Será que o tempo que não cessa de transcorrer nos torna meros colecionadores de passados? É uma questão instigante se pensarmos que tudo o que realizamos até hoje agrega memórias, afetos e construções de caminhos, todos eles envoltos em recortes marcados por escolhas e predileções. E talvez a cronologia dos passos dados seja apenas um indicador de que a vida, sobretudo em seus entreatos, não seja passível de uma mensuração linear das coisas, ordenada dentro de uma lógica que destoa das sensações concretamente experimentadas. Apreender o tempo, pois, parece mais plausível se considerarmos que dentro dele o efeito que mais importa é o de tudo aquilo que implica em transformação. Impactados pelas provocações saboreadas ao longo da jornada, já não somos mais os mesmos a cada estação que se apresenta. Tudo pode ser motor de pequenas e incessantes revoluções particulares. Na caminhada com a Diversos Afins, há muito desse dinamismo que vem a reboque de um universo múltiplo de expressões, cada uma delas propondo ventos de mudanças, acusando que nada se assenta em bases estáveis quando quem conduz as vias são os ímpetos demasiadamente humanos. Agora, a revista contempla seus 17 anos de estrada pelas vias editoriais, jamais esquecendo de olhar o passado como uma fonte inesgotável de estímulos e perspectivas de reinvenção dos caminhos posteriores. É necessário manter a chama acesa para que o projeto siga seu curso e se deixe mobilizar pelo fator mais importante: o resultado dos encontros. Sim, fazer a revista é estar com o Outro, estabelecer conexões com ele, aprender, assimilar e acolher sua contribuição autoral. É essa soma que torna a continuidade dos caminhos algo possível. Nada disso seria viável se não fosse o interesse dos colaboradores em trilhar conosco as veredas delineadas pela Arte. Em cada recanto delas, saberes e sabores engendram palavras e imagens a serviço dos olhares sensíveis sobre a vida e os fenômenos que nos afetam. Nesse universo oceânico de compartilhamento de sensações, o momento pede que celebremos o feito atual com as marcas contidas nos versos de gente como Aline Aimée, Vivian Pizzinga, Wesley Peres, Samara Belchior e Tallýz Mann. Por todos os lados desta nova edição, desfilam as fotografias de Magali Abreu, cujas imagens primam pela força que emana do indecifrável. Entrevistado por Jussara Azevedo, o escritor Gustavo Rios percorre as vias do seu novo livro, além de abordar outras reflexões sobre os afins literários. Nossa sempre atenta resenhista Larissa Mendes se deixa embalar pelas escutas de “Jesus Ñ Voltará”, disco de Mateus Fazeno Rock. Em seu texto, Sandro Ornellas nos convida à leitura de “Quando deixamos de entender o mundo”, livro de crônicas do chileno Benjamín Labatut. Com seu olhar sensível e apurado, nosso cinéfilo Guilherme Preger analisa “Mato seco em chamas”, filme brasileiro que volta suas atenções para recortes que vêm da periferia. Nos cadernos que privilegiam a prosa, há porções instigantes de mundo nos contos de Kátia Borges, Rodolfo Guimarães Neves e Adriano Espíndola Santos. Em seus mergulhos literários, Gustavo Rios nos mostra por que é uma experiência valiosa ler “Antipática Lira”, livro do poeta Santiago Fontoura. É com tantas e tamanhas colaborações especiais que festejamos a etapa alcançada, agradecendo a todos os autores, artistas e leitores de ontem e de hoje. Eis a nossa 152ª Leva!
Influenciado em certa medida por gente como Gullar, Bandeira e Drummond1, com alguma coisa da postura do João Cabral de Melo Neto, Antipática Lira, do escritor Santiago Fontoura, parece ter sido concebido a partir do observável e do trivial. O miúdo e o comezinho surgem como matéria e o ponto de partida desse trabalho. Lançado pela editora Segundo Selo, no livro percebemos o olhar do poeta que abarca o todo. Que o expande e o reverbera, sem vacilar em seu trajeto.
O poema “Empada de Belém” talvez seja um bom exemplo para tentar explicar essa minha primeira impressão: “Há eternidade nesta empada de Belém / (é que ela desperta em mim, / já na primeira mordida, / a certeza – que me foge nos intervalos / em que não degusto a guloseima – / de que a vida, somente a vida, / interessa)”.
Do simples ato de comer a iguaria de origem portuguesa, conhecida também como pastel de Belém, Santiago Fontoura desenvolve um dos fundamentos de sua escrita, que é: todo momento vale a pena; tudo merece atenção e questionamento; todo pequeno gesto contém mais do que mostra, e pode se eternizar para quem tem talento e firmeza.
Daí, as perguntas: qual o verdadeiro alcance da ideia que une, num corpo textual, a eternidade presente num momento tão comum (comer algo) e a comoção causada por esse mesmo momento? Talvez um devir em que a vida, “somente a vida” interessa, e que poucos conseguem expressar? Pensemos no ponto de partida, a empada (sim, a empada!). Na motivação que deu origem ao poema. Agora adicionemos o olhar certeiro do poeta (e o paladar também: a empada vale uma epifania, sim!).
Não é exclusividade de Santiago o uso de tal modus operandi, por assim dizer. Essa coisa de converter momentos imperceptíveis aos olhos cegos em literatura de qualidade já vem de longe, sabemos. E os já citados grandes poetas, assim como outros que também influenciam Antipática Lira e que desconheço, agiram ou agem dessa forma; flâneurs ou não, eles arrancam do banal algo maior do que se mostra.
O EU E O CABRAL
Quanto ao Cabral, na leitura que fiz do livro entendo que a influência do pernambucano reside na ideia da construção pensada. E numa diluição marota do “eu” sem resvalar para a frieza. Nem para a rigidez.
Santiago Fontoura, o tal “eu” dessa minha teoria amalucada, está presente como persona e pronome-da-primeira-pessoa, até, quando necessário, não escondendo a inquietação diante das coisas simples e de um mundo cheio de pressa e ruínas. Mas a forma escolhida para o texto dialoga com o leitor de perto, digamos. Sem firulas nem hermetismos.
Os chamados versos livres despertam um genuíno interesse pela apresentação e pela integração desses versos à construção do resultado final. Tudo flui, numa boa. Fontoura finca pé trabalhando com o trivial, com o alcançável em termos de linguagem. Contudo, apesar do uso de palavras corriqueiras, o poeta onsegue usá-las de uma maneira em que a cadência do texto, assim como sua força metafórica, instiga.
A tal lira surge não de forma esquemática: não cabe o tal decassílabo, muito menos uma estrutura “rígida de rimas consoantes” ou mesmo toantes, usadas pelo “poeta engenheiro” (o nosso João Cabral). Assim como não há a defesa peremptória de qualquer estilo, formalidade, modernidade fajuta, questionamento banal ou posicionamento estético que trave sua criatividade. Antipática Lira nos conquista pelo pungente, essencial no fazer literário, e por um tipo de clareza transcendente, fruto das escolhas de seu criador.
