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	<title>146ª Leva &#8211; 01/2022 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<description>entre caminhos e palavras</description>
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	<title>146ª Leva &#8211; 01/2022 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<item>
		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Nov 2021 14:03:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[146ª Leva]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 146ª Leva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/2-POP-ART.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/2-POP-ART.jpg" alt="" class="wp-image-19308" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/2-POP-ART.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/2-POP-ART-300x200.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Fátima Soll</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por entre palavras e imagens, a tessitura da vida se anuncia. São formas e formas de se conceber o mundo em suas possibilidades de expansão dos sentidos todos. A experiência do ontem e a estimativa do futuro que não sabemos como será ao certo atravessam linhas, moldam versos, irrompem na profusão de cores abrigadas em telas e fotografias. E o agora está sempre a nos pedir atenção quando tenta nos mostrar que a pulsação da existência é algo inadiável, está bem diante de nossos insones olhos sempre ávidos pela novidade. Nesses interstícios, escritores e artistas ousam ir além, posto que tendem a captar aquilo que se abriga nos recônditos da rotina. Tais artífices nos devolvem o produto de suas inquietações, percepções sobre as andanças num solo que também pode estar compreendido em nossos domínios e expectativas. Ainda assim, a surpresa causada pelo inusitado também pode fazer morada entre nós, provocando e nos fazendo desacomodar lugares acostumados. A partir de estados de efusão, contemplação, silêncio, dor e outros tantos mais, a própria vida demanda dos criadores que movimentem suas obras. Dentro dessa lógica, não há uma ordenação fixa para o pensamento e cada traço autoral desafia sua recepção a vislumbrar significados com certa autonomia. Aqui na revista, as vias literárias não se cansam de servirem de ilustração dessas constatações que atuam à semelhança de um encontro não marcado com o outro. Abrir-se para a leitura de textos como os de <strong>Helena Terra </strong>e <strong>Gabriele Rosa</strong>, por exemplo, é desvelar o quiçá insondável território de nossas humanidades, transitando por paisagens que divisam ficção e realidade. Sob o manto da poesia, agora temos a companhia dos versos de <strong>Bruno Oggione</strong>, <strong>Jorge Elias Neto</strong>, <strong>Vitória Terra</strong>, <strong>Bianca Grassi </strong>e <strong>Duda Las Casas</strong>. Nosso sabatinado da vez é o dramaturgo e diretor <strong>Paulo Atto</strong>, que nos oferta um recorte valioso sobre a sua trajetória com o teatro. É <strong>Sandro Ornellas </strong>quem aprecia e nos apresenta “Assim na terra como no selfie”, mais novo livro do poeta e performer <strong>Alex Simões</strong>. Na sua estrada de mergulhos musicais, <strong>Larissa Mendes </strong>visita “De Lá Até Aqui”, mais recente disco do cantor e compositor <strong>Silva</strong>, que celebra 10 anos de carreira. Com suas cirúrgicas escolhas cinéfilas, <strong>Guilherme Preger </strong>analisa o filme sueco-polonês “Sweat”, obra que debate a controvertida exposição da subjetividade no universo digital. Por seu curso, <strong>Gustavo Rios </strong>empreende leituras em torno de “Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo”, livro de crônicas de <strong>João Mendonça</strong>. Retomando nosso caderno Jogo de Cena, <strong>Zuca Sardan </strong>e <strong>Floriano Martins </strong>nos ofertam um texto do seu assim batizado “teatro automático”. Eivados de sentidos de liberdade, todos os recantos da nossa atual edição foram contemplados com as fotografias de <strong>Fátima Soll</strong>, artista que sugere percursos especiais em face da simbologia do corpo. Sejam todos muito bem-vindos à nossa 146ª Leva!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-78/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Nov 2021 14:02:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Não mais os falsos infinitos]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Vitória Terra]]></category>
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					<description><![CDATA[Infinitudes atravessando os versos de Vitória Terra

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Vitória Terra</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-5.jpg"><img decoding="async" width="375" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-5.jpg" alt="" class="wp-image-19312" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-5.jpg 375w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-5-225x300.jpg 225w" sizes="(max-width: 375px) 100vw, 375px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Fátima Soll</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>NÁRKISSOS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Compacto<br />
meu iceberg<br />
de trevas<br />
pesa</p>



<p class="wp-block-paragraph">mão perversa<br />
que estrangula<br />
e cala<br />
gestos<br />
e intenções</p>



<p class="wp-block-paragraph">vigília de cegos<br />
paliada em véu<br />
de altar<br />
sou cativeiro<br />
das respostas<br />
engolidas</p>



<p class="wp-block-paragraph">não há<br />
sombras<br />
lembranças de um sol posto<br />
em mim não há<br />
tocar meu breu<br />
é sorver o abismo<br />
possuir o charco</p>



<p class="wp-block-paragraph">subverto<br />
as palavras ácidas<br />
pisando a madrugada madura<br />
nesse lagar sem mosto<br />
e pouco a pouco<br />
seduzo-te ao Lago Baykal<br />
e sem perceber desapareces<br />
na minha água escura</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>TIME REALISE</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Fico perplexa<br />
ao ver a idade dos seus olhos<br />
um menino<br />
que escorrega<br />
nos vincos da sua face<br />
e quando você ri<br />
mais bonito ele fica<br />
e se esconde maroto<br />
nos fios brancos<br />
das suas barbas</p>



<p class="wp-block-paragraph">ali onde a vida se revela<br />
vulnerável<br />
sapos coaxam<br />
era um casal<br />
de tucanos<br />
você riu<br />
do meu engano</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>ESTAÇÃO DO VALONGO</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">O trem que passa<br />
às 2h<br />
arrastando vagões<br />
intermináveis<br />
rangendo<br />
no aço que some<br />
em paralelo<br />
por entre as serras<br />
galopa como as tropas<br />
de Quitaúna<br />
e mais longe de mim<br />
toca um trilo</p>



<p class="wp-block-paragraph">comprido<br />
anunciando que estou<br />
só<br />
muito só<br />
dentro desse trem<br />
errante<br />
nem um mendigo<br />
se esconde<br />
sob o banco<br />
nem um passageiro<br />
curvado pela janela<br />
se mistura na paisagem</p>



<p class="wp-block-paragraph">nenhuma criança<br />
corre aos gritos<br />
de um corrimão a outro<br />
ele singra<br />
furando a noite<br />
atravessando<br />
minha madrugada<br />
insone<br />
desaparecendo<br />
feito a fumaça<br />
do charuto<br />
de James Brunlees</p>



<p class="wp-block-paragraph">nesses trilhos<br />
que brilham mais<br />
na grota<br />
funda da infância<br />
lembro com medo mesmo<br />
é daqueles<br />
dentes lunáticos<br />
do vendedor<br />
de coxinhas<br />
rangendo e rindo<br />
rangendo e rindo<br />
rangendo e rindo</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>ÀS VEZES SOU</strong></p>



<pre class="wp-block-preformatted"> 
<em><span style="color: #ffffff;"> ...............................................</span>para Cecília Meireles</em></pre>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes sou céu dentro do mar<br />
às vezes só mar na imensidão<br />
nenhuma estrela<br />
e o vento todo soprando em vão</p>



<p class="wp-block-paragraph">houve um tempo em que meus cabelos<br />
eram carinho nas minhas mãos<br />
meus dias<br />
desenhos soltos<br />
faziam cócegas no meu pensar</p>



<p class="wp-block-paragraph">hoje, avulta-se o fantasma da lembrança<br />
passa a janela<br />
e na terceira vigília<br />
acordo pra sempre<br />
do que fui</p>



<p class="wp-block-paragraph">susto pulsações<br />
busco uma despedida<br />
um aceno<br />
quando? pra onde?<br />
e só o vento<br />
só o vento soprando em vão</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>SOU TODAS AS PÁTRIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou todas as pátrias<br />
as famintas e as que vomitam suas gorduras<br />
sou a pele escura e brilhante<br />
dos habitantes do Níger<br />
e seus olhos vasculhando o lixo<br />
sou a pele translúcida com veias azuis<br />
dos que frequentam o Cassoulet Maison de Paris<br />
e suas sobrancelhas de avelã<br />
sou todas as almas partidas ou<br />
ancoradas num porto qualquer<br />
com suas mãos de aceno<br />
com seus pés de chegada<br />
sou as ancas ondulantes<br />
das mulheres na calçada da Shotwell Street<br />
e as mãos entrelaçadas na gratidão<br />
dos milagres conferidos à retidão das súplicas<br />
sou todas as pátrias<br />
sou a terra arada lavrada e semeada<br />
sou a chuva serôdia e a seca esturricante<br />
o beijo úmido onde escorrega o desejo<br />
e a palavra que corta sangra e o mata<br />
sou um punhado de nadas</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>POMBA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aninhada na boca do abismo<br />
sem lona<br />
sem porta, sem ferrolho<br />
senhora dos quatro ventos</p>



<p class="wp-block-paragraph">a mansidão do mundo<br />
dorme nos seus olhos de semente<br />
quando contempla a solitária crisálida<br />
pendida sob o teto<br />
da folha</p>



<p class="wp-block-paragraph">espera imóvel<br />
que guarda um tesouro<br />
na aridez do penhasco<br />
ovos de liberdade<br />
quentes de constância e coragem</p>



