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150ª Leva - 05/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Marcelo Frazão

 

A arte de fotografar não se resume a clicar e registrar um momento de uma pessoa ou objeto. Todo e qualquer registro artístico envolve, além do olhar, percepção e sensibilidade. A técnica é importante, mas deve passar despercebida como em qualquer outra arte. Fotografar é uma arte solitária.

Profundo conhecedor do ofício, Edgard é doutor em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ, mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA, onde leciona na Graduação e Pós-Graduação e desenvolve pesquisas sobre a imagem. Participou de eventos culturais e expositivos no Brasil, Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Estados Unidos e Portugal, bem como de uma residência artística na Escola Superior de Artes Visuais da Ilha da Reunião (FR) em 2008. Entre 1994 e 2004, trabalhou como instrutor/professor de pintura na Oficina de Artes Visuais do Museu de Arte Moderna da Bahia.

Edgard Oliva é um fotógrafo que incorpora o aparelho fotográfico ao próprio corpo para revelar o oculto. A técnica não é percebida até o observador se dar conta que está envolvido e preso na fruição da imagem. Este é o mistério: saber definir toda uma paisagem que aprisiona num único click. É como olhar um pensamento. E isto é mágico. Fotografar não é apenas clicar. É inspiração. É a arte e a paixão de quem congela o tempo, deixando muito de si no registro da imagem.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – Qual seu primeiro contato com a fotografia?

EDGARD OLIVA – Desde a minha infância, adolescência. Meu pais gostavam e minha mãe era a fotógrafa da família desde quando meu avô a presenteou com uma câmera fotográfica nos anos 1940, por aí. Nos anos 1970, ela teve uma Kodak Instamatic e foi com esta câmera que eu iniciei os primeiros cliques na adolescência, entrando pela vida universitária, no final do anos 1970.

 

DA – Nos tempos de hoje, a fotografia ainda é possível como profissão?

EDGARD OLIVA – Sim. A fotografia digital proporcionou que muitos “novos” fotógrafos, e fotógrafas, tivessem a oportunidade de realizar com mais rapidez o aprendizado da fotografia. O autoaprendizado através dos tutoriais facilitou muito o interesse pela profissão de fotógrafo/a, além dos cursos particulares possíveis de serem realizados, pois o custo do material deixou de existir. Contudo, os equipamentos ficaram mais caros, mas o fator custo benefício compensa.

 

DA – Fotografia: analógica ou digital?

EDGARD OLIVA – Analógica para os apaixonados pela química, a fotografia arte, a imagem manual e mais racional, pensada e que não podemos “deletar”.

A digital para os apaixonados pela imagem, a imagem instantânea, a imagem eletrônica, mas que não perde seu valor estético conquanto imagem e arte, naturalmente. Contudo, penso que, tanto na categoria arte quanto no documentário e no jornalismo, todas as categorias se beneficiam muito bem da tecnologia atual.

 

DA – Qual o seu maior prazer em relação à fotografia?

EDGARD OLIVA – Alcançar na captura da imagem o que meu olhar consegue perceber e capturar a partir da luz não premeditada, pré-definida, mas a luz que se apresenta para o fotógrafo. São as melhores imagens, pois elas nos dão sensações diferentes, são emoções pós objeto iluminado e capturado pelo olhar mecânico/eletrônico do equipamento.

 

DA – Possui alguma mania quando fotografa?

EDGARD OLIVA –  Não, somente estar só e “escutar” o que a luz me ensina. A qualidade da luz/imagem é o mais importante.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – O que é imprescindível para se obter uma boa fotografia?

EDGARD OLIVA –  O imprescindível: sensações e emoções. Previsão do resultado, dominar a luz a partir do uso correto do equipamento.

 

DA – Como você avalia a leitura da imagem fotográfica hoje?