A POESIA QUE PERGUNTA
No caso de Santiago, o empenho é pela poesia como veículo de indagação sincera e expressão elevada, sem barroquismos. E esse talvez seja o seu trunfo, se levarmos em conta outra obra, Leitura Neon-reciclada, indicando a mesma linha – ao menos em relação ao tratamento formal e o intuito em se fazer uma literatura de respeito.
Vejamos agora se o exemplo abaixo consegue explicar o que digo: “Macho Ômega / “Ninguém sabe, / mas sou um homem triste. / “Desconheço as ternuras cotidianas: / grandes árvores centenárias, / beijo amigo sem escárnio, / música que somente o vento é capaz de reger. / “Trago entre as pernas uma angústia / – esta carne mole (que faz parecer / que apodreço) explicita que, de fato, / sou feito de camuflado tormento / e nenhuma sabedoria.”
Assim sendo, para melhor definir a visão de Fontoura talvez eu deva apostar minhas fichas no que o velhinho Pound um dia escreveu sobre a chamada “segunda natureza”2, em vez de vinculá-lo à obra Cabralina. Quem sabe seja mais próximo da realidade do que uma possível influência do pernambucano que, com seu belíssimo trabalho, deu “à vertigem, geometria”.
OS TEMAS
Quanto à temática, nas 122 páginas Fontoura reflete sobre muita coisa: religião, ao menos em seu aspecto humano (“Ratzinger”; “Oração”); o amor real, sem um traço de pieguismo sequer; a amizade franca e a questão do “macho”; a literatura e a sua relação com a vida; a própria vida em si (“Antibudismo”, um dos melhores); a política sem partidarismos (“Conclusão de um homem sem partidos ou legendas”); a paternidade; e, para encerrar, a relação dele com nossa cidade, Salvador, com suas ladeiras e idiossincrasias, sendo o poema abaixo um exemplo válido: “A praia é o limite – e a cidade, então,/ chega ao fim: não há curvas, becos ou ladeiras. / Mesmo a pressa – tão típica –, mesmo a desordem / – inevitável –, assumem uma estranha distância / quando é a ilha o horizonte alcançável.”
Dando uma olhada no conjunto, penso que o autor consegue a proeza de ser cuidadoso na forma abarcando, com seu olhar atento, diversos conteúdos. Isso sem transigir no seu belo trabalho – fato que tornou seu livro um achado para mim. Santiago pode não ter inventado a roda, ao escolher trabalhar com elementos conhecidos (e acho que nem foi essa a ideia, para ser bem sincero). Mas sua escrita, extremamente pessoal muito por conta de sua personalidade, se mostram ao leitor como verdadeira poesia, entendendo (e estendendo) o termo da melhor forma possível.
Assim sendo, vos digo que, se um dia me perguntarem o que resta aos escritores contemporâneos, ficarei em dúvida entre o pastiche proposital e a cópia descarada – a falsa noção de que está se fazendo e se discutindo algo novo. E o poeta “antipático”, foco desta resenha, me pareceu não se perder, sabendo muito bem o que faz e para onde ir ao evitar ao máximo um desses possíveis extremos.
E caso algum dia me perguntem sobre o que achei do livro dele, acho que vou sugerir uma olhada no EzraPound3. Ao menos em alguns dos seus conceitos sobre o fazer literário, antes que meu interlocutor pense em julgar Santiago Fontoura. Ou supor que faltou ao cara arrojo e “novidade”.
1 Drummond: mais para a chamada “fase do não”, seguindo a crítica; Bandeira: “Estrela da Manhã” já resolve a parada. Gullar: na forma e na poética em si, desconsiderando a fase “partidão”.
2 “É precisamente aqui que tem lugar o sistema usual de sofismar com meias-verdades. De fato, as melhores obras provavelmente ‘brotam’, mas só DEPOIS que a técnica se tornou uma ‘segunda natureza’, e o escritor não precisa mais pensar em CADA DETALHE, da mesma forma como Tilden não precisa pensar na posição de cada músculo em cada lance de tênis. A força, o impulso, etc., seguem a intenção principal, sem dano para a unidade do ato.” Ezra Pound em Abc da Literatura, página 72.
3 Como disse um amigo escritor: “O livro é quase um manifesto e, pra isso, é preciso ler um pouco a história da literatura, onde estava e para onde ele queria levar. Depois tem isso da tradução. Bom, vencidos esses pequenos obstáculos, o livro flui na leitura ahahahaha”. A gargalhada é verídica.
Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.
NA ORIGEM, SABIA-SE O NADA,
e saber era nada, e não havia véus,
e, por isso, tudo estava oculto.
E ocultuava-se o corpo com o corpo,
e o corpo, enrolado em papiro,
sendo o papiro feito do corpo.
Sendo o corpo feito papiro:
planura de inscrição de coisas,
das coisas, das fímbrias oscilações
constantes
da textura das águas
dos corpos, seus extratos de ares
ásperos.
Dizem que, na origem,
o corpo era todo línguas e lábios,
e havia matérias espécies, especiarias
cortantes, capazes de gravuras
sobre superfícies águas do corpo
e suas abismas quedas d’aves
estroçadas de tal modo que
até mesmo os antepassados
d’águas se arrepiavam
qual nuvem desaba do oitavo
andar d’algum sol há muito
nem servindo mais
a título de ocidentações
nem de orientações.
Na origem, sabia-se o nada,
e o destino é o outro nome para origem,
e origem é o outro nome para o destino.
E origem e destino são nomes outros
para esse imenso outro da palavra: o corpo.
***
ERMO DE UMA VOZ SOMENTE, O CORPO.
Inscrita no corpo
a palavra erra
os enormes abismos,
os entres do corpo:
aqueles que sim,
aqueles não
— são bocas.
Mesmo no beijo, há ínsulas,
mandíbulas sereias,
ruínas ruidosas,
pedaços, areias
de civilizações inteiras.
…….Anômalo orifício no silêncio do corpo, a boca
***
POR MAIS QUE PULSE,
a palavra,
trêmula pedra,
pulsa embaraçada na lei mosaica,
a que proíbe o derramar-se dos olhos.
A imagem denuncia o tempo no corpo,
enquanto, na palavra,
o tempo se redime,
conserva-se,
neste resinífero reino humano,
conserva-se palavra, apenas.
***
NO ENTANTO, HÁ MORTIFICAÇÃO
também na boca e na língua,
a palavra, quando preserva,
preserva porque mumifica.
Adivinha-se isso entrando
num estranho quarto
em que corpo e palavra frequentam-se
e frequenciam-se, imperativamente,
desde o final dos tempos.