<p class="wp-block-paragraph">até que a luz da aurora<br />
seja dia perfeito<br />
e num instante etéreo<br />
perca pra sempre<br />
o que intrepidamente ajuntou</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Vitória Terra </em></strong><em>nasceu em Maracajú, MS. É fundadora do Terra Franklin Advogados, especializada em filosofia do direito e em direito processual civil pela UFU, Master Business Administration pela FGV, atuando como advogada em todo o território nacional. Escritora e poeta, publicou “Não mais os falsos infinitos”, Ed. Patuá e, virtualmente, publica nas páginas Vitória Terra Poesia (Facebook), vitoria_terra_poesia (Instagram), além de revistas e jornais literários.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Gramofone</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-80/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Nov 2021 13:37:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[10 anos]]></category>
		<category><![CDATA[álbum]]></category>
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		<category><![CDATA[De lá até aqui]]></category>
		<category><![CDATA[disco]]></category>
		<category><![CDATA[Gramofone]]></category>
		<category><![CDATA[Larissa Mendes]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[SILVA]]></category>
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					<description><![CDATA[Larissa Mendes visita o álbum que celebra 10 anos da música de Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Larissa Mendes </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SILVA – DE LÁ ATÉ A</strong><strong>QUI (2011-2021)</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/capa-1.jpg"><img decoding="async" width="450" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/capa-1.jpg" alt="" class="wp-image-19291" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/capa-1.jpg 450w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/capa-1-300x300.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/capa-1-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 450px) 100vw, 450px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cantor, compositor e instrumentista capixaba <strong>Silva</strong> celebra uma década de serviços prestados à música brasileira (boa parte deles registrados pelo <em>Gramofone</em>) com um álbum de releituras de suas canções. Como bem disse o artista em um de seus <em>tweets</em>: <em>“10 anos é muita coisa. Mas é só o começo também”</em>. Sem delongas, de forma orgânica, com voz e violão — e no máximo com um violino ou um &#8220;tecladinho&#8221;, o mesmo que o consagrou no início de carreira, quando disponibilizou o EP <em>Silva</em> (2011) na <em>internet</em> — o disco passeia por uma dezena de anos de seu (já vasto) repertório. <em>De Lá Até Aqui</em> (2011-2021) compila 10 faixas acústicas sem ordem cronológica, sem obviedades e (quase) sem <em>hits</em>: novos arranjos dão frescor a algumas parcerias, <em>covers</em> e <em>b-sides.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A única canção inédita, <em>Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim (meu caminho não é reto pra lá/ninguém me falou onde é que ia dar/eu saí com a certeza de errar/cheguei pra não voltar), </em>abre o álbum sintetizando a própria trajetória de criador e criatura, que tem suas raízes calcadas na música erudita, porém já transitou por diversos gêneros. Canções recentes como <em>No Seu Lençol</em>, do antecessor <em>Cinco</em> (2020), mesclam-se com outras antigas como <em>Cansei (cansei dos inquilinos/da minha solidão/olhar você dormir/não é compensação)</em>, do álbum de estreia <em>Claridão</em> (2012), que aqui despe-se de toda sua roupagem eletrônica, ficando impressionantemente ainda mais bonita. Fazem parte do álbum também versões de músicas um pouco mais populares, inicialmente lançadas em parceria, caso de <em>Um Pôr do Sol na Praia,</em> gravada com a funkeira Ludmilla em 2019, e <em>Pra Vida Inteira</em>, dueto com a baiana Ivete Sangalo, em 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-4.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="324" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-4.jpg" alt="" class="wp-image-19292" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-4.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-4-300x194.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Silva </em>/ Foto: divulgação</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os destaques ficam a cargo de <em>Não É Fácil</em>, do impecável repertório de <em>Silva Canta Marisa</em> (2016), e o “achado” <em>Amantes (eu conto as horas/que faltam para o dia que vem/não quero mais/dividir esse amor com ninguém)</em>, canção de 2000 do grupo de axé Ara Ketu, que como o próprio nome sugere, aborda as agruras de não ser o(a) parceiro(a) oficial de seu grande amor. A canção fazia parte dos <em>shows</em> da turnê de <em>Bloco do Silva</em><em> </em><em>&#8211;</em><em> </em><em>Ao Vivo</em> (2019) e aparece completamente repaginada da original — com uma <em>intro</em> <em>a la</em> Roberto Carlos — e talvez soe inédita para grande parte do público. Completam o álbum <em>Ainda</em>, de <em>Vista Pro Mar</em> (2014), que mantém o mesmo ar intimista, e <em>Sou Desse Jeito</em>, de <em>Júpiter</em> (2015), que perdeu todos os sintetizadores e ganhou visceralidade com um solo de violino — que lembra um trecho de <em>A Visita, </em>seu primeiro sucesso. Cabe ainda toda a doçura de <em>Duas da Tarde</em>, do disco <em>Brasileiro </em>(2018), grande divisor de águas que aproximou Silva da tropicalidade e de um universo tão popular quanto seu nome.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as faixas de <em>De Lá Até Aqui</em> ganharam clipes em P&amp;B e estão disponíveis no canal do artista no <a href="https://www.youtube.com/user/listentosilva"><strong>YouTube</strong></a>. Gravado inteiramente em sua casa na região serrana do Espírito Santo — na companhia do irmão e parceiro musical, Lucas Silva — , a residência serviu também como locação da produção audiovisual. Como diz um trecho de <em>Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim</em>, o caminho sonoro de Silva nunca foi &#8220;reto pra lá&#8221;. Suas andanças e experimentações musicais o trouxeram &#8220;de lá até aqui&#8221; e ainda o levarão muito longe. Com todo o mérito, o futuro de Silva é promissor, deliciosamente incerto e recém começou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/gox3ElqnNKY" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Larissa Mendes</em></strong><em> e o Gramofone têm muito orgulho em acompanhar Silva de lá até aqui, e muito provavelmente, daqui pra frente também.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Drops da Sétima Arte</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/drops-da-setima-arte-46/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Nov 2021 13:24:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
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		<category><![CDATA[Sweat]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19275</guid>

