Cada edição que desponta no horizonte de nossa caminhada desperta sempre o gosto por ares renovados. São indicativos de que outras escutas seguem abertas e se fazem presentes. Tais inclinações nos levam a conhecer vozes do mundo cultural, subjetividades que, acima de tudo, projetam o desejo de uma existência quiçá mais plena, dado o componente de que provavelmente a arte seja, em suma, vetor de uma consciência mais ampla acerca do mundo e seus fenômenos. E não estamos aqui a falar somente da arte que intenta contemplações ou fruições estéticas das mais variadas, mas também aquela que é capaz de conectar seus protagonistas aos mais difusos anseios contemporâneos. Nesse sentido, cultura e sociedade são um par indissociável, deixando entrever desdobramentos de cunho social, político e econômico, para não mencionar outros aspectos plausíveis. É perceber que todos nós somos agentes de possibilidades vivas de transformação, condição esta que tem como ponto de partida o plano individual de cada sujeito, seu repertório pessoal. Quando essa dimensão particular se espraia na esfera pública, tomamos conhecimento do potencial que cada criador compartilha com o mundo externo. Por isso, ler, ver e sentir as obras é fundamental numa jornada como a da nossa revista, pois esse gesto revela descobertas e norteia direções que oxigenam os caminhos editoriais. É, então, com esse entusiasmo que acolhemos agora toda a expressividade marcante de poetas como Rita Santana, Karine Padilha, Luciana Moraes, Bianca Monteiro Garcia e Jussara Salazar. Nesta nova edição, somos visitados pelas fotografias de Marcelo Leal, numa exposição de imagens que remontam aos detalhes poéticos do mundo. No caderno de teatro, Vivian Pizzinga desfila todas as suas atentas impressões para a peça “A palavra que resta”. Por sua vez, Guilherme Preger traz análises importantes sobre o provocante filme “A Substância”. Com uma resenha sobre “O inquilino das horas”, livro do poeta Nílson Galvão, Maruzia Dultra nos convoca a expandirmos nossos territórios de leitura. Numa entrevista especialmente centrada em seu mais novo livro, o escritor Marcus Vinícius Rodrigues dialoga com Fabrício Brandão sobre seus processos criativos. Nos cadernos de prosa, os contos de Cecília Vieira e Rodrigo Melo denotam diversidades inventivas. O livro de poemas de Kátia Borges, “Dias amenos”, recebe os mergulhos valiosos de Sandro Ornellas. Como não poderia faltar, gira na agulha de nosso Gramofone o mais recente álbum do pianista Amaro Freitas, com um texto que revela as apreciações de Rogério Coutinho para esse importante trabalho do artista pernambucano. Eis a nossa 154ª Leva. Boas leituras e que venham instigantes ventos culturais em 2025!
De todos os órgãos, a pele é o que possui o trato mais direto com o tempo – “o tempo nos toma/ feito obsessor/ revira nossa pele”, “a urgência/ de cada gesto como/ envelhecer todo dia.” É nela e através dela que a passagem das horas se faz presente-passado-futuro, esculpe o corpo a seu modo, nos cava fugazes demoras de uma poesia vívida que “todo mundo vê, o cinegrafista vê, a jornalista vê, mas não escreve, não tem tempo” (Miró da Muribeca). Nos falta tempo, no entanto é irresistível “inventar uma pele para tudo” (Nuno Ramos), roçá-la, esfolheá-la, penetrá-la, transpassá-la.
Aí me cai, sobre “o tato mais experiente [que] é a palma da mão” (Arnaldo Antunes), essa espécie de tratado dermotemporal. Um “cair como caem” os sonhos, ininstagramável “instante-já” (Clarice Lispector). Não consigo deixar de perceber assim o livro de poemas O inquilino das horas (Villa Olívia, 2024), de Nílson Galvão – “Newson”, o poeta da física, como brinco –, que não se constrange frente a dicotomias ilusórias e persegue imagens complexas, que não refletem, nem complementam as polarizações do mundo – antes, nos dizem baixinho e mansamente: sim E não.
Imagens que escapam às binariedades vulgares que “acusam o ridículo do pensador: sim, sempre os dois aspectos” (Gilles Deleuze): “ser é quente-e-frio”; “ela chora e ri”; “coisas combinam e não”; “ainda/ é ontem, já é amanhã: nunca/ soube decidir sobre coisas assim.”; “quase/ não chove por quarenta/ anos e chove chove chove/ por quarenta anos, e ficamos/ doidos de nossos sentidos,/ quer de alguma chuva/ quer de chuva alguma,”; “tão diversos/ tão simétricos/e tão os/ mesmos.”; “o vagão impregnado de/ algo indefinível e palpável/ no entanto”.
É nesse incansável vaivém de inclusões (vai E vem, porque a norma linguística não sufocará o gracejo!) que o poeta faz morada no tempo, reverenciando-o em seus “deuses quandos”: “já faz muito tempo/ mas naquele posto/ persiste a imagem de/ uma súbita mudança”; “ali ulisses nos aguarda com a/ civilização inteira em sua loja/ de quinquilharias.”; “a começar/ pelos ossos partidos/ dos que foram jogados/ no abismo da história”; “as bananas/ quase verdes// agora quase/ passadas// neste canto/ da casa.”; “o tempo é um sol/ decaído, fica frio mas/ um sol é um sol”.
E, na duração das fotografias em preto E branco de sua memória, dentro delas, de seus grãos, verte em personagem constante a manhã: “hoje de manhã não havia/ manhã nenhuma quando/ acordamos”; “não menospreze as manhãs/ esquisitas, dessas que nascem/ com um brilho que não é o que/ se pensa”; “o nome/ do silêncio/ exato/ entre um/ galo e o/ outro e/ o outro/ no halo/ dessa manhã”; “a pele frágil da/ manhã ficando vermelha”; “a verdade late lá fora./ temos tanta coisa pra/ fazer e a manhã é tão/ curta.”
Dizer a manhã “pele do dia” faz cruzar topologia e cronologia, ao modo filosófico de uma pele-tempo, como ocorre no vivente: a superfície dérmica é o presente do corpo, por isso “o tato não tem antecipação” (Sandro Ornellas) e “organiza na pele uma inteligência” (Lais Muller). Daí também a interioridade corporal ser entendida como passado (tempo regresso, do já vivido) e a exterioridade como futuro (tempo sucessivo, do vir a ser): “O presente é essa metaestabilidade da relação entre interior e exterior, passado e futuro.” (Gilbert Simondon).