Neste quarto, a lógica das paredes
— símile ao que um arquivo morto
sabe do mar —
pensa as papilas dos corpos,
pensando-as, sonha o sonho
de torná-las recortes de um sistema
nervural de conexões entre estrelas
e os ambíguos lábios do chão e da chuva.
***
AS PAPILAS DAS COXAS:
trilhamentos de vozes
chamando e soprando chamas
da carne, tremeluzindo,
como tremeu e luziu a carne
quando nela a vida soprada
qual a vela soprada pelo vento,
movendo os traços traçados
pela madeira riscando
a moura musculatura dos mares.
***
MORREMO-NOS, IMPERATIVAMENTE,
com nossas impérios de bolso,
com nossos deuses enrodilhados nos cabelos,
ou em pequenos códigos sensórios
qual um marinheiro suspenso
em dúvida
quanto a existência de céu e mar,
qual um homem indeciso
quanto a qual primeira parte olhar
do corpo da mulher que lhe
desloca a retina e as vértebras dos lábios.
Wesley Peres é psicanalista e escritor. Autor do romances Cartografias de um Doente dos Nervos (7letras, 2022), publicado com apoio financeiro do Itaú Cultural; Casa entre vértebras, (Record, 2007), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio São Paulo – 2008, e As pequenas mortes (Rocco, 2013). E dos livros de poesia: Palimpsestos, vencedor do Prêmio Coleção Vertentes em 2007; Rio revoando (ECA- USP, 2003); Água anônima, vencedor do Prêmio Cora Coralina 2002 e O Corpo de uma Voz Despedaçada (Martelo, 2019).
Mais um 31 de outubro havia chegado. Dias antes, na reunião de condomínio, os moradores do edifício Porto do Sol, à beira-mar de Boa Viagem, haviam decidido em maioria, por mais um ano, comemorar o Halloween, o famigerado Dia das Bruxas. Não sem antes ouvirem o costumeiro e veemente protesto de Patrícia, que insistira que a festa deveria ser em homenagem ao Saci, conhecida figura do folclore pátrio. Voto vencido, por mais um ano.
— Pois que encham este prédio com essas abóboras ridículas. O verdadeiro homenageado do dia é o nosso querido Saci!
Filha do falecido Major Vital, do glorioso Exército Brasileiro, Patrícia havia aprendido com o pai o amor à pátria e a valorização da cultura nacional. Contudo, dividia o andar com Cláudia, que considerava uma dondoca americanófila imbecilizada, entusiasta da festa estrangeira. Detestavam-se há anos, sobretudo nessas ocasiões. Aliás, o Quatro de Julho era outra data insuportável para Patrícia.
Pois muito bem, o Dia das Bruxas, digo, do Saci, havia chegado e as crianças perambulavam fantasiadas de andar em andar, pedindo doces ou ameaçando com travessuras.
A primeira leva de crianças do condomínio apareceu no andar do conflito “americano-brasileiro” e tocaram a campainha das duas portas opostas do hall. Ambas as adversárias ideológicas as abriram ao mesmo tempo e, de relance, encaram-se, para logo desviarem os olhares para as crianças.
— Doces ou travessuras! — gritaram em uníssono, estendendo sacolas.
A patriota, com uma grande sacola cheia de bonecos de sacis de pelúcia, distribuía os brinquedos, sempre lembrando: “hoje também é o dia dele, garotada.”
Cláudia, fantasiada de bruxa e com enfeite de uma assustadora abóbora na porta, distribuía doces dos mais variados à criançada. Não tardou para que estas corressem ao elevador. Cláudia não pôde deixar de censurar Patrícia:
— Você vai ficar dando esses bonecos ridículos a noite toda, vizinha?
— E você é bruxa de verdade para andar com essa roupa patética, querida? — retrucou Patrícia.
Fecharam as portas ao mesmo tempo.
E foi assim por toda aquela assombrada noite, as crianças ganhavam bonecos e doces e as duas trocavam ofensas das mais estapafúrdias.
— Você é uma alienada!
— Você não sabe brincar. São crianças, sua metida!
E por aí foi.
— Não sei como seu marido tolera você vestida assim na sua idade!
— E você só se manteve solteira por causa da pensão militar deixada por seu pai! Ou então porque é sem graça mesmo e nenhum homem a quer!
Essa tinha sido demais, mexeu com os brios de nossa patriota. Bateram as portas.
E passou aquele dia para o sossego de Patrícia. Rancorosa, guardou as palavras da vizinha como ofensa pessoal e à cultura nacional.
Passou-se um ano, nova reunião de condomínio, nova derrota de Patrícia, que, além disso, pelas normas estabelecidas para a ocasião, deveria dar apenas doces, em vez de bonecos de saci. Inclusive, foi uma insistente proposta de sua rival.
Porém, Cláudia não sabia com quem estava mexendo. Patrícia era filha de militar e, pior, realmente versada nos mistérios das ciências ocultas, cujos segredos, ecleticamente abrangendo desde a Wicca a magias de matrizes de diversas regiões do mundo, foram-lhe ensinados por sua mãe, que a iniciou numa secreta instituição mística feminina, durante a faculdade.
As crianças começaram a perambular nos andares de baixo. Até chegarem ao nono, onde moravam, Patrícia iria praticar sua travessura com aquela alienada fútil!
Primeiramente, dirigiu-se para a grande fotografia de pintura a óleo de seu pai, em trajes de major. “Não neste ano, pai.” Era bicentenário da independência do Brasil. E prestou sua reverência numa continência com semblante respeitoso e resoluto. Logo após, correu para um cômodo específico do seu apartamento, com um altar, um espelho e um monte de objetos cerimoniais misteriosos. “Mal-amada nunca, americana de araque”, pensou.
Numa cerimônia um tanto macabra, despejou um óleo perfumado, pétalas de rosas e outros ingredientes num caldeirão. Após isso, canalizou seu rancor a uma boneca de pano, em cuja perna esquerda enxertou um graveto para, em seguida, sussurrando: “quebra”, parti-lo em dois, ao tempo que se ouvia um estridente grito vindo do apartamento do outro lado do hall. Um malicioso sorriso de satisfação esboçou-se em sua bela face.
As crianças alcançaram o nono andar. As campainhas tocaram.
— Doces ou travessuras!
Patrícia, toda fantasiada de bruxinha, com direito a chapéu pontiagudo e estampa de luas e estrelas em seu vestido negro, abriu a porta com o sorriso de alegria.
— Aqui, meninos, muitos doces!
— Obrigado, tia!
Os pequenos voltaram-se para o apartamento de Cláudia e tocaram a campainha de novo, com ansiedade.
— Já vai!
Quem abriu a porta, no entanto, foi o marido de Cláudia. Esta veio mancando por trás e se apoiou nos ombros do marido. Sua perna direita estava quebrada. Escorregara durante o banho.
— Dessa vez não temos doces, minha esposa se machucou, estamos indo ao médico.
