Categorias
146ª Leva - 01/2022 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Fátima Soll

 

Por entre palavras e imagens, a tessitura da vida se anuncia. São formas e formas de se conceber o mundo em suas possibilidades de expansão dos sentidos todos. A experiência do ontem e a estimativa do futuro que não sabemos como será ao certo atravessam linhas, moldam versos, irrompem na profusão de cores abrigadas em telas e fotografias. E o agora está sempre a nos pedir atenção quando tenta nos mostrar que a pulsação da existência é algo inadiável, está bem diante de nossos insones olhos sempre ávidos pela novidade. Nesses interstícios, escritores e artistas ousam ir além, posto que tendem a captar aquilo que se abriga nos recônditos da rotina. Tais artífices nos devolvem o produto de suas inquietações, percepções sobre as andanças num solo que também pode estar compreendido em nossos domínios e expectativas. Ainda assim, a surpresa causada pelo inusitado também pode fazer morada entre nós, provocando e nos fazendo desacomodar lugares acostumados. A partir de estados de efusão, contemplação, silêncio, dor e outros tantos mais, a própria vida demanda dos criadores que movimentem suas obras. Dentro dessa lógica, não há uma ordenação fixa para o pensamento e cada traço autoral desafia sua recepção a vislumbrar significados com certa autonomia. Aqui na revista, as vias literárias não se cansam de servirem de ilustração dessas constatações que atuam à semelhança de um encontro não marcado com o outro. Abrir-se para a leitura de textos como os de Helena Terra e Gabriele Rosa, por exemplo, é desvelar o quiçá insondável território de nossas humanidades, transitando por paisagens que divisam ficção e realidade. Sob o manto da poesia, agora temos a companhia dos versos de Bruno Oggione, Jorge Elias Neto, Vitória Terra, Bianca Grassi e Duda Las Casas. Nosso sabatinado da vez é o dramaturgo e diretor Paulo Atto, que nos oferta um recorte valioso sobre a sua trajetória com o teatro. É Sandro Ornellas quem aprecia e nos apresenta “Assim na terra como no selfie”, mais novo livro do poeta e performer Alex Simões. Na sua estrada de mergulhos musicais, Larissa Mendes visita “De Lá Até Aqui”, mais recente disco do cantor e compositor Silva, que celebra 10 anos de carreira. Com suas cirúrgicas escolhas cinéfilas, Guilherme Preger analisa o filme sueco-polonês “Sweat”, obra que debate a controvertida exposição da subjetividade no universo digital. Por seu curso, Gustavo Rios empreende leituras em torno de “Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo”, livro de crônicas de João Mendonça. Retomando nosso caderno Jogo de Cena, Zuca Sardan e Floriano Martins nos ofertam um texto do seu assim batizado “teatro automático”. Eivados de sentidos de liberdade, todos os recantos da nossa atual edição foram contemplados com as fotografias de Fátima Soll, artista que sugere percursos especiais em face da simbologia do corpo. Sejam todos muito bem-vindos à nossa 146ª Leva!

Os Leveiros

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Vitória Terra

 

Foto: Fátima Soll

 

NÁRKISSOS

 

Compacto
meu iceberg
de trevas
pesa

mão perversa
que estrangula
e cala
gestos
e intenções

vigília de cegos
paliada em véu
de altar
sou cativeiro
das respostas
engolidas

não há
sombras
lembranças de um sol posto
em mim não há
tocar meu breu
é sorver o abismo
possuir o charco

subverto
as palavras ácidas
pisando a madrugada madura
nesse lagar sem mosto
e pouco a pouco
seduzo-te ao Lago Baykal
e sem perceber desapareces
na minha água escura

 

 

 

***

 

 

 

TIME REALISE

 

Fico perplexa
ao ver a idade dos seus olhos
um menino
que escorrega
nos vincos da sua face
e quando você ri
mais bonito ele fica
e se esconde maroto
nos fios brancos
das suas barbas

ali onde a vida se revela
vulnerável
sapos coaxam
era um casal
de tucanos
você riu
do meu engano

 

 

 

***

 

 

 

ESTAÇÃO DO VALONGO

 

O trem que passa
às 2h
arrastando vagões
intermináveis
rangendo
no aço que some
em paralelo
por entre as serras
galopa como as tropas
de Quitaúna
e mais longe de mim
toca um trilo

comprido
anunciando que estou

muito só
dentro desse trem
errante
nem um mendigo
se esconde
sob o banco
nem um passageiro
curvado pela janela
se mistura na paisagem

nenhuma criança
corre aos gritos
de um corrimão a outro
ele singra
furando a noite
atravessando
minha madrugada
insone
desaparecendo
feito a fumaça
do charuto
de James Brunlees

nesses trilhos
que brilham mais
na grota
funda da infância
lembro com medo mesmo
é daqueles
dentes lunáticos
do vendedor
de coxinhas
rangendo e rindo
rangendo e rindo
rangendo e rindo

 


 

***

 

 

 

ÀS VEZES SOU

 
 ...............................................para Cecília Meireles

 

Às vezes sou céu dentro do mar
às vezes só mar na imensidão
nenhuma estrela
e o vento todo soprando em vão

houve um tempo em que meus cabelos
eram carinho nas minhas mãos
meus dias
desenhos soltos
faziam cócegas no meu pensar

hoje, avulta-se o fantasma da lembrança
passa a janela
e na terceira vigília
acordo pra sempre
do que fui

susto pulsações
busco uma despedida
um aceno
quando? pra onde?
e só o vento
só o vento soprando em vão

 

 

 

***

 

 

 

SOU TODAS AS PÁTRIAS

 

Sou todas as pátrias
as famintas e as que vomitam suas gorduras
sou a pele escura e brilhante
dos habitantes do Níger
e seus olhos vasculhando o lixo
sou a pele translúcida com veias azuis
dos que frequentam o Cassoulet Maison de Paris
e suas sobrancelhas de avelã
sou todas as almas partidas ou
ancoradas num porto qualquer
com suas mãos de aceno
com seus pés de chegada
sou as ancas ondulantes
das mulheres na calçada da Shotwell Street
e as mãos entrelaçadas na gratidão
dos milagres conferidos à retidão das súplicas
sou todas as pátrias
sou a terra arada lavrada e semeada
sou a chuva serôdia e a seca esturricante
o beijo úmido onde escorrega o desejo
e a palavra que corta sangra e o mata
sou um punhado de nadas

 

 

 

***

 

 

 

POMBA

 

Aninhada na boca do abismo
sem lona
sem porta, sem ferrolho
senhora dos quatro ventos

a mansidão do mundo
dorme nos seus olhos de semente
quando contempla a solitária crisálida
pendida sob o teto
da folha

espera imóvel
que guarda um tesouro
na aridez do penhasco
ovos de liberdade
quentes de constância e coragem

até que a luz da aurora
seja dia perfeito
e num instante etéreo
perca pra sempre
o que intrepidamente ajuntou

 

Vitória Terra nasceu em Maracajú, MS. É fundadora do Terra Franklin Advogados, especializada em filosofia do direito e em direito processual civil pela UFU, Master Business Administration pela FGV, atuando como advogada em todo o território nacional. Escritora e poeta, publicou “Não mais os falsos infinitos”, Ed. Patuá e, virtualmente, publica nas páginas Vitória Terra Poesia (Facebook), vitoria_terra_poesia (Instagram), além de revistas e jornais literários.

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – DE LÁ ATÉ AQUI (2011-2021)

 

 

O cantor, compositor e instrumentista capixaba Silva celebra uma década de serviços prestados à música brasileira (boa parte deles registrados pelo Gramofone) com um álbum de releituras de suas canções. Como bem disse o artista em um de seus tweets: “10 anos é muita coisa. Mas é só o começo também”. Sem delongas, de forma orgânica, com voz e violão — e no máximo com um violino ou um “tecladinho”, o mesmo que o consagrou no início de carreira, quando disponibilizou o EP Silva (2011) na internet — o disco passeia por uma dezena de anos de seu (já vasto) repertório. De Lá Até Aqui (2011-2021) compila 10 faixas acústicas sem ordem cronológica, sem obviedades e (quase) sem hits: novos arranjos dão frescor a algumas parcerias, covers e b-sides.

