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147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Susana Fuentes

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Redenção (à luz de Tarkovski e Bach)

 

A água escorre sem pressa de correr o mundo. O rio respinga gotas no vestido e quero tornar-me rio para dar petelecos na água. Vejo o céu e quero ser assim, tão azul (e garboso e tranquilo). Mas, quando chove, passo a achar que o mais belo é a chuva e aí despenco do céu (e visto-me de branco pérola). Embrenhada no verde, quero ser pedra, árvore, e servir de anteparo a esta chuva que tomba. Acaricio a chuva porque ali vejo seu rosto. As lágrimas de seus olhos serpenteiam frouxas nas bochechas enxutas. Gostaria de impedi-las em seu percurso, para lhe conservar a face seca. Gostaria que meus afagos a fizessem sorrir, para ver um riso frouxo traído na boca. Ao invés, sua língua escapa pelos lábios entreabertos e de lado colhe uma gota, e outra, aparando os pingos já em ritmo de enxurrada.

Quando estou no seu jardim, aí quero tornar-me chuva. E, como chuva, devolver à sua pele a festa de suas mãos segurando a minha, quando um dia estive doente e você me trouxe o conforto absoluto de um afago nos dedos tristes sem pouso. Você colheu estes dedos no ar, sua mão em concha inventou-lhes um abrigo já que iam em sua direção. E eu caberia inteira ali, por toda a noite, por toda uma vida, vida tão longa como a noite não dormida quando senti a ausência desta mão. Tão doce como a noite em que você esteve em meu sonho. Noite inventada para que eu coubesse na vida mesmo sem ter você por perto.

Como você ama lírios, flor-de-lis, açucena, para sempre estarei à sua mesa. E você, longe, olhar habitado por uma chama, me fará sorrir – a cada vez que a vela brilhar contra a tampa da panela. Tampa que serve de anteparo à concha e sobrevoa a mesa… para não desperdiçar nada sobre a toalha. A tampa em suas mãos recolherá os pingos e guiará a concha – com pedaços de maxixe, inhame, batata doce, baroa e aipo – em segurança ao colorido dos pratos. Como uma flor no jarro sobre a mesa, eu escutarei as conversas. Uma só mesa para o avô e para o neto. Como era você?, a criança perguntará então. E eu apontarei, com as palavras, para a chama veloz de seus olhos despertos.

 

 

 

***

 

 

 

Suíte

 

Numa Suíte, a Sarabande desliza sem pressa… e ocupa o centro
do poema. É como se dissesse: Não vou suprimir os floreios,
só encurtá-los.

 

A beleza de Sarabande: Beleza que cresce com o Tempo. Sarabande se entrega ao Tempo e ele a toma pelas mãos e diz: você será minha eleita. Gentil, ela se inclina como dama e aproveita o instante para admirar as margaridas – como são belas nesta época do ano, como são queridas!

 

*

 

Sarabande, no esforço de ocupações singelas: trocar a água dos colibris, limpar o cantinho do espelho, varrer a soleira da porta. A pele salpicada de suor sob os olhos. Femina, com um paninho, chega até bem perto e a conforta.

Intermezzo dá de ombros, fita Sarabande… e desfaz de Femina o encanto, em zombaria: veja esta, que mimos inventados para chegar até você.

 

*

 

Zorina olha Sarabande de perto. Tomada de recato, nem se atreve a tocá-la: olha, tão transtornada, que se esquece ali, perdida. E esquece tudo que pensou quando não estava tão perto. Quando podia respirar.

 

 *

 

Sarabande fala e não para de falar. Todas escutam, atentas: Zorina, Apogée, Intermezzo e Femina. Do que fala Sarabande? De meninices. De matreirices. E ela só faz lembrar e deslembrar.

 

*

 

Sarabande, a curva dos seus dedos aponta para fora, para o alto. O que caberá em seus pensamentos, os que desconheço, e os de que faço parte? De pé, junto ao portão, vejo partir suas lembranças. Levam-me até a menina radiante de vida. Sarabande ainda pequena. Menina que já passou pelos caminhos que percorri (e muitos, muitos outros) tantos passos à frente, será que entrei por algum atalho, para agora lhe encontrar na mesma estrada? Quero apresentá-la à Noite, mas ela já conhece seus olhos, seu nome. O Sol, a Chuva, o Dia, chamo para que eles a conheçam, mas eles me respondem: quem, aquela? Já a temos entre nós faz dias. Anos. Você nem tinha nascido. Falo de Sarabande com susto de perdê-la, e chamo a Vida para que a conserve a meu lado. A Razão manda que eu me cale, mas o Amor, que olha tudo com bons olhos, acha natural que eu esteja deste lado do portão e me convida ao jardim onde vivem, então, as cinco rosas: Zorina, Apogée, Femina, Intermezzo e Sarabande.

 

*

 

Zorina, para Sarabande: se eu pudesse alcançar suas folhas…
Apogée, bem prosa: afasto suas mechas curtas, Sarabande, porque aí chego até seus olhos.
Intermezzo: sopro a brisa que passa, Sarabande – porque aí beijo as suas pálpebras.
E Femina, num susto, embola o cobertor: não se resfrie no sono, Sarabande, está bem?

 

 *

 

Femina se espanta quando Sarabande conta uma história. Se fala da menina de cabelos de vento, seus braços (de Sarabande) escapam pela camiseta, longos, finos, dançantes, e os cabelos sem rumo é como se dançassem também.

 

 *

 

Sarabande tem velhas amigas. Quando as encontra, ela tem pena de que estejam tão velhinhas. E pensa se não está assim também. Zorina a acha linda, e nada diz, porque nem sabe o que dizer. Apogée, absolutamente da mesma opinião que Zorina, sorri de lado e silencia, pois imagina que nem lhe darão crédito. Intermezzo, galante, com protestos da mais alta estima, discursa sobre a Beleza e a Força. Mas logo vem Femina com um espelho e cobre Sarabande de beijos. E Sarabande ri e fica feliz assim.

 

 *

 

Altas horas, Zorina não quer ir embora. Sarabande leva todos até o portão e se despede: Intermezzo lhe acena com medida, Apogée palpita que já é chegada a Noite, e Femina discretamente plantou-se de mala e cuia num canto do jardim. Zorina morde-se de inveja de Femina mas não fala nada. Aí Sarabande se aproxima e lhe dá um abraço. Zorina sente o corpo na altura do ventre e então se desmancha e se derrete. E Intermezzo a carrega dentro da bolsa até a Noite que chegou.