Em meio ao passado interior e futuro exterior, a derme: “de criatura esquisita de quem olha/ de baixo de quanto mais baixo de/ muito mas muito mas muito mais/ baixo sob a atmosfera o chão a pele/ sob a pele sob as sete peles”; “toda/ pele arrasta gosta de/ arrastar-se. toda pele/ enrosca. toda pele/ toca. toda pele fuça./ (…) a pele sabe os poros.”; “a alma/ se tem dor não é com/ a pele que sente”; “deixe que a pele se acostume ao/ que não se sabe.”; “toda pele/ à espreita: toda pele é/ outra.” Toda a pele à espreita quer outra, em sua defasagem, nas cinzas das horas depois das horas cinzas das horas depois das horas… – convite que subjaz em O inquilino das horas, embora insurja do mais óbvio e exposto contorno de nossa incontornável realidade de corpo.
Arte: Maruzia Dultra
Maruzia Dultra é jornalista, artista-pesquisadora e poeta.
Devorar as cores em nós, destacar outro tema para o futuro. Hoje, vai
transplantar a palavra que não acordou no corpo inteiro. Passos, no
corpo inteiro, as mais de cem mil vidas, agora, Silenciadas. Inaceitável:
esquecer o dia em que se nasceu (corpo inteiro). Na profundidade de
11km, numa fossa do Oceano Pacífico, a vida quer ser Plenos pulmões, lá
onde o jogo esteja vencido pelo suspirar.
Rente ao chão, nada com os pés, continua assim: inatingível,
distanciado, limítrofe: o natural é já um mistério e AR. Boca aberta,
marulhando ~ ~ ~ faz parte do tempo enevoado. Se encara talvez tanja os
in.vi.sí.ve.is ………………………………………………….g.r.ã.os
***
Compenetrado olhar do Abismo
A meta do veado alvejado
é ser mutação e desova
desencarne das flechas
numa ação Cor de Ouro
Não há beleza nem altura maior
do que suas Quatro pernas abertas
empostadas no caminho
galopando o idílico desconhecido
Ressurgindo…
Ele comporta o peso (é)
depois mais nada:
leve e sereno pu(lu)lar de páginas
Como se a chuva
__________________ se expandindo
e toda gota lavando
a dureza da fibra na Cabeça
A ferida na vida
Pausa de quem recebeu Nove
flechas rasteiras cravadas
na carcaça mais fina
gritante e certa
que pudemos
V E R
***
Peregrino no PandeMundo
Tu não lês o trabalho deste sangue
corpo catando sonhos reciclados
Tem que abrir a janela para ver
Ar noticiando o fim do começo,
pois só há possibilidade de
início no fim dos
meios-limites
Uma coisa infinita a cada dia
Aqui morre também
O das ossadas, O da carne viva ……se faz
Cotidianamente em seu jardim
, cintilante e cariado,
Nosso pranto inoculado do Agora
Corpos jovens ou não
Garranchos e papagaios de toda ….c………..o……………r
***
Sobre atravessar o horizonte partido
Há fome desde a Antera,
onde se poliniza galáxias
Há flor de ideias na tinta espacial
chegando ao exoesqueleto e
em nosso túnel compacto roçando
claras espirais
Se palavra é gasta, sombra túmida de si
malícias negam desfibrilação de estrelas
demônio-um representante
saturação de cores invertidas num dragão marítimo
branco, pouco comum ao olho nu
Nossos pássaros inquilinos
frementes, em desvio
colisão da vida que pulsa
em nós, sem pergunta
Se o peixe feroz, informe e ilegível à claridade
Leviatã New-artífice do exício
do enredo sem rumo
cria o mundo anônimo
noite em todo o corpo, debalde,
carregando as rédeas do tempo nas compotas
de falácias
As sépalas em preto em branco contraem o passado
e assumem a sustentação de toda a flor até o estigma central
parem borboletas luzentes
mitológico sabor do vento
yvytu em zênite
tu e tal e tal e tu
formam-se tessituras de vida
Entre uma cabeça de serpente e outra
não ponderando termos
carregando em sua joia ruína
sua mortal comprovação
***
Tigre de Champawat
Quando a chuva
perde sua cor marrom
e tocamos no mistério
de suas entranhas de tigre
o sangue cristalino revela
numerosos feixes de luz
abrigando nossos desenganos
Na claridade do desamparo
ainda tiros intrépidos
e desenfreados
pelas vítimas que ainda vemos
em nosso Habitat
é doloroso morrer, e ainda morremos
porque não somos tigres
***
Rastro 8
Após o silêncio
a mulher falava com o sangue
Ela: céu e terra
com a ternura em sua face
sempre se
ajustando
à fala do sangue
Após o sono
na manhã
sem cabelo
com sangue
sem sono
Após o silêncio
seus gestos bailavam os braços
e entravam na Odisseia
entrementes
***
No decorrer da noite
Agapanto no peito. Uma Ofélia em água funda. Ainda viva.
Na fuga de novembro. Rasgos de mim.
Mesmo assim, amiga das procelas em fúria.
Uma nova janela aberta. O dossel ao vento nos espalha.
[ Juntas passeamos nas cinzas.
(Você não finda)
Nemorosos
vaga-lumes
Luciana Moraes (1993) é poeta carioca, graduada em Letras pela Unirio. Integra a equipe do portal “Fazia Poesia” e o coletivo “Escreviventes”, pesquisa o figurativo do inominável e o hibridismo nas artes extemporâneas, além de atuar como revisora e tradutora literária. Foi tardiamente diagnosticada, no final de 2023, com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Participou do coletivo “Oficina Experimental de Poesia” (2017-2018). Tem poemas publicados em revistas como “Mallarmargens”, “Capivara”, “Aboio”, “Caxangá”, “Torquato”, “Cassandra”, “Letras Salvajes”, “Zunái”, “ONavalhista”, entre outras. Seus livros: “Tentei chegar aqui com estas mãos” (2022) e “Flor de sangue” (2024).
Um rio que nasceu na cruel periferia do Recife e deságua nas águas da Amazônia. Esse é um roteiro de viagem possível quando se ouve o quarto disco do pianista pernambucano Amaro Freitas, Y’Y (2024). Um jazzista improvável, que cresceu entre o gospel, o funk e o rap e que teve sua vida transformada após um DVD de Chick Corea chegar em suas mãos.
