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151ª Leva - 01/2023 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Maraíza Labanca

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

O lá do Sim

 

Vive nas matas, selvagem, forma
preferível das florestas, que tem
por objeto o assobio das serpentes;
voz em que há sim, hiato – de ato de ferir.
Alia povos de plantas cujas cascas, amargas,
tem por tipo o silvestre, também
cipó; dois vivos em que há
aderência da pálpebra com a nota
musical, de uma época remota, lá, alhures,
sem verbo, que começa; ou poética
do fim, iniciada por eles,
pelo som das palavras –
funda natural nome de coisa por oficina
e encerra a outra inconsciente
divisa: certas combinações
que têm triz. Sim
em que há coisas santas ou,
como sejam, sagradas.
Sim: aquele que cometeu Sim,
a primeira folha,
Sim.

 

 

 

***

 

 

 

Poema II

 

De pequeno tamanho, foi um
dos fatores de expansão
do mundo, porque era nome
amorfo, pedra ou granada,
a cabeça encarnada,
fundamental
abertura superior do coração
absoluto.
Carrega-se
no dorso de animal:
mecha de fogo,
chuva muito forte,
por que motivo desconhecido.

 

 

 

***

 

 

 

Tormenta

 

Ela vem torta, de óculos escuros,
cabelos despenteados, vestido em desalinho;
sobre a tormenta, ela vem de botas altas,
com marcas no rosto, uma, resultado do tempo,
outra, de um acidente de carro;
sobre a tormenta, ela vem quando a calmaria
era já a sua companheira de quarto, quando
já até morava ao lado de uma praça
e se nutria bem, para evitar a tormenta;
sobre a tormenta, ela vem tonta, trazendo sua angústia
no peito, no peito de quem não quer
mais ir embora, tragando-a para dentro dele;
sobre a tormenta, ela vem e parece te querer, mas veja, olhe,
escute, antes de atravessar a linha do trem;
sobre a tormenta, um dia ela vai embora e
você, como a criança diante do circo que baixa sua lona,
desejou imensamente ser levado em seu vórtice.

 

 

 

***

 

 

 

Noite branca

 

Olho as janelas que ainda estão acesas,
como fazia em outro país: a insônia
aproxima anônimos em sua distância,
como se de longe partilhássemos
o mesmo cigarro, a mesma ausência.

Há, agora, uma jovem que trabalha.
Um homem sem camisa que vê tv.
Um que vagueia, sentado sobre o próprio desespero.
Um cão que, no meio do silêncio, abana o rabo para ninguém.

Uma mulher que absolutamente não sabe o que fazer.

 

 

 

***

 

 

 

Brutal

 

onde a luz nasce palavra
obscura,
discreta a morte: a vida retina.

delicadeza ao morrer é
tortura.

 

 

 

***

 

 

 

des corps

 

embrulha, compacta
palavra – revela-
se
cruel, crua
entre a fuga e a cura, cheia
de cor a sua escrita pura,
a sua escrita cria

luz

– candeia.

 

Maraíza Labanca é poeta, ensaísta e doutora em Estudos Literários pela UFMG; oferece oficinas de escrita no Espaço a’mais; é uma das editoras da Cas’a edições. De sua autoria, publicou os livros “Refratário” (2012), “Rés” – livro das contaminações (2014, com Erick Costa), “Partitura” (2018), “Exceto na região da noite” (2019) e “A terra O corpo” (2021).

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O exercício da literatura é feito de atravessamentos de toda ordem. E sabemos que a escrita é também marcada pelo gesto espantado que é a existência, esta senhora cujos domínios não cessam de revelar mais e mais inquietudes. Quem escreve não passa impune pelas múltiplas imagens mundanas e seus inalienáveis efeitos, pois é variada a oferta de cenários através dos quais tanto prosas quanto versos podem se deixar engendrar.

É preciso certa dose de ousadia para enxergar além do horizonte das coisas acostumadas. Se somos, enquanto matéria humana, uma amálgama de saberes e sabores é porque também temos a prerrogativa de desbravar sentidos, sejam eles inaugurais ou não, sobretudo quando o tema é cotejar as experiências vividas ou imaginadas. No compasso do tempo, escrever pode ser também o ato de maquinar a matéria intangível da vida. Nesse ponto, complexos serão os caminhos trilhados, os resultados colhidos, demonstrando o fascínio que determinadas escrituras podem causar.

