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	<title>153ª Leva &#8211; 01/2024 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<description>entre caminhos e palavras</description>
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	<title>153ª Leva &#8211; 01/2024 &#8211; Diversos Afins</title>
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		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 14:27:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[aniversário]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 153ª Leva - especial de 18 anos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/12.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="362" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/12.jpg" alt="" class="wp-image-20565" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/12.jpg 362w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/12-217x300.jpg 217w" sizes="(max-width: 362px) 100vw, 362px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Arte: Zô</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há 18 anos surgia a Diversos Afins. E eis que apareceu dentro de um contexto de efervescência das produções em meio digital. Era o ápice de blogs e sites dedicados a todo tipo de narrativa no front cultural. Muitos espaços personificavam os estilos de novos autores, individualizando condutas de publicação dos textos. Foi importante testemunhar a aparição de um sem fim de expressões da poesia e da prosa, desde iniciantes e até mesmo dos mais consagrados. Igualmente recompensador foi também perceber a chegada de vários portais e revistas dedicados não somente à Literatura, mas a outras artes, apresentando em seu cardápio multifacetado resenhas, ensaios e textos sobre cinema, teatro, música e outras frentes. Cada um com sua identidade própria, com seu jeito de ofertar aos leitores modos peculiares de estruturação dos conteúdos. No meio dessa borbulhante paisagem, nossa revista figurava como uma janela através da qual parte importante desse oceano de produções se fazia adentrar. Definida a sua política editorial, a Diversos Afins manteve desde o início o intuito de acolher novos autores, em grande contingente inclinados a &nbsp;desengavetar seus escritos pela primeira vez, interessados por oportunidades de publicação. No ofício de se editar uma revista, há muito aprendizado envolvido, sobretudo aquele que decorre das trocas estabelecidas com parceiros, colaboradores e leitores, todos eles, ao fim e ao cabo, se colocando como verdadeiros entusiastas de cada edição. Chegar a mais um ciclo de existência significa muito para nós, pois, mesmo nos hiatos que se impõem à jornada, a vontade de seguir adiante permanece viva. De ânimo sempre renovado, os encontros do presente constroem nossa 153ª Leva. Nela, descortinamos os poemas de gente como <strong>Nívia Maria Vasconcellos</strong>, <strong>Constança Guimarães</strong>, <strong>Julia Sereno</strong>, <strong>Camila Passatuto</strong> e <strong>Christian Dancini</strong>. Na cartografia presente pelas alamedas desta edição, as imagens de <strong>Zô</strong> nos fazem companhia, arte que transborda recortes sutis do cotidiano. Em nosso caderno de cinema, <strong>Guilherme Preger</strong> nos provoca a ver e sentir “Motel Destino”, filme mais recente de <strong>Karim Aïnouz</strong>. É <strong>Alex Simões</strong> quem nos convida à leitura de “onde a água faz a curva”, livro do poeta <strong>Matheus dos Anjos</strong>. Na entrevista concedida a <strong>Gustavo Rios</strong>, o escritor <strong>Victor Mascarenhas </strong>fala sobre os percursos que o levaram à construção de seu último livro, “Sete dias em setembro”. O mais recente livro de <strong>Ruy Póvoas</strong>, “O Risco e o Laço – traçados do destino nagô”, é tema das apreciações de <strong>Tica Simões</strong>. Os contos de <strong>Neuzamaria Kerner</strong>, <strong>Adriano Espíndola Santos</strong> e <strong>Paulo Zan</strong> tecem um instigante mosaico de narrativas mundanas. Nas impressões sonoras de <strong>Fabrício Brandão</strong>, o disco “Milton + esperanza”, fruto da especial parceria entre <strong>Milton Nascimento</strong> e <strong>Esperanza Spalding</strong>, agora gira na agulha de nosso Gramofone. É tempo de, com imensa gratidão, celebrar junto a nossos leitores e colaboradores o nascimento de uma outra etapa. Boas leituras e mergulhos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros </em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Gramofone</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-87/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 14:07:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[álbum]]></category>
		<category><![CDATA[disco]]></category>
		<category><![CDATA[Esperanza]]></category>
		<category><![CDATA[Esperanza Spalding]]></category>
		<category><![CDATA[Fabrício Brandão]]></category>
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		<category><![CDATA[música brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[O disco "Milton + esperanza"  por Fabrício Brandão