— Sem doces? — Um garoto com máscara de Freddy Krueger, valendo-se do anonimato, foi audaz:
— Que quebre as duas pernas, velha manca e mocoronga!
E todos os meninos correram rapidamente pela escada de incêndio abaixo, aos risos.
— Essa juventude… não sei onde vamos parar… — disse o marido da Cláudia, amparando-a no seu mancar em direção ao elevador — a propósito, vizinha, você está linda de bruxinha.
Cláudia fuzilou os dois com os olhos. Não queria acreditar no atrevimento de seu marido e sequer imaginar qualquer coisa além de um inocente elogio.
— Obrigado, querido — disse Patrícia com sorriso nos olhos e uma piscadela — e feliz Dia do Saci para vocês! — finalizou retirando um involuntário sorriso do marido de Cláudia. Esta lhe deu um leve tapa na nuca, indicando com os olhos o elevador. Foram-se. Patrícia estava radiante, correu à sala e bateu nova continência diante da fotografia de seu saudoso pai. Missão cumprida! Doce travessura!
E nunca mais nossa bela e querida patriota foi impedida exaltar a cultura nacional no condomínio, ainda que fosse a entregar os já afamados sacis de pelúcia, seja no detestável Halloween, seja nas ocasiões de comemoração do nosso folclore. Pois bruxa que é bruxa de verdade encanta, não apenas nas vestes, como também enfeitiça em sigilo… em qualquer dia do ano.
Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP.Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional.
entender que a função
do giro
é a propulsão ocasional
para fora da órbita
…………..mas também
aprender a me mover
fora da febre
das apostas
dentre aquilo que gira:
mais que roleta,
ser engrenagem
mais que engrenagem, ……………..ser móbile
***
não sei dar forma ao cristal
minhas mãos cansadas
acompanham mais
o ritmo frágil
quebrável
dos grafites,
a intimidade
do borrão
decerto minhas prendas
te parecerão precárias
perdidas em folhas vadias ……….,…que aspiram à aderência de tuas costelas ……….,…que aceitam a destruição ……………………………………………………….no calor úmido ……………………………………………………….de tuas palmas
………….que admitem inaugurar funções:
marcar as páginas
dos teus segredos
(confissões expiradas
em dobras-cicatrizes)
manejo grafites para que
ao te furtar um instante …… a suspensão de um ou dois …… pensamentos …….(talvez a sorte de uma lembrança)
meus rabiscos se percam
na paisagem do teu caos
expondo-se ao risco
de um resgate: ………………………………uma nota apressada ………………………………um abano …………………………….. um corte no dedão
………..o mistério de uma mancha indecifrável
[uma virada de tempo
uma mudança de estação]
preferíveis à dignidade imóvel
do totem sempre à vista
na prateleira alta …………….translúcido de costume …………….empoeirado de apostasia
***
devora-me
sustentar os ouvidos aos uivos
deixar-me emudecer pelos enigmas
parasitar o labirinto das entranhas
que me devoram
ofertar os braços aos ecos
que me cravam as unhas em atrasos:
aprender a costurar a sombra
em lugar de cinzas
***
um sopro para Emily Brontë
o céu é pouco
e a relva é rara
a noite se fantasia
entre ruídos mecânicos
e luzes frias
resoluções se iluminam
na escalada ……..de degraus ………..e de aparelhos aeróbicos
onde murmuram
joelhos e manivelas
sei que palavras imortais
enchiam os sussurros dos teus sonhos
mas se quero interceptar
a síntese dos tempos
preciso filtrar
ladainhas elétricas
que não me resfriam
a pele
e que só me arrepiam
por estática
preciso lembrar que por trás
dos pixels
também se sangra
***
legente
sei que tardo
que insisto
em fazer morada
no fundo
onde espáduas tantas
deslocam-se
inermes à minha leitura:
curvaturas apontando
as variações
dos sonhos
***
exercícios de pouso
baixar num canto
à sombra
minha bagagem
deixar que o vento
devasse
os umbrais
que restos repousem
no encontro
cada qual
com seu anteparo
deixar no abraço escuro
da crisálida
delicadamente
os nós que me
sustentam
desatar
membros frescos
para novos
movimentos
Aline Aimée é carioca, servidora pública e mestre em Literatura Brasileira pela Uerj. Publica poemas e fala de livros no Instagram e no Youtube, é mediadora em clubes de leitura. Tem textos publicados em sites e revistas literários, é autora de “Doze pétalas, nenhuma flor” (edição independente) e “Uma reserva de sutilezas” (Editora Patuá), participou das coletâneas “Leia Mulheres – contos e Prêmio Off Flip 2021”. “Exercícios de pouso” (Editora Patuá) é seu livro mais recente.
Lançado em 2022 no Festival de cinema de Berlim, sendo aclamado em outros festivais internacionais, como o “Cinema du Réel”, em Paris, ou o Festival do Rio (2022), a última obra da dupla Adirley Queirós e da portuguesa Joana Pimenta só foi lançado em cinemas comerciais no Brasil neste ano de 2023. Para falar desta obra insólita, no entanto, é preciso retornar à obra anterior da dupla, Era uma vez Brasília, de 2017.
Em Era uma vez Brasília, o agente intergaláctico WA4, após fazer um loteamento ilegal em seu planeta de origem, chamado de Sol Nascente, é preso e para ser perdoado deste crime e receber uma moradia para ele e sua família, recebe a missão de viajar no tempo e no espaço e matar o presidente Juscelino Kubitschek no Brasil. No entanto, devido a problemas em sua nave precária, WA4 cai em Brasília em 2016, precisamente no momento histórico em que ocorre o processo de impeachment da Presidente Dilma Roussef. Sua história é contada por Marquim da Tropa a Andréia Vieira, a Rainha das Kebradas, que será a responsável pela rebelião para expulsar os monstros que tomaram conta da sede do governo brasileiro.
Assim, nesse filme de 2017, o estilo da ficção científica fornece uma alegoria cinematográfica para confrontar o retrocesso representado pelo impedimento da Presidente deposta: só através do desaparecimento da capital brasileira seria possível salvar o Brasil. Contra o projeto golpista da “Ponte para o Futuro” (expressamente citado no filme), Adirley e Joana apresentam a viagem no tempo para o passado e a temática do “paradoxo do avô”, temas clássicos dessa abordagem narrativa. O filme também recupera o personagem viajante e cadeirante Marquim da Tropa, do filme anterior de 2014 (apenas de Adirley) Branco Sai, Preto fica, assim como a temática das viagens no tempo através de naves precárias (neste último filme representada por um container). Por sua vez, o personagem de Andréia Vieira estará presente em Mato seco em chamas, de 2022. Assim, os três filmes de Adirley, os dois últimos com Joana Pimenta, estão conectados, menos como uma saga ou uma série, mas como uma passagem cinematográfica de bastão. Cada filme recupera do anterior um gancho, uma peça do argumento, que serve como um “fio” para sustentar o roteiro minimalista da obra seguinte.