					<description><![CDATA[A atualidade de “Sweat” é tema da resenha de Guilherme Preger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Guilherme Preger</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sweat. Suécia/Polônia. 2020. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Sweat-cartaz.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="311" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Sweat-cartaz.jpg" alt="" class="wp-image-19320" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Sweat-cartaz.jpg 311w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Sweat-cartaz-207x300.jpg 207w" sizes="auto, (max-width: 311px) 100vw, 311px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Sweat</em> é o segundo longa do realizador sueco Magnus von Horn. O filme é uma realização sueco-polonesa e seu enredo se passa na cidade de Cracóvia. Deveria ter sido exibido em Cannes 2020, porém a pandemia cancelou a apresentação. Atualmente está disponível pela plataforma de vídeo por demanda MUBI.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme aborda a vida de Sylwia (vivida pela atriz polonesa Magdalena Kolesnik), uma instrutora de educação física, ou de “<em>fitness</em>”, que se tornou uma celebridade das redes sociais pelas quais ministra suas aulas. O longa abre com a cena de uma aula presencial num <em>shopping center</em> transmitida ao vivo pelas redes sociais. Sylwia precisa não apenas guiar seus alunos presenciais, mas também os assistentes virtuais. Toda cena é tipicamente artificializada, desde a música eletrônica acelerada, o ambiente pasteurizado do <em>shopping</em>, a animação frenética e a coreografia ritualizada do desempenho físico extremado que faz “suar” os participantes. E logo após a aula, a confraternização coletiva se faz ao vivo e à distância, com muitas imagens de <em>selfie </em>de uma felicidade tão exuberante quanto os exercícios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, Sylwia é uma influenciadora das redes digitais sociais, sobretudo da plataforma <em>Instagram</em> na qual tem milhares de seguidores. Assim, após a aula no <em>shopping</em>, quando retorna sozinha para casa, ela deve permanecer presente na rede digital, comunicando suas impressões do dia, respondendo aos comentários, apresentando sua agenda semanal, transmitindo mensagens positivas aos seguidores. Deste modo, ela é antes uma “<em>coach de fitness</em>” do que instrutora de educação física. <em>Coach</em> é uma personagem típica dos novos tempos digitais, pois deve agir como o influenciador estimulante para uma sociedade estagnada. Ele é menos alguém que tem um conhecimento específico para ser transmitido do que um incentivador de comportamentos. No caso de Sylwia, ela transmite a ideia de uma vida regrada, de consumo sustentável, vegetariana, que preza valores éticos como a reciclagem do lixo e o comportamento politicamente correto, no qual não cabe o preconceito, o racismo, ou a misoginia. Portanto, como já indica o termo <em>fitness</em>, a questão não é manter uma condição física saudável, mas sim um comportamento adequado, modelizador e modelizado.</p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-divulgacao.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-divulgacao.jpg" alt="" class="wp-image-19276" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-divulgacao.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-divulgacao-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Sweat</em> / Foto: divulgação</figcaption></figure>
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<p class="wp-block-paragraph">No entanto, quando em uma <em>live</em> a influenciadora perde o controle e se emociona em função de seu sentimento de solidão, o público estranha seu estado emocional, provocando dúvidas e preocupação entre os seguidores na rede social. A exibição espontânea de vulnerabilidade faz com que Sylwia perca a oportunidade de se apresentar num evento remunerado. Os patrocinadores não gostam do fato de que uma influenciadora, que deveria demonstrar equilíbrio psíquico, tenha aparecido tão inconstante. O desequilíbrio acidental afetou a adequação entre sua imagem e o ideal. De fato, a contínua exibição de sua vida privada na rede social faz borrar justamente a fronteira entre o privado e o público, entre a transparência de sua imagem e a obscuridade de sua vida interior. Ela aparece nas redes sociais não apenas dando aulas, mas também preparando comida, se arrumando para festas ou apresentações, transmitindo mensagens de autoajuda. Ela faz das redes sociais seu <em>habitat</em>, extensão do mundo.&nbsp; E Sylwia deve sempre corresponder, em sua imagem icônica, àquilo que ela prega nas aulas. A função básica do <em>coach</em> está na adequação entre forma e conteúdo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filósofo Walter Benjamin em seus ensaios seminais nos mostrou que o cinema é uma técnica que permitiu aos trabalhadores confrontar as máquinas com seus próprios rostos e poder encontrar assim uma imagem livre para o humano na sociedade industrial. Theodor Adorno, amigo e interlocutor de Benjamim, já era mais cético quanto às possibilidades emancipatórias da técnica cinematográfica, pois acreditava que a indústria cultural submeteu o cinema à lógica fetichista e regressiva da mercadoria. Guy Debord, por outro lado, viu na imagem espetacular veiculada pelas grandes produções do cinema o ícone de um distanciamento que a reifica no consumo anestésico do espectador. Este é então incapaz de se reconhecer como o produtor da imagem distanciada pelo sistema do espetáculo.</p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-2-divulgacao.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-2-divulgacao.jpg" alt="" class="wp-image-19277" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-2-divulgacao.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-2-divulgacao-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Sweat</em> / Foto: divulgação</figcaption></figure>
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<p class="wp-block-paragraph">Com as redes digitais, no entanto, passamos a um grau diferente da relação alienante entre a técnica e a humanidade. As pessoas não são mais apenas espectadoras passivas e distanciadas das imagens, como descreveu Debord, mas ao mesmo tempo suas produtoras e consumidoras. Consumimos as figurações elaboradas por nós mesmos tecnicamente como perfis e avatares, em comum com múltiplos outros perfis. E o popular e úbiquo <em>selfie</em> se torna um curto-circuito entre a imagem gerada e a assistida, como um “<em>mise em abyme</em>” que lembra as pinturas modernistas de Erscher e Magritte, com imagens dentro de imagens. Mas o <em>selfie</em> não é apenas uma forma de autofiguração, mas o próprio modo em que as imagens aparecem nas telas digitais em rede, que compõem um enorme aparato envolvente, devolvendo-nos, mais do que refletindo, as imagens nele projetadas. Não é que as plataformas sociais forneçam uma imagem especular individualizada a cada usuário, pois as próprias redes dobram-se como uma tecnologia-espelho que reflete a si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É possível se referir ao tópico da “sociedade de controle” ou da “vigilância”, mas o aparato panóptico não é o de um Grande Irmão que a todos vigia, mas é composto pelos múltiplos olhares que seguem e são seguidos. O perfil construído por Sylwia obedece então aos protocolos técnicos de comunicação das plataformas, que são também protocolos sociais. Ela influencia o olhar de seus seguidores e, por sua vez, os seguidores também são os olhares nos quais Sylwia se vê.&nbsp; Ela é a <em>coach</em> que modela os corpos e as personalidades, e é também modelada pelos olhares de seus admiradores. As cenas dolorosas de exercício na academia servem para adestrar seu perfil à plataforma de comunicação, como o leito de Procusto no qual as imagens corporais são moduladas. E tudo começa a desandar quando ela deixa escapar a emoção na entrevista ao vivo e, posteriormente, quando recebe mensagens de um admirador anônimo que está desesperado em sua solidão sem retorno. São os eventos que quebram o curto-circuito narcísico de imagens espelhando imagens.</p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-divulgacao.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="209" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-divulgacao.jpg" alt="" class="wp-image-19278" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-divulgacao.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-divulgacao-300x125.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Sweat</em> / Foto: divulgação</figcaption></figure>
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<p class="wp-block-paragraph">Depois, esse mesmo admirador virtual anônimo começa a perseguir (<em>stalkear</em>) fisicamente Sylwia, e o círculo fechado digital entre influenciadora e seguidor é rompido com a entrada bruta das carências e falhas do mundo real e analógico. A solidão masturbatória do admirador repercute na redoma afetiva de Sylwia e em sua sexualidade reprimida, pois sua vida solitária não encontra resposta na clausura técnica das plataformas. Um encontro casual no <em>shopping</em> com outra seguidora também evidencia à personagem outros vazios afetivos que escapam do mundo virtual. Se as redes digitais simulam esses circuitos de retroalimentação (<em>feedback</em>) entre os perfis de usuários, que virtualmente se encontram e compartilham fantasias enclausuradas, os choques incidentais (mais do que acidentais) com a realidade acabam gerando rupturas. A partir desses cortes, sentimentos antes guardados e contidos extravasam repentinamente. Na cena do almoço em família, quando se reencontra com sua mãe e amigos mais íntimos, fica claro para Sylwia como nem todos os laços afetivos são de mútua confirmação, mas que podem ser de críticas, incompreensões, ou de perspectivas que não coincidem.&nbsp; E a explosão violenta da realidade será afinal a emergência daquilo que não pode ser controlado pelos protocolos digitais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é justamente com seu corpo estafado, depois de uma noite tensa, que Sylwia tem afinal um encontro decisivo com as câmeras.&nbsp; Estas cobram dela mais uma vez o foco, o condicionamento e a adequação.&nbsp; Mas a personagem já sabe que há algo de real que foge dessa vigilância cobrada.&nbsp; <em>Sweat</em>, suor, é assim a metáfora daquilo que escorre ou se excreta, isto é, de um excedente corpóreo que não pode ser inteiramente computado pelos algoritmos digitais.&nbsp; Os aparelhos tecnológicos modelam as silhuetas físicas e modulam os sentimentos. Mas há também aquilo que está para além da moldura das câmeras. No circuito fechado das redes digitais, as lentes cinematográficas são como&nbsp; válvulas que permitem a emoção vazar e, em via dupla, incorporar algo de real, contingente e incalculável.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/vUcbYj2tOZM" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Guilherme Preger</em></strong><em>, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do <a href="http://clubedaleiturarj.blogspot.com/"><strong>Clube da Leitura</strong></a>, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog <a href="https://gfpreger.medium.com/"><strong>Fabulação Especulativa</strong></a> e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados <a href="https://gfpreger.medium.com/"><strong>aqui</strong></a>. </em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-74/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Nov 2021 12:52:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[CuidadoPoema]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Gabriele Rosa]]></category>
		<category><![CDATA[Lavínia é mais Rosa que Espinho]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19268</guid>

					<description><![CDATA[A prosa intimista de Gabriele Rosa

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Gabriele Rosa</em></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Corpo-Livre-III.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="386" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Corpo-Livre-III.jpg" alt="" class="wp-image-19269" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Corpo-Livre-III.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Corpo-Livre-III-300x232.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Fátima Soll</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>[falta, fio, fenda]</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">dias transbordados em xícaras de café. no corpo, silêncios. cortina, copo, cordão. a colher ainda adormece dentro do açúcar. ontem, sete dias atrás, vinte e dois, talvez, não lembro. a tv me assiste, o presente esgarça. lágrimas afogam peito a conta-gotas. horizonte de expectativas rompido. vivo um luto estendido. cada pessoa que morre habita o topo na pilha de corpos que cosem meus poros. dessocializada no álcool em gel. sorrisos agasalhados, abraços suprimidos. medo, máscaras, mortes. suspensão. angustio toques, engaveto afagos. a vacina bate à porta. Eles escolheram as trancas. a estabilidade são mil mortes diárias. mil camas vazias. mil copos deixados nas pias. mil vidas esfaceladas pela Covid-19. como não morrer dentro de uma política de morte? baços destroçados. o meu é um deles, mamãe. queria descrescer, sentir o balanço das tuas águas. aninhar no teu ventre, desaguar pulso. ventania, sopro, tufão. como não sentir medo sendo uma mulher no mundo? mulher, e agora sozinha. negligenciadas por governos fascistas. língua, lenço, linha. as mães não morrem nas canções de ninar.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>[fornalha]</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">pés sufocados. escondo palavras nas meias coloridas. como caber nas frestas? a cada quatro horas rapto doze segundos de tempo. engarrafo momentos. ofegante, peito bate-estaca. fuligem, fagulha, pó. brônquios embaçados, umbigo aberto. as varandas escondem olhares irredutíveis. pensei ouvir minhas águas, não sei nadar. pernas e pelos e peles queimam colchão suado. das línguas escapam benzeno. gosto do cheiro da fumaça no seu cabelo. inflamáveis: costelas e quadril e clavículas. acendo dedos molhados. chamas penduradas em cabides de plástico. combustão distraída sutura paixão adversa. deslizo. pinço delírio nos dias ensolarados.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>[infiltração]</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">flores de plástico não gestam lágrimas. bile saturada. pescoço, tornozelo, pulso. falanges Carrara, mapa violáceo. se eu não tivesse tomado aquele picolé de silêncios com cobertura de ameaças, encontraria o palito premiado? espinhos brotam em intestinos fofos. etiquetada. na face, o reboco em seis camadas. no peito, olhares copiosos cavam átrios viciados. empilhada. adormecida entre lascas de detergente e gotas de óleo. pia suja de palavras. desaguada. exaurida desde a placenta. vigiada em caixas. qual a minha fome? ele devorou todo o resto.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>[fagulha]</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">sopro fósforos entre a tela de proteção e o céu que não alcanço. deixei infância na feira de antiguidades. ardo parapeito oxidado. dentro de um envelope vermelho na caixa de correios pousa a chave extra. sexto andar. prefiro as escadas. na cama, cobertos de sonhos e saliva e medos. pistas, ponte, passagem. olhar turbulento de maré baixa faísca paredes frágeis. magnetizados. vestidos em lençóis, horas suadas de algodão macio. os ossos guardam memórias? corpos arrepiados, constelações em <em>pilot</em> vermelho. poemas riscados nas coxas. línguas disparam vontades: insaciáveis. sono excitado, pupilas flutuantes. páginas arrancadas pela manhã. fotografo a pele cansada, não perco nenhum segundo de vida. marsala, bordô, cornalina. planto fogo e não colho chama.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>[beira]</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">metatarsos dançam lembranças. piso magoado, afagamento escorregadio. quinas, dores, vasos. alinhavada em cobalto e índigo. perambulo espaços cozidos a olho nu. despertenço. veias chaveadas, espuma rápida. pestanas dragam gotículas de pele. sintonizo águas rasas, visto prumo aluado. corrente alternada, lentes em paralelo. pouso, poeira, pulsão. onde afogo os meus sapatos? pendulares são as tardes de domingo, costelas flutuantes atulham taças de abismo. respiro leds acessos. berro. dependuro balanços chumbados na lâmina do teto. salivo lacunas de vento. medula andarilha., carne viva.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>[ato]</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">peles afoitas sorriem vendaval. respiros largos, línguas hábeis. na cama desaforada, travesseiros avulsos. jade, buganvília, alamanda. aérea. paredes infinitas. sentados, pelados, invertidos. claraboia observa bulbos talhados. libertos. pequenos lábios acariciam lâmina. corpos abertos devoram os dias. treliças, toalhas, talheres. comidos, amanhecidos. de perto seus olhos me escapam. nuca aquecida, tornozelo em chamas. não aprecio quedas bruscas. me deixa ver seus tentáculos? no varal, roupas abandonadas sugam horas intermináveis. desmascarados. pendurados em sorrisos amplos, viciados em palavras táteis. inflamáveis. piscada em picossegundo. o desejo dorme, a cortina desce.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Gabriele Rosa</em></strong><em> é </em><em>historiadora, poeta, artesã da palavra e da cena. Atua como dramaturgista e dramaturga de processo na Bonecas Quebradas Teatro. Graduada em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, integra o coletivo CuidadoPoema. Autora de “Lavínia é mais Rosa que Espinho” (Libertinagem, 2021, no prelo) e “Fendas extraordinárias” (Patuá, 2019). Tem contos e prosas curtas publicados em diversas revistas literárias.</em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iv-82/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Nov 2021 13:07:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[Bianca Grassi]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19249</guid>

