eu achava um mistério aquelas ondas que não terminavam na praia como acontecia na praia do Malhado. Que sabia eu, tão criança, sobre o movimento dos rios? O rio Almada não corria à porta da minha casa. Para mim ele estava parado. Eu não conhecia o rio Cachoeira do outro lado daquele grande ilhéu que era minha cidade. Sabia da ponte que atravessava para o Pontal, onde morava minha avó. Mas aquela era uma água vista de longe, de dentro de um carro. No Pontal, havia a praia salgada e os navios encalhados na areia. Nada que lembrasse um rio. O Almada, na porta da minha casa, era aquele rio que parava antes do mar. Imóvel. Para sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentado no meu raso, descansei as mãos no fundo, espalmadas para cima como se, em posição de ioga, esperassem a energia do mundo penetrar por elas. Minha calma atraiu, enfim, algumas piabas. Uma nadou por sobre minha mão e, de surpresa, consegui agarrá-la. Que delicado o toque daquele corpo minúsculo e saltitante. Fiz das minhas mãos duas conchas que se fecharam suavemente em torno. Ela pulsava ali dentro como um coração. Gelado, escorregadio. Fazia cócegas. Eu me senti poderoso por conquistar aquela vida para mim. O peixinho não pertencia mais ao rio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era meu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quis mostrar para meus irmãos. Chamei os dois. Procurei entre as canoas. Não estavam mais na água. Já subiam o barranco para a nossa casa ali em frente, na vila militar. O almoço. Eu queria ficar com a minha piaba, mas eles, parados no meio do caminho, gritavam a ordem de subir. Não podiam ir sem mim. Eu não podia ficar. &nbsp;Fui atrás, resignado. Era um dia de domingo. Eu sabia que poderia descer no meio da tarde. Eles voltariam para o futebol e mais mergulhos. Eu voltaria com meus carrinhos para a beira da água, para os peixes, para o meu peixe. Bastava guardar o meu tesouro em um lugar seguro, para que ninguém pegasse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não contei a ninguém do meu tesouro. O almoço foi lento. As conversas em volta da mesa. Eu quase não falei. Tinha um segredo. Qualquer palavra que dissesse poderia deixar escapar o peixe de minhas mãos em concha. Ele saltitava dentro de mim como uma alegria. Brincava na minha imaginação dando saltos de um lado a outro da água. Eu fazia túneis com as mãos, barreiras com as pernas&#8230; a piaba nadava veloz pelos labirintos do meu corpo, mais água do que peixe. Bastava esperar a tarde. Bastava guardar o segredo. O silêncio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas aquela não seria uma tarde de domingo silenciosa. Antes de acabar o almoço, vieram gritos do rio. Alguém veio chamar meu pai. Um alvoroço se espalhou pela rua. Minha mãe nos proibiu de sair. Ela saiu. Meus irmãos cuidariam de mim. Ficamos a tarde inteira sozinhos vendo a televisão com seus chuviscos dissonantes. Era meu pai quem movia a antena até a imagem estabilizar. Da rua não vinha nenhuma notícia. Todos estavam na beira do rio. De casa não podíamos ver. O barranco. Dali, nossa visão do rio era a outra margem, onde havia um grupo de pessoas observando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguém se afogou, meu irmão mais velho disse. Aquela frase instaurou uma realidade de medo em mim. Alguém tinha ido para a parte funda do rio e tinha se afogado. Eu sabia que aquilo podia acontecer. Minha mãe sempre nos prevenia para não nadar para o fundo, onde não dava pé. Podíamos nos afogar. Disso eu sabia. Eu não sabia exatamente o que era se afogar, mas não era algo bom. Eu sabia o que era fundo. Era onde meus irmãos nadavam quando brincavam nas canoas. Com a revelação, meu corpo tremeu. Meus irmãos podiam se afogar. Vocês já se afogaram? Eu perguntei preocupado. Eles riram de mim. Claro que não. Fiquei com raiva das risadas e da gozação, mas aliviado porque eles não se afogaram. Eu nunca tinha me afogado. Não ia nunca para o fundo. Voltei a pensar na minha piaba. Ela também não se afogava. Estava sempre no raso como eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passamos toda tarde em espera. A noite chegou e minha mãe voltou. Eu procurei o medo em seus olhos, aquele de quando ela avisava do afogamento. Mal consegui ver. Ela nos disse que estava tudo bem, que nada tinha acontecido. Meu pai? Estava resolvendo alguma coisa de trabalho. O quê? É verdade que alguém se afogou? Não era assunto de criança. Nós devíamos fazer os deveres