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153ª Leva - 01/2024 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Neuzamaria Kerner

 

Arte: Zô

 

PEQUENO CONTO DE UMA GRANDE DOR

 

Sofrimentos do dia a dia.

Acordou bem, mas de repente se perguntou: hoje eu vou sofrer pelo quê? – O dia me trará a resposta. No trabalho desfilavam pessoas em busca de soluções para os problemas com o fisco. Aproveitavam e contavam suas desditas. Na cabeça do moço uma luz sombreada se acendia. Eis um sofrimento para me agarrar a ele. Em seguida, a moça confusa passava mensagem exigindo atenção e cobrando promessas acumuladas. Se colava ao coração mais um sofrer. Ia para o banheiro e vertia água desde os olhos no  vaso branco que recebe todas as águas e mais. O moço sofria num gozo estranho as dores que vinham de fora. Não era bom, mas sofria neste prazer. Mais um atendimento e ouvia a mais um derrame de infelicidades que aderiam ao seu peito, muro de lamentações diárias.  O moço mal dava conta do próprio muro e desabava em mais sofrimentos. O que mais tenho hoje para sofrer? Mal acabou de pensar, veio um telefonema sobre  uma separação matrimonial na família. Culpas pra lá e pra cá vindas das partes envolvidas. Um nó na garganta crescia como na dos  condenados no minuto cadafalso. Que pena deles e de mim que somos seres imerecidos de tanta dor!

Em casa, já se pensando longe dos sofreres alheios, um pássaro preso na gaiola vizinha lhe canta a canção de ninar dos viciados em dor.

 

 

***

 

 

CEGO POR QUERER

 

Numa aldeia qualquer na beira de um rio qualquer neste mundão de meu Deus uma criança nasceu cega e assim permaneceu até que, já na adultidade, um médico se compadeu e com mãos hábeis e instrumentos adiantados deu-lhe a visão. Que alegria! Pela primeira vez viu a cor do caqui, os ranhos transparentes na sua polpa. Antes só lhe sabia a maciez e a doçura do mel quando em sua boca deslizavam pela língua e descia para o destino. Viu o matizado de cada flor. Viu como eram as patinhas do seu gato que arranhavam carinhosamente as pernas quando pedia o ninho do colo. Os passarinhos… Ah!… Esses eram a delícia no novo paraíso de ver. Explorava-o com prazer.

A sua aldeia se banhava noite e dia no rio que, como um sino de bronze,  anunciava as horas da vida o tempo inteiro.  Um dia, se distanciando a poucos metros do seu chão,  viu um passante chutar um cachorro que salivava por um pedaço de carne. No mesmo dia viu um homem com a brutalidade dos monstros subjugando uma quase mulher, em seguida matando-a para silenciar seus gritos denunciantes. No mesmo dia, já assombrado com o que via, um homem incendiou o outro que dormia numa calçada. Antes do cair da noite, viu barracos caindo em barrancos, rios envenenados, matas gritando em quedas, bocas de gente babando fomes, almas alienadas, zumbis nas cracolândias, dores-choros-rangendo dentes…

Voltou, apanhou trapos grossos e pretíssimos e fez tufos para ou ouvidos e vendas para os olhos serventes.  Num tamborete sentou-se em silêncio com uma bengala ao lado, caso precisasse se defender do que os olhos cansados pudessem ver, sentir e sofrer.

O sol deu uma risada ardente e cínica. A lua derramou duas lágrimas conformadas.

 

 

***

 

 

O LUGAR DAS MÁSCARAS

 

Olhe, moça, eu já estive neste lugar. Olhe, eu sei o que você sente. Não sei dos seus motivos, mas sei dos caminhos que você trilhou para chegar onde está agora.

Sabe, quando eu conseguia acordar, abria o armário e escolhia a máscara do dia. Colava-a na minha cara e ficava protegido. Às vezes, no meio do dia, eu tinha que voltar correndo para casa porque a máscara que estava usando não mais servia: começava a se derreter com o suor das emoções e tinha que ser substituída mais urgentemente do que todas as urgências do mundo. Se a máscara se despregasse de mim, eu seria visto. O que faria, então?  Ficar nu dentro da vida, na vista dos outros, seria o inferno pegando mais fogo ainda.

Sei onde você está, moça. Creia!

Como eu não podia levar o armário das máscaras nas costas comprei um baú preto, bem chaveado, e o carregava no lombo, rua acima, rua abaixo.

Diziam: – lá vai ele! -. Sim, lá vou eu com o baú nos ombros. E todos completavam: – Oh! – e eu me doía mais e dizia ai… Aonde eu ia levava meu companheiro indesgrudável. Já estava acostumado e parece até que me dava certo prazer. Pesava menos. A gente se acostuma com tudo. De bom e de ruim. Até com a dor que enfeia a gente acha bom.

Olhe, moça, ouça bem o que não me canso de repetir: já estive neste lugar e resolvi desmatar o mundo para encontrar um caminho de volta para um outro onde já estive também.

Encontrei uns anjos pela estrada e, no início do retorno, chutei-os. Eu precisava dessa companhia, mas lutei contra. Não sei explicar. Eles, teimosos, ficaram grudados. Me ensinaram que a vida é sempre o aprendizado pela estrada de volta… Reaprender a função das asas não é lá coisa muito fácil. Não é não. Mas a gente é novo e sempre pode ter tempo de escolher.