 

*

Carta de Zorina, que fugiu, foi-se embora: Adieu.

 

*

 

* * *

 

*

 

Sarabande, de menina atrevida. Descabriolada, descaraminholada. Cabelos revoltos, ombros descobertos, braços pendem para o lado, esquecidos da vida, Sarabande vendo estrelas, bichos, árvores, cheirando o céu e descobrindo o rosto sem pressa de abandonar o dia. De repente, Sarabande diz: estou cega. Não vejo nada. Estou cega. Zorina: não é nada, não se assuste. Apogée: olhe para frente e faça um exercício de olhos. Intermezzo: que invenção, você anda muito impressionada. Aí, vem Femina. E, com jeito, lhe ajeita um cacho que bandeirolava nas bochechas. E Sarabande volta a si com a maior discrição.

 

*

 

Chamo a Noite, minha amiga azulada, com seu rosto de lobo celeste, cintilante e gelada. Ou a Tarde morna e rubra, com seus olhos de cobre, essa dama que escurece. Cada uma já sabe de longa data quem é Sarabande. Já lhe renderam os dias quando a carregavam pequena, pernas ligeiras correndo entre as casas e entre arbustos das rosas. Dos arbustos deslizavam pétalas que o vento pousava em seus cabelos. Que sua mãe escovava intermitente, com a paciência de não atropelar os fios.

Quando apresento Sarabande à Chuva, os pingos riem que já conhecem seu rosto. Vou lhe ensinar a Chuva, e Sarabande nem tem pressa em dizer que o Trovão foi ela que pintou de azul. E deixa molhar seus cabelos, ainda soltos sem rumo. Vou lhe ensinar o Trigo, e Sarabande já dançou horas seguidas quando eu nem tinha nascido e os pés de Sarabande eram redondos de rodopios. Quando falo: Pedra, quero que conheça este rosto, a Pedra me mostra as curvas que copiou de suas costas, de sua nuca, quando você, Sarabande, suspendia os cabelos e revelava os brincos de princesa escorrendo de dois fios. Mas vejo que me despeço do jardim, Sarabande, a cada vez que repito seu nome, porque aí me revelo e você se encolhe de medo, ou de espanto, e se volta para a Noite (que é a sua Noite) e para a Tarde (que é a sua Tarde), e se pergunta o que esta menina tola (que sou eu) está fazendo lá, em seu jardim. Só me resta cruzar o portão em despedida, o que faço inconsolável, mas, antes, fecho-me silenciosa atrás de um pequeno arbusto e ouço as conversas. Em torno de Sarabande, com homenagens, dengos e soluços, minuetam Zorina, Apogée, Intermezzo e Femina. (Será que num descuido deixo-me ficar no jardim?)

 

 

 

***

 

 

 

Salve

 

 

Saaalve. Mestre Tinhô, preso ficô, Ai …tem dó, indoné
sete meninos à toa deixô, Ai… tem dó, indoné

 

As palavras saíam, obedientes mas borradas na borda lisa da pequena folha. O lápis que usava era feito de cera, por isso sua ponta grossa e espiralada ia cedendo ao calor. E a extremidade de um lápis assim se derretendo era a coisa mais descabida para quem, em inspiração súbita, estava tão decidida a criar sobre o papel. A-la-me-das rá-pi-das desenham a estrada con-tra as va-ran-das de portas aber-tas a le-var a ren-da das toalhas e as pé-ta-las se-cas de seu lei-to de pa-lha.

No pátio da escola, última tentativa de refrescar-se. Loló agachou-se na terra molhada e afastando as pedras, desenterrou algumas folhas. Suas mãos firmes eram bem desenhadas, o talhe à galope de um grilo. Quando conseguiu separar a lama de todo o resto, mergulhou a palma em concha e trouxe uma porção para si. Colocou-a em um pano grosso, que torceu e enrolou na cintura. Andando em volta do prédio cinza e quente, de poça em poça os pés descalços se coloriam ao afundar na grama, charco que a terra, saciada e preguiçosa, resistia em absorver. A folhagem caía infinita para uma tarde tão curta que, inquieta e indecisa, quebrava-se sempre outra. E quem não acompanhasse as mudanças imaginaria a tarde constante e quieta como o som das crianças brincando na rua e o cair das flores da velha árvore roxa. Barranco acima as casas multiplicadas lajeavam a silhueta da montanha. Só as pipas surpreendiam o previsível das formas mas, quem podia notar? Ninguém viu quando Loló caiu no passo da bala contra o peito. Aviso de que os lá do morro estão à procura do irmão.

Loló ali parada, na terra quente, sua fisionomia devia estar debilmente distorcida pois dona Dita foi logo gritando que se sentasse enquanto buscava um copo d’água. Pendeu de lado a cabeça, focou a folha na mão. As letras riscadas à sua frente também já iam disformes. A claridade na folha debandava. Agora era a cera preta do lápis perdida no escuro da sala, estava ela na sala do professor talvez? Sala tão bonita, não se recorda, já tinha ali pregado as bandeirinhas? Al-a-me-das rá-pi-das. Um impulso impensado moveu a menina através do corredor. Con-tra as va-ran-das. Sobre pés pequenos demais, inspirou um ar carregado num frenesi quase alegre atravessando os ombros e o peito. A le-var a ren-da. Por instantes sentiu-se tênue chama, pronta a apagar sem mesmo precisar do empurrãozinho de um vento.