da escola. Meus irmãos não tinham feito. Eu já tinha pintado os desenhos do meu livro com o cuidado de não sair das linhas. Era preciso dormir para a escola cedo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu já estava na cama quando ouvi a história toda entre os meus sonhos. Eram vozes de meu pai e mais alguém — minha mãe ouvia entre soluços. Depois, meus irmãos repetiram a história no quarto. Havia um menino no fim da rua, na primeira casa da vila. Já era grande&#8230; três pescadores&#8230; a rede se enroscou em alguma coisa no fundo do rio&#8230; a mão dele estava presa&#8230; os amigos tentaram salvar, mas não conseguiram&#8230; gritaram. Só à noite conseguiram tirar o menino de lá. Os peixes já estavam começando a comer. Meu irmão disse aquilo muito assustado. Eu quis acordar e perguntar como o menino estava.&nbsp; As feridas doíam? Foi então que ele falou respondendo a pergunta que não fiz: morreu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu nunca tinha imaginado que, se alguém se afogasse, morria. Morrer era ir para debaixo da terra. Mas o rio&#8230;? Fechei muito os olhos para não ver o menino dentro da água sendo comido pelos peixes. Não queria ver a cara dele faltando pedaço. Os olhos abertos. Em algum momento eu dormi e senti a água acobreada do rio me envolvendo. Cobrindo minhas pernas, avançando pela barriga, pelo peito, pelo pescoço. Eu estava completamente mergulhado — as piabas em volta. Abri a boca e a água entrou. Bebi muito, sem querer, sem poder resistir. A barriga ficou cheia. Eu pensei que era daquele jeito que a gente se afogava. Achei que ia morrer, mas tinha vontade de fazer xixi. E fiz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha mãe não me deixou ir à escola naquele dia. Tinha acordado no meio da noite gritando e chorando. Era melhor ficar em casa. Ficamos sozinhos os dois. No meio da manhã a casa se encheu das mulheres da rua. Elas começaram a conversar sobre o afogado. Eu queria escutar as conversas, saber dos detalhes, mas minha me mandou brincar no quintal. Nada de ir para a rua.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi a primeira coisa que fiz. Desci o barranco e fui atrás da minha piaba. Por sorte, tinha deixado atrás de uma pedra. Mesmo com toda a confusão, eu tinha certeza de que ninguém tinha encontrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela estava lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não estava saltitante como antes. Nem molhada. Estava seca e dura. Peguei com cuidado em minhas mãos e levei para a água. Ela afundou como uma pedra. Imóvel. O rio também não se movia naquele meu raso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não entrei na água naquele dia, nem depois. Ficamos proibidos de nadar no rio e, quando o ano acabou, nós nos mudamos. Saímos de Ilhéus e nunca mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adulto, voltei à vila, ao rio, mas sempre passei apenas de carro. Nunca mais desci o barranco que, na verdade, era apenas uma descida muito curta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O rio Almada. Ele vem do interior muito mais ao norte, mas deságua no oceano. Vira-se para a direita e percorre um longo caminho paralelo à praia. Ele resiste a entrar no mar, ele não quer morrer se misturando às águas claras e salgadas do atlântico. Na frente da minha casa, enfim, dobra-se para a esquerda, contorce o corpo desenhando uma interrogação de cabeça para baixo. É ali, em frente à casa da minha infância, que ele morre — todos os dias — murmurando seu porquê sem resposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Marcus Vinícius&nbsp;Rodrigues</em></strong><em> nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019); Manual para composição de Vitrais (poesia, Selo João Ubaldo Ribeiro da Fundação Gregório de Mattos, 2019); Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) — vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; Arquivos de um corpo em viagem (poesia, Editora Mondrongo, 2015) e Cada dia sobre a terra (contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética V</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-v-78/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Aug 2021 13:56:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Jéssica Lancoski]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Rotina Decadente]]></category>
		<category><![CDATA[Toma Aí Um Poema]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19029</guid>

