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148ª Leva - 03/2022 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Gilucci Augusto

 

E lá vamos nós pelos caminhos, trilhando percursos e encontros pelas palavras e imagens. São 148 Levas através das quais a vida se manifesta em seu poder de nos encantar pelo trabalho feito na jornada editorial. E não há dúvida de que o motor central desse movimento recompensador é a contribuição das muitas vozes que passam pela revista com suas singulares feições. Cada uma delas, marcadas por universos particulares de expressão, nos diz de mundos no mundo, sugerem rotas, denotam desejos de toda ordem. Tudo isso assinalado pela vontade de comunicar, de compartilhar ideias, visões e sentidos que atravessam muito do que vai por dentro de cada ser. Mergulhar e viver a Arte é sentir o outro, aquele que nos propõe outras múltiplas vias até mesmo quando nossa visão parece um tanto aborrecida e carece de renovação. É, por assim dizer, um efeito dialógico, através do qual nossa presença no mundo resta acrescida em larga escala pelo olhar que emana de outras mentes. Editar uma revista como a Diversos Afins é, permanentemente, buscar escutas, abrindo as alamedas para que outras tantas pessoas se aproximem e tragam consigo perspectivas de apreensão no campo sensível da existência. Nesse sentido, palavras e imagens correspondem a um potente agregado de possibilidades, dando mostras de que estar no mundo é se deixar tocar por aquilo que também semeia delicadezas do olhar humano sobre as coisas. Com esse espírito a nos mover, nos rendemos a grandiosas descobertas. Uma delas é o sublime trabalho do fotógrafo baiano Gilucci Augusto, que nos presenteia com uma exposição de algumas de suas imagens agora em nossa nova edição, sendo que a temática evidenciada pelo artista promove belos e instigantes percursos evocados pelo corpo. Não menos diferente é o impacto que os poemas de Laura Assis, Lucio Carvalho, Patricia Porto, Julia Sereno e Drika Prates proporcionam em nós. Um dos nossos pontos altos fica por conta da entrevista que Larissa Mendes fez com o cantor e compositor pernambucano Juvenil Silva, artista cuja sensibilidade areja os novos ambientes da música brasileira. Nosso Gramofone contempla a resenha de Marcelo Frazão para o novo disco do Projetomacabéa, álbum capitaneado pela expressão de Alisson Lima. São de Wilton Cardoso as atentas linhas de análise para “O corpo de uma voz despedaçada”, livro de poemas de Wesley Peres.  No território da prosa, estamos muito bem servidos com os contos de Wellington Amâncio da Silva, Adriana Vieira Lomar e Rodrigo Melo. Com seus mergulhos sempre precisos, Guilherme Preger chama nossa atenção para o premiado filme japonês “Drive My Car”. Por seu curso, Sandro Ornellas, com suas valiosas percepções, nos convida à leitura de “1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite”, mais novo livro do poeta e multifacetado artista W. J. Solha. Nossa estrada segue adiante, cara leitora, caro leitor, certos de que o melhor de tudo é contar com sua companhia. Boas leituras e imersões!

Os Leveiros

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriana Vieira Lomar

 

 

 

Os gerânios me entendem

 

Sei que o nome dela por aqui é um tabu, mas assisti à cena, e isso anda me incomodando. Vou omitir seu nome. Ela não virá contra mim, caso algum dia leia esta nota. Se bem que… Não correrei esse risco, guardarei estas linhas no fundo de minha gaveta, como uma joia de família. Gaveta a ser aberta por seus herdeiros – e tal coisa ocorrerá, quando tanto eu quanto ela já estivermos em outra dimensão.

Estou na janela aguando os gerânios. A tarde desmaia de preguiças, enquanto a Lua emerge. Uma inquietude em mim, um mau prenúncio. A rua quieta ao extremo traz o cheiro das trevas, do susto e do imprevisto. Quem dera eu estivesse errada…

Ela está voltando da escola, quando os quatro bem mais velhos a abordam. Medrosa, sento-me no chão frio da sala e, entre as grades, assisto. O som do asfalto, a rua deserta assovia quando as folhas tocam o chão fedido.

Os quatro ecoam juntos o boa-tarde mais sentido que já escutei. Suas vozes não chegam até o segundo andar, onde permaneço escondida. De súbito, ela abre a camisa. Antes, olha para todos os lados. Agacho-me ainda mais. Deito-me no chão, agora mais frio. Entre meus olhos e a cena, há um fiapo de grade – uma grade porosa.

Vejo um par de seios frescos, com bicos rosáceos e espertos. Um beija o esquerdo, outro o direito. Os outros dois permanecem quietos, de braços cruzados, olhando a rua como quem vigia. Passados alguns minutos, talvez dois, eles trocam de lugar.

Os dois tiram a saia de pregas. Ela no meio, entre os dois esmaece. Sua bochecha rosada deita no braço cabeludo de um deles. A essa altura, não sei o que fazer. Prefiro observar os fragmentos dos gerânios que ainda me parecem hidratados.

As doze baladas do sino vibram na pequena cidadela. Canso-me de permanecer deitada e me sento. Os cinco ainda estão na rua ainda deserta. Ouço seus gemidos daqui. Nem os sinos impõem receio. E se eu tiver coragem e simplesmente aparecer ali?

Mas isso não dará certo. Trabalho para o pai dela, o prefeito. O cara é viúvo, um pobre coitado. E aqueles quatro, vi todos nascerem, conheço suas mães. Todas estudaram comigo. Também, pudera, haveriam de estudar em outro lugar? Por aqui só há uma escola, a mesma onde ela estuda, que mantém o mesmo uniforme, apesar de três décadas terem passado, assim, feito mágica.

Vou permanecer aqui boquiaberta, rezar um pouco, pedir para os cinco se mancarem. Meu Jesus Cristo, tende piedade de… Não deu outra, uma pancada de chuva daquelas devastadoras, com direito a raio, trovoada. No ritmo em que meu coração bate, de puro desassossego.

Os quatro correm em direção a suas casas desertas. As mães estão na igreja. Ela, feito uma estátua, permanece ali, com a blusa desabotoada. Tenho que ir a seu encontro, preciso abotoar cada botão. Exercer a maternidade que não quis para mim.

E, com muita dor, feito faca me cortando, eu a vejo saindo do ponto em que estava. Partindo com sua saia de pregas abaixo do joelho. Caminhando como se estivesse embriagada. As meias brancas e bordadas borradas de terra e a sapatilha de boneca gasta.

O emblema da escola São José do Amparo sobrevive. A essa altura, estou na esquina. E, de olhos fechados, lembro o dia em que a gerei. Meu sumiço e o dia em que presenteei o prefeito. O grande vazio. Minha vida sem graça.

Na direção contrária, corro e volto a aguar os gerânios. Ela não me vê. Meus gerânios não falam. E, dessa sacada, posso chorar. Eles me escutam.

 

 

***

 

 

O louva-a-deus

 

Uma folha voadora chega aqui e faz cócegas em meu nariz. Veio só com esse propósito. Logo depois da missão, ela cai esparramada no chão batido de cimento frio. Por quantas ela passou para chegar aqui? Passou por um corpo ainda morno e vigiado por um bando de urubus que trafegam no espaço aéreo azulado. Eles só observam o momento certo de limpar as vísceras do corpo estendido e mortificado.

Ainda estou sem palavras. Nem sei como começar. Minhas pernas tremem, mas tremiam bem mais antes de ela passar por aqui.

Ela deixa um cheiro bom de alecrim, que me remete ao dia de ontem. Nós estávamos bem, comíamos na grande mesa rememorando nossas histórias antigas, mas ainda não comentadas, apesar do tempo tão longo de vida em comum. Tomamos vinho branco, da cor da neve, que vimos pela primeira vez. Degustamos um peixe rosado e carnudo chamado salmão, que bem lembra os sermões escutados durante as aulas de catequese. Debandamos. Nessa época, eu ainda não o conhecia. Em lugares diferentes, permitimo-nos não acreditar mais em dogmas. Criamos os nossos.

O inhame assado com raspas de limão traz a lembrança da terra por adubar e a florada como um unguento nos dias de sofrimento. A sobremesa – cajus derretidos em manteiga de amêndoas – remonta aos gritos de chamar para o almoço o menino peralta, que inventava de subir no ponto mais alto do cajueiro e encher o tacho da mãe com o fruto.

Depois da comilança, resolvemos dormir. O cheiro ainda era bom, apesar da idade avançada, da lembrança de que um dia o torpor da juventude habitava todo o domingo de beijos e toques na pele desnuda. Diminuídos em tamanho, com a tez enrugada e vincada, nós dois gostávamos de dormir feito caramujos.