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Fabrício Brandão</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>MILTON NASCIMENTO E ESPERANZA SPALDING – MILTON + ESPERANZA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza.jpg"><img decoding="async" width="350" height="350" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza.jpg" alt="" class="wp-image-20530" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza-300x300.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A passagem do tempo vai revelando em nós camadas difusas através das quais a vida se dilui e transcorre. E se já não somos mais os mesmos de outrora, talvez consigamos preservar acesa em nós a chama de certos sonhos, estes que foram arroubos de juventude ou que ainda representam algo significativo no campo da contemplação, bastando apenas que consigamos conceder-lhes sentidos ativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De todo modo, a coleção de vivências que experimentamos pode estar inscrita em nós até os ossos, delineando reminiscências, o gosto de uma pretérita existência desfrutada com intensidade ou certa dose de romantismo. Pode ser também expressa num desejo de futuro a ser construído não como mera condição de espera, mas como movimento dinâmico de busca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagino que as linhas acima possam traduzir um pouco do que a escuta do álbum <em>Milton + esperanza </em>demonstra sugerir. Se a voz já não empresta aquele vigor do passado, <strong>Milton Nascimento</strong> deixa impregnada nesse mais recente disco a sua alma, uma esfera da existência importante que, apesar das investidas limitadoras do tempo rei, não subtrai desse momento o amor pela música, senhora esta que povoa as paisagens da vida do artista desde sempre, oferecendo-lhe um manancial de imagens sensíveis e provocadoras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A produção desse disco deveras especial é de <strong>Esperanza Spalding</strong> que, convidada pelo filho do compositor numa conversa informal quando da turnê de despedida de Milton dos palcos, topou a missão. Mas o ingrediente que se soma a essa tarefa é o fato de que a artista tem uma enorme admiração pela obra dele, tendo já gravado coisas do músico, dividido palcos, estreitando uma relação de amizade que sabidamente já dura alguns bons anos. O resultado dessa parceria materializa agora um projeto cujo apuro está tanto no esmero com a produção e arranjos, mas sobretudo pela condução vocal que os dois parceiros de jornada souberam fazer nas 16 faixas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os caminhos iniciais do disco sinalizam para a importância transformadora da música. Que o diga a primeira faixa, “the music was there”, que, funcionando como uma espécie de intro, mostra um Milton a revelar o quanto a sua veia compositora se vale daquilo que emana das imagens que o povoam por dentro e por fora. Esse gesto confessional é testemunhado como o registro de um diálogo em que as reações de Esperanza são marcadas por sonoras e suaves risadas e suspiros de concordância. Vale ressaltar que esse clima de conversa entre os dois artistas também se estende a outros momentos do disco, como é o caso das trocas que aparecem em “outro planeta”, parte em que Milton enaltece tudo o que o motiva a compor: amizade, amor, crianças, o mar, a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo na sequência, difícil não se emocionar com a roupagem dada à majestosa “Cais”, cujo arranjo consegue preservar a essência definidora da canção. Na curta “Late September”, visualizamos a assinatura artística de Esperanza como se representasse uma pequena demonstração da verve jazzística contemporânea virtuosa da musicista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Outubro”, originalmente gravada no belíssimo <em>Courage</em> (1968), segundo disco da carreira de Milton Nascimento,&nbsp; atravessa as dobras do tempo com um ânimo novo, mas sem abrir mão da ambiência poética que lhe é característica. Ao lado de Esperanza, Milton preserva a intensidade existencial que torna a canção uma das composições mais representativas de sua obra. Trata-se de um olhar profundo sobre o lugar do sujeito no mundo, a coleção de lembranças, ações e imagens que o permitem esboçar a partida rumo a um porvir envolto em mistério, quiçá aquilo que denominamos por morte sem ter certeza de absolutamente nada. A faixa, com seus belos requintes jazzísticos regados ao marcante contrabaixo acústico de Esperanza, bem como piano e flauta, nos lembra que, antes de mais nada, estamos ocupados mesmo é de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza-int.jpg"><img decoding="async" width="500" height="281" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza-int.jpg" alt="" class="wp-image-20529" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza-int.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Milton-e-Esperanza-int-300x169.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Milton e Esperanza / Foto: Lucas Nogueira</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A Day In The Life”, icônica composição dos Beatles, vem embalada pelo suave diálogo entre violão e piano, harmonizando as vozes de Milton e Esperanza à atmosfera central da canção. Nesse sentido, a proposta original da música permanece, divisando o arranjo em esferas distintas de intensidade. E tal gesto é deveras necessário, pois as subidas e descidas da música são sua marca inalienável, como um mosaico de cenários difusos agora ainda mais recheados pela escolha de sua base instrumental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um sentimento pueril rondando “Saci”, cujas gargalhadas de Milton ao final da faixa marcam o espaço brincante da canção. Diga-se de passagem, tal emblema de espontaneidade parece mostrar uma intenção deliberada de captar a atmosfera descontraída e leve que povoou a feitura do disco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em “Wings for the Thought Bird”, mais uma vez a marca pessoal de Esperanza, com sua potencialidade instrumental confere tons especiais ao trabalho. E o destaque aqui está principalmente nos vocalizes com os quais a cantora atravessa toda a faixa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas vejamos que “Earth Song”, emotiva e, por que não dizer, filosófica letra de Michael Jackson, ganha uma roupagem mais lenta, jazzística e povoada pela interpretação de Diane Reeves cujo potencial dota a música de um lirismo especial. Assim, do ímpeto original da gravação do rei do pop, o crescendo da canção permanece até que tudo se resolva em leveza ao fim. Uma delicadeza sem par com a participação de Milton nos vocais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabe lembrar que tanto a composição de Michael quanto a dos Beatles foram escolhas especiais de Milton. De resto, Esperanza teve a liberdade de selecionar o repertório do disco, imprimindo nesse rol de opções os reflexos de seu enorme apreço pelo universo sonoro do artista, atitude confessadamente amorosa da musicista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem dúvida uma das maiores composições de Milton, “Morro Velho” surge revisitada com todo o requinte de piano e da luxuosa contribuição da Orquestra Ouro Preto. Nela, a voz de Milton ganha beleza e dialoga com a de Esperanza com toda a pulsação de uma entrega recheada de sutilezas sonoras. E é isso que o arranjo escolhido imprime à canção, agora contemplada com uma atmosfera marcada pela leveza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Saudade Dos Aviões Da Panair (Conversando no Bar)” é uma rica reunião das vozes&nbsp; de Milton, Esperanza, Maria Gadú, Tim Bernardes e Lianne La Havas, todos irmanados num tom que reforça a alma fundante da composição. Aqui, a opção pela inserção dos vocalizes em coro logo no início da canção, além de subverter a ordem original da música, gravada em 1975 no brilhante álbum <em>Minas</em>, trouxe uma atmosfera diferenciada como se antecipasse o apogeu que se consolida no fim da música.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E que tal um Paul Simon cantando em português junto com Milton? Assim o é em “Um vento passou (para Paul Simon)”, faixa que evoca a fortuna da amizade como um legado que concede valor à vida marcada pelo impacto das memórias. “Coração se aqueceu/Agora ao lembrar de você/Amizade é um dom/Que precisa merecer/Nesta vida, nesta história/Não esquecer/O silêncio é o som/Que não cabe mais no ar/(&#8230;), diz um dos trechos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No começo deste texto, falei um pouco sobre sonhos, essa perspectiva que todos trazemos de algum modo como sendo a ponta de um iceberg em sua quase totalidade inexplorado. E mais do que meras aspirações e preces ao porvir, eles talvez possam se configurar como o anseio de uma entrega ao oceano do desconhecido, corpos e mentes velejando pela imensidão dos mistérios humanos. E faz jus a esse complexo de sensações a última faixa do disco, a requintada e jazzística “When You Dream”, composição que prima pela abundância sonora, cujas intensidades vocais e instrumentais encerram bem a jornada aqui proposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Milton + esperanza </em>é um disco muito bem cuidado, soma de energias que se integram pelo propósito mais genuíno da música, qual seja o de provocar em cada ouvinte esferas múltiplas e também singulares de percepção. Acima de tudo, é um álbum construído pela força dos encontros entre gente que tem apreço por gente, colocando no ponto mais alto das apreciações o amor e a amizade. <em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/ESkS-6z7DZY?si=qABdGDkrahD8X-Vg" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Fabrício Brandão</em></strong><em>&nbsp;é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-85/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 14:01:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[As outras em mim]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Julia Sereno]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[Um  tom de confidências na voz de Julia Sereno]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Julia Sereno</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="283" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-2.jpg" alt="" class="wp-image-20520" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-2.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-2-300x170.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Arte: Zô</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>teste</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">meu corpo faz perguntas o tempo todo<br />
mesmo sabendo que as respostas estão escondidas<br />
debaixo do tapete que meu coração esqueceu<br />
na sala de espera.<br />
a visita não veio mais uma vez</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>espelho</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">juntou todos os caquinhos</p>



<p class="wp-block-paragraph">um<br />
por<br />
um</p>



<p class="wp-block-paragraph">e com eles cortou o silêncio dos dias</p>



<p class="wp-block-paragraph">que calados não faziam mais sentido</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>rota</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">suspiro de medo<br />
e alívio</p>



<p class="wp-block-paragraph">ou será apenas meu ar<br />
comprimido<br />
que escolhe<br />
em silêncio<br />
deixar meu peito doído</p>



<p class="wp-block-paragraph">e levar um pouco<br />
do tempo perdido</p>



<p class="wp-block-paragraph">para onde eu consiga<br />
respirar</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ano-novo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">fincou os pés molhados no passado.<br />
levantou os braços dormentes de aperto.<br />
abriu as mãos secas de carinho.<br />
fechou os olhos cansados do ruído</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>meio</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">desloco-me e<br />
atravesso</p>



<p class="wp-block-paragraph">do avesso<br />
retorno e<br />
parto</p>



<p class="wp-block-paragraph">mas não preciso<br />
chegar a lugar nenhum</p>



<p class="wp-block-paragraph">o entre-lugar é meu</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ela</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">a dor escreve o texto<br />
e logo se desespera</p>



<p class="wp-block-paragraph">desalinhando os cabelos<br />
descamando a pele</p>



<p class="wp-block-paragraph">a dor exige ser lida, recitada,<br />
engolida</p>



<p class="wp-block-paragraph">e depois reescrita<br />
pela autora do não</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>pressa</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">hoje a minha espera acordou inquieta.<br />
saiu apressada sem se olhar no espelho.<br />
até o café esqueceu de fazer.<br />
queria encontrar as pistas antes do fim do dia.<br />
mas elas estavam cansadas e não disseram nada.<br />
seguiram caladas sem olhar para os lados.<br />
pois o caminho de casa mudara outra vez</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Julia Sereno</em></strong><em> é natural do Rio de Janeiro, mas vive em Lisboa desde 2020. Doutora em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Publicou o seu primeiro livro de poemas, &#8220;As Outras em Mim&#8221;, em 2022.&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Drops da Sétima Arte</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/drops-da-setima-arte-48/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 13:17:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Ceará]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[Guilherme Preger]]></category>
		<category><![CDATA[Karim Aïnouz]]></category>
		<category><![CDATA[longa]]></category>
		<category><![CDATA[Motel Destino]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[Guilherme Preger analisa o filme "Motel Destino"