					<description><![CDATA[A irreverência da linguagem contemporânea de Jéssica Iancoski]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Jéssica Iancoski</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="435" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-2.jpg" alt="" class="wp-image-19033" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-2.jpg 435w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-2-261x300.jpg 261w" sizes="auto, (max-width: 435px) 100vw, 435px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Paula de Aguiar</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>IDEOLOGIA MACARRÃO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>Para Matheus Guménin Barreto</em></pre>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">pode até ter<br />
de sêmola<br />
mas<br />
o brasileiro<br />
pai de família<br />
come</p>



<p class="wp-block-paragraph">renata com ovos<br />
isabela com ovos<br />
adira com ovos<br />
vilma com ovos<br />
barilla com ovos<br />
até dona benta<br />
com ovos</p>



<p class="wp-block-paragraph">mas fala<br />
sempre que<br />
prefere<br />
espaguete<br />
à penne<br />
grano duro</p>



<p class="wp-block-paragraph">o importante<br />
mesmo é não<br />
conter gordura<br />
trans<br />
&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>Para Nicola Otávio</em></pre>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">nos sábados<br />
e nos domingos<br />
o frasco fala<br />
“para homens!”<br />
nas segundas,<br />
nas terças e nas quartas,<br />
a cartela convaqueia<br />
“para mulheres!”<br />
nas quintas e nas sextas<br />
completo com meia<br />
cápsula de cada</p>



<p class="wp-block-paragraph">a vitamina de homem influencia<br />
nos músculos e na energia<br />
a vitamina de mulher influi<br />
nas unhas e na pele macia</p>



<p class="wp-block-paragraph">para o espanto de todos,<br />
não só dos farmacêuticos,<br />
das farmacêuticas e<br />
também des farmaceltiques<br />
nenhuma delas me deixa<br />
mais ou menos homem mais<br />
ou menos mulher mais ou menos<br />
anarco viado comunista<br />
trans sapatona convicta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ERVILHA VERMELHA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>Para Belise Campos</em></pre>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ontem me perguntaram se eu era uma menina<br />
E eu não soube responder<br />
Esse inferno de pergunta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não porque eu não seja mulher,<br />
É que às vezes eu sou tanta coisa:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma garota,<br />
Uma amante<br />
Uma gota,<br />
Um semblante,<br />
Um inverno<br />
Um menino,<br />
Um pingo<br />
E um girino,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um giro de roda<br />
No vento leste que sopra<br />
No ponto final de cada esquina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma menina é pouca coisa<br />
Pra me definir<br />
Quando eu sou tantas outras<br />
Entre cada ervilha vermelha<br />
Do interno do punho em meu ventre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>BREJO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">quando o bico<br />
dos dedos roçam<br />
o corpo<br />
tocam<br />
ainda que viva<br />
a pele morta</p>



<p class="wp-block-paragraph">o corpo o corpo o<br />
corpo é corpo é<br />
corpo é o carpo<br />
dos dedos apertados<br />
no próprio punho</p>



<p class="wp-block-paragraph">pulsa pulsão<br />
pulsa pulsão<br />
pulsa pulsão</p>



<p class="wp-block-paragraph">quando a água<br />
era límpida<br />
carpos foram girinos<br />
e turva é a visão<br />
que entorta dentro<br />
do corpo alguém</p>



<p class="wp-block-paragraph">que não é sapo<br />
nem sapa<br />
ta sapatilha<br />
samba canção<br />
qualquer coisa<br />
que só cabe<br />
dentro d&#8217;<br />
<span style="color: #ffffff;">xxxxxxxxxx</span>&#8216;<br />
<span style="color: #ffffff;">xxxxxxxxxxxx</span>&#8216;<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span>um<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>___ não___</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>COUT &lt;&lt;NAME&lt;&lt; “\N’;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">isso de binarismo<br />
deixa pras<br />
máquinas</p>