Não sei quando aconteceu. Há um grande vácuo. Estava adormecendo, quando ele me pediu o travesseiro. Logo depois, mais um pedido inaudito. Disse que não, não poderia jamais cumprir sua ordem. Depois, ele veio com aquela conversa de que eu era mais nova e deveria lhe obedecer. Virei meu corpo para trás. Com raiva, adormeci. Nunca, em seis décadas, dormi sem beijá-lo. Meu braço ficou no vazio.

Meus braços estão vagos e desocupados. Os urubus agora o rondam de fato. Minhas pernas estão fracas. Meu silêncio ainda está ocupado pela raiva.

O boom da bala que me fez acordar. Algumas horas atrás. Sem vizinhos, nesse bosque, ele me deixa assim, solitária.

 

 

***

 

 

O desconhecido

 

Estou no túnel. Agonia. Na urgência em chegar à casa de saúde. Estou a cem por hora. Talvez seja multada. Minhas extremidades suam, o vômito ameaça chegar, o coração acelera e me vem o medo da morte. O túnel é longo, extenso como o corredor da sala grande. Da sala grande. Da sala grande da fazenda. Lá, eu estou atravessando a escuridão. O maço é vermelho, os cigarros são recomendados para tirar a ansiedade. Eu os pego com minhas mãos miúdas. Devolvo a meu cowboy e ganho o posto de menina corajosa.

Meu cowboy me espera no quarto de hospital, mas não sei se consigo atravessar o túnel para me despedir. Não posso parar o carro. Os faróis ferem meus olhos. Minha retina ameaça fechar. A velha imagem do corredor longo me vem à tona. Os sofás na penumbra presenciam meus passinhos curtos e medrosos até o birô. As corujas me assistem. Consigo pegar o maço inteiro, mesmo sentindo um frio na barriga. Retorno com o maço e o entrego. A mesa está lotada. Ouço aplausos. Conseguirei chegar até o hospital? As pernas tremem, meu coração pula em disparada, partes de mim adormecem feito câimbra.

Quero abraçar meu velho cowboy. Em mim, berra a urgência em encontrá-lo antes que ele parta para sempre. Mesmo sentindo a morte chegar, o túnel ainda escuro, preciso vencer a escuridão. Morrer é uma certeza de todos. Volto a me ver naquele velho corredor da cozinha para a sala grande, vejo-me pequenina tomando banho no breu. Escuto minha voz de criança dizer que tinha medo, ouço sua voz de tenor dizer que, depois do coração aos saltos, a brisa leve e cheirosa virá. Como uma montanha-russa – horrível a primeira vez, depois vira adrenalina. “Será que consigo, meu cowboy?” “Treine primeiro. Pega meu maço lá no escritório. Terás que atravessar a longa sala, sem sinal algum de claridade. Nem candeeiro vale.” “Não consigo.” “Tenta, minha amada, tenta.”

Seu timbre me guia até a casa de saúde. Aturdida, caminho até a recepção. Estou ali para me despedir do cowboy. Respiro fundo e me apresento.

“Quarto 201, senhora.”

Entro no quarto, espero encontrar um homem velho partindo. Lá, encontro o cowboy me pedindo para assistir ao campeonato mundial. Pelé está em plena forma. Ele não lembra que eu ainda tinha dois anos quando Pelé jogou pela última vez. “Sou eu, meu cowboy, não está me reconhecendo?” “Como não iria reconhecer-te? Estou sim. Preciso te contar um enorme segredo, não contes a ninguém. Eu sei que tu és igual a mim, e não contarás.” Aproximo meu ouvido e ouço o cochicho mais ardido e sofrido de se ouvir. Com lágrimas em meus olhos vividos, só digo sim com a cabeça. Jamais conseguiria deixar de perdoá-lo. E ali, naquele quarto frio e sem graça de hospital, ele partiu, imaginando Pelé.

Seu semblante era de paz. Aliviado, morreu sem culpa. Depois do enterro, voltei a atravessar túneis. Sinais verdes e sinais vermelhos. Por um tempo, continuei sentindo falta de ar, achei que iria morrer. Meus pés suavam, minhas mãos tremiam. Mantive-me na esfera do medo, medo de não conseguir voltar para casa com vida. Mas aquela voz de tenor me acompanhou e continua me acompanhando. E, assim, os tijolos criados pelo medo continuam desabando. Com a luz acesa, tomo banho e deixo a água lamber meu corpo fatigado. Na mistura de lágrimas com água, permanece o segredo dito: “Você tem uma irmã e precisa dividir a casa, a terra ou o que mais deixei.”

 

Adriana Vieira Lomar é Integrante dos Quinze e  do “Caneta, Lente & Pincel. Pós graduada em Arte, Pensamento e Literatura Contemporânea e Roteiro para TV, cinema e Novas Mídias pela PUC-RIO, autora de “Carpintaria de sonhos” e do romance “Aldeia dos mortos”, esse pela editora Patuá.

 

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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Patricia Porto

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Retrato

 

O corpo é uma promessa
Um passaporte para o estrangeiro.
Carrega luz e outro tanto de oculto.
Nem todas as camadas podem ser escavadas.
O rosto esconde poços. Com e sem água.
E há mais da sede que poço.
Todas os símbolos são expressões do encontro
entre o deserto e a passagem de mar.
No rosto daquela mulher há uma constelação,
uma onça que nada,
uma casa sempre assombrada.
Um bebê derramando choro no escuro
é quem ela embala em fantasia.
O Cão morde seu calcanhar
e ela ainda Monalisa.

 

 

 

***

 

 

 

Fênix

 

Apesar dos grandes abalos
Sísifo encontrou a luz
Era uma luz pequena.
Uma luzinha de nada.
Um pedacinho claro na fria escuridão.
Apesar dos outros muitos lugares de medo,
na saída foi que Sísifo encontrou o tempo de mastigar
– com dentes afiados na pedra –
os desgostos do pássaro morto.
Apesar do imenso infortúnio da noite,
Sísifo feliz saiu dos escombros
da casa incendiada,
não nas asas de um ser vivo,
mas com as asas de sua ave morta.

 

 

 

***

 

 

 

A mulher de Safo

 

Uma mulher inteira é uma mulher intensa
é uma mulher na cabeça
nos desvios
vãos
abismos
entranhas
vulva e falo
uma mulher inteira é inteira na palavra
é inteira ao acordar com seus humores
seus cheiros
axilas
pelos
suores noturnos
uma mulher inteira é um bicho de si mesma
é concreta e abstrata
é múltipla e una
é uma mulher na cabeça
uma mulher inteira não passa por um ângulo ou agulha
uma mulher inteira é um círculo de ciclos
é uma mulher descalça em seus pés
é uma mulher que ri, gargalha, não teme
e chora e grita se for preciso
diante do soco
diante da merda que corrói o amor
diante da rigidez, do autoritarismo
é uma mulher que se atravessa
se alimenta de seivas
se reconstrói
se reinicia
se regenera
se liberta
se emancipa
para dizer todos os adeuses
para colocar fim nas histórias mortas
é uma mulher que se levanta dela mesma
e anda com sua cabeça

 

 

 

***

 

 

 

Casa do mar

 

o amor como esse vinho que cai sobre a toalha branca
o amor como esse sangue derramado no sofá branco
o dia feito sangue e vinho
as aves dos dias em que tudo escoa
tudo molha
tudo mofa

o amor como esse vento frio dos homens
o amor na geladeira
com as frutas

no tempo das castanhas
das folhas jogadas ao chão

o amor dos inacabados
para onde caminhamos sem saber
se ainda somos crianças ou não
se somos velhos ou figos

o amor na porta de entrada
um gato quieto, parado
estranhado de sua natureza

vive e respira
profusamente

 

 

 

***

 

 

 

Às cegas

 

O amor é uma dança de espelhos
Uma dança de corpos
Uma aliança entre elementos químicos
Quem dera eu tivesse um cão guia
para me ajudar nos teus passos

 

 

 

***

 

 

 

Casulo

 

A noite caiu como fiapo de tempo
Guardei as histórias de chorar
Para depois
Depois de nós, de um amontoado de fantasmas
Desfilando sonoros
Em nossos países de dormir, matar ou morrer

Seremos um dia os mesmos de ontem?
Guardei minhas esperanças na caixa de sonhos
alucinações, um casulo de doídos,
uma Pandora decidida

e estou mais velha que meu espanto
branqueio na paisagem

 

Patricia Porto é poeta maranhense, Doutora e Mestre em Políticas Públicas Educação, formada em Letras, publicou vários artigos, a obra acadêmica “Narrativas memorialísticas: por uma arte docente na escolarização da literatura” e os livros de poesia “Sobre pétalas e preces”, “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos”, “Cabeça de Antígona” e “Casa de boneca para elefantes”. Participou, ainda, de coletâneas literárias no Brasil e no exterior.