EDGARD OLIVA – Se você tem um grupo de aprendizes de fotografia é importante iniciar pela leitura de textos para que o texto te traga à imagem. A imagem, para nós humanos, não existe sem o texto porque, ela própria, a imagem, já é um texto. Se a lemos visualmente é porque ela nos proporcionou interpretá-la. Sendo assim, é importante compreender a imagem para que possamos lê-la corretamente. Ela, a imagem, é o que foi em um passado recente ou outrora existente como sujeito registrado como fotografia.

 

DA – Em relação ao ensino da fotografia, quais os principais desafios a se enfrentar?

EDGARD OLIVA – Educar o olhar, avaliar qual o equipamento a ser utilizado, entender por que eu quero me aproximar dessa tecnologia tão desejada pelo homem no passado, e somente lembrando que a imagem fixada em um suporte a partir da luz foi pensada por Aristóteles em 350 a. C. Por aí, vejamos, relatando esse início da produção imagética aos alunos ou a aprendizes individuais, o desejo em desfrutar desse poderoso invento aumenta. Nesse sentido, colocar o aluno no laboratório de fotografia e ele perceber, aprender como foi o início de todo o processo, a aluna ou aluno logo quer saber mais sobre o continuum da formação da imagem. Entretanto, seguir adiante na carreira, fica à luz de cada uma/um. Assim, o desafio está como fazer a pessoa se apaixonar e desejar mais.

 

DA – Qual deveria ser o foco de um fotógrafo iniciante para aprimorar seu trabalho?

EDGARD OLIVA – O próprio ser humano. As expressões, os ambientes que os representam, as identidades pessoais, a busca por uma luz própria. A luz é a assinatura de cada fotógrafo.

 

DA – Como você vê a produção acadêmica? Ela difere da fotografia do dia a dia?

EDGARD OLIVA – A fotografia acadêmica se fecha dentro de um reduto acadêmico e científico, teórico ou teórico-prático. É preciso ter muito cuidado para não perder o lado pessoal de identidade própria conquanto fotógrafo artista ou documental. A fotografia acadêmica é muito importante do ponto de vista da compreensão e interpretação das imagens. Por isso eu fui por este caminho, a universidade, como pesquisador e professor. Não bastava fotografar, mas entender melhor meu objeto a partir do meu olhar.

A fotografia autoral e independente da estrutura acadêmica proporciona uma outra experiência, a experiência do livre árbitro, de um poder de decisão imenso e importante para a carreira do fotógrafo. O processo dá-se como o voo da águia: é solitário, mas com o olhar preciso.

 

Edgard Oliva / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A imagem tornou-se banal com o advento dos celulares ou essa tecnologia foi um ganho?

EDGARD OLIVA – Ela banalizou. Contudo, ocorre hoje o que ocorreu quando, em 1888, o George Eastman criou a primeira câmera fotográfica em pequeno formato e, com isso, ele permitiu popularizar a fotografia ainda no século XIX. Incrível, mas ele fez isso numa época em que somente quem poderia pagar para um fotógrafo a reprodução de uma cena de família teria chances de ter uma imagem da nova tecnologia à época: a imagem mecânica, não mais a pintura como documento, a luz e a química se complementando através do sistema negativo positivo, elementos os quais ressignificavam os processos de obtenção da “nova imagem”. No presente, os equipamentos eletrônicos dominam nosso cotidiano. A câmera fotográfica digital miniatura, que não existe mais, substituída pelos aparelhos de telefone celulares. Com esse advento, a imagem sim, banalizou, mas a arte e o documental ganharam. A fidelidade ou a abstração da imagem adquiriram valor de Fine Art, valor monetário e cultural no sentido de possibilitar maior acessibilidade em todos os aspectos.

 

DA – Qual o maior inimigo da fotografia enquanto arte?