					<description><![CDATA[A inspiração transcendente de Bianca Grassi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Bianca Grassi</em></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Flora.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="357" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Flora.jpg" alt="" class="wp-image-19258" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Flora.jpg 357w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/Flora-214x300.jpg 214w" sizes="auto, (max-width: 357px) 100vw, 357px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Fátima Soll</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Graças a deus</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">manhã de quarta-feira<br />
botei teu nome na boca do sapo<br />
e costurei com fios do teu cabelo<br />
a fim de levar todas as desgraças do mundo<br />
de volta pra tua cama<br />
pra tua mesa, pro teu banho<br />
a fim de deixar um gosto amargo na tua boca<br />
e teus olhos secos<br />
teus ouvidos zunindo<br />
teus dedos formigando</p>



<p class="wp-block-paragraph">acendi uma vela vermelha<br />
que é pra tua sede durar 7 dias<br />
tua fome ir só aumentando<br />
a chama atrapalhar teu sono<br />
trazer queimação pro teu estômago<br />
fazer teu corpo suar frio</p>



<p class="wp-block-paragraph">coloquei a estatueta de Jesus de cabeça pra baixo<br />
num pote de merda de porco<br />
junto com pedaços de unhas tuas<br />
que é pra deus nenhum ouvir teus apelos<br />
e milagre algum te alcançar</p>



<p class="wp-block-paragraph">depois, de zombaria,<br />
chamei padre, exorcista, freira e benzedeira<br />
e no meio da reza<br />
fiz um boneco de pano com tua foto 3&#215;4<br />
e marquei teu peito em brasa quente<br />
com um crucifixo invertido</p>



<p class="wp-block-paragraph">matei galinha, comi pipoca,<br />
servi banquete com coração de boi<br />
misturei sangue de virgem com cachaça<br />
botei veneno de rato na água benta<br />
alisei teu cabelo feito de palha<br />
acendi um fósforo<br />
e entre o cheiro de enxofre e de alfazema<br />
te assisti queimar até as cinzas</p>



<p class="wp-block-paragraph">fui expulsa do reino dos céus ainda criança<br />
mas faz tempo perdi o medo do inferno<br />
hoje o diabo sou eu<br />
graças a deus</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sonho</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">sonhei que ia me mutilando aos poucos<br />
primeiro arrancava todas as unhas<br />
depois cortava um dedo da mão esquerda,<br />
o menorzinho,<br />
depois sumia com a pele dos cotovelos</p>



<p class="wp-block-paragraph">arranquei a clavícula<br />
quebrei as costelas<br />
expus as tripas, o útero, o baço<br />
no lugar dos seios, sangue<br />
o coração nas mãos<br />
depois também as mãos foram pro chão<br />
com os braços, com o resto</p>



<p class="wp-block-paragraph">desconstruí tudo que era sabido ser eu<br />
até que enfim fiquei em pedaços<br />
e acordei<br />
sem pé nem cabeça</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Brecha</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">não aprendi as coisas básicas da vida<br />
ainda não sei dirigir<br />
não sei nada de elétrica<br />
não sei investir na bolsa<br />
não lembro bem datas nem nomes da história<br />
nem entendo muito<br />
das coisas todas que são importantes<br />
mas aprendi algumas coisas<br />
talvez irrelevantes<br />
como chorar quando alguém chora<br />
e saber ler as pessoas muito bem<br />
e a sentir<br />
sentir muito, todos os sentimentos,<br />
até os que não são meus<br />
e entre a pilha de coisas que eu deveria ter aprendido<br />
e a pilha de coisas que eu deveria desaprender<br />
existe uma brecha pequena<br />
onde eu durmo</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Boca do estômago</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">das coisas todas que destruí<br />
sobreviveu em mim esse sentimento na boca do estômago</p>



<p class="wp-block-paragraph">têm sido dias estranhos,<br />
o passado me visita nos detalhes do cotidiano</p>



<p class="wp-block-paragraph">nunca mais ouvi uma chaleira apitando.<br />
me sinto mal todos os dias por volta das cinco.<br />
por que será que tenho fome mesmo de barriga cheia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">toda vez que faz frio eu tenho o mesmo pesadelo<br />
e pelas manhãs sinto saudade<br />
de uma versão de mim que talvez nunca existiu</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>tem uma coisa hoje que me atravessa</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">tem uma coisa hoje que me atravessa<br />
e eu quero gritar de desespero<br />
mas tem um bicho trancado na minha garganta<br />
um gosto de sangue entre meus dentes<br />
e, na língua,<br />
uma palavra<br />
atrasada</p>



<p class="wp-block-paragraph">tem uma coisa, hoje, me comendo as entranhas<br />
uma dor intensa no joelho direito<br />
e eu quero chorar<br />
mas tem um bicho pendurado na borda do meu olho esquerdo</p>



<p class="wp-block-paragraph">tem uma coisa hoje que me atravessa<br />
feito flecha, feito soco, feito poesia<br />
uma dor<br />
indescritível<br />
invisível<br />
infinita</p>



<p class="wp-block-paragraph">mas tem um bicho sentado nos meus ombros<br />
me dizendo<br />
que é assim mesmo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">quando algo dentro da gente deixa de existir<br />
o vazio nos atravessa</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sábado</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Organizei as gavetas naquele sábado<br />
Guardei as notas fiscais<br />
Os poemas<br />
As senhas<br />
Cataloguei tudo que era importante<br />
Aquela memória de 1998<br />
Alguns desenhos<br />
Chaveiros, ímãs, fotos<br />
Joguei fora o que já não era (m)eu<br />
Boletos pagos<br />
Diários da adolescência<br />
Emails impressos<br />
Apostilas de francês (que nunca aprendi)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que mais eu deveria deixar à vista caso morresse?<br />
Passaportes<br />
Certidão de nascimento<br />
O número de telefone da minha mãe<br />
A foto e as roupas que quero no meu velório<br />
Meu livro não impresso semi-editado<br />
(Seriam essas as minhas últimas palavras?)<br />
as roupas e a coleção de Milan Kundera para doar<br />
&#8211; sorte que não tenho muitos sapatos &#8211;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobrariam ainda algumas tarefas para o depois:<br />
Alguém teria que devolver as minhas coisas no escritório<br />
Transferir o dinheiro pouco que economizei e não usufruí<br />
Cancelar minhas contas nos bancos<br />
Desativar minhas redes sociais<br />
Apagar os vestígios de mim que deixei<br />
Sem querer<br />
E mandar meu corpo de volta (pra onde?)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero que doem meus órgãos,<br />
A pele, as córneas, tudo que sobrar de bom<br />
&#8211; não é muito &#8211;<br />
E que possam finalmente jogar meus pulmões no lixo<br />
(enfim vou parar de espirrar!)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se eu morrer nesse final de semana<br />
Ou em qualquer outro<br />
Mesmo que seja às sete da manhã<br />
Já vai ser tarde</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Bianca Grassi</em></strong><em> é uma artista contemporânea baiana que usa uma combinação dinâmica de materiais, métodos, conceitos e temas em sua arte. Formada em publicidade e propaganda com ênfase em marketing pelo IPA, em Porto Alegre/RS, é designer, ilustradora e escritora. Tem um conto publicado no livro Algumas Ficções (Editora De Leon) e poemas em revistas digitais como Mallarmargens, Literatura e Fechadura, Germina e Ser MulherArte. Desde 2016 mora em Praga, na República Tcheca.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivo-da-palavraii-23/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Nov 2021 12:56:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Gustavo Rios]]></category>
		<category><![CDATA[João Mendonça]]></category>
		<category><![CDATA[poiésis]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19247</guid>