 

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148ª Leva - 03/2022 Gramofone

Gramofone

Por Marcelo Frazão

 

PROJETOMACABÉA – NALGUM LUGAR ENTRE O CAPÍTULO 9 E A INUNDAÇÃO

 

 

Celebremos! Macabéa está de volta. A festa não acabou. Com três faixas inéditas, recém-gravadas, Álisson Lima dá continuidade ao seu trabalho mais pessoal, que hibernava desde 2016. Pensando bem, talvez hibernar não seja a palavra correta, projetos necessitam de uma longa gestação para que amadureçam e venham ao mundo na hora certa. Assim, penso, é o caso do projetomacabéa.

O EP, na contramão dos atuais lançamentos, não traz participações especiais. Ele volta a ser o resultado da vontade de onemanband: as letras, melodias e arranjos são todos assinados por Álisson, que também grava todos os instrumentos e vocais.

É comum, ao escutarmos um novo disco, procurarmos influências ou referências de bandas e artistas consagrados. Sim, elas estão lá, ou aqui, misturadas. Sentimos algo de Pixies, Raul Seixas, Pavement, Wander Wildner e até uma pitada de Júpiter Maçã, mas o principal, acho importante frisar, é, no projetomacabéa, como a vivência e experiências pessoais estão em primeiro plano, imprimindo uma marca original em cada uma das três faixas do álbum.

É a estranheza que aglutina e conta uma história com começo, meio e fim em Nalgum lugar entre o capítulo 9 e a inundação, característica que pode incomodar os ouvidos viciados em baladas melosas e de fácil digestão. A melancolia é outro traço de nosso tempo a imprimir um estado de espírito cinza que percorre o álbum e pode não agradar aos ouvidos moucos. Sim, o cinza é a cor que nele predomina e, atenção, não se trata apenas de um tom de cinza. O projetomacabéa transforma em música e poesia uma palheta extensa, que vai do quase branco ao cinza chumbo metálico. Afinal, cores traduzem sentimentos melhor que palavras gastas ou expressões da moda. Fazer isso de forma monocromática é para poucos. É um dom que as almas mais sensíveis possuem. Os três grandes méritos deste novo EP são: não embarcar no fácil do caminho já percorrido; não apostar em fórmulas de sucesso certo e instantâneo e, o mais importante, expressar a sua verdade. Afinal, como a Arte não tem compromisso com nada ou ninguém, o artista não pode nem deve fazer concessões.

 

Álisson Lima / Foto: divulgação

 

Nome estranho é a faixa que abre o álbum e evoca o melhor Ramones, alertando o ouvinte para a tônica do conjunto: o estranhamento com a vida, com as coisas inexplicáveis e a busca por respostas que não existem, mas ressoam em todo ser. Ressoa “seca e doce, quando estamos a sós, apenas com nossa voz”, como a letra sugere e repete e repete para que seja compreendida. A resposta está guardada dentro do corpo, com suas vontades latentes dissociadas das vontades impostas pelo mundo, e é apontada no verso que fecha, vivo e seco, como uma porrada: “Minha voz e eu estamos a sós”. A porrada é maior quando percebemos a ironia de se estar só num tempo de redes sociais, seguidores, mensagens instantâneas, público sem calor à espera da próxima novidade, do próximo like, comentário, cancelamento. Tudo aparentemente tão real, mas totalmente descartável.

Dia cinzento, a segunda faixa, como o título anuncia, é cinza, como a angústia das correntes dos dias. Como os dias sem sol. Como sentimentos que incineramos e, não à toa, se transformam em cinzas. A depressão é cinza e a voz é um acalanto com sugestivas metáforas, um antídoto, uma forma de lidar com essa angústia sem cores, sem rumo nem explicação. Resistir é preciso. Resistir à dor é preciso. Resistir a todas as dores, as que nos chegam de fora e, principalmente, as que causamos a nós mesmos. É mais fácil deixar-se levar correnteza abaixo, mas esta não é a única opção, apenas a mais fácil. É preciso querer mais do que se tem se não quiser permanecer na dor. É preciso não entregar os pontos. Procurar abrigo da chuva nos dias cinzentos. A fuga não é a mensagem desta faixa. A luta consigo mesmo, apesar de ser a mais difícil, é a única que expurga e transforma um dia cinzento.

A festa acabou é uma balada melancólica que arremata o sentimento individual das faixas anteriores e deságua no coletivo. O que nos resta? A festa, para qual ninguém foi convidado, mas todos compareceram e terão que pagar o preço, acabou. Resta a ressaca, trabalho e dias desnecessários. A festa acabou. O mundo é real e sempre haverá vidas que virão depois das nossas vidas. E aqui, nesta faixa, o diálogo nada explícito das duas vozes que se entrelaçam e se sobrepõem é o ponto mais alto do disco. A letra é uma bela poesia que complementa e se funde com a melodia.

Último aviso: esta não é uma análise definitiva. Muitas outras interpretações e possibilidades se escondem nas palavras e na música do projetomacabéa. Assim como este não é um disco para se ouvir apressadamente. É cinza e melancólico como sugere o título. A música e a poesia provocam emoções que às vezes não gostamos de sentir. Sentimentos que não levamos para uma festa, mas que estão sobre nós como nuvens prontas para desaguar. Sentimentos que nos forçam a amadurecer ou a sucumbir. Contudo, estas três músicas nos inspiram a seguir com cabeça erguida, mesmo que os dias continuem cinzentos, muito cinzentos.

 

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Marcelo Frazão é artista plástico, poeta e editor. Publicou Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2015). Ganhou o Premio APCA em parceria com Olga Savary. Atualmente trabalha como editor da Villa Olívia e ilustra para o Jornal Rascunho. 

 

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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Sereno

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Barro

 

O céu laranja empoeirado
traz o deserto que meus pés
ainda não conhecem
para meu inverno particular

A areia do Saara paira
e move
deixando uma cor diferente
na minha pele península

 

 

 

***

 

 

 

Mulher locomotiva enlouquece
e esquece e repete e comete
um crime sem arma ou morte
apenas um ato ou seria
um pacto
de sanidade
com a própria
liberdade

Ela escreve
a mulher

 

 

 

***

 

 

 

Palavras puras
não existem
só com as híbridas
escrevo
e recito
os segredos
que desencontro
no caminho

 

 

 

***

 

 

 

Despertar

 

vento frio na pele
respiro sem deixar
o medo amanhecer
junto ao meu
despertar repentino

não sei se este dia
será como um dia
qualquer ou como
o outro que deixei
sem terminar

aquele que passou
horas a fio
desencapado
doendo pela
ponta que esqueci
de cortar

 

 

 

***

 

 

 

Um mapa

 

Fui nascida em dezembro, abaixo daquela
linha imaginária que corta o mapa
desenhado nos livros
por quem?
Fui ensinada a reconhecer as fronteiras,
mas depois aprendi que as bordas
desaparecem e se desviam do rumo
para onde?
Fui crescendo no território sem limites
dos meus medos e sonhos
misturados na geografia
de qual país?
Ainda não sei.

 

 

 

***

 

 

 

A minha revolução
acontece em silêncio
dentro do coração

e meu texto
busca derreter
os gritos congelados

que se forem ouvidos…

sinfonia

 

 

 

***

 

 

 

Aqui moram…
uma verdade que arruma a casa
e nunca recebe visitas
um desejo que deixo escondido
e esqueço de vigiar
umas dores de criança pequena
uns sorrisos de mulher adulta
e alguns livros que nunca li

 

Julia Sereno nasceu em 1978, no Rio de Janeiro, mas atualmente mora em Lisboa. Mestre e doutoranda em Estudos de Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Em 2022, publicou seu primeiro livro, “As Outras em Mim”. 

 

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148ª Leva - 03/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

POEMA SEM FIM

Por Sandro Ornellas

 

 

1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite (2021) é o mais recente livro de W. J. Solha, publicado pela editora paraibana Arribaçã, e é o quinto poema de uma série projetada para seis livros do poeta, romancista, cordelista, artista plástico e ator (cf. O som ao redor). Dos cinco volumes publicados até agora, conheço outros três – Trigal com corvos (2004), Marco do mundo (2012), Esse é o homem (2013) –, mas comentarei apenas esse quinto, embora o diálogo com os demais esteja claro desde o início, por exemplo, na montagem do texto através de referências históricas, culturais e artísticas que fazem da série um grande painel intertextual da história.