EDGARD OLIVA – Como eu disse anteriormente, a fotografia deve ser vista como imagem do cotidiano, aquela em que se registra o dia a dia da/do cidadã/cidadão (Facebook, Instagram e Twitter, etc.), a imagem para a imprensa ou a imagem dedicada à arte. São três níveis de imagens os quais devemos observá-las com cuidado. Elas nos revelam estratos do olhar e do modus operandi do sujeito que a produz. Não podemos nos dissociar mais desses três níveis de produção imagética. Nesse sentido, é preciso estar de olhos abertos para a fotografia arte porque ela nos coloca em outro patamar, nos tira de uma visualidade simples para uma visualidade interna, para uma reflexão da nossa própria existência e como percebemos a presença do outro no nosso contexto social.

 

DA – Existe uma fotografia baiana?

EDGARD OLIVA – Existe sim, e ela está impregnada em cada um que aqui na Bahia fotografa. Eu diria que mesmo para quem não é baiana/baiano, chegando na Bahia e tomando a nossa paisagem visível, em todos os sentidos, e realizando imagens para o documental ou para o viés artístico, é uma fotografia baiana, pois ela está impregnada de elementos nativos da Bahia. Então, eu acho que a fotografia ganha identidades a partir do local onde elas são capturadas, e não porque tal e tal fotógrafo ou fotógrafa utilizou do equipamento para isso. Há nomes em nosso estado sim, são genuinamente baianos que preservam a identidade cultural da Bahia, uma Bahia de múltiplas facetas, e isso nos garante uma particularidade.

 

DA – Qual considera o seu trabalho (ou trabalhos) mais icônico?

EDGARD OLIVA – Todos os trabalhos que eu pude realizar até o presente considero icônicos. Contudo, os registros sobre a estética dos presépios na Chapada Diamantina foram os registros mais importantes para minha carreira conquanto fotógrafo artista. Da orientação do olhar para a leitura a partir da semiótica da imagem e compreendê-la não somente como fotografia, mas como objeto de estudo para entender o homem e as história pessoais a partir do contexto de oralidade regional, foi muito importante. Os demais projetos que realizei, e que ainda realizo, estão dentro de uma perspectiva da subjetividade da imagem, a imagem conquanto paisagem interna, as paisagens que nos fazem sofrer ou repensar nosso passado e presente. São paisagens interiores transferidas de modo subjetivo para o olhar do espectador. Daí, necessitamos expô-las e abrir diálogos com o espectador para satisfazê-lo, compreender a partir de um olhar “estrangeiro”. É o olhar de fora para dentro, contrário à percepção do artista fotógrafo que olha de si para o exterior.

 

Presépio de Maria da Natividade Souza, Iramaia-BA, Brasil, 2002 / Foto: Edgard Oliva

 

DA – Existe algum tema que jamais abordaria no seu trabalho?

EDGARD OLIVA – Não, nenhum desde que seja possível realizá-lo e mostrar. Cada ideia pode se transformar em um projeto importante, mas nem todo projeto poderá se tornar importante.

 

DA – Um livro imprescindível para o fotógrafo.

EDGARD OLIVA – Bem, existem vários. Desde os de conteúdo técnico/tecnológico até os livros autorais que tratam da imagem fenomenológica, da fotografia conquanto documento, da fotografia arte, enfim, se você quer saber qual me orientaria melhor no aprendizado sobre como obter uma boa imagem, eu indicaria “A câmera” de Ansel Adams, assim como “O filme” e “O negativo” do mesmo autor, um renomado fotógrafo norte-americano que investiu muito na qualidade da imagem, a imagem em preto e branco e com todas as gamas de cinzas indo do preto total ao branco total, ou seja, luz e não luz. Mas, se você me pergunta sobre a imagem tecnológica e numa linha filosófica, eu indico o título “Filosofia da Caixa Preta” de Vilém Flusser. Mas, se se trata da imagem conceito, da imagem reflexiva, podemos ter autores como Gaston Bachelard, Henrri Bergson, Jacques Rancière, George Didi-Huberman, Boris Kossoy com uma abordagem fundamentada na história da fotografia e sua temporalidade, e o próprio Sebastião Salgado com o título “Da minha terra à terra”, entre outros, pois nos beneficiam com novas reflexões a partir das imagens, pontuando o que somos neste bioma terrestre.