					<description><![CDATA[Gustavo Rios revela impressões sobre as crônicas de João Mendonça

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>UM CARA CHAMADO JOÃO </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong><em>Por Gustavo Rios </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/CAPA.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="330" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/CAPA.jpg" alt="" class="wp-image-19265" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/CAPA.jpg 330w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/CAPA-198x300.jpg 198w" sizes="auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Geralmente, é assim: o escritor, num ato solitário e meio transcendente, trabalha para, num outro extremo, ser lido por alguém que muitas vezes nunca o encontrará, mas que precisa ser um cúmplice, apesar da distância. Dessa forma, suponho ser assim também com o cronista que, entre outras coisas, mistura fatos com percepções e sentimentos para seguir em frente com seu trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resolvida a introdução desta resenha, venho dizer que <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo</em>, do jornalista e escritor João Mendonça, pode, sim, ser considerado um bom livro de crônicas conforme a sua catalogação. Mas não apenas isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas 122 páginas da obra, publicada em 2018 pela Via Litterarum Editora, temos o protagonista que se mostra solitário e que usa do expediente comum aos cronistas (o trivial como inspiração) para escrever. Como o autor afirmou em seu site, <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo</em> foi todo produzido <em>“sem a intenção de transformá-lo em livro. Todo ele foi escrito entre 2015 e 2017. Nesse período, eu adquiri o hábito de escrever antes de dormir, deitado na cama”</em>, atitude que cabe numa boa nesse gênero textual de possível origem francesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro, porém, é evidente a busca pelo melhor texto, o que refuta um pouco a tese defendida por ele sobre não ter a intenção de publicá-lo. Mesmo que essa busca seja algo inconsciente, naquele esquema do fluxo, enxergamos claramente uma vontade, por assim dizer. Além de percebermos um encadeamento de escolhas e gostos, principalmente na relação de Mendonça com a cidade que o cerca e, de forma mais particular, com o seu bairro, o tradicionalíssimo Corredor da Vitória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Usando como ponto de partida uns bocados de seu cotidiano – frequentar a banca de jornais; tentar conversar com um italiano antipático, enquanto a baiana do acarajé trabalha; a visita de um sobrinho -, conforme uma das “regras” da crônica, desse mesmo ponto de partida surge uma escrita que se mostra muitas vezes etérea. Os textos do Mendonça tendem ao poético, meio no sentido clássico da coisa (plenitude, essas coisas), talvez ligados a um dos conceitos gregos de <em>poiésis</em> que fala sobre a disposição em criarmos algo belo a partir do sentimento e da imaginação (1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois, conforme o próprio Mendonça, as “<em>palavras quando são colocadas de maneira errada precisam ser corrigidas antes da primavera</em>”, no que conclui: <em>“O erro da palavra é o erro da vida”</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caso prefira, o leitor pode ficar com a ideia do Quintana que fala sobre os poemas (uma das manifestações da tal <em>poiésis</em>) terem ritmo <em>“para que possas profundamente respirar”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso de Mendonça, respira-se bem. Muito bem, por sinal.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poesia, ainda</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Deixando um pouco de lado esse papo envolvendo gregos, troianos e “quintanas”, outro ponto forte do trabalho é justamente a liberdade. Principalmente em relação à linguagem propriamente dita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro de 89 textos, dividido em partes (<em>“Delírios de uma alma abstrata”</em>, de tratamento mais subjetivo; <em>“Afetos, ausências e fragmentos”</em>, mais autobiográfico, e <em>“A vontade que tenho de abraçar o mundo”</em>, sentimental e franco<em>),</em> o autor baiano extrapola a “simplicidade” comum às crônicas &#8211; entendendo “simplicidade” como algo corriqueiro captado pelo olhar de um autor, que se converte em algo belo e comovente, mas que busca o entendimento sem cair em hermetismos. Daí que a escolha de João é acertada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele não se priva de viajar um tanto aqui, outro acolá, sempre calcado na beleza do texto. Seus devaneios fogem da descrição direta, se estendem. E, ainda que o leitor se pergunte o que ele realmente quis dizer com determinada frase, a pergunta se perde na fundamental cumplicidade que esse mesmo leitor deverá ter com o autor para seguir em frente. Cumplicidade que deve se manter, já que não devemos esperar a todo instante fechamentos ou conclusões, daquele tipo de frase que encerra algo (uma ideia, um sentimento, um efeito). O compromisso de João Mendonça é com a escrita.&nbsp; Com as possibilidades dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso viajar com João, antes de tudo. Enxergar que seus caminhos são internos, abstratos, metafóricos, bonitos pacas e baseados em verdades e em sentimentos bem pessoais. Na relação marcante com o pai, ou mesmo com amigos, parentes, com a cidade e com as namoradas – estímulos do mundo exterior -, Mendonça nos dá a dica: sempre confie no que escrevo, não nos fatos causadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fatos são <em>“molduras novas para meus quadros”</em>, como ele mesmo diz na página 35. Por sinal, a mesma página em que afirma: <em>“já deixei a poesia se livrar de mim. Ela precisa voar” </em>(tendo como base o conceito de <em>poiésis </em>exposto acima, e considerando que tal comparação feita por mim valha algum Real, sequer um Dracma).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Possivelmente, a ideia de trabalhar sem o intuito de converter sua escrita em livro tenha o feito derrapar em alguns momentos. Em miudezas de seu cotidiano, como a ligação de um amigo que se mudou para Londres, por exemplo, o leitor poderá se perguntar o porquê daquilo, pois nesses exemplos a poesia não brota e o ritmo falha. Frases como <em>“O acarajé é a hóstia de quem mora em Salvador” </em>(um pouco estereotipia),<em> ”Uma flor sombria busca incansavelmente sua pigmentação mirando-se para o sol”</em> (aliteração), podem não agradar tanto ao leitor. E quem as lê pode achar um tanto esquisito.<em>&nbsp; </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, assim como toda viagem tem lá seus trechos de paisagem modesta, cabe mais uma vez ao leitor confiar que logo adiante a coisa melhora. E muito. Além do mais, e curiosamente, não consigo imaginar <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo</em> sem essas paisagens-passagens mais simples, digamos. Talvez por sacar que elas fazem parte da vontade do escritor e do caminho escolhido por ele. Um caminho firme.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não demora e Mendonça retoma ao devaneio que comove. É quando ele, autor de <em>O Sol Partido</em>, dentre outros, nos surpreende com frases longas, sutis, belas, meio herméticas e ritmadas (olha o Quintana de novo!), tais como:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Já fui ao Iraque e não te vi na balaustrada perfurada pelas crateras do tempo. Volto sempre ao mar que grita teu nome. Volto sozinho e esperançoso. Nunca mais entregarei a caixa de bombom sem o endereço correto da última casa em que moraste no fim do grande vazio.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Aforismos legais para mesas de bar (ou para umas camisetas <em>hype</em>)</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em minha opinião, quando um escritor nos dá alguma frase boa e curta, daquelas que nos orgulhamos em repetir em mesas de bar, geralmente ele está no caminho certo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Evidentemente, tais frases-de-efeito devem ser o resultado de depuração, de um processo coerente, de literatura boa e da reflexão. No caso de João Mendonça, identifiquei algumas dessas pérolas. E em todos os casos as tais frases me trouxeram a certeza de que o livro dele é bom.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em tempos de “lacrações” e “memes”, pode ser perigoso destacar algo do tipo num escritor. Todavia, considerando o contexto a que essas frases (bacanas e eficientes) estão submetidas e o efeito direto que elas podem causar, acho que vale a pena arriscar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fato é que eu não poderia fingir não ter visto coisas como as que seguem: <em>“Assim é a vida: uma sensação de dúvida intermitente”; ”A saudade é o sonho na contramão”; “O mundo transformou-se numa máquina quebrada que se repete contra a vontade dos homens”; “O vento é a chave que transpõe portas”; </em>não esquecendo a já citada, <em>“O erro da palavra é o erro da vida”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabendo que tais aforismos não surgiram de forma isolada e não surgiram para serem “aforismos”, e que eles são, antes de tudo, consequências de parágrafos bem trabalhados, concluo que a intenção de Mendonça não foi “lacrar”. A coisa meio que brotou como final, meio, mote ou princípio; como boa prosa, boa poesia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, esse autor baiano, além de nos agraciar com um texto fluído e bacana, nos oferece pensamentos que valem uma dessas camisas legais que a moçada usa em saraus – ainda que eu ande meio desconfiado com essa turma; coisa de quem está beirando os cinquenta-de-idade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto a ser destacado é o olhar de Mendonça que também parece capaz de enxergar a conjuntura social e política (acho que as manifestações de 2016 mexeram com ele de alguma forma), muitas vezes reagindo a ela quase imediatamente (ele caminha pela cidade e vê; depois, em seu quarto, discorre sobre). Reação trabalhada com a mesma pegada poética e metafórica de sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<em>Ontem, o fogo queimou lojas e as praças foram fechadas por precaução. O menino de rua viu tudo do alto da árvore da vida. A mesma árvore que testemunhou inúmeros massacres contra o povo desarmado de ódio e ávido por lutar. O menino viu tudo e não contou a ninguém porque ele vivia sozinho e nesse mundo estranho ele só conhecia a ele mesmo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O fogo se alastrou com força em direção às margens dos palácios dos brancos. Logo o acusaram e seu rosto parecido ao de tantos bandidos certificava que ele se tratava de um bandido mesmo. A polícia foi atrás dele porque lugar de menino é atrás das grades.” </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A infância como tema é também algo presente. E marcante. No caso de Mendonça, boa parte dos trechos mais comoventes nasce daí:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Deixei então a pá encostada na parede e comecei a cavar com as minhas próprias mãos. Logo percebi que tinha anoitecido rapidamente, desde cedo estávamos cavando. Foi quando comecei a encontrar os primeiros objetos.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O relógio preto que meu pai me deu de presente quando fiz dez anos, a foto de minha primeira namorada, a bola de basquete, o badogue com que eu brincava atirando pedras, o murro que eu levei na cara do meu melhor amigo, os carrinhos de ferro que eu colecionava, o grito da professora, meu sonho de ser astronauta, meus óculos quebrados, a imagem que tinha de Deus, o medo da morte, todos os fantasmas que vinham me atormentar à noite, as músicas de Moraes Moreira, o fim do mundo, o mendigo que morreu na porta do meu prédio, o sorriso de minha irmã, minhas primeiras observações sobre o sol, o escuro das escadas vazias, as mulheres velhas que me assustavam, as cores dos potes de tinta com que eu pintava, a barraquinha de camping&#8230;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Continuamos cavando, até que meu sobrinho olhou para tudo aquilo que estava exposto e disse: ‘Todas essas coisas não são mais suas. De quem são?’.</em>” &nbsp;&nbsp;&nbsp; <em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de longo, defendo que o trecho acima é digno de ser lembrado; vamos combinar?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Breves comparações</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No quesito paralelos-e-comparações (estou tentando ser didático, tenham paciência), outros autores e livros me vieram à mente na leitura de <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo</em>: Lupeu Lacerda e seus “prosoemas”, pela vontade de romper a couraça da linguagem a partir de observações “puxadas” do trivial; José Agrippino de Paula e seu <em>PanAmérica</em>, pela liberdade na criação de cenários, cenas, percepções e possibilidades; e, finalmente, Richard Brautigan, com seu livro <em>Pescar truta na América</em>, pela atemporalidade, pela carga metafórica e pelo tema “vida adulta”. O livro de João Mendonça também me remeteu a outro publicado no Brasil em 1995 pela José Olimpo, chamado <em>Primeiro o amor, depois o desencanto (e o resto de nossas vidas)</em>, do canadense Douglas Coupland. Embora ambos sejam bem diferentes na forma e nas intenções (2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O autor canadense nos mostra uma face bem melancólica da vida, todavia. João, apesar de tudo (incluo aí a homenagem a um tio, no que suponho algo marcante e talvez grave), nos traz alguma esperança. Com uma boa dose de leveza e outro tanto de espiritualidade não no sentido religioso, mas da transcendência, Mendonça se afasta da tristeza vã e segue.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, e esquecendo um pouco essa coisa minha de comparar-para-parecer-um-gênio, ainda que o <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo</em> tenha sido catalogado como crônica, eu não o vejo dessa forma – não simplesmente. Nesse gênero textual e literário (por que não?), em que nomes como Sabino, Rubem Braga e, aqui em nossa vizinhança, Kátia Borges (também poeta e jornalista), são referências de pompa, creio que o João Mendonça se sairia bem. Entretanto, a sua habilidade em ampliar a linguagem acabou transformando seu livro num trabalho de maior alcance – ainda mais sabendo que as 89 “crônicas” foram selecionadas entre cerca de 300 textos prontos, num trabalho que contou com a ajuda preciosa do escritor e fotógrafo Tom Correia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, afirmo que mesmo que o leitor se depare vez ou outra com abstrações, sugiro se deixar levar pela beleza e pela poesia contida neles, pois, assim como qualquer viagem, muitas vezes esbarramos em horizontes aparentemente confusos, mas não menos necessários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, parceiros, a viagem com João valeu cada minuto. Assim como valeram também as passagens. Tanto a de ida quanto a de retorno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading"><em>(1) São muitos os conceitos e suas derivações. Daí que usei uma ideia bem simplória, tipo voo rasante. Tenho pouquíssima bagagem no quesito “Filosofia” (seria Platônico supor que eu manjo do assunto), mas acho que dá para o gasto.&nbsp;</em></h6>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading"><em>(2) Tais analogias seguem guardadas-as-devidas-proporções e não são limitadores para a leitura de nenhum dos escritores citados, incluindo nosso querido Mendonça. Antes, podem servir como tentativas minhas de compreender esses trabalhos. Além do mais, as semelhanças podem não estar evidentes para você, leitor, pois minha cachola não tem a mesma precisão sacal dos algoritmos (alguém digita a palavra “amor” e o Google indica motéis, flores em promoção, perfumes Jequiti e caixas de Lexotan).</em></h6>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Gustavo Rios </em></strong><em>é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética V</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-v-79/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Nov 2021 12:49:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[Duda Las Casas]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Viseira]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19208</guid>