Não me parece, no entanto, esta a sua vontade primeira – ser um painel –, mas o resultado da sua organização discursiva (ou “poético-filosófica”, como afirma). Todos os quatro volumes que li são longos poemas costurando referências que formam uma malha dramática de personagens, eventos e reflexões representando nosso esgotamento contemporâneo. De um lado, esgotamento da possibilidade de se fazer algo de novo em arte; de outro lado, esgotamento do próprio discurso histórico, esgotamento do futuro. Em 1/6 de…, à contemporaneidade só restaria repetir a história moderna como farsa, tragédia ou, como é dito a certa altura, comédia chapliniana (p. 46). Mas, nesse texto, o motor da história parece ser mesmo a farsa, particularmente no entrecruzamento desses diálogos dramáticos com a narrativa e as interrupções líricas.

É também como farsa que o discurso começa e termina re-citando-se ab ovo – “Perfeito desde o começo, / ab ovo, / o poema não teria um primeiro versículo como o do Velho Testamento…, / mas do Novo” (p. 09). Desejando-se perfeito, no poema de Solha – na longa viagem inventariando referências, eventos, obras e nomes – tudo não passa de desastre, erro e decepção na busca de uma impossível perfeição humana. Isso é percebido principalmente como falência da ideia de progresso, que se insinua sub-repticiamente, tanto em certos instantes do seu discurso, assim como na própria discursividade do poema.

A ideia de progresso é transformada em mito falido na impossibilidade do poema fazer seu próprio discurso progredir e avançar, mesmo quando de modo não-linear. Todas as dezenas de referências históricas e estéticas parecem repetir o mesmo princípio de impossibilidade, ilusão e falha de um discurso que conduza a história para um futuro melhor, mesmo como profecia: “Tudo / …velho / …como o evangelho” (p. 42), ou “Poeta / não é / P(r)o(f)eta. // Mas em tudo / há uma meta” (p. 43), ou “Tudo… anseio puro / de adiamentos do / …futuro” (p. 54). Não há no poema futuro melhor. Nem passado. A sua narratividade não avança, mas vai e vem, perdida entre referências labirínticas de uma história exemplar em decepções e catástrofes. Diferente da burguesa forma do romance, 1/6… descrê de qualquer aprendizado possível, de qualquer retórica aquisição de consciência – o que se deduz do arco histórico e geográfico que ele abrange e do modo como costura liricamente tudo.

O texto, portanto, ratifica essa falência do discurso também pelo que possui de lirismo poético. Por exemplo, o modo como as rimas são compostas – como aparecem em versos de grande oscilação rítmica – reforça a inércia do discurso. Rimas associando palavras, ideias ou nomes que parecem girar em falso, não por mero gosto de ludismo verbal, mas de uma sequência gaguejante, de interrupção em interrupção do que poderia ser dito, refirmando a crise do progresso do discurso e da ideia de progresso. Exemplo: “travellings… em Toda a Memória do Mundo, / glória do cinema francês, / de 56, / nos… desfiladeiros – entre estantes… da Bibliotheque Nationale – com o final … em nada transcendental, / tipo A idade da Razão ou Finnegans Wake: / numa pilha de / … Mandrake” (p. 14-5). Solha espalha rimas como pequenas bombas que vão explodindo ao longo, à medida em que caminhamos por seu texto. São rimas que impedem o discurso de avançar ou recuar, mantendo-se suspenso entre repetições fonéticas e diferentes referências, como pede qualquer lirismo forte. Eles chamam muitas vezes mais a atenção para si do que para o que se diz, roubam a atenção, vão para o primeiro plano. Isto é: a discursividade se encontra interrompida por um lirismo antidiscursivo nas rimas: “e a mente, / a que nada, / jamais, / diz “Basta!” / se verá, / então, / …vasta, // … como o fundo falso das poças rasas, / com o céu, o sol e a lua, / estrelas, / nuvens, / e tudo que tem / … asas // coisas que …persistem, / mesmo que se saiba que – em sua transmissão ao vivo, quase / … subjetivo – apenas de certo modo / existem” (p. 58-9). Esta última passagem é também exemplar de outro recurso que reforça o ímpeto interruptivo: as reticências, que parecem nesse livro carecer de maior funcionalidade pelo seu uso excessivo. Embora o excesso também esteja nas referências, nas utopias, nas rupturas e nas esperanças e nas frustrações, que a certa altura impõemRemover imagem destacada um “etc etc etc” (p. 36) para se referir a Picasso, como se o excesso de informações na contemporaneidade exigisse do poema apenas o ato de dar a referência, sem precisar de maiores reflexões. Nada mais. Nada além.

O poema vai, em sua progressão narrativa, sofrendo todo o tempo com quedas líricas que põem por terra qualquer maior ordenação de sentido. O texto sempre parece retomar essa ideia de falha no progresso. Aproximando a arte moderna da bomba atômica, Solha explicita: “ou entre as… obras… de cubistas… e abstracionistas / do século seguinte, / o XX, / em que essa… premonitória desintegração… culminaria em sua obra-prima: / Hiroshima, // depois da qual / a arte / de Picasso, / perderia espaço” (p. 61). O mito do progresso estético precede o real progresso técnico e prepara a destruição potencial do fato da vida humana. Qualquer semelhança com a pandemia não é mera coincidência.

Mas se tal raciocínio sobre o progresso como mito conduziu vários contemporâneos nossos ao reacionarismo que vimos brotar na última década brasileira, ele conduziu o poeta justamente à constatação do fim dos anseios modernos, não à sua conservação ou, pior, regressão política. Qualquer projeto moderno hoje (da “democracia” à “individualidade” ou à “autonomia”) é uma gigantesca “work in progress” que nos mantém programados e engajados em metas impossíveis, mas que simulam desejos divinos na criação humana: “mas… o que seria, / então, / a soma dos objetivos, / que nos mantém / vivos / … no engajamento… programado, / compulsório, / … a um work in progress permanentemente / … provisório? // Falha das mitologias (da grega e hebraica à tupi-guarani), a de nos terem dito… coisas dignas de Dali: / que Deus teria feito o homem do barro, / como o oleiro faz o jarro / …e a vida, / em nós, / teria sido inserida – por uma das generosidades divinas – através do sopro nas …narinas, / ou a nós teria sido dado o fogo dos deuses, roubado, // […]” (p. 26-7). Aqui o poeta enuncia com todas as letras o progresso e o destino humano como mitos, a exemplo de Prometeu buscando propósitos em se estar vivo. Disso, só teria restado um discurso religioso laicizado na forma de um progresso histórico que nos legou a bomba atômica, o controle tecnológico e a catástrofe ambiental.

Paro por aqui, e sem concluir, pois que comento apenas o quinto dos “seis tratados poético-filosóficos” de W. J. Solha. Se 1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite é de 2021, falta o sexto e último livro a completar a série e apontar para algum fim. O próprio pensamento do poema não se conclui, pois o texto se fecha como começou, “ab ovo”, cobra mordendo o próprio rabo e girando em falso pela história como poesia, história cujo impasse hoje percebemos com clareza cristalina diante de nós. Pedimos apenas ao poeta que o fim da série chegue antes do fim do mundo, já que o poema não tem fim.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Rodrigo Melo

 

Foto: Gilucci Augusto

 

A NOITE QUE ENGOLE TUDO

 

Desligo os faróis antes de alcançar o alto do morro e deixo o carro deslizar suavemente, como se planasse sobre uma nuvem, até parar embaixo de uma árvore. É tarde, não há ninguém, nem mesmo os nóias. Apenas nas luzes da cidade, lá embaixo, há algum sopro de vida. Salto do carro e acendo um cigarro. Uma vez Kersey me disse que a gente nunca deve ter pena de vagabundo. Vagabundo tem mesmo que se fuder, do contrário fodem com a gente. Eu nunca discuto com Kersey. Ele está nisso há muito mais tempo que eu.

Jogo o cigarro no chão e caminho até a casa com o portão verde. Bato três vezes. Alguns segundos se passam e escuto o barulho de uma porta sendo aberta e, em seguida, passos arrastados, os chinelos ralhando sobre o cimento do passeio que leva até o portão.

– Quem é? – ele pergunta.

– Te dou uma chance pra descobrir.

Depois de três segundos, ele destrava o ferrolho e o portão fica entreaberto. Está com os olhos inchados e o rosto suado, a cara de quem não dormiu.

– Ainda não tenho a grana.

– Não tem nada?

– Alguma coisa. Não é muito.

– Eu quero.

Ele me encara. Está desconfiado.

– Espere aqui.

Encosta o portão, se vira e caminha até a entrada da casa.