 

DA – Qual o fotógrafo ou artista, vivo ou morto, gostaria de convidar para um bate-papo ou um café?

EDGARD OLIVA – Pensando bem, o Hiroshi Sugimoto. Na minha opinião, ele consegue nos mostrar o que não conseguimos perceber com nossa sensibilidade tão conturbada e modificada pela modernidade. São olhares sobre o contínuo do processo da existência, e sobre nós mesmos, para com o outro e a natureza das coisas presentes. A partir desse princípio, eu tomaria um café ou um chá com ele, mesmo sem falar nada da língua japonesa.

 

Marcelo Frazão é artista plástico, poeta e editor. Publicou Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2015). Ganhou o Premio APCA em parceria com Olga Savary. Atualmente trabalha como editor da Villa Olívia e ilustra para o Jornal Rascunho.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Marília Rossi

 

Foto: Yuri Bittar

 

 

hemisférios paralelos
de linhas próximas

mas vai tão longe o corpo que sai
e cruza o mar
e costura as cicatrizes de séculos
e faz-se cor em meio ao ardor de ser tanto quanto diferente da norma
culta
da língua
que dança no céu da boca

renascer no rio que levou à invasão
da terra da origem do atlântico

da expansão do corte, a água que passa
que liga margens de descobertas outras

estico passos, morro e nasço ocupando espaços
com meu um metro e meio de gente
que ama

se me faço rio
se faleço e recrio foz
na voz de mar carrego corpo-barco
barco-coragem
coragem-amor

e não ancoro corações:
alma à deriva
flutua

é preciso leveza pra luta

 

 

 

***

 

 

 

já sangrei meus mil quilômetros
de mar poeira e poesia
já rodei pelas artérias veias e trilhos
correndo dentro afora
noite o dormente de ferro e pedra
sem luz na cidade
guiada a longo espírito
do mistério da estrada

agora trajeto nenhum me fecha
porteira alguma interrompe
coração aos saltos

voa menina
nos seus sem vírgulas
sem parada e relógio
sem ponteiro ou seta

já escorri minhas mil milhas
suando os olhos
já ardi a pele no sol a pino
já parei excessos à sombra
já perdi demais o ar
já doí demais o timo as pernas a cabeça

e porque há muito a viver
ainda mal cheguei
na metade do caminho

 

 

 

***

 

 

 

tá pra nascer um poema
que me tire a casca
que me mostre a casa
que me arranque a crosta

e nascer o grito da raiz das coisas

carne viva sangrando a seiva
sustento fincado na terra
(até quando ainda?)

tá pra nascer um poema
que cante e dance o entalo na garganta
que floreie a segunda (ainda que chova)
que permute o ar (mesmo que quente)
que me descanse a voz (depois de rouca)

folha verde seca caída
compostagem pra alimentar o que resiste

tá pra nascer um poema
curto denso espesso
e livre

tá pra nascer um poema
de mãos dadas
de olho em frente
de leveza

que me tire daqui

feito galho desprendido
feito carta enviada
feito cordão cortado
feito dente de leão assoprado
feito eu
longe

com minha semente
dentro

bomba explodida
no íntimo de tudo.
 