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Guilherme Preger</em></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Motel Destino</strong><strong>. Brasil. 2024.</strong></p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/CARTAZ-MOTEL-DESTINOin.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="332" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/CARTAZ-MOTEL-DESTINOin.jpg" alt="" class="wp-image-20515" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/CARTAZ-MOTEL-DESTINOin.jpg 332w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/CARTAZ-MOTEL-DESTINOin-221x300.jpg 221w" sizes="auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nono longa-metragem ficcional do diretor cearense Karim Aïnouz, <em>Motel Destino</em> fez sua estreia no Festival de Cannes de 2024, sendo aclamado pelo público, porém sem prêmios. É estrelado pelo veterano ator Fábio Assunção, e pelos jovens atores Iago Xavier e Nataly Rocha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Heraldo (Iago Xavier) é um jovem de 21 anos, morador de uma cidade no litoral do Ceará, que faz negócios escusos para uma misteriosa gangue que serve a uma pintora local. Apesar de sua atividade ilícita, Heraldo sonha mesmo em juntar dinheiro para ir morar em São Paulo e procurar por seu desaparecido pai. Porém, por causa de uma mal sucedida tarefa, o jovem é obrigado a se esconder num motel na periferia da cidade e permanece lá trabalhando clandestinamente. Então conhece Daianna (Nataly Rocha), que é a gerente do lugar e casada com Elias (Fábio Assunção), o dono do estabelecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elias, a princípio, acolhe bem o rapaz, que ajuda na manutenção do estabelecimento, porém, como era de se esperar, Heraldo e Daianna se envolvem amorosamente, de maneira furtiva. Assim, à clandestinidade do trabalho do rapaz se soma a clandestinidade erótica do encontro com Daianna.</p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Imagem-1-divulgacao.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="356" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Imagem-1-divulgacao.jpg" alt="" class="wp-image-20516" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Imagem-1-divulgacao.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Imagem-1-divulgacao-300x214.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">&#8220;Motel Destino&#8221; / Foto: divulgação</figcaption></figure>
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<p class="wp-block-paragraph"><em>Motel Destino</em>, assim como <em>Praia do Futuro</em> (2014), é um filme de cores contrastantes e luz forte, ensolarado. Em <em>Praia do Futuro</em>, a luz solar e o clima quente do litoral nordestino contrastam com o frio e o cinza de Berlim, onde metade da história se passa. Em <em>Motel Destino</em>, não há essa oposição. A distinção neste filme se dá entre a liberdade do corpo e o confinamento do espaço, que não é só físico, mas também o da precariedade da existência, um confinamento social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme está cheio de reminiscências, tanto da vida nordestina, que vai do sotaque da fala, aos modos corporais e às formas de convivência locais, mas sobretudo de reminiscências (ou seriam referências?) de seus filmes anteriores, particularmente de uma de suas primeiras obras, <em>O</em> <em>Céu de Suely</em> (2006). Assim, embora em <em>Praia do Futuro</em> reapareçam o verde do mar, as hélices das usinas eólicas, as dunas e as falésias das praias, em <em>O Céu de Suely</em> há mais similaridades de enredo, como citações cinematográficas, algumas mais evidentes, outras mais sutis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto Suely (Hermila Guedes), do filme de 2006, quanto Heraldo, protagonistas de vida precária, querem emigrar do Nordeste (particularmente do Ceará) para São Paulo como fugitivos da existência sem futuro.&nbsp; As praias cearenses podem ser do futuro, mas o destino do precariado não. Ambos buscam reencontrar pessoas que perderam: Suely, o pai de seu filho e Heraldo, seu próprio pai, para então poderem seguir em frente. Suely vende seu corpo numa rifa, Heraldo de certa maneira também vende o seu num trabalho subalterno e clandestino. Mas diferentemente daquela, que não encontra prazer em seu ato, Heraldo busca em Daianna uma alegria erótica genuína.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já o nome dessa personagem, vivida por Nataly Rocha, é uma sutil referência à canção que abre <em>O Céu de Suely</em>, uma versão do clássico do grupo Bread, cantada pela cantora Diana. E, curiosamente, <em>Motel Destino</em> termina precisamente tal como se inicia esse filme anterior, dando a entender que a obra cinematográfica de Karim teria fechado um ciclo. Ora, ambas as cenas musicais, filmadas em super-8, são passagens utópicas de um destino mais feliz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses filmes citados se passam no Ceará, terra natal do diretor. Como mencionado, o cinema de Karim é feito de reminiscências, onde se destaca e resplandece a luz solar desse Estado Nordestino, que abre aos personagens uma vida intensa, porém sem futuro, quando a fuga parece ser a melhor opção. No caso do jovem Heraldo, o motel é primeiramente o lugar onde ele é vítima de um logro. Depois, já trabalhando lá, torna-se um lugar de refúgio. Finalmente, torna-se junto a Daianna um recôndito lugar para a existência libidinal e amorosa, entre os gemidos obscenos dos demais frequentadores. Esses gemidos, que se sobressaem do cenário de luzes fosforescentes, perdem sua característica obscena para se tornarem o fundo sonoro dos encontros do casal. Mas, há também a figura tanto cordial quanto amedrontadora de Elias, para compor o triângulo amoroso desse roteiro.</p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Imagem-2-divulgacao.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="278" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Imagem-2-divulgacao.jpg" alt="" class="wp-image-20517" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Imagem-2-divulgacao.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Imagem-2-divulgacao-300x167.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">&#8220;Motel Destino&#8221; / Foto: divulgação</figcaption></figure>
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<p class="wp-block-paragraph">Elias, vivido em grande participação por Fábio Assunção, é o dono do estabelecimento e marido de Daianna. Sua recepção de Heraldo é inicialmente cordial. Mas tal cordialidade aparente é ambígua como no mito cordial do brasileiro, tanto econômica quanto emocionalmente. Heraldo é a rigor um trabalhador barato para Elias, pois consegue fazer pequenas obras sem cobrar, ou seja, através de trabalho não remunerado. O fato de ser um foragido o coloca numa posição ainda mais precária. Mas Heraldo não é tanto um rival amoroso para Elias, quanto também é um objeto sexual, já que a “macheza” encenada de Elias esconde uma dissimulada homoafetividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como em outras obras, o sexo tem como pano de fundo a violência. Os filmes de Karim procuram fazer uma mediação entre as promessas tropicais da liberdade erótica do corpo e as necessidades de sobrevivência que quase sempre tomam um rumo violento. Esteticamente, há uma composição entre o contraste das cores e dos filtros, acentuadas em <em>Motel Destino</em> pelo ambiente ao mesmo tempo libertino e clichê, e a excitação da música que, nesta e em obras anteriores, assume os timbres extáticos das festas eletrônicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme, portanto, não é o retrato de nenhuma brasilidade nordestina profunda e sim a construção de um imaginário mais rico de nuances que desafia a monocultura estética, política, ideológica e amorosa que tomou conta do país, com a recente emergência ressentida dos movimentos de extrema-direita.&nbsp; Este desafio fica claro numa das últimas falas de Heraldo, após um momento paradigmático que traz a reminiscência de uma cena de antiga novela televisiva de Jorge Amado.&nbsp; Retoma-se, em outra chave, mais afetiva, um tema típico da cultura brasileira, a relação entre o clima tropical, com sua exuberância natural, e o transe dos corpos, que inclui também a violência. Trata-se de fazer emergir no cinema de película (com a qual o filme foi gravado) o cromatismo das luzes abundantes e o vigor das formas eróticas do corpo para o enfrentamento da precariedade da existência. Neste filme, em particular, do choque entre o estreito das condições sociais e o excesso da libido saltam as faíscas de mundos possíveis, mais plenos.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/718qf7ESdUc?si=mxtgUYcGi4XpIY5E" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Guilherme Preger</em></strong><em> é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog <a href="https://resenhacibernetica.wordpress.com/"><strong>Resenha Cibernética</strong></a> e faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.</em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-81/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 13:16:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Adriano Espíndola Santos]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[Nos contos de Adriano Espíndola Santos, densos rasgos de vida]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Adriano Espíndola Santos</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/zo-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="348" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/zo-1.jpg" alt="" class="wp-image-20508" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/zo-1.jpg 348w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/zo-1-209x300.jpg 209w" sizes="auto, (max-width: 348px) 100vw, 348px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Arte: Zô</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Conversão</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma pequena falha de caráter? Um desvio grosseiro, pecaminoso? Retomei uma crença que havia se perdido no tempo, no meio de tantos ensaios à sabedoria, quando achava que o homem era o único ser supremo: a fé cristã. Nunca, no entanto, consegui me desvencilhar de uma culpa católica. Nas orgias que preparava em casa, sempre no dia seguinte me batia uma depressão, uma tremenda culpa me pesava, como se eu fosse o pior dos homens; deixei de visitar minha mãe, porque não conseguia lhe encarar; “O que ela iria dizer de um filho pervertido?”, refletia. Sim, passados dois ou três dias, quando os colhões estavam latejando de luxúria, eu me enfiava, de novo, entre as pernas do Naldo, no trabuco da Jeniffer ou na bunda da Sofia, um(a) de cada gênero ou espécie, como queira. Houve o dia em que reuni os meus três fantoches preferidos numa sauna alugada só para a gente. Foi uma fortuna. Apliquei praticamente toda a minha poupança nessa experiência, que julgava ser a última; havia sido diagnosticado com câncer de pele. Sobre o câncer, digo que foi um blefe do destino, porque o médico, muito competente, tirou a área afetada e não foram precisos maiores cuidados. Já estou em fase de remissão; considero-me curado. Luto para juntar algum trocado para pagar contas antigas, inclusive de débito com a sauna. Os ou as três mosqueteiros ou mosqueteiras me abandonaram. Eu também os(as) abandonei. Na primeira semana em que fiz a cirurgia – que foi um sucesso, segundo o médico –, voltei à igrejinha do Menino Deus. Fazia, pelo menos, uns dez anos que não pisava ali. Ajoelhei-me e chorei, pedindo perdão a Deus, por meu egoísmo, por um vício meu, só meu, que eu não sabia controlar. A promessa que fiz resultou em um sacrifício e uma obrigação, que entregava a Deus, de não me entregar mais à perversão. Lembrava-me de quando era menino e puro, e não pensava em sexo ou coisas do tipo. A minha luta diária é para pensar e sentir a beleza das flores, o silvo dos ventos do sul e a magnitude do rei Sol. Amargo uma dívida pior, que não serei capaz de saldar em vida. Minha mãezinha está com Alzheimer. Justamente na minha conversão, minha mãe perdeu os sentidos para acompanhar a dádiva. O que resta de memória para ela – se é que resta –, é para brigar comigo, me chamar de “menino maligno”, algo que, mesmo sabendo que ela fala por falar, me dói profundamente. Essas são a minha adaga e o meu pendor. Entendi que devo suportar tudo isso, para a minha verdadeira redenção. Noutro dia encontrei Sofia, no centro, e ela me recomendou uma boa trepada para eu mudar o meu humor. Disse a ela que o meu coração é novo – ainda que tentado por aquele rabo espetacular.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Só por hoje</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Noite clara. Tempo manso e veloz. Uma rasga-mortalha mandou o seu canto fúnebre. Minha mãe dizia que o canto indicava casamento ou morte. Como se fossem os opostos: felicidade e tristeza. Eu estava na linha dos acontecimentos. E brutalmente acometido de melancolia. Guinha, meu amigo de infância, disse que isso tinha a ver com o abuso no consumo de drogas; que ele também estava assim, ferido, abatido. Namorava com Érica, que, cravada de obsessão, sempre que brigávamos dizia que ia se matar. Ela, sim, era doente em alto grau – e, à época, eu não achava que uma palavra do que dizia fosse verdade. Era, além de tudo, dramática. Numa queda, em que ralou o joelho, quis ir ao hospital para fazer exames, porque jurava ter fraturado a rótula. O drama foi dissipado com um tranquilizante, que os médicos deram, alegando que ela estaria, possivelmente, com síndrome do pânico; que era algo muito corriqueiro, dada a urgência dos nossos dias. Saía com Guinha e Bengala para as noitadas regadas a uísque vagabundo e cocaína. O dinheiro vinha do meu pai, dono de uma pequena mercearia de bairro, porque eu, quando podia, lhe ajudava. Já tinha desencanado dos estudos. Meu pai decretou: ou trabalha, ou estuda. Preferi fingir que trabalhava. Arrumava uma coisa aqui, outra ali, para mostrar que fazia algo. A minha obrigação principal era a entrega das águas. Rodava o bairro, na fissura, entregava o que dava e, para os insistentes, dizia que a água da marca tal estava faltando. Meu pai reclamava da diminuição das entregas. Eu queria mandar tudo para o espaço. Às 17h, saía do emprego e ia para a casa da Érica ou dava uns botes com os comparsas. Numa noite em que sumi com Guinha, quando cheiramos todas as carreiras possíveis que o nosso dinheiro dava conta, ao chegar em casa, meu pai disse que tinha ligado para todos os hospitais atrás de mim, e falou o pior: Érica estava no hospital por overdose de remédios; teve uma parada cardíaca e estava com insuficiência renal. Dois dias depois, Érica veio a óbito. Eu quis me matar, por minha razoável culpa. Mas a verdade é que não tive coragem. Ao mesmo tempo, estava com ódio de Érica, que mudou o meu destino. Por conta dela, pedi ao meu pai para me internar numa clínica. Não aguentava mais lidar com a minha vida, mundana, absurda. Poxa, eu já estava pronto para acabar o relacionamento. Não tive forças, a covardia é minha amiga. Foram anos dizendo: “Estou limpo, só por hoje”. Estou limpo, mas brabo, doente. Joana é uma santa que encontrei pelo caminho. Ela me ajuda, no que pode, e não sei até quando. Ainda tenho pesadelos com Érica gritando. Na última vez em que encontrei Guinha, ele estava acabado, voltou a consumir drogas e morava na rua. Foi a dor mais doída. Que não me pegue a desgraça, só por hoje; só por hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Adriano Espíndola Santos</em></strong><em> é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando; e em 2024 o livro de contos “Amparo secreto”, pela editora Urutau. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. É advogado civilista-humanista. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iv-89/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 12:52:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Camila Passatuto]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Nequice: Lapso na Função Supressora]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://diversosafins.com.br/diversos/?p=20498</guid>