					<description><![CDATA[O deslizar da poesia de Duda Las Casas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Duda Las Casas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/FATIMA-SOLL-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="333" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/FATIMA-SOLL-1.jpg" alt="" class="wp-image-19209" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/FATIMA-SOLL-1.jpg 333w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/FATIMA-SOLL-1-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Imagem: Fátima Soll</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Leio borra de cafés<br />
nuvens<br />
cartas<br />
faço freelas<br />
como me cansa ser otimista</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>P<span style="color: #ffffff;">&#8230;</span> A<span style="color: #ffffff;"> &#8230;</span>R <span style="color: #ffffff;">&#8230;</span>T<span style="color: #ffffff;">&#8230;</span>O</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Se dizes que não sabes se vem<br />
ocupo seu lado da cama<br />
com livros<br />
espero o pai chegar<br />
para a boa hora<br />
tomo cuidado para não gestar algo maior<br />
que fique difícil depois de sair<br />
Pra eles é mais fácil parir<br />
Como dói<br />
uma palavra que só tem no presente<br />
Encaro a conjunção<br />
dou colo para o passado<br />
escolho uma vida<br />
para o destino<br />
das palavras</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Dura na queda</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Olhar para o alto<br />
no grito do falcão<br />
o<br />
aviso<br />
para antecipar o voo<br />
em pleno ar<br />
ao<br />
invés de cair<br />
eu<br />
poderia apenas<br />
ter feito um poema</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um prato para os ancestrais</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Respirar para o encontro<br />
o grande encontro das forças<br />
sobreviver<br />
pra dançar I’ll survive<br />
Retornar a Aushwitz<br />
desejar ser bisavó<br />
espalhar o dna por ai<br />
No mapa registrar as curvas até Sintra<br />
abrir uma Durex<br />
dar-se conta<br />
de que todos os espermatozoides<br />
no fundo<br />
desejam ser felizes</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">Não choro mais Julio<br />
pelo livro que não fez sucesso<br />
Nem pela poeta que ficou esquecida<br />
Em Sirius<br />
Só me preocupo em regar<br />
Com água solarizada<br />
Sinto forte<br />
A dama da noite<br />
Gero minha própria luz<br />
monstera deliciosa<br />
Sem hífen<br />
virgula<br />
Abre caminho<br />
anti-matéria</p>



<p class="wp-block-paragraph">amiga:<br />
as alquimistas ocuparam toda a varanda<br />
Recebo agora<br />
um coração<br />
revestido de selenita<br />
comemoro o batismo<br />
a chegada<br />
do meu novo nome cósmico</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Agora que o sangue desceu</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">procuro partilhar sonhos<br />
como se estar por cima servisse<br />
como um método contraceptivo<br />
diagramo a mandala<br />
o sangue passeia comigo<br />
junto a serpente<br />
retorno ao Rio<br />
volto para buscar o que pensava ser nosso<br />
visualizo a floresta brasileira<br />
o búfalo<br />
me agarro às orações<br />
pouca probabilidade de ser arrastada por desejos<br />
no primeiro dia do ciclo<br />
não contarei mais<br />
o tempo que leva para uma barba crescer</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Duda&nbsp;Las&nbsp;Casas</em></strong><em> é&nbsp;colecionadora&nbsp;de imagens, oráculos e palavras. Carioca, diretora de tv e cinema, estudou jornalismo em Belo Horizonte e artes visuais no Rio de Janeiro.&nbsp;Duda&nbsp;se divide entre Brasil e Portugal, onde pesquisa a língua portuguesa na Universidade Nova de Lisboa e administra uma página de memes.&nbsp;“Viseira” é seu primeiro livro.&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Jogo de Cena</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/jogo-de-cena-30/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Nov 2021 12:39:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[Floriano Martins]]></category>
		<category><![CDATA[Jogo de Cena]]></category>
		<category><![CDATA[narrativa]]></category>
		<category><![CDATA[teatro automático]]></category>
		<category><![CDATA[Zuca Sardan]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19205</guid>

