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	<title>154ª Leva &#8211; 02/2024 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<description>entre caminhos e palavras</description>
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	<title>154ª Leva &#8211; 02/2024 &#8211; Diversos Afins</title>
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		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Dec 2024 12:43:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[154ª Leva]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 154ª Leva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/08-1.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="500" height="334" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/08-1.jpg" alt="" class="wp-image-20799" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/08-1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/08-1-300x200.jpg 300w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Marcelo Leal</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">Cada edição que desponta no horizonte de nossa caminhada desperta sempre o gosto por ares renovados. São indicativos de que outras escutas seguem abertas e se fazem presentes. Tais inclinações nos levam a conhecer vozes do mundo cultural, subjetividades que, acima de tudo, projetam o desejo de uma existência quiçá mais plena, dado o componente de que provavelmente a arte seja, em suma, vetor de uma consciência mais ampla acerca do mundo e seus fenômenos. E não estamos aqui a falar somente da arte que intenta contemplações ou fruições estéticas das mais variadas, mas também aquela que é capaz de conectar seus protagonistas aos mais difusos anseios contemporâneos. Nesse sentido, cultura e sociedade são um par indissociável, deixando entrever desdobramentos de cunho social, político e econômico, para não mencionar outros aspectos plausíveis. É perceber que todos nós somos agentes de possibilidades vivas de transformação, condição esta que tem como ponto de partida o plano individual de cada sujeito, seu repertório pessoal. Quando essa dimensão particular se espraia na esfera pública, tomamos conhecimento do potencial que cada criador compartilha com o mundo externo. Por isso, ler, ver e sentir as obras é fundamental numa jornada como a da nossa revista, pois esse gesto revela descobertas e norteia direções que oxigenam os caminhos editoriais. É, então, com esse entusiasmo que acolhemos agora toda a expressividade marcante de poetas como <strong>Rita Santana</strong>, <strong>Karine Padilha</strong>, <strong>Luciana Moraes</strong>, <strong>Bianca Monteiro Garcia </strong>e <strong>Jussara Salazar</strong>. Nesta nova edição, somos visitados pelas fotografias de <strong>Marcelo Leal</strong>, numa exposição de imagens que remontam aos detalhes poéticos do mundo. No caderno de teatro, <strong>Vivian Pizzinga </strong>desfila todas as suas atentas impressões para a peça “A palavra que resta”. Por sua vez, <strong>Guilherme Preger </strong>traz análises importantes sobre o provocante filme “A Substância”. Com uma resenha sobre “O inquilino das horas”, livro do poeta <strong>Nílson Galvão</strong>, <strong>Maruzia Dultra </strong>nos convoca a expandirmos nossos territórios de leitura. Numa entrevista especialmente centrada em seu mais novo livro, o escritor <strong>Marcus Vinícius Rodrigues </strong>dialoga com <strong>Fabrício Brandão</strong> sobre seus processos criativos. Nos cadernos de prosa, os contos de <strong>Cecília Vieira </strong>e <strong>Rodrigo Melo</strong> denotam diversidades inventivas. O livro de poemas de <strong>Kátia Borges</strong>, “Dias amenos”, recebe os mergulhos valiosos de <strong>Sandro Ornellas</strong>. Como não poderia faltar, gira na agulha de nosso Gramofone o mais recente álbum do pianista <strong>Amaro Freitas</strong>, com um texto que revela as apreciações de <strong>Rogério Coutinho</strong> para esse importante trabalho do artista pernambucano. Eis a nossa 154ª Leva. Boas leituras e que venham instigantes ventos culturais em 2025!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros&nbsp;</em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>&nbsp; </strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;<strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivopalavrai-7/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Dec 2024 12:36:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Maruzia Dultra]]></category>
		<category><![CDATA[Nílson Galvão]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
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					<description><![CDATA[A incursão de Maruzia Dultra no livro do poeta Nílson Galvão ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>NAS CINZAS DAS HORAS DEPOIS DAS HORAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em><em>Por Maruzia Dultra</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/inquilino-capa-m-1.jpg"><img decoding="async" width="291" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/inquilino-capa-m-1.jpg" alt="" class="wp-image-20742" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/inquilino-capa-m-1.jpg 291w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/inquilino-capa-m-1-194x300.jpg 194w" sizes="(max-width: 291px) 100vw, 291px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">De todos os órgãos, a pele é o que possui o trato mais direto com o tempo – “o tempo nos toma/ feito obsessor/ revira nossa pele”, “a urgência/ de cada gesto como/ envelhecer todo dia.” É nela e através dela que a passagem das horas se faz presente-passado-futuro, esculpe o corpo a seu modo, nos cava fugazes demoras de uma poesia vívida que “todo mundo vê, o cinegrafista vê, a jornalista vê, mas não escreve, não tem tempo” (Miró da Muribeca). Nos falta tempo, no entanto é irresistível “inventar uma pele para tudo” (Nuno Ramos), roçá-la, esfolheá-la, penetrá-la, transpassá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aí me cai, sobre “o tato mais experiente [que] é a palma da mão” (Arnaldo Antunes), essa espécie de tratado dermotemporal. Um “cair como caem” os sonhos, ininstagramável “instante-já” (Clarice Lispector). Não consigo deixar de perceber assim o livro de poemas <em>O inquilino das horas</em>&nbsp;(Villa Olívia, 2024), de Nílson Galvão –&nbsp;“Newson”, o poeta da física, como brinco –, que não se constrange frente a dicotomias ilusórias e persegue imagens complexas, que não refletem, nem complementam as polarizações do mundo – antes, nos dizem baixinho e mansamente: sim E não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagens que escapam às binariedades vulgares que “acusam o ridículo do pensador: sim, sempre os dois aspectos” (Gilles Deleuze): “ser é quente-e-frio”; “ela chora e ri”; “coisas combinam e não”; “ainda/ é ontem, já é amanhã: nunca/ soube decidir sobre coisas assim.”; “quase/ não chove por quarenta/ anos e chove chove chove/ por quarenta anos, e ficamos/ doidos de nossos sentidos,/ quer de alguma chuva/ quer de chuva alguma,”; “tão diversos/ tão simétricos/e tão os/ mesmos.”; “o vagão impregnado de/ algo indefinível e palpável/ no entanto”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse incansável vaivém de inclusões (vai E vem, porque a norma linguística não sufocará o gracejo!) que o poeta faz morada no tempo, reverenciando-o em seus “deuses quandos”: “já faz muito tempo/ mas naquele posto/ persiste a imagem de/ uma súbita mudança”; “ali ulisses nos aguarda com a/ civilização inteira em sua loja/ de quinquilharias.”; “a começar/ pelos ossos partidos/ dos que foram jogados/ no abismo da história&#8221;; “as bananas/ quase verdes// agora quase/ passadas// neste canto/ da casa.”;&nbsp;“o tempo é um sol/ decaído, fica frio mas/ um sol é um sol”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, na duração das fotografias em preto E branco de sua memória, dentro delas, de seus grãos, verte em personagem constante a manhã: “hoje de manhã não havia/ manhã nenhuma quando/ acordamos”; “não menospreze as manhãs/ esquisitas, dessas que nascem/ com um brilho que não é o que/ se pensa”; “o nome/ do silêncio/ exato/ entre um/ galo e o/ outro e/ o outro/ no halo/ dessa manhã”; “a pele frágil da/ manhã ficando vermelha”; “a verdade late lá fora./ temos tanta coisa pra/ fazer e a manhã é tão/ curta.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dizer a manhã “pele do dia” faz cruzar topologia e cronologia, ao modo filosófico de uma pele-tempo, como ocorre no vivente: a superfície dérmica é o presente do corpo, por isso “o tato não tem antecipação” (Sandro Ornellas) e “organiza na pele uma inteligência” (Lais Muller). Daí também a interioridade corporal ser entendida como passado (tempo regresso, do já vivido) e a exterioridade como futuro (tempo sucessivo, do vir a ser): “O presente é essa metaestabilidade da relação entre interior e exterior, passado e futuro.” (Gilbert Simondon).