Boba essa Loló. Contam histórias, passam cantigas, mas só o que ela quer saber é daquela que a criançada canta na hora do recreio. O padre da Indonésia esbraveja que vai mandar todo mundo lavar a boca com sabão. Loló ri e canta mais alto, mais alto, com uma convicção que tem guardada, que só sentiu uma vez, quando cantou o hino da bandeira e ia bem longe da escola e via aquelas letras que nem bandeirola de São João, qual pendão colorido. Loló debulhava, escolhia as palavras. Puríssimo varonil peito amada. Sagrado? Serve. Encerra. É, bonita. Encerra varonil peito. Amada varonil encerra. E assim ia, deixando cair as bandeirinhas, apanhando as mais bonitas, mais sonoras, escondendo algumas no bolso, outras nas páginas do livro. Quando abro este livro, tem vento. Aposto que o vento já estava aí, escondido no bolso. Não. É ventania de livro mesmo, veja só: voa até palavra. Mas a poeira. Loló sacode e espirra. Espirra de boba. Dona Dita… me conta uma coisa… é verdade que mestre Tinhô tá preso? Na pia do banheiro, Loló assoa o nariz, deixa a água escorrer, faz bolhas de sabão. É, Loló. Foi se meter com o que não devia …Ó lá, dona Dita … Loló pensou nas bandeirolas. Esfregou as palmas. Sacudiu as mãos e meteu-as no bolso. As palavras guardadas a sete chaves e três botões espiavam do escuro. Faltava cozer uma casinha que estava por um fio. Volta e meia, fio e meio, um deslize, uma rajada de vento e uma danada escapulia. Volta, dona va. Aqui, seu to. Não descuida, não, ô sa. Ah, tudo de novo, não saio daqui. O recreio pela metade e mal dava para catar todas. Saaalve. Na fila do hospital ninguém viu a mão que contava palavras e colhia as lágrimas choradas sobre o corpo frio.

 

Susana Fuentes é escritora, atriz, doutora em literatura comparada pela Uerj. É autora de Escola de gigantes (7Letras, contos, 2005), Luzia (7Letras, 2011), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, Anotações de Berlim (Megamíni, 2016) e Carta ao Sol (Funarte, contos, 2020). Escreveu a peça teatral Prelúdios, em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, solo em que atua (selecionado para o The New York International Fringe Festival). E Olavo, le chat (Edição do autor, 2016).   Seu novo livro, A gaivota ou a vida em torno do lago [tema para uma peça curta], foi lançado pela 7Letras (poesia, 2021). Pesquisa a literatura russa e brasileira e ministrou oficinas de criação literária na Uerj, UFRJ e durante o Printemps Littéraire Brésilien na Université Paris-Sorbonne.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Kleber Lima

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Os cavalos começam a correr.
Balançam minha cabeça.
Sacodem meu coração.
Em seus fortes lombos,
a doce bagagem extraviada,
segue terrestre e profundamente,
despachada na corrente sanguínea
até para fora da realidade.
– caem sobre dois olhos que brilham –
brilham como duas velinhas obstinadas
acesas por dentro da mais ampla escuridão.

 

 

 

***

 

 

 

agora me sento e penso em você.
penso sobre teus pés e tuas mãos.
no teu sorriso milésimos de segundos antes
de atravessar a linha de chegada até o meu.
nesta pequena dosagem de teus dedos angulares
que por onde passam
deixam um legado de lírios
como se iniciassem pássaros
a caligrafia dos teus cílios.

– me aquieto
afixado entre teus olhos
organizado como horóscopo
na estante do teu olhar –
aberto como livro em suas mãos,
páginas à tona num deserto,
hóspede da direção incerta
do ascendente do teu beijo,
que por detrás da cortina,
à espreita,
arranha meu peito.

 

 

 

***

 

 

 

Lá está você
uma janela por onde se vê os próprios olhos
um mar cujas águas mais fundas desembocam em si mesmas
uma flor que tanto mais desabrocha quanto mais entranhada do próprio perfume
um sol que por dentro irradia outros sóis
uma casa que é o único caminho para o próprio lar
um livro de páginas tais lidas com a língua embrulhada pelo silêncio
um alimento que cultiva a fome assim como a luz talha a sombra
uma oração que religa, dedo a dedo, as próprias mãos.

 

 

 

***

 

 

 

Veja
são todos leões
soltos na savana do sangue –
pesadas pedras que se carrega até ao mais alto.
Parecem com relâmpagos
arqueados pelos parapeitos do céu
prestes a eletrocutarem o ar que já não existe no peito.
Muito semelhante a trens desgovernados
cujos trilhos dependem de pedaços dos nossos corpos para não envergar.
Não se engane
são todos templos dinamitados
cujas crenças permanecem por séculos vivas
trabalhando em segredo por esse vínculo inquebrantável.
Eu havia falado: são leões, todos leões
rugem mais alto ou mais baixo –
depende da dose.
eu acabei de dizer:
são antídoto e veneno.

 

 

 

***

 

 

 

Meu deserto é um animal selvagem –
ao encontrar uma sombra
desiste da caça
e move-se contra si mesmo –
da própria carne tira os nacos
que endurecem o movediço terreno
fincado debaixo de si.

por onde quer que se olhe –
areia areia areia.
nada sobrevive nada
à fome de se devorar
dentro
o lugar de onde veio
esse coração dependurado
que rasga como um olho
a escuridão que teima em acender.

 

 

 

***

 

 

 

Depois que você devorou a si mesmo
mastigou sua orelha
a ponta dos seus dedos
folheou seu coração
encheu de tufos de cílios
páginas com os melhores trechos –
inaugurou uma plateia com suas vísceras
pôs cadeiras cativas para
sua inadequação
suas conjunções malignas
seus monstros
sua má companhia –
depois que seus dentes molares
começaram a balançar
do tanto de violentas mordidas
nos maciços tijolos da lida –
enfim aprendeu que a vida
com seu adubo de feridas
é que nos engraça.

 

Kleber Lima. Bibliotecário. Teresina (PI). 1984. Publicou “Poemas I” pela Ed. Penalux em 2016.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Ser um criador é sentir-se atravessado pelos movimentos do mundo. É percorrer a condição humana retendo dela os estímulos necessários para o olhar crítico sobre a realidade. Pode ser também o gesto de compreender as mudanças pelas quais somos incessantemente desafiados. É potência manifesta. Ato de insubmissão. Ser e não ser no território das palavras e imagens.

Talvez as ideias evocadas no parágrafo acima sirvam para situar um pouco a presença de um alguém como Alex Simões entre nós. Suas feições de poeta e performer dizem muito sobre esse ato espantado que é o estar no mundo, colossal ambiente onde reconhecer-se humano é colocar-se o tempo todo à prova. E o poeta em comento não nos entrega versos de mão beijada, posto que nos convida a extrair do caminho poético ímpetos de diálogo constante com esse Outro que, ao fim e ao cabo, somos todos nós, leitores.

