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154ª Leva - 02/2024 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Substância. Reino Unido/França. 2024.

 

 

O filme recente, que concorreu em Cannes e ganhou prêmio de melhor roteiro neste festival, vem assustando ou impactando muitos espectadores.

A obra da diretora francesa Coralie Fargeat tem elementos de contato com Titane, de Julia Ducournau, que ganhou a Palma em Cannes em 2021. Ambos são filmes de horror, baseados em metamorfoses corporais, filmes nos quais uma sensação de incômodo, beirando a aversão, atravessa a plateia. Ambos os filmes também trabalham com elementos fantásticos, que não são simplesmente “surreais”, como nas versões modernistas, mas também não são sobrenaturais. O fantástico nesses filmes é um gênero de hibridização com formas inaturais, aberrantes. Não é sobrenaturalismo nem surrealismo, mas inaturalismo. Não trabalha com objetos, mas com abjetos. Trata-se de um cinema que tem uma interface com a literatura do insólito, como na obra da escritora argentina Mariana Enriquez.

Esses dois filmes abordam as intervenções técnicas no corpo produzindo deformações que precisam ser “incorporadas” pelas personagens. Nisso, fazem referência aos ciborgues da teórica Donna Haraway. A menção a esta teórica é importante, pois se tratam de obras sobretudo feministas, mas que não reivindicam um estatuto próprio à feminilidade, mas, ao contrário, indicam o que podemos chamar de uma “desapropriação do feminino”. Na obra de Haraway, o ciborgue é justamente aquele que “borra” o binarismo sexual e o dualismo natural/artificial.  No entanto, os filmes diferem num elemento fundamental: em Titane há um processo de alienação psíquica que é almejado e desejado (o ego deseja ser outro), ao passo que em A Substância, o ego procura um encontro com sua própria essência “substancial”, para além das formas corporais.

O filme de Coralie tem um apelo extra, que vem a ser metalinguístico, ou ainda, que é a feliz escolha pela atriz Demi Moore como protagonista para um papel que basicamente é o de interpretar a si mesma. Moore como se sabe é uma atriz icônica, mas que está associada a um semblante jovem, representante de uma geração (dos anos 80) que agora envelhece, o que significa para as atrizes (que ultrapassaram os cinquenta anos) um deslocamento para o ostracismo. No filme ela interpreta a atriz Elizabeth Sparkle, que se tornou uma estrela de aulas de ginástica (como Jane Fonda, outra atriz icônica de geração anterior), mas que os patrões da indústria cultural (representados pelo ator Dennis Quaid) querem “aposentar”. Elizabeth tem o destino de estrelas que são tratadas pela indústria cultural como “corpos bonitos”, o que quer dizer especialmente jovens e sexys. O envelhecimento significa para elas algo que simplesmente “stops”, como lhe diz o empresário bufão, branco e machista Harvey (Quaid).

 

Demi Moore como Elizabeth Sparkle / Foto: divulgação

 

No roteiro do filme, Sparkle tem acesso no mercado negro a uma “substância” que quando injetada nas veias dá lugar a uma bifurcação genética gerando uma cópia de si (clone), porém mais jovem. No filme, esta Elizabeth jovem é vivida pela atriz em alta Sarah Qualley, filha da atriz da mesma geração de Moore, Andy McDowell. A bula da “Substância” indica que as duas Elizabeth, a jovem e a madura, devem trocar (switch) de posições a cada semana. A bula também diz que elas não são duas, mas uma única pessoa. Uma só pessoa, mas com dois corpos. Enquanto uma vive, a outra “hiberna”. Mas a troca entre os corpos precisa respeitar o prazo de uma semana, ou consequências sérias acontecem.

Embora seja a mesma Elizabeth, sua versão jovem assume o nome de Sue, nova promissora atriz que ocupa precisamente o espaço de estrela destinado a Elizabeth, com um novo programa de ginástica no qual desfila seu corpo jovem e sexy. E então no roteiro do filme começa uma disputa entre as duas Elizabeth, a jovem e a madura, que agem como se fossem duas mulheres diferentes, mas que são a mesmíssima pessoa. Essa disputa vem às expensas da decrepitude acelerada da mulher madura, mas cuja desconstrução corporal ameaça a saúde da mais jovem. Ambas estão “umbilicalmente” ligadas. O melhor seria então dizer, “geneticamente ligadas”.

 

Sarah Qualley como Elizabeth Sparkley / Foto: divulgação

 

O mais interessante da obra de Fargeat é a incorporação de referências literárias. Já mencionei sua proximidade com a literatura do insólito. Em A Substância ecoam dois clássicos da literatura do século XIX, de influências góticas: O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson e O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Deste último, em particular, o filme parece uma releitura cinematográfica.