Cruzo a porta e vejo uma mulher deitada no sofá, de frente para uma mesinha onde há um prato com algumas gramas de pó. É loira, magra e, quando seu olhar de vampiro pousa sobre mim, imediatamente se encolhe, espremendo-se contra o sofá, uma almofada suja servindo de escudo. Faço sinal para que continue em silêncio, mostro a arma em minha mão. Pergunto onde ele está e ela aponta para o quarto.  Sento-me em uma cadeira e espero.

Dois minutos depois, ele passa sem me notar. Está com o dinheiro na mão. Tem um 38 nas costas, preso à cintura. Ele nota a mulher espremida no sofá e, ao reparar nela, me vê.

– Pra quê o 38? – pergunto.

Seu rosto está congelado. As narinas dilatam-se por conta da respiração.

– O dinheiro tá aqui. Quase dois mil. Consigo o resto em uns dois dias.

– Não vim atrás do dinheiro. Quero minha parte da encomenda.

– Que encomenda?

– Você sabe.

– Não sei, não. Seja lá quem falou isso de encomenda, é mentira.

Fico de pé e caminho até ele. Pego o dinheiro de sua mão, coloco no bolso e então aponto a arma pra mulher no sofá. Ela grita e se protege atrás da almofada.

– Já disse, cara – ele responde -, não sei nada sobre o que tá falando. Muito menos ela!

– Tem certeza?

– Claro!

– Não está mentindo?

– Eu não minto pra você.

Deixo de apontar a arma para a mulher e a direciono para a cabeça dele. Seu rosto se contorce, os olhos piscam naquele segundo em que calcula se daria tempo de pegar o 38. Atiro no instante em que ele, com os olhos esbugalhados, faz o movimento. A mulher dá outro grito e se agarra à almofada, enquanto ele cai morto no chão.

– Fica de pé – digo pra ela.

– Não me mate, por favor!

Ela se levanta lentamente, o corpo inteiro treme. Usa uma bermuda jeans gasta e uma camiseta com a foto de uma garota, o nome Raquele escrito em cima.

– Sabe onde está?

– Sei… Na caixa d’água. Foi lá que ele subiu.

Há um limo grosso sobre a Eternit. Ando com cuidado. Tenho medo de escorregar ou de quebrar uma das telhas e cair. Seria estranho morrer assim. Tento imaginar o que escreveriam no jornal: POLICIAL CAI DO TELHADO APÓS TIROTEIO COM TRAFICANTE. Abro o saco plástico azul escondido na caixa d’água e, dentro dele, vejo dois pacotes enrolados com fita adesiva. Enfio o canivete em um deles e coloco o pó na gengiva. Em dois segundos, está dormente. Fecho o saco e volto a andar sobre a Eternit, cada passo como um salto rumo ao abismo.

A mulher teve tempo de fugir, mas continua ali, sentada no sofá, olhando para o corpo do bandido no chão. Ao seu lado, sem que consiga enxergar, Kersey se senta, cruza as pernas e olha pra mim. Eu sei o que quer. Nunca deixe testemunhas, ele me disse uma vez. Nem perca tempo com eles. Aponto a minha arma para ela.

– Você disse que não ia me matar! – a mulher grita, os olhos miúdos, cheios de lágrimas. – Eu falei o que você queria! Por favor, não me mate!!

– Quem é a menina?

Ela me encara, sem entender.

– Raquele – digo, apontando a arma para sua camiseta.

Ela suspira, estica a camiseta e olha para a imagem.

– Minha irmã. Desapareceu há dois anos. Tava brincando na rua e sumiu.

– Encontraram?

– Não. Minha mãe sonhou que ela já estava morta.

Abaixo a arma e saio da casa carregando os dois pacotes, enquanto ela me observa. Vou até o carro, sento no banco do motorista e acendo um cigarro, olhando para a cidade lá embaixo, para o pouco de vida que ainda resta.

– Uma vagabunda viciada é só uma vagabunda viciada – Kersey diz, sentado no banco do carona. – Volte e acabe com ela. É assim que a gente faz.

Olho pra ele. Paul Kersey. O mesmo bigode de sempre, o mesmo gorro sobre a cabeça, o olhar de quem já testemunhou coisas demais. Um grande homem, uma constante inspiração. Agora, no entanto, estou cansado.

– Vamos deixar essa merda pra lá, Kersey. A mãe dela já chorou demais.

Ele dá de ombros e, de um segundo para o outro, desaparece em meio à noite que engole tudo. Eu ligo o carro, acendo os faróis e começo a descer a ladeira.

 

Rodrigo Melo tem publicados dois livros de histórias curtas, “O Sangue Que Corre Nas Veias” e “Jogando Dardos Sem Mirar O Alvo”, ambos pela editora Mondrongo, e participou das coletâneas de contos “82, Uma Copa/15 Histórias” (Editora Casarão do Verbo), organizado por Mayrant Gallo, e “Outro Livro na Estante” (Editora Mondrongo), organizado por Herculano Neto. Escreveu, ainda, o livro de poesia “Enquanto O Mundo Dorme”, e o romance “Riviera”. Mora em ilhéus, no sul da Bahia.

 

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148ª Leva - 03/2022 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Drive my car. Japão. 2021.

 

 

Drive my car foi concorrente ao prêmio Oscar de melhor filme e melhor produção estrangeira em 2022, além de roteiro e direção, um feito raro para um filme japonês. Ganhou afinal o prêmio de melhor produção estrangeira. A carreira cinematográfica de Ryûsuke Hamaguchi está toda dentro do século XXI e se torna importante para compreender o trajeto da oitava arte neste novo milênio, particularmente em relação à cultura oriental japonesa. Este filme é baseado no livro de contos Homens sem mulheres, de Haruki Murakami, na costura narrativa entre o conto que dá título ao filme e dois outros contos do mesmo volume. Murakami é um importante escritor japonês, às vezes criticado na terra natal pelo seu ocidentalismo. Sua obra é reconhecida pela confluência entre várias formas e meios de expressão diferentes. O filme de Hamaguchi é fiel a essa estética: consiste numa intricada construção semiótica entre literatura, cinema, teatro e música erudita. Por outro lado, essa construção heterogênea torna possível, numa obra de 3 horas de extensão, a afluência de delicados e entrelaçados sentimentos das personagens.

O filme abre (atenção para possíveis spoilers daqui para frente) num longo prólogo de 40 minutos. Entramos (os espectadores) no meio da vida íntima e amorosa de um ator, Yusuke Kafuku (vivido por Hidetoshi Nishijima), e sua mulher Oto (Reika Kirishim). Ela, uma roteirista, que durante os atos sexuais do casal tem os seus melhores momentos de inspiração, inventando histórias (este trecho do filme remete ao conto Sherazade de Murakami). O casal constrói sua química sexual baseada nesse estratagema criativo, mas aprenderemos que eles compartilham também de um grande trauma, a perda de uma filha quando pequena; ao mesmo tempo, descobriremos que Oto costuma ter amantes, preferencialmente entre os atores que encenam suas peças. Com a morte súbita de Oto, termina o prólogo e é então que o filme começa realmente, com os créditos aparecendo na tela e a trilha de abertura. Na sequência, dois anos após a morte de Oto, Yusuke é convidado para dirigir a peça Tio Vânia, de Tchekhov, obra que ele conhece bem, em residência na cidade de Hiroshima. O ator possui uma fita de áudio com os trechos da peça narrados por sua falecida mulher, com os espaços vagos das falas do protagonista da peça, de tal modo que ele pode memorizar as falas do personagem ao preencher os tempos vazios da gravação. Yusuke gosta de fazer isso enquanto dirige, mas ao chegar em Hiroshima, por exigência de contrato, é obrigado a aceitar motorista profissional, pago pela produção do festival; motorista que vem a ser Misaki Watari (Tôko Miura), uma jovem de 23 anos, que se revela excelente condutora.

 

Drive my Car / Foto: divulgação

 

Entre os selecionados para a peça, seleção do próprio Yusuke, está Koji, jovem ator que foi um dos amantes da falecida mulher do diretor. Koji assume justamente o papel principal na peça, aquele de Tio Vânia, apesar de não ter a idade apropriada, mas devido ao seu talento. Na narrativa então se desenvolve uma relação conflituosa e ambivalente entre esses dois homens, o diretor e o ator, mediada pela lembrança de Oto. Além disso, a peça é multilíngue e há uma atriz que fala em mandarim e outra que se expressa em libras. Esse caráter multilíngue é um dos interesses tanto da peça, que vemos ser montada aos poucos no correr da narrativa cinematográfica, como do próprio filme. Isso nos faz lembrar do conceito de heteroglossia do linguista russo Mikhail Bakhtin, que significa o plurilinguismo de idiomas e a multiplicidade de vozes presentes na literatura que Bakhtin chamou de “dialógica”, sobretudo em seus estudos sobre a obra do escritor Dostoievski. Já se chamou a atenção para a proximidade entre o cinema japonês e o romance literário russo, sobretudo na obra do grande diretor Akira Kurosawa. Hamaguchi traz para o cinema a aproximação com a obra de Tchekhov, que é paradigmática dos dilemas da Modernidade, entre a frustração e a impotência do indivíduo frente aos desejos que carrega e a ordem social que precisa seguir.