<p class="wp-block-paragraph">somos seres<br />
de membrana<br />
plasmática</p>



<p class="wp-block-paragraph">c.in c.out<br />
permeabilidade<br />
seletiva</p>



<p class="wp-block-paragraph">seja célula<br />
seja mais<br />
e não C++</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em><a href="http://www.jessicaiancoski.com"><strong>Jéssica Iancoski</strong></a> é pessoa não-binária, escritora, poeta e artista plástica. Publicou em várias antologias e revistas, nacionais (Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, etc) e internacionais. É idealizadora do Toma Aí Um Poema – o maior podcast lusófono de declamação de poesias, segundo o Spotify – com mais de 44 mil ouvintes diferentes, ao longo do tempo e, também, revista literária digital. Nasceu em Curitiba em 10 de Fevereiro de 1996. É formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivopalavraii-22/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Aug 2021 13:16:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Rios]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Riviera]]></category>
		<category><![CDATA[Rodrigo Melo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19023</guid>

					<description><![CDATA[A leitura atenta de Gustavo Rios para “Riviera”, livro de Rodrigo Melo ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Entre o Rio e a Riviera</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong><em>Por Gustavo Rios</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/CAPA-RIVIERA.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="308" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/CAPA-RIVIERA.jpg" alt="" class="wp-image-19025" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/CAPA-RIVIERA.jpg 308w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/CAPA-RIVIERA-205x300.jpg 205w" sizes="auto, (max-width: 308px) 100vw, 308px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou mais um que acredita no poder de uma boa história. E quando falo em acreditar, me refiro àquele tipo de encantamento simples e direto que flui numa boa, num tipo de literatura em que tudo se encaixa e funciona, também de forma simples e direta, de acordo com as escolhas feitas pelo autor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considero-me um escritor. Diante disso, declaro ter sido esse o motivo principal (ler uma boa história) que me fez querer ser um. Obviamente, com o decorrer dos anos, e o significativo aumento de livros em minha estante, algumas vezes derrapei na pista. Tentei ser mais “cabeça”, mais sabido, envolvido pelo suposto poder da palavra em detrimento ao que realmente interessa: a vida, no sentido mais franco do termo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em vez de seguir reto na boa estrada da clareza, andei pegando uns atalhos. Atitude que, no fim, apenas confundiu os meus pouquíssimos leitores (e não enxerguem ironia aqui). Pois ainda que lhes pareça piegas falar sobre vida, esse é o único fundamento que resguarda e mantém a melhor literatura existente no mundo: Henry Miller, Bukowski, Hermilo Borba Filho e Kerouac não me deixam mentir – só para citar alguns, pois a lista é imensa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi então que percebi claramente: independente da forma usada num texto, precisamos estar ligados ao entorno (a vida, no caso) para que uma obra se mostre verdadeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E assim <em>foi </em>e <em>é</em> com <em>Riviera.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Francamente não sei se Rodrigo Melo alguma vez em sua trajetória, que envolve dois livros de contos (<em>Jogando dardos sem mirar no alvo</em> e <em>O sangue que corre nas veias</em>) e um de poesia (<em>Enquanto o mundo dorme</em>), embarcou nessa viagem de experimentar e se perder. <em>Riviera</em>, romance publicado em 2020 pela editora Mondrongo, é a primeira coisa que leio dele. E, ainda que Rodrigo tenha supostamente derrapado em algum momento de sua carreira, coisa que repito não saber, acho que <em>Riviera</em> poderá o redimir. Colocando-o de novo na reta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Michel Rodrigues, o protagonista, é um cara apaixonado. E o nome dela é Sandra D’Angelo. Sandra, uma poeta (ou poetisa, nunca sei direito) do tipo que curte saraus, praias e outras ondas, depois de viver um romance de verão com nosso herói, na Bahia, acaba voltando para sua cidade, o Rio de Janeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daí é que Michel Rodrigues, o apaixonado, resolve correr atrás dela algum tempo depois. Munido de um número de telefone, ele pega uma grana com um primo agiota, se despede da mãe, e segue reto, ou nem tão reto assim. É quando o encontramos já na primeira página, num <em>“final de uma tarde de domingo”</em>, sobre a Ponte Rio-Niterói, em que o <em>“asfalto tremulava por conta do mormaço e o céu rebentava em uma mistura de azul claro, cor de rosa e laranja”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Com base no resumo dos parágrafos anteriores (quase uma sinopse fuleira de Netflix), o autor inicia sua bela jornada. Junto ao protagonista, Michel. Logo, e fazendo jus à tradição dos bons livros que, em essência, se resumem a poucos elementos principais (o amor, as descobertas e uma viagem, no caso de <em>Riviera</em>), mas que crescem e se dignificam no percurso, Rodrigo nos conduz por essa estrada (ou ponte). No que ficamos gratos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sobre influências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não creio que Rodrigo ficará ofendido se eu disser que John Fante foi uma das grandes referências. Claro, não estamos aqui reduzindo sua escrita a uma única fonte, visto que outros matizes surgiram na leitura que fiz. Entretanto, as semelhanças e as <em>convergências</em> (um tipo de zona comum aos dois em que, suponho, Knut Hansum reside) com Fante são claras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E isso é bom, em minha opinião. Ainda mais inferindo que a “forma” desse grande escritor não foi aceita de maneira premeditada e infantil, aquela coisa em que o autor imita determinado estilo na cara dura, tentando disfarçar sua incompetência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rodrigo Melo escreve bem, muito bem. Por méritos próprios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda que o Fante tenha tido lá sua importância no chamado “<em>paiol de influências”</em> de Melo, como bem afirmou Marcus Borgón na orelha de <em>Riviera</em>, essa influência, quando surgiu, foi algo que ele soube dosar e aproveitar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos o protagonista incondicional e crédulo, na acepção mais legal das palavras. Temos os diálogos bem estruturados e sem firulas, além de um elenco de personagens marcantes com suas características e particularidades, meio que gravitando ao redor do protagonista em situações e cenários em que Melo se mostra bastante à vontade, num tom aparentemente confessional – suspeito que alguns trechos só puderam existir graças às experiências de vida do seu autor; ainda assim, não posso bater o martelo e dizer que <em>Riviera </em>é uma obra fortemente autobiográfica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No conjunto do livro existem descrições que se equilibram bem entre a beleza pungente, que define o nosso herói e o mundo que o cerca, e a riqueza de detalhes, que nos coloca dentro de determinada cena sem nunca nos deixar enfadados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Das ruas de uma cidade em que os “<em>prédios gritavam por conta de tanta história para contar”</em>, aos cômodos de um imóvel pronto para venda, em <em>Riviera </em>nada-nos-agride-e-tudo-nos-agrada (Pignatari gostaria dessa frase). Acompanhar Michel em sua busca, “<em>arrebatado pela vastidão da cidade que se espalhava ao seu redor: maior e mais frenética do que imaginara, mas que, de fato, existia, porque estava bem ali”</em> é uma das formas de confirmar a qualidade do livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E essa discussão de termos ou não muito de autobiográfico, me fez lembrar outro escritor estadunidense, o grandioso Nathanael West. Lembrança trazida pelo próprio Rodrigo numa entrevista recente a uma rádio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">West, que se utilizou da própria vida em prol de seus livros, tendo sido um grande observador nos períodos em que trabalhou em hotéis baratos em Manhattan, também pode ser identificado na “realidade” mostrada em <em>Riviera</em>, bem como nas escolhas do autor: para mim, o romance de Melo possui muito da poética e da também famosa carga imagética, tanto no sentido da imagem transformada, quanto no sentido de descrição pura e simples.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o estilo da escrita de Rodrigo também pode ser comparado ao de Nathanael, de várias formas. Da escolha de um hotel como um dos cenários, local que, nas palavras de um tal Brad Darrach, para West era como <em>“zoos de fracasso, enfermarias terminais cheias de ‘inocentes desmantelados’”</em>, aos parágrafos que, apesar da fluidez, são seguros e bem estruturados, e visam atingir em cheio o leitor, Rodrigo também não se importou em escutar mais essa “voz” – uma das mais aguçadas da literatura, em minha opinião.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nathanael West, que foi considerado pelo Nabokov (o “pai” da Lolita) um <em>“fenômeno visual”</em>, foi certamente mais uma figura a ajudar o autor baiano em sua escrita. Tanto na questão das imagens que constroem e determinam o andamento de um bom romance, bem como no belo jogo de metáforas, eufemismos e similares. Recursos que embelezam demais a escrita de ambos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Imagética <em>versus</em> poesia?</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">“<em>O leve arranhar sobre os trilhos, o pulsar da fera de metal que cortava a cidade com o seu rugido silencioso e veloz. Botafogo, Flamengo, Catete, Glória, Cinelândia, Carioca, Central do Brasil&#8230; A cada estação, as pessoas iam se transformando, ganhavam outras caras e jeitos. Em vez de madames e jovens com fones de ouvido, Michel passou a ver office boys, vigias, vendedoras da Avon, caixas de supermercados e toda aquela gente que vivia nas sombras dos cartões postais, enchendo filas, morrendo nas ruas e em corredores de hospitais.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Grosso modo, a prosa, ao menos a que considero boa, quando contém em si elementos da poesia (eufemismos legais, metáforas certeiras e ritmo), ganha bastante com isso – e notem que essa é uma opinião que se repete em minhas análises. Então, desconsiderando a obviedade terrível do que acabei de escrever, venho pedir desculpas afirmando apenas o seguinte: quando o escritor possui talento e competência, o uso da imagética, da poesia e de quaisquer outros expedientes não põe em risco seu trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rodrigo tem a manha. Ele é o tipo de artista que, acima de tudo, enxerga o lado humano na literatura. E o coloca em primeiro lugar, entendendo que uma escrita sincera e direta não deve ser necessariamente tosca e simplória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Filosofando um pouco durante a leitura, algumas perguntas surgiram em minha cachola: de que adiantaria usar a tal “carga imagética” sem sacar um tanto de poesia? E o contrário disso, daria certo? Como encantar o leitor sem pôr no livro figuras humanas, mas humanas-de-verdade, do tipo que se presta ao salto, à busca e a felicidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não dá para ficar imune à força de um Michel Rodrigues, por exemplo. Bem como não há como fingir que não viu Louis Buade de Frontenac, o francês boa praça, vizinho de quarto de nosso herói, só para ficar no básico de série, por enquanto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como já dito antes, o rol de personagens, bem como o uso de seu “<em>paiol de influências”</em>, ainda que lembrem o West ou o Fante, ou qualquer outro, é formado por figuras arrancadas da cuca, da vivência e, com certeza, do coração (arrisco, sim, uma boa pieguice!) de Rodrigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso de Melo, eu até consigo imaginá-lo numa noite insone, naquele tipo de luta que só escritores bons travam, tentando reescrever, encaixar, fazer surgir ou mesmo comemorando efusivamente uma boa página ou um vacilo de nosso Michel, justamente por esse vacilo conter muito de ingenuidade, sentimento, beleza e, principalmente, busca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ter essa imagem em minha mente já justifica esse trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Suas inserções poéticas são exatas, firmes, sem pieguices nem choramingos. E quando lemos algo que chega perto daquele sentimentalismo barato (que no fundo muitos de nós curtimos), tal trecho ou frase se revela somente um importante mecanismo que visa dar fala e personalidade ao jovem Rodrigues:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Siga em frente, ó, contrafeito taxista — Michel pensou —, uma vez que todo homem tem direito à glória e estou prestes a alcançá-la. Se quisesse, poderia passar um longo tempo falando sobre a pessoa que encontrarei, não no hotel para onde me leva, pois já é tarde e a felicidade nos força a certas provações: uma admirável e encantadora poeta de nome Sandra D’Angelo, ou simplesmente Sandy.