Há muito chão para caminhar. Há muito espaço para voar. Há muito tempo ainda… Talvez.

Não sei, moça, se você entende o que falo e digo.

 

 

***

 

 

O SOLDADO, O POETA, OUTROS E EU

 

Todo vestido em roupa macia passava o soldado e me olhava de longe. Todos os dias fazia o mesmo percurso entre o quartel e o meu portão. Demorou pra eu saber que falava. Que voz de trovão virou pontual os meus ouvidos, quando entardecia. Forte, mas não amedrontava. Durante três dias, como reza de promessa, parou diante de minhas ânsias e lábios duros tocaram nos meus. Até hoje não sei se gostei, mas de uma forma que não sei explicar, senti segurança. Num destes amanheceres ele abriu meu portão, pediu emprestados meus pequenos pés e os pôs sobre seus coturnos lustrosos e andou uns dez passos sem me deixar pisar no chão. Gostei daquele novo chão sobre o qual nunca havia caminhado antes. Numa noite, chegou vestido de guerra, tocou meu corpo vestido de alma, trançou meus cabelos com estranha habilidade de força e me fez prometer que aguardaria a sua volta para o destrançamento. Eu quis dizer sim com um beijo na sua testa sempre guardada por um capacete. Nossas alturas eram incompatíveis. Ele alto como um poste de luz. Eu pequena como… O fato é que ele não se curvou para receber meu respeitoso beijo. Meu coração travou naquele momento. Muitas guerras ele travaria, porém sem mim. Decisão aprontada e apontada para o futuro.

Aí apareceu o poeta, suave como um passarinho. Cantava no galho junto ao meu portão. Às seis da manhã começava o ritual de encantamento, incluindo o destrançamento dos meus cabelos, fio por fio, salpicando pequenas pétalas de flores sobre a minha sagrada cabeça – como costumava dizer. Na verdade, a sua pontualidade era feita de acordo com o seu pensar, pois 6 horas da manhã, na cabeça dele, era qualquer hora do dia. Em todas as horas o dia estava sempre nascendo somente para a minha alegria, por isso o seu descontrole não me incomodava. Já me derramava de amores e ânsias. Seus presentes inusitados eram a minha glória. Sua ausência era a minha incompletude. Ele dizia que meus olhos eram o mar transparente onde ele nadava despido; dizia que o fio do meu cabelo era o raio mais brilhante do centro da lua e, como se fosse real o que dizia, depositava esse fio na palma da própria mão e admirava como se um tesouro supremo fosse; em outros dias, depois de sumiços ao dobrar a esquina, chegava esfuziante e me punha no pescoço um pedaço de brisa. Oh, como eu sentia! Um outro presente demorou sete dias pra trazer. Ao chegar me disse que havia ido ao deserto encomendar um xale de areias e que ele próprio tecera com as mulheres das tendas de um oásis. Ele sumiu por sete dias até retornar coberto de saudades. Enquanto cobria-me os ombros com o xale, ia descrevendo cores e sutilezas e fazendo trejeitos de decorador de corpos sobre a minha pele desejante de alegrias. Mas ele gostava muito era de dobrar esquinas para encontrar inspirações para seus presentes. Até que um dia me cansei de tantas esperas e inconstâncias. Não podia prendê-lo e não queria soltá-lo. Ele conhecia o meu êxtase, mas desconhecia a força que morava em mim. Cortei o galho da árvore do meu portão onde acontecia o ritual da sua magia. Quebrei o joelho da esquina. Nada adiantou. O mago havia me enfeitiçado. Recolhi os retalhos das lembranças, guardei os versos e gestos no meu coração e segui sem mar nos olhos, sem fios de luz de lua, sem olhar para outras esquinas onde a qualquer momento ele pode dobrar.

Outros me chamaram a atenção, mas não quiseram construir histórias dentro de mim: Azuis, brancos, pretos, índios, verdes, amarelos, representados por letras, cegos e estropiados, embora não tenham deixado marcas profundas e não tenham morrido no esquecimento. Tempos depois, mal eu me havia recuperado do soldado e do poeta, chegou um verdureiro. Meu Deus, que mãos calosas e unhas de arar a terra! Matava minhas fomes como se fosse a ambrosia dos deuses espelhada nos galhos de acácia amarela. Entendia o Olimpo – assim como me pareceu – como ninguém e me tornava imortal. Emprenhou-me com o branco maná produzido nos seus chãos com gosto de pão e mel. Caí de paixão pelas mãos grossas e sua fortaleza no olhar. Caí de paixão pelas suas descrições pelos tempos de cada semente sufocada na cova de cada dia.