A peça de Tchekhov serve como um substrato dramático para o filme. As tensões entre Yusuke e Koji, as frustrações, o sentimento de culpa e de vergonha dos personagens, a mistura entre admiração e despeito, e entre competição e cumplicidade, ou entre maturidade e juventude, todos esses elementos relacionais aparecem sob a forma de silêncios, vazios e hesitações, filtrados pela encenação do drama russo; abaixo do roteiro cinematográfico está a peça de Tchekhov que sustém os vazios da narrativa, como na fita de áudio que Yusuke ouve com a voz de sua falecida esposa. As duas obras, Tio Vânia e Drive my Car, estão assim conectadas em camadas de significação. Numa das cenas em que a companhia teatral encena a peça ao ar livre, um ato da peça aflora dando sentido à relação vivencial entre duas atrizes. É menos a incorporação de personagens do que a correlação de sentimentos aquilo que se desvela. Com isso redefinimos a própria noção de mimese estética: não é a arte que imita a vida, mas, ao contrário, a arte que permite a articulação (ou a emergência) das relações existenciais. Mas além dessas duas obras, há também a costura com os três contos de Haruki Murakami. A grande virtude da obra de Ryûsuke Hamaguchi é esta intrincada costura de tecidos estéticos, entre cinema, teatro e literatura, na qual os sentidos parecem mover-se para várias direções.

E a principal linha de fuga do filme é a personagem de Misaki, a motorista que serve a Yusuke durante a preparação do espetáculo. É ela, sobretudo, que faz com que o foco narrativo se distancie da rivalidade entre os personagens masculinos. Japonesa da região do Norte, também marcada por um trauma familiar, ela “só sabe dirigir”. E enquanto conduz o carro, na referência que dá título ao filme, ela ouve a fita com a gravação em áudio de Tio Vânia. Ela é testemunha da disputa entre os homens pela lembrança da mulher morta, através dos diálogos tensos que ocorrem durante os trajetos de carro. E finalmente ela é uma assistente da peça que está sendo montada. Assim, ela está na posição do próprio espectador do filme e atua como uma mediação entre a intriga ficcional e o contexto mais amplo e vivencial de sua recepção estética.  Quando ela e Yusuke partem em longa viagem ao norte do país para conhecer a vila onde viveu, a personagem intervém no fio narrativo principal fazendo-o desviar de rota. Há então uma imbricação entre sua história de vida, a vivência de Yusuke, o drama de Tchekhov e o destino da montagem teatral. Essa deriva do roteiro (que também implica a associação com os contos de Murakami do volume mencionado) favorece a imersão do espectador no espaço-tempo construído do filme.

 

Drive my car / Foto: divulgação

 

Tudo se conjuga num jogo entre a audiência e a participação. E, de fato, no filme de Hamaguchi, há uma dedicação ao trabalho de escuta e de observação. A importância dada aos gestos, tão presente nas relações de cortesia oriental, relativiza assim o suposto ocidentalismo tanto de Murakami quanto do diretor. Compreender o outro a partir de seus gestos ou em suas palavras se torna o elemento mais enfático dessa obra. Pode ser tanto de Yusuke em relação às histórias de sua mulher contadas durante e após o ato sexual, dos atores que observam seus parceiros atuando na peça, ou de Misaki que observa a disputa viril entre ator e diretor, ou ainda enfim dos espectadores do filme que reconstroem na imaginação todas essas peças do enredo. Esse trabalho de observação é ressaltado pela sua duração longa e na temporalidade vagarosa das cenas. E vai no sentido contrário da compressão de tempo narrativo tão frequente no cinema hegemônico contemporâneo.

Os contos de Murakami são conhecidos por essas derivas na intriga ficcional, que levam a finais inconclusos e vagos, e nesse aspecto há aqui convergência entre literatura e cinema. Drive my car é um caso exemplar de cinema complexo, no qual é mais importante a perspectiva da visada do que encontrar uma explicação para o que é visto. Não é tanto por uma questão de mistério a ser decifrado, mas por algo que, sendo complexo, exige do espectador a aceitação do que permanece inexplicável.  No título de um dos contos do escritor japonês, Kino, que também serve de mote para o filme de Ryûsuke Hamaguchi, há tanto referência ao nome do protagonista japonês da narrativa literária, quanto ao próprio cinema e ao plurilinguismo (Kino significa cinema em alemão). Por isso, não é surpresa quando a realidade da situação pandêmica contemporânea adentra a narrativa ficcional subitamente. Não se trata de uma cena que se pretenda enigmática, mas de uma saída do ficcional para o contexto mundano e histórico global. Tal fuga confirma a costura delicada da trama realizada por Hamaguchi, na qual estão conjugados cinema, literatura e teatro, ficção e realidade, imagem e áudio, personagens e espectadores.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Drika Prates

 

Foto: Gilucci Augusto

 

 

culpei-me
como se fosse meu o controle do tempo
culpei-me até por não morrer
culpei-me pelas dores do mundo
e pelas minhas próprias
desculpei-me por ser maria
e também quando não fui
como quem entende que não existe tempo, nem controle
desculpei-me da desculpa por envelhecer
desculpei-me pela vida e por amar o mundo, ainda que cheio de dores
desculpei-me, arranquei a culpa do amor-próprio
e ele próprio me desculpou

 

 

 

***

 

 

 

Sujeito é verbo

 

Não soube não ser anônima
É homônima

Homófona

Não sabe ser hegemônica
Quem é de escola antropofágica

 

 

 

***

 

 

 

note minha natureza morta
esqueci de abrir a porta
e de nós surge a revolta
impedindo aquele sim

veja a muralha que nos cerca
é o medo da poeta
ainda há viga entreaberta
concreto que esgota em mim

se já não entendo o que me importa
e desconheço minha resposta
natureza viva ou morta
com visão um pouco torta
percebo o mundo à minha volta

mas se me prende ou se me solta
se me sente ou se desloca
se me vende ou subloca
se me entende ou acha louca
se me quer ou me conhece
se me mente ou se me esquece
se projeta o meu alcance
não sou boa nesse lance…

a linguagem que me livra
de confusão desmedida
incompleta a minha obra
e o que é que de mim sobra?

a reforma que me cobra
quem sou eu para mim?

note a minha natureza torta
nossa vida em minha porta
o que não sei não me solta
o que sei sempre se esgota
quem me salva da revolta?

me interessa aquele sim.

 

 

 

***

 

 

 

sou produto do hoje (com memória)
precedida a história
sou produto do hoje (com medo)
precedido o enredo
sou processo lento (contento)
resultado do tempo
procuro o presente
-no limiar do sentimento-
precedidas posturas
procuro não procurar futuro …
ai.

 

 

 

***

 

 

 

a real tem idade
e são anos luz
sem tempos de agora
(nem depois)
nem olho que vê
nem cheiro que sente
nem tato que esbarra
um tropeço no real, para,
do chão passar
rejeição é doença que sara
ao lembrar de olhar pra frente

 

 

 

***

 

 

 

Kafka

 

eu aspirei esse ar pirado
fiquei asfixiado
e aficcionado
por qualquer tipo de enredo e qualquer tipo de estado
passei pela rua e sorri
fui filmado
passei da linha e recebi
importante papel timbrado
no documento li “fichado”
caí nas lentes, fui logrado

 

Drika Prates trabalha como ilustradora, designer gráfica e, de vez em quando, pinta murais. Seu trabalho com as imagens é retroalimentado por sua escrita, que vai das crônicas aos poemas. Vive em Portugal desde 2018, quando resolveu fazer um mestrado em História da Arte Contemporânea e participou de residências artísticas locais, como o Festival A Salto e a Bienal de Coruche. Nos últimos anos, ilustrou dois livros de poesia: “Exposta”, de Marina Vergueiro e “Aorta”, de Rani Ghazzaoui. Acredita que um dia vai ilustrar um livro próprio, integrando suas palavras e imagens. Sua escrita reflete cartografias que vão do micro ao macro, do corpo(natureza) à cidade, além de transitar por inquietações feministas.