 

***

 

 

 

minha poética cíclica
de umbigo chão e ar
desmorona mas recria
o coração que pula
a rede que balança
e não caio mais – só tropeço
nesses pedaços
partes de súbitas margens e cantos de folha
……..e opa
era mais palavra vindo que arquivei na pasta “não-abra-agora”
extensão “risco-de-explodir-ponto-rar”
porque a gente nem sempre sabe
o que se cria
o que se nasce
o que se brota
o que se penteia das letras todas
e o que se pesca
em rio de sumidouro
mar bravo
açude fundo
essa coisa toda cheia de água, dor e vácuo

mergulho mas nunca sei
(sempre me devolvo em vinte-e-sete-algumas-coisas
que num dá tempo de separar antes do próximo deslize)

pereço de verdade e findo (de mentirinha)
mas dentro da cabeça e do peito continua rodando
sabe-se-lá-onde é o eixo
escondo as beiradas
nem reparo as rebarbas
tem um monte disso aqui – inda agora –
mas deixo lá

um dia acesso
e me perco
e num volto mais

labiríntica fuga
entre osso seiva músculo veia da palavra
corto recorto colo sangro estanco

sem anestesia

 

 

 

***

 

 

 

o que fica dos rasgos
ao invés de perseguir-se em círculos
caminhar os ciclos
desaprender as horas do dia

ensinar-se os reinícios

 

 

 

***

 

 

 

a força dos dias ergue-se dentro
sob qualquer causa contrária
amplia-se a extensão dos alcances

o que é bravio
abre-se na potência primitiva das coisas

travessia interna exposta
desde a raiz
mira profundo em vista bordada de infinito

rompe muros
extrapola janelas
vem de semente que brota em terra batida

eu moro aqui
e não saio mais de mim

 

 

 

***

 

 

 

eu não caibo
não caibo
se eu coubesse, seria maior
se eu coubesse, faltaria espaço
se eu coubesse, sobraria eu
mas não cabe
o dia
o lugar
o entre
mas não coube
no sofá da sala
na cadeira do escritório
na sala de estar
nesse negócio de ser

uma
nesse caber
que não é de tamanho
nesse caber
que não é de ficar
nesse espaço
de ir
não cabe.
não coube.
não acabo.

 

Marília Rossi nasceu na primavera de 1988 em Poços de Caldas-MG, Brasil. Aprendeu a ler cedo e desde pequena escreve, desenha, recorta, cola, enfeita e brinca com as palavras. É autora de uma coleção de postais poéticos autorais (2015); das zines “partida” (2016); “o que você leva na sua mala” (2017); “corte e sutura” (2018); “quase30” (2019); “tecendo vazios” (2020/2021) e do  e-book “galeio” (2022). Finalista do VII Festival de Poesia de Lisboa (2022), teve seu poema publicado na antologia “Corpos de amor e luta” (Helvetia Edições). Atualmente vive em Lisboa, Portugal.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Olhares

Olhares

A poética do despercebido

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Yuri Bittar

 

Estar presente é uma condição que permanece emblemática para todos nós. Tal percepção vem da ideia de que o momento mais importante da vida seria o agora, esse instante sobre o qual estamos de fato materializando as vivências. E estar atento a isso parece redimensionar toda uma carga de coisas marcada pela dispersão contemporânea de nossos tempos. Quando estamos conectados ao presente, passamos a prestar atenção em muitos fenômenos que acontecem ao nosso redor, escutamos pessoas e tendemos, inclusive, a assimilar aquilo que se abriga no campo do despercebido.

Sem dúvida alguma, a fotografia é um dos ramos da arte que conseguem nos apresentar traços valiosos sobre aquilo que se esconde por trás da rotina dos dias. E captar o imperceptível é um dos desafios da atualidade. Ao percorrermos registros de alguém como o fotógrafo Yuri Bittar, sentimos que a concepção da imagem põe em evidência a apreensão dos detalhes da vida. Como quem congela o instante, Yuri revela uma habilidade em nos apresentar a poesia que se esconde nos recônditos do cotidiano.

Conceber a imagem de tal forma é também defender uma atitude meditativa diante de todas os seres, lugares e objetos retratados. Adepto da Fotografia Contemplativa, Yuri se mostra um artista cuidadoso em não lançar filtros sobre tudo o que capta, posto que a sua presença diante daquilo que pretende registrar é aquela que silencia para que o mundo siga seu fluxo natural. Ao mesmo tempo, essa forma de trabalhar a imagem só é possível de se concretizar quando o fotógrafo está completamente entregue ao presente.