Vivian Pizzinga é uma autora que sabe percorrer territórios onde a palavra se faz possuidora dos sentidos. Em seu engenho literário, ela demonstra transitar com personalidade pelos caminhos vacilantes do ser, ímpeto que faz de sua obra um recorte vigoroso dos mergulhos humanos contemporâneos. Refletir um pouco sobre o que somos hoje e o que fizemos de nós também é a tônica das investidas dessa carioca cujas escrituras desacomodam pretensas convicções.

Além de se dedicar ao ofício com a literatura, com trabalhos em prosa e poesia, Vivian atua na psicanálise. Sua obra abarca os livros de contos “Dias Roucos e Vontades Absurdas” (2013) e “A primavera entra pelos pés” (2015), ambos lançados pela Editora Oito e meio, bem como as coletâneas “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016) e “Cada um por si e Deus contra todos” (Tinta Negra, 2016). E mais recentemente, em 2022, publicou “Ruído nos Dentes” pela Editora Urutau, livro de poemas que inaugura os trajetos atuais da escritora.

Na entrevista que segue agora, Vivian Pizzinga fala sobre seu mais novo livro, além de alguns aspectos fundamentais que mobilizam o seu especial envolvimento com o fazer literário. Atenta às questões do seu tempo, revela-se também alguém desperta para refletir criticamente sobre condições que demandam um olhar aprofundado sobre nossas humanidades. Marcada por acenos inquietos, mostra-se uma autora cujos sentidos estão abertos ao mundo e seus movimentos, atitude que não afasta certo ensaio contemplativo da vida.

 

Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes

 

DA – “Ruído nos Dentes” traz em seu conjunto um mosaico de interioridades reveladas. São paisagens existenciais visitadas e que não se furtam em dialogar com o externo, esse outro que se detém na leitura. O que dizer desses mergulhos?

VIVIAN PIZZINGA – É interessante você pontuar esse diálogo com o externo dessas interioridades reveladas nos textos de “Ruído nos Dentes”. A leitura que fiz deles quando estava fazendo a curadoria do livro – uma das leituras possíveis – me fez compreender três conjuntos de textos, e assim separei o livro em três partes: uma delas onde há menos diálogo com o externo; a segunda parte, onde há um contato com o externo em que este é mais íntimo, digamos assim, talvez até mesmo personalizado, ainda que isso não fique tão claro; e uma última parte em que esse externo seria mais coletivo, mais amplo e também mais difuso, em alguns sentidos. De algum modo, compreendi uma espécie de percurso que parte de algo mais interior – e muito ligado a experiências sensórias também – para um contexto mais exterior.

 

DA – Nesse trajeto, onde as dimensões interna e externa do ser se comunicam, quais desafios se delinearam mais evidentes na construção do seu livro?

VIVIAN PIZZINGA – Na verdade, apesar desses itinerários que mencionei, não acho que haja possibilidade de as dimensões interna e externa não se comunicarem, suponho que elas estão sempre se comunicando e às vezes enxergamos melhor isso, outras vezes isso nos parece menos nítido. Não acho que haja qualquer possibilidade de uma dimensão existir sem a outra, não é possível saber nem mesmo se há uma precedência do interno sobre o externo ou vice-versa, realmente trabalho com a noção de interseção em tudo. Quando uso essas ideias de externo e interno, mesmo para falar de como separei os textos e os arranjei nesse percurso de três partes, é muito mais uma maneira de conseguir se exprimir sobre sensações e vivências, porque é difícil lançar mão de uma linguagem, de um léxico, em que se possa unir essas coisas que não são separadas. Então, quando faço uma leitura dos meus próprios textos e identifico ali, naquele momento, textos mais internos, mais introspectivos, mais ligados ao sensorial, na verdade estou identificando uma predominância, mas não uma separação. E por isso mesmo a própria separação nessas partes também foi um desafio, pois essa localização não é tão nítida. Ainda assim, naquele momento, eu sentia que precisava conferir alguma organização, talvez como forma de me organizar e de me situar nesses escritos. Mas outro grande desafio, na verdade o maior, foi em relação ao próprio fato de eu estar escrevendo algo com uma inclinação mais poética, uma vez que minha experiência anterior é toda da prosa. Embora eu viesse escrevendo esses textos há alguns anos e eles estivessem se tornando mais frequentes, havia uma dúvida se aquilo que eu reconhecia como poético seria mesmo.