Aceitar o diálogo com Alex significa também acolher a partilha sensível de todo o assombro que está no mundo, como nos revela aqui o próprio autor. Tal gesto propositivo denota um movimento que chama atenção não pelo ato em si, mas pela perspectiva que este encerra, qual seja a de que o artista, despindo-se de qualquer afetação pela aura que o ofício supostamente poderia sugerir, opta por caminhar com simplicidade no meio de seus iguais: eu, você, todos nós.

Para ficar nos exemplos mais recentes, as vias poéticas de Alex foram capazes de nos ofertar obras do quilate de “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo, 2015) e “trans formas são” (Ed. Organismo, 2018), todas elas a demarcar a importância desse autor na cena literária brasileira dos últimos anos. Conhecedor da tradição, o poeta sabe transgredir as formas a favor de um engenho criativo que, sem negar referências de outrora, aponta para o reconhecimento da presença de outros modos canônicos no horizonte da poesia.

A partir de reflexões sobre seu novo livro, “assim na terra como no selfie” (paraLeLo13S, 2021), lançado em pleno contexto pandêmico que nos assola, Alex Simões acolhe a Diversos Afins para mais uma entrevista, pontuando impressões sobre o turbilhão contemporâneo em que vivemos, além de descortinar trajetos ligados à literatura e à arte. E é preciso ressaltar o quanto o artista está imerso nas questões de seu tempo, não se furtando a abordar também os matizes políticos e sociais sobre os quais a atualidade de nossos dias orbita.

 

Alex Simões / Foto: Edgard Oliva

 

DA – “Assim na terra como no selfie”, seu mais recente livro, traz algo que é uma marca registrada de sua produção poética, qual seja a capacidade de olhar para nossa contemporaneidade com movimentos de inquietude e provocação. É importante para você ser um poeta que desacomoda as coisas diante do confronto com o seu tempo?

ALEX SIMÕES – “assim na terra como no selfie” é um livro que tem também outra marca registrada de minha produção poética: o trabalho artístico relacional, dialógico. É o resultado de uma conversa com as editoras Milena Britto e Sarah Kersley, que fizeram uma seleção de poemas com o objetivo de mostrar as muitas facetas dessa produção. Eu tendo a reconhecer mais a inquietude do que a provocação no que faço. Creio que provoco, sim, mas menos no sentido de desacomodar do que no de demandar retornos, leituras, respostas, resultantes de estratégias que ao fim e ao cabo querem estabelecer diálogo. Diálogo explicitado nas muitas dedicatórias e referências nos poemas/paródias/pastiches. Esse olhar para a nossa contemporaneidade é inquieto porque parte da constatação de como as coisas são e estão desacomodadas  e quer compartilhar esse assombro diante do mundo, diante deste tempo, que é o nosso tempo. É um olhar que, lembrando Agamben, adere a, e ao mesmo tempo toma distância deste tempo. Quando tomo distância não por nostalgia senão para entender melhor este tempo em que vivo, vejo as coisas desacomodadas e passeio por elas escrevendo poemas, fazendo poemas visuais e performances.

 

DA – O nosso presente traz todo um contexto pandêmico que nos atravessa. E seu livro também está marcado por esse estado de coisas. Enquanto poeta e artista, como tem sido a experiência de lidar com uma atmosfera que impacta nossa condição humana de forma tão avassaladora?

ALEX SIMÕES – Sim, uma parte significativa do livro foi produzida em plena pandemia e em contexto de isolamento bem restrito, o que inevitavelmente aparece em alguns poemas. Tive o privilégio de poder ficar em casa, trabalhar e receber delivery sem precisar sair, sem precisar usar transporte público. Mesmo Uber eu levei um ano para usar, porque nas poucas vezes que me desloquei no primeiro ano foi de bicicleta. O impacto foi muito forte porque perdi alguns amigos queridos e a sensação de que a morte estava me rondando era muito nítida, embora seja uma rara exceção de quem não teve perda na família por causa da COVID. Pessoalmente, foi um momento em que me vi com mais privilégios do que supunha e me redescobri menos sociável do que supunha. Tive a sorte de ter remuneração como artista/agente de cultura, em boa parte por meio de editais financiados pela Lei Aldir Blanc, resultado de mobilização nacional nossa, apesar desse horror de desgoverno que espero esteja no fim do mandato. Além das atividades como profissional de Letras, que revisa textos, dá aulas particulares e atua em projetos que permitiram que eu tivesse alguma tranquilidade para seguir. Faço todas essas ressalvas para dizer que, apesar de tudo isso, não foi nada fácil, não está sendo fácil. O luto não cessa e a sensação de viver à deriva, sob um governo que performa o descontrole e a incompetência enquanto deixa passar a boiada de agenda neoliberal, genocida e ecocida não cessa. Continuo sem saber como lidar, mas muito desconfiado que precisamos reaprender formas de fazer junto, de dialogar e tornar nossos discursos e ações mais acessíveis e factíveis. Ou aprendemos a saber distinguir com quem de fato podemos contar e a flutuar no bote salva-vidas nos acomodando de modo a não desequilibrar ou mesmo rasgar a embarcação, ou afundamos todas, todos e todes.

 

DA – Em 2016, quando você nos concedeu outra entrevista, estávamos vivendo os efeitos de um golpe, consequências estas que nos arrastaram até o cenário de destruição atual. E vimos muita gente saindo do armário e mostrando sua face truculenta, reacionária e fascista em praça pública. O Brasil sempre foi isso e nós que fingíamos não ver?