Fui com ele para os longes das terras verdes. Lá conheci o que havia no disfarce de suas mãos bem como o diabo mais fogoso que havia no mais profundo do inferno ardente. Estive no centro do vulcão. Lá aprendi a solidão. No leito o procurava nas madrugadas e nada. Vivi o esquecimento das maltratadas. Eu era a sua terra e sofria com o rastelo, a enxada, a foice, o podão. Ele gostava do cheiro do rabo das cadelas e me fazia cheirar igual para as suas satisfações. Eu me desconhecia e tinha vergonha de mim. Quebrei o espelho do quarto com uma pedra para não me ver. Não podia gritar as dores para que o grito pudesse alcançar algum ouvido, tamanha era a distância entre mim e o mundo. Estava mais invisível do que sombra no fundo do rio. Ele gritava em seus gozos dentro de minha carne rasgada e minha boca tapada. Naqueles meus dias, ele me embebia o rosto com meu próprio mênstruo. Fugi mato afora. Me achou e, na corda, me trouxe de volta. Pensei em morrer, mas eu não merecia este pior. Ainda não era chegada a minha hora. Pensei: pinhão-roxo, mamona, mandioca braba, cobra coral, escorpião… Não sei se deixei pra trás um aleijão morto-vivo ou um homem morto-morto. Por sete meses fiquei num hospital que acode mulheres. Sete meses depois tive o meu nome mudado. Sete meses depois… atravessei oceanos.

Porém não posso esquecer o rei queniano que conheci no Texas e me fez cometer um poema na vez que o vi. Nem precisei saber seu nome, mas sua coroa permanece nos olhos da minha memória:

 

Hoje eu conheci um rei.
Estava coberto e um preto lustroso que lhe servia de pele
e sua testa sustinha uma enorme coroa
invisível para olhos desatentos.
Do seu sorriso marfim uma voz
pronunciava uma lei sem igual
por aqui.
Na sua altura trazia o Kenya inteiro
reino que deixou atrás de si.

Nunca havia visto um rei em pessoa
ancorado na proa
deste imenso cais que é a vida.

Ambos de passagem pelo mesmo porto
a despedida se fez presente
e a gente partiu se carregando em visão
de um passado que ali se encontrara.
Outros espíritos viajeiros
Se encontraram em nosso peito
E todos seguiram seus destinos.

(Austin – TX – Janeiro de  2024)

 

Eu continuo, buscando pacificação com a existência e resistindo bravamente todos os dias. Seja lá quem me apareça pela frente. Este Eu pode ser um novo que se apresenta diante de mim. Vamos ver o que me dirá.

 

 

Neuzamaria Kerner é poetisa, nascida em Salvador (BA). Professora, graduada em Letras e com os cursos necessários para o exercício da profissão escolhida pelo coração. Membro da Academia de Letras de Ilhéus. Membro da Academia de Cultura da Bahia. Artesã na técnica Bauernmalerei (pintura camponesa de origem alemã). Publicações: “Fragmentos de Cristal” (poemas), “Eu Bebi a Lua” (poemas), “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna” (parceria com outros escritores)(ensaio), “O Livro-Arbítrio das Evas – dentro e fora do jardim”(poemas), “Marcas Escrevividas”(poemas), “Memórias do Silêncio”(contos). Além de publicações esparsas em revistas literárias, mantém blogs e canal no Youtube, onde posta vídeo-poemas.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Gustavo Rios

 

O roteirista e escritor Victor Mascarenhas costuma dizer que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Autor de vários livros, com destaque para “Cafeína”, ganhador do Prêmio Braskem Cultura e Arte, da Fundação Casa de Jorge Amado, livro prefaciado por ninguém menos que Fausto Fawcett, esse feirense nos surpreendeu ano passado com o lançamento de um romance histórico em que, baseado em pesquisas criteriosas, ele criou uma história envolvente, tendo como escolha principal a visão de dois protagonistas quase anônimos – Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro; o primeiro, oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo, major.

Lançado pela P55 edições, em parceria com o selo do próprio autor, a Cafeína – Produção de Conteúdo, “Sete dias em setembro” parece trazer uma nova abordagem quanto aos fatos ocorridos há 200 anos. Fatos que culminaram com a Independência do Brasil. No livro, além de optar por uma bem elaborada ficção para preencher “lacunas”, Mascarenhas nos conduz por uma viagem em que, além das pesquisas, da preocupação histórica e da vontade de se publicar um bom livro, o que prevalece é o gosto pela literatura e por uma ficção de qualidade.

Abaixo, segue uma breve, mas enriquecedora conversa que tivemos sobre o seu romance.

 

Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela

 

DA – Duas coisas me chamaram a atenção em seu livro: a forma escolhida para se contar a história, em que o narrador se utiliza de uma “oralidade”, tal como Cervantes em Quixote, e o fato de que a Independência do Brasil foi um processo mais lento do que o  ensinado nas escolas.  Você concorda que essa forma “oral” serviu para nos mostrar de maneira mais ampla esse momento histórico, já que ela permitiu que fossem relatados outros fatos que extrapolam, em tese, o enredo, mas que são fundamentais para o desenvolvimento do livro, incluindo aí seu viés ficcional?