Mas a principal referência é a sua proximidade manifesta com o cinema de David Cronenberg. Há primeiramente uma relação com seu duplo, como em Gêmeos, mórbida semelhança do diretor canadense.  Há igualmente um interesse nas deformações corporais e no cruzamento entre corporeidade e tecnologia, no qual os corpos são objetos para intervenções tecnocirúrgicas (como em seu filme recente Crimes do futuro) ou hibridizações genéticas (como no clássico A Mosca). Há, no entanto, uma diferença crucial entre os dois diretores: a questão de gênero.

Os filmes de Cronenberg, ao que pese suas qualidades indiscutíveis, não deixam de apresentar aquilo que é chamado de “mirada masculina” (male gaze). A mirada é um gozo voyeurístico presente no cinema. Seu gênio absoluto foi Alfred Hitchcock que fez a mirada do espectador adentrar o espaço cênico como composição. Os exemplos mais óbvios são os filmes Janela Indiscreta e Psicose, em que  o gozo da mirada não é apenas um tema, mas é parte da construção da própria imagem cinematográfica. Este assunto foi objeto de diversas leituras psicanalíticas. No entanto, a mirada cinematográfica sempre foi tendencialmente masculina, principalmente quando a mirada recai sobre o corpo da mulher.

O que Coralie Fargeat faz em A Substância é desconstruir essa mirada de viés masculino. Sem recusá-la, ela a “deforma” e faz com que o corpo da mulher de objeto se torne abjeto. Faz com que a exigência de que o corpo feminino seja jovem, bonito ou sexy, seja revertida em monstro. De um lado revela o aspecto senil, branco, decrépito e grotesco da indústria cultural (uma verdadeira máquina monstruosa), retratada no conjunto de seus acionistas, homens velhos e brancos que são justamente os voyeurs iniciais da cadeia de exploração das formas femininas. Por outro lado, também denuncia por detrás o desejo cúmplice (pois todo gozo tem cumplicidade com o desejo) das mulheres com sua obsessão em corresponder aos apelos de juventude e beleza eternas, ou a própria dificuldade de lidar com a decadência corporal.

Walter Benjamin já escreveu que o choque estético, iniciado na obra do poeta Charles Baudelaire, havia sido incorporado tecnicamente pelo cinema. O cinema, para o filósofo alemão, era a arte do choque. Noventa anos depois de seu artigo (1936), o choque perdeu sua capacidade de impactar a sensibilidade do espectador. A questão não é que o cinema deve assumir formas cada vez mais radicais de choque, próximas ao terror, como certa linhagem cinematográfica pretendeu, explorando a violência ao ponto do sadismo. Essas novas diretoras trazem outra via para atender a necessidade do cinema “mexer” com a sensibilidade do público. Coralie Fargeat consegue construir um cinema do incômodo estético, retirando do espectador o direito a uma mirada acomodada.

 

 

Guilherme Preger é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog Resenha Cibernética  e faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.

 

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154ª Leva - 02/2024 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Cecília Vieira

 

Foto: Marcelo Leal

 

Meu primeiro conto de ficção científica

 

A cabeça ainda doía pela insônia. Na madrugada, lutei com aqueles pensamentos borbulhantes que fermentavam alternativas de respostas para nossa discussão.

Sovei bem essa massa de opções e a cozinhei no lado esquerdo do cérebro. Transformei tudo em produtividade e encarei meu primeiro banho do dia tentando sentir a energia da cromoterapia, efeito da lâmpada recém instalada no box. Última moda de relaxamento inconsciente do mercado.

Na noite anterior brigamos feio. O pior é que ele me deixou falando sozinha, mal respondia meus argumentos. Deve ter achado que agir assim resolveria. Até agora no café, pelo jeito, pretende ficar sentado à mesa sem me dirigir uma palavra.

Ainda não parei hoje, até esse momento do barulho ensurdecedor do liquidificador.  — Quando compramos dizia ser o mais silencioso! Sigo na tentativa simulada. — O quê? O que você falou? Não escuto fazendo a vitamina! 

Nada, indiferente. Ele bem sabe, que nada me irrita mais.

Ignorarei também. Afinal são 7h e eu já fiz minha meditação, exercícios faciais e os de “barriga negativa”. Check na primeira hora do dia. Pronta, não preciso da aprovação dele.

Os gêmeos, na correria matinal para a escola, não reparam na nossa falta de diálogo. Mal sentam à mesa, já levantam com a comida na mão falando combinações que só entre eles são compreensíveis. A caçula, no fone, nem que quisesse participaria da conversa, se houvesse alguma.