ALEX SIMÕES – O Brasil foi sempre isso, aquilo e aquilo outro. Somos um país fundado no genocídio e na exploração dos povos originários e dos povos forçosamente transplantados de África para cá. E que desde que virou República, não num passe de mágica, mas em um golpe militar,  tem tido alguns intervalos de (re)democratização em um moto contínuo de um devir que nos prometem desde sempre: Brasil, o país do futuro. Mas somos um país de resistência desses povos, de seus descendentes e de contradições nesses processos que intercalam ditadura e acenos para a democracia, para processos radicais de transformação social também. E tem beleza nessas contradições, tem possibilidades. De fato, para alguns de nós nunca foi possível não ver o fascismo que nos circunda, que nos habita, que nos funda. Não foi no golpe contra Dilma Roussef nem no governo Bolsonaro que o racismo, a lgbtfobia, o machismo e o classismo apareceram para nos assustar. Mullheres, lgbtqiap+, pessoas em situação de rua, negros, ciganos, pessoas com deficiência e alguns de nós que trazemos mais de uma dessas marcas identitárias sabemos bem que se o gigante acordou, alguns de nós nunca pudemos nem sequer dormir sossegados. Mas de fato houve um empoderamento dos que trazem marcas identitárias hegemônicas, e fingem não ter, para se afirmar, para reagir a qualquer possibilidade de mudança.  E é muito sintomático que reajam atribuindo aos outros o que são e o que fazem. Houve uma quebra do pacto do silenciamento e isso não tem mais como voltar. O mito da democracia racial teve que se reinventar e chamar os negros de racistas. Os defensores da ditadura militar justificam a lgbtfobia como reação à ditadura gay. Os machistas justificam suas falhas trágicas com o poder que atribuem à mulher de lhes provocar. Os extremistas religiosos usam sua fé para justificar o ódio que precisam externar. E o politicamente correto é um problema maior que o fato de 84,9 milhões de pessoas no Brasil não terem comida e/ou não saberem se vão comer amanhã. Esse empoderamento foi uma reação a alguns tímidos avanços que não tem como segurar. Você mencionou 2016 e eu preciso lembrar que em 2013 foram gestados alguns incômodos que ainda não fomos capazes de entender e que resultaram em parte no golpe de 2016. As contradições nos constituem e precisamos conversar com/sobre elas. E decidir que projeto de país queremos, se é que queremos um país. Eu quero, com as contradições e com as possibilidades de conversar com sobre elas. E é importante lembrar: o nosso país não está sozinho nessa, o planeta está precisando fazer DR.

 

DA – Há um quê de memória afetiva permeando “assim na terra como no selfie”. Na sua visão, qual o papel que os afetos têm diante de um mundo que parece não se importar muito com a singularidade das experiências de vida?

ALEX SIMÕES – Sim, tem muito de memória afetiva nesse livro. E mesmo em alguns poemas em que lanço mão de recursos da escrita não-criativa, buscando povoar a lírica com polifonia, com outras vozes que não a minha, tem afeto e tem memória envolvidos. Por exemplo, no poema ready-made “sessão de poesia para a tropa”, em que transcrevo uma parte do depoimento à Comissão da Verdade por Gilberto Natalini, que foi barbaramente torturado pelo Comandante Ustra na ditadura militar,  eu trago a memória de um outro permeada de dores para um poema porque é o meu modo de agir no mundo, de demonstrar empatia e me posicionar sobre o horror. T.S. Eliot, no ensaio “A função social da poesia”, defende que o poeta tem um compromisso radical com a língua,  porque a poesia trata de nossa capacidade de sentir numa língua, que é  mais do que expressar sentimentos numa língua. Se temos afeto, afeição, se afetamos e nos sentimos afetados por coisas e pessoas, é porque temos um repertório que nos foi ofertado pela poesia. E claro que quando me refiro à poesia, estou tratando da mãe das artes. As artes nos ensinam a sentir. Quanto mais limitado for o nosso repertório artístico, menos capazes somos de nos sentir afetados e de sentir numa língua. E não pense alguém que não me conhece e esteja lendo esta entrevista que falo de um repertório canônico, da alta cultura, para os eleitos. A amplitude de repertório artístico passa pelo popular e pelo erudito, pelas linguagens artísticas e por tudo aquilo que estiver fora da minha bolha. Um país que dá as costas para a sua riqueza cultural, o faz porque esse gesto acompanha um desdém para tudo o que promove essa riqueza, que é a pluralidade. O papel dos afetos diante desse mundo insensibilizado me remete ao Padre Julio Lancelotti pegando uma marreta e quebrando as pedras que colocaram embaixo do viaduto para impedir que as pessoas em situação de rua pudessem se deitar.  Ele, que não é um artista, mas um sacerdote, performou um gesto de quem se sente afetado e afeta na ação. Uma parte do país que não percebe a importância e a urgência desse gesto não tem repertório artístico que lhe permita  acessar essa grandeza. Este país precisa ouvir mais Rap, mais pontos de candomblé e umbanda, precisa voltar a escutar os provérbios (lembro aqui do conceito de literatura-terreiro, de Henrique Freitas), ler mais autoras negras e LGBTQIAP+, frequentar mais museus como quem anda nas ruas e aprender a olhar as ruas como quem visita um museu, transitar pelas diferenças, tendo as artes como bússola.

 

DA – Numa resenha publicada aqui na Diversos Afins, Sandro Ornellas vislumbra seu livro também como um labirinto de hesitações. No seu engenho com as palavras, lhe soa atraente a ideia de um se deixar ir, mergulhar fundo, estar perdido, voltar ou até mesmo desdizer o ontem?

ALEX SIMÕES – O autor do fabuloso “dói-me este mundo de violentas esperanças” é um grande poeta e conhecedor de poesia e, para a minha sorte, conhecedor também das coisas que eu escrevo-faço. Sandro Ornellas vem fazendo, entre muitas outras coisas lindas, um trabalho de leitura crítica de seus conterrâneos-contemporâneos, que é digno de nota. E quando ele evoca a ideia de Valery da hesitação entre som e sentido, ele aponta numa direção que cai muito bem para definir o que tenho tentado fazer.  Ter o controle para perdê-lo, cartografar por não saber ler mapas, apoiar-me em formas fixas para implodi-las, ter como estilo a falta de estilo, “ser superficial, no fundo”. Eu cada vez menos sei escrever poemas e fazer livros. E vou fazendo, porque “é mais difícil do que não fazer”. Por um lado, tem a síndrome de impostor envolvida porque, de fato, tem muita poesia incrível já feita e que está se fazendo e eu leio sempre muito menos do que deveria e estou sempre me perguntando se vale mesmo a pena escrever e gastar papel e tinta para publicar o que escrevo. Por outro lado, tem uma alegria em abandonar o desejo de abandonar o barco e seguir navegando à deriva, sem remos. Tem um gosto pelo fazer sem saber aonde vai dar, que com muita frequência não dá em nada mesmo, mas que de vez em quando vira poema, livro, performance, poema-objeto, derivas. No poema “a mulher de Lot é um artista”, falo um pouco de um dos meus fascínios, que é observar a relação do músico com o seu instrumento, uma relação concreta entre o corpo e um objeto, que se amalgamam a ponto de nos parecer sem esforço, intuitivo. Eu não sei se consigo, mas tento me relacionar com a vida, com a arte-vida, assim. Assim como? Do que mesmo eu estava falando?