A estreia de Amaro veio com Sangue Negro (2016), marcado pela fusão do jazz com ritmos nordestinos e que abriu caminho para sua inserção no circuito internacional de jazz. Rasif (2018), cujo título em árabe homenageia sua cidade natal, aprofunda a influência do baião, frevo e coco na polirritmia de seu jazz. Em Sankofa (2021), Freitas completa um percurso de pessoas, lugares e filosofias da história negra brasileira, muitos dos quais ignorados pela história oficial.
Y’Y traz o encontro do jazzista com o mundo amazônico, que potencializou sua música com elementos da cultura da floresta. O título vem da expressão para água do dialeto da comunidade indígena amazonense Sateré Mawé. E é de maneira fluida, como água, que o piano de Amaro constrói uma suíte amazônica no lado A, que recupera a ancestralidade e as lendas da floresta. O piano e a percussão se entrelaçam nas faixas “Mapinguari (Encantado da mata)” e “Uiara (Encantada da água) – Vida e cura”. Enquanto Mapinguari, nas palavras de Amaro, se trata de “um gigante faminto e peludo, com um olho e uma boca enorme no umbigo, que vagueia pela floresta em busca de comida”, Uiara é o boto-cor-de-rosa, o princípio feminino das águas.
Amaro Freitas / Foto: Micael Hocherman
A conexão Nordeste-Amazônia já tinha sido feita pelo conterrâneo Naná Vasconcelos em Amazonas (1973), o homenageado em “Viva Naná” e que serviu, de alguma maneira, como guia para Amaro, que usa um piano bastante percussivo ao longo do disco. “Dança dos Martelos” lembra que, no final das contas, o piano é um instrumento de percussão. Ou, mais tecnicamente, de cordas percutivas. Raras vezes um piano soou mais indígena, mais amazônico.
“Sonho Ancestral” é um momento mais lúdico, com direito a citação de “Asa Branca”, que surge como uma possível lembrança de infância, fundindo as bacias do São Francisco e do Amazonas em uma coisa só.
Abrindo o lado B, a faixa-título “Y’Y” (pronuncia-se “iê iê”), trazendo a flauta do britânico-barbadiano Shabaka Hutchings, que representa um “encontro das águas” com o piano de Freitas, como se o rio amazônico desaguasse no litoral pernambucano. “Mar de Cirandeiras” é uma homenagem às cirandas de Pernambuco, uma expressão cultural popularizada por Lia de Itamaracá e pelo Quinteto Violado, entre outros, que aqui ganha a companhia da guitarra do norte-americano Jeff Parker. As reminiscências da terra natal de Amaro levam a um tributo à figura materna, Dona Rosilda, na faixa “Gloriosa”, pontuada pela harpa de Brandee Younger, a primeira mulher negra a ser nomeada para um Grammy de melhor composição instrumental.
Por fim, “Encantados” retoma a abordagem de trio jazzístico bastante comum em trabalhos anteriores de Freitas, com a adição da flauta de Hutchings. A busca pela ancestralidade nas águas amazônicas e nos mares pernambucanos encontra a aldeia global negra do jazz, fruto da diáspora africana. Amaro Freitas aponta para o futuro, sem perder suas tradições afro-brasileiras.
Rogério Coutinho é gestor e produtor cultural, com trabalhos em museus e patrimônio, além de comunicólogo e publicitário. Colaborador eventual da Diversos Afins, apresenta o podcast Gramofone junto ao editor Fabrício Brandão. É o criador e responsável pela Rádio Nove.
deitada na poltrona de frente pra cama
ensaio um luto te vejo segurando um pedaço
de amora adormecida com as mãos no abdômen
carrego no peito um pêndulo estático
e atento aos teus ponteiros
varro os olhos pela casa e a casa despeja
uma canção sem resposta:
tua pele este tronco de madeira antiga
será capaz de carregar ainda
a textura do teu tempo
quando a raposa que à noite te fareja pela janela
decidir enfim saltar em tuas pernas?
o ruído que tua pleura orquestra
ferve na sola dos meus pés um aviso
a noite se esconde da aurora
e o rastro deixado pela areia
forma um longo tapete antiderrapante
a raposa mais uma vez adormece
debruçada nas patas de um cavalo
***
QUANTO AO QUARTO BALDIO
tão irônico este quarto
com estes lençóis branquíssimos
impedindo a poeira a olho nu
embora persistente debaixo do nariz
a parede alva e sóbria adornada
uma longa flâmula vermelha
e dentro
uma citação de madre teresa
– paz
– longevidade
– amor
– paciência
fincado ao leito
o silêncio decora tudo com letargia e raízes
tão irônica esta cama sem cabeceira
presa à parede e ao chão
a cinco passos de uma porta sem fechadura
encostada por um chinelo preso em sua fresta
meu único alarme de segurança
ontem mesmo uma vizinha às 2h da manhã tensa como as cordas de um violino
pediu pra dormir embaixo da minha cama
por medo da colega de quarto
atacá-la com o pente de cabelo
qualquer um pode invadir o espaço
até o vento entra sem permissão
e eu mesmo sem precisar de chave
não consigo sair à revelia
***
HIPOCONDRIA
cresci rodeada de plantas de plástico
não me lembro de arnica em machucados
a mesa da cozinha
sempre costurada por uma mini-farmácia
nimesulida paracetamol privina
hoje teimo fazer sabonetes de argila
e vitaminas de banana com linhaça
***
RELEASE
acordo com 25 anos e olheiras salgadas
preciso logo-logo mexer nas pastas
as máquinas me perguntam
– tua data de nascimento
– o nome do pai
– o nome da mãe
– os três primeiros dígitos do cpf
as máquinas me questionam sem pudor
eu lembro, pai
durante os almoços de sábado
das nossas conversas atravessando o som
do rádio
de como as mexericas são
pequeninas
de como as tangerinas são
grandonas
perto de ti eu era eterna
criança
que dormia com as mãos cruzadas no peito
e pedia a um deus qualquer que fizesse do pai
um guerreiro imortal
como highlander
mas sem morte no final oh dear dad can you see me now? i am myself like you somehow
***
TRIAGEM
cymbalta para suposta fibromialgia
aos 14 esporadicamente alprazolam
aos 16 nos dias de insônia clonazepam
depakote receitado devidamente aos 20
aos 21 a cama dobra de tamanho com lioram
para queda brusca de libido e apatia de sobra:
oxalato de escitalopram
o coringa do hospital psiquiátrico:
sertralina e quetiapina
não peça s.o.s na enfermaria
Bianca Monteiro Garcia nasceu em 1994, no subúrbio carioca, onde vive desde então. Fundou a Macabéa Edições em 2019, editora focada em publicar autoras mulheres de diversas regiões do país. Publicou “breve ato de descascar laranjas”, seu primeiro livro, em 2023, que foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2024, no Eixo Inovação, categoria Escritor Estreante – Poesia. Lançado em parceria de coedição entre Macabéa Edições e 7letras, o livro fala sobre luto, loucura e solidão. Participou do World Poetry Day Festival, de Washington, representando a jovem poesia brasileira, em março de 2024. Em janeiro do mesmo ano, integrou a publicação La Juventud de la poesía en Brasil: muestra de poesía contemporánea, da Fundación Cultural Esteros (Uruguay – Argentina).