 

DA – De fato, é possível ver em “Ruído nos Dentes” um flerte seu com a chamada prosa poética. Como é que você vislumbra essa espécie de fronteira que às vezes chega a parecer tão tênue entre os gêneros?

VIVIAN PIZZINGA – No segundo livro de contos que escrevi, “A primavera entra pelos pés”, havia já alguns textos com essa inclinação mais para a prosa poética, então essa fronteira, se muito rígida, ao menos pra mim não funciona. Por outro lado, não sou uma pessoa que estuda literatura no sentido acadêmico, não tenho leitura sistemática desses debates, venho de outra área, talvez eu pudesse ser criticada em questionar um pouco essas fronteiras. Fato é que, ao enviar a proposta de livro para a chamada, o gênero em que se encaixaria seria a poesia. Precisamos lançar mão de outras nomenclaturas para dar conta de uma certa complexidade da realidade, porque as caixas muito bem amarradas e indiscerníveis não dão conta dos múltiplos recados da vida. Acho isso pra tudo, acho que com uma seriedade e uma responsabilidade nos trabalhos, estudos e atribuições (falando de profissões) é possível rearranjar classificações muito prontas, que têm uma historicidade, não são naturais, logo, podem ser compreendidas de outra forma. Acho isso pra tudo, então não teria como eu não achar o mesmo no que se refere à escrita: os textos de “Ruído nos Dentes” talvez não sejam poesia, talvez sejam, talvez em parte. Depende da página.

 

Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes

 

DA – A segunda parte do livro é introduzida por “diatribe”, texto que parece bem emblemático se pensarmos os diferentes deslizamentos identitários presentes na contemporaneidade. Na sua opinião, o que o atual território das subjetividades tem a nos dizer de mais significativo? 

VIVIAN PIZZINGA – De mais significativo, não saberia dizer, mas algo que me chama a atenção é o fato de que, se por um lado estamos tendo uma ampla oportunidade de debates que há dez, quinze anos não tínhamos nesse nível, com discussões importantes referentes às pautas identitárias em seus múltiplos aspectos, ou seja, ao mesmo tempo em que estamos nos dando conta cada vez mais de vivências e atravessamentos históricos, sociais, econômicos que moldam, guiam, constituem nosso estar no mundo, por assim dizer, estamos, por outro lado, um pouco perdidos no que se refere à nossa autonomia face àquilo que concorre para a produção de subjetividade hoje, século XXI, 2023, para ser bem específica. Refiro-me a toda a problemática, a meu ver urgente, referente às redes sociais e ao chamado capitalismo de vigilância, temática que inclusive está sendo debatida atualmente no congresso no que se refere à regulamentação de plataformas digitais, o chamado PL das fake news. O que quero dizer é que estamos sendo muito moldados por aquilo que vemos nas redes, nossos comportamentos estão sendo direcionados, como nos têm alertado os pesquisadores desse campo de estudos, e não nos damos conta disso. Subjetividade e comportamento estão intrinsecamente ligados, para falar de modo corriqueiro. Vou dar um pequeno exemplo: ouvi outro dia alguém falando que o aplicativo de fotos do google enviou a essa pessoa umas fotos suas de alguns anos antes, aquelas típicas lembranças que acabam direcionando o rumo da memória. Essa pessoa, que não estava pensando em determinada situação, passou a pensar muito nela, o que direcionou um dado comportamento naquele momento. Será que se essa foto não fosse vista, à revelia dessa pessoa, o que se desencadeou depois teria acontecido? Será que ela teria pensado naquilo? Claro que estamos sempre sujeitos a fazer uma associação de ideias com algo que vemos no mundo, mas, quando isso acontece a torto e a direito, de modo acachapante, nas redes sociais, nos trocentos aplicativos que acabamos sendo obrigados a usar, como pensar o rumo dado à produção de subjetividades nessa conjuntura? Sendo que é sempre bom reforçar que tudo isso avança muito mais velozmente do que os debates e as regulamentações jurídicas voltadas a essas situações. O mesmo podemos dizer desses filtros de redes sociais que tiram todos os supostos “defeitos” do rosto de uma pessoa ou ainda as clássicas comparações que podemos fazer com as vidas dos outros, mesmo que saibamos que o que é mostrado numa rede social é uma edição de si (isso quando o sabemos). Tudo isso é produção de subjetividade o tempo inteiro, de modo acrítico, o que é uma contradição se pensarmos no que falei no início quanto aos debates que têm nos permitido nos dar conta das forças históricas que nos constituem.