 

Alex Simões / Foto: Edgard Oliva

 

DA – Autores escrevem para os outros ou para si mesmos?

ALEX SIMÕES – Não saberia dizer para quem as autoras e os autores escrevem. Mas desconfio que os textos que são escritos por elas e eles e ilus se comunicam entre si e não se bastam porque demandam que outras pessoas os leiam para que existam, para que façam sentido. João Cabral vai aparecer de novo nessa conversa porque ele escreveu para o leitor Ninguém, com quem me identifico. As autoras e os autores que me interessam  costumam escrever com muitos outros e consigo mesmos. Por exemplo, Luciany Aparecida e Itamar Vieira Júnior, cada um(a) a seu modo, trazem muitos outros e outras em seus textos sem se perder.

 

DA – Sobretudo nos últimos anos, com o avanço do digital, mais e mais autores se lançaram ao desafio de expor seus textos. Ao lado disso, vimos também o surgimento de editoras independentes por todos os cantos do país, oportunizando vozes das mais diversas. Está todo mundo certo no desejo voraz de ser publicado ou, na sua visão, a maturação das obras é algo que anda se dissolvendo no meio da pressa contemporânea?

ALEX SIMÕES – A Internet sem dúvida promoveu o “escribicionismo”, sobretudo com o advento dos blogs, que um pouco antes das redes sociais deram voz e vez a pessoas que queriam expor seus textos para o mundo. Bastava ter computador e ideias para compartilhar em forma de textos. Claro está que vivemos no Brasil e que o acesso às tecnologias digitais e mesmo às tecnologias da escrita ainda são muito restritas. Dentro dessa bolha que vivemos, os blogs e as redes sociais possibilitaram novas formas de divulgar e distribuir seus textos, o que por si é incrível. Eu confesso que ainda hoje tenho um certo deslumbramento diante da web, no que ela significa em termos de acesso às e compartilhamento das informações. Milton Santos já havia apontado, por exemplo, sobre o impacto que as lan houses provocaram nas comunidades periféricas. A internet mudou nosso modo de olhar o mundo e por consequência nosso modo de olhar e ler os livros. Esse boom de editoras independentes está relacionado com este tempo. Neste país que historicamente sempre teve uma faixa muito restrita da população com amplo acesso ao livro e à leitura, as possibilidades que a internet e as editoras independentes oferecem são motivos de celebração por si só. As pessoas estão mais expostas a situações de letramento e mais expostas aos livros, que não podem mais ser entendidos apenas em sua configuração física. Mas esse acesso à internet também impactou o modo como nos relacionamos com os livros. A  experiência da leitura, do contato com os autores e com o objeto-livro tem sido mais que nunca valorizada, especialmente no contexto da pandemia. Ninguém fala mais em morte do livro físico e isso se deve em boa parte ao trabalho incrível promovido por editoras independentes em todo o Brasil, que não só através de redes sociais e sites, como também em feiras e eventos de publicação. Temos círculos de leituras e redes de leitores em diversas ações que valorizam escritoras, literatura negra e periférica, literatura lgbtqiap+, há uma revalorização da literatura de cordel ao mesmo tempo que há uma intensa produção de poesia/literatura contemporânea. E temos também uma rede de bibliotecas comunitárias que vêm fazendo uma revolução silenciosa no processo de formação de leitores. Eu prefiro olhar pra essas cenas que despontam e que parecem estar mais vinculadas a esforços coletivos e de formação do que pensar na maturação necessária das obras. O tempo urge e mais que nunca precisamos pensar em formar leitores desde a tenra infância, preparando-os para ler livros e telas, aprendendo a filtrar informações para desenvolver senso crítico. Aliás, essa deveria ser a tônica de políticas públicas para o livro e o leitor, mas no momento não temos governo federal. O que as editoras e os círculos de formação e todas as iniciativas de promoção do livro e da leitura vêm fazendo é muito e precisa ser valorizado.

 

DA – Salvador lhe deu régua e compasso? 

ALEX SIMÕES – A Cidade da Bahia me deu régua e compasso, sim. Não por acaso meu novo livro se chama “minha terra tem ladeiras” (Caramurê, no prelo), que é uma referência explícita a essa cidade. Nesse livro e no penúltimo (no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas) a cidade de Salvador é mais que tema, é moldura dos poemas discursivos e visuais. Para o bem e para o mal, meu modo de ser está sempre georreferenciado nessa origem. É a cidade que me pôs no mundo, que me ensinou um modo de circular pelas ruas, de relacionar com as pessoas e que passa muito pelas artes. A minha criança cresceu ouvindo os tropicalistas e foi apresentado aos modernistas, aos pós-modernistas, a uma miríade de poetas com Caetano, Gil, Bethânia e Gal, que se escutava muito na minha casa. Quando li Gregório de Matos na escola, eu já sabia “Triste Bahia” de cor. Ter nascido e criado em um bairro de periferia, de configuração urbana, foi definitivo também para entender desde muito cedo que eu precisava me mover naquele folclore que tentavam me vender como Bahia terra da alegria. É um habitat de contradições que odeio amar e amo odiar. Dá muita raiva de viver numa cidade racista, classista, misógina, mas eu olho a Baía de Todos os Santos e passa. A imagem que projeto de Salvador quando estou fora e tenho saudades diz muito dessa contradição: é vista da Bahia com a Ilha de Itaparica ao fundo. Quando nado na baía, me sinto em casa.

 

DA – Apesar das coisas que lhe afetam e incomodam, Alex Simões olha para a vida hoje com mais serenidade e esperança?