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o trecho seguinte, destacando a parte em que lemos <em>“alma esquiva e saturada”, </em>talvez eu consiga fazer uma boa comparação entre a poética usada para dar voz ao Michel (acima e, digamos, piegas) e a usada pelo narrador para seguir com o livro (abaixo e, digamos, mais madura):</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Era uma morena baixa com os cabelos negros até a cintura. Seus olhos transitavam entre uma malícia dissimulada e algum tipo de tédio ou cansaço, como se o tempo inteiro estivesse prestes a abandonar o palco ou a gritar. Mas ela não gritou, apenas continuou a rebolar e a tirar as peças de roupa, enquanto Tina Charles cantava “Love to Love”. Por vezes, seu gingado não batia com o ritmo da música, talvez rápida demais para o estado de espírito em que se encontrava (&#8230;). Ela se agarrou ao poste e começou a girar. Possuía uma boa elasticidade, mas nada parecia muito natural. Somente a repetição de um movimento que aprendeu, a saga de uma alma esquiva e saturada.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Para encerrar, ainda falando sobre o imagético e o examinando de forma isolada, arrisco dizer que ele embasa e justifica todo o livro – dentro do equilíbrio e da beleza já descritas nas linhas anteriores. Na descrição da cidade ou na cena de sexo num banheiro de escritório, tudo se mostra visceral. Afinal de contas, Rodrigo quer nos falar de vida, antes de tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante disso, quem leva a melhor mais uma vez é o leitor.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Arco narrativo e tigelas de açaí</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Considerando o entendimento de que arco narrativo é simplesmente a divisão de uma história em partes ou capítulos (uma ideia simples, apesar do nome marrento), <em>Riviera</em> tem, sim, o seu arco. E ele funciona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Valendo-me desse jargão (arco), usado largamente para analisar livros e para fundir nossa cabeça nas aulas de geometria, acredito que o risco que todo autor mediano corre ao usar o seu “arco” é o de se perder em algum “ponto da curva” (o “mediano” se atrapalhando no “radiano”?), pois, ainda que os capítulos não precisem ser fundamentalmente lineares, a coerência ajuda no entendimento geral. Seja na trama, seja no estilo, ou mesmo na definição clara da personalidade do protagonista e de todos os outros “participantes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, afirmo sem gaguejar que, ao longo dos 25 capítulos, Melo não derrapa nesse quesito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do francês à tia amargurada; do corretor de imóveis Aldo Lomma (não sei se uma sutil homenagem ao Alto Loma Hotel, que se erguia <em>“numa colina, lá na crista de Bunker Hill”</em>) à Arlete, Melo segura bem a onda. Na base da simplicidade que busca a fluidez na leitura e a cumplicidade do leitor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois para todo artista, sempre existe o risco do erro, ao se firmar a personalidade e a voz de cada pessoa que habita o seu trabalho, já que muitas vezes nos deparamos com obras onde não identificamos o ponto de mutação de determinado personagem, muito menos a transição de algo que ocorreu com ele. Transição que, “noves fora”, foi somente uma derrapada do artista, no arco, na tangente ou mesmo na reta, certamente preocupado com sutilezas, concretismos e bricolagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, quando numa boa história a forma linear é quebrada sem aviso prévio – o que seria legal quando temos uma proposta adequada e um escritor com moral para tanto -, nos deixando confusos e perdidos, é nessa hora que geralmente abandonamos o livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não ocorre com <em>Riviera</em>. Independente da situação ou da ruptura, temos o estilo que se preserva e não nos engana de forma grosseira, mudando somente quando o livro exige, no caso do andamento da trama e das experiências de Michel. Dessa maneira, temos um jovem se transformando, sentindo medo, vacilando feio e devorando tigelas de açaí, além de seguir apaixonado, tentando encontrar a sua poetisa (ou poeta, nunca sei direito) em meio <em>“a complexidade da tal Cidade Maravilhosa”</em>, conforme Kátia Borges citou no posfácio, no que ela também chamou de <em>“mescla de paraíso tropical e pesadelo”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Como conclusão, digo que <em>Riviera</em> segue seu rumo (ou estrada, ou ponte&#8230;), pois não são poucos os que consideram o livro interessante, ainda que, por conta da pandemia e por conta do fato de Rodrigo Melo não residir no chamado eixo, o romance <em>ainda</em> não tenha alcançado o seu devido status.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Status que o deve colocar como um grande lançamento de 2020, no mínimo. Além de colocá-lo também como uma obra belíssima, franca e humana. Bem ao gosto do que todos nós precisamos em tempos tão bicudos, toscos, demorados e doentios.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Gustavo Rios</strong></em><em>&nbsp;é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.</em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>Janela Poética I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-i-80/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Aug 2021 14:10:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[145ª Leva - 05/2021]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ainda ancora o infinito]]></category>
		<category><![CDATA[Editora Patuá]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Roberta Tostes Daniel]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19009</guid>