A única canção inédita, Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim (meu caminho não é reto pra lá/ninguém me falou onde é que ia dar/eu saí com a certeza de errar/cheguei pra não voltar), abre o álbum sintetizando a própria trajetória de criador e criatura, que tem suas raízes calcadas na música erudita, porém já transitou por diversos gêneros. Canções recentes como No Seu Lençol, do antecessor Cinco (2020), mesclam-se com outras antigas como Cansei (cansei dos inquilinos/da minha solidão/olhar você dormir/não é compensação), do álbum de estreia Claridão (2012), que aqui despe-se de toda sua roupagem eletrônica, ficando impressionantemente ainda mais bonita. Fazem parte do álbum também versões de músicas um pouco mais populares, inicialmente lançadas em parceria, caso de Um Pôr do Sol na Praia, gravada com a funkeira Ludmilla em 2019, e Pra Vida Inteira, dueto com a baiana Ivete Sangalo, em 2020.

 

Silva / Foto: divulgação

 

Os destaques ficam a cargo de Não É Fácil, do impecável repertório de Silva Canta Marisa (2016), e o “achado” Amantes (eu conto as horas/que faltam para o dia que vem/não quero mais/dividir esse amor com ninguém), canção de 2000 do grupo de axé Ara Ketu, que como o próprio nome sugere, aborda as agruras de não ser o(a) parceiro(a) oficial de seu grande amor. A canção fazia parte dos shows da turnê de Bloco do SilvaAo Vivo (2019) e aparece completamente repaginada da original — com uma intro a la Roberto Carlos — e talvez soe inédita para grande parte do público. Completam o álbum Ainda, de Vista Pro Mar (2014), que mantém o mesmo ar intimista, e Sou Desse Jeito, de Júpiter (2015), que perdeu todos os sintetizadores e ganhou visceralidade com um solo de violino — que lembra um trecho de A Visita, seu primeiro sucesso. Cabe ainda toda a doçura de Duas da Tarde, do disco Brasileiro (2018), grande divisor de águas que aproximou Silva da tropicalidade e de um universo tão popular quanto seu nome.

Todas as faixas de De Lá Até Aqui ganharam clipes em P&B e estão disponíveis no canal do artista no YouTube. Gravado inteiramente em sua casa na região serrana do Espírito Santo — na companhia do irmão e parceiro musical, Lucas Silva — , a residência serviu também como locação da produção audiovisual. Como diz um trecho de Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim, o caminho sonoro de Silva nunca foi “reto pra lá”. Suas andanças e experimentações musicais o trouxeram “de lá até aqui” e ainda o levarão muito longe. Com todo o mérito, o futuro de Silva é promissor, deliciosamente incerto e recém começou.

 

 

 

Larissa Mendes e o Gramofone têm muito orgulho em acompanhar Silva de lá até aqui, e muito provavelmente, daqui pra frente também.

 

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Sweat. Suécia/Polônia. 2020.

 

 

Sweat é o segundo longa do realizador sueco Magnus von Horn. O filme é uma realização sueco-polonesa e seu enredo se passa na cidade de Cracóvia. Deveria ter sido exibido em Cannes 2020, porém a pandemia cancelou a apresentação. Atualmente está disponível pela plataforma de vídeo por demanda MUBI.

O filme aborda a vida de Sylwia (vivida pela atriz polonesa Magdalena Kolesnik), uma instrutora de educação física, ou de “fitness”, que se tornou uma celebridade das redes sociais pelas quais ministra suas aulas. O longa abre com a cena de uma aula presencial num shopping center transmitida ao vivo pelas redes sociais. Sylwia precisa não apenas guiar seus alunos presenciais, mas também os assistentes virtuais. Toda cena é tipicamente artificializada, desde a música eletrônica acelerada, o ambiente pasteurizado do shopping, a animação frenética e a coreografia ritualizada do desempenho físico extremado que faz “suar” os participantes. E logo após a aula, a confraternização coletiva se faz ao vivo e à distância, com muitas imagens de selfie de uma felicidade tão exuberante quanto os exercícios.

De fato, Sylwia é uma influenciadora das redes digitais sociais, sobretudo da plataforma Instagram na qual tem milhares de seguidores. Assim, após a aula no shopping, quando retorna sozinha para casa, ela deve permanecer presente na rede digital, comunicando suas impressões do dia, respondendo aos comentários, apresentando sua agenda semanal, transmitindo mensagens positivas aos seguidores. Deste modo, ela é antes uma “coach de fitness” do que instrutora de educação física. Coach é uma personagem típica dos novos tempos digitais, pois deve agir como o influenciador estimulante para uma sociedade estagnada. Ele é menos alguém que tem um conhecimento específico para ser transmitido do que um incentivador de comportamentos. No caso de Sylwia, ela transmite a ideia de uma vida regrada, de consumo sustentável, vegetariana, que preza valores éticos como a reciclagem do lixo e o comportamento politicamente correto, no qual não cabe o preconceito, o racismo, ou a misoginia. Portanto, como já indica o termo fitness, a questão não é manter uma condição física saudável, mas sim um comportamento adequado, modelizador e modelizado.

 

Sweat / Foto: divulgação

 

No entanto, quando em uma live a influenciadora perde o controle e se emociona em função de seu sentimento de solidão, o público estranha seu estado emocional, provocando dúvidas e preocupação entre os seguidores na rede social. A exibição espontânea de vulnerabilidade faz com que Sylwia perca a oportunidade de se apresentar num evento remunerado. Os patrocinadores não gostam do fato de que uma influenciadora, que deveria demonstrar equilíbrio psíquico, tenha aparecido tão inconstante. O desequilíbrio acidental afetou a adequação entre sua imagem e o ideal. De fato, a contínua exibição de sua vida privada na rede social faz borrar justamente a fronteira entre o privado e o público, entre a transparência de sua imagem e a obscuridade de sua vida interior. Ela aparece nas redes sociais não apenas dando aulas, mas também preparando comida, se arrumando para festas ou apresentações, transmitindo mensagens de autoajuda. Ela faz das redes sociais seu habitat, extensão do mundo.  E Sylwia deve sempre corresponder, em sua imagem icônica, àquilo que ela prega nas aulas. A função básica do coach está na adequação entre forma e conteúdo.

O filósofo Walter Benjamin em seus ensaios seminais nos mostrou que o cinema é uma técnica que permitiu aos trabalhadores confrontar as máquinas com seus próprios rostos e poder encontrar assim uma imagem livre para o humano na sociedade industrial. Theodor Adorno, amigo e interlocutor de Benjamim, já era mais cético quanto às possibilidades emancipatórias da técnica cinematográfica, pois acreditava que a indústria cultural submeteu o cinema à lógica fetichista e regressiva da mercadoria. Guy Debord, por outro lado, viu na imagem espetacular veiculada pelas grandes produções do cinema o ícone de um distanciamento que a reifica no consumo anestésico do espectador. Este é então incapaz de se reconhecer como o produtor da imagem distanciada pelo sistema do espetáculo.

 

Sweat / Foto: divulgação

 

Com as redes digitais, no entanto, passamos a um grau diferente da relação alienante entre a técnica e a humanidade. As pessoas não são mais apenas espectadoras passivas e distanciadas das imagens, como descreveu Debord, mas ao mesmo tempo suas produtoras e consumidoras. Consumimos as figurações elaboradas por nós mesmos tecnicamente como perfis e avatares, em comum com múltiplos outros perfis. E o popular e úbiquo selfie se torna um curto-circuito entre a imagem gerada e a assistida, como um “mise em abyme” que lembra as pinturas modernistas de Erscher e Magritte, com imagens dentro de imagens. Mas o selfie não é apenas uma forma de autofiguração, mas o próprio modo em que as imagens aparecem nas telas digitais em rede, que compõem um enorme aparato envolvente, devolvendo-nos, mais do que refletindo, as imagens nele projetadas. Não é que as plataformas sociais forneçam uma imagem especular individualizada a cada usuário, pois as próprias redes dobram-se como uma tecnologia-espelho que reflete a si mesma.