Em Mato seco em chamas, três ex-presidiárias, Léa (vivida por Léa Alves da Silva), sua irmã Chitara (vivida por Joana D’Arc Furtado) e Andréia Vieira (ela mesma), acham petróleo num oleoduto que passa no subsolo de seu terreno de moradia (de Chitara) e montam uma refinaria “caseira” para extrair o combustível e vendê-lo a um preço barato aos motoboys da favela Sol Nascente em Ceilândia. Elas se tornam então famosamente as “gasolineiras”. Ao mesmo tempo, Andréia começa a campanha para se eleger deputada pelo PPP – Partido do Povo Preso. O negócio das meninas é visto com preocupação pelas forças da lei, da ordem e do mercado, e as amigas precisam montar guarda na refinaria, que está ameaçada por uma espécie de caveirão, um blindado com agentes fiéis ao lema Deus, Família e Pátria. O enredo se desenrola entre as eleições de 2018 até o momento da posse do ex-presidente Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019.
Mato seco em chamas / Foto: divulgação
Há, portanto, pontos de contato, como “encaixes” narrativos entre os três filmes, mas o que de fato os liga definitivamente é o “estilo” cinematográfico de Adirley e Joana. Os diretores são conhecidos por construir cenários e roteiros de “ficção científica periférica”, ou ficção científica precária. De fato, o autor brasiliense, com sua produtora 5 do Norte, assim como seus colegas de Contagem (MG), da produtora Filmes de Plástico, já bastante comentados nesta revista, são cineastas da periferia, ou como disse um crítico, do “ponto de vista da laje”. Esses autores não fazem filme sobre a periferia, mas da periferia. É a perspectiva (ou a objetiva) da própria periferia que está em ação. Seus filmes comungam do registro não só da realidade como da fantasia das comunidades periféricas. Assim, em Marte Um, de Gabriel Martins, um menino da periferia de Contagem, que já é periferia de Belo Horizonte, sonha em estudar astrofísica e viajar para Marte. Este sonho recupera um ideal tecnológico como utopia da periferia, num momento em que justamente os horizontes utópicos se rebaixaram. As amigas Léa, Chitara e Andréia, que montam uma refinaria e extraem petróleo com seus próprios meios e braços, já produzem sua própria utopia, e sonham a partir daí com uma vida melhor, transformada.
Comum também a todos esses filmes é a indeterminação entre realidade e fantasia. A fronteira ficcional nunca está completamente clara, sobretudo em Mato seco. As moças que são, na ficção, ex-presidiárias, também o são na “vida real”. Léa também se chama Léa e Andréia, Andréia. Chitara era o apelido de capoeira de Joana Furtado. Léa e Chitara são efetivamente irmãs. Numa das cenas do filme elas conversam sobre seu pai. Este é ao mesmo tempo um registro documental e ficcional, pois está inserido dentro da trama, das moças que conversam enquanto montam guarda na refinaria fictícia (que, no entanto, é um cenário dramatúrgico efetivamente construído para a realização do filme e que permaneceu na comunidade durante alguns meses). Por outro lado, a própria atriz Léa torna a ser presa durante as filmagens. Essa prisão é incluída igualmente na montagem final. E finalmente, há as cenas referentes ao contexto histórico. Distante alguns quilômetros da refinaria, Jair Bolsonaro toma posse. O filme inclui as cenas, feitas pela própria equipe produtora, do dia da posse presidencial, quando a Praça dos Três Poderes é tomada pelo público “verde-amarelo” apoiador do ex-presidente. A história ficcional se passa paralelamente à História oficial. Os mesmos fogos de artifício que iluminam a sede de governo também iluminam a laje da refinaria.
No entanto, este paralelismo gera no filme de Adirley e Joana um estranhamento cognitivo: o tempo da ficção se ramifica e se dobra em torno de si mesmo gerando efeitos não-lineares. A montagem cinematográfica privilegia não uma narrativa de temporalidade linear, mas se desenvolve em torno de eventos singulares, cuja localização temporal é indefinida. Léa, que é presa numa cena e encaminhada ao presídio feminino, reaparece depois livre conversando com seu irmão motoqueiro. Não sabemos se esta conversa acontece antes ou depois da prisão. Ele, o irmão, mostra a Léa a comunidade transformada e eles passeiam pela construção do que será, futuramente, um enorme presídio federal bem no meio da comunidade. Sol Nascente, recentemente recenseada como a maior favela brasileira, é transposta então para um tempo feérico. O estilo de ficção científica periférica, pela qual o diretor Adirley é conhecido, se torna fantástico, como um Mad Max brasileiro ou, ainda melhor, como um novo Bacurau.
Mato seco em chamas / Foto: divulgação
No entanto, a ficção científica de Mato seco é mais um “mcguffin” do filme. Ela permite embaralhar fato e ficção, o real e a fantasia. Como disse Adirley numa entrevista, para falar de futuro é só ligar uma câmera na periferia. Há neste filme, como nos anteriores, uma “estética da sucata”. Assim como as naves construídas em containers ou em kombis, agora é toda a refinaria que é construída de forma “artesanal”, com os materiais disponíveis. A fábrica de petróleo é movimentada inteiramente por braços femininos, que recuperam para o contemporâneo toda uma nova dignidade para o trabalho físico e manual. A sonoplastia do filme é um elemento fundamental dessa estética. O som incessante das máquinas funcionando ressoa como elemento acústico de atrito e de intervenção de um real material, obrigando a que o próprio contexto histórico (que acentua o trabalho imaterial) pareça fantasioso.
Essa fantasia não serve para borrar a fronteira entre fato e ficção, mas para figurar outra temporalidade que transcorre cortando a realidade histórica dominante. O filme de Adirley e da portuguesa Joana Pimenta (com fotografia e cenografia primorosas) tem a linguagem do corte ríspido (na edição incrível de Cristina Amaral) e do choque estético que contrapõe nossas noções de classe (como na cena do churrasco na refinaria, quando sentimos aflição com as moças comendo com as mãos cheias de graxa). A cena em que a quarta parede cai é uma intrusão diegética súbita do real na ficção. Se os espectadores ficam “chocados” com as personagens fumando ao lado de tanques de petróleo, era essa mesma a intenção dos diretores. Esse choque estético tem um elemento de real que se contrapõe à cena esdrúxula da posse do ex-presidente. Seus apoiadores, em seu culto desvairadamente kitsch, parecem mais irreais do que as personagens ficcionais.