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em meio ao passado interior e futuro exterior, a derme: “de criatura esquisita de quem olha/ de baixo de quanto mais baixo de/ muito mas muito mas muito mais/ baixo sob a atmosfera o chão a pele/ sob a pele sob as sete peles”; “toda/ pele arrasta gosta de/ arrastar-se. toda pele/ enrosca. toda pele/ toca. toda pele fuça./ (&#8230;) a pele sabe os poros.”; “a alma/ se tem dor não é com/ a pele que sente”; “deixe que a pele se acostume ao/ que não se sabe.”; “toda pele/ à espreita: toda pele é/ outra.” Toda a pele à espreita quer outra, em sua defasagem, nas cinzas das horas depois das horas cinzas das horas depois das horas&#8230; – convite que subjaz em <em>O inquilino das horas</em>, embora insurja do mais óbvio e exposto contorno de nossa incontornável realidade de corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/pele-tempo-1.jpg"><img decoding="async" width="350" height="348" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/pele-tempo-1.jpg" alt="" class="wp-image-20740" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/pele-tempo-1.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/pele-tempo-1-300x298.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/pele-tempo-1-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Arte: Maruzia Dultra</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Maruzia Dultra</em></strong><em> é jornalista, artista-pesquisadora e poeta.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-86/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Dec 2024 15:22:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Flor de sangue]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Luciana Moraes]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Tentei chegar aqui com estas mãos]]></category>
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					<description><![CDATA[A singular presença de Luciana Moraes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Luciana Moraes</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/in-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="333" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/in-3.jpg" alt="" class="wp-image-20770" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/in-3.jpg 333w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/in-3-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Marcelo Leal</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"> <strong>00:00 ou À Meia-noite</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"> Devorar as cores em nós, destacar outro tema para o futuro. Hoje, vai<br />transplantar a palavra que não acordou no corpo inteiro. Passos, no<br />corpo inteiro, as mais de cem mil vidas, agora, Silenciadas. Inaceitável:<br />esquecer o dia em que se nasceu (corpo inteiro). Na profundidade de<br />11km, numa fossa do Oceano Pacífico, a vida quer ser Plenos pulmões, lá<br />onde o jogo esteja vencido pelo suspirar.<br />Rente ao chão, nada com os pés, continua assim: inatingível,<br />distanciado, limítrofe: o natural é já um mistério e AR. Boca aberta,<br />marulhando ~ ~ ~ faz parte do tempo enevoado. Se encara talvez tanja os<br />in.vi.sí.ve.is<br />&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.g.r.ã.os</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Compenetrado olhar do Abismo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A meta do veado alvejado<br />
é ser mutação e desova<br />
desencarne das flechas<br />
numa ação Cor de Ouro</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não há beleza nem altura maior<br />
do que suas Quatro pernas abertas<br />
empostadas no caminho<br />
galopando o idílico desconhecido<br />
Ressurgindo&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele comporta o peso (é)<br />
depois mais nada:<br />
leve e sereno pu(lu)lar de páginas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se a chuva<br />
__________________ se expandindo<br />
e toda gota lavando<br />
a dureza da fibra na Cabeça</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ferida na vida<br />
Pausa de quem recebeu Nove<br />
flechas rasteiras cravadas<br />
na carcaça mais fina</p>



<p class="wp-block-paragraph">gritante e certa<br />
que pudemos<br />
V E R</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Peregrino no PandeMundo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tu não lês o trabalho deste sangue<br />
corpo catando sonhos reciclados</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem que abrir a janela para ver</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ar noticiando o fim do começo,<br />
pois só há possibilidade de<br />
início no fim dos<br />
meios-limites</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma coisa infinita a cada dia<br />
Aqui morre também</p>



<p class="wp-block-paragraph">O das ossadas, O da carne viva<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;</span>se faz<br />
Cotidianamente em seu jardim<br />
, cintilante e cariado,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso pranto inoculado do Agora<br />
Corpos jovens ou não<br />
Garranchos e papagaios de toda<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;.</span>c<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;..</span>o<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</span>r</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sobre atravessar o horizonte partido</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há fome desde a Antera,<br />
onde se poliniza galáxias<br />
Há flor de ideias na tinta espacial<br />
chegando ao exoesqueleto e<br />
em nosso túnel compacto roçando<br />
claras espirais</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se palavra é gasta, sombra túmida de si<br />
malícias negam desfibrilação de estrelas<br />
demônio-um representante<br />
saturação de cores invertidas num dragão marítimo<br />
branco, pouco comum ao olho nu</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossos pássaros inquilinos<br />
frementes, em desvio<br />
colisão da vida que pulsa<br />
em nós, sem pergunta</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o peixe feroz, informe e ilegível à claridade<br />
Leviatã New-artífice do exício<br />
do enredo sem rumo<br />
cria o mundo anônimo<br />
noite em todo o corpo, debalde,<br />
carregando as rédeas do tempo nas compotas<br />
de falácias<br />
As sépalas em preto em branco contraem o passado<br />
e assumem a sustentação de toda a flor até o estigma central<br />
parem borboletas luzentes<br />
mitológico sabor do vento<br />
yvytu em zênite<br />
tu e tal e tal e tu<br />
formam-se tessituras de vida</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre uma cabeça de serpente e outra<br />
não ponderando termos<br />
carregando em sua joia ruína<br />
sua mortal comprovação</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Tigre de Champawat</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a chuva<br />
perde sua cor marrom<br />
e tocamos no mistério<br />
de suas entranhas de tigre<br />
o sangue cristalino revela<br />
numerosos feixes de luz<br />
abrigando nossos desenganos</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na claridade do desamparo<br />
ainda tiros intrépidos<br />
e desenfreados<br />
pelas vítimas que ainda vemos<br />
em nosso Habitat</p>



<p class="wp-block-paragraph">é doloroso morrer, e ainda morremos<br />
porque não somos tigres</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<div></div>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Rastro 8</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o silêncio<br />
a mulher falava com o sangue<br />
Ela: céu e terra<br />
com a ternura em sua face<br />
sempre se<br />
ajustando<br />
à fala do sangue</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o sono<br />
na manhã<br />
sem cabelo<br />
com sangue<br />
sem sono</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o silêncio<br />
seus gestos bailavam os braços<br />
e entravam na Odisseia<br />
entrementes</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No decorrer da noite</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agapanto no peito. Uma Ofélia em água funda. Ainda viva.<br />
Na fuga de novembro. Rasgos de mim.<br />
Mesmo assim, amiga das procelas em fúria.<br />
Uma nova janela aberta. O dossel ao vento nos espalha.<br />
[ Juntas passeamos nas cinzas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Você não finda)<br />
Nemorosos<br />
vaga-lumes</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Luciana Moraes</em></strong><em> (1993) é poeta carioca, graduada em Letras pela Unirio. Integra a equipe do portal “Fazia Poesia” e o coletivo “Escreviventes”, pesquisa o figurativo do inominável e o hibridismo nas artes extemporâneas, além de atuar como revisora e tradutora literária. Foi tardiamente diagnosticada, no final de 2023, com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Participou do coletivo “Oficina Experimental de Poesia” (2017-2018). Tem poemas publicados em revistas como “Mallarmargens”, “Capivara”, “Aboio”, “Caxangá”, “Torquato”, “Cassandra”, “Letras Salvajes”, “Zunái”, “ONavalhista”, entre outras. Seus livros: “Tentei chegar aqui com estas mãos” (2022) e “Flor de sangue” (2024).</em></p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Gramofone</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-88/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Dec 2024 14:47:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Amaro Freitas]]></category>