VICTOR MASCARENHAS – A gente tende a minimizar nossa história quando não enxerga a Independência como resultado de um processo complexo e de muita luta dos brasileiros. É um desserviço reduzir tudo a um arroubo de D. Pedro, ignorando o cenário internacional, onde o liberalismo estava derrubando o velho absolutismo, ou minimizando a luta do povo brasileiro que se uniu para vencer o exército português e na defesa do então príncipe regente contra os desmandos de Lisboa.  Um exemplo que traduz bem a mobilização popular e o papel do futuro imperador está no nome do batalhão onde Maria Quitéria lutou durante a guerra na Bahia: Batalhão de Voluntários do Príncipe D. Pedro. Diante de tudo isso, o desafio era levar o leitor para esse cenário sem ser didático ou redundante e eu queria fazer isso num livro de aventura a la Alexandre Dumas, com o humor e a coloquialidade do “Memórias de um sargento de milícias”. A oralidade que você apontou, que tem como ancestral infinitamente superior o “Dom Quixote” de Cervantes, vem dessa escolha e permeia o livro através do seu narrador, que tem como tarefa principal relatar a viagem dos protagonistas – os dois mensageiros que levam as cartas do Rio até Pedro nas margens do Ipiranga – mas que vai traçando o panorama de um país convulsionado através da história de vários outros personagens, passando por cidades diferentes, comentando os fatos, conversando com o leitor e fazendo paralelos da época com o presente. Mas o que era mais importante era fazer tudo isso mantendo o rigor histórico, enquanto operava com personagens reais em situações fictícias. Por isso, tratei logo de avisar na epígrafe: “Esta é uma obra de ficção, mas qualquer semelhança com nomes, pessoas ou acontecimentos reais não terá sido mera coincidência”.

 

DA – Além dos acontecimentos reais que lastreiam o enredo, temos aí um delicioso rol de histórias também reais e no mínimo curiosas, envolvendo D. Pedro e outras figuras, conforme você vem divulgando em entrevistas. Conte-nos um pouco sobre elas. E de como foi escolher algumas, dentre tantas, visando dar um direcionamento ao livro.  

VICTOR MASCARENHAS – D. Pedro é um personagem tão extraordinário que parece até inventado. Era um tipo complexo e com um humor absolutamente instável, dividido entre suas responsabilidades políticas e uma compulsão pela vida mundana que rendeu muitas histórias, digamos assim, inusitadas. O critério para seleção de algumas dessas histórias e personagens foi ter ligação direta ou indireta com o processo e o período da Independência. O curioso é que mesmo usando apenas fatos documentados, tem coisas que estão no livro que parecem ficção, como no trecho em que os protagonistas se hospedam em um puteiro em Taubaté e são informados que D. Pedro havia dormido lá. Parece mentira, mas a estadia do futuro imperador no bordel realmente aconteceu. Outro exemplo: Pedro, quando criança, costumava se entediar durante a cerimônia do beija-mão no palácio e se divertia dando petelecos no nariz das pessoas. Usei essa informação para explicar a razão do ódio de um dos personagens por ele. Outra informação real que parece mentira é a história da dívida de 12 contos de D. Pedro com um bodegueiro chamado Pilotinho, que surge no livro num encontro entre o agiota e Plácido, um amigo picareta do príncipe, que renegocia o débito e revela que sua origem está nos gastos de Pedro com uma amante francesa, a atriz Noely. Todos os personagens envolvidos nessa história são reais, assim como a dívida, mas a situação que vemos no livro é totalmente fictícia. Esse processo se repete em toda a obra, até na célebre diarreia que acomete Pedro às margens do Ipiranga, quando o leitor descobre que ele parou oito vezes para se aliviar e que tomou um chá de goiabeira numa estalagem em Cubatão para tentar conter a dor de barriga. Tanto as oito paradas quanto o chá estão documentados em relatos da época, mas é algo tão inusitado para um vulto histórico que até parece invenção.

 

DA – Daí que você pareceu se apegar a alguns outros acontecimentos marcantes, fartamente documentados, menos pitorescos e, até então, incontestáveis – a participação popular e heroica de alguns personagens, por exemplo, além da grandeza dos quase anônimos, habilmente convertida em ficção de qualidade em suas mãos. Em algum momento, você temeu ser tachado de ufanista, considerando que a Independência também está sujeita aos tais revisionismos?

VICTOR MASCARENHAS – Apesar de ser o recorte de um período histórico e ter como motor da ação os atos de vários personagens reais, o livro é uma obra de ficção. Meu trabalho como escritor foi atuar nas lacunas deixadas pelos documentos históricos, mantendo a coerência com os fatos. Os personagens e acontecimentos são narrados sob o ponto de vista mais humano possível, o que afasta qualquer leitura ufanista ou heroica ao apresentar razões bem pouco nobres para atos que sempre nos foram apresentados como algo grandioso. O que melhor exemplifica como o livro foi construído é a história da viagem dos mensageiros, que é o eixo central da trama. O único registro sobre ela é que durou cinco dias, que era menos da metade do tempo usual. Esse dado, somado ao fato deles irem sozinhos e sem uma escolta, já mostra que havia uma urgência e uma tentativa de passar despercebidos, o que já remete a uma missão secreta. O clima belicoso entre defensores de Portugal e da Independência adiciona perigo à receita e os relatos da mesma viagem, feita por D. Pedro semanas antes e que foi fartamente documentada, serviu de roteiro para a jornada dos mensageiros, assim como o impacto da passagem do príncipe por várias cidades forneceu as histórias que eles foram ouvindo pelo caminho. Esse mecanismo que cria situações fictícias a partir de fatos e personagens reais está presente no livro todo.