É incrível que filmes como Marte Um e Mato Seco sejam precisamente obras que abordam os modos como a periferia teve que se “virar” no período bolsonarista. Ambas as obras se passam exatamente no mesmo período histórico, quando as periferias brasileiras se defrontaram com o fato da extrema-direita chegar ao Poder. É, no entanto, uma estética sobre a pluralidade dos mundos: cada periferia é um mundo autônomo não só do ponto de vista da realidade, bem como de seu imaginário. No filme de Adirley e Joana estão justapostos na noite seca de Brasília o Poder e a Periferia. A estética da sucata funciona como um modo próprio (ou impróprio) de se trabalhar materiais e signos em reciclagem e para construir outro mundo autônomo em coexistência. Esta obra tem base numa filosofia da gambiarra, numa gambiologia. Isso significa não apenas um elogio ao precário, ou mesmo ao precariado, mas antes a uma ideia de que a obra de arte não é um produto acabado, mas que funciona com “ganchos” ou “puxadinhos” semióticos, com ligações com outras esferas de reprodução da vida, como a economia ou a política, ou ainda com a própria estética. E finalmente entre realidade e imaginário. A estética ficcional “gambiarrada” do filme não é afinal a da tradicional montagem cinematográfica, mas sim a de uma DESMONTAGEM poética do padrão global, hegemônico, da verossimilhança dos paradigmas narrativos dominantes e sobretudo das falácias da ideologia de extrema-direita, com suas conspirações, mentiras e violência.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador doClube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.
Um dia depois da derrota do bozo saí à rua com a pretensão de passar despercebido. Cláudia me pediu prudência e cuidado. Eu estava pouco me fodendo com o que os bolsonaristas iriam pensar. Para mim, o caso estava superado; sem mais brigas e discussões daí para frente. E, além de tudo, estava com uma ressaca filha da puta, que me revirava os miolos a cada passo. Eu deveria estar no escritório às 10h, pelo menos. Recebi mil mensagens de felicitações, por nosso novo presidente, mas uma em particular me afetou: “Petista vagabundo, está morto”. Claro, o número era confidencial. Pensei em fazer um B.O. na delegacia, mas percebi que não adiantaria muito, não iria “dar em nada”, como ouvi algumas vezes. Cheguei ao escritório, e uma amiga olhou para mim sorrindo, leve e feliz, sem esboçar qualquer palavra; ela é do meu time. Os outros colegas são, em sua maioria, “em cima do muro”, ou seja, bolsonaristas enrustidos. O ambiente estava tenso. Um colega passou na minha mesa e me deu os parabéns, com um ar zombeteiro, querendo puxar conversa: “Eu sabia que Lula ia ganhar, rapaz… Com ele no jogo, não tem para ninguém… Aliás, agora, não tem para ninguém mesmo!”, insinuando que Lula havia roubado e que estaríamos numa ditadura – fiz essa interpretação porque sei com quem estava falando. Suspeitei dele, sobre a maldita mensagem. Ele é do tipo rasteiro, sujo, capaz de passar a perna até mesmo no Honório, um antigo colega de trabalho, que saiu por implicância do dito cujo, o baba-ovo do dono. Stélio, o chefão, não poderia ser, apesar de não disfarçar a raiva e a apreensão. Entrou na nossa sala aturdido, dizendo que teríamos de resolver as nossas pendências “para ontem”, porque “o ano não estava para brincadeira”. Decerto, contava com o estado comunista; que nos tornaríamos, logo, logo, uma Venezuela, coisa do tipo. Mirei-o com um olhar sereno, para transmitir tranquilidade e estabilidade. Soube que ele, no mesmo dia, havia feito o desligamento de duas empresas de mídia, porque havia o risco de uma guerra civil no Brasil, iminente. Apesar das nossas profundas diferenças, ele me tratava bem por ser o seu braço direito na formulação das peças jurídicas, sempre intrincadas por sua mente caótica; e eu, logo eu, era responsável por desatar o nó. O novo colaborador, Jackson, mal olhava para os lados. Era meu imediato. Cumpria tudo a rigor, sem precisar de carões e afins. Nesse dia, teria saído mais cedo para resolver uns problemas no banco, para o chefe. Não poderia ser ele o agressor. Tácio e Lorena, os atendentes, não teriam tal liberdade, ainda que remotamente eu receasse que Tácio tivesse virado a cabeça, lunático que era. Ele, sim, era bolsonarista de carteirinha. Usava um broche com a bandeira do Brasil desde o começo do ano. Poderia ele planejar um atentado? Não consigo imaginar, com aquela cara de tacho e uma cabecinha trivial. Desde que eu havia chegado ao escritório ele não cruzou comigo; estava no almoço, depois na sala do chefe e no banheiro. Quem mais poderia me desejar a morte? Descartei Lorena, que era muito frágil e maria-vai-com-as-outras; votou talvez no belzebu por influência de seu parceiro de trabalho, com quem também mantinha relacionamento. É fato que, nesse tempo eleitoral, havia arranjado vários desafetos. A família estava dilacerada, não por mim, mas por parte achar que era dona da razão; por se juntar a um projeto de morte; por estar acampada em frente aos quartéis – e ainda dizia que iria salvar o país, mesmo para um comunista como eu. Apesar dos pesares, não consigo vislumbrar que algum desses malucos teria a capacidade de me ameaçar ou me desejar a morte. A não ser Francisco, o marido de minha prima. Puta que pariu, por que não me lembrei antes? O canalha, antes das eleições, apostou até o carro, alegando, veemente, que o bozo ganharia. Deve estar falido e desesperado. Liguei imediatamente para Cláudia, minha digníssima, e desmarquei a nossa ida ao aniversário da filha do sujeito, que se daria em duas semanas. Melhor prevenir do que remediar. Cláudia, bastante triste, disse que também temia a imagem brutal de Francisco. Bem, estas linhas são para descrever o pior dos cenários: Francisco está preso em Brasília, depois do 8 de janeiro. Saiu em todos os veículos de comunicação que ele foi um dos responsáveis por organizar o ato terrorista. Em seu celular, descobriram que havia um plano para dizimar a população comunista, incluindo o vencedor do pleito presidencial. Esse “um dia depois das eleições” se arrasta e ainda gela os meus ossos.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Essas paredes brancas
tangíveis e mudas
haverão de tergiversar
sobre o futuro do mundo
Cal e superfície
na fundação permanente
de faces nebulosas
ocultai vossas fissuras!