					<description><![CDATA[A intensidade expressa na linguagem de Camila Passatuto]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Camila Passatuto</em></p>



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<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="352" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo.jpg" alt="" class="wp-image-20500" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo.jpg 352w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-211x300.jpg 211w" sizes="auto, (max-width: 352px) 100vw, 352px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Arte: Zô</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto recolho o que é real e apinho esquissos de corpos inconvenientes, a ronda cinza do alheamento contabiliza as dores.<br />
Apesar da infame fuga ministrada a cada conjunto vil de tempo, entendo os meios poéticos dos dias.<br />
Trancam meu eu.<br />
Libertam, dizem,<br />
O que me é espírito.<br />
Café, clozapina, saliva e mulher.<br />
Envolvo verbos por aliterações travadas e ninguém se importa.<br />
E tudo faz sentido<br />
Quando os pulsos<br />
Doem<br />
No apertar<br />
Das cordas.<br />
Recolho o que é real e turvo, amor. Socorro.</p>



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<p class="wp-block-paragraph">Rupturas, cores quentes, risos hiperbólicos, pálpebras arrancadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E continuavam a galopar pela cidade, sem objetivo de ser. Dedos mornos, pele azul, olhos secos, crianças fatiadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E a cerveja descia travada, a malandragem apoiada em solavancos de grades-janelas, nada tinha rumo, rima, remo ou graça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns diziam sábado<br />
Eu gemia quarta<br />
Foi-se dia de fim<br />
Gritou a moça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais um dia.</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">Você disse que meus olhos de exu danam as vielas dos que passam por mim.<br />
Eu recolhi o troco que espalhava um prateado tímido no balcão estreito de um bar caro. Retruquei em dar o último gole no drink exagerado e pueril para meu paladar.<br />
Escorri as mãos para o alto, no percalço de matar a gravidade em ti.<br />
Você, beata dos cálculos imaturos de fim de mês, vênus assustada na cela dos cães raivosos, imaculada na nudez dos seios firmes. Disse que meus freios falham sempre na última curva, no verso exato de salvação.<br />
Os tiros, que nascem no crânio de alguém, longe daqui, batucam em meus tiques nervosos na perna esquerda. E ninguém abençoa os filhos do medo em noites mal cultuadas.<br />
Você insiste em imprecar os maldizeres ao meu olhar.<br />
Das culpas vermelhas que estendo na varanda, os véus que cobrem o descontrole matinal é o que me alinha ao mundo.<br />
Desculpa.<br />
Abandono o lugar que me entedia.<br />
Atravesso ruas avulsas, como quem desbrava o próprio peito à procura de alma.<br />
– Meus fantasmas se afogam na minha bebida. Versam dos meus gritos o gênesis de uma nova era. Ninguém escuta. &#8211;<br />
Você disse que meus olhos de exu enxergam a morte em tudo, minha linda.<br />
Ela. Morta em 1937, La Paz. Ainda não sabe do desencarne.<br />
E diz, ao desviar dos carros, que sou sua guia.<br />
Somos a literatura do caos<br />
No ventre das pontes<br />
E gosto de chão<br />
Na boca quebrada.<br />
Na paz<br />
Ralada<br />
Na fuga<br />
Dos torturadores.<br />
Extremos e roucos.<br />
Laroiê,<br />
Meu amor.</p>