					<description><![CDATA[A infinitude das palavras nos poemas de Roberta Tostes Daniel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Roberta Tostes Daniel</em></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="435" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar.jpg" alt="" class="wp-image-19013" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar.jpg 435w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/08/Paula-de-Aguiar-261x300.jpg 261w" sizes="auto, (max-width: 435px) 100vw, 435px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Paula de Aguiar</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquela costa<br />
as nuvens migram<br />
para a espiritualidade<br />
os cavalos as feras<br />
seres deste mundo<br />
conectados a uma<br />
estranha palavra<br />
o invisível também<br />
é natureza<br />
a linguagem cobre<br />
o corpo<br />
nossa energia<br />
o que sai de nós<br />
linguagem<br />
como uma espécie<br />
de aura<br />
diz que somos excessivos<br />
processamos<br />
a língua materna<br />
ela quer nos preencher<br />
daquela paisagem<br />
ou acontecimento<br />
– um poema<br />
deveria ser escrito<br />
em um idioma indomável<br />
para assim se tornar<br />
poesia novamente.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Yosef</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">ele que voltava ao continente<br />
ou que tinha por país sua fuga<br />
o coração incerto como a fronteira</p>



<p class="wp-block-paragraph">nome na deriva do rio, moldava<br />
o que era rio e o que era abismo<br />
carne não bem situada</p>