Padecerão atônitas
vendo tão necromantes
esporófitos e poros
anunciarem o fim dos tempos
E ainda temerosas
ouvirão o (com)passado
líquido invasivo
a corroer a matéria das certezas
Orbe de destruição
contra a face insuspeita
por dentro a fisionomia
a máscara atravessada
À ruína anunciada,
fragmentos orgulhosos
cantam a supremacia
das paredes brancas
e suas texturas
ultrapassadas
***
Terraplanário
Extinguiu-se a órbita
do geoide farsante
nessas ilusões geométricas
de bestas quadradas
a Verdade virá
Fomos todos precisos
à beirada do mundo
e caímos nos abismos
abismados da constatação
Planos sinistros
na planície terrestre
planaram proféticas
anunciações
jamais em nenhuma circular
Esféricos delírios
postos à prova
pelo incrível
homem Chato
Compacto
nivela todos os seus
à mesma superfície
***
Lembre-se de não viver
Desinstalar a vida
já que a morte
não nos constrange
e nada do que ficar
será nenhuma lição
apenas acumularemos
ossos frios e apatia
a certeza da crueldade
de um rebanho irascível
pisando firme
na borda do abismo
Desinstalar a vida
já que a morte
é nossa rotina
e jantamos na sala
com o cheiro de defuntos
devotos devorando
a carne podre do salvador
Desinstalar a vida
já que a morte
é o que capitaliza
e toda nossa ruína
é a ferrugem
que corrói
a efígie de prata
***
Radícula
Laboras a terra
doando de si
tudo em solo e ternura
Revolve pedras
e guarda seixos
pavimento de caminhos
sinuosos
Dança das raízes
no absoluto desejo
ramagens violentas
intromissão e segredo
Aragem promissora
pois deita as sementes
envoltas de futuro
Tão logo rompe
numa brecha arriscada
broto vacilante
dizeres de planta
utopias sazonais
***
Aquarius
Sombras da morte
noite dorida
sob corpos já cansados
atados vigilantes
guardam as portas
dos templos de outrora
tão poucos esperam
vivos e resilientes
nascituros da aurora
Um raio de luz
pois age certeiro
gume radioso
ferindo espessa escuridão
Faz ansiar pelo dia
banha os espíritos inquietos
na trilha do tempo
ritual da memória
Deságua na força do ser
águas de outros riachos
aquosa revolução
tudo destrói e cria
na dinâmica do mundo
animal que crê e luta
***
Liturgia das Horas
Para meditar ao som
de Ventura Profana
Dayse
por aqui se fechou tudo
os goles de concreto
descem rasgando
a garganta
& dilata-se
cotidianamente
a abertura ao horror
Dayse
por aqui se queimou tudo
terra bruta e quente
na qual nenhuma raiz
rizoma ou sortilégio
passará pela brecha
Dayse
por aqui se aniquilou tudo
com palavras de benevolência
que aninharam
serpentes sacerdotais
chocadas no ninho
do Pai Eterno
Dayse
por aqui se viveu pouco
choveu sangue massivo
retinto, pobre, dissidente
desembocando
na voz da violência
Dayse
por aqui ainda se luta
quando uma trava
desce o morro
para sovar o pão
nosso de cada dia
& o reparte
com as outras
discípulas do sangue
& corte
Tallýz Mann é uma byxa-travesti não-binária, natural de Jussari, cidade que fica no litoral sul baiano. Licenciada em Letras Espanhol/Português, é Mestra e doutoranda em Letras pelo PPGL: Linguagens e representações, da UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz). Atualmente tem pesquisado sobre as escritas de si de autoras transvestigêneres brasileiras contemporâneas. Escreve versos desde os nove anos. Participou de antologias poéticas e recentemente publicou PoemAtos & outras: inscri(a)ções (2023), pela editora Patuá.
O chileno Benjamín Labatut, em Quando deixamos de entender o mundo (2022), é um escritor borgeano que abandonou o misticismo gnóstico presente no argentino para se dedicar a tratar literariamente da ciência moderna em narrativas igualmente desconcertantes e de gênero incerto. Algo entre biografia geracional, poesia cosmológica e ensaio especulativo. Mas o que me chamou a atenção num primeiro momento foi o esforço de caracterização de cientistas como aquele tipo de herói que parece decalcado do que eram os poetas românticos do século XIX: obcecados por suas ideias brilhantes, excêntricos, doentios, gênios incompreendidos, místicos, competitivos, trágicos e apaixonados. Muito do que marca o estilo dessas caracterizações é uma adjetivação implacável, seja através dos próprios adjetivos – como os que usei acima para seus personagens –, seja por orações adjetivas. Além de caracterizar sujeitos que o senso comum toma por alheados do mundo, tal procedimento dá sabor e riqueza literária aos textos.
Um outro traço das histórias de Labatut – mais sofisticado do que essas representações romantizadas – é sua capacidade de articular narrativamente enredos, o que dá aos seus textos certo caráter de crônicas da vida e da obra de uma geração de cientistas. Um dos elementos de que lança mão são as datas, o que possui lá sua objetividade histórica, embora a articulação não seja verídica, e sim verossímil. Isso é reforçado por aspas retiradas de cartas e diários como fontes comprobatórias do que narra. Mas é a especulação o que mais me chama a atenção, e o que pode nos levar a nomear suas narrativas como ensaios especulativos. Encontramo-la às vezes como um tipo de poesia cosmológica, que são as tentativas de Labatut em verbalizar as brilhantes equações matemáticas que os obcecados cientistas formulam para fenômenos de existência puramente teórica.
Há uma passagem do conto “Quando deixamos de entender o mundo” em que Werner Heisenberg ouve de Niels Bohr que “o físico – como o poeta – não devia descobrir os fatos do mundo, mas apenas criar metáforas e conexões mentais. […] Esse aspecto da natureza requeria um novo idioma”. É como se essa passagem, que Labatut reputa como de Bohr, referendasse as próprias descrições de Labatut das equações de Heisenberg e seus rivais. Falando do matemático Alexander Grothendieck em “O coração do coração”, Labatut escreve que “adorava escolher le mot juste para os conceitos que descobria, como uma forma de amansá-los e torná-los familiares antes de que fossem compreendidos sem uma totalidade. Suas étales, por exemplo, evocam as ondas tranquilas e dóceis da maré baixa, o mar como um espelho imóvel, a superfície de uma asa esticada ao máximo ou os lençóis com os quais se cobre um recém-nascido”.
Se, então, essa poesia descritiva da cosmologia científica dá às narrativas seu traço de ensaio especulativo, há também algo dessa especulação ligada a uma outra cosmologia, talvez o principal arcabouço do livro, amarrando textos autônomos. Refiro-me ao contraste estabelecido entre a última das narrativas e o “Epílogo”. Ela ocupa metade das páginas e com o mesmo título da tradução brasileira, é a que trata da história de alguns dos principais físicos teóricos que depois se reuniriam na Bélgica no ano de 1927 para de alguma forma fundar a física quântica. Trata-se de uma geração dourada de cientistas europeus nobelizados que pareciam, com suas formulações brilhantes e rivalidades teóricas, alheios ao mundo de ascensão do nazifascismo no período entreguerras, bem como às arriscadas consequências de suas invenções.