ALEX SIMÕES – Há uma paciência revolucionária que estou aprendendo a cultivar. Tenho tido mais consciência do que não sei, do que não posso e principalmente do que não quero fazer. A paciência revolucionária já traz em si a esperança, que nunca deixei de ter. Acho que o que tem mudado é que estou mais paciente comigo mesmo e mais atento para ler os nãos, os silêncios, os desvios de rota, as rupturas, as derivas. E eu adoro derivas, o que também traz embutida uma esperança. As muitas coisas horríveis que acontecem neste país e neste mundo não são novas. Talvez a novidade esteja no modo como alguns de nós as estamos vendo e como estamos nos vendo em relação a essas coisas.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ALEX SIMÕES – Esta resposta está no poema “O artista inconfessável”, de João Cabral. Todos os dias me faço esta pergunta e escrevo, mesmo quando não escrevo, porque nos dias “não” me pergunto por que não estou escrevendo e me sinto mais desconfortável do que quando leio com algum desconforto o que escrevo e penso que poderia ser muito melhor daquilo que pude escrever. Porque tem um ritmo, uma imagem, uma ideia que eu persigo e que eventualmente consigo dar uma forma, uma possibilidade de existência, e porque sou atravessado por ritmos, imagens e ideias que muitas outras e outres e outros criaram e criam e me provocam a seguir atravessado e atravessando. Porque ainda não sei escrever e, por isso, escrevo.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.

 

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147ª Leva - 02/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O TESTEMUNHO QUE RESTA

Por Sandro Ornellas

 

 

Os vivos (?) e os mortos (2021) é o último livro do escritor, poeta e cineasta pernambucano Fernando Monteiro, publicado pela potiguar Sol Negro em uma cuidadosa edição, que também conta com a apresentação do poeta e professor Sergio de Castro Pinto e ilustrações de Chico Díaz, reconhecido ator de teatro, cinema e televisão. Confesso ser o primeiro livro de Monteiro que leio, malgrado sua longa produção, que, conforme Marcio Simões na orelha, tem nesse livro a continuidade de um projeto com “longos poemas temáticos”. E qual o “tema”, se pudermos assim designar, desse último livro? A chamada “casa da morte”, residência na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro, usada nos anos 1970 como centro de tortura do Regime Militar. Casa conhecida por dela ninguém sair vivo.

Dividido em seis partes, o poema deixa claro esse “tema” sem meias palavras, como convém a um texto que começa denunciando o não tombamento dessa casa: “Até hoje não tombada / como tenebroso patrimônio / daquela parte horrenda / que por dentro habita no fundo / da nossa falta de alma”. Poema denúncia, diriam os incautos apressados, por desconhecerem a existência passada e história da casa. Mas arrisco dizer se tratar de um poema testemunho, por se esforçar em enunciar o horror inenarrável do que se passou naquela casa e conseguir articulá-lo à atualidade de ascensão de Jair Bolsonaro ao poder no Brasil. Ou seja, se a denúncia de um acontecimento cabe ao texto jornalístico, que pode até optar pelo verso só para melhor enfatizar uma certa expressividade do autor na persuasão afetiva do leitor, o testemunho sempre se dedica a falar do silêncio traumático deixado pelo horror e pela catástrofe quando se abatem sobre uma coletividade. Esse esforço em falar de um silêncio traumático que resta e pode ser entendido como o lugar da poesia.

Por isso, na minha opinião, a opção de Fernando Monteiro em escrever em versos. E, por isso, também coloquei aspas na palavra “tema”: o poema é muito mais do que “apenas” sobre a “Casa da Morte”. Ele é sobre o silêncio instaurado pelo sofrimento e pelas mortes, ele fala sobre os mortos, com os mortos e pelos mortos que ali tiveram seu fim: “falo do esgoto que pode ser / levantado / [e foi] / naquela rua / ARTHUR BARBOSA, / NÚMERO 668 / – BAIRRO DE CAXAMBU, PETR… / *** / Minuto de silêncio. / *** / Minuto por todos os conduzidos / pelos carros militares / para a Casa hoje pintada de branco / e quase disfarçada sob o número / novo (…)”. Embora fale para os “vivos”, que no título são seguidos por uma interrogação, questionando se de fato estariam/estaríamos vivos. Isso porque o poeta amarra aquele tempo de horror ao nosso tempo cotidiano, com nossos contemporâneos mais prosaicos: “Assim Lustradas as paredes, / ela nos observa com os mesmos olhos / de frieza da gente que nos examina / e dá ‘bom dia’ nos elevadores, / debaixo de rilhados dentes, / as covas de olhos velados / pelos óculos escuros dos coronéis / Ustras e outros diabos / malditos para sempre, / mas compartilhando elevadores / e ruas com a gente”. Sim, os “vivos (?)” são os que elegeram um cultor – “bozo maldito” – da memória de um notório e assumido torturador como o Coronel do Exército Brasileiro Carlos Alberto Brilhante Ustra. Mas eu diria também que “vivos (?)” somos todos nós, que não o elegemos, mas que durante trinta anos silenciamos o período sobre o qual Monteiro fala. É como se o peso daquele momento fosse tamanho que esse país só conseguisse tratar dessa medusa sem olhá-la de frente. Por isso, Giorgio Agamben diz que “a estrutura do testemunho e a possibilidade do poema” e esse livro de Fernando Monteiro fala justo disso: da possibilidade de tratar do intratável, de falar do silêncio calado fundo – e que nos trouxe até aqui como coletividade. Os “vivos (?)” somos todos nós. E diariamente nos confundimos com “os mortos”. Só que fingimos não nos confundirmos, através de tantos jogos de linguagem e consumo, de consumo da linguagem dos memes nas redes, e antes disso das tevês, ao invés de aprendermos a dura linguagem do poema que enuncia o silêncio.

É afirmando justo isso que Monteiro começa a parte 4 do poema: “Foi por nós, / por essa gente assustada, / por este país doente / que assim desapareceram / tantos & tantos ‘desaparecidos’ / durante os anos que mataram / o Brasil também a golpes / e golpes?”. Isso depois de inscrever os nomes de “Carlos Alberto Soares / FREITAS, / o nome do preso apagado / que aparece aqui quase com a anomia / dos sobrenomes brasileiros de rotina, / embora Carlos fosse ‘um dirigente do VAR-Palmares’ / (eu cito a sua ficha ensanguentada) / guerrilheiro ‘interrogado’, / esquartejado e depois sepultado / nas proximidades (?), / em fevereiro de 1971”; “o meu colega de classe Humberto Câmara / está listado como um dos mortos do abismo / da diferença entre estudantes da década / de mil novecentos e setenta / (…)”; ou ainda “Eu tento ser igualmente direto / e claro no extremo desconforto, / embora não queira ser torturado / e assassinado conforme PPP / (aqui no Brasil significa / Pobre Padre Preto como Henrique, / o sacerdote eliminado / no Recife de Dom Hélder / pela ditadura das casas dos mortos). / Quem foi esse padre? / Não foi ninguém, / para os tempos de Agora.” São alguns dos nomes em nome dos quais Monteiro fala para “os vivos (?)” de hoje.