<p class="wp-block-paragraph">o coração costurado nas trevas<br />
este lugar mais silencioso<br />
que o canhão antes do tiro.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>“É-me o corpo todo”</strong></p>



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<pre class="wp-block-preformatted"><em>à Leonardo Fróes</em></pre>



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<p class="wp-block-paragraph">teso, mudo, vegetal<br />
ao modo de montanha<br />
e octogésima pedra</p>



<p class="wp-block-paragraph">onde fundações flutuam<br />
insinuado monge, alpinista<br />
artífice das raízes e itinerário das matas</p>



<p class="wp-block-paragraph">o que pode sem a selvagem justificação de deus?<br />
abarcar-se no corpo-cordilheira do poema</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Hórus</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">um olho que emite sua fratura<br />
encarnada e múltipla – um escuro<br />
que atravessa a luz do verão<br />
um olho que é o aceso o outro<br />
que versa sobre o fim<br />
um olho-oráculo fendido na distância<br />
pela certeza pelo furo<br />
na pintura o olho é posicionado<br />
francamente como em prisma<br />
só a ausência de simetria importa<br />
o desequilíbrio, o desfazimento que penetra<br />
na costura dos órgãos<br />
na luz vibrante<br />
na sua sonegação</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">o que pode o corpo contra a montanha dispersa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">quantas vezes deliberarei o corpo<br />
nestas paisagens tropicais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">me antecipei em achar minha feminilidade<br />
mas no fim fui ao altar das conchas<br />
e não mais saí de lá</p>



<p class="wp-block-paragraph">sou a ostra aguerrida contra o céu gigante<br />
constituindo sua periculosidade em pérola</p>



<p class="wp-block-paragraph">e o sexo, embora um mero acaso<br />
é também uma ética</p>



<p class="wp-block-paragraph">com que nos comunicamos<br />
nos semeamos, nos esgotamos.</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Aos pés da cotovia</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">um pensamento é puro magnetismo<br />
tem sal nos caninos</p>



<p class="wp-block-paragraph">eu escuto o passo aproximado<br />
de uma cotovia<br />
é um som de errância gaulesa<br />
e é à prova de som</p>



<p class="wp-block-paragraph">chegar à casa desses pensamentos<br />
apossada do escuro magnetismo</p>



<p class="wp-block-paragraph">mensurar a visibilidade<br />
desses espaçamentos</p>



<p class="wp-block-paragraph">me sentir real<br />
um desejo de ser real<br />
de ser cada vez mais real</p>



<p class="wp-block-paragraph">aos pés da cotovia<br />
nas ferrovias, montanhas<br />
no meu país interno<br />
e no reino inventado do brasil</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Roberta Tostes Daniel</strong>, poeta carioca, nascida em 1981. Publicou “Uma casa perto de um vulcão” (Patuá, 2018) e “Ainda ancora o infinito” (Moinhos, 2019). Possui participações em várias revistas literárias, no meio impresso e digital. Propõe imagens e acasos lá no @robertatostesdaniel (instagram).</em></p>
</blockquote>



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