Podemos nos surpreender se acharmos que nosso dia a dia é confundido com um turbilhão de coisas repetidas. E é justamente a arte de gente como Yuri Bittar que nos mostra o quanto estamos enganados se supormos que nada merece ser tido como especial em nosso olhar. Subvertendo a velha noção de que não há nada de novo sob o sol, o fotógrafo nos mostra que, por entre os territórios apressados nos quais habitamos, há uma outra dimensão da existência pedindo passagem. É aquela porção através da qual a poesia se revela em face da manifestação dos gestos marcados pela simplicidade, enaltecendo pausas, rastros e sintomas de nossas humanidades.

 

Foto: Yuri Bittar

 

Em Yuri Bittar, a paisagem urbana é tomada pela ressignificação dos espaços e movimentos humanos. Assim, até mesmo lugares de ausência denotam vestígios deixados pelas diferentes pessoas que circulam no ambiente frenético das cidades. É como se em cada rastro configurado o dinamismo da vida nunca fosse capaz de apagar a presença registrada nalgum momento específico. Tudo isso a serviço de uma poética que sabe a silêncios, intervalos e encantamentos.

Quiçá o ato espantado de existir, com sua carga de revelações e assimilações do real, seja atenuado pela necessidade de deslocarmos nossa atenção para muito do que teimosamente insistimos em ocultar. E eis que as fotografias de Yuri, com sua força contemplativa, nos atraem para aquela vivência do presente a qual me referi no início deste texto. Agindo assim, talvez por alguns instantes recusemos os imperativos da pressa que tanto afetam nossa capacidade de saborear a vida com mais inteireza.

Atuando como fotógrafo desde 1998, Yuri Bittar também está atravessado por influências que vêm da literatura e da história oral, dentre outras. Como ele mesmo confessa, seu trabalho se move pela crença no humano, principalmente levando em conta soluções para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Mas eis que é a vida ordinária quem protagoniza a arte de Yuri. Seu interesse reside nos trânsitos engendrados por pessoas comuns, pois são estas que fazem girar tacitamente a grande roda dos acontecimentos. Através de suas lentes, seres e objetos representam organicamente um sentido de unidade para a existência, algo que sugere uma complementaridade entre partes até mesmo distintas. Pelo que se pode notar, é um todo harmônico que, sem negar as individualidades e especificidades, pede passagem para um exercício mais pleno e valoroso da vida.

 

Foto: Yuri Bittar

 

* As fotografias de Yuri Bittar são parte integrante da galeria e dos textos da 150ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Adriano Espíndola Santos

 

Foto: Yuri Bittar

 

Homens de bens

 