		<category><![CDATA[Amazônia]]></category>
		<category><![CDATA[disco]]></category>
		<category><![CDATA[Gramofone]]></category>
		<category><![CDATA[jazz]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[piano]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Rogério Coutinho]]></category>
		<category><![CDATA[Y'Y]]></category>
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					<description><![CDATA[Rogério Coutinho e suas escutas do novo disco de Amaro Freitas

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Rogério Coutinho</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>AMARO FREITAS &#8211; Y&#8217;Y </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/capa-YY-menor.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="350" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/capa-YY-menor.jpg" alt="" class="wp-image-20711" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/capa-YY-menor.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/capa-YY-menor-300x300.jpg 300w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/capa-YY-menor-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um rio que nasceu na cruel periferia do Recife e deságua nas águas da Amazônia. Esse é um roteiro de viagem possível quando se ouve o quarto disco do pianista pernambucano Amaro Freitas, <em>Y&#8217;Y</em> (2024). Um jazzista improvável, que cresceu entre o gospel, o funk e o rap e que teve sua vida transformada após um DVD de Chick Corea chegar em suas mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A estreia de Amaro veio com <em>Sangue Negro</em> (2016), marcado pela fusão do jazz com ritmos nordestinos e que abriu caminho para sua inserção no circuito internacional de jazz. <em>Rasif</em> (2018), cujo título em árabe homenageia sua cidade natal, aprofunda a influência do baião, frevo e coco na polirritmia de seu jazz. Em <em>Sankofa</em> (2021), Freitas completa um percurso de pessoas, lugares e filosofias da história negra brasileira, muitos dos quais ignorados pela história oficial.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Y&#8217;Y</em> traz o encontro do jazzista com o mundo amazônico, que potencializou sua música com elementos da cultura da floresta. O título vem da expressão para água do dialeto da comunidade indígena amazonense Sateré Mawé. E é de maneira fluida, como água, que o piano de Amaro constrói uma suíte amazônica no lado A, que recupera a ancestralidade e as lendas da floresta. O piano e a percussão se entrelaçam nas faixas &#8220;Mapinguari (Encantado da mata)&#8221; e &#8220;Uiara (Encantada da água) – Vida e cura&#8221;. Enquanto Mapinguari, nas palavras de Amaro, se trata de &#8220;um gigante faminto e peludo, com um olho e uma boca enorme no umbigo, que vagueia pela floresta em busca de comida&#8221;, Uiara é o boto-cor-de-rosa, o princípio feminino das águas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Amaro-Freitas-foto-de-Micael-Hocherman.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="281" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Amaro-Freitas-foto-de-Micael-Hocherman.jpg" alt="" class="wp-image-20712" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Amaro-Freitas-foto-de-Micael-Hocherman.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Amaro-Freitas-foto-de-Micael-Hocherman-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Amaro Freitas / Foto: Micael Hocherman</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conexão Nordeste-Amazônia já tinha sido feita pelo conterrâneo Naná Vasconcelos em Amazonas (1973), o homenageado em &#8220;Viva Naná&#8221; e que serviu, de alguma maneira, como guia para Amaro, que usa um piano bastante percussivo ao longo do disco. &#8220;Dança dos Martelos&#8221; lembra que, no final das contas, o piano é um instrumento de percussão. Ou, mais tecnicamente, de cordas percutivas. Raras vezes um piano soou mais indígena, mais amazônico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Sonho Ancestral&#8221; é um momento mais lúdico, com direito a citação de &#8220;Asa Branca&#8221;, que surge como uma possível lembrança de infância, fundindo as bacias do São Francisco e do Amazonas em uma coisa só.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abrindo o lado B, a faixa-título &#8220;Y&#8217;Y&#8221; (pronuncia-se &#8220;iê iê&#8221;), trazendo a flauta do britânico-barbadiano Shabaka Hutchings, que representa um &#8220;encontro das águas&#8221; com o piano de Freitas, como se o rio amazônico desaguasse no litoral pernambucano. “Mar de Cirandeiras” é uma homenagem às cirandas de Pernambuco, uma expressão cultural popularizada por Lia de Itamaracá e pelo Quinteto Violado, entre outros, que aqui ganha a companhia da guitarra do norte-americano Jeff Parker. As reminiscências da terra natal de Amaro levam a um tributo à figura materna, Dona Rosilda, na faixa &#8220;Gloriosa&#8221;, pontuada pela harpa de Brandee Younger, a primeira mulher negra a ser nomeada para um Grammy de melhor composição instrumental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, &#8220;Encantados&#8221; retoma a abordagem de trio jazzístico bastante comum em trabalhos anteriores de Freitas, com a adição da flauta de Hutchings. A busca pela ancestralidade nas águas amazônicas e nos mares pernambucanos encontra a aldeia global negra do jazz, fruto da diáspora africana. Amaro Freitas aponta para o futuro, sem perder suas tradições afro-brasileiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/66L6pZ2g-To?si=-WpGJx0_gnIULyqa" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Rogério Coutinho</em></strong><em> é gestor e produtor cultural, com trabalhos em museus e patrimônio, além de comunicólogo e publicitário. Colaborador eventual da Diversos Afins, apresenta o podcast Gramofone junto ao editor Fabrício Brandão. É o criador e responsável pela <a href="https://www.radionove.com.br/"><strong>Rádio Nove</strong></a>.</em></p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iv-90/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Dec 2024 14:18:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Bianca Monteiro Garcia]]></category>
		<category><![CDATA[breve ato de descascar laranjas]]></category>
		<category><![CDATA[Jabuti 2024]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[A inovadora voz de Bianca Monteiro Garcia

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Bianca Monteiro Garcia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/bloco-3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="550" height="454" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/bloco-3.jpg" alt="" class="wp-image-20701" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/bloco-3.jpg 550w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/bloco-3-300x248.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Marcelo Leal</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PÊNDULO DE FOUCAULT</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">deitada na poltrona de frente pra cama<br />
ensaio um luto te vejo segurando um pedaço<br />
de amora adormecida com as mãos no abdômen<br />
carrego no peito um pêndulo estático<br />
e atento aos teus ponteiros<br />
varro os olhos pela casa e a casa despeja<br />
uma canção sem resposta:<br />
tua pele este tronco de madeira antiga<br />
será capaz de carregar ainda<br />
a textura do teu tempo<br />
quando a raposa que à noite te fareja pela janela<br />
decidir enfim saltar em tuas pernas?<br />
o ruído que tua pleura orquestra<br />
ferve na sola dos meus pés um aviso<br />
a noite se esconde da aurora<br />
e o rastro deixado pela areia<br />
forma um longo tapete antiderrapante<br />
a raposa mais uma vez adormece<br />
debruçada nas patas de um cavalo</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>QUANTO AO QUARTO BALDIO</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">tão irônico este quarto<br />
com estes lençóis branquíssimos<br />
impedindo a poeira a olho nu<br />
embora persistente debaixo do nariz</p>



<p class="wp-block-paragraph">a parede alva e sóbria adornada<br />
uma longa flâmula vermelha<br />
e dentro<br />
uma citação de madre teresa<br />
– paz<br />
– longevidade<br />
– amor<br />
– paciência<br />
fincado ao leito<br />
o silêncio decora tudo com letargia e raízes</p>



<p class="wp-block-paragraph">tão irônica esta cama sem cabeceira<br />
presa à parede e ao chão<br />
a cinco passos de uma porta sem fechadura<br />
encostada por um chinelo preso em sua fresta<br />
meu único alarme de segurança</p>



<p class="wp-block-paragraph">ontem mesmo uma vizinha às 2h da manhã<br />
<em>tensa como as cordas de um violino</em><br />
pediu pra dormir embaixo da minha cama<br />
por medo da colega de quarto<br />
atacá-la com o pente de cabelo</p>



<p class="wp-block-paragraph">qualquer um pode invadir o espaço<br />
até o vento entra sem permissão<br />
e eu mesmo sem precisar de chave<br />
não consigo <em>sair à revelia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>HIPOCONDRIA</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">cresci rodeada de plantas de plástico<br />
não me lembro de arnica em machucados<br />
a mesa da cozinha<br />