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<p class="wp-block-paragraph">O zimbro inocente dos quereres, por maviosidade do caos, fez germinar, no antro da civilização seca, um olho em broto, um encabeçamento de era.<br />
E as crianças despertaram mais cedo, os dentes rasgaram a fome de pão, pés tortos marcharam liberdade e senhoras se tocaram rubras em praças públicas.<br />
Um olho em broto, um encabeçamento de era.<br />
E ela fumou um último cigarro, afastou as cortinas como se fossem mechas de moça, adentrou um fino espasmo de nós e foi correnteza por toda cidade.<br />
Meu olho em broto, meu encabeçamento de paz.<br />
E as crianças abriram caminho<br />
E meus poemas ruíram o mal<br />
E tudo era ritmo, aliteração,<br />
desculpa pra mar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Flufenazina e um tanto<br />
de Rhapsody in Blue.<br />
E tudo começa, amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Lama</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Não quero escovar tempo<br />
ou mesmo injuriar<br />
tuas pernas<br />
alguém tacou fogo<br />
na lixeira da esquina<br />
e vi deus<br />
comburente<br />
afetado<br />
descalço entre as moscas<br />
agitadas pelo calor.<br />
&#8211; é outono &#8211;<br />
Não quero bravejar<br />
sou cria à toa<br />
de condoimento<br />
exagerado<br />
e quebro os dentes<br />
amarro os dedos.<br />
Ontem<br />
alguém lambeu<br />
minha ira<br />
e vi o diabo<br />
exaltado<br />
colostomizado<br />
aformoseado no brilho<br />
dos destituídos.<br />
Hoje<br />
fodo a testa<br />
no barranco<br />
&#8211; é outono &#8211;<br />
minhas meninas,<br />
no sustentáculo<br />
de choro, miudam<br />
acalmo o tempo.<br />
escovo palavras frias.<br />
é dia<br />
após dia.<br />
Alguém tacou fogo<br />
na lixeira da esquina&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O monstro corre no tosco riso salivado, nos olhares de homens afervorados pela maldade infértil do comum e por vapores de ideias abortadas em assembleia geral.<br />
Oremos.<br />
O monstro instala seu verde ruído em vozes metálicas, nas vagas salinas do bairro médio de uma cidade média capada à miséria de capital lúcido.<br />
Compremos.<br />
O monstro fode a lógica dos desavisados no ritmo de um roteiro aborrecível no ato lânguido de poder.<br />
Morremos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Postula o que te é rebelde<br />
No verso seguinte<br />
Da escrita<br />
Laica<br />
E mata<br />
O ignavo<br />
Da língua cortada<br />
Pelo homem histérico<br />
Liberta-te<br />
O verbo<br />
Morto<br />
Na manhã<br />
Do teu fim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Camila Passatuto</em></strong><em> (1988) nasceu em São Paulo. Autora dos livro “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada” (Ed. Penalux, 2017) e “Nequice: Lapso na Função&nbsp; Supressora”. Escreve desde os 11 anos e desde 2007 participa de diversas antologias e revistas culturais com seus poemas e textos.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivo-da-palavra-ii-13/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 12:22:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[aperitivo]]></category>
		<category><![CDATA[Candomblé]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[nagô]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Ruy Póvoas]]></category>
		<category><![CDATA[Tica Simões]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://diversosafins.com.br/diversos/?p=20487</guid>

					<description><![CDATA[Tica Simões nos apresenta o mais novo livro de Ruy Póvoas ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um olhar sobre O Risco e o Laço – traçados do destino nagô</strong></p>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph">​​​​<em>Por Maria de Lourdes Netto Simões</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/CAPA-O-RISCO-E-O-LACO.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="305" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/CAPA-O-RISCO-E-O-LACO.jpg" alt="" class="wp-image-20493" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/CAPA-O-RISCO-E-O-LACO.jpg 305w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/CAPA-O-RISCO-E-O-LACO-203x300.jpg 203w" sizes="auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Da larga&nbsp;produção de Ruy&nbsp;Póvoas, deparo-me agora com o seu&nbsp;mais recente&nbsp;livro, de&nbsp;2024: &nbsp;<em>O Risco e o Laço – traçados do destino nagô</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perpassando um olhar pelas publicações que tenho acompanhado&nbsp;desde <em>Vocabulário&nbsp;da Paixão</em><strong>&nbsp;</strong>(1985), posso afirmar da riqueza e singularidade&nbsp;dessa produção&nbsp;que, através&nbsp;do olhar do Babalorixá&nbsp;que&nbsp;é Póvoas, resgata&nbsp;a história&nbsp;da gente nagô, ao tempo em que ensina, passa uma cultura singular e diverte o leitor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afora a sua produção literária, há a científica, desse que também foi Professor Titular de Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Santa Cruz &#8211; UESC, onde recebeu o título&nbsp;de Doutor&nbsp;<em>Honoris Causa&nbsp;</em>(2018).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A exemplo das publicações não ficcionais,&nbsp;é imprescindível&nbsp;referir a trilogia que&nbsp;denominou&nbsp;<em>O labirinto Preto e Branco</em>.<strong>&nbsp;</strong>Num mundo preto e branco, essa rica e instigante trilogia culmina com&nbsp;o terceiro volume,&nbsp;publicado neste 2024:&nbsp;<em>Perfis da Resistência – deslindando as várias&nbsp;faces</em>.<strong>&nbsp;</strong>A trilogia evidencia uma caminhada de reflexões, relatos de lutas e conquistas sobre&nbsp;o <em>status&nbsp;quo&nbsp;</em>do negro no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, na sua vertente literária,&nbsp;está&nbsp;o&nbsp;quinto&nbsp;de contos<em>,&nbsp;Risco e o Laço – traçados do destino nagô</em>. &nbsp;É uma ficção que, valendo-se dos&nbsp;<em>Odu </em>de&nbsp;Ifá, ensina e diverte. Ilustrado pelo&nbsp;autor, os&nbsp;desenhos e figuras remetem ao seu tema de fundo &#8211; o jogo de búzios, prática dos terreiros de candomblé para tratar dos arquétipos da&nbsp;criação, representados&nbsp;nos&nbsp;<em>Odu</em>&nbsp;de Ifá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em verdade,&nbsp;no&nbsp;livro,&nbsp;não só&nbsp;a&nbsp;apresentação gráfica&nbsp;dos desenhos e&nbsp;figuras&nbsp;comunica;&nbsp;também, a referida comunicabilidade com o leitor é acrescentada pela estrutura, integrada de esclarecedores&nbsp;paratextos. Aliás, esse uso dos&nbsp;paratextos&nbsp;já é uma estratégia do autor, em trabalhos anteriores, dos quais especialmente cito <em>A Viagem de&nbsp;Orixalá</em>&nbsp;(2015).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em&nbsp;<em>O Risco e o Laço – traçados do destino nagô</em>, os&nbsp;paratextos&nbsp;deixam entrever&nbsp;o conhecimento do babalorixá que é&nbsp;Ruy Póvoas,&nbsp;como o&nbsp;articulador da&nbsp;ficção, que&nbsp;recorre&nbsp;a dois tipos de&nbsp;paratextos,&nbsp;para informar&nbsp;ao&nbsp;leitor a sua estratégia ficcional (não autoral e autoral).</p>