 

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148ª Leva - 03/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O livro azul de Wesley Peres – Apontamentos sobre O corpo de uma voz despedaçada

Por Wilton Cardoso

 

 

O livro azul

 

O corpo de uma voz despedaçada, de Wesley Peres, trata-se de um pequeno e impressionante livro sobre o trágico acidente do Césio 137 em Goiânia, ocorrido em 1987. É impresso em letras azuis (como o pó radioativo) numa ótima edição da editora Martelo, que vem se notabilizando pela qualidade gráfica e poética de seu catálogo de poesia. As letras-partículas azuis remetem à irradiação da palavra e da memória, ressoando o acidente que, ao que parece, a cidade quer enterrar (recalcar) no esquecimento, como enterrados estão os seus mortos e os detritos radioativos. A tarefa do poeta é recuperar, com sua máquina tormentosa de palavras, essa incômoda memória, em luta com os mecanismos de recalque da cidade:

 

[…] É preciso dar corpo à voz eviscerada em pedaços, o corpo recalcado pelos sólidos mecanismos da cidade goiânia. […] É preciso construir a máquina palavra girândola repetitiva não de estrelas, mas de  tormentas. […] (p. 43)

 

O corpo da voz: título

 

Wesley Peres é um poeta rigoroso e experimental, que costuma torcer e distorcer a linguagem até os seus limites sonoros, sintáticos e semânticos. O título do livro não foge à regra e já apresenta ao leitor uma paradoxal construção metafórica, ao atribuir à voz, signo da palavra, da linguagem e do simbolismo, a materialidade do corpo.

O que se quer, afinal? Explorar e dar corporeidade à voz despedaçada (ao sofrimento silente, inarticulado) das vítimas? Dar corpo no sentido de recordar e expor a tragédia social e individual ou no sentido mais ambicioso de re-presentificar o vivido com a poesia?

Poesia que, costuma-se dizer, é o lugar onde a linguagem deixa de ser apenas céu significativo e se torna também terra significante, concreta e material: locus em que as alturas do sentido entram em simbiose com a matéria sonora e (no caso do livro) visual da palavra falada e escrita.

Parece-me que o poeta opta pelo caminho mais ousado de (pelo menos tentar) corporificar de fato a voz, re-vivendo a tragédia com o experimento material e simbólico do poema, mesmo sabendo que acabará num beco sem saída.

 

O corpo da voz: do livro e para além do livro

 

Este dilema entre corpo e alma, ou corpo e psique (já que o poeta é também psicanalista), que se desdobra no dilema entre vida e linguagem, não é uma questão apenas deste livro, mas perpassa toda a obra de Wesley Peres. Trata-se, portanto, de uma obsessão do poeta.

Assim, a rememoração ou re-incorporação do acidente radioativo se torna também uma oportunidade para o autor exercitar suas obsessões acerca da tensa relação entre matéria e espírito, corpo e mente, vida e palavra, existência e sentido, plenitude e vazio. Obsessão que é também a do Ocidente desde que este se define como tal, ou seja, desde a Grécia pré-socrática.

Wesley Peres é, portanto, o que se poderia chamar de poeta existencial ou filosófico, sempre pensando enquanto canta, fazendo a re-flexão no mesmo ato da flexão poética da linguagem. Outra tensão em sua obra: pensar e cantar, significar sobre a linha sonora e imagética do jogo poético. Um poeta cerebral e construtor, sem dúvida, mas que deixa transbordar um lirismo que pulsa sob o árduo trabalho de linguagem de seus poemas. O que implica numa terceira uma tensão atravessa sua obra, entre lirismo e construção.

Pode-se, então, dizer que Wesley Peres transita entre as ‘tradições adversárias’ do lirismo de Bandeira e do engenho de Cabral, mas numa linguagem que recupera uma terceira tradição, onírica e a-lógica, que é a do simbolismo e surrealismo mais experimentais e construtivos, como em Manoel de Barros. Este último, aliás, seria a ‘filiação poética’ (na falta de expressão melhor) mais próxima e visível de Peres, como pode se perceber em suas desconstruções sintáticas e semânticas da linguagem.

Manoel de Barros promove uma desconstrução da linguagem que remete a uma crítica também desconstrutiva do mundo moderno. Sua poesia é atravessada pelo desejo de uma regressão primitiva não reacionária e não autoritária à infância, à tradição popular, ao mundo animal, vegetal e até mineral; e é uma celebração desse ‘mundo puro’ dos primórdios. Puro não no sentido ascético do termo, mas concebido como um caos primordial intocado pela ordem, desmedido e sem hierarquias, prenhe de novas possibilidades de mundo. No fim das contas, a poesia do mato-grossense, sob a superfície de um regionalismo e um naturismo ingênuos e lúdicos, é uma crítica aguda à modernidade e, em consequência, ao capitalismo.

 

Palimpsesto e origami: tensão entre o sem sentido e o desejo de sentido

 

A desconstrução poética de Wesley Peres, ao contrário da de Manoel de Barros, não resgata nem celebra os primórdios e o caos como uma nova possibilidade de mundo, mas costuma se deparar com o vazio de sentido e a ausência de saídas para a ‘alma humana’ e o ‘espírito do mundo’. Exemplos desse ceticismo em relação à transcendência e até à magia são a presença de duas imagens recorrentes neste livro, e em outras obras suas, que são o palimpsesto e o origami. O primeiro remete à impossibilidade da origem e do fundamento, enquanto as complexas dobraduras do segundo nos diz que o conteúdo e o sentido não passam de puras formas, dobras e redobras de uma matéria/substância indiferente e inerte.

Palimpsesto e origami remetem, portanto, a uma poética agnóstica e desencantada, descrente das possibilidades utópicas de uma regressão aos caos primordial ou mesmo de uma ultrapassagem emancipatória das sufocantes coerções da sociedade (pós)moderna. Este agnosticismo de fundo às vezes emerge límpido no livro:

 

(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou a clareza de seus olhos implodidos densos de um imenso sol soletrado pelo calmo ninguém que habita o homem só com o seu corpo). (p. 21)

 

A poesia de Wesley Peres é, portanto, anti-mágica e anti-lírica. Mas ao mesmo tempo, as pessoas amam, sofrem, desejam, vivem, morrem e formam a teia desejante e coletiva da sociedade ou, no caso do livro em questão, da cidade de Goiânia. E a poesia cética de Wesley Peres se inquieta (se espanta, se comove?) com as paixões humanas e seu desejo de sentido.  O poeta procura, então, expressá-las contra o pano de fundo da perspectiva agnóstica, que não vê na realidade social e biopsíquica do mundo humano nenhum fundamento ou possibilidade de transcendência. É nessa tentativa de exprimir esse desejo de sentido, tão constituinte do humano quanto o seu não sentido, que o autor deixa transbordar um lirismo que o agnosticismo construtor de sua poesia aparentemente não possibilitaria.

Esse transbordamento lírico, embora intenso e carregado de afetos, não descamba para a pieguice ou o confessionalismo, nem mesmo quando o eu lírico se expressa. Talvez porque o fundo agnóstico e o rigor experimental, que constituem o pano de fundo poético do qual o lirismo transborda, tornem impossíveis qualquer espécie de derramamento sentimental. Emergindo do pano de fundo agnóstico, o lirismo perpassa todo o livro (e toda a obra que conheço do autor) e é nítido, por exemplo, no poema em prosa “1987”, um dos pontos altos do livro. Em meio a várias referências intertextuais, como à Lautréamont e Deleuze & Guattari, emerge, de forma comovente, a dor e o sofrimento das vítimas de acidente radioativo:

 

[…] Lautre, era setembro, Lautre, era o sol e era menos de duas décadas para o fim do século. era no Novo Mundo, Lautre, e o mal e o horror amoral e sem nome eviscerou a menina, era o seu cão do terceiro canto, Lautre, sob ordens maldoronianas, o cãoazul m u l t i p l i f l o r a n d o inchando as células multiplicando-as rizomaticamente em era de politicoeconomia e esquizofrenia entrelaçadas. […] (p. 36-37)

 

No trecho acima, a indiferença e o sem sentido do mundo físico e biológico, representados pelo césio em ação no corpo humano, se chocam com o sofrimento físico e psíquico das vítimas – e dos que se compadecem por elas. Contradição expressa em belas e terrificantes metáforas como “cãoazul” e “o mal e o horror amoral e sem nome”. Do fundo agnóstico e indiferente da física e da biologia que constituem o mundo e o homem, emerge o sofrimento e a dor, assim como o desejo de dar sentido a estes afetos e os compartilhar pela comoção. Os poemas do livro encontram-se, portanto, num campo de tensão que oscila entre a percepção do sem sentido da vida e o desejo de sentido, que constituem de forma contraditória o ser humano da modernidade.