É possível se referir ao tópico da “sociedade de controle” ou da “vigilância”, mas o aparato panóptico não é o de um Grande Irmão que a todos vigia, mas é composto pelos múltiplos olhares que seguem e são seguidos. O perfil construído por Sylwia obedece então aos protocolos técnicos de comunicação das plataformas, que são também protocolos sociais. Ela influencia o olhar de seus seguidores e, por sua vez, os seguidores também são os olhares nos quais Sylwia se vê.  Ela é a coach que modela os corpos e as personalidades, e é também modelada pelos olhares de seus admiradores. As cenas dolorosas de exercício na academia servem para adestrar seu perfil à plataforma de comunicação, como o leito de Procusto no qual as imagens corporais são moduladas. E tudo começa a desandar quando ela deixa escapar a emoção na entrevista ao vivo e, posteriormente, quando recebe mensagens de um admirador anônimo que está desesperado em sua solidão sem retorno. São os eventos que quebram o curto-circuito narcísico de imagens espelhando imagens.

 

Sweat / Foto: divulgação

 

Depois, esse mesmo admirador virtual anônimo começa a perseguir (stalkear) fisicamente Sylwia, e o círculo fechado digital entre influenciadora e seguidor é rompido com a entrada bruta das carências e falhas do mundo real e analógico. A solidão masturbatória do admirador repercute na redoma afetiva de Sylwia e em sua sexualidade reprimida, pois sua vida solitária não encontra resposta na clausura técnica das plataformas. Um encontro casual no shopping com outra seguidora também evidencia à personagem outros vazios afetivos que escapam do mundo virtual. Se as redes digitais simulam esses circuitos de retroalimentação (feedback) entre os perfis de usuários, que virtualmente se encontram e compartilham fantasias enclausuradas, os choques incidentais (mais do que acidentais) com a realidade acabam gerando rupturas. A partir desses cortes, sentimentos antes guardados e contidos extravasam repentinamente. Na cena do almoço em família, quando se reencontra com sua mãe e amigos mais íntimos, fica claro para Sylwia como nem todos os laços afetivos são de mútua confirmação, mas que podem ser de críticas, incompreensões, ou de perspectivas que não coincidem.  E a explosão violenta da realidade será afinal a emergência daquilo que não pode ser controlado pelos protocolos digitais.

E é justamente com seu corpo estafado, depois de uma noite tensa, que Sylwia tem afinal um encontro decisivo com as câmeras.  Estas cobram dela mais uma vez o foco, o condicionamento e a adequação.  Mas a personagem já sabe que há algo de real que foge dessa vigilância cobrada.  Sweat, suor, é assim a metáfora daquilo que escorre ou se excreta, isto é, de um excedente corpóreo que não pode ser inteiramente computado pelos algoritmos digitais.  Os aparelhos tecnológicos modelam as silhuetas físicas e modulam os sentimentos. Mas há também aquilo que está para além da moldura das câmeras. No circuito fechado das redes digitais, as lentes cinematográficas são como  válvulas que permitem a emoção vazar e, em via dupla, incorporar algo de real, contingente e incalculável.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Gabriele Rosa

 

Foto: Fátima Soll

 

[falta, fio, fenda]

 

dias transbordados em xícaras de café. no corpo, silêncios. cortina, copo, cordão. a colher ainda adormece dentro do açúcar. ontem, sete dias atrás, vinte e dois, talvez, não lembro. a tv me assiste, o presente esgarça. lágrimas afogam peito a conta-gotas. horizonte de expectativas rompido. vivo um luto estendido. cada pessoa que morre habita o topo na pilha de corpos que cosem meus poros. dessocializada no álcool em gel. sorrisos agasalhados, abraços suprimidos. medo, máscaras, mortes. suspensão. angustio toques, engaveto afagos. a vacina bate à porta. Eles escolheram as trancas. a estabilidade são mil mortes diárias. mil camas vazias. mil copos deixados nas pias. mil vidas esfaceladas pela Covid-19. como não morrer dentro de uma política de morte? baços destroçados. o meu é um deles, mamãe. queria descrescer, sentir o balanço das tuas águas. aninhar no teu ventre, desaguar pulso. ventania, sopro, tufão. como não sentir medo sendo uma mulher no mundo? mulher, e agora sozinha. negligenciadas por governos fascistas. língua, lenço, linha. as mães não morrem nas canções de ninar.

 

 

 

***

 

 

 

[fornalha]

 

pés sufocados. escondo palavras nas meias coloridas. como caber nas frestas? a cada quatro horas rapto doze segundos de tempo. engarrafo momentos. ofegante, peito bate-estaca. fuligem, fagulha, pó. brônquios embaçados, umbigo aberto. as varandas escondem olhares irredutíveis. pensei ouvir minhas águas, não sei nadar. pernas e pelos e peles queimam colchão suado. das línguas escapam benzeno. gosto do cheiro da fumaça no seu cabelo. inflamáveis: costelas e quadril e clavículas. acendo dedos molhados. chamas penduradas em cabides de plástico. combustão distraída sutura paixão adversa. deslizo. pinço delírio nos dias ensolarados.

 

 

 

***

 

 

 

[infiltração]

 

flores de plástico não gestam lágrimas. bile saturada. pescoço, tornozelo, pulso. falanges Carrara, mapa violáceo. se eu não tivesse tomado aquele picolé de silêncios com cobertura de ameaças, encontraria o palito premiado? espinhos brotam em intestinos fofos. etiquetada. na face, o reboco em seis camadas. no peito, olhares copiosos cavam átrios viciados. empilhada. adormecida entre lascas de detergente e gotas de óleo. pia suja de palavras. desaguada. exaurida desde a placenta. vigiada em caixas. qual a minha fome? ele devorou todo o resto.

 

 

 

***

 

 

 

[fagulha]

 

sopro fósforos entre a tela de proteção e o céu que não alcanço. deixei infância na feira de antiguidades. ardo parapeito oxidado. dentro de um envelope vermelho na caixa de correios pousa a chave extra. sexto andar. prefiro as escadas. na cama, cobertos de sonhos e saliva e medos. pistas, ponte, passagem. olhar turbulento de maré baixa faísca paredes frágeis. magnetizados. vestidos em lençóis, horas suadas de algodão macio. os ossos guardam memórias? corpos arrepiados, constelações em pilot vermelho. poemas riscados nas coxas. línguas disparam vontades: insaciáveis. sono excitado, pupilas flutuantes. páginas arrancadas pela manhã. fotografo a pele cansada, não perco nenhum segundo de vida. marsala, bordô, cornalina. planto fogo e não colho chama.

 

 

 

***

 

 

 

[beira]

 

metatarsos dançam lembranças. piso magoado, afagamento escorregadio. quinas, dores, vasos. alinhavada em cobalto e índigo. perambulo espaços cozidos a olho nu. despertenço. veias chaveadas, espuma rápida. pestanas dragam gotículas de pele. sintonizo águas rasas, visto prumo aluado. corrente alternada, lentes em paralelo. pouso, poeira, pulsão. onde afogo os meus sapatos? pendulares são as tardes de domingo, costelas flutuantes atulham taças de abismo. respiro leds acessos. berro. dependuro balanços chumbados na lâmina do teto. salivo lacunas de vento. medula andarilha., carne viva.

 

 

 

***

 

 

 

[ato]

 

peles afoitas sorriem vendaval. respiros largos, línguas hábeis. na cama desaforada, travesseiros avulsos. jade, buganvília, alamanda. aérea. paredes infinitas. sentados, pelados, invertidos. claraboia observa bulbos talhados. libertos. pequenos lábios acariciam lâmina. corpos abertos devoram os dias. treliças, toalhas, talheres. comidos, amanhecidos. de perto seus olhos me escapam. nuca aquecida, tornozelo em chamas. não aprecio quedas bruscas. me deixa ver seus tentáculos? no varal, roupas abandonadas sugam horas intermináveis. desmascarados. pendurados em sorrisos amplos, viciados em palavras táteis. inflamáveis. piscada em picossegundo. o desejo dorme, a cortina desce.