Urucutuques é um remanso. Não há turistas com camisas floridas e protetores solar, tampouco hipsters com tatuagens coloridas e barbas bem cultivadas, muito menos DJ’s ou headbangers. Acho que nunca vi um policial fardado, em patrulha. Na verdade, lembro de um que frequentava a praça principal, mas ele não usava arma ou colete e sua ronda se limitava a uma partida após a outra de dominó.
Era como se a cidade tivesse estacado em algum dia da década de 70 e uma parte de sua alma continuasse lá, preservada em um tipo de inocência que não serve para muita coisa, a não ser que o sujeito tenha desistido ou se esquive de grandes emoções. E era justamente desse jeito que eu andava, um bocado esquivo, e continuaria assim “ad infinitum”, não fosse uma inesperada ventura que me veio através do que lá fora chamam de wake up cool ever – acho que é isso -, que significa, basicamente, uma chamada de consciência absoluta. Um dia, de frente para o espelho, do nada dei de procurar o indivíduo que achava que era. Meia hora ali, em uma extenuante busca. Não o encontrei. Em seu lugar, um quase estranho, aquele tipo com quem cruzamos na rua e vasculhamos na memória de onde conhecemos. Sentia que passava por algum tipo de despertar e que havia algo de espiritual naquilo.
De toda maneira, lá estava eu, distraído, a caminhar pelas ruas de Urucutuques com sacolas de compras nas mãos, quando escutei a sua voz:
– Que tal uma cerveja?
Devia ter uns trinta e poucos anos, cabelos alisados e pintados num tom acaju, a alça do vestido caindo até o meio do braço. Seu rosto era bonito, mas desgastado. Estava em uma das mesas de um bar que, na fachada, tinha escrito “Supermercado Iguatemi”.
– Estou resolvendo umas coisas.
– Resolve depois.
– Não posso.
– Tá com medo?
– De quê?
– De mim.
– Ainda não deu tempo.
Ela sorriu. Não tinha um canino e um pré-molar.
– Gostei de você. Vou ficar aqui, te esperando. A vida foi feita pra se viver.
Não encontrei Lucky Strike na banquinha e acabei comprando uma carteira de Broadway, que me causava um pigarro enorme. Fui até o carro e arrumei as sacolas no banco do passageiro. Bastava ligar o motor. Meia hora de ramal. Colocaria uma música e a viagem seria rápida e agradável. Antes de girar a chave, no entanto, pensei nela. Havia qualquer coisa diferente nos seus olhos – esperança ou fé -, embora também tenha enxergado um tanto de desespero e loucura. A vida tem que ser como um rio em dia de temporal, imaginei-a dizer para alguém, ajeitando o cabelo sobre os olhos. Fechei o carro e caminhei até o bar.
Estava na mesma mesa, agora acompanhada de uma larga morena. Sentei em uma das cadeiras, tirei um Broadway da carteira e o acendi.
– Daiane, pega uma cerveja – ela disse para a morena. – O moço tá com sede.
Daiane me olhou e, em seguida, se levantou e seguiu, balançando sua enorme bunda de um lado para o outro, rumo ao balcão onde havia um velhote mal encarado usando boné.
– Isso aqui era um mercado?
– Acho que sim. Agora é bar e puteiro.
– Não imaginei.
– Ficou decepcionado?
– Não tenho problemas com bares ou puteiros.
– Que bom. Tenho um quartinho limpo lá atrás. Quer conhecer?
– Agora, não.
Daiane retornou e serviu a cerveja; primeiro, no copo delas e, depois, no meu. Dei grandes goles, a escutar aquela mulher falar. Dizia se chamar Marisa, crescera em uma área rural longe dali e tinha uma filha de oito anos que vivia com a avó. Chegara a Urucutuques há três meses. Achava a cidade parada, a não ser nos dias de sábado, quando os trabalhadores das fazendas vinham fazer compras e beber. Uma leve brisa cortava a rua da feira, bem à nossa frente, e trazia até nós o cheiro de verdura apodrecida, que se misturava ao da cerveja que secara sobre o piso. Algumas moscas graúdas revoavam à nossa volta.
– Nunca te vi por aqui.
– Venho pouco à cidade. Passo no mercado, na padaria e volto pra casa.
– Deve ser casado.
– Não.
– Algum motivo essa pressa tem.
– Sou só um sujeito que gosta de solidão.
– Eu não ligo se você for casado.
Além de despachar as cervejas, o velhote colocava discos pra tocar. Naquele instante, em duas velhas caixas de som penduradas na parede, Silvano Sales se esgoelava, a rimar castigo com abrigo. Eu conhecia aquela música e, como havia bebido alguns copos, cantei o refrão.
– Ih, tá apaixonado – Daiane falou.
– Parece?
– Muito.
– Daiane, você é uma garota esperta, que deve conhecer os segredos da vida, mas errou nisso. O que acontece comigo na realidade é algo bem diferente de paixão.
– Tá desiludido – Marisa disse.
– Também não. O que tá rolando, como os gringos dizem, é um negócio chamado Wake up cool ever.
– Que porcaria é isso?
– É como se, de repente, num susto, eu tivesse começado a entender o que é que vim fazer aqui.
– E o que você veio fazer aqui? – Marisa quis saber.
– Ainda não descobri.
– Me conta, quando souber.
– Pode deixar.
Daiane se levantou.
– Vou pegar outra.
Bebemos mais duas ou três. Minha língua começava a enrolar, quando fiz um brinde a todas as coisas boas que ainda nos aconteceriam. Os copos estalaram no ar.
– Que tal ir lá no quarto agora?