 

DA – Por falar no universo digital, há algum tempo temos nos deparado com a superexposição do eu nas múltiplas plataformas de produção de conteúdos. Do corpo ao texto, há uma expansão do campo autobiográfico que gera mais e mais narrativas performatizadas e que também orbitam em torno da vida ordinária, sugerindo que pessoas comuns, e não somente famosos, são protagonistas desse processo no qual as existências parecem reinventadas. Nossa sociedade se acostumou com a espetacularização e, com isso, perdeu a capacidade de lidar com seus próprios dilemas e dores?

VIVIAN PIZZINGA – Pois é, é uma excelente pergunta, porque já não sei mais se há um habituar-se à espetacularização ou se estamos precisando muito nos dirigir a um outro, a alguém, se é uma necessidade de interlocução que tem a ver com esse encapsulamento das nossas vidas, o que também me parece outra contradição, porque, mais uma vez, parece – sempre parece – que estamos muito mais conectados, mas talvez a forma como isso se dê não contemple nossas necessidades mais profundas de intimidade, de trocas significativas. Talvez seja uma hiperconexão que implique alguma desconexão em outras esferas, e ficamos desesperadamente correndo atrás de alguma coisa por esse caminho do espetáculo de si, de nós mesmos, o glamour da nossa intimidade mais corriqueira. Ou pode ser que seja isso e mais um monte de outras coisas. Acho que o que você aponta na sua pergunta está relacionado com o que abordei na pergunta anterior, uma vez que parece que estamos mais cientes de tudo o que pode operar em nós, estamos talvez menos ingênuos, discutindo mais algumas coisas, e, por outro lado, parece que estamos menos conscientes do quanto seguimos de forma um tanto quanto autômata nessa avalanche de ter que mostrar tudo o tempo todo, como se a coisa não tivesse acontecido caso não a mostrássemos. São muitas as hipóteses, sempre lembrando que, ao falar disso, não estou apontando o dedo pro outro sem olhar a minha parte nesse latifúndio, eu também sou aquela que, junto com todo mundo, posta, dialoga (ou pensa que o faz), dá um tom confessional a dizeres abertos a sei lá quem e por aí vai. Não sei se é uma necessidade de se comunicar que tem assumido outras formas, mas certamente o componente da espetacularização – e isso não sou nem eu quem fala, sigo outros – está presente.

 

DA – Em tempos da expansão da chamada inteligência artificial, muito se tem discutido sobre o quanto isso poderia afetar a questão da autoria na contemporaneidade. O quão problemático seria admitir uma obra literária produzida inteiramente a partir da máquina?

VIVIAN PIZZINGA – Eu realmente acho isso tudo muito estranho. Ainda não amadureci dentro de mim os encaminhamentos disso, os desdobramentos do que isso pode gerar, uma obra literária ser produzida inteiramente a partir da máquina, e nem tenho certeza se isso é efetivamente possível. Apesar de já terem me mostrado uns testes corriqueiros, do tipo pedir para a inteligência artificial escrever um conto sobre isso ou aquilo e ver o resultado, não tenho certeza se se pode dizer que uma obra literária poderia ser produzida efetivamente a partir daí. Onde fica o estilo, por exemplo? Mas vamos que fosse possível? A questão da autoria já também não é um assunto simples, porque ela evoca uma suposta coesão de quem escreve um texto, quando, na verdade, somos atravessados por mil e uma coisas que lemos, vemos e ouvimos, muitas delas sem percebermos que lemos, vemos e ouvimos, mas, ao mesmo tempo, em algum momento, conseguimos concatenar aquilo em alguma produção, no caso, escrita. A autoria seria da inteligência artificial? Por outro lado, o debate sobre os direitos autorais, sobre a profissão do/a escritor/a, essas problemáticas antigas, tensas e nunca concluídas, estão também envolvidas nisso. Tudo o que tenho dentro de mim, no momento atual, é um grande estranhamento.

 

Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes

 

DA – De que maneira a sua vivência com a psicanálise cruza seus caminhos com a literatura?