Percebe-se nas palavras de Monteiro algo daquela vergonha que Primo Levi identifica nos sobreviventes de Auschwitz e que para ele são o maior motivo para se escrever. Vergonha por sobreviver ao horror diante do qual tantos tombaram. Vergonha sobreviver mesmo que em estado de penúria moral, que parece ainda restar daqueles tempos: “Pois o nosso é um tempo de morte / na consciência que se aplana”. É, portanto, por isso que Monteiro escreve, para nomear quem não é ninguém “para os tempos de Agora”, dirigindo-se a nós em nome do que não são “ninguém”, dos que não podem falar, silenciados e/ou mortos. Seu texto é esse ritual de exumação dos ossos. Não o rito jurídico dos homens, mas aquele – mais fundo – da memória inumana que teimamos em matar e que, quando emerge, é violência intestina. E está aí. Ao nosso lado. Em nossas mãos. Em nossa voz silenciosa: “Por que estou escrevendo / um poema que não é um poema (repito) / apenas para que se entenda / que estamos numa época muitíssimo dura, / nesta dobra de dois-zero-dois- / zero de coragem temerária / dos que foram caçados e transportados / para a Casa da Morte”.

São muitas as passagens desse poema que – oscilando entre a poesia e a prosa, o sublime e o grotesco, o raro e o comum, o discreto e o clamoroso, o vivo e o morto – desafia “nosso ânimo que resta” e que “parece ser de recuo / e recusa de morrer para escapar / de viver apenas e tão somente / por nada / ou quase nada / na espuma dos dias apagados”, jogando na nossa cara nosso “mal bem às claras” e “retrucando a Adorno: / não, Theodor, não se tornou / ‘impossível’ / escrever versos para os vivos / que não estejam mortos / *** / Poesia ainda supera os fornos / e pode romper o jogo / dentro do logro / de jovens distraídos / pela dança do Ogro”.

E para quem conclui essa catábase de Fernando Monteiro, resta ainda um suplemento para reabrir a ferida incicatrizável nesse livro de tantas mãos, bocas e olhos abertos pelas janelas, portas e brechas dos desenhos de Chico Díaz. Refiro-me ao Anexo com “Matéria de Chico Otávio e Marcelo Remígio publicada no Jornal O Globo em 17.03.2014”. São apenas dois parágrafos em que os autores listam a identidade de alguns dos torturadores da Casa da Morte, graças à memória da sua única sobrevivente, a ex-presa política Inês Etienne Romeu, que “registrou os codinomes de 19 torturadores durante os 96 dias de seu martírio”. Na matéria, o que diz o coronel reformado Paulo Malhães não é somente um sintoma, mas a prosa cotidiana que faz de nós, “os vivos (?)”, tão mortos quanto os mortos em nome dos quais Fernando Monteiro desce aos infernos com as palavras que Inês Etienne Romeu usa como o testemunho que resta.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de “Em obras” (poesia, Editora Cousa, 2019), “Linhas escritas, corpos sujeitos” (estudos, Editora LiberArs, 2015), dentre outros.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Clarissa Macedo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Rejeição

 

Teu olhar ginecológico
habita o meu aquário
de usuras e medos.

Profissional, asséptico e vidrado
o deslocar dos teus olhos
ofende o meu útero,
cansado da espera.

Enquanto me curo da tua ausência
da tua face clínica e distante,
que jamais arranca o chamado do meu apelo,
bordo a falsa flor,
laureada de armadilha,
clandestina
como a agulha que não soube usar
e que espetei na casa mais alta do teu coração.

 

 

 

***

 

 

 

Surpresa

 

Não fui a garota que todos esperavam
[porque a mim nada foi creditado]
— “Será igual ao pai”, diziam
[aquele que me foi(-se) tirado].
Não fui a boa menina,
mas uma paisagem caricaturada:
por fora, o avesso, a penúria, uma linguagem muda
por dentro, um cacto de selênio e violência.

(Uma poesia autoafirmativa como esta não pode valer a pena).

Uma menina, inesperada;
uma mulher, horizonte irrecuperável.

 

 

 

***

 

 

 

Endereço

 

Minha casa é uma ilha
Um mar que secou há tanto
Onde os pássaros bebem a bile dos meus sonhos.

 

 

 

***

 

 

 

Cenáculo

 

para Lílian Almeida

 

Ao pé das Oliveiras,
um alaúde queimava
e ele via as cordas.

Sob a árvore do deserto,
uma lágrima de pudor
e a fuga ao coração do incerto.

Judas, o mais amado,
sem prata, um sopro,
um engano à mercê
do medo –
do Senhor, um olho.

 

 

 

***

 

 

 

Perpétuo

 

Uma encosta
um leme de celas
que sobrevive
à interrupção do tempo.

Um salário de medos
veste a carapaça,
tigre de oito metros.

No infinito,
um relógio esquivo permanece.
Na intermitência,
o cortejo dos solos que deixaram
dos deuses que temeram.

 

 

 

***

 

 

 

Espículo

 

Onde eu estava?
Quem era quando, desavisada,
olhava de longe o percurso dos anos?

Todos sabem da morte,
e dizem dela com intimidade.

Hoje eu a topo de frente,
como um cão olha a tarde
como um pássaro que, sísmico,
pousa nas remotas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Do abrupto

 

Molhar as plantas
Comprar sabão
Depenar as frutas
Saudar os óculos
Amarrar sapatos
Limpar os poros
Minha mãe é morta.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, agente cultural, pesquisadora e professora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas”, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia; traduzido ao espanhol), “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” e “A casa mais alta do teu coração” (Prêmio Biblioteca Digital do Paraná). É a idealizadora do “Encontro de Autoras Baianas” e do “Sarau Cartografias”.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Galeria

Ilustração: Bianca Grassi

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