sempre costurada por uma mini-farmácia<br />
nimesulida paracetamol privina<br />
hoje teimo fazer sabonetes de argila<br />
e vitaminas de banana com linhaça</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>RELEASE</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">acordo com 25 anos e olheiras salgadas<br />
preciso logo-logo mexer nas pastas<br />
as máquinas me perguntam<br />
– tua data de nascimento<br />
– o nome do pai<br />
– o nome da mãe<br />
– os três primeiros dígitos do cpf</p>



<p class="wp-block-paragraph">as máquinas me questionam sem pudor</p>



<p class="wp-block-paragraph">eu lembro, pai<br />
durante os almoços de sábado<br />
das nossas conversas atravessando o som<br />
do rádio<br />
de como as mexericas são<br />
pequeninas<br />
de como as tangerinas são<br />
grandonas<br />
perto de ti eu era eterna<br />
criança<br />
que dormia com as mãos cruzadas no peito<br />
e pedia a um deus qualquer que fizesse do pai<br />
um guerreiro imortal<br />
como highlander<br />
mas sem morte no final<br />
<em>oh dear dad can you see me now? </em><br />
<em>i am myself like you somehow</em></p>



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<p class="wp-block-paragraph">***</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>TRIAGEM</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">cymbalta para suposta fibromialgia<br />
aos 14 esporadicamente alprazolam<br />
aos 16 nos dias de insônia clonazepam<br />
depakote receitado devidamente aos 20<br />
aos 21 a cama dobra de tamanho com lioram<br />
para queda brusca de libido e apatia de sobra:<br />
oxalato de escitalopram<br />
o coringa do hospital psiquiátrico:<br />
sertralina e quetiapina<br />
não peça s.o.s na enfermaria</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Bianca Monteiro Garcia</em></strong><em> nasceu em 1994, no subúrbio carioca, onde vive desde então. Fundou a Macabéa Edições em 2019, editora focada em publicar autoras mulheres de diversas regiões do país. Publicou “breve ato de descascar laranjas”, seu primeiro livro, em 2023, que foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2024, no Eixo Inovação, categoria Escritor Estreante – Poesia. Lançado em parceria de coedição entre Macabéa Edições e 7letras, o livro fala sobre luto, loucura e solidão. Participou do World Poetry Day Festival, de Washington, representando a jovem poesia brasileira, em março de 2024. Em janeiro do mesmo ano, integrou a publicação La Juventud de la poesía en Brasil: muestra de poesía contemporánea, da Fundación Cultural Esteros (Uruguay – Argentina)</em>.</p>
</blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-82/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Dec 2024 13:40:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[detalhes]]></category>
		<category><![CDATA[pormenores]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Rodrigo Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[Pormenores mundanos num conto de Rodrigo Melo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Rodrigo Melo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/intena.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="333" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/intena.jpg" alt="" class="wp-image-20696" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/intena.jpg 333w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/intena-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Marcelo Leal</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O QUE VIM FAZER AQUI</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Urucutuques é um remanso. Não há turistas com camisas floridas e protetores solar, tampouco hipsters com tatuagens coloridas e barbas bem cultivadas, muito menos DJ’s ou headbangers. Acho que nunca vi um policial fardado, em patrulha. Na verdade, lembro de um que frequentava a praça principal, mas ele não usava arma ou colete e sua ronda se limitava a uma partida após a outra de dominó.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era como se a cidade tivesse estacado em algum dia da década de 70 e uma parte de sua alma continuasse lá, preservada em um tipo de inocência que não serve para muita coisa, a não ser que o sujeito tenha desistido ou se esquive de grandes emoções. E era justamente desse jeito que eu andava, um bocado esquivo, e continuaria assim “ad infinitum”, não fosse uma inesperada ventura que me veio através do que lá fora chamam de wake up cool ever &#8211; acho que é isso -, que significa, basicamente, uma chamada de consciência absoluta. Um dia, de frente para o espelho, do nada dei de procurar o indivíduo que achava que era. Meia hora ali, em uma extenuante busca. Não o encontrei. Em seu lugar, um quase estranho, aquele tipo com quem cruzamos na rua e vasculhamos na memória de onde conhecemos. Sentia que passava por algum tipo de despertar e que havia algo de espiritual naquilo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De toda maneira, lá estava eu, distraído, a caminhar pelas ruas de Urucutuques com sacolas de compras nas mãos, quando escutei a sua voz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Que tal uma cerveja?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Devia ter uns trinta e poucos anos, cabelos alisados e pintados num tom acaju, a alça do vestido caindo até o meio do braço. Seu rosto era bonito, mas desgastado. Estava em uma das mesas de um bar que, na fachada, tinha escrito “Supermercado Iguatemi”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Estou resolvendo umas coisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Resolve depois.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não posso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Tá com medo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; De quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; De mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ainda não deu tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela sorriu. Não tinha um canino e um pré-molar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Gostei de você. Vou ficar aqui, te esperando. A vida foi feita pra se viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não encontrei Lucky Strike na banquinha e acabei comprando uma carteira de Broadway, que me causava um pigarro enorme. Fui até o carro e arrumei as sacolas no banco do passageiro. Bastava ligar o motor. Meia hora de ramal. Colocaria uma música e a viagem seria rápida e agradável. Antes de girar a chave, no entanto, pensei nela. Havia qualquer coisa diferente nos seus olhos – esperança ou fé -, embora também tenha enxergado um tanto de desespero e loucura. A vida tem que ser como um rio em dia de temporal, imaginei-a dizer para alguém, ajeitando o cabelo sobre os olhos. Fechei o carro e caminhei até o bar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estava na mesma mesa, agora acompanhada de uma larga morena. Sentei em uma das cadeiras, tirei um Broadway da carteira e o acendi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Daiane, pega uma cerveja – ela disse para a morena. – O moço tá com sede.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daiane me olhou e, em seguida, se levantou e seguiu, balançando sua enorme bunda de um lado para o outro, rumo ao balcão onde havia um velhote mal encarado usando boné.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Isso aqui era um mercado?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Acho que sim. Agora é bar e puteiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não imaginei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ficou decepcionado?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não tenho problemas com bares ou puteiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Que bom. Tenho um quartinho limpo lá atrás. Quer conhecer?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Agora, não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daiane retornou e serviu a cerveja; primeiro, no copo delas e, depois, no meu. Dei grandes goles, a escutar aquela mulher falar. Dizia se chamar Marisa, crescera em uma área rural longe dali e tinha uma filha de oito anos que vivia com a avó. Chegara a Urucutuques há três meses. Achava a cidade parada, a não ser nos dias de sábado, quando os trabalhadores das fazendas vinham fazer compras e beber. Uma leve brisa cortava a rua da feira, bem à nossa frente, e trazia até nós o cheiro de verdura apodrecida, que se misturava ao da cerveja que secara sobre o piso. Algumas moscas graúdas revoavam à nossa volta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Nunca te vi por aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Venho pouco à cidade. Passo no mercado, na padaria e volto pra casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Deve ser casado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Algum motivo essa pressa tem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Sou só um sujeito que gosta de solidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Eu não ligo se você for casado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além de despachar as cervejas, o velhote colocava discos pra tocar. Naquele instante, em duas velhas caixas de som penduradas na parede, Silvano Sales se esgoelava, a rimar castigo com abrigo. Eu conhecia aquela música e, como havia bebido alguns copos, cantei o refrão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ih, tá apaixonado – Daiane falou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Parece?