– Hoje, não, Marisa. Mas volto qualquer dia desses.
Ela fez um muxoxo.
De onde estava, vi dois cachorros muito magros cruzando, uma senhora varrendo a calçada em frente a sua casa e outra senhora a caminhar com uma Bíblia na mão. O sol começava a se pôr – o sol laranja de Urucutuques, uma panela de ouro a reluzir o seu brilho sobre o teto de velhas casas. Em alguns minutos, ele começou a se esconder atrás do horizonte e o céu mudou de cor: do azul claro se transformou em amarelo, depois ficou lilás, azul marinho, até que, subitamente, a noite chegou. Eu poderia estar em casa, tentando escrever alguma coisa, a escutar o barulho dos sapos e dos grilos, mas estava ali, num puteiro com o letreiro “Supermercado Iguatemi”, a imaginar que existia algum significado naquilo e que a única coisa que precisava fazer era ficar mais um pouco. Como se aquilo tornasse a vida algo ainda mais cômodo e confortável. Ou, também pensei, como se, de algum modo, eu tivesse feito uma jornada no tempo e regressado a um dia qualquer de 1976.
Rodrigo Melo escreve prosa e poesia e tem quatro livros publicados. Vive em Ilhéus, Sul da Bahia.
Há uma carta lacrada por anos. Podemos, da plateia, desconfiar de que ela tem certa função de despedida. Certamente, traz um mistério, indica um amor e talvez carregue respostas a perguntas difíceis de enunciar. O destinatário é um homem que não teve oportunidade de aprender a ler. Que é capaz de, por muito tempo, guardá-la como um dos documentos mais preciosos e imantados de sua vida, sem saber o que diz. Raimundo, nascido no sertão nordestino e trabalhando na roça desde muito novo, é o homem que recebe a carta, mas precisa aprender a ler para desvendá-la e, para tal, precisa antes vencer a vergonha de se colocar numa sala de aula como alguém que não conhece as letras. Há outros desafios que o protagonista dessa emocionante narrativa terá de enfrentar: ele precisará fugir de casa e de uma história de violência familiar para sobreviver física e emocionalmente, e terá de se colocar em outras cenas e cenários para viver e encontrar-se, para acudir a si mesmo de si mesmo e dos fantasmas que o acompanham e, então, quem sabe, ter coragem de abrir a carta, tão íntima e tão enigmática, conservada por décadas fechada. O remetente dessa carta é Cícero.
Podemos eleger a carta de que falamos como um dos fios condutores da belíssima (e também brutal) história de A palavra que resta, peça adaptada e dirigida por Daniel Herz e que nos oferece uma versão dramatúrgica do premiado livro homônimo do escritor cearense Stênio Gardel, cuja obra foi laureada com o National Book Awards na categoria literatura traduzida, sendo o autor o primeiro brasileiro a receber o prêmio estadunidense. Quando tive a oportunidade de assistir à peça, quando esteve em cartaz no Rio de Janeiro no mês de outubro, eu não havia lido o livro, mas adivinho agora que não há surpresa em saber que angariou um prêmio literário dessa monta, dado que a qualidade poética do texto do espetáculo adaptado é um dos grandes elementos da montagem, que faz jus ao título, dando destaque ao lugar da palavra. O romance de Gardel foi ainda um dos dez finalistas do 64º Prêmio Jabuti, em 2022, na categoria romance literário.
Foto: Carolina Spork
Por outro lado, a peça, cuja realização é da Cia Atores de Laura (comemorando 32 anos de existência, aliás), traz uma dinâmica cênica muito própria e instigante, em que os atores e as atrizes circulam e se dividem pelos mesmos personagens, usando uma vestimenta base, no figurino assinado por Wanderley Gomes. Essa dinâmica fractal repercutiu em mim de modo a ampliar a dimensão dos personagens (em especial, Raimundo), evocando também a noção de que somos mesmo uma multiplicidade, de que, em cada ação e cada gesto nossos, há muitos e muitas dentro de nós, quiçá bem coreografados, mas nem sempre bem adaptados à realidade que nos cerca e que pode exigir-nos umas quantas coisas que, com alguma frequência, não poderemos satisfazer, e uns tantos papéis que tampouco lograremos êxito em preencher. Em cada atitude que expressamos há diversos flancos viáveis e inviabilizados, alguns escancarados, embora nem sempre iluminados e visíveis a olho nu e pé descalço. É dessa forma que, no palco, Ana Paula Secco, Charles Fricks, Leandro Castilho, Paulo Hamilton, Valéria Barcellos e Verônica Reis assumem as vozes e as dores de Raimundo, Cícero e alguns dos outros personagens, em um drama familiar e pessoal de silenciamento, renúncias e, sim, alguma redenção.
É na juventude que Raimundo, nosso personagem, descobre seu amor por Cícero, e será em meio à rotina de trabalho na roça que, juntos, descobrirão a aventura do sexo e as consequências de não se furtarem aos seus desejos. Afinal, já nos sinalizavam Freud e os teóricos e as teóricas da psicanálise que se furtar ao desejo exige uma solução de compromisso dolorosa, traduzida em sintomas corporais e psíquicos, bem como em vida decepada e literalmente paralisada. O interdito da homossexualidade, porém, é um elemento que atravessa, de modo certeiro, o drama familiar de Raimundo, e os segredos e os não-ditos transgeracionais darão lugar a uma dura condenação do protagonista, após a descoberta desse enlace amoroso que o olhar do outro não admite e não suporta. Assim, acompanharemos a jornada de Raimundo, que tem de fugir para longe de sua cidade e das pessoas que ama. Mas somos mesmo muitos e muitas por trás de nossos posicionamentos superficialmente coerentes e, desse modo, as contradições de Raimundo também irão aparecer ao longo de sua vida na cidade, especialmente quando conhece a mulher trans Susany, vivida pela atriz convidada Valéria Barcellos, e também por Verônica Reis e Ana Paula Secco. Susany é um personagem imerso em vivências de violência e de quem, aos poucos, nosso protagonista se tornará amigo.