 

Gabriele Rosa é historiadora, poeta, artesã da palavra e da cena. Atua como dramaturgista e dramaturga de processo na Bonecas Quebradas Teatro. Graduada em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, integra o coletivo CuidadoPoema. Autora de “Lavínia é mais Rosa que Espinho” (Libertinagem, 2021, no prelo) e “Fendas extraordinárias” (Patuá, 2019). Tem contos e prosas curtas publicados em diversas revistas literárias.

 

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Bianca Grassi

 

Foto: Fátima Soll

 

Graças a deus

 

manhã de quarta-feira
botei teu nome na boca do sapo
e costurei com fios do teu cabelo
a fim de levar todas as desgraças do mundo
de volta pra tua cama
pra tua mesa, pro teu banho
a fim de deixar um gosto amargo na tua boca
e teus olhos secos
teus ouvidos zunindo
teus dedos formigando

acendi uma vela vermelha
que é pra tua sede durar 7 dias
tua fome ir só aumentando
a chama atrapalhar teu sono
trazer queimação pro teu estômago
fazer teu corpo suar frio

coloquei a estatueta de Jesus de cabeça pra baixo
num pote de merda de porco
junto com pedaços de unhas tuas
que é pra deus nenhum ouvir teus apelos
e milagre algum te alcançar

depois, de zombaria,
chamei padre, exorcista, freira e benzedeira
e no meio da reza
fiz um boneco de pano com tua foto 3×4
e marquei teu peito em brasa quente
com um crucifixo invertido

matei galinha, comi pipoca,
servi banquete com coração de boi
misturei sangue de virgem com cachaça
botei veneno de rato na água benta
alisei teu cabelo feito de palha
acendi um fósforo
e entre o cheiro de enxofre e de alfazema
te assisti queimar até as cinzas

fui expulsa do reino dos céus ainda criança
mas faz tempo perdi o medo do inferno
hoje o diabo sou eu
graças a deus

 

 

 

***

 

 

 

Sonho

 

sonhei que ia me mutilando aos poucos
primeiro arrancava todas as unhas
depois cortava um dedo da mão esquerda,
o menorzinho,
depois sumia com a pele dos cotovelos

arranquei a clavícula
quebrei as costelas
expus as tripas, o útero, o baço
no lugar dos seios, sangue
o coração nas mãos
depois também as mãos foram pro chão
com os braços, com o resto

desconstruí tudo que era sabido ser eu
até que enfim fiquei em pedaços
e acordei
sem pé nem cabeça

 

 

 

***

 

 

 

Brecha

 

não aprendi as coisas básicas da vida
ainda não sei dirigir
não sei nada de elétrica
não sei investir na bolsa
não lembro bem datas nem nomes da história
nem entendo muito
das coisas todas que são importantes
mas aprendi algumas coisas
talvez irrelevantes
como chorar quando alguém chora
e saber ler as pessoas muito bem
e a sentir
sentir muito, todos os sentimentos,
até os que não são meus
e entre a pilha de coisas que eu deveria ter aprendido
e a pilha de coisas que eu deveria desaprender
existe uma brecha pequena
onde eu durmo

 

 

 

***

 

 

 

Boca do estômago

 

das coisas todas que destruí
sobreviveu em mim esse sentimento na boca do estômago

têm sido dias estranhos,
o passado me visita nos detalhes do cotidiano

nunca mais ouvi uma chaleira apitando.
me sinto mal todos os dias por volta das cinco.
por que será que tenho fome mesmo de barriga cheia?

toda vez que faz frio eu tenho o mesmo pesadelo
e pelas manhãs sinto saudade
de uma versão de mim que talvez nunca existiu

 

 

 

***

 

 

 

tem uma coisa hoje que me atravessa

 

tem uma coisa hoje que me atravessa
e eu quero gritar de desespero
mas tem um bicho trancado na minha garganta
um gosto de sangue entre meus dentes
e, na língua,
uma palavra
atrasada

tem uma coisa, hoje, me comendo as entranhas
uma dor intensa no joelho direito
e eu quero chorar
mas tem um bicho pendurado na borda do meu olho esquerdo

tem uma coisa hoje que me atravessa
feito flecha, feito soco, feito poesia
uma dor
indescritível
invisível
infinita

mas tem um bicho sentado nos meus ombros
me dizendo
que é assim mesmo:

quando algo dentro da gente deixa de existir
o vazio nos atravessa

 

 

 

***

 

 

 

Sábado

 

Organizei as gavetas naquele sábado
Guardei as notas fiscais
Os poemas
As senhas
Cataloguei tudo que era importante
Aquela memória de 1998
Alguns desenhos
Chaveiros, ímãs, fotos
Joguei fora o que já não era (m)eu
Boletos pagos
Diários da adolescência
Emails impressos
Apostilas de francês (que nunca aprendi)

O que mais eu deveria deixar à vista caso morresse?
Passaportes
Certidão de nascimento
O número de telefone da minha mãe
A foto e as roupas que quero no meu velório
Meu livro não impresso semi-editado
(Seriam essas as minhas últimas palavras?)
as roupas e a coleção de Milan Kundera para doar
– sorte que não tenho muitos sapatos –

Sobrariam ainda algumas tarefas para o depois:
Alguém teria que devolver as minhas coisas no escritório
Transferir o dinheiro pouco que economizei e não usufruí
Cancelar minhas contas nos bancos
Desativar minhas redes sociais
Apagar os vestígios de mim que deixei
Sem querer
E mandar meu corpo de volta (pra onde?)

Quero que doem meus órgãos,
A pele, as córneas, tudo que sobrar de bom
– não é muito –
E que possam finalmente jogar meus pulmões no lixo
(enfim vou parar de espirrar!)

Se eu morrer nesse final de semana
Ou em qualquer outro
Mesmo que seja às sete da manhã
Já vai ser tarde

 

Bianca Grassi é uma artista contemporânea baiana que usa uma combinação dinâmica de materiais, métodos, conceitos e temas em sua arte. Formada em publicidade e propaganda com ênfase em marketing pelo IPA, em Porto Alegre/RS, é designer, ilustradora e escritora. Tem um conto publicado no livro Algumas Ficções (Editora De Leon) e poemas em revistas digitais como Mallarmargens, Literatura e Fechadura, Germina e Ser MulherArte. Desde 2016 mora em Praga, na República Tcheca.

 

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

UM CARA CHAMADO JOÃO

 Por Gustavo Rios

 

 

Geralmente, é assim: o escritor, num ato solitário e meio transcendente, trabalha para, num outro extremo, ser lido por alguém que muitas vezes nunca o encontrará, mas que precisa ser um cúmplice, apesar da distância. Dessa forma, suponho ser assim também com o cronista que, entre outras coisas, mistura fatos com percepções e sentimentos para seguir em frente com seu trabalho.

Resolvida a introdução desta resenha, venho dizer que Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo, do jornalista e escritor João Mendonça, pode, sim, ser considerado um bom livro de crônicas conforme a sua catalogação. Mas não apenas isso.

Nas 122 páginas da obra, publicada em 2018 pela Via Litterarum Editora, temos o protagonista que se mostra solitário e que usa do expediente comum aos cronistas (o trivial como inspiração) para escrever. Como o autor afirmou em seu site, Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo foi todo produzido “sem a intenção de transformá-lo em livro. Todo ele foi escrito entre 2015 e 2017. Nesse período, eu adquiri o hábito de escrever antes de dormir, deitado na cama”, atitude que cabe numa boa nesse gênero textual de possível origem francesa.

No livro, porém, é evidente a busca pelo melhor texto, o que refuta um pouco a tese defendida por ele sobre não ter a intenção de publicá-lo. Mesmo que essa busca seja algo inconsciente, naquele esquema do fluxo, enxergamos claramente uma vontade, por assim dizer. Além de percebermos um encadeamento de escolhas e gostos, principalmente na relação de Mendonça com a cidade que o cerca e, de forma mais particular, com o seu bairro, o tradicionalíssimo Corredor da Vitória.