					<description><![CDATA[Um recorte do “teatro automático” de Zuca Sardan e Floriano Martins 

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Zuca Sardan &amp; Floriano Martins</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="334" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-2.jpg" alt="" class="wp-image-19221" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-2.jpg 334w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/interna-2-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 334px) 100vw, 334px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Fátima Soll</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>LA MAGNA IMPORTANCIA EN LA HISTORIA SANTA Y PROFANA DEL POPOKATEPLEK</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Hay ahora una grande polémica diplomática en la ONU, una acerba disputa que opone el México a L’Italia. Los italianos contestan que el Popokateplek sea más importante que el Vesuvio, en la Historia Geológica y en La Historia Sagrada. Del punto de vista de potencia volcánica, el Popokateplek es un volcán de plena y formidable potencia, capaz aún en nuestros días de lanzar llamas y vapores hasta centenas de metros de altura… Al paso que el Vesuvio, en los días de hoy, no expele más nada, ni siquiera la fumarola que encantaba los pintores hasta la Queda de la Bastilla, y sobre todo después de la Batalla de Waterloo, sobrando solamente el encanto, para los turistas, de su fumarola, hasta la primera mitad del siglo XX, cuando la fumarola se acabó, de una vez por todas. Cuanto a la Historia Sacra, el Vesuvio fue superado por el Ararat, donde se tendría acostado, al fin del Diluvio, la Arca de Noé. Pero el Doctor Zapata acredita, basado en sus excavaciones, que el Ararat no presenta la más mínima erupción, a rigor no es siquiera un volcán, ni tampoco un volcanoide sin cratera… Así, del punto de vista geológico no ofrece condiciones de compararse a nuestro imponente y fogoso Popokateplek. Ahora resta la Historia Santa. Ora, las revelaciones en la Biblia sobre la saga de Noé, fueron hechas siglos Antes de Cristo, cuando los Hebreus, y todos los Pueblos de Europa, África a Asia, no tenían la menor noción de la existencia de las Américas. Entonces los relatores de los hechos bíblicos no tenían la más mínima idea da la existencia del Popokateplek, e imaginaran que la Arca se hubiera acostado en el Ararat… Pero el Diluvio fue mucho más fuerte de todo lo que se pudieran imaginar los sabios de la Antigüedad. Tanto el Vesuvio cuanto el Ararat estuvieron sumergidos por el Diluvio. Solo el Popokateplek ofrecia condiciones de un seguro acostamiento de la Arca. No obstante estas consideraciones geológicas, siguen los armenios y los italianos negando la primacía del Popokateplek, en el salvamento de la Humanidad y de todos los animales, a excepción de los peces, que viven en el agua y… de los dinosaurios de que el tamaño colosal tornó imposible ingresarlos en la Arca, y acabaron todos muriendo ahogados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez publicada tal saga nos papiros de arroz Valkiria, o centro do mundo deixou de ser aquela região do Ararat, passando a terra Santa a ser banhada pelas águas do Amazonas. E a história, que sempre teve uma tara pelas distorções, conserva o segredo de sua origem em uma arca de pau d’arco no fundo falso de uma barcaça que sobe e desce o rio Negro. A chave da arca é um mistério que a cobra Nosferatu guarda em seu estômago.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Floriano, era isso que eu bem imaginava…</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas no fundo as coisas nunca são como as imaginamos…</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">E muito menos como elas próprias pensam que são.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta é já uma clássica confusão. Daí que hoje em dia os classificados já procuram por pitonisas que não façam a menor ideia de seu trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto menos ideia de seu atualmente mercantilizado trabalho, e mais louca seja a pitonisa, melhor poderá se realizar a verdadeira prática oracular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>As pitonisas cantam e oram</em><br />
<em>enquanto varrem o chão</em><br />
<em>preparando o tablado</em><br />
<em>para a próxima sessão.</em><br />
<em>O ministro Delgado</em><br />
<em>disse a elas que à noite</em><br />
<em>vai contornar a lua</em><br />
<em>com o cetim dos sonhos</em><br />
<em>e um coro de sapinhos</em><br />
<em>com os olhos esbugalhados</em><br />
<em>decifrarão os futuros</em><br />
<em>de cada alma lavada…</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Para lavar alma precisa água-raz e… a Pílula do Esquecimento do Doutor Radar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais da metade das almas ao menos desconfia que futuro algum terão. Aquelas que imaginam ser tocadas por algum esfregão da sorte, fazem cara de comidinhas do destino e conspiram contra as demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Não ter aporrinhação futura alguma, e sumir sem pagar as dívidas… é o Calote Metaphysico… saborear o sossego eterno prometido pela Modernidade… Livre enfim do Tribunal das Lambadas de Ultratumba.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi assim que um dia desses a Modernidade parou de cantar em sua gaiola de cristal. E os querubins de pasto pequeno em uníssono exigiam que ela fosse para a panela. A boia era a última das quimeras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o Peru da Modernidade, a Perua da Vida Eterna rebola melhor… Mas como ele não bobeia com as aparências… desconfia que o rabão supino é coisa da Costureira Celeste. Quando chegar o Natal… ele acabará na panela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A Modernidade sempre foi o grande dilema de Cronos, porque ela trucidou o futuro e congelou o presente. A seus olhos tudo é passado e só ela reina impiedosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A Modernidade é hoje coisa do passado. A Pós-Modernidade se pinta e se&nbsp;<em>emperequeta</em>… Saturno boceja, e dá uma afiada na foice… O Corcunda Corco se coça e toca a badalada vesperal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os grilos sorrateiros desafinam todos os instrumentos no auge da noite sonolenta…</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Entra o Corvo Edgar… para acabar com a baderna… Súbito silêncio…</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CORVO EDGAR</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acabem com essa zoeira grilos jecas, e não voltem NUNCA MAIS…</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CORCOVO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">(<em>Acompanhando no carrilhão o espinafro do Edgar</em>) Bong… Bong… Bong …</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">As morsas tiram a poeira dos sextantes. Temos que rever as nossas cartas de navegação. Ainda ontem íamos a toda força a estibordo. Agora a deriva sorri e nos abre os braços.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem o imprevisto, não haveria surpresas. Sem surpresas, a vida torna-se sem graça. Mas só encontra o imprevisto quem souber esperá-lo. Quem não esperar o imprevisto, jamais o encontrará.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Que diabos de&nbsp;<em>capirôto</em>&nbsp;é esse que escreve uma lenda em que os tupiniquins se debruçam no ombro da estrada à espera do… inesperado! Pois afinal, oh dramalhão de quinta, eivado de paradoxos amanteigados, como pode ser inesperado sendo tão esperado!!!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois é… a sorte favorece a audácia!… Como dizia o Danton:&nbsp;<em>Audácia! e sempre Audácia!</em>… E o inesperado não deve ser esperado na banheira, ou chega a Charlotte Corday e passa-te a faca!… como aconteceu com o … plec! plec!… o… Marat!… morreu com um papel na mão… escrevia na banheira seus violentos artigos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Morrer com um papel na mão, é haver sido impedido de uma última representação. Dizem que a banheira de Marat está guardada no porão do Louvre, que até hoje há uma nódoa de sangue em um pequeno rasgo no quarrycast da velha banheira vitoriana…</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZUCA SARDAN</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Marat era muito doente e passava grande parte do dia dentro da banheira. E dentro da banheira escrevia, mediante uns apoios de madeira que lhe serviam de mesa. Diariamente ia almoçar no Café Procope, que até hoje existe, na mesma rua em que habitava, na Rive Gauche, onde o editor de seu jornal, localizado na mesmíssima rua, despachava um mensageiro para ir recolher o manuscrito que Marat trazia para o Café, de modo a dar-lhe umas derradeiras penadas. Quando estive em Paris, durante um ano, em 1957, na Rive Gauche, eu ia quase diariamente almoçar no Procope, que era então bem baratinho, sempre orgulhoso de seu passado histórico, e tinha retratos ovais grandes, em molduras douradas, com os retratos de todos os personagens históricos que o haviam frequentado nos tempos da Revolução. Os retratos eram fidedignos, em tamanho natural, mas visivelmente cópias, em cartão, de quadros originais, ou recopiados, por algum pintor-artesão hábil, de alguma gravura representando tal ou qual personagem. O proprietário, que tinha suas fumaças literárias, era muito amável, e seu gato vivia dentro do Restaurante, e cismava de se enroscar ou subir na cabeça de algum freguês, ou freguesa, que lhe parecesse mais simpático. Há poucos dias, vi um documentário francês recentíssimo, sobre o Café Procope e está de um luxo extraordinário, mantendo o aspecto histórico na sua reforma total. Uma cozinha super-sofisticada, e caríssima, garçons com roupas antigas, nada a ver com o café-restaurante, servido por garçonetes velhotas, que eu havia frequentado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DOC FLOYD</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez o papel viesse embebido em sangue da revolução que almejara. A história é fascinada pela borra de café das quimeras. Os sonhos são defumados com precisão. As fumaças que saem pelas escotilhas, chaminés e cozinhas papais. Um batuque ao vento anunciando as glórias e catástrofes da combalida história. O que restou da Modernidade é esse vício de labirintos, essa gravação repetida da voz das nações. A carta magna dos insucessos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>…e a cortina desabando sobre nossas cabeças….</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Zuca Sardan (1933).</em></strong><em> Poeta e desenhista.&nbsp; Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Floriano Martins. Contato: zuca.saldanha@gmx.de</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Floriano Martins (1957)</em></strong><em>. Poeta, ensaísta, dramaturgo, editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Zuca Sardan. Contato: floriano.agulha@gmail.com</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivo-da-palavra-i-29/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Nov 2021 12:26:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[146ª Leva - 01/2022]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Alex Simões]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[assim na terra como no selfie]]></category>
		<category><![CDATA[labirinto]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Sandro Ornellas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=19198</guid>