Foto: Carolina Spork
É preciso dizer que o espetáculo A palavra que resta cumpriu belíssima temporada carioca e merece outras mais, aqui e em outras cidades, porque nós merecemos mais e porque precisamos continuar falando e refletindo, poética e dramaturgicamente, sobre a temática encenada no palco: se a peça nos apresenta poesia e coragem, se menciona vergonha e sua contraparte, a exposição de si, é porque não hesita em pensar linguagens e imagens que trabalham, com primor, preconceitos, conservadorismo, homofobia, rejeição. É porque traz à tona possíveis caminhos de resistência e insistência. As atrizes e os atores da Cia Atores de Laura, claramente mergulhados na experiência literária que se origina em Stênio Gardel, conseguem sustentar o texto nos emocionando e também, em alguns momentos, nos fazendo rir, com as tiradas e reações cheias de ingenuidade e aparente espontaneidade dos personagens nas cenas que evocam o percurso trágico de uma vida e de uma família. E o espetáculo, por fim, tem o dom de despertar a curiosidade para a leitura do livro. Entretanto, infelizmente, ainda não é demais repetir que a violência física, psicológica e simbólica à população lgbtqia+, assim como a mulheres, pretos e pobres (lista que não esgota a lista), é um clichê em nosso país, e a abordagem dramatúrgica do assunto, ainda que não tenha como finalidade a pedagogia moral, mas sim a expressão artística, acaba por se fazer necessária, neste nosso país que tem tomado um gosto enorme por retrocessos. Espero ainda o momento em que não será preciso sublinhar, em nenhum texto sobre teatro, literatura ou cinema, a atualidade do tema, dadas as circunstâncias culturais em que vivemos. Que possamos apenas mencionar o deleite estético que uma excelente encenação, a partir de um texto literário de ampla e reconhecida qualidade, desperta em nós. Que possamos nos concentrar naquilo que um espetáculo teatral nos faz refletir sobre tantos outros aspectos pessoais e existenciais de nossas vidas. Espero ainda o momento em que escrever sobre A palavra que resta e outros espetáculos por vir possa escolher falar de violência e homofobia apontando-os como um evento histórico triste finalmente superado, passagem desbotada da história, como nos canta a música. Mas ainda não chegou o momento. Enquanto isso, podemos ocupar os teatros para elaborar, psíquica e coletivamente, por vias artísticas, nossos traumas individuais e coletivos e, por que não?, conferir beleza poética às histórias que nos constituem.
Vivian Pizzinga é psicóloga e escreve. Lançou, entre outros, “Ruído nos dentes” (Urutau, 2022, poemas) e “A primavera entra pelos pés” (Oito e meio, 2015, contos). Participou de coletâneas e revistas literárias, como da Revista Lavoura 7 (2022,impressa), Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus contra todos (Tinta negra, 2016, contos). Fez doutorado em Saúde Coletiva, no Instituto de Medicina Social (Uerj), é carioca e prefere o outono.
Tenho uma vaga lembrança
De um pássaro [De um mar
De lembrar essa vaga [Essa água
De reprise de ondas
Filmes desbotados [De sombras
Marcas [De patas úmidas
De animais ao redor da casa
Peixes de celofane
Tenho uma vaga
Que se vai
Que se vem
Alga caravela de fogo
Boiando [Como uma chaga
Essa água
Chamada lembrança
Vagando chegando
***
sobre amanhecer no agreste
nessa aridez que tudo ocupa
terra semeada à faca_ iamanaka’ru
como se em terra sua
lança suas bordas afiadas
fere a pele de sua pele quando rasga
em si_ como se nasce_ sem água
essa terra que lhe serve de morada
e se lhe sustenta a epiderme_ é para
quando a sede que lhe bebe lhe serve
nas noites de frio espelhe-se
em galáxia de órion que vaga
lá do alto como a fruta violeta
_ a polpa breve
no céu da noite ao amanhecer
fúria
que o sol no catimbau floresce
_recrudesce_ em meio ao nada
***
visão de n.s. da feira do Arcoverde
En roscas de cristal serpiente breve não vês?
pois ouve
seu farfalhar quando
resbala uns
guizos preguiçosos
arabesco
vivo venenosos
rodeando o barro das
vasilhas e moringas
esticadas ao sol gongórico
entre pés
idas e vindas
os peixes
presos ao calcário
gasto há mil anos
pétreos sob o sol
em duro calvário
não despertam
nem
à castanha passagem
ruidosa passagem
de cabras e trens
um cão
o vento
o vento
os bois
o tempo
a água
pingando
na lata
as mulheres
os homens
a montanha xukuru
a mata
e a procissão das
vestes negras o
corpo santo que
atravessa ao dia
o corpo
ornado de velas
vai ardendo a
parafina
à revelia
tão morno
tão fria
tão morna latomia
tão morna latomia
tão morna latomia
enquanto um tambor
ressoa
o som tortuoso
a ladainha ao
longe não é
senão
a luta de um vivo
e de um morto
timão fiado
santos
santa barrueca bendição
eu e
minha avó
ali
temos
cem anos
de sertão
um cão
o vento
o vento
os bois
o tempo
a água
pingando
na lata28
as mulheres
os homens
a montanha xukuru
a mata
a terra castanha
como
as cabras
exibe suas
cicatrizes
sem
água
a terra
seu chão29
eu e
minha avó
na solidão
ali
temos
cem anos
de sertão
***
O sal
essa sílaba
mínima
marítimo oceano
um grão
cristal
pedra d’água
o sal
essa sílaba
para lavar pés
e derramar
sobre a cabeça
do santo
como o batista
um dia o fez
o sal
essa sintaxe salsugem
para a onda
levar
e trazer o cão
a escama
translúcida
essa bendição
o sal
de queimar o mar
das águas vivas
das pedras lavadas
das ervas nocivas
do encarnado
multitudinoso
rubro carnoso oinopa ponton
homérico salobro sal
para sangrar o mar33
para levar
a onda
para trazer
o corpo
e cobrir as conchas
o fundo do barco
como mínimos
diamantes
para te parir
por um instante
o sal
***
das manhãs na rua das moças
sobre a mesa antiga
marcas
ranhuras
mapas riscados
rotas marinhas perdidas ……..[antigos oceanos]
entre panos
da costa
cauim
papéis recortados
as frutas
respingam um frescor
como as folhas brilham
nas mãos que as colhem
na tábua que as acolhe
e sangram seu sumo
como no andor36
de procissão incensada
sagradas
as frutas
as folhas que Nhá
com mãos escuras
lava
eleva
lava
mergulha
na ágata
e bendiz
as manhãs
da morada
Jussara Salazar é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade de São Paulo [Fapesp, 2016], é mestra em Teoria Literária pela Universidade Federal do Paraná (2010). Escritora, tradutora e artista visual, pesquisa ainda alguns mitos relacionados à oralidade e ao feminino havendo publicado “Inscritos da casa de Alice” [1999], “Baobá, poemas de Leticia Volpi”, [2002], “Natália” [2004], “Coraurissonoros” com tradução de Reynaldo Jiménez [Buenos Aires, 2008], “Carpideiras” [2011] com a Bolsa Funarte, ficando entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na edição de 2012, “O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas” [2014], “Fia” [Projeto Funcultura, 2016], “Corpo de peixe em arabesco” [[2019], “O dia em que fui santa joana dos matadouros” [2020], Prêmio Hermilo Borba Filho e finalista do Prêmio Jabuti e Bugra [2022].