Usando como ponto de partida uns bocados de seu cotidiano – frequentar a banca de jornais; tentar conversar com um italiano antipático, enquanto a baiana do acarajé trabalha; a visita de um sobrinho -, conforme uma das “regras” da crônica, desse mesmo ponto de partida surge uma escrita que se mostra muitas vezes etérea. Os textos do Mendonça tendem ao poético, meio no sentido clássico da coisa (plenitude, essas coisas), talvez ligados a um dos conceitos gregos de poiésis que fala sobre a disposição em criarmos algo belo a partir do sentimento e da imaginação (1).

Pois, conforme o próprio Mendonça, as “palavras quando são colocadas de maneira errada precisam ser corrigidas antes da primavera”, no que conclui: “O erro da palavra é o erro da vida”.

Caso prefira, o leitor pode ficar com a ideia do Quintana que fala sobre os poemas (uma das manifestações da tal poiésis) terem ritmo “para que possas profundamente respirar”.

No caso de Mendonça, respira-se bem. Muito bem, por sinal.

 

Poesia, ainda

 

Deixando um pouco de lado esse papo envolvendo gregos, troianos e “quintanas”, outro ponto forte do trabalho é justamente a liberdade. Principalmente em relação à linguagem propriamente dita.

No livro de 89 textos, dividido em partes (“Delírios de uma alma abstrata”, de tratamento mais subjetivo; “Afetos, ausências e fragmentos”, mais autobiográfico, e “A vontade que tenho de abraçar o mundo”, sentimental e franco), o autor baiano extrapola a “simplicidade” comum às crônicas – entendendo “simplicidade” como algo corriqueiro captado pelo olhar de um autor, que se converte em algo belo e comovente, mas que busca o entendimento sem cair em hermetismos. Daí que a escolha de João é acertada.

Ele não se priva de viajar um tanto aqui, outro acolá, sempre calcado na beleza do texto. Seus devaneios fogem da descrição direta, se estendem. E, ainda que o leitor se pergunte o que ele realmente quis dizer com determinada frase, a pergunta se perde na fundamental cumplicidade que esse mesmo leitor deverá ter com o autor para seguir em frente. Cumplicidade que deve se manter, já que não devemos esperar a todo instante fechamentos ou conclusões, daquele tipo de frase que encerra algo (uma ideia, um sentimento, um efeito). O compromisso de João Mendonça é com a escrita.  Com as possibilidades dela.

É preciso viajar com João, antes de tudo. Enxergar que seus caminhos são internos, abstratos, metafóricos, bonitos pacas e baseados em verdades e em sentimentos bem pessoais. Na relação marcante com o pai, ou mesmo com amigos, parentes, com a cidade e com as namoradas – estímulos do mundo exterior -, Mendonça nos dá a dica: sempre confie no que escrevo, não nos fatos causadores.

Fatos são “molduras novas para meus quadros”, como ele mesmo diz na página 35. Por sinal, a mesma página em que afirma: “já deixei a poesia se livrar de mim. Ela precisa voar” (tendo como base o conceito de poiésis exposto acima, e considerando que tal comparação feita por mim valha algum Real, sequer um Dracma).

Possivelmente, a ideia de trabalhar sem o intuito de converter sua escrita em livro tenha o feito derrapar em alguns momentos. Em miudezas de seu cotidiano, como a ligação de um amigo que se mudou para Londres, por exemplo, o leitor poderá se perguntar o porquê daquilo, pois nesses exemplos a poesia não brota e o ritmo falha. Frases como “O acarajé é a hóstia de quem mora em Salvador” (um pouco estereotipia), ”Uma flor sombria busca incansavelmente sua pigmentação mirando-se para o sol” (aliteração), podem não agradar tanto ao leitor. E quem as lê pode achar um tanto esquisito. 

Entretanto, assim como toda viagem tem lá seus trechos de paisagem modesta, cabe mais uma vez ao leitor confiar que logo adiante a coisa melhora. E muito. Além do mais, e curiosamente, não consigo imaginar Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo sem essas paisagens-passagens mais simples, digamos. Talvez por sacar que elas fazem parte da vontade do escritor e do caminho escolhido por ele. Um caminho firme.

Não demora e Mendonça retoma ao devaneio que comove. É quando ele, autor de O Sol Partido, dentre outros, nos surpreende com frases longas, sutis, belas, meio herméticas e ritmadas (olha o Quintana de novo!), tais como:

“Já fui ao Iraque e não te vi na balaustrada perfurada pelas crateras do tempo. Volto sempre ao mar que grita teu nome. Volto sozinho e esperançoso. Nunca mais entregarei a caixa de bombom sem o endereço correto da última casa em que moraste no fim do grande vazio.”

 

Aforismos legais para mesas de bar (ou para umas camisetas hype)

 

Em minha opinião, quando um escritor nos dá alguma frase boa e curta, daquelas que nos orgulhamos em repetir em mesas de bar, geralmente ele está no caminho certo.

Evidentemente, tais frases-de-efeito devem ser o resultado de depuração, de um processo coerente, de literatura boa e da reflexão. No caso de João Mendonça, identifiquei algumas dessas pérolas. E em todos os casos as tais frases me trouxeram a certeza de que o livro dele é bom.

Em tempos de “lacrações” e “memes”, pode ser perigoso destacar algo do tipo num escritor. Todavia, considerando o contexto a que essas frases (bacanas e eficientes) estão submetidas e o efeito direto que elas podem causar, acho que vale a pena arriscar.

O fato é que eu não poderia fingir não ter visto coisas como as que seguem: “Assim é a vida: uma sensação de dúvida intermitente”; ”A saudade é o sonho na contramão”; “O mundo transformou-se numa máquina quebrada que se repete contra a vontade dos homens”; “O vento é a chave que transpõe portas”; não esquecendo a já citada, “O erro da palavra é o erro da vida”.

Sabendo que tais aforismos não surgiram de forma isolada e não surgiram para serem “aforismos”, e que eles são, antes de tudo, consequências de parágrafos bem trabalhados, concluo que a intenção de Mendonça não foi “lacrar”. A coisa meio que brotou como final, meio, mote ou princípio; como boa prosa, boa poesia.

Dessa forma, esse autor baiano, além de nos agraciar com um texto fluído e bacana, nos oferece pensamentos que valem uma dessas camisas legais que a moçada usa em saraus – ainda que eu ande meio desconfiado com essa turma; coisa de quem está beirando os cinquenta-de-idade.

Outro ponto a ser destacado é o olhar de Mendonça que também parece capaz de enxergar a conjuntura social e política (acho que as manifestações de 2016 mexeram com ele de alguma forma), muitas vezes reagindo a ela quase imediatamente (ele caminha pela cidade e vê; depois, em seu quarto, discorre sobre). Reação trabalhada com a mesma pegada poética e metafórica de sempre.

Ontem, o fogo queimou lojas e as praças foram fechadas por precaução. O menino de rua viu tudo do alto da árvore da vida. A mesma árvore que testemunhou inúmeros massacres contra o povo desarmado de ódio e ávido por lutar. O menino viu tudo e não contou a ninguém porque ele vivia sozinho e nesse mundo estranho ele só conhecia a ele mesmo.

O fogo se alastrou com força em direção às margens dos palácios dos brancos. Logo o acusaram e seu rosto parecido ao de tantos bandidos certificava que ele se tratava de um bandido mesmo. A polícia foi atrás dele porque lugar de menino é atrás das grades.”

A infância como tema é também algo presente. E marcante. No caso de Mendonça, boa parte dos trechos mais comoventes nasce daí:

“Deixei então a pá encostada na parede e comecei a cavar com as minhas próprias mãos. Logo percebi que tinha anoitecido rapidamente, desde cedo estávamos cavando. Foi quando comecei a encontrar os primeiros objetos.