 

DA –   Em algumas entrevistas, você já falou que recorreu a outros livros para trabalhar a linguagem dos personagens. E essa pesquisa pareceu extrapolar um pouco a linguagem em si, influenciando também a técnica usada na sua escrita. Dessa forma, podemos dizer que seu livro possui também algumas características clássicas do folhetim, sem, contudo, perder a complexidade comum ao romance, ainda mais sendo o seu um romance histórico e fiel ao rigor dos fatos ocorridos?

VICTOR MASCARENHAS – A questão da linguagem dos personagens foi um grande desafio. Não podia construir os diálogos com o português contemporâneo e nem escrever como se falava 200 anos atrás, sob o risco de tornar o livro chato ou até incompreensível para o leitor. A solução que encontrei foi recorrer à literatura do século XIX em busca de expressões, palavras, gestos e comportamentos que ajudassem a criar uma linguagem estilizada para os personagens, que fosse crível como o português falado há 200 anos e compreensível hoje. Nessa pesquisa, acabei por revisitar vários clássicos da literatura brasileira que foram publicados em formato de folhetim, um formato que casaria perfeitamente com a estrutura do “Sete dias em setembro”, que é dividido em sete partes, uma para cada dia entre 2 e 8 de setembro de 1822. Então, esse ritmo de folhetim foi algo que a estrutura do livro já impunha de certa forma e que utilizei de forma estilizada, como fiz com a linguagem, para que o leitor tivesse a experiência de curtir a leitura como se estivesse na época dos eventos do livro, participando daquilo tudo.

 

DA – Essa pesquisa deve ter ajudado também na construção dos protagonistas, Bregaro e Cordeiro, imagino. Já que sobre eles pouquíssimos registros foram encontrados por você em suas investigações. 

VICTOR MASCARENHAS – Tudo que encontrei na pesquisa sobre os mensageiros Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro foi que o primeiro era oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo era major. Ou seja: eram personagens reais, mas suas biografias eram páginas em branco, o que abria espaço para a ficção. Como o ambiente da época estava polarizado entre liberais defensores da independência de um lado e absolutistas defensores de Portugal do outro, tive a ideia de colocá-los em lados ideológicos opostos. Bregaro, por ter um emprego no palácio e ser mais próximo da corte, pendia para o lado liberal e, como o exército era majoritariamente leal a Portugal, o militar Cordeiro seria um absolutista contra a Independência e um moralista que não gostava de D. Pedro pelo seu comportamento que desrespeitava a “moral e a família”. Essas diferenças entre eles criaram um conflito que permitiu dar maior profundidade aos personagens e também abriram espaço para estabelecer um paralelo com a polarização que vivemos no presente, dando um tom contemporâneo ao livro. A viagem da dupla, que vai descobrindo mais sobre o Brasil, sendo impactada pelas notícias e vendo o cenário se alterando ao redor deles, também se assemelha à clássica Jornada do Herói e serve de metáfora para a própria formação do nosso país que, aos trancos e barrancos, vai se entendendo e se ajeitando como pode para seguir em frente.

 

DA – Aliás, isso fica bem evidente no decorrer do livro: os personagens vão mudando diante dos conflitos e das descobertas ao longo dessa “jornada de heróis” (já pedindo perdão ao espírito do Campbell pelo trocadilho). Outra coisa é a aparição de alguns personagens, como o Baltazar por exemplo. Creio que sua aparição carrega um forte significado.  

VICTOR MASCARENHAS – Baltazar é um dos personagens fictícios do livro e tem um papel fundamental na trama. Ele é um ex-escravizado que trabalha como ferreiro e auxilia Bregaro e Cordeiro numa das paradas da viagem em que eles são atacados por militares contrários à Independência. A construção do personagem traz algo de mítico e místico para a história. Baltazar é um trabalhador altivo e um homem de fé, que traz na sua religiosidade uma marca genuinamente brasileira: o sincretismo religioso do candomblé. Baltazar entra na história para simbolizar o papel do povo brasileiro no processo da Independência, que foi para o campo de batalha em vários pontos do país e conseguiu derrotar um exército organizado e profissional, como era o português. O que veio depois disso pode não ter sido grandes coisas, mas o processo da Independência foi uma grande conquista.

 

Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela

 

DA – A atitude do Baltazar tem muito de coragem e nobreza, decerto. Mas o fato de ele ter sido libertado a pedido do D. Pedro não tiraria um pouco da beleza dessa metáfora, na medida em que, dessa forma, me pareceu algo concedido e não conquistado? Ou isso também foi intencional. Um tipo de simbolismo a nos mostrar que a liberdade sempre passou pelas decisões e conveniências de um governo ou de um Estado?