<p class="wp-block-paragraph">​Conforme esclarece no&nbsp;paratexto&nbsp;que abre o&nbsp;livro,&nbsp;Odu&nbsp;de Ifá&nbsp;é “oráculo dos babalaôs, sacerdotes de Ifá”.&nbsp;O livro é estruturado em dezesseis&nbsp;<em>Odu</em>. Os vários contos se relacionam com os&nbsp;<em>Odu</em>&nbsp;que “representam os Arquétipos da criação; as narrativas são voltadas para as variadas vivências humanas” (2024, V).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;paratexto&nbsp;autoral, que interroga “Por que narrar os&nbsp;<em>Odu</em>&nbsp;de Ifá?”, é bastante esclarecedor para o leitor que não conhece os preceitos nagôs. Por outro lado, também informa a concepção da criação literária dos dezesseis&nbsp;Itan&nbsp;&#8211; &nbsp;contos que buscam se relacionar exemplarmente com os&nbsp;<em>Odu</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, as 16 partes em que se estrutura O Risco e o Laço, cada uma, é um Odu, antecedido pela descrição-síntese de cada arquétipo: Òkànràn, Òyèkú, Ògundá, Ìròsùn, Òsé, Òbàrà, Òdí, Èjìogbè, Òsá, Òfun, Òwónrín, Ìwòrí, Òtúrúpòn, Ìká, Òtúrá, Ìretè, Opira. E são dezesseis contos, itans que exemplificam os traços de cada signo – “o caminho, isto é, aquilo que faz parte da destinação da pessoa” (2004, p. 18). São textos que, em contando uma história, ensinam, sinalizam caminhos, divertem e dão lições.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E&nbsp;o texto&nbsp;finaliza, mas fica com o leitor o sugestivo convite apresentado no&nbsp;paratexto&nbsp;inicial, para que, cada um, se identifique com uma&nbsp;das narrativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu, cá para mim, busquei a minha identificação&#8230; E conclamo cada leitor a fazer o mesmo;&nbsp;mas sem&nbsp;que deixe de&nbsp;observar o&nbsp;pensar do&nbsp;citado Paul&nbsp;Sagan (p.&nbsp;213)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph"><em>A imaginação</em><br /><em>muitas vezes nos leva</em><br /><em>a mundos</em><br /><em>que nunca sequer existiram.</em><br /><em>Mas sem ela</em><br /><em>não vamos a lugar nenhum</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o leitor não negligencie essa última lição do livro!</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões)</em></strong><em> é doutora em Estudos Portugueses e Pós-Doc em Literatura Comparada e em Turismo Cultural (UNL, Portugal).&nbsp;Profa&nbsp;Titular aposentada/UESC, onde foi pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação e pesquisadora CNPq. &nbsp;Comendadora&nbsp;da Ordem do Ensino Público (Portugal); Mérito São Jorge dos Ilhéus (Bahia, Brasil). &nbsp;Produção científica&nbsp;em literatura e turismo,&nbsp;publicada em livros, artigos e&nbsp;documentários, no&nbsp;Brasil e exterior. &nbsp;Integra as Academias&nbsp;de Letras de Ilhéus (cadeira 19)&nbsp;e&nbsp;de Letras de Itabuna (cadeira&nbsp;31). &nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética V</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-v-86/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 12:15:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Christian Dancini]]></category>
		<category><![CDATA[Dialeto das Nuvens]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://diversosafins.com.br/diversos/?p=20484</guid>

					<description><![CDATA[Os instigantes caminhos apontados por Christian Dancini ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Christian Dancini</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-5.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="345" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-5.jpg" alt="" class="wp-image-20564" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-5.jpg 345w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-5-207x300.jpg 207w" sizes="auto, (max-width: 345px) 100vw, 345px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Arte: Zô</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ELEFANTES SONÂMBULOS </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não consigo esquecer a faca que<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;.</span>rompe o papel para além do obscuro.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>Meus poemas<br />
são a subversão palpável<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>de elefantes sonâmbulos, criando<br />
vasos sanguíneos telúricos.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span>Eu devoro santos e malditos e os trituro em palavras, quase como<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>um pássaro azul perdendo seu fôlego.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>À noite, um amálgama de interjeições:<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>meu deus! Quem sou eu?<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span>A música é azul, os mares, verdes; inclino minha<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>cabeça em vertigem,<br />
oceanos transbordam da minha<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>garganta forrada de espinhos.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>O poema é para ser, longe do sentido.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>O poema deve existir e alcançar quem precisa.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>E eu sou um poema tremendamente ensandecido, incontrolável,<br />
tal qual deuses selvagens,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>que impelem aos milhões para fora da ejaculação precoce<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span>de um espírito em desordem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CRESCER PARA DENTRO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais cresço para dentro,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>maior é a luz que eclode do fim;<br />
maiores e mais fortes os ventos<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>— rajadas de fúria e caos.<br />
Porque teus ombros largos,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;.</span>que emudeciam suor e fogo,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>embruteceram a casca de uma árvore.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>Porque é um lírio tombando dinamites;<br />
um tornado sem ferro nas estruturas.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>Abreviar a palavra na velocidade da vida.<br />
Jorro, pelas retinas, malmequeres convalescentes que pretendem<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>oscilar o sereno inquebrável das montanhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebo um café. Acendo um cigarro.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>Mais um dia se queimando na ponta<br />
chamejada e cinza do fumo.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;.</span>Passo a caminhar em passos redondos, circulares;<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>de ponta cabeça, seguro o mundo com as minhas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>mãos, mãos que ardem,<br />
mãos que pesam, mãos enrugadas de tempo,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;</span>desprovida de som, sós.<br />
Até que encontrei teu ermo ser,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span>vagando pela tempestade do deserto.<br />
Teu corpo inebriante.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span>Tua voz intumescida. Tua pele fina, camada de tecido<br />
que cobre a alma. Teu pé, branco, é incapaz de sonhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;.</span>Então agora quero inserir a infância na cólera que se expande.<br />
Rosnar para o perigo;<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>dividir o peso do medo com o expansivo amor.<br />
Procuro na madrugada,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>bitucas para acender.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>O breu se volta para o silêncio<br />
do abismo;<br />
<span style="color: #ffffff;">.</span>crânios humanos esmagados pelo pé sangrento de um demônio que<br />
ri.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ah, e a melancolia que,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;.</span>muitas vezes, em um amplexo,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>acalentou minha sanidade,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>transbordou éter e álcool para fora<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;.</span>dos campos verde-palavras, verborrágico.<br />
Para fora, a ideia, o breve dia do pensamento,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>o fluxo que corre como sangue nas veias.<br />
Todo o mistério único de deitar<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>ao teu lado no crepúsculo das alucinações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sonho termina.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>Só se vive para fora<br />
&amp;<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>só se morre para dentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O TOMBO EM CHAMAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia, tu serás rei.<br />
Por um dia, tu serás rei, Chris.<br />
A gema mole do teu ovo — amarelo tal sol;<br />
as paredes de dentro eclodindo mofo&#8230;<br />
tua impaciência prepotente te levará ao cume.<br />
Mas, por apenas um dia,<br />
serás rei. Rei das trevas que te cercam,<br />
rei do campo aberto — qual gritas,<br />
rei do transcendente, rei do ovo<br />
da gema mole — amarelo tal sol,<br />
rei do mofo das paredes de dentro.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;</span>Marinando, marejando, morosamente,<br />
se possui a palavra, tal gota no oceano.<br />
São incorruptíveis, os poros dos peixes-palavra.<br />
É incapaz de erigir uma sílaba no breu da noite.<br />
Nada irá me salvar e eu serei rei!<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>Rei — principalmente — do nada que me aguarda<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.</span>no tombar para fora desta vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SUSPENSOS NO AR EM SILÊNCIO POR UM INSTANTE</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu olho para as fotos como que procurando o destino.<br />
Não sei exatamente onde eu me perdi.<br />
Não sei exatamente onde a encontrei.<br />
Não sei sobre o pavio aceso do tempo que nos esmaga como insetos.<br />
Eu olho nos teus olhos e te procuro.<br />
Em todos os olhares eu te perco.<br />
Porém, eu prometo, que na noite mais escura, do céu mais vazio,<br />
das estrelas mais fustigantes, fugidias, eu estarei segurando a tua mão,<br />
suspenso no ar, em silêncio, por um instante.<br />
Eu procuro tua mão à noite, ao amanhecer e ao entardecer.<br />
Em todas as cordas me emaranho, enrosco o pescoço na forca.<br />
Entretanto, te perco, nas lâminas de aço pungentes,<br />
no segredo que o céu não soube guardar.<br />
Eu escrevo poesia para alcançar o teu nome, que já diz tudo.<br />
Eu olho para as fotos como que procurando a ti,<br />
mas encontro as tuas últimas palavras cravadas em seda:<br />
“tu jamais alcançarás a lua se não saltar o precipício”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>NO DIA DO ANIVERSÁRIO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo palavras de ordem inatural.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;.</span>Quando deixei tua vertigem alumiar meu corpo inteiro,<br />
banhei-me em chuva dourada.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;</span>Seria capaz de vórtices, de fome voraz. Assim que teu negror<br />
intumescia meus olhos, uma luz pungente descia dos céus,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;.</span>e eu continuava seco em todos os membros, em todos os órgãos;<br />
um corpo vazio vagando na cólera da noite. Úmido, apenas nos olhos.<br />
.Escrevo como caio, de peito aberto ao mar, como se o sal fosse fogo.<br />
Invoco das palavras soturnas um instante de graça; um instante<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;</span>afastado da beleza do dia, qual eu mijo em cima.<br />
Tua beleza é carnívora, engole minha luz feito fotossíntese.<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;</span>Beligerante, destemida, aprazível apenas pelos lobos taciturnos que uivam.<br />
É distante a água salgada que corre em tuas veias; implodir para dentro<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;</span>do mundo inteiro, um maldito homem,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;</span>com a cabeça estourada por uma espingarda,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>às 7h da manhã, aos 27 anos,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>no dia de seu aniversário.</p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>NA DANÇA XAMÂNICA FRENÉTICA DE CRISTO COM LÚCIFER</strong></p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><em>ao poeta Antônio Cícero.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">1.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Edifícios tombam, ferozes.<br />
Uma criança a sonhar estrelas.<br />
Céu de anil, boca bocejante de cachorro negro — Anúbis.<br />
Escuridão escorrendo nos dentes podres.<br />
É inerente às plantas, o outono. Assim,<br />
a asa de um anjo está vulnerável; minhas<br />
palavras dão rouquidão aos cavalos, a sonhar<br />
com centauros dançando pow wow ao derredor,<br />
como se fosse o suficiente para ser feliz.<br />
Paredes de concreto árido, com rachaduras secas<br />
de poros nasais. Um raio esparso perpendicular,<br />
perpétuo socorro de uma constelação que<br />
brinca de faz de conta no dilúculo pulcro<br />
do sorriso das camélias, das putas que balançam<br />
a bunda ao som do funk e ao Cristo que habita<br />
todos os portões do inferno,<br />
exatamente como deus o fez: embriagado de crepúsculo,<br />
atônito&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span>e demasiado humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Christian Dancini&nbsp;de Oliveira</em></strong><em> é um poeta nascido e residente de São Roque, São Paulo, que escreve poesia desde os onze anos. Com 15 anos lançou a obra “Fragmentos de uma aurora” em PDF para baixar gratuitamente através do site Projeto Livro Livre, de Iba Mendes. Aos 22 anos, publicou seu primeiro livro chamado “Reminiscências”. Além deste livro, que lançou de forma independente, ele já lançou pela editora Opera o livro “Pleroma” e pela Patuá “Dialeto das Nuvens”. Christian Dancini já publicou na revista portuguesa Quiasmo, na Mallarmargens, Ruído Manifesto, Acrobata, pela revista espanhola Kametsa etc. Seu livro “Dialeto das Nuvens” foi semifinalista do prêmio Oceanos 2024.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-79/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Oct 2024 12:12:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[felino]]></category>
		<category><![CDATA[gato]]></category>
		<category><![CDATA[mordomo]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Zan]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://diversosafins.com.br/diversos/?p=20479</guid>