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Muito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Daiane, você é uma garota esperta, que deve conhecer os segredos da vida, mas errou nisso. O que acontece comigo na realidade é algo bem diferente de paixão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Tá desiludido – Marisa disse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Também não. O que tá rolando, como os gringos dizem, é um negócio chamado Wake up cool ever.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Que porcaria é isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; É como se, de repente, num susto, eu tivesse começado a entender o que é que vim fazer aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; E o que você veio fazer aqui? – Marisa quis saber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ainda não descobri.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Me conta, quando souber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Pode deixar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daiane se levantou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Vou pegar outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bebemos mais duas ou três. Minha língua começava a enrolar, quando fiz um brinde a todas as coisas boas que ainda nos aconteceriam. Os copos estalaram no ar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Que tal ir lá no quarto agora?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Hoje, não, Marisa. Mas volto qualquer dia desses.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela fez um muxoxo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De onde estava, vi dois cachorros muito magros cruzando, uma senhora varrendo a calçada em frente a sua casa e outra senhora a caminhar com uma Bíblia na mão. O sol começava a se pôr &#8211; o sol laranja de Urucutuques, uma panela de ouro a reluzir o seu brilho sobre o teto de velhas casas. Em alguns minutos, ele começou a se esconder atrás do horizonte e o céu mudou de cor: do azul claro se transformou em amarelo, depois ficou lilás, azul marinho, até que, subitamente, a noite chegou. Eu poderia estar em casa, tentando escrever alguma coisa, a escutar o barulho dos sapos e dos grilos, mas estava ali, num puteiro com o letreiro “Supermercado Iguatemi”, a imaginar que existia algum significado naquilo e que a única coisa que precisava fazer era ficar mais um pouco. Como se aquilo tornasse a vida algo ainda mais cômodo e confortável. Ou, também pensei, como se, de algum modo, eu tivesse feito uma jornada no tempo e regressado a um dia qualquer de 1976.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>&nbsp;</em></strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Rodrigo Melo</em></strong><em> escreve prosa e poesia e tem quatro livros publicados. Vive em Ilhéus, Sul da Bahia.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-82/feed/</wfw:commentRss>
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			</item>
		<item>
		<title>Jogo de Cena</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/jogo-de-cena-32/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Dec 2024 13:29:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[interditos]]></category>
		<category><![CDATA[Jogo de Cena]]></category>
		<category><![CDATA[peça]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[silêncio]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Vivian Pizzinga]]></category>
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					<description><![CDATA[O acurado olhar de Vivian Pizzinga para a peça “A palavra que resta”]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Fragmentos do indizível </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Vivian Pizzinga</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-1-Foto-de-Carolina-Spork.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-1-Foto-de-Carolina-Spork.jpg" alt="" class="wp-image-20691" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-1-Foto-de-Carolina-Spork.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-1-Foto-de-Carolina-Spork-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Carolina Spork</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma carta lacrada por anos. Podemos, da plateia, desconfiar de que ela tem certa função de despedida. Certamente, traz um mistério, indica um amor e talvez carregue respostas a perguntas difíceis de enunciar. O destinatário é um homem que não teve oportunidade de aprender a ler. Que é capaz de, por muito tempo, guardá-la como um dos documentos mais preciosos e imantados de sua vida, sem saber o que diz. Raimundo, nascido no sertão nordestino e trabalhando na roça desde muito novo, é o homem que recebe a carta, mas precisa aprender a ler para desvendá-la e, para tal, precisa antes vencer a vergonha de se colocar numa sala de aula como alguém que não conhece as letras. Há outros desafios que o protagonista dessa emocionante narrativa terá de enfrentar: ele precisará fugir de casa e de uma história de violência familiar para sobreviver física e emocionalmente, e terá de se colocar em outras cenas e cenários para viver e encontrar-se, para acudir a si mesmo de si mesmo e dos fantasmas que o acompanham e, então, quem sabe, ter coragem de abrir a carta, tão íntima e tão enigmática, conservada por décadas fechada. O remetente dessa carta é Cícero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos eleger a carta de que falamos como um dos fios condutores da belíssima (e também brutal) história de <em>A palavra que resta</em>, peça adaptada e dirigida por Daniel Herz e que nos oferece uma versão dramatúrgica do premiado livro homônimo do escritor cearense Stênio Gardel, cuja obra foi laureada com o National Book Awards na categoria literatura traduzida, sendo o autor o primeiro brasileiro a receber o prêmio estadunidense. Quando tive a oportunidade de assistir à peça, quando esteve em cartaz no Rio de Janeiro no mês de outubro, eu não havia lido o livro, mas adivinho agora que não há surpresa em saber que angariou um prêmio literário dessa monta, dado que a qualidade poética do texto do espetáculo adaptado é um dos grandes elementos da montagem, que faz jus ao título, dando destaque ao lugar da palavra. O romance de Gardel foi ainda um dos dez finalistas do 64º Prêmio Jabuti, em 2022, na categoria romance literário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-2-Foto-de-Carolina-Spork.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-2-Foto-de-Carolina-Spork.jpeg" alt="" class="wp-image-20692" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-2-Foto-de-Carolina-Spork.jpeg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-2-Foto-de-Carolina-Spork-300x200.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Carolina Spork</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, a peça, cuja realização é da Cia Atores de Laura (comemorando 32 anos de existência, aliás), traz uma dinâmica cênica muito própria e instigante, em que os atores e as atrizes circulam e se dividem pelos mesmos personagens, usando uma vestimenta base, no figurino assinado por Wanderley Gomes. Essa dinâmica fractal repercutiu em mim de modo a ampliar a dimensão dos personagens (em especial, Raimundo), evocando também a noção de que somos mesmo uma multiplicidade, de que, em cada ação e cada gesto nossos, há muitos e muitas dentro de nós, quiçá bem coreografados, mas nem sempre bem adaptados à realidade que nos cerca e que pode exigir-nos umas quantas coisas que, com alguma frequência, não poderemos satisfazer, e uns tantos papéis que tampouco lograremos êxito em preencher. Em cada atitude que expressamos há diversos flancos viáveis e inviabilizados, alguns escancarados, embora nem sempre iluminados e visíveis a olho nu e pé descalço. É dessa forma que, no palco, Ana Paula Secco, Charles Fricks, Leandro Castilho, Paulo Hamilton, Valéria Barcellos e Verônica Reis&nbsp;assumem as vozes e as dores de Raimundo, Cícero e alguns dos outros personagens, em um drama familiar e pessoal de silenciamento, renúncias e, sim, alguma redenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É na juventude que Raimundo, nosso personagem, descobre seu amor por Cícero, e será em meio à rotina de trabalho na roça que, juntos, descobrirão a aventura do sexo e as consequências de não se furtarem aos seus desejos. Afinal, já nos sinalizavam Freud e os teóricos e as teóricas da psicanálise que se furtar ao desejo exige uma solução de compromisso dolorosa, traduzida em sintomas corporais e psíquicos, bem como em vida decepada e literalmente paralisada. O interdito da homossexualidade, porém, é um elemento que atravessa, de modo certeiro, o drama familiar de Raimundo, e os segredos e os não-ditos transgeracionais darão lugar a uma dura condenação do protagonista, após a descoberta desse enlace amoroso que o olhar do outro não admite e não suporta. Assim, acompanharemos a jornada de Raimundo, que tem de fugir para longe de sua cidade e das pessoas que ama. Mas somos mesmo muitos e muitas por trás de nossos posicionamentos superficialmente coerentes e, desse modo, as contradições de Raimundo também irão aparecer ao longo de sua vida na cidade, especialmente quando conhece a mulher trans Susany, vivida pela atriz convidada Valéria Barcellos, e também por Verônica Reis e Ana Paula Secco. Susany é um personagem imerso em vivências de violência e de quem, aos poucos, nosso protagonista se tornará amigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-3-Foto-de-Carolina-Spork.