Naquela tarde, mesmo com o compromisso de buscar o neto na escola, Hélio decidiu sair de casa para encontrar a sua turminha na praça Castelo Branco, porque julgou ser mais importante, caso de providência nacional. Era costume encontrá-la aos sábados, no bar do Jonas Boca de Baleia, só que, desta vez, teriam de bolar um plano. O presidente viria a sua cidade, Fortaleza, no próximo sábado; era imprescindível que o recebessem com honras e pompas, para que se sentisse mais poderoso do que já é – pensava. Falaram sobre as perspectivas da tomada definitiva do poder pelo presidente; que não seria aceitável, de forma alguma, terem novamente o bandido de “nove dedos”. Gozavam e babavam ao falar, tomando, cada qual, a sua cervejinha de lei. Hélio achava que a conversa se estendia e que perderiam o fio da meada: “Caros patriotas, um minutinho de sua atenção… Precisamos mostrar a nossa lealdade ao nosso chefe maior, e, para isso, temos de ser merecedores das insígnias nacionalistas. Explico-me: o tempo está acabando. Chegou a hora de enfrentarmos os comunistas, custe o que custar. Faremos investidas radicais e filmaremos tudo, para entregar-lhe as gravações. O certo é que, estando ele no poder, seremos prontamente o seu braço direito nesta capitalzinha de merda”. Sim, Hélio falava como mandatário do povo, como o verdadeiro dono da província. Os demais, ávidos por sangue, não escondiam o frenesi em começarem os trabalhos. Combinaram de pegar as suas armas: uns com facas, espadas; outros, por disposição dos novos decretos presidenciais, com suas pistolas lustrosas. Esconderam as bandeiras que flanavam nos carros. Seguiram em comboio para os bairros centrais da cidade, onde poderiam encontrar estudantes e outros seres degenerados. Depararam-se com uma vítima: uma senhora de seus quarenta anos, claramente diarista ou doméstica – e a razão da escolha é porque ela levava uma bolsa com o broche de Lula. Esperaram que entrasse numa rua esquisita, transversal à avenida principal. Desceram quatro, com armas em punho. “Encoste na parede, sua vagabunda! Vai votar mesmo em quem? Em quem?! Bora, desembuche! Ah, não quer falar, né?! Pois, para aprender a votar direito, vai aguentar uns corretivos!”. Bateram, bateram, até deixá-la desnorteada, com a roupa em farrapos, com um furo grande na bolsa, onde antes estava o bendito broche. Mais à frente, encontraram quem queriam, um jovem metido a revolucionário. Colocaram-no no carro de Hélio e aí fizeram as maiores atrocidades: cortaram seus cabelos, bateram em sua boca, deixando-o desfigurado; obrigaram o rebelde a dizer que votaria no presidente. Largaram o sequelado numa rua distante, para os lados do bairro Antônio Bezerra. Queriam mais, mas Hélio achava que teriam material mais do que suficiente. Voltaram ao ponto de encontro e lançaram, aos risos, os vídeos para os grupos de WhatsApp. À noite, quando Hélio voltou regozijado para casa, percebeu que havia notícias sobre atentados políticos feitos por idosos, defensores do presidente, em sua cidade. A mulher e o jovem lesados prestaram queixa e falaram ao veículo de comunicação mais conhecido do país. Hélio titubeou, achou que poderia dar bronca, mas um colega, o Sérgio Cabeção, que estava no meio, telefonou para tranquilizá-lo: “Isso não vai dar em nada, patriota. Amanhã já esquecerão… E mais, o recado foi dado; a vagabundagem vai pensar duas vezes em usar um material com a figura do bandido de nove dedos”. Qual não foi a surpresa de Hélio ao ser acordado pela mulher, no dia seguinte: “O que foi isso, Hélio, me explique logo! Vi um vídeo na televisão em que aparecia o seu rosto e dos seus amigos, espancando aquela mulher e o rapaz que apareceram ontem na televisão. Ainda ameaçaram o ministro careca. Vocês piraram ou o quê?!”. O mesmo ministro carequinha determinou a prisão dos suspeitos. Meia hora depois de ter acordado, Hélio era levado à delegacia, onde encontrou os comparsas. A maior tristeza, que declaravam no olhar, é que não veriam mais a carreata do presidente na Capital. Hélio pensou que a esquerda estava por trás de sua prisão; mas não lhe soaram estranhos os atos do dia anterior. Para as câmeras acenou e gritou, isolado: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão!”.

 

Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Isadora Pessoa

 

Foto: Yuri Bittar

 

síndrome de circe

 

Por baixo da face lisa e superficial das coisas, 
há outra que aguarda para rasgar o mundo em dois 
(Madeline Miller)

 

 

por trás de um rei ou governante
há sempre seus conspiradores

dentro de um cavalo………. já coube
[disseram]
a queda de uma cidade

………………………….no focinho subterrâneo de um panteão
rela,,,,,outro ………………..adormecido
………………………………….mas não vencido
…………………….e por trás de um olimpiano
-quem sabe-uma titânide….com planos insondáveis

….dentro de uma horda de porcos
pode habitar uma comitiva de tripulantes
em lenta metamorfose anacrônica

a história se repete …..veja bem
se repete…..se repete…..se repete
….. ….. ….. ..só não se repete mais
do que os homens…..e os deuses
….. ….. ….. repetem a si mesmos

 

 

 

***

 

 

 

devagar

 

com o pensamento em Ana C.