VIVIAN PIZZINGA – Apesar de eu não deliberar enredos ou textos a partir da minha trajetória na psicanálise, a experiência profissional e os estudos, além da minha vivência pessoal, acabam fazendo parte da minha produção, quando vejo já aconteceu. Na época em que trabalhava em ambulatório de saúde mental, e que eu estava escrevendo muitos contos, naturalmente as ideias tomadas por essa pegada da psicanálise vinham para essas narrativas curtas. Alguns contos que escrevi – “Eletroconvulsoterapia”, “A loucura é uma sensação térmica”, “Uma ciência do atraso”, “Haldol Decanoato”, cujos títulos já indicam territórios de interesse do campo da saúde mental e da psicanálise, ou ainda “Término”, cujo título não dá sinal de nada mas que também traz essa influência – são exemplos de textos que acabam muito influenciados por essas vivências profissionais no campo da saúde mental e nas reflexões que a psicanálise impulsiona. “Haldol Decanoato”, por exemplo, título de um dos contos que integra “Dias Roucos e Vontades Absurdas”, é o nome de uma medicação psiquiátrica. Medicação psiquiátrica não é psicanálise, mas as coisas vão se entrelaçando em muitos dos textos que escrevi durante vários anos. Como eu estava muito imersa nessas vivências, trabalhando no Instituto Municipal Nise da Silveira (que existe ainda mas que foi um hospital psiquiátrico de referência na Zona Norte do Rio de Janeiro e que atravessou um processo de desinstitucionalização na luta antimanicomial), atendendo muitos pacientes no ambulatório, além de pacientes no consultório, esse era meu universo, e isso aparecia espontaneamente no que eu escrevia. Agora acredito que isso está menos urgente no que escrevo, menos à flor da pele, mas me constitui em muitas medidas, então não deixa de estar presente.

 

DA – O que lhe parece mais urgente nos tempos atuais?

VIVIAN PIZZINGA – Difícil, mas eu diria que me parece muito urgente a gente relembrar e reforçar os laços coletivos e sociais. A consciência de classe, a preocupação com o comum, o bem comum, a coisa pública. A lembrança ou o aprendizado de que não estamos isolados, de que nossos interesses não podem estar desvinculados dos interesses sociais, coletivos, que estamos imersos em culturas e que a nossa não é nem a única nem a melhor. E que, nisso, tudo o que defendemos tem sua historicidade, que precisa ser resgatada ao menos em parte, porque aí não nos prendemos tanto em rótulos, diagnósticos, etiquetas, estereótipos, formas de leitura de pessoas e processos estanques, enfim, autoenganos. Acho urgente que estejamos atentos e atentas a isso. Fico achando às vezes que a pandemia teve um lado de reforçar um certo individualismo. É difícil resumir, mas eu iria por esse caminho, que acho, a princípio, que abriria outros.

 

DA – O quanto Vivian Pizzinga conhece Vivian Pizzinga?

VIVIAN PIZZINGA – Eu tenho construído uma Vivian Pizzinga e tenho descoberto reações de uma Vivian Pizzinga que têm a ver com circunstâncias, porque acho que é isso, a gente só sabe se há uma Vivian Pizzinga, e o que seria isso, diante das circunstâncias, externas, internas e as que estão no meio de ambas (talvez só essas existam). Ou seja, o que a gente é ou tenta ser e faz ou tenta fazer é algo sempre relacional, é sempre um movimento oscilatório, e não garante nada, tampouco é linear. Há uma Vivian a ser conhecida? O quanto essa que está aí escrevendo é resultado de uma interseção de humores, afetos, coisas variadas de muitas espécies? São muitas, não é nenhuma? Freud já nos tirou do eixo ao apontar o inconsciente, mas certamente eu poderia dizer que Vivian tem um hábito de olhar para si e suas ações/reações/interações e se espantar.

 

DA – Afinal, por que escrever?

VIVIAN PIZZINGA – Não tenho resposta melhor a dar que não a de Blanchot: Escrever para não morrer.

 

Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Destaques Olhares

Olhares

Uma sublime travessia imagética

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Entre cores, impulsos e concretudes, a meta de se transitar pelas paisagens dos dias. Daí que as abstrações da vida, nosso campo intangível, parecem quase impossíveis de serem registradas como sintomas de um testemunho permanente. O que fazer com os sentimentos que transbordam no horizonte das perspectivas? Como reproduzir em imagens uma quantidade imensurável de coisas que nos invadem sem nenhum precedente sinal?