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="377" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-3-Foto-de-Carolina-Spork.jpeg" alt="" class="wp-image-20693" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-3-Foto-de-Carolina-Spork.jpeg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Imagem-3-Foto-de-Carolina-Spork-300x226.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Carolina Spork</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso dizer que o espetáculo <em>A palavra que resta</em> cumpriu belíssima temporada carioca e merece outras mais, aqui e em outras cidades, porque nós merecemos mais e porque precisamos continuar falando e refletindo, poética e dramaturgicamente, sobre a temática encenada no palco: se a peça nos apresenta poesia e coragem, se menciona vergonha e sua contraparte, a exposição de si, é porque não hesita em pensar linguagens e imagens que trabalham, com primor, preconceitos, conservadorismo, homofobia, rejeição. É porque traz à tona possíveis caminhos de resistência e insistência. As atrizes e os atores da Cia Atores de Laura, claramente mergulhados na experiência literária que se origina em Stênio Gardel, conseguem sustentar o texto nos emocionando e também, em alguns momentos, nos fazendo rir, com as tiradas e reações cheias de ingenuidade e aparente espontaneidade dos personagens nas cenas que evocam o percurso trágico de uma vida e de uma família. E o espetáculo, por fim, tem o dom de despertar a curiosidade para a leitura do livro. Entretanto, infelizmente, ainda não é demais repetir que a violência física, psicológica e simbólica à população lgbtqia+, assim como a mulheres, pretos e pobres (lista que não esgota a lista), é um clichê em nosso país, e a abordagem dramatúrgica do assunto, ainda que não tenha como finalidade a pedagogia moral, mas sim a expressão artística, acaba por se fazer necessária, neste nosso país que tem tomado um gosto enorme por retrocessos. Espero ainda o momento em que não será preciso sublinhar, em nenhum texto sobre teatro, literatura ou cinema, a atualidade do tema, dadas as circunstâncias culturais em que vivemos. Que possamos apenas mencionar o deleite estético que uma excelente encenação, a partir de um texto literário de ampla e reconhecida qualidade, desperta em nós. Que possamos nos concentrar naquilo que um espetáculo teatral nos faz refletir sobre tantos outros aspectos pessoais e existenciais de nossas vidas. Espero ainda o momento em que escrever sobre <em>A palavra que resta</em> e outros espetáculos por vir possa escolher falar de violência e homofobia apontando-os como um evento histórico triste finalmente superado, passagem desbotada da história, como nos canta a música. Mas ainda não chegou o momento. Enquanto isso, podemos ocupar os teatros para elaborar, psíquica e coletivamente, por vias artísticas, nossos traumas individuais e coletivos e, por que não?, conferir beleza poética às histórias que nos constituem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Vivian Pizzinga</strong> é psicóloga e escreve. Lançou, entre outros, &#8220;Ruído nos dentes&#8221; (Urutau, 2022, poemas) e &#8220;A primavera entra pelos pés&#8221; (Oito e meio, 2015, contos). Participou de coletâneas e revistas literárias, como da Revista Lavoura 7 (2022,impressa), Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus contra todos (Tinta negra, 2016, contos). Fez doutorado em Saúde Coletiva, no Instituto de Medicina Social (Uerj), é carioca e prefere o outono.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética V</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-v-87/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Dec 2024 16:01:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Jussara Salazar]]></category>
		<category><![CDATA[O dia em que fui santa joana dos matadouros Jussara Salazar]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
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					<description><![CDATA[A arte da memória pairando sobre os versos de Jussara Salazar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Jussara Salazar</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/in-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/in-1.jpg" alt="" class="wp-image-20683" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/in-1.jpg 500w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/in-1-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Marcelo Leal</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ars memoriae</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho uma vaga lembrança<br />
De um pássaro [De um mar<br />
De lembrar essa vaga [Essa água<br />
De reprise de ondas<br />
Filmes desbotados [De sombras<br />
Marcas [De patas úmidas<br />
De animais ao redor da casa<br />
Peixes de celofane<br />
Tenho uma vaga<br />
Que se vai<br />
Que se vem<br />
Alga caravela de fogo<br />
Boiando [Como uma chaga<br />
Essa água<br />
Chamada lembrança<br />
Vagando chegando</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>sobre amanhecer no agreste</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">nessa aridez que tudo ocupa<br />
terra semeada à faca_ iamanaka’ru<br />
como se em terra sua<br />
lança suas bordas afiadas<br />
fere a pele de sua pele quando rasga<br />
em si_ como se nasce_ sem água<br />
essa terra que lhe serve de morada<br />
e se lhe sustenta a epiderme_ é para<br />
quando a sede que lhe bebe lhe serve<br />
nas noites de frio espelhe-se<br />
em galáxia de órion que vaga<br />
lá do alto como a fruta violeta<br />
_ a polpa breve<br />
no céu da noite ao amanhecer<br />
fúria<br />
que o sol no catimbau floresce<br />
_recrudesce_ em meio ao nada</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>visão de n.s. da feira do Arcoverde</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>En roscas de cristal</em><br />
<em>serpiente breve não vês?</em><br />
pois ouve<br />
seu farfalhar quando<br />
resbala uns<br />
guizos preguiçosos<br />
arabesco<br />
vivo venenosos<br />
rodeando o barro das<br />
vasilhas e moringas<br />
esticadas ao sol gongórico<br />
entre pés<br />
idas e vindas<br />
os peixes<br />
presos ao calcário<br />
gasto há mil anos<br />
pétreos sob o sol<br />
em duro calvário<br />
não despertam<br />
nem<br />
à castanha passagem<br />
ruidosa passagem<br />
de cabras e trens<br />
um cão<br />
o vento<br />
o vento<br />
os bois<br />
o tempo<br />
a água<br />
pingando<br />
na lata<br />
as mulheres<br />
os homens<br />
a montanha xukuru<br />
a mata<br />
e a procissão das<br />
vestes negras o<br />
corpo santo que<br />
atravessa ao dia<br />
o corpo<br />
ornado de velas<br />
vai ardendo a<br />
parafina<br />
à revelia<br />
tão morno<br />
tão fria<br />
tão morna latomia<br />
tão morna latomia<br />
tão morna latomia<br />
enquanto um tambor<br />
ressoa<br />
o som tortuoso<br />
a ladainha ao<br />
longe não é<br />
senão<br />
a luta de um vivo<br />
e de um morto<br />
timão fiado<br />
santos<br />
santa<br />
<em>barrueca</em> bendição<br />
eu e<br />
minha avó<br />
ali<br />
temos<br />
cem anos<br />
de sertão<br />
um cão<br />
o vento<br />
o vento<br />
os bois<br />
o tempo<br />
a água<br />
pingando<br />
na lata28<br />
as mulheres<br />
os homens<br />
a montanha xukuru<br />
a mata<br />
a terra castanha<br />
como<br />
as cabras<br />
exibe suas<br />
cicatrizes<br />
sem<br />
água<br />
a terra<br />
seu chão29<br />
eu e<br />
minha avó<br />
na solidão<br />
ali<br />
temos<br />
cem anos<br />
de sertão</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O sal</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">essa sílaba<br />
mínima<br />
marítimo oceano<br />
um grão<br />
cristal<br />
pedra d’água<br />
o sal<br />
essa sílaba<br />
para lavar pés<br />
e derramar<br />
sobre a cabeça<br />
do santo<br />
como o batista<br />
um dia o fez<br />
o sal<br />
essa sintaxe salsugem<br />
para a onda<br />
levar<br />
e trazer o cão<br />
a escama<br />
translúcida<br />
essa bendição<br />
o sal<br />
de queimar o mar<br />
das águas vivas<br />
das pedras lavadas<br />
das ervas nocivas<br />
do encarnado<br />
multitudinoso<br />
rubro carnoso<br />
<em>oinopa ponton</em><br />
homérico salobro sal<br />
para sangrar o mar33<br />
para levar<br />
a onda<br />
para trazer<br />
o corpo<br />
e cobrir as conchas<br />
o fundo do barco<br />
como mínimos<br />
diamantes<br />
para te parir<br />
por um instante<br />