					<description><![CDATA[Um pitoresco conto de Paulo Zan]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Paulo Zan</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="354" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-3.jpg" alt="" class="wp-image-20559" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-3.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/Zo-3-300x212.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Arte: Zô</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um verdadeiro Dupin </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as coisas indicavam para a conclusão óbvia: o mordomo era o culpado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como eu sei disso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olha, vou lhe contar, caro leitor, como surgiram em mim as primeiras suspeitas e como essa conclusão pareceu-me tão óbvia que não precisei agenciar grandes esforços para chegar até ela. E pensar que o safado tentou colocar a culpa em mim, por conta da minha condição… vocês sabem, não é mesmo?, essa corja de pernudos sempre tenta colocar a culpa em quem tem pernas curtas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mordomo atende por nome Jerônimo e trabalhava na nossa casa desde que me entendo… enfim, há muito tempo ele trabalhava na casa, mesmo antes da minha chegada, e vocês sabem como esse tipo de coisa, me refiro a questão temporal e de convivência com os donos da casa etc., é levada em consideração quando de repente aparece um vaso quebrado e o safado aponta logo para quem é supostamente mais frágil e não tem condições de arguir em sua própria defesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jerônimo era afobado, percebi logo. Mesmo ele sendo mais velho do que eu na casa, ele se sentia menos à vontade, pois estava em posição de subserviência, enquanto eu… eu já cheguei em uma posição que só era inferior a dos donos da casa, o doutor Omar e a sua senhora, a dona Matilda. Os dois, já velhinhos e sem filhos naturais, ambos aposentados e morando numa mansão enorme no Corredor da Vitória, decidiram-se por adotar-me. Foram, numa terça-feira de julho, até o… e assim que me viram não aguentaram. Disseram que eu olhava para eles feito quem pedia colo, como quem, abandonado pelo destino, encontrou a sorte nos braços de dois velhinhos. E me levaram, mesmo eu não podendo falar, sabiam bem disso, mesmo eu tendo pernas curtas… talvez eles até gostassem desse fato, posso supor porque não tiveram filhos… não queriam crianças correndo pela casa. Eu era do formato e do tamanho que eles queriam. A criatura ideal para preencher o vazio de dois velhinhos desfilhados. Sim, fiquei sabendo depois que já haviam tentado ter filhos, mas a dona Matilda perdera três bebês e resolveram não tentar uma quarta vez, seria uma grande dor, mesmo que previsível. Jerônimo passou por tudo isso com eles. O mordomo, quase tão velho quanto os dois aposentados, estava naquela casa há pelo menos três décadas. Eu só tinha doze anos na época, um menino na beira dele… perto dos meus: já quase um idoso. Segundo pensavam: minha memória já não era das melhores, talvez também minha atenção, por isso a conclusão precipitada de que o mordomo realmente estava certo e que, muito provavelmente, num vacilo, eu tenha derrubado o vaso. Cheguei a crer também nisso. Duvidei das minhas próprias faculdades, duvidei das coisas que eu via, mesmo minha visão estando em condições perfeitas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que covarde! Estou me eximindo das minhas responsabilidades por um simples orgulho felino. Martirizei-me por todos os cantos da casa e, na falta de ter com quem conversar, decidi investigar o caso. Falta talvez dizer a você, desocupado leitor, que se investiguei não foi só pela dor de talvez ser o culpado do crime… talvez você esteja pensando: ora, mas tudo isso por um simples vaso? No entanto, não era qualquer vaso, nele estavam contidos os resquícios de muitas vidas. Seu Omar e dona Matilda poderiam até inferir juízos sobre o assunto, mas a única coisa que faziam era lamentar. Poderiam muito bem, numa hipótese até justificada pelas ocasiões, dizer que o pobre do gato sentia ciúmes, que, sabendo haver dentro do vaso chinês de porcelana azul as cinzas dos fetos abortados, cogitava os mundos possíveis em que ele, desgraçado felino, não fazia parte dessa família. Pobre gato caduco, diziam ambos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passei a vigiar a rotina de Jerônimo, eu sabia que ele escondia algo. Seus olhos sempre baixos, como quem tentava se desviar dos próprios pés. Sua gola desajeitada… sorte dele que não era eu o patrão. Meus tutores não se importavam mais com essas coisas de aparências dos empregados. Bem lembrado! Eu não havia situado o leitor de que na casa, além do seu Omar, dona Matilda, Jerônimo e eu (que me reservo ao direito de anonimato, já que eu, cá de onde falo, também não posso saber as graças de quem me lê), também estava na casa e, noutra ocasião, talvez pudesse ser uma suspeita, a cozinheira Cida. Lá fora ainda tinha, na garagem, o motorista Dirceu e, no jardim, o jardineiro Alfredo. Todos os nomes são falsos, é claro, dado que não quero expor os dois velhinhos que me acolheram em todas as minhas necessidades. E por que não coloco também um nome falso para a minha persona?, você pode se questionar. Eu poderia deixar o meu impaciente leitor gastar suas unhas… mas isso é um pormenor que talvez valha mencionar. É simples, o meu anonimato é por pura força do drama, senão este que narra não seria eu, mas outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jerônimo, como eu ia dizendo, andava sarrabieiro. Ele suava de nervoso perto de mim, e isso me deu ainda mais fortes indícios de que de fato ele teria sido o culpado. Eu, como não sou bobo, provocava-o. A todo canto que ele ia, eu seguia atrás como um gato sorrateiro, com o perdão da ironia… Calculei que estava próximo de encontrar uma brecha nas evasivas do sujeito, pois, com todo aquele nervosismo, ele vacilaria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda restava buscar por uma prova e, talvez a coisa mais importante, saber se o crime fora fruto de puro descuido ou se ele havia premeditado. Se premeditado, restava saber as motivações que moviam o mordomo ao ato nefasto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era já fim de tarde quando, diante do pôr do sol, ou das poucas frestas visíveis em meio a tantos prédios que surgiram ao redor de nossa casa nos últimos dez anos, quando fui atingido por um relampejar de sensatez detetivesca. As roupas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu tinha noção de que o mordomo não lavava suas roupas de serviço, era Cida quem fazia isso no sábado. Ainda era sexta e resolvi investigar mais de perto. Assim que Cida descuidou-se, distraindo-se com um café que estava no fogo, avancei por detrás dela em sentido da lavanderia, supunha encontrar lá as roupas do malandro. Para minha fortuna, ele havia deixado na lavanderia as roupas do dia do crime. Logo me pus a investigar mais de perto. Dito e feito! Encontrei um caco na lapela do safado e tratei de planejar como faria para levar as roupas até meus tutores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de falhar ao tentar enganchar com minhas garras, abocanhei a lapela, que tinha gosto de suor, e arrastei até a sala. Antes tive que passar por Cida novamente, que, para minha felicidade, estava concentrada nas xícaras&#8230; Quando cheguei na sala e arranjei a cena para que fosse de fácil constatação que o culpado era na verdade Jerônimo, me senti um verdadeiro Dupin.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os velhos ficaram chocados com a situação e, após alguns elogios acerca da minha esperteza na arte de desvelar as injustiças, me pediram os mais grandiosos perdões que eu já tinha ouvido em toda minha vida de gato. Não se enganem, tenho só uma vida e ainda dura em média só a idade de um reles adolescente. Por isso não posso gastar minha beleza explicando pormenores. Mas, indo direto ao ponto, eu tinha certeza que o canalha confessaria tudo e diria os motivos assim que chegasse, no outro dia de manhã.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passou-se a noite. E quando Jerônimo chegou a arapuca já estava armada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiro ele chorou, de praxe. Essa gente chora por tudo, afinal. Depois, tratou de pedir desculpas por ter colocado a culpa no “gato”. Canalha duas vezes! Podia me tratar diretamente, mas preferiu ser indireto e ainda me chamou pela espécie. Eu não fico chamando os outros pela espécie…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, até eu me senti um pouco mal quando o sujeito passou a narrar os ocorridos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele disse que naquela noite o seu netinho de dois anos morrera de febre amarela, doença que estava atingindo muitos miúdos da região. Acabou que não dormiu bem, mas, como nunca em trinta anos tinha jamais faltado um único dia sequer, resolveu trabalhar assim mesmo. No vaivém pela sala, depois de algumas xícaras de café, vacilou e esbarrou no vaso. Como a primeira criatura que passou pela sua mente foi eu, ele resolveu me acusar do mal feito. Entretanto, andava se remoendo desde então e estava decidido a se desculpar e revelar os pormenores, disse isso passando a mão pelo meu corpo, em sentido de desculpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois disso, ele suspirou e disse que estava tudo bem se quisessem despedi-lo. Os velhinhos se entreolharam e não disseram nada por um bom tempo. A situação estava estranha. Senti que talvez realmente cogitassem despedir o sujeito. Resolvi também agir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pulei no colo de Jerônimo, que agora estava sentado aos prantos e eu, mesmo sem ter mãos e com minhas pernas curtas, rocei em seu corpo buscando acalentar a sua dor, ser para ele, por um momento, o que eu havia sido toda a minha vida para aqueles dois velhinhos. Depois olhei para meus tutores diante de nós e dei um miado, como que dizendo: vejam este homem chorando a morte do neto e o peso da responsabilidade de ter derrubado o objeto mais importante da vida de dois velhinhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dona Matilda foi a primeira a sorrir, depois o seu Omar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu, ainda no colo do mordomo, dizia a mim mesmo: não pode ser mal sujeito este homem tão emocionado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">* Publicado originalmente no livro “Linha tênue” (Margem, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Paulo Zan</em></strong><em> é o nome artístico de Paulo Alexandre Trindade Freire, (Rio de Contas-BA, 1999), graduado em Filosofia e mestrando em Literatura e Cultura &nbsp;pela Universidade Federal da Bahia. Já publicou os livros de contos Linha tênue (Margem, 2022) e &nbsp;Trapaças (Caravana, 2023). Participou das antologias “Pacote de Textos” (Org. Rafael Caneca, 2021) e “Acaso literário Vol. 1” (Org. Simone Campos, 2021).&nbsp; É apresentador do podcast Orgulhoso Cast.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-i-88/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Oct 2024 15:24:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[153ª Leva - 01/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Nívia Maria Vasconcellos]]></category>
		<category><![CDATA[o corpo é uma foto no escuro]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://diversosafins.com.br/diversos/?p=20465</guid>