Não é uma história nova essa contemporaneidade entre a criação de uma ciência teórica, distante anos-luz do mundo cotidiano, a ascensão do nazismo, a guerra daí decorrente e a bomba que pôs fim ao conflito no Japão. No livro, também encontramos essa contemporaneidade logo na primeira narrativa, “Azul da Prússia”, sobre a origem, como pigmento azul para pinturas, e os usos do cianureto para suicídio por oficiais nazistas. “Azul da Prússia” é um exemplo da habilidade de Labatut em amarrar histórias aparentemente díspares. Essa especulação narrativa, encontramos, por exemplo, no enredo que entrelaça de modo misterioso as histórias do matemático japonês Shinichi Mochizuki, admirador de Alexander Grothendieck, cuja vida e obra são contadas até seu voluntário isolamento nos Pirineus. Na hora de sua morte, em 2014, lemos a sugestiva hipótese de o japonês estar ao seu lado do leito hospitalar. Pura ficção entrelaçando vidas de dois matemáticos brilhantes e desconfiados das instituições responsáveis por financiar pesquisas avançadas.
Já o Epílogo, todavia, intitulado “O jardineiro noturno”, aponta para o título original do volume, Un verdor terrible, e explicita um contraponto a todas essas histórias trágicas: um narrador (o próprio Labatut?), entre reflexões sobre a vida junto à natureza, descreve a exuberante paisagem andina encontrada no Chile, em especial junto de uma pequena cidade onde se depara com um ex-matemático que abandonou a profissão para se tornar jardineiro e aprender a lidar com plantas. Teria abandonado a matemática inspirado justamente pelo desaparecimento voluntário de Grothendieck. O jardineiro lhe conta saber como árvores cítricas morrem: “sucumbem por superabundância”. Então o narrador lhe pergunta quanto tempo de vida teria seu limoeiro, ao que o jardineiro lhe responde que “não havia como saber, pelo menos não sem antes cortá-lo e olhar dentro do tronco. Mas quem iria querer fazer isso?”. Assim, o livro se encerra e deixa para o leitor a tarefa de comparar esse limite de curiosidade do jardineiro com a hybris trágica que brilhantes cientistas legaram à humanidade.
Concluí a leitura notando que Einstein pouco aparece em suas páginas, sendo esses momentos preciosos contrapontos ao brilho científico dos demais, como quando ele acusa Bohr e Heisenberg de, com seu princípio da incerteza, desmaterializar a realidade física, afirmando que “Deus não joga dados com o universo”. Inspirado pela presença sibilina de Einstein nas narrativas, lembrei de outro livro, No tempo das catástrofes, da filósofa da ciência belga Isabelle Stengers. Nele, ela faz invectivas para que os cientistas politizem suas pesquisas, diante da catástrofe ambiental instalada e crescente, a que chama “Intrusão de Gaia”. Stengers sugere a ciência e os cientistas passaram a ser hoje cultuados, como se tivessem
muito a ver com a ideia de que o pensamento “é algo que se conquista’” [que] pede renúncia e solidão. Por isso muitas daquelas “cabeças pensantes” poderão, por outro lado, se curvar com respeito diante da paixão de Antonin Artaud, que berrava e vociferava que o pensamento não estava “na cabeça’” Mas o que é importante para eles é que berros e vociferação traduzam uma experiência radical, na vizinhança mais próxima possível da loucura. Artaud, promovido a herói cultural, nos oferece então a confirmação de que o Homem é capaz de afrontar, ainda que se perca nele, o caos abissal que é preciso manter a distância para pensar.
Há algo nessa passagem de Stengers que liga Artaud aos cientistas de Labatut que propiciaram, com seus ímpetos de conquista científica, a criação da bomba atômica e, daí, a crise ambiental que proporções planetárias e que apenas começamos a adentrar. Esses “heróis culturais” do século XX afrontaram “o caos abissal” e, se nos legaram orgulhosas fórmulas de enorme conhecimento abstrato, também nos puseram na rota de um risco iminente. Mas isso não é Labatut quem diz – sou eu, leitor, que concluí com o fim dessa leitura fascinante.
Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.
Sob o delicado manto das formas, há um universo embebido em mistérios que são fruto de nossas humanas idades. Nele, cabem as paisagens múltiplas que contemplam as porções interiores do ser, espaços constituintes do vivido e também do imaginado. Todo esse acervo é fonte de um manancial imagético capaz de retratar mundos no mundo, recortando possibilidades e sensações ao alcance do olhar que tem predileção pelos detalhes.
E eis que assim o faz Magali Abreu em sua travessia artística. Com um trabalho que ajunta os fragmentos sensíveis da existência, a fotógrafa nos oferta um panorama de alternativas cujas imagens simbolizam o gesto da recomposição da vida, processo este que não se descola da ideia de que o mundo pulsa intermitente entre os sentidos das dissoluções e reconstruções.
Ouso dizer que as fotografias de Magali ressignificam memórias em torno de pessoas e lugares. E na confluência entre a matéria tangível das coisas e a atmosfera das porções abstratas, forma-se um conjunto orgânico de sensações visuais que contêm afetos e também contemplam saberes e sabores particulares, desses que fazem sentido dentro da esfera líquida e secreta das imagens.
Daí que faz todo sentido se deixar guiar pelas imersões propostas pela artista, posto que ela nos atrai a um movimento que se assemelha também a um mosaico de representações. Mas para que isso se opere é preciso observar todo o véu poético que recobre as imagens da fotógrafa. É ele quem protagoniza os modos de exibição duma arte que encontra seu diferencial por não nos entregar facilmente os mapas de todos os percursos sugeridos.
Foto: Magali Abreu
Dito isso, cabe-nos o salto e os efeitos das descobertas para regiões mais profundas, zonas por onde circulam sentidos passíveis de espanto e/ou encantamento. Da mesma maneira, as fotografias de Magali Abreu parecem conter clamores em favor de uma nova ordenação para o humano, condição que retira do caos que nos acomete o fruto de eventuais libertações. Afinal, se o nosso olhar mais atento é capaz de redimensionar o modo como miramos o interno e o externo, também a arte poderia fazê-lo por intermédio de seus provocadores atributos.
Como a própria artista confessa, seu processo criativo é um se deixar levar pelos impulsos, fluxo por onde transcorrem naturalmente os estímulos dinamizadores de sua obra, a qual busca emocionar pessoas. Além disso, Magali assinala privilegiar o caráter subjetivo de seu trabalho, estabelecendo elos com suas porções íntimas, além de promover uma mescla entre o onírico e o real. Em sua trajetória, a fotógrafa baiana reúne exposições, premiações nacionais e internacionais, bem como menções honrosas.
A partir da aura enigmática que perpassa as fotografias de Magali Abreu, nos é dado perceber que a arte é fundamentalmente o encontro com a sugestão, considerando que um artista é aquele que nos conduz até certo ponto da jornada, pois o restante do percurso, muito provavelmente a sua maior parte, é feito por todo aquele que se permite mergulhar naquilo que se apresenta diante da sua visão. E é de se suspeitar que somente o mergulho não garanta a fruição da viagem, já que ninguém passa incólume pelas paragens artísticas, ainda mais quando estas desacomodam inquietudes.
Foto: Magali Abreu
* As fotografias de Magali Abreu são parte integrante da galeria e dos textos da 152ª Leva
Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.