O relógio preto que meu pai me deu de presente quando fiz dez anos, a foto de minha primeira namorada, a bola de basquete, o badogue com que eu brincava atirando pedras, o murro que eu levei na cara do meu melhor amigo, os carrinhos de ferro que eu colecionava, o grito da professora, meu sonho de ser astronauta, meus óculos quebrados, a imagem que tinha de Deus, o medo da morte, todos os fantasmas que vinham me atormentar à noite, as músicas de Moraes Moreira, o fim do mundo, o mendigo que morreu na porta do meu prédio, o sorriso de minha irmã, minhas primeiras observações sobre o sol, o escuro das escadas vazias, as mulheres velhas que me assustavam, as cores dos potes de tinta com que eu pintava, a barraquinha de camping…

Continuamos cavando, até que meu sobrinho olhou para tudo aquilo que estava exposto e disse: ‘Todas essas coisas não são mais suas. De quem são?’.”                

Apesar de longo, defendo que o trecho acima é digno de ser lembrado; vamos combinar?

 

Breves comparações

 

No quesito paralelos-e-comparações (estou tentando ser didático, tenham paciência), outros autores e livros me vieram à mente na leitura de Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo: Lupeu Lacerda e seus “prosoemas”, pela vontade de romper a couraça da linguagem a partir de observações “puxadas” do trivial; José Agrippino de Paula e seu PanAmérica, pela liberdade na criação de cenários, cenas, percepções e possibilidades; e, finalmente, Richard Brautigan, com seu livro Pescar truta na América, pela atemporalidade, pela carga metafórica e pelo tema “vida adulta”. O livro de João Mendonça também me remeteu a outro publicado no Brasil em 1995 pela José Olimpo, chamado Primeiro o amor, depois o desencanto (e o resto de nossas vidas), do canadense Douglas Coupland. Embora ambos sejam bem diferentes na forma e nas intenções (2).

O autor canadense nos mostra uma face bem melancólica da vida, todavia. João, apesar de tudo (incluo aí a homenagem a um tio, no que suponho algo marcante e talvez grave), nos traz alguma esperança. Com uma boa dose de leveza e outro tanto de espiritualidade não no sentido religioso, mas da transcendência, Mendonça se afasta da tristeza vã e segue.

Portanto, e esquecendo um pouco essa coisa minha de comparar-para-parecer-um-gênio, ainda que o Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo tenha sido catalogado como crônica, eu não o vejo dessa forma – não simplesmente. Nesse gênero textual e literário (por que não?), em que nomes como Sabino, Rubem Braga e, aqui em nossa vizinhança, Kátia Borges (também poeta e jornalista), são referências de pompa, creio que o João Mendonça se sairia bem. Entretanto, a sua habilidade em ampliar a linguagem acabou transformando seu livro num trabalho de maior alcance – ainda mais sabendo que as 89 “crônicas” foram selecionadas entre cerca de 300 textos prontos, num trabalho que contou com a ajuda preciosa do escritor e fotógrafo Tom Correia.

Dessa forma, afirmo que mesmo que o leitor se depare vez ou outra com abstrações, sugiro se deixar levar pela beleza e pela poesia contida neles, pois, assim como qualquer viagem, muitas vezes esbarramos em horizontes aparentemente confusos, mas não menos necessários.

Para mim, parceiros, a viagem com João valeu cada minuto. Assim como valeram também as passagens. Tanto a de ida quanto a de retorno.

 

(1) São muitos os conceitos e suas derivações. Daí que usei uma ideia bem simplória, tipo voo rasante. Tenho pouquíssima bagagem no quesito “Filosofia” (seria Platônico supor que eu manjo do assunto), mas acho que dá para o gasto. 

 

(2) Tais analogias seguem guardadas-as-devidas-proporções e não são limitadores para a leitura de nenhum dos escritores citados, incluindo nosso querido Mendonça. Antes, podem servir como tentativas minhas de compreender esses trabalhos. Além do mais, as semelhanças podem não estar evidentes para você, leitor, pois minha cachola não tem a mesma precisão sacal dos algoritmos (alguém digita a palavra “amor” e o Google indica motéis, flores em promoção, perfumes Jequiti e caixas de Lexotan).

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Duda Las Casas

 

Imagem: Fátima Soll

 

Leio borra de cafés
nuvens
cartas
faço freelas
como me cansa ser otimista

 

 

 

***

 

 

 

P AR TO

 

Se dizes que não sabes se vem
ocupo seu lado da cama
com livros
espero o pai chegar
para a boa hora
tomo cuidado para não gestar algo maior
que fique difícil depois de sair
Pra eles é mais fácil parir
Como dói
uma palavra que só tem no presente
Encaro a conjunção
dou colo para o passado
escolho uma vida
para o destino
das palavras

 

 

 

***

 

 

 

Dura na queda

 

Olhar para o alto
no grito do falcão
o
aviso
para antecipar o voo
em pleno ar
ao
invés de cair
eu
poderia apenas
ter feito um poema

 

 

 

***

 

 

 

Um prato para os ancestrais

 

Respirar para o encontro
o grande encontro das forças
sobreviver
pra dançar I’ll survive
Retornar a Aushwitz
desejar ser bisavó
espalhar o dna por ai
No mapa registrar as curvas até Sintra
abrir uma Durex
dar-se conta
de que todos os espermatozoides
no fundo
desejam ser felizes

 

 

 

***

 

 

Não choro mais Julio
pelo livro que não fez sucesso
Nem pela poeta que ficou esquecida
Em Sirius
Só me preocupo em regar
Com água solarizada
Sinto forte
A dama da noite
Gero minha própria luz
monstera deliciosa
Sem hífen
virgula
Abre caminho
anti-matéria

amiga:
as alquimistas ocuparam toda a varanda
Recebo agora
um coração
revestido de selenita
comemoro o batismo
a chegada
do meu novo nome cósmico

 

 

 

***

 

 

 

Agora que o sangue desceu

 

procuro partilhar sonhos
como se estar por cima servisse
como um método contraceptivo
diagramo a mandala
o sangue passeia comigo
junto a serpente
retorno ao Rio
volto para buscar o que pensava ser nosso
visualizo a floresta brasileira
o búfalo
me agarro às orações
pouca probabilidade de ser arrastada por desejos
no primeiro dia do ciclo
não contarei mais
o tempo que leva para uma barba crescer

 

Duda Las Casas é colecionadora de imagens, oráculos e palavras. Carioca, diretora de tv e cinema, estudou jornalismo em Belo Horizonte e artes visuais no Rio de Janeiro. Duda se divide entre Brasil e Portugal, onde pesquisa a língua portuguesa na Universidade Nova de Lisboa e administra uma página de memes. “Viseira” é seu primeiro livro. 

 

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Zuca Sardan & Floriano Martins

 

Foto: Fátima Soll

 

LA MAGNA IMPORTANCIA EN LA HISTORIA SANTA Y PROFANA DEL POPOKATEPLEK

 

ZUCA SARDAN

Hay ahora una grande polémica diplomática en la ONU, una acerba disputa que opone el México a L’Italia. Los italianos contestan que el Popokateplek sea más importante que el Vesuvio, en la Historia Geológica y en La Historia Sagrada. Del punto de vista de potencia volcánica, el Popokateplek es un volcán de plena y formidable potencia, capaz aún en nuestros días de lanzar llamas y vapores hasta centenas de metros de altura… Al paso que el Vesuvio, en los días de hoy, no expele más nada, ni siquiera la fumarola que encantaba los pintores hasta la Queda de la Bastilla, y sobre todo después de la Batalla de Waterloo, sobrando solamente el encanto, para los turistas, de su fumarola, hasta la primera mitad del siglo XX, cuando la fumarola se acabó, de una vez por todas. Cuanto a la Historia Sacra, el Vesuvio fue superado por el Ararat, donde se tendría acostado, al fin del Diluvio, la Arca de Noé. Pero el Doctor Zapata acredita, basado en sus excavaciones, que el Ararat no presenta la más mínima erupción, a rigor no es siquiera un volcán, ni tampoco un volcanoide sin cratera… Así, del punto de vista geológico no ofrece condiciones de compararse a nuestro imponente y fogoso Popokateplek. Ahora resta la Historia Santa. Ora, las revelaciones en la Biblia sobre la saga de Noé, fueron hechas siglos Antes de Cristo, cuando los Hebreus, y todos los Pueblos de Europa, África a Asia, no tenían la menor noción de la existencia de las Américas. Entonces los relatores de los hechos bíblicos no tenían la más mínima idea da la existencia del Popokateplek, e imaginaran que la Arca se hubiera acostado en el Ararat… Pero el Diluvio fue mucho más fuerte de todo lo que se pudieran imaginar los sabios de la Antigüedad. Tanto el Vesuvio cuanto el Ararat estuvieron sumergidos por el Diluvio. Solo el Popokateplek ofrecia condiciones de un seguro acostamiento de la Arca. No obstante estas consideraciones geológicas, siguen los armenios y los italianos negando la primacía del Popokateplek, en el salvamento de la Humanidad y de todos los animales, a excepción de los peces, que viven en el agua y… de los dinosaurios de que el tamaño colosal tornó imposible ingresarlos en la Arca, y acabaron todos muriendo ahogados.