					<description><![CDATA[O corpo ocupa espaços na poesia de Nívia Maria Vasconcellos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Nívia Maria Vasconcellos</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/ZO-INTERNA.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="351" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/ZO-INTERNA.jpg" alt="" class="wp-image-20475" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/ZO-INTERNA.jpg 351w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/10/ZO-INTERNA-211x300.jpg 211w" sizes="auto, (max-width: 351px) 100vw, 351px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Arte: Zô</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>o corpo é uma foto no escuro</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">meu corpo<br />
desumanizado<br />
de impossibilidades</p>



<p class="wp-block-paragraph">meu corpo<br />
recomposto<br />
na postagem</p>



<p class="wp-block-paragraph">meu corpo<br />
desfeito<br />
pelo seu olhar</p>



<p class="wp-block-paragraph">é escrito<br />
com luz<br />
porque tudo é escuro</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>maremoto</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">sophia mello breyner andresen<br />
me sopra versos sobre o mar<br />
enquanto o oceanário se distancia</p>



<p class="wp-block-paragraph">o dragão-marinho-folhado<br />
veio comigo na porção de coisas<br />
que não se podem esquecer</p>



<p class="wp-block-paragraph">seu corpo carnívoro<br />
não é folha<br />
não é cavalo-marinho<br />
não é peixe-cachimbo</p>



<p class="wp-block-paragraph">é uma das criaturas<br />
que vieram desestabilizar<br />
o que parecia pacificado no mundo</p>


<p>[como meu amor por ela]</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><sup>3</sup></strong><strong>Poema</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">poema<br />
é<br />
<span style="color: #ffffff;">..</span>nó<br />
de diferentes tipos</p>



<p class="wp-block-paragraph">com<br />
diferentes<br />
modos<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;</span>de des/amarração</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>pequenas violências cotidianas I</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">cadê o namoradinho, minha filha?<br />
entre uma colher e outra de sopa<br />
indaga minha mãe<br />
que faz parecer isso<br />
uma mera curiosidade<br />
olho para minha mulher a seu lado<br />
largando o talher sobre a mesa<br />
a sopa esfria em segundos</p>



<p class="wp-block-paragraph">/numa pergunta tão simples<br />
a negação de um mundo/</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>memento</strong></p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><em>a sónia brito</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">tudo se vai no<br />
esquecimento</p>



<p class="wp-block-paragraph">tudo nosso<br />
tão digno<br />
de lembrança</p>



<p class="wp-block-paragraph">estilhaçado</p>



<p class="wp-block-paragraph">ainda temo<br />
cada tremor<br />
de tua memória<br />
que tropeça</p>



<p class="wp-block-paragraph">o terremoto destruiu<br />
a biblioteca real<br />
e mais de 70 mil volumes<br />
lá armazenados</p>



<p class="wp-block-paragraph">por aqui também<br />
presencio destruição</p>



<p class="wp-block-paragraph">sou tirada<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>do corpo<br />
de minha mãe<br />
mais uma vez<br />
todos os dias</p>



<p class="wp-block-paragraph">como poemas que<br />
se atiram aos cães</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>vascular</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">tenho que andar ainda que a casa não tenha água e o suor escorra em meu corpo ainda que o sol nunca vá embora mesmo à noite a secar a lagoa e suar o meu rosto tenho que andar ainda que cansada esteja ainda que não tenha pernas e acabe o fôlego ainda que os quilômetros nunca cessem ainda que a boca seja seca tenho que andar ainda que me faltem passos ainda que os líquidos a percorrerem meu corpo não matem minha sede ainda que o rio que ladeia minha casa não mate minha sede ainda que eu seja secura tenho que andar ainda que ao meu redor tudo que açude seja miragem tenho que andar pois a casa não tem água e meu lar está distante</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Nívia Maria Vasconcellos</em></strong><em> é artista da palavra, atuando como poeta, ficcionista, letrista e declamadora. Entre outros livros, publicou A paixão dos suicidas (Selo João Ubaldo Ribeiro, Ano II), Cãibra de Nó (Prêmio Jorge Portugal, 2020) e OCORPOÉUMAFOTONOESCURO (Patuá, 2023). Lançou o álbum A Vênus de Willendorf com o grupo Mousikê, com o qual realiza apresentações literomusicais. É doutora em Literatura e Cultura pela UFBA e realiza pesquisa sobre poesia brasileira contemporânea, autoria, campo literário e oralidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