As crianças mandam um tchau de longe e ele nem olha. Isso já é absurdo. Nosso combinado sempre foi não misturar nossas discussões e o relacionamento pais-filhos. Meu nervoso só aumenta e desconto batendo em tudo enquanto procuro aquela lixa de unha que nunca está onde a deixei.

Agora vai se levantar e sair da mesa, no mínimo, para se fingir de incomodado com minha loucura.

Permanece quieto.

Então é guerra. O que era um conflito por temas banais, totalmente passível de resolução rápida e com bom senso, tornou-se daqueles que durarão o fim de semana. Incluindo sogra, cachorro, periquito e papagaio.

— Oi Alice! Sim, já estou descendo. Claro, faço questão. Mas na volta do happy hour hoje, você dirige porque é meu turno, lembra? Desligo o celular que fiz questão de atender ainda no apartamento.

Não, as vizinhas-colegas de trabalho-amigas de vale night ainda não estão na cota para serem afetadas pela briga conjugal.

Calço meu salto, bato a porta, chamo o elevador.

— Ai, esse salto não! Lembro que tirei o sapato de dirigir do carro, para limpar.

Escancaro a porta, reparo aquela nuca impassível, concentrada permanentemente no vídeo do celular. Toc toc toc toc, meus saltos pisoteiam o flutuante a ponto de quase se partirem, mas a tal série repetida deve ser mesmo mais interessante que resolver de vez a confusão.

Nessa altura, um olhar bastaria. Um — Mirela, me exaltei ontem, estou quieto repensando. Não. Só meu salto raspando na cabeça dele enquanto calço a Crocs.

Dessa vez não bato a porta. Cumprimento o vizinho de andar que segurava o elevador. — Obrigada! Bom dia! Quase terminando a semana, não?

No trabalho debatem o assunto noticiado pela manhã: um feminicídio ocorrido ali perto. Em plena luz-do-dia, o ex-marido com arma branca. — Em que mundo vivemos. — As mulheres não têm mais lugar. — Em casa está ainda mais perigoso. São os comentários dos que anseiam por uma justiça urgente. Fico sem saber o que falar. Compartilho do sentimento póstumo, mas me aterroriza o antes, em como relações chegam a esse ponto.

Após o almoço e com a fome ainda presente resultante da marmita fitness, olho constantemente o celular para checar o status online. Nada. E isso me surpreendeu. Só pode ter decidido fazer home-office, se afundou na vergonha de alhear-se a família e intensificou o trabalho.

— “Mãe, tem q autorizar nossa participação no campeonato do futs! E tem q ir junto”. É a mensagem que encontro no grupo da família. E continua… — “Viu, mãe? Pode ser? Vc marca lá no app da escola”. — Meninos, vocês sabem que assunto de futebol é com o pai de vocês! Minha chance. Joguei a isca, agora é aguardar.

— Ele não responde. Faz aí mãe. No dia ele vai. — Faço só isso então. Não posso perder minha trilha do sábado, já que domingo cozinho a comida da semana.

— “E antes tem q me deixar no coral, mãe!” — Sim filha. Feito meninos, agora peçam pro pai e me avisem.

Não fisguei ainda, mas coloquei gente para me ajudar. E não, eles ainda não perceberam nada.

A noite seguiu como esperada. Dois Mojitos para alegrar a conversa previsível das amigas sem intimidade e a cabeça na mesa do café. Por isso, o efeito do terceiro foi no #tbt da nossa última viagem de casal, com a legenda “amor pra vida toda”. Cansada dessa briga arrastada, da qual já nem me lembro o motivo.

Agora ele foi marcado, vai ver e abrandar aquele coração que só eu sei como é mole. Estou até agora sem entender qual das nossas falas rompantes o fizeram se chatear tanto, a ponto de desaparecer das nossas vidas.

Só quero logo que a motorista da vez se canse; libertar meus pés; tomar meu segundo banho e rir dessa confusão toda. E que as pazes não se prolonguem porque tenho minha leitura diária antes de dormir.

— Tchau querida, adorei! Sempre bom! Mês que vem deixa comigo.

Ao final de um suspiro, no espelho do elevador, reparo meu rosto. Quando foi que envelheci assim? Passo alguns segundos tentando entender o que faço ali, naquele lugar. Olho para os botões e não sei qual apertar. Apenas alguns segundos, de branco total, um frio no estômago como em uma queda livre. Por fim enxergo o 17. Isso, é ali.

Tudo quase volta ao normal, não fosse a indignação e decepção. A rotina cronometrada deveria estar mais eficiente, acho que falta incluir algo. Quem sabe nos 