o sal</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">***</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>das manhãs na rua das moças</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">sobre a mesa antiga<br />
marcas<br />
ranhuras<br />
mapas riscados<br />
rotas marinhas perdidas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>[antigos oceanos]<br />
entre panos<br />
da costa<br />
cauim<br />
papéis recortados<br />
as frutas<br />
respingam um frescor<br />
como as folhas brilham<br />
nas mãos que as colhem<br />
na tábua que as acolhe<br />
e sangram seu sumo<br />
como no andor36<br />
de procissão incensada<br />
sagradas<br />
as frutas<br />
as folhas que Nhá<br />
com mãos escuras<br />
lava<br />
eleva<br />
lava<br />
mergulha<br />
na ágata<br />
e bendiz<br />
as manhãs<br />
da morada</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Jussara Salazar</em></strong><em> é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade de São Paulo [Fapesp, 2016], é mestra em Teoria Literária pela Universidade Federal do Paraná (2010). Escritora, tradutora e artista visual, pesquisa ainda alguns mitos relacionados à oralidade e ao feminino havendo publicado “Inscritos da casa de Alice” [1999], “Baobá, poemas de Leticia Volpi”, [2002], “Natália” [2004], “Coraurissonoros” com tradução de Reynaldo Jiménez [Buenos Aires, 2008], “Carpideiras” [2011] com a Bolsa Funarte, ficando entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na edição de 2012, “O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas” [2014], “Fia” [Projeto Funcultura, 2016], “Corpo de peixe em arabesco” [[2019], “O dia em que fui santa joana dos matadouros” [2020], Prêmio Hermilo Borba Filho e finalista do Prêmio Jabuti e Bugra [2022]. </em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aperitivo da Palavra II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/aperitivopalavraii-26/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Dec 2024 15:31:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Dias amenos]]></category>
		<category><![CDATA[Kátia Borges]]></category>
		<category><![CDATA[livro da poeta Kátia Borges]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Sandro Ornellas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://diversosafins.com.br/diversos/?p=20675</guid>

					<description><![CDATA[Sandro Ornellas  mergulha fundo em “Dias amenos”, livro da poeta Kátia Borges]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>DEPOIS DO FIM, A POESIA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Sandro Ornellas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Capa-Dias-amenos.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="240" height="350" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Capa-Dias-amenos.jpg" alt="" class="wp-image-20678" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Capa-Dias-amenos.jpg 240w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/Capa-Dias-amenos-206x300.jpg 206w" sizes="auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px" /></a></figure>
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<p class="wp-block-paragraph">Após dois livros de crônicas, Kátia Borges retornou ao verso com <em>Dias amenos</em> (Segundo Selo, 2023). Nos livros anteriores, lançados durante a pandemia, Kátia escreve com sua palavra de experiente jornalista, de olhar atento aos nossos solucionáveis conflitos, mas também com sensibilidade para o que há de insolúvel. Com suas crônicas, Kátia nos ajudou a atravessar o áspero deserto daqueles anos falsamente distantes. Já neste último livro, um novo de poemas, o olhar de Kátia continua atento ao mundo – na verdade nunca o abandona –, mas traz algo do lirismo pungente da poeta que também atravessou o mesmo deserto que nós todos e todas. E se apegou à poesia através da jornada, trazendo-nos agora o que restou para ser dito pela palavra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É como ela começa o livro, com um antológico poema sobre a força e a fragilidade com que é feito um poema: “corda tensa”, “quo vadis”, “hades”, “rocha físsil”, “ode extensa”, “mínimo moto”, “solda de estanho, chumbo”, “peça densa”, “equilíbrio em falso”. E nessa sucessão de metáforas, que são o esforço da poeta em traduzir a tarefa de um poema em dizer e sustentar a poesia, o diálogo com os mortos “se aos vivos nada cabe”, o movimento das pedras e “a fímbria espessa do mundo”. Nesse esforço do poema em dizer a poesia, ao poeta restam as máscaras de “vate” e “Sísifo”. Tarefa ingrata, a da poeta. Talvez mais fácil escrever crônicas em um tempo que tanto falou do seu próprio fim. Fim dos tempos. Tempo do fim. Crônicas para tentar entender, já que o poema é somente o que ressoa de “um fio de cobre [que] estoura”. Talvez também por isso o retorno com tanta força durante a pandemia da escrita e leitura de poesia. Quando os tempos fogem à compreensão, só o poema é capaz de dizer algo desse “sem sentido / apelo do Não”, como nos escreveu Drummond.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o poeta itabirano falava da memória como amor ao que se perdeu, Kátia fala do amor ao que existe de menor, discreto, ínfimo ou mesmo invisível no nosso dia a dia. A sua poesia ama o que ainda não se sabe ao certo como dizer, embora tenha sido sentido: “amo tudo o que esteja / ainda inominado. [&#8230;] // resta sossego nos que silenciam / seus mistérios, nos rituais que negam todo acesso, nos poemas ainda não escritos”. O silêncio a que se refere Adriane Garcia no posfácio funciona na poesia de Kátia como contraponto ao ruído de tantas certezas gritadas por redes e cidades, o incessante ruído das pregações, dos moralismos políticos, das propagandas comerciais e autopromocionais, da música consumida ininterruptamente. A poesia de Kátia resiste bravamente aos fogos de artifício da contemporaneidade, artifícios que têm se tornado bombas com cada vez maior frequência. A discrição e – e sem medo de repetir um clichê – fragilidade da sua poesia é sua maior força em tempos de gestos de violência que se esvaem como modas frágeis, ao sabor do vento e das imagens. Da sua poesia, pode-se dizer ainda o que Kafka escreveu sobre “Odradek”, no conto “A preocupação do pai de família”: “Será então que no futuro, quem sabe se diante dos pés de meus filhos, e dos filhos de meus filhos, ele [ela] ainda rolará pelas escadas, arrastando seus fiapos?”. A poesia de <em>Dias amenos</em> nasce madura por se saber discreta e fina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a contemporaneidade é tempo de poetas, diria alguém equivocadamente evocando Hölderlin. Eles estão por toda parte, publicando, falando, cantando, divulgando-se, posicionando-se, lutando e performando nas redes, nas ruas e no debate público. É justamente por isso que os <em>Dias amenos</em> da poesia de Kátia podem resistir: como testemunho involuntário e às avessas desses dias extremos e ruidosos. Recentemente, em entrevista, eu disse possuir a tese de que em tempos de crise as pessoas recorrem à poesia para tentar se expressar e dizer o que sentem e pensam. É assim contemporaneamente e foi assim, por exemplo, durante a Ditadura Militar no Brasil. A poesia vem quando a vida é colocada em crise, e o papel (social) dos poemas é sempre tentar dizer exatamente aquilo que não se sabe exatamente como dizer, como são as crises. A poesia de Kátia Borges representa muito bem essa noção de lirismo moderno. Principalmente quando seus poemas falam em primeira pessoa do singular, nas incertezas ou nas perdas, nos prazeres ou nos desejos fugazes, nas saudades ou na melancolia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>Dias amenos</em>, para arrefecer a passagem do tempo, Kátia busca cumplicidade em pessoas (“Maria, você bem sabe”, “já não há registros de sua vida, Alice”, “vê, amigo, a vida não é nada”, “era um anjo que nem Dona Olga&#8230;”), livros (“no tempo certo, os livros dizem não”, “trabalho para viajar e ler livros”), viagens (“um dia volver a julho”, “quando estivemos em Punta del Este”), família (“os olhos verdes de minha mãe”, “minha mãe desatava os nós”, “sou a terceira / a herdar este rosto”, “cada chevette faz lembrar meu pai”), dentre outros sinais para guiar a memória ainda viva: “preocupa-me a âncora /mais que a bússola”. Mas a verdade é que este é um livro de luto, no qual a poeta chora seus mortos, e não apenas eles. É um livro pós-pandemia, tecendo as memórias anteriores à catástrofe, a sua experiência desconcertante (“fundo um país no apartamento, / provisório, imprevisível”) e a consciência do ponto de não retorno (“paisagens que já não vejo”, “escuto em mim a canção do desapego”).