O imagético é esse mar de infinitudes a nos lembrar teimosamente que tudo pode ser representado, ainda que muito habite o campo do incompreensível. Afinal, precisamos mesmo de guias nesse percurso de signos complexos por natureza? Defender a ideia de que a Arte (propositalmente grafada aqui com inicial maiúscula pela característica de ser universo de possibilidades móveis) venha a ser desfrutada de maneira aberta talvez seja o melhor caminho para a fruição de seus dotes.

E como é fabuloso ver que cada pessoa empresta seus significados a todo o engenho criativo manejado por quem faz arte. Se a vida é um livro em construção, dificilmente as vias artísticas não o seriam também. A cada tempo, um espírito peculiar, marcas pungentes que cartografam sentidos experimentados por artistas e os receptores das obras. Nesse ínterim, talvez seja quase uma verdadeira proeza encontrar formas diferenciadas de apresentar as pulsações do cotidiano.

Desconfio que uma artista como Viola Sellerino saiba executar isso com especial destreza. Em seus trabalhos, a representação daquilo que está abrigado no dia a dia vem acrescida de um componente poético que desacomoda lugares comuns de observação. E estamos a falar de uma artista que, ao lançar atenções para a vida ordinária, retira desta os frutos diferenciados da contemplação. Na dicção de Viola, esse ato de contemplar não se baseia no foco passivo sobre certas vivências e cenários, mas lança sobre eles uma lente que redimensiona os saberes e sabores postados na jornada existencial.

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Dentro dessa esfera cotidiana, o olhar de Viola parece vislumbrar as alternativas de liberdade protagonizadas pelo corpo. Assim sendo, as investidas humanas são expostas como um tributo à emancipação de corpos e mentes, tomados que estão por certo gesto sublime do ser/estar no mundo. Daí que há espaço consagrado em sua arte para enlaces afetivos, flagrantes da delicadeza, pausas, arremates sintéticos dos entreatos humanos e sua ritualística, além de acenos que sugerem mergulhos meditativos diante dos mistérios do existir.

Todos esses atributos fazem das imagens concebidas por Viola Sellerino um painel que coloca como centralidade o humano e algumas de suas epifanias. Em seu modus operandi, a artista lança mão das ferramentas ofertadas pelo digital, além de se utilizar de técnicas mais convencionais como a aquarela e a acrílica. Italiana de nascimento, Viola reside em São Paulo, possuindo formação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Napoli e, também, em Ilustração editorial pelo Mimaster de Milão.

Uma imersão mais aprofundada pelas imagens de Viola Sellerino sugere certo envolvimento dela com uma forma própria de apreensão da realidade. Nesse sentido, ao fazer o entrecruzamento do vivido com o imaginado, a artista ultrapassa as zonas de conflito inerentes a nossas humanidades. Tal escolha não faz dessa proposta um lugar de fuga, mas de conversão de perspectivas, ambiente este que, sem renunciar às tensões impostas pelo real, transforma o embrutecimento da vida numa tomada de consciência mais serena.

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

* As ilustrações de Viola Sellerino são parte integrante da galeria e dos textos da 151ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.  

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Fábio Pessanha

 

Ilustração: VIola Sellerino

 

 

que seja assim um abrigo
onde pés e mãos se cruzam
mar e sol se miram em
miragens faísca e nuvens

seja assim a sinfonia
que se quebra em tornozelos
que se torna o zelo por
joelhos cheios de terra

um amigo que no peito
abriga um abraço enquanto
a noite escurece no
leito escuro de um afago

 

 

 

***

 

 

 

por se romper o chão nos nervos das
manhãs por se querer um horizonte
ruindo nos cabelos encrespados
da melancolia e se desejar
o gosto pesado e duro de deus
resgatam-se as vozes guardadas na
arquitetura do silêncio por
se destruírem os baques em minhas
costelas rumo à forma das raízes
por se alimentar o céu mais que o ventre
por se beijar o rosto das avenças
em disputa aponto o dedo para o
cansaço das flores nas falhas do
teto por se ruminar o vestígio
dos lábios por se levar o destino
dos fatos em procissão sinto o vento
lamber o barro onde moldei os meus
castelos de ossos por se calarem
as pedras encontradas no refluxo
das topadas por se andarem os galhos
na voraz verticalidade do
assalto devolvo os ombros ao luto
no incansável espanto por se inventar
a fuga das mãos sobre aquilo que
não posso agarrar cravando meus dentes