 

DOC FLOYD

Uma vez publicada tal saga nos papiros de arroz Valkiria, o centro do mundo deixou de ser aquela região do Ararat, passando a terra Santa a ser banhada pelas águas do Amazonas. E a história, que sempre teve uma tara pelas distorções, conserva o segredo de sua origem em uma arca de pau d’arco no fundo falso de uma barcaça que sobe e desce o rio Negro. A chave da arca é um mistério que a cobra Nosferatu guarda em seu estômago.

 

ZUCA SARDAN

Floriano, era isso que eu bem imaginava…

 

DOC FLOYD

Mas no fundo as coisas nunca são como as imaginamos…

 

ZUCA SARDAN

E muito menos como elas próprias pensam que são.

 

DOC FLOYD

Esta é já uma clássica confusão. Daí que hoje em dia os classificados já procuram por pitonisas que não façam a menor ideia de seu trabalho.

 

ZUCA SARDAN

Quanto menos ideia de seu atualmente mercantilizado trabalho, e mais louca seja a pitonisa, melhor poderá se realizar a verdadeira prática oracular.

 

DOC FLOYD

As pitonisas cantam e oram
enquanto varrem o chão
preparando o tablado
para a próxima sessão.
O ministro Delgado
disse a elas que à noite
vai contornar a lua
com o cetim dos sonhos
e um coro de sapinhos
com os olhos esbugalhados
decifrarão os futuros
de cada alma lavada…

 

ZUCA SARDAN

Para lavar alma precisa água-raz e… a Pílula do Esquecimento do Doutor Radar.

 

DOC FLOYD

Mais da metade das almas ao menos desconfia que futuro algum terão. Aquelas que imaginam ser tocadas por algum esfregão da sorte, fazem cara de comidinhas do destino e conspiram contra as demais.

 

ZUCA SARDAN

Não ter aporrinhação futura alguma, e sumir sem pagar as dívidas… é o Calote Metaphysico… saborear o sossego eterno prometido pela Modernidade… Livre enfim do Tribunal das Lambadas de Ultratumba.

 

DOC FLOYD

Foi assim que um dia desses a Modernidade parou de cantar em sua gaiola de cristal. E os querubins de pasto pequeno em uníssono exigiam que ela fosse para a panela. A boia era a última das quimeras.

 

ZUCA SARDAN

Segundo o Peru da Modernidade, a Perua da Vida Eterna rebola melhor… Mas como ele não bobeia com as aparências… desconfia que o rabão supino é coisa da Costureira Celeste. Quando chegar o Natal… ele acabará na panela.

 

DOC FLOYD

A Modernidade sempre foi o grande dilema de Cronos, porque ela trucidou o futuro e congelou o presente. A seus olhos tudo é passado e só ela reina impiedosa.

 

ZUCA SARDAN

A Modernidade é hoje coisa do passado. A Pós-Modernidade se pinta e se emperequeta… Saturno boceja, e dá uma afiada na foice… O Corcunda Corco se coça e toca a badalada vesperal.

 

DOC FLOYD

Os grilos sorrateiros desafinam todos os instrumentos no auge da noite sonolenta…

 

ZUCA SARDAN

Entra o Corvo Edgar… para acabar com a baderna… Súbito silêncio…

 

CORVO EDGAR

Acabem com essa zoeira grilos jecas, e não voltem NUNCA MAIS…

 

CORCOVO

(Acompanhando no carrilhão o espinafro do Edgar) Bong… Bong… Bong …

 

DOC FLOYD

As morsas tiram a poeira dos sextantes. Temos que rever as nossas cartas de navegação. Ainda ontem íamos a toda força a estibordo. Agora a deriva sorri e nos abre os braços.

 

ZUCA SARDAN

Sem o imprevisto, não haveria surpresas. Sem surpresas, a vida torna-se sem graça. Mas só encontra o imprevisto quem souber esperá-lo. Quem não esperar o imprevisto, jamais o encontrará.

 

DOC FLOYD

Que diabos de capirôto é esse que escreve uma lenda em que os tupiniquins se debruçam no ombro da estrada à espera do… inesperado! Pois afinal, oh dramalhão de quinta, eivado de paradoxos amanteigados, como pode ser inesperado sendo tão esperado!!!

 

ZUCA SARDAN

Pois é… a sorte favorece a audácia!… Como dizia o Danton: Audácia! e sempre Audácia!… E o inesperado não deve ser esperado na banheira, ou chega a Charlotte Corday e passa-te a faca!… como aconteceu com o … plec! plec!… o… Marat!… morreu com um papel na mão… escrevia na banheira seus violentos artigos.

 

DOC FLOYD

Morrer com um papel na mão, é haver sido impedido de uma última representação. Dizem que a banheira de Marat está guardada no porão do Louvre, que até hoje há uma nódoa de sangue em um pequeno rasgo no quarrycast da velha banheira vitoriana…

 

ZUCA SARDAN

Marat era muito doente e passava grande parte do dia dentro da banheira. E dentro da banheira escrevia, mediante uns apoios de madeira que lhe serviam de mesa. Diariamente ia almoçar no Café Procope, que até hoje existe, na mesma rua em que habitava, na Rive Gauche, onde o editor de seu jornal, localizado na mesmíssima rua, despachava um mensageiro para ir recolher o manuscrito que Marat trazia para o Café, de modo a dar-lhe umas derradeiras penadas. Quando estive em Paris, durante um ano, em 1957, na Rive Gauche, eu ia quase diariamente almoçar no Procope, que era então bem baratinho, sempre orgulhoso de seu passado histórico, e tinha retratos ovais grandes, em molduras douradas, com os retratos de todos os personagens históricos que o haviam frequentado nos tempos da Revolução. Os retratos eram fidedignos, em tamanho natural, mas visivelmente cópias, em cartão, de quadros originais, ou recopiados, por algum pintor-artesão hábil, de alguma gravura representando tal ou qual personagem. O proprietário, que tinha suas fumaças literárias, era muito amável, e seu gato vivia dentro do Restaurante, e cismava de se enroscar ou subir na cabeça de algum freguês, ou freguesa, que lhe parecesse mais simpático. Há poucos dias, vi um documentário francês recentíssimo, sobre o Café Procope e está de um luxo extraordinário, mantendo o aspecto histórico na sua reforma total. Uma cozinha super-sofisticada, e caríssima, garçons com roupas antigas, nada a ver com o café-restaurante, servido por garçonetes velhotas, que eu havia frequentado.

 

DOC FLOYD

Talvez o papel viesse embebido em sangue da revolução que almejara. A história é fascinada pela borra de café das quimeras. Os sonhos são defumados com precisão. As fumaças que saem pelas escotilhas, chaminés e cozinhas papais. Um batuque ao vento anunciando as glórias e catástrofes da combalida história. O que restou da Modernidade é esse vício de labirintos, essa gravação repetida da voz das nações. A carta magna dos insucessos.

…e a cortina desabando sobre nossas cabeças….