Após dois livros de crônicas, Kátia Borges retornou ao verso com Dias amenos (Segundo Selo, 2023). Nos livros anteriores, lançados durante a pandemia, Kátia escreve com sua palavra de experiente jornalista, de olhar atento aos nossos solucionáveis conflitos, mas também com sensibilidade para o que há de insolúvel. Com suas crônicas, Kátia nos ajudou a atravessar o áspero deserto daqueles anos falsamente distantes. Já neste último livro, um novo de poemas, o olhar de Kátia continua atento ao mundo – na verdade nunca o abandona –, mas traz algo do lirismo pungente da poeta que também atravessou o mesmo deserto que nós todos e todas. E se apegou à poesia através da jornada, trazendo-nos agora o que restou para ser dito pela palavra.
É como ela começa o livro, com um antológico poema sobre a força e a fragilidade com que é feito um poema: “corda tensa”, “quo vadis”, “hades”, “rocha físsil”, “ode extensa”, “mínimo moto”, “solda de estanho, chumbo”, “peça densa”, “equilíbrio em falso”. E nessa sucessão de metáforas, que são o esforço da poeta em traduzir a tarefa de um poema em dizer e sustentar a poesia, o diálogo com os mortos “se aos vivos nada cabe”, o movimento das pedras e “a fímbria espessa do mundo”. Nesse esforço do poema em dizer a poesia, ao poeta restam as máscaras de “vate” e “Sísifo”. Tarefa ingrata, a da poeta. Talvez mais fácil escrever crônicas em um tempo que tanto falou do seu próprio fim. Fim dos tempos. Tempo do fim. Crônicas para tentar entender, já que o poema é somente o que ressoa de “um fio de cobre [que] estoura”. Talvez também por isso o retorno com tanta força durante a pandemia da escrita e leitura de poesia. Quando os tempos fogem à compreensão, só o poema é capaz de dizer algo desse “sem sentido / apelo do Não”, como nos escreveu Drummond.
Se o poeta itabirano falava da memória como amor ao que se perdeu, Kátia fala do amor ao que existe de menor, discreto, ínfimo ou mesmo invisível no nosso dia a dia. A sua poesia ama o que ainda não se sabe ao certo como dizer, embora tenha sido sentido: “amo tudo o que esteja / ainda inominado. […] // resta sossego nos que silenciam / seus mistérios, nos rituais que negam todo acesso, nos poemas ainda não escritos”. O silêncio a que se refere Adriane Garcia no posfácio funciona na poesia de Kátia como contraponto ao ruído de tantas certezas gritadas por redes e cidades, o incessante ruído das pregações, dos moralismos políticos, das propagandas comerciais e autopromocionais, da música consumida ininterruptamente. A poesia de Kátia resiste bravamente aos fogos de artifício da contemporaneidade, artifícios que têm se tornado bombas com cada vez maior frequência. A discrição e – e sem medo de repetir um clichê – fragilidade da sua poesia é sua maior força em tempos de gestos de violência que se esvaem como modas frágeis, ao sabor do vento e das imagens. Da sua poesia, pode-se dizer ainda o que Kafka escreveu sobre “Odradek”, no conto “A preocupação do pai de família”: “Será então que no futuro, quem sabe se diante dos pés de meus filhos, e dos filhos de meus filhos, ele [ela] ainda rolará pelas escadas, arrastando seus fiapos?”. A poesia de Dias amenos nasce madura por se saber discreta e fina.
Mas a contemporaneidade é tempo de poetas, diria alguém equivocadamente evocando Hölderlin. Eles estão por toda parte, publicando, falando, cantando, divulgando-se, posicionando-se, lutando e performando nas redes, nas ruas e no debate público. É justamente por isso que os Dias amenos da poesia de Kátia podem resistir: como testemunho involuntário e às avessas desses dias extremos e ruidosos. Recentemente, em entrevista, eu disse possuir a tese de que em tempos de crise as pessoas recorrem à poesia para tentar se expressar e dizer o que sentem e pensam. É assim contemporaneamente e foi assim, por exemplo, durante a Ditadura Militar no Brasil. A poesia vem quando a vida é colocada em crise, e o papel (social) dos poemas é sempre tentar dizer exatamente aquilo que não se sabe exatamente como dizer, como são as crises. A poesia de Kátia Borges representa muito bem essa noção de lirismo moderno. Principalmente quando seus poemas falam em primeira pessoa do singular, nas incertezas ou nas perdas, nos prazeres ou nos desejos fugazes, nas saudades ou na melancolia.
Em Dias amenos, para arrefecer a passagem do tempo, Kátia busca cumplicidade em pessoas (“Maria, você bem sabe”, “já não há registros de sua vida, Alice”, “vê, amigo, a vida não é nada”, “era um anjo que nem Dona Olga…”), livros (“no tempo certo, os livros dizem não”, “trabalho para viajar e ler livros”), viagens (“um dia volver a julho”, “quando estivemos em Punta del Este”), família (“os olhos verdes de minha mãe”, “minha mãe desatava os nós”, “sou a terceira / a herdar este rosto”, “cada chevette faz lembrar meu pai”), dentre outros sinais para guiar a memória ainda viva: “preocupa-me a âncora /mais que a bússola”. Mas a verdade é que este é um livro de luto, no qual a poeta chora seus mortos, e não apenas eles. É um livro pós-pandemia, tecendo as memórias anteriores à catástrofe, a sua experiência desconcertante (“fundo um país no apartamento, / provisório, imprevisível”) e a consciência do ponto de não retorno (“paisagens que já não vejo”, “escuto em mim a canção do desapego”).