					<description><![CDATA[O olhar de Sandro Ornellas visita o novo livro do poeta Alex Simões

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>TESTEMUNHO DO LABIRINTO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong><em>Por </em><em>Sandro Ornellas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/INTERNA-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="329" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/INTERNA-3.jpg" alt="" class="wp-image-19234" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/INTERNA-3.jpg 329w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2021/11/INTERNA-3-219x300.jpg 219w" sizes="auto, (max-width: 329px) 100vw, 329px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Assim na terra como no selfie</em> (2021) é o sexto livro de poemas de Alex Simões, contando o segundo, uma plaquete com versos e fotos, e o quinto, um livro artesanal de poemas visuais criados (livro e poemas) em colaboração com outros artistas. Quem acompanha o trabalho de Alex sabe como ele tem caminhado do exercício do soneto para o verso livre, que se percebe no seu caso dever muito à prática daquele. Refiro-me ao ritmo do fraseado nos versos de Alex e, por extensão, à construção sintática, àquilo que alguém famosamente disse tratar-se da hesitação entre o som e o sentido. Pois é por aí que começo a falar desse novo livro de Alex. Da hesitação. Até porque ele, à semelhança de <em>Trans formas são</em> (2018), reúne sonetos, versos livres, poemetos e brincadeiras espaciais – embora em menor incidência do que naquele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O título faz trocadilho com um famoso princípio hermético contido também no “Pai nosso” católico e, junto com a leitura de muitos poemas, deixam claro tratar-se de um livro escrito (ao menos boa parte de seus poemas) durante o período mais tenso do primeiro isolamento social na pandemia da Covid-19. Nesse período, foi comum ver pelas redes a classe média trocar o selfie em sorridentes festas e viagens turísticas pelos selfies das cantorias com vizinhos, aprendizados culinários e rotinas de isolamento. Tudo sempre acompanhado da indefectível hashtag “#ficaemcasa” – com seu tom imperativo. Hoje, um ano e meio após a deflagração do isolamento no Brasil, tudo mudou. Ou nada, talvez. Mas o livro de Alex me chega às mãos como testemunho dessa viagem. E o que leio nesse testemunho?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leio a hesitação entre o som e o sentido dos versos nos sonetos de Alex se disseminarem por outros fraseados oracionais e certas posições do sujeito da enunciação, embora também permaneçam lá, nos sonetos. O “43”, em que o sujeito circula em casa por rotinas que sobrepõem trabalho e laser, movimento e tédio, idas e vindas: “tapioca e café todos os dias / cedo pela manhã antes da escrita / que precede a visita à toalete / para depois as redes, as notícias / e revisar e planejar e cozer / e irrigar as plantas e dar aulas / às vezes viajar às vezes não”. Há nesse e em outros poemas qualquer coisa de pacificação no sentimento do poeta diante da circularidade doméstica dos dias e afazeres durante o isolamento. Ou mesmo antes dele. Mas uma pacificação cuja respiração às vezes hesita com certa ansiedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A melhor imagem para figurar essa <em>paz ansiosa</em> vivida por muitos durante a pandemia me parece o labirinto. Há alguns deles nesse livro de Alex, mas a “Cama de gato”, misto de brincadeira e passatempo, me parece exemplar. Ainda mais como analogia criada pelo poeta para a própria poesia de quem coloca a vida em suspensão no gesto de escrever: “eu faço versos como quem / faz uma cama / de gato”. Mas não somos apenas nós que jogamos com a poesia e a cama de gato. Somos também jogados pela rede do acaso que insistimos em ignorar com o mesmo prometeísmo que disseminou o atual e outros vírus. Chamamos “cama de gato” e “poesia” nossas ferramentas lúdicas; mas, ao que não temos nome e tememos, Alex nomeia “traquitanas”: “não consigo pôr ordem na casa / porque não há nenhum sentido em pôr ordem / menos ainda em progresso. / [&#8230;] / o caos não é meu, / é nosso”. Pois é mais ou menos assim que o poeta segue hesitante entre o desejo de ordem (“tapetum lucidum”, “haikai não cai”, “Soneto do isolamento social”, “no ferry”, “o amor ao mar em meio à pandemia”, “aquela a esperar”, “um poema para Oxóssi”) e o sentimento de desordem (“47”, “45”, “A educação pela pedrada”, “assim na terra como no selfie”, “o que me resta de uma casa”, “volver”, “sessão de poesia para a tropa”). Talvez por isso o título soe como uma irônica oração dirigida aos que acreditam que haja salvação, embora só vivamos como condenação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas essa ironia de Alex também resvala para algo de autoironia, quando leio “daqui da torre”, onde o poeta diferencia a torre em que se encontra isolado (“vendo tudo daqui, da torre”) da clássica e classista “turris eburnea”: “não é numa <em>turris eburnea</em> / indiferente aos fatos”. Mas eu diria que apesar da atenção, consciência, informação, altivez e lucidez que o poeta diz ter diante dos “fatos”, há um limite para tudo isso diante da realidade concreta que é arremessada para o alto de seus olhos na torre: há um espaço intransponível e causador de “vertigem”. Uma hora, não basta “mesmo estando bem no alto / saber bem muito bem ao chão”. Esse olhar desde a torre, desde o alto, é o que testemunha o labirinto em que poeta, posto no alto, e mundo, cá embaixo, se meteram. E Alex sabe “bem muito bem” disso, já que após o túnel, segundo ele, sempre vem outro túnel: “sei bem de tatear e atravessar o túnel / até chegar a luz que me anuncia, / em forma de cegueira temporária, / que logo outro túnel há de vir, / vivendo nesse eterno entre-e-sai / do mito da caverna redivivo. / se eu fico dando voltas, é que a vida / é feita de volutas pros que ficam / com as vistas treinadas pra enxergá-las”. Ou seja: o título do livro soa também como um enigma que o poeta coloca para ele próprio tentar resolver (ou apenas se divertir, quem sabe?): estar na terra, estar no chão e estar no túnel, tanto quanto ele se sabe selfie, na torre e na lúcida luz. Testemunho da hesitação labiríntica entre o som e o sentido, ou divertimento lúdico com que o poeta ironiza a si mesmo na <em>persona</em> de modesto: “modéstia, / aparte o que me cabe / neste latifúndio. / dê-me um canto qualquer / do tamanho do mundo, / nem que seja este / canto / mudo, / mundo / meu”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde mais percebo esse labirinto no livro de Alex é na sintaxe de alguns poemas, como em “não há mal”, que lembra qualquer coisa da tópica do “desconcerto do mundo”, por ser um ajuste de contas com a moral – antes, moral em desconcerto; cá, moral como acerto de contas. Escreve Alex: “não há mal / nenhum em desejar / o mal a quem / mal desejou / e o já realizou / o mal a quem / se mal lhe fez / foi tão somente / o de encarnar o mal / [&#8230;]”. Nesse jogo moral de soma zero entre ação e reação, a terra e o selfie, a tela e o mundo, o eu e o outro se fundem na mesma oração de Alex Simões. Oração maldita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, há qualquer coisa de maldição neste livro de Alex. Mesmo que a contrapelo. Justamente por isso. Como todo maldito, Alex se contradiz em grande parte de <em>Assim na terra como no selfie</em>. Não de modo evidente e convencional. Não basta ironizar Baudelaire, Drummond e Cabral para ser um maldito contemporâneo. Não basta posar de rebelde insubmisso para ser um maldito contemporâneo. Não basta tacar pedras para ser um maldito contemporâneo (a “lacração” tornou essa “maldição” também convencional). Não bastam muitas outras coisas que Alex diz e faz em seu último livro. É preciso se contradizer. E poesia pode ser tudo, principalmente escapar do controle de qualquer que venha a ser dita: poeta só vale essa designação se for contraditório contra a sua própria vontade. Talvez, nesse livro, com uma única exceção (“aí peguei meu rumo na exceção”, escreve ele em “o amo ao mar em meio à pandemia”), que não é o mar – mas a mãe, no belíssimo soneto “44”, que se fecha lindamente com “minha vida é um baile entre seus braços”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os braços da mãe são o que há de mais preciso nesse livro de hesitações labirínticas de Alex Simões. Quase como o contraponto inicial ao anúncio de que “poesia / para quem / precisa / de coisas sem precisão”: o que se realizará ao longo de todo o livro e que ao fim é a enunciação possível de Alex, seu testemunho poético, o mais fiel que pode às incertezas que hoje estão arremessadas à nossa cara (para quem quiser ver). Nesse livro, Alex abre a porta do labirinto, entra nele e joga fora (ou perde intencionalmente) a chave para escrever poemas por seus corredores sem saída. E sem precisão.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Sandro Ornellas</em></strong><em> é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (poesia, Editora Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (estudos, Editora LiberArs, 2015), dentre outros.</em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
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