VICTOR MASCARENHAS – Há duas abordagens para responder essa questão. A primeira é que o ato de D. Pedro interceder para conceder a alforria a Baltazar entrou no livro para reforçar a informação histórica de que Pedro era contrário à escravidão. Há vários exemplos e citações sobre isso no livro, como a informação que ele concedeu alforria e terras para escravizados que viviam nas propriedades reais ou a transcrição de uma frase em que ele diz: “Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros”, por exemplo. Infelizmente, o fim da escravidão, que também era defendido por José Bonifácio, não veio com a Independência e esperou muitas décadas para ocorrer, mas como o meu livro termina antes mesmo da entronização de D. Pedro, acabo não abordando essa questão, embora deixe pistas sobre o que viria pela frente. A outra abordagem – sobre a liberdade passar por decisões e conveniências de um governo ou de um Estado – é mais pragmática. Há 200 anos, a única maneira de um escravizado ser libertado era se o seu proprietário concedesse a sua liberdade, assim como a única maneira do Brasil se emancipar de Portugal era apostar suas fichas em D. Pedro. A metáfora pode até perder um pouco da sua beleza com essa leitura que você aponta, mas era a realidade que o Brasil vivia naquela época e, mesmo sendo uma obra de ficção, não seria verossímil explicar o fato de Baltazar ser um homem livre de outra maneira.

 

DA – Seus livros anteriores prezam por temáticas mais, contemporâneas, digamos. E você já disse algumas vezes que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Considerando que o seu primeiro foi no ano de 2008, e que os seguintes mantiveram essa linha “urbana”, pergunto: por que só tanto tempo depois você resolveu trabalhar nesse romance histórico e por que a escolha por esse tema?

VICTOR MASCARENHAS – A ideia do “Sete dias em setembro” é decorrente da minha obsessão por tentar entender o Brasil, o que me faz ser um leitor compulsivo de livros de história, ciência política, sociologia e o que me passar pela frente e possa ajudar. Cheguei a iniciar a pesquisa para o livro por volta de 2010, mas a história era um pouco diferente. O que me fez parar foram as dificuldades do processo, que exigia muito tempo, dedicação, pesquisa e uma maturidade que talvez eu não tivesse naquele momento. Sobre essa pegada mais urbana, acho que isso está mais forte nos meus livros de contos (“Cafeína”, “A insuportável família feliz” e “Um certo mal-estar”) do que nas narrativas mais longas, onde acabei construindo uma trajetória mais heterogênea. Meu primeiro romance, o “Xing ling”, é uma ficção científica distópica e meio farsesca, onde uma empresa chinesa compra o centro histórico de Salvador para fazer um parque temático. O segundo, “O som do tempo passando”, é mais intimista e se passa praticamente todo numa oficina onde uma banda de quarentões se reúne para tocar, alternando com flashbacks da vida dos personagens. Por fim, veio o “Sete dias em setembro”, que teve dois gatilhos fundamentais para ser escrito: o aniversário dos 200 anos da Independência em 2022, que forneceu o prazo, e a pandemia, que me trancou em casa e deu o tempo necessário para a pesquisa e a escrita.

 

DA – Agora, gostaria que você nos falasse sobre projetos e planos futuros: o que podemos esperar do escritor e/ou do roteirista (incluindo audiovisual e quadrinhos) Victor Mascarenhas?

VICTOR MASCARENHAS – Quero seguir trabalhando o “Sete dias em setembro” para levar o livro para mais pessoas, aproximar a obra dos estudantes e tentar ajudar a pensar mais sobre o Brasil. Outro objetivo é retomar projetos audiovisuais que foram interrompidos pelo governo anterior, que praticamente parou tudo no setor, e também começar a trabalhar em novos. Para a literatura, tenho uns contos na gaveta e muitas ideias rabiscadas que podem virar livro em algum momento nos próximos anos. A ideia é seguir escrevendo sempre.

 

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Olhares

Olhares

Refúgios cotidianos

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Zô

 

Mirar as coisas diante das visões que se avizinham: eis uma das características do universo criativo daqueles que se dedicam a representar imageticamente o mundo. Ou termo melhor seria o de que artistas nos apresentam a multiplicidade de fenômenos mundanos? Impasses terminológicos à parte, já nos é dado saber que não saímos os mesmos diante da experiência que nos revela signos capazes de trazer à baila horizontes pautados na matéria da vida que testemunhamos incessantemente.

Então, o gosto pelas manifestações embotadas de rotina não nos mostra a inércia dos dias. Pelo contrário, faz com que vislumbremos em tais epifanias recortes marcantes da existência. E é esse olhar humano carregado de sutilezas e atento a detalhes singulares quem pode fazer a diferença no fértil terreno artístico.

De todo o dito acima, arrisco que a produção de uma artista como Giovanna Gonzaga, paulista de nascimento e hoje radicada em Curitiba, seja porta-voz dessa noção um tanto mais atenta aos pormenores dos cenários da vida. Assinando seus trabalhos como , que é como prefere ser chamada, essa artífice das imagens demonstra que é possível reter nuances do mundo em que habitamos através de escolhas confessadamente atravessadas por certa dose de encantamento.

E Zô revela que esse olhar que prima por tal encantamento busca nas paisagens do dia a dia a potencialidade encerrada nas expressões marcadas pelo anonimato. Daí que a face oculta dos agentes que fiam o tecido dos dias ganha uma outra possibilidade, pois se desdobram em formas e cores dispostas a uma reconfiguração das cartografias humanas. Dizer isso é reconhecer que há um sem fim de alternativas delineadas pelo traçado comum da vida, mas que se mostram através de perspectivas diferenciadas, denotando sentidos peculiares de abordagem.