 

troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
………..por outro

………..a pele
………..por outra

flor

escrita nas imediações
…………….das catástrofes naturais

 

 

 

***

 

 

 

prece para acelerar o fim do mundo

 

senhor, fazei com que eu evite a caixa. eu quero abri-la.
quero abrir, mas não posso.
penso que há qualquer coisa de luxuriante em caixas
e não sei o que fazer com as minhas mãos

senhor, que eu mantenha distância segura.
que eu mantenha as minhas mãos longe dela. da caixa.
de dentro vaza um zumbido,
como se vespas estivessem esperando
apenas uma breve oportunidade para escapar.
a caixa é quadrada e hermética,
como um experimento de Haldane.

peço que eu mantenha as minhas mãos pousadas sobre o colo.
mas, senhor,
os meus dedos passeiam pela caixa,
pela rugosidade de sua tampa, por seus sulcos e reentrâncias.
sinto que são sinais, símbolos que não compreendo.
não sei decifrar.

ela queima ao toque, a caixa.
no seu verso há uma inscrição onde lê-se:
“propriedade de pandora.
abra por sua própria conta e risco”.

senhor, fazei com que eu não abra a caixa.

sim, sei que vou abrir.

 

 

 

***

 

 

 

duas árvores

 

a árvore relembra …..o tropismo
primordial……do broto pela luz

como a madeira antecipa tambémna lenha
a brasa …….. e o metal deseja no fogo….a forja

 

 

 

***

 

 

 

primavera autocrata politeísta apocalíptica

 

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
………e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
……………..anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.

 

aqui nos movemos
………..na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.

 

 

 

***

 

 

 

jantar com panteras

 

estar com você e seus comparsas
era como jantar com panteras
a consciência
do risco
sempre presente
nos dentes faiscantes
um gesto em falso
[ um movimento abrupto ]
e o cardápio muda de direção

estar com você
como quem observa
a barba de um homem
crescer
o milagre de uma barba
a barba deste homem
despontar
ao longo do dia
e das semanas
no aprendizado de um tempo outro
[ um tempo medido na grandeza
de capilares quebrados e brotos
recém rompidos
de sementes
e afluentes
um tempo medido
na velocidade de gotas
forjando um novo estuário ]

estar com você, criatura dupla
habitante de dois mundos
o estuário….o mangue….a encruzilhada
metade homem metade cavalo
no galope compassado dos alagadiços
entre juncos cobertos de sal e mel

você me interrompe
e diz ‘ela não gosta de leite vaporizado’
é preciso que seja líquido
‘também não sou fã de expresso’

amor é quando eu o observo
do outro lado
diretamente do mundo dos mortos
a reler todos os meus livros
mesmo os digitais
memorizando
cada passagem sublinhada
criando um novo texto
no qual reconta
a história da minha morte

 

Rita Isadora Pessoa é uma escritora nascida no Rio de Janeiro. É Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e doutora em Literatura Comparada (UFF). Publicou em 2016 seu primeiro livro de poemas, “A vida nos vulcões”. Foi vencedora do Prêmio Cepe Nacional de Literatura 2017, com o livro “Mulher sob a influência de um Algoritmo” e seu terceiro livro, “Madame Leviatã”, foi lançado em 2020 pelas Edições Macondo. Participou da antologia organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, “As 29 poetas hoje” (Companhia das Letras, 2021).

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Galeria

Foto: Yuri Bittar

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