 

Zuca Sardan (1933). Poeta e desenhista.  Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Floriano Martins. Contato: zuca.saldanha@gmx.de

Floriano Martins (1957). Poeta, ensaísta, dramaturgo, editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Zuca Sardan. Contato: floriano.agulha@gmail.com

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

TESTEMUNHO DO LABIRINTO

 Por Sandro Ornellas

 

 

Assim na terra como no selfie (2021) é o sexto livro de poemas de Alex Simões, contando o segundo, uma plaquete com versos e fotos, e o quinto, um livro artesanal de poemas visuais criados (livro e poemas) em colaboração com outros artistas. Quem acompanha o trabalho de Alex sabe como ele tem caminhado do exercício do soneto para o verso livre, que se percebe no seu caso dever muito à prática daquele. Refiro-me ao ritmo do fraseado nos versos de Alex e, por extensão, à construção sintática, àquilo que alguém famosamente disse tratar-se da hesitação entre o som e o sentido. Pois é por aí que começo a falar desse novo livro de Alex. Da hesitação. Até porque ele, à semelhança de Trans formas são (2018), reúne sonetos, versos livres, poemetos e brincadeiras espaciais – embora em menor incidência do que naquele.

O título faz trocadilho com um famoso princípio hermético contido também no “Pai nosso” católico e, junto com a leitura de muitos poemas, deixam claro tratar-se de um livro escrito (ao menos boa parte de seus poemas) durante o período mais tenso do primeiro isolamento social na pandemia da Covid-19. Nesse período, foi comum ver pelas redes a classe média trocar o selfie em sorridentes festas e viagens turísticas pelos selfies das cantorias com vizinhos, aprendizados culinários e rotinas de isolamento. Tudo sempre acompanhado da indefectível hashtag “#ficaemcasa” – com seu tom imperativo. Hoje, um ano e meio após a deflagração do isolamento no Brasil, tudo mudou. Ou nada, talvez. Mas o livro de Alex me chega às mãos como testemunho dessa viagem. E o que leio nesse testemunho?

Leio a hesitação entre o som e o sentido dos versos nos sonetos de Alex se disseminarem por outros fraseados oracionais e certas posições do sujeito da enunciação, embora também permaneçam lá, nos sonetos. O “43”, em que o sujeito circula em casa por rotinas que sobrepõem trabalho e laser, movimento e tédio, idas e vindas: “tapioca e café todos os dias / cedo pela manhã antes da escrita / que precede a visita à toalete / para depois as redes, as notícias / e revisar e planejar e cozer / e irrigar as plantas e dar aulas / às vezes viajar às vezes não”. Há nesse e em outros poemas qualquer coisa de pacificação no sentimento do poeta diante da circularidade doméstica dos dias e afazeres durante o isolamento. Ou mesmo antes dele. Mas uma pacificação cuja respiração às vezes hesita com certa ansiedade.

A melhor imagem para figurar essa paz ansiosa vivida por muitos durante a pandemia me parece o labirinto. Há alguns deles nesse livro de Alex, mas a “Cama de gato”, misto de brincadeira e passatempo, me parece exemplar. Ainda mais como analogia criada pelo poeta para a própria poesia de quem coloca a vida em suspensão no gesto de escrever: “eu faço versos como quem / faz uma cama / de gato”. Mas não somos apenas nós que jogamos com a poesia e a cama de gato. Somos também jogados pela rede do acaso que insistimos em ignorar com o mesmo prometeísmo que disseminou o atual e outros vírus. Chamamos “cama de gato” e “poesia” nossas ferramentas lúdicas; mas, ao que não temos nome e tememos, Alex nomeia “traquitanas”: “não consigo pôr ordem na casa / porque não há nenhum sentido em pôr ordem / menos ainda em progresso. / […] / o caos não é meu, / é nosso”. Pois é mais ou menos assim que o poeta segue hesitante entre o desejo de ordem (“tapetum lucidum”, “haikai não cai”, “Soneto do isolamento social”, “no ferry”, “o amor ao mar em meio à pandemia”, “aquela a esperar”, “um poema para Oxóssi”) e o sentimento de desordem (“47”, “45”, “A educação pela pedrada”, “assim na terra como no selfie”, “o que me resta de uma casa”, “volver”, “sessão de poesia para a tropa”). Talvez por isso o título soe como uma irônica oração dirigida aos que acreditam que haja salvação, embora só vivamos como condenação.

Mas essa ironia de Alex também resvala para algo de autoironia, quando leio “daqui da torre”, onde o poeta diferencia a torre em que se encontra isolado (“vendo tudo daqui, da torre”) da clássica e classista “turris eburnea”: “não é numa turris eburnea / indiferente aos fatos”. Mas eu diria que apesar da atenção, consciência, informação, altivez e lucidez que o poeta diz ter diante dos “fatos”, há um limite para tudo isso diante da realidade concreta que é arremessada para o alto de seus olhos na torre: há um espaço intransponível e causador de “vertigem”. Uma hora, não basta “mesmo estando bem no alto / saber bem muito bem ao chão”. Esse olhar desde a torre, desde o alto, é o que testemunha o labirinto em que poeta, posto no alto, e mundo, cá embaixo, se meteram. E Alex sabe “bem muito bem” disso, já que após o túnel, segundo ele, sempre vem outro túnel: “sei bem de tatear e atravessar o túnel / até chegar a luz que me anuncia, / em forma de cegueira temporária, / que logo outro túnel há de vir, / vivendo nesse eterno entre-e-sai / do mito da caverna redivivo. / se eu fico dando voltas, é que a vida / é feita de volutas pros que ficam / com as vistas treinadas pra enxergá-las”. Ou seja: o título do livro soa também como um enigma que o poeta coloca para ele próprio tentar resolver (ou apenas se divertir, quem sabe?): estar na terra, estar no chão e estar no túnel, tanto quanto ele se sabe selfie, na torre e na lúcida luz. Testemunho da hesitação labiríntica entre o som e o sentido, ou divertimento lúdico com que o poeta ironiza a si mesmo na persona de modesto: “modéstia, / aparte o que me cabe / neste latifúndio. / dê-me um canto qualquer / do tamanho do mundo, / nem que seja este / canto / mudo, / mundo / meu”.

Onde mais percebo esse labirinto no livro de Alex é na sintaxe de alguns poemas, como em “não há mal”, que lembra qualquer coisa da tópica do “desconcerto do mundo”, por ser um ajuste de contas com a moral – antes, moral em desconcerto; cá, moral como acerto de contas. Escreve Alex: “não há mal / nenhum em desejar / o mal a quem / mal desejou / e o já realizou / o mal a quem / se mal lhe fez / foi tão somente / o de encarnar o mal / […]”. Nesse jogo moral de soma zero entre ação e reação, a terra e o selfie, a tela e o mundo, o eu e o outro se fundem na mesma oração de Alex Simões. Oração maldita.

Sim, há qualquer coisa de maldição neste livro de Alex. Mesmo que a contrapelo. Justamente por isso. Como todo maldito, Alex se contradiz em grande parte de Assim na terra como no selfie. Não de modo evidente e convencional. Não basta ironizar Baudelaire, Drummond e Cabral para ser um maldito contemporâneo. Não basta posar de rebelde insubmisso para ser um maldito contemporâneo. Não basta tacar pedras para ser um maldito contemporâneo (a “lacração” tornou essa “maldição” também convencional). Não bastam muitas outras coisas que Alex diz e faz em seu último livro. É preciso se contradizer. E poesia pode ser tudo, principalmente escapar do controle de qualquer que venha a ser dita: poeta só vale essa designação se for contraditório contra a sua própria vontade. Talvez, nesse livro, com uma única exceção (“aí peguei meu rumo na exceção”, escreve ele em “o amo ao mar em meio à pandemia”), que não é o mar – mas a mãe, no belíssimo soneto “44”, que se fecha lindamente com “minha vida é um baile entre seus braços”.

Os braços da mãe são o que há de mais preciso nesse livro de hesitações labirínticas de Alex Simões. Quase como o contraponto inicial ao anúncio de que “poesia / para quem / precisa / de coisas sem precisão”: o que se realizará ao longo de todo o livro e que ao fim é a enunciação possível de Alex, seu testemunho poético, o mais fiel que pode às incertezas que hoje estão arremessadas à nossa cara (para quem quiser ver). Nesse livro, Alex abre a porta do labirinto, entra nele e joga fora (ou perde intencionalmente) a chave para escrever poemas por seus corredores sem saída. E sem precisão.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (poesia, Editora Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (estudos, Editora LiberArs, 2015), dentre outros.