 

Arte: Zô

 

A arte de Zô aposta na dose agigantada de distorção das formas, com criaturas com seus corpos alongados e na representação difusa dos espaços e ambientes. Diga-se de passagem, também o uso das cores aparece aqui conjugado a essa noção multiforme e não convencional da vida, pois tal predileção criativa aponta sobretudo para a ênfase que precisa ser dada a certos clamores existenciais.

Outro importante componente do trabalho da artista é sua inclinação para o território do fantástico, inclusive engendrando contornos, seres e cenários muito típicos daquilo que habita as entranhas do extraordinário. Com isso, Zô nos prova que é possível lançar lentes de aumento sobre a realidade, subvertendo, no bailado insubmisso das formas, qualquer lógica que tente limitar as alternativas de se flagrar a vida.

Entre gravuras, animações, pinturas, tatuagens e arte sequencial, Zô desfila toda a multiplicidade de suportes sobre os quais estão apoiados seus caminhos artísticos. E esse cardápio de opções variadas diz muito sobre a capacidade da artista em poder fundar mundos no mundo, descortinando predileções imagéticas que transbordam doses de intensidade. Sua voz, antes de mais nada, se faz sentir pelo teor abundante através do qual as criações recaem. Na interface profusa  entre seres, lugares e objetos, a arte aqui está posicionada como retratadora do gesto espantado que nos constitui.

 

Arte: Zô

 

* A arte de Zô é parte integrante da galeria e dos textos da 153ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Constança Guimarães

 

Arte: Zô

 

sapiens

 

um homem é preso
arrastando crânios nas ruas de belo horizonte

errantes quatro crânios humanos amarrados
numa corda de varal azul
o homem andava pelo bairro da saudade à luz do dia

no inverno mais quente da capital mineira
o homem preso em flagrante está
à disposição da justiça
os crânios
foram recolhidos
dizem os jornais

 

 

 

***

 

 

 

engrenagem

para Flávia Péret

 

ela amarela quando dia quando tarde quase noite de repente. escuro quase depois escuro total. de noite caldo grosso sono forte. azul claro ainda sono ainda leite café pão café. trabalho trabalho trabalho. mão nas costas nas cadeiras pescoço dor. ela amarela tão forte o sol muito forte mão na testa suor. de repente chuva muita água a rua cheia de poças sombrinhas guarda-chuvas. esbarrões muitos esbarrões pisões tropeções. sapato molhado fila no mercado almoço atrasado. trabalho trabalho trabalho. mão nas costas cadeira velha o chefe. tarde amarela ela tão cansaço. a rua cheia ônibus cheios pessoas cheias dessa vida. azul quase escuro ela quase forte ainda respiro sapato molhado ainda gato no telhado suspiro. todo dia todo dia. gato cinza bobo pra dentro gato pra dentro. azul escuro quase noite depois noite quase alta caldo grosso cama corpo esticado exausto sem dormir.

 

 

 

***

 

 

 

Inventário

 

parafusos franceses com porcas sextavadas, quarenta
parafusos e roscas soberbas, quarenta
soberba
dobradiça
ciúme
remova as películas de proteção
puxador com parafuso philips, quarenta
os nervos cardíacos formam um corpo neural com quarenta mil neurônios
vai me matar
a medula espinhal comanda os atos involuntários, eu obedeço
abaixo cedo sofro vergo
sistema nervoso autônomo

autômato
ele me esmurra na cara
me atira ao chão
chuta barriga pernas costas
verifique todos os componentes
eu tenho dor
parafusos franceses com porcas sextavadas, quarenta
parafusos e roscas soberbas, quarenta
roscas
aorta arritmia válvula batimento martelo

meu coração vai parar de bater
bate em média oitenta vezes por minuto
quatro vezes mais quando me assusto
eu me assusto o tempo todo.

me assusto com o ar que passa gentil, eu desconfio

tenho dor
metros de conduíte
rejunte rebite de alumínio. dejeto

eu me ajeito me ajeito não há
desisto verifique todos os componentes
prego telheiro, quarenta
parafuso atarraxante, quarenta
remova as películas de proteção
ele vai me esmurrar de novo
autômato
rejunte rebite de alumínio
rejeito

 

 

 

***

 

 

 

plantei uma cebola envelhecida

 

a descobri
no fundo da gaveta na geladeira
numa limpeza feita entre reuniões
o tempo passado
tão rápido

a cebola velha babada
no fundo da gaveta tinha raízes enormes

 

 

 

***

 

 

 

em gavetas não se morre de frio

 

moramos em gavetas
você tem razão, wislawa
gavetas com divisórias
mas veja há teto
e o vento circula quando deixamos
as janelas abertas
também há banheiros
e podemos nos limpar
morei em espaços
de engenharia primária
ou negligenciada
construções planejadas
por quem nunca habitaria
um quadrado de poucos
metros divididos

em quadrados menores
de tamanhos diferentes
ali também havia teto
e banheiro e janelas
que eram fechadas no frio

um lar com sol e afeto
encanamento e telefone
hoje o quadrado é um pouco maior
com recortes internos mais ou menos diversos
uma gaveta divertida em família
que chamo lar e assim ele se faz
caixas de papelão
não são gavetas
cobertores rotos
tampouco salvam
o sol quando vem
não é belo queima

 

 

 

***

 

 