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verso livre de Kátia consegue abarcar muito do lirismo musical, sem recorrer a métricas e camisas de força rítmicas. Sua prosódia é a da brasileiríssima tradição dos cancionistas populares, que tão habilmente retiram melodia do mais prosaico dos fraseados verbais. Paralelamente, há música na sucessão das imagens criadas na hesitação entre som e sentido dos <em>cavalgamentos</em> (“enjambements”) entre versos, como em “mas apenas me calo, a palavra / sumida na boca, // como às vezes some / uma criança, desaparece / um gato, morre / uma flor, uma planta.” Essa é a música dominante das imagens em Kátia, sem dúvida. Todavia, a poeta não se esquece de alguns procedimentos de ruptura com o lirismo popular, que insinuam – mesmo que brevemente – construtivismos, como nas elipses sintáticas de “é preciso rasgar calendários / que não, / subverter cotidianos / que sempre”. São frases quebradas, de sujeitos quebrados, em tempos quebrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É bonito, no entanto, como a tristeza e melancolia dos versos de Kátia são capazes de comover e, ao mesmo tempo, promover alguma esperança. E a poeta sabe muito bem disso. Tanto que, à medida que o livro se encaminha para seu fim, sua última parte traz à cena grãos de futuro. Não como horizontes messiânicos de salvação, consagração, vitória e utopia, e sim como experiências possíveis entre a abertura para o inesperado (“sem saber indo de encontro / a um amor pra toda a vida”), a calma (“então cuidemos de pôr calma / em cada letra, antes / que a violência nos transforme”), a consciência da impermanência (“uma esperança não dura / mais que um verão” ou “e, se resisto, é no orvalho / das manhãs que se demoram / só um segundo”) e o eterno retorno à poesia (“e toda tinta torna à pena, / e toda trama torna ao prólogo”). Por isso que a poesia de Kátia Borges sobreviverá como um dos testemunhos mais fiéis do que experimentamos nos últimos anos, fiel como só a poesia é capaz de ser, fiel à sensação de que o fim do mundo, tão comercializado nas redes sociais, só pode ser interrompido pela poesia em sua eterna recusa aos fins.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Sandro Ornellas</em></strong><em> é </em><em>escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Isto não é uma carta (P55, 2023) e Colecionador de Nada seguido de Ode Florestal (Villa Olívia, 2024), dentre outros.</em></p>
</blockquote>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>Janela Poética I</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-i-89/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-i-89/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Dec 2024 13:55:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[154ª Leva - 02/2024]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Borrasca]]></category>
		<category><![CDATA[Cortesanias]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Rita Santana]]></category>
		<category><![CDATA[Tramela]]></category>
		<category><![CDATA[Tratado da Veias]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma dimensão dos poemas do novo livro de Rita Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Rita Santana</em></p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/interna-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="333" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/interna-2.jpg" alt="" class="wp-image-20659" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/interna-2.jpg 333w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2024/12/interna-2-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Marcelo Leal</figcaption></figure>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Escrita</strong></p>



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<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph">“Por afrontamento do desejo.”<br />
<em>Ana Cristina César, 27</em></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Com que tormento sento<br />
sobre noites secas e quebradas<br />
onde estalam estrelas, e fachos<br />
quentes rompem horizontes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não há nada diante de mim,<br />
senão o vazio no espaço,<br />
o aço sobre a mesa,<br />
a lâmina da língua<br />
que elimina o hálito<br />
e ordena a ordenha<br />
da Criação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ouço uivos de ouriços<br />
dentro do poço<br />
e me curvo<br />
à pena e ao punhal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Outono risca o céu<br />
de cinzas e incertezas e quedas.<br />
Eu espio a escuridão do rio [Joanes].</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Austeridade de Modigliani.</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Tudo é uma jarra d’água derramada sobre o sossego:<br />
um vazamento opressor na descarga,<br />
um vazamento opressor na pia da cozinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Concederia pêssegos frescos ao mancebo<br />
que me trouxe orgasmos<br />
em seu bornal, em sua vassalagem provençal,<br />
e<br />
foice.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca terei a austeridade geométrica de Modigliani.<br />
Talho o verbo e, no poema,<br />
labirinto o Minotauro.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Eu, Sapho!</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Quando chega do céu,<br />
veste-se então todo de púrpura.<br />
Visto-me de âmbar, abro janelas<br />
e veredas que murmuram águas<br />
à sua passagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Danço à sua chegada com festins,<br />
rituais de camaradagem, banquetes de Babette,<br />
alvíssaras, alfaias e entregas.<br />
Nada usurpa a vaguidão dos sentidos,<br />
o estado de languidez daqueles dias.<br />
Resfregam-se amor e medo em meus colapsos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há sismos duradouros na carne,<br />
quando cataclismo gozo consigo.<br />
Ante seus olhos istmos, olhos de cereais,<br />
sobre os quais cambaleio e desnudo-me exata,<br />
ritmo versos e estimo arritmias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como sou: a que envelhece,<br />
a que pende sobre o nordeste dos sentidos.<br />
Aquela que, sobre os telhados, observa sua vinda.<br />
São candelabros acesos na escuridão,<br />
quando chega do céu. Nuvens invadem<br />
os cômodos da casa por alguns dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os cobogós se dilatam!</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Cortesia</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Enólogos avaliam<br />
a acidez das rugas,<br />
cuidam do envelhecimento<br />
das esperas em carvalhos.<br />
Dialogo com a Sombra,<br />
refugio-me no fugidio<br />
e aceito trazer o candeeiro,<br />
pois tento tocar o que me escapa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Orvalho refinamentos,<br />
dilato nuvens no crepúsculo<br />
e corro na amplidão dos céus.<br />
Homologo alguma alegria<br />
no porvir das correntezas.<br />
Osculo lábios perdidos na lembrança.<br />
Afianço amar a quem já não quero<br />
no ofertório da Casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alumbra-me a sapiência<br />
daquele homem que estila<br />
o Desejo, sem atentar ao telhado<br />
das horas, sem aceder às vigas<br />
céleres dos ponteiros.<br />
Sobejo-me<br />
em seus beijos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Oxalá eu possa ser cristal<br />
para acolher os aromas do dia, os tons<br />
das aveniências que surgem no contato<br />
com quem está do outro lado do rio,<br />
e ordena romãs no leito da velha jangada,<br />
dispõe os figos e as amoras sobre os bambus,<br />
a fim de que eu, um dia, desatenta e casta,<br />
saboreie as dádivas da sua Cortesia.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Papoulas na Fotografia</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">Mulheres afegãs,<br />
entre a plantação de papoulas,<br />
colhem e ofegam desejos,<br />
com seus lenços rubros,<br />
sua exaustão que plana sobre o cinza<br />
que cobre o horizonte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Papoulas na<br />
província de Balkh.<br />
Daqui, não vislumbro risos<br />
entre as folhas e os botões que ainda dormem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As papoulas não querem nascer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mulheres vestidas de cinzas,<br />
numa paisagem de chumbo,<br />
também de plúmbeos desejos,<br />
refugiam-se na lavoura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Herméticas, as papoulas adormecem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sequer<br />
um verde-solidão vibra<br />
a cena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Loucura sentou na cama<br />
e olhou para as mulheres.<br />
Era preciso arrancá-las da dor<br />
e levá-las ao outono dos dias,<br />
ao pasto da fome,<br />
ao descampado da razão.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>O Silêncio de Bach</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">O que amo em Bach<br />
é o seu silêncio.<br />
O vazio de som<br />
das sonatas,<br />
a trepidação das suítes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que amo em Bach<br />
é a sua engenharia<br />
do nada.<br />
O que amo em Bach<br />
é a música que não existe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Rita Santana</em></strong><em>&nbsp; &#8211;&nbsp; &nbsp;Escritora e Atriz. Graduada em Letras pela UESC.&nbsp; Em 2004, ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos &#8220;Tramela&#8221;. A partir daí, publica: &#8220;Tratado das Veias&#8221;,&nbsp; &#8220;Alforrias&#8221;, &#8220;Cortesanias&#8221; e&nbsp; &#8220;Borrasca&#8221;, além de participar de eventos literários e de antologias.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
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