O palimpsesto e o origami são metáforas agnósticas do sem sentido do mundo, como já foi dito anteriormente, mas não apenas isso, pois remetem também ao seu oposto, ou seja, ao desejo de sentido. Palimpsesto e origami são, portanto, metáforas da tensão, tão cara ao poeta, entre ausência de sentido e desejo/construção de sentido. Tensão que atravessa a vida humana, suas memórias e a própria escrita poética, que também quer significar o vivido:

 

No palimpsesto da memória fiz dobras em vértice
e horizonte.
e também: ideogramo origamis para
a linguagem que se fala nas ruas sem nome
(p. 62)

 

As sucessivas escritas sobre o pano de fundo insondável do palimpsesto e as intrincadas dobraduras da matéria inerte do origami são (desejos de) construções de sentido que o ser humano empreende, muitas vezes de forma inconsciente, a partir e contra o sem sentido do mundo e da vida. E no trecho acima o poeta nos alerta que sua escrita poética devém como palimpsesto e origami para resgatar e ressignificar a memória. Ora, como nos ensina a psicanálise e a história, a rememoração afetiva e consciente do trauma passado é o fundamento da reconstrução do sentido da vida presente, de uma forma mais sã e humana. Processo de ‘cura’ e humanização que se aplica tanto ao indivíduo quanto à coletividade.

 

Um poema palimpsesto para lembrar de Leide

 

palimpsesto nº 1 para piano e pássaro morto

Era uma vez uma menina. Era uma vez ela e um quarto. Num quarto hospital ela rodeada de bonecas. E o invisível azul mastigava ela por dentro e por fora. Estava cercada de flores, e depois cercada de chumbo e pedras. Era uma vez uma menina que irradiaria por séculos o seco silencioso som do sono. (p. 29)

 

O “era uma vez” do conto de fadas se refere a fatos fantasiosos mas que, em geral, possui um fundo de realidade social, como a fome, os dilemas morais, a sexualidade etc. Ao tentar desvendar o real na origem dos contos, o exegeta se depara com essa realidade difusa que as fábulas significam e ressignificam sem cessar, como num palimpsesto de camadas sucessivas de sentido.

Mas o acontecimento do poema acima, a morte de Leide das Neves, não é fantasioso nem indeterminado socialmente, e mesmo assim o autor se refere a ele com um “era uma vez”. Talvez esse recurso à retórica da fábula denuncie um esforço da sociedade em esquecer (indeterminar) o acidente radioativo e suas vítimas, ou talvez porque mesmo o mais documentado dos fatos, quando rememorado, acaba por se turvar e se misturar à imaginação. Rememorar, portanto, não deixa de ser um ato de ressignificação, sempre, ainda mais quando se trata de uma memória traumática que se quer esquecer.

Então, o poema rememorativo é uma camada significante a mais e em meio ao palimpsesto de sentidos que todo ato lembrado (e esquecido) é. O “era uma vez” do poeta nos alerta que lembrar, mesmo que seja o fato real da morte de Leide, é fabular, ressignificar, construir sentido, um sentido a mais que se acrescenta à multiplicidade irredutível do palimpsesto do que se é narrado/rememorado. E alerta ainda que há uma enorme liberdade em fabular, mesmo sobre, fatos reais. Pode-se escolher esquecer, aludir, refratar, relatar os fatos objetivamente etc. Ou se pode optar por uma lembrança afetiva que reavive o acontecido para que ele nos afete novamente. É este tipo de lembrança que este poema (e todo o livro) procura re-construir, tornando o leitor um contemporâneo e um vizinho da tragédia, como se fôssemos testemunhas do sofrimento de conhecidos nossos.

Assim, o sentido a mais que se fabula, que constrói a partir do “era uma vez” é o da comoção e (porque não?) da compaixão por Leide, acometida do mal amoral, invisível e cego. O poema rememora os dias finais da menina, enclausurada num ‘quarto hospital’, rodeada de bonecas e cercada de flores e doença (“o invisível azul mastigava ela por dentro e por fora”), e depois cercada de chumbo e pedra. A partir do contato com o césio, a vida de Leide se torna uma sucessão de dor e clausura, até o cerco final da morte, que a encerra num caixão de chumbo dentro de um túmulo de concreto. O procedimento anafórico de repetição de sentidos (num quarto, rodeada, cercada) conduz a fábula, de tom aparentemente singelo, num crescendo espiral de horror até o desfecho trágico.

Ao final do poema, há outros dois tipos de repetições, desta vez sonoras, que são a aliteração em ‘s’ e a assonância em ‘o’: “Era uma vez uma menina que irradiaria por séculos o seco silencioso som do sono” [grifo meu]. Um arremate que faz ressoar na matéria-forma sonora do poema a radioatividade do corpo contaminado de Leide e a própria morte. Mal radioativo que persiste mesmo depois da morte: “irradiaria por séculos”. E esse mesmo ressoar sonoro forma, em termos semânticos, uma bela, e trágica, metáfora para a morte: “seco silencioso som do sono”. Não é apenas a radiação, mas também a morte da menina que ressoa (irradia) de forma comovente na sonoridade final do poema.

As repetições do poema (anáfora, aliteração, assonância), bem como o ritmo e a metáfora são procedimentos que dão ao texto o seu aspecto poético, (re)dobrando a linguagem no canto silencioso do poema. Mas a repetição é também um recurso mnemônico, um artifício para o leitor, e o poeta, relembrar o poema, o que ele diz e como o diz. No caso de um poema rememorativo como o “palimpsesto nº 1” – e, na verdade, todo o livro – lembrar do texto é relembrar da vida e da morte de Leide, é explorar suas dobras recalcadas (de origami?), expô-las e ressignificá-las, acrescentando sentidos e afetos a mais no palimpsesto da memória coletiva dos fatos.

O poema (todo o livro) é uma exploração, exposição e ressignificação da memória para resgatar, compreender, se indignar e se comover com o sofrimento da menina, vítima de um mal impessoal e indiferente ao sofrimento: o Césio 137, mas também o Estado e boa parte da sociedade. Essa comoção da rememoração, que nos leva ao compadecimento (padecer junto) para com as vítimas, nos lembra que ainda somos humanos carregados de afetos, lembrança que já nos humaniza em meio à fria impessoalidade do mundo moderno e seus “sólidos mecanismos da cidade goiânia” (p. 43), que quer moldar a existência humana apenas com a razão instrumental dos seres úteis e funcionais.

 

Um livro necessário

 

Nem Goiânia nem o país querem relembrar o acidente radioativo de 1987, mas é necessário remexer essa ferida mal curada da sociedade, que trouxe dor e morte a pessoas simples e sem voz. O livro é uma tentativa de falar, não por, mas junto com essas pessoas e a partir de seu sofrimento que, afinal, é o sofrimento humano diante da doença e da morte, agravado por uma sociedade cuja mecânica fria e utilitária (“as engrenagens da cidade”, p. 24) esquece os desimportantes desde o nascimento e tenta esquecê-los ainda mais quando se tornam um problema para seu funcionamento e sua autoimagem.

Wesley Peres empresta sua voz poética, sua perícia experimental e seus dilemas existenciais e filosóficos para seus concidadãos anônimos que pereceram diante do mal invisível e amoral da radiação. Se a vida humana, em essência, não tem sentido nem fundamento, esse generoso ato de rememorar, se comover e se compadecer pelo outro, e também de se indignar com a indiferença de boa parte da sociedade diante do sofrimento alheio, ato literário-afetivo que é do poeta mas também do leitor, talvez este ato construa para a vida um significado, não metafísico, mas mundano, que faça o ser humano ter sentido não como ser em si transcendental, mas como ser social, fundado no chão histórico do mundo.

Assim, a comoção do autor e do leitor com as vítimas faz com que suas vidas não tenham sido em vão e sem sentido, assim como as nossas. Enquanto guardarmos vivamente na memória a tragédia e os que a sofreram, estaremos salvos, nós e elas, não para o Reino de Deus, mas para a humanidade ‘demasiadamente humana’ do humano, com suas alegrias e sofrimentos, sua fragilidade, finitude, contradições e imperfeições. Salvos como humanos, como seres sociais contra a indiferença da natureza e da sociedade (pós)moderna que nos objetifica e instrumentaliza e, em consequência, nos des-socializa e desumaniza.

 

Wilton Cardoso (Morrinhos/GO,1971). Graduado em Jornalismo (UFG) e doutor em Estudos Literários (UFG). Poeta e ensaísta, publica seus textos em seu blog pessoal. É funcionário público e mora em Goiânia.