 

dulce veiga meu bem, fala comigo

para as mulheres que eu amo

 

ninguém contou para o sol
que hoje é sábado e não vale a pena
queimar o quarto a tarde toda
estou empenhada em não arder mais

por enquanto
deixei o pó nos móveis
o chão todo marcado
roupa de cama na máquina
fiquei de pijama velho
aquele que não usava mais
com medo de ser internada

 

 

Escritora mineira e jornalista, Constança Guimarães lançou em 2024 ”Não quero morrer enquanto durmo” (editora Urutau).  Autora dos livros “Como se fosse possível medir o tamanho do escuro”, (Urutau, 2020), “Ombros caídos olhando para o inferno” (Urutau, 2017) e “A sereia da contorno e outras histórias” (Leme, 2017). É coautora de “Aleatórias” (plaquete ilustrada por Sofia Nabuco, Leme, 2022). Tem poemas e contos em revistas como Rascunho, Gueto (especiais Utopia/Distopia e Crianças em Guerra), Diversos Afins, Ruído Manifesto, Acrobata, Mirada, Germina e Laudelinas. Participa da antologia “Não há nada mais parecido a um fascista que um burguês assustado” (Hecatombe/2020).

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

notas dispersas e submersas com alguns grãos de areia colhidos no bolso*

Por Alex Simões

 

 

não, não é de agora que poesia e poetas nadam sobre o mar e passeiam sobre e sob as águas doces e salgadas. Homero e Caymmi cantaram seus  mares respectivos, Sapho tirou sua  própria vida se atirando ao mar Egeu e Camões salvou os Lusíadas nadando com apenas um braço livre sobre o mar da Cochinchina, após o naufrágio ter levado sua Dinamene embora. Alfonsina Storni submergiu as saudades de um grande amigo no Mar del Plata, Waly Salomão tomou o mar de  sargaços de Ezra Pound e o ofertou a Maria Bethânia, que canta “Eu e água”, de seu irmão Caetano Veloso, que junto com Gilberto Gil compôs “Beira-mar”.

Matheus dos Anjos traz um livro de poemas encharcado de água do mar, do rio, da chuva e das lágrimas, com cheiro de salitre e uns grãos de areia, pois o “solo de praia cabe no bolso” (limo dos dias).  seus versos passeiam sobre e sob as águas, doces e salgadas, e lançam mão de diversas estratégias formais para imprimir movência em meio à “liquidez  farta – diferenciada / negando Bauman com a força / de sete mares” (menino da costa do dendê). temos haikais e  outras formas curtas da lírica e outras formas com versos tomando mais fôlego a ponto de plasmar-se em um poema em prosa cheio de memórias de uma infância em um certo “paraíso alagado”.

aqui alguns topônimos e gentílicos escondem água dentro. há água em todos os cantos deste livro, inclusive nos títulos, inclusive em outras línguas que não a portuguesa. se Kirimurê é “o mar interior” – como assim os tupinambá denominavam  a Baía de Todos os Santos –,  é com este título que Matheus nos apresenta uma cartografia de uma Salvador muito nos moldes oswaldianos e nos dá a primeira pista para vislumbramos aonde nos quer levar o título enigmático deste livro: “o côncavo onde a água sempre faz a curva”. “axiluandas” significa “homens do mar” e é como os portugueses chamavam os falantes de quimbundo, os ambundos, grupo étnico que, por uma dessas etimologias mitológicas, ao responder sobre o que estavam fazendo, lançaram um “trabalhar com redes de pesca”.

“um marinheiro ao contrário” vive em exílio em seu próprio apartamento no 5o andar de onde recolhe areia guardada nos bolsos. o tema do marinheiro exilado presente em Álvaro de Campos e em Sophia de Mello Breyner Andresen, e não só neles, ressurge aqui plantando o mar numa horta vertical. neste, que talvez seja meu poema predileto deste livro, a segunda parte de um tríptico, encontramos outras pistas para entendermos o que faz Matheus escrever o que escreve e como escreve: “a natureza do mar é não ter paredes” e “[…] a revolta é / estender os formatos” (II – plantei o mar na minha horta vertical).

um marinheiro ao contrário vê as coisas fora de lugar porque despatriado. algas são vomitadas, o tempo deve vir sem relógios e o corpo é “bom de bagunçar”. o erotismo passeia pelas formas estendidas às vezes nada discreto, como em “prepara tua canoa/ se pretende me cruzar” (igarapé).

leia esse livro como quem nada ou sobe uma ladeira durante uma chuva torrencial até passar por uma curva cheia de água que atravessa o teto de uma casa e pinga sobre sua cabeça. tudo nele é água, doce ou salgada, em estado líquido, sólido e gasoso. leia movendo-se entre o mar exterior e o mar interior, não só Kirimurê. se, por um lado, “cada banho leva em si um cadáver” (renovo diário); por outro lado, há um clima de intensa umidade provocando esse mar de dentro a emergir pelos poros, como o poeta, que se equilibra em uma corda bamba e bomba, nos canta e conta em “mormaço”:

 

“se escrevo
é pra fazer meu sertão de dentro
virar mar”

 

* Este texto era para ser posfácio do livro a pedido do autor, mas, por algum mistério da senda literária, ficou inédito.

Alex Simões é poeta e performer.

 

 

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