 

 

 

***

 

 

 

de repente
é quando a
gente acha
que já foi
e é quase

de quando em vez
a causa fosse
a minha dúvida
que sempre é tanta
mas sobre o dia
nenhum espanto

 

 

 

***

 

 

 

assim como se desfizesse
por inteiro esse dia ingrato,
essa hora vã. como se

se apartasse o calor de mim,
em mim aportasse o pavor
nascido além do próprio corpo

o fogo, o afeto, a foz dos meus
desertos. quero tudo, até
os restos do que odeio. como

decerto, o acerto. como se
para o sim, um não; o equilíbrio
como fuga do incerto erro

 

 

 

***

 

 

 

lua

 

aqui estamos. sob o peso do mundo,
que é acima e entre nós, abaixo e
na medida das imperfeições. não
sei dizer se criação tem a ver
com um sujeito pleno de potência
ou se talvez mais perto esteja do
ínfimo do qual somos comunhão.
não sei dizer a exatidão do que
é enquanto sou. não sei o sabor
preciso do que experimento ou do
que deixo quando parto do lugar-
comum de onde penso. mas aqui estamos.
como um satélite, que gravita em
torno de outro corpo, e brilha

 

 

 

***

 

 

 

anomalia

 

combinamos assim: você vem pela
via das ruínas e eu permaneço
fluido na anomalia dos relógios.
ficamos cientes de que hora
alguma precede o delírio, ou
ainda que a pontualidade dos
martírios esteja firmada no
que sobrou das mãos. no peito, contamos
com outras penitências para então
ficarmos dubiamente consagrados

 

 

 

***

 

 

 

adverso

 

gosto do barulho do vento nas
árvores. do modo como ele diz
fica parado, escuta. gosto de
como ele vem sem permissão e leva
a pele morta do corpo, os cabelos.
o jeito como ele tenta tirar
minhas roupas (mas elas continuam
agarradas, como se houvesse um mastro
de ossos elevado ao longo do tempo)

 

Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios sobre sua pesquisa a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. Articula oficinas de poesia e atualmente tem estudado a obra de Orides Fontela em função da pesquisa que desenvolve em seu pós-doutorado no PPG em Estudos de Literatura, na UFF. É autor de “na escuta o gatilho” (Rizoma, 2023), “A forma fugaz das mãos” (Patuá, 2021), “A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos” (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro “Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento” (Tempo Brasileiro, 2011). Assina também a coluna “palavra : alucinógeno”, na Revista Vício Velho, e tem poemas publicados em diversas revistas eletrônicas.

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Mohamed Mbougar Sarr: o gênio senegalês e o novo compasso literário

Por Viviane de Santana Paulo

 

 

Mohamed Mbougar Sarr é um escritor nascido no Senegal, ganhador do Prêmio Goucourt de 2021, o mais prestigiado prêmio literário francês, com a obra A mais secreta memória dos homens (se bem que, nos dias de hoje a palavra homem para definir toda a humanidade deveria ser substituída por humanidade, ou seja, A mais secreta memória da humanidade). O romance trata do racismo no meio literário e da paixão pela criação literária, além de aspectos sobre a imigração e o colonialismo africano, e é uma crítica ferrenha contra o meio literário francês. Mas sendo este meio nada diferente de outros, nos quais rege a classe dominante de homens brancos provenientes de países ricos, a crítica de Mbougar Sarr é válida para a maioria dos meios literários mais influentes do planeta Terra.

O enredo é complexo, narra a Odisseia do protagonista, estudante senegalês de filosofia em Paris, chamado Diégane Latyr Faye, e a sua obsessão em torno do romance fascinante intitulado O labirinto do inumano, publicado há setenta anos, que conta a história de um rei sanguinário que através do Mal absoluto pretende alcançar o poder. Com a ajuda da polêmica escritora senegalesa, sexagenária, Maréme Siga D, o protagonista inicia uma pesquisa sobre T. C. Elimane, o autor do livro, que foi acusado de plágio nos anos trinta, em Paris, e sua obra retirada de circulação. Por consequência, o escritor desaparece, transformando-se em numa lenda. Mbougar Sarr inspirou-se na verdadeira história do escritor maliano Yambo Ouologuem, que em 1968 publicou o romance Le Devoir de violence (O Mandamento da Violência), com o qual ganhou o Prix Renaudot.