O verso livre de Kátia consegue abarcar muito do lirismo musical, sem recorrer a métricas e camisas de força rítmicas. Sua prosódia é a da brasileiríssima tradição dos cancionistas populares, que tão habilmente retiram melodia do mais prosaico dos fraseados verbais. Paralelamente, há música na sucessão das imagens criadas na hesitação entre som e sentido dos cavalgamentos (“enjambements”) entre versos, como em “mas apenas me calo, a palavra / sumida na boca, // como às vezes some / uma criança, desaparece / um gato, morre / uma flor, uma planta.” Essa é a música dominante das imagens em Kátia, sem dúvida. Todavia, a poeta não se esquece de alguns procedimentos de ruptura com o lirismo popular, que insinuam – mesmo que brevemente – construtivismos, como nas elipses sintáticas de “é preciso rasgar calendários / que não, / subverter cotidianos / que sempre”. São frases quebradas, de sujeitos quebrados, em tempos quebrados.
É bonito, no entanto, como a tristeza e melancolia dos versos de Kátia são capazes de comover e, ao mesmo tempo, promover alguma esperança. E a poeta sabe muito bem disso. Tanto que, à medida que o livro se encaminha para seu fim, sua última parte traz à cena grãos de futuro. Não como horizontes messiânicos de salvação, consagração, vitória e utopia, e sim como experiências possíveis entre a abertura para o inesperado (“sem saber indo de encontro / a um amor pra toda a vida”), a calma (“então cuidemos de pôr calma / em cada letra, antes / que a violência nos transforme”), a consciência da impermanência (“uma esperança não dura / mais que um verão” ou “e, se resisto, é no orvalho / das manhãs que se demoram / só um segundo”) e o eterno retorno à poesia (“e toda tinta torna à pena, / e toda trama torna ao prólogo”). Por isso que a poesia de Kátia Borges sobreviverá como um dos testemunhos mais fiéis do que experimentamos nos últimos anos, fiel como só a poesia é capaz de ser, fiel à sensação de que o fim do mundo, tão comercializado nas redes sociais, só pode ser interrompido pela poesia em sua eterna recusa aos fins.
Sandro Ornellas é escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Isto não é uma carta (P55, 2023) e Colecionador de Nada seguido de Ode Florestal (Villa Olívia, 2024), dentre outros.
“Por afrontamento do desejo.” Ana Cristina César, 27
Com que tormento sento
sobre noites secas e quebradas
onde estalam estrelas, e fachos
quentes rompem horizontes.
Não há nada diante de mim,
senão o vazio no espaço,
o aço sobre a mesa,
a lâmina da língua
que elimina o hálito
e ordena a ordenha
da Criação.
Ouço uivos de ouriços
dentro do poço
e me curvo
à pena e ao punhal.
O Outono risca o céu
de cinzas e incertezas e quedas.
Eu espio a escuridão do rio [Joanes].
***
Austeridade de Modigliani.
Tudo é uma jarra d’água derramada sobre o sossego:
um vazamento opressor na descarga,
um vazamento opressor na pia da cozinha.
Concederia pêssegos frescos ao mancebo
que me trouxe orgasmos
em seu bornal, em sua vassalagem provençal,
e
foice.
Nunca terei a austeridade geométrica de Modigliani.
Talho o verbo e, no poema,
labirinto o Minotauro.
***
Eu, Sapho!
Quando chega do céu,
veste-se então todo de púrpura.
Visto-me de âmbar, abro janelas
e veredas que murmuram águas
à sua passagem.
Danço à sua chegada com festins,
rituais de camaradagem, banquetes de Babette,
alvíssaras, alfaias e entregas.
Nada usurpa a vaguidão dos sentidos,
o estado de languidez daqueles dias.
Resfregam-se amor e medo em meus colapsos.
Há sismos duradouros na carne,
quando cataclismo gozo consigo.
Ante seus olhos istmos, olhos de cereais,
sobre os quais cambaleio e desnudo-me exata,
ritmo versos e estimo arritmias.
Assim como sou: a que envelhece,
a que pende sobre o nordeste dos sentidos.
Aquela que, sobre os telhados, observa sua vinda.
São candelabros acesos na escuridão,
quando chega do céu. Nuvens invadem
os cômodos da casa por alguns dias.
Os cobogós se dilatam!
***
Cortesia
Enólogos avaliam
a acidez das rugas,
cuidam do envelhecimento
das esperas em carvalhos.
Dialogo com a Sombra,
refugio-me no fugidio
e aceito trazer o candeeiro,
pois tento tocar o que me escapa.
Orvalho refinamentos,
dilato nuvens no crepúsculo
e corro na amplidão dos céus.
Homologo alguma alegria
no porvir das correntezas.
Osculo lábios perdidos na lembrança.
Afianço amar a quem já não quero
no ofertório da Casa.
Alumbra-me a sapiência
daquele homem que estila
o Desejo, sem atentar ao telhado
das horas, sem aceder às vigas
céleres dos ponteiros.
Sobejo-me
em seus beijos.
Oxalá eu possa ser cristal
para acolher os aromas do dia, os tons
das aveniências que surgem no contato
com quem está do outro lado do rio,
e ordena romãs no leito da velha jangada,
dispõe os figos e as amoras sobre os bambus,
a fim de que eu, um dia, desatenta e casta,
saboreie as dádivas da sua Cortesia.
***
Papoulas na Fotografia
Mulheres afegãs,
entre a plantação de papoulas,
colhem e ofegam desejos,
com seus lenços rubros,
sua exaustão que plana sobre o cinza
que cobre o horizonte.
Papoulas na
província de Balkh.
Daqui, não vislumbro risos
entre as folhas e os botões que ainda dormem.
As papoulas não querem nascer.
Mulheres vestidas de cinzas,
numa paisagem de chumbo,
também de plúmbeos desejos,
refugiam-se na lavoura.
Herméticas, as papoulas adormecem.
Sequer
um verde-solidão vibra
a cena.
A Loucura sentou na cama
e olhou para as mulheres.
Era preciso arrancá-las da dor
e levá-las ao outono dos dias,
ao pasto da fome,
ao descampado da razão.
***
O Silêncio de Bach
O que amo em Bach
é o seu silêncio.
O vazio de som
das sonatas,
a trepidação das suítes.
O que amo em Bach
é a sua engenharia
do nada.
O que amo em Bach
é a música que não existe.
Rita Santana – Escritora e Atriz. Graduada em Letras pela UESC. Em 2004, ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos “Tramela”. A partir daí, publica: “Tratado das Veias”, “Alforrias”, “Cortesanias” e “Borrasca”, além de participar de eventos literários e de antologias.