As referências a Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, são óbvias em vista das muitas reflexões. Aliás, o enrendo é repleto de diversas referências culturais. Como, por exemplo, T.C. Elimane procura o assassino de seu editor Charles Ellenstein, na América do Sul. Ellenstein morreu em um campo de concentração denunciado e torturado pelo literata nazista Joseph Engelmann. Neste trecho, Sarr menciona autores como Ernesto Sábato e o exilado Witold Gombrowicz. A busca pelo misterioso autor da fantástica obra dá-se em vilarejo senegalês, na Paris contemporânea e na Argentina pós-guerra.

No decorrer do enredo, Mbougar Sarr levanta questões controversas sobre o meio literário e seus vícios e limitações, como, por exemplo, na voz da personagem Siga D., ao indagar se alguma coisa mudou no meio literário: Fala-se sobre literatura, sobre valores estéticos, ou fala-se sobre a pessoa do escritor, sua cor da pele, sua voz, sua idade, seu cabelo, seu cachorro, sobre o pelo do cachorro, sobre a decoração do apartamento, da cor de suas meias? Fala-se sobre a escrita ou sobre a identidade, sobre o estilo ou sobre a imagem midiática do/a autor/a? Fala-se sobre criação ou sobre sensacionalismo e culto ao/a autor/a? Mbougar Sarr confronta-nos com a dúvida: deve a literatura estar imprescindivelmente encarcerada na nacionalidade, na cor da pele, na idade, no meio social, no gênero do/a autor/a? Ou devemos interpretar estas características como um aspecto adicional?

 

Mohamed Mbougar Sarr / Foto: Bertrand Guay 

 

Segundo o crítico literário alemão Tilman Krause, no jornal Die Welt: “Sarr refere-se inteligentemente aos discursos mais atuais sobre identidades e políticas de identidade, por exemplo, transformando um romance fictício de 1938, escrito por um senegalês fictício, em um “campo de batalha ideológico” onde, ao invés de questões sobre qualidade, são negociadas ou discutidas questões sobre a identidade do autor. Sarr não está preocupado com qualidades particulares, mas com o que significa ser humano.”

Igualmente, o escritor argentino Juan Jose Saer trata sobre este tema em seu ensaio La selva espesa de lo real, no qual ele menciona: la narración no es un documento etnográfico ni un documento sociológico, ni tampoco el narrador es un término médio individual cuya finalidad sería la de representar a la totalidad de una nacionalidad. Saer repudia a tendência dos críticos europeus em interpretar as obras de autores latino-americanos exclusivamente através do olhar folclórico e colonialista e indiretamente esperar que autores latino-americanos escrevam estritamente sobre temas relacionados à cultura e política de seus países, ou seja, escritores de nacionalidades e procedência não europeia, não branca, estariam condenados a escrever somente sobre questões sociais, culturais e políticas de seus países de origem. Caso contrário, a autenticidade desta obra estaria prejudicada.

Em A mais secreta memória dos homens o personagem Stanislas, tradutor do polonês trabalhando na nova tradução de Gombrowicz Ferdydurke, está convencido que os autores devam ter permissão para escrever o que quiserem, independentemente de onde moram, de onde venham ou da cor de sua pele, e que a única coisa que você tem a exigir dos autores é talento.

Mbougar Sarr, como escritor negro, africano, imigrante, denuncia esteticamente esta falha no meio literário. O fato de a crítica trazer à tona termos generalizados como emigração e exílio sempre que se trata de autores não brancos e não nacionais é um de seus equívocos, como aponta o protagonista Diégane. Sarr antecipa e responde a muitas destas críticas no próprio romance. Além disso, parte da obra é sobre ativistas políticos e a manifestação pela democracia no Senegal.

A mais secreta memória dos homens possui gêneros e temáticas diferentes, e é uma reflexão poética e metafísica sobre a escrita e a literatura em geral – a literatura em geral.

 

Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e Abismanto (poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007).  Seus poemas têm sido publicados em várias revistas e jornais na América Latina e Europa. Em 2012, participa do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua, e em 2016, do XX Festival Internacional “Noites de Poesia”de Curtea de Arges, Romênia. Atualmente, vive em Berlim.

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Galeria

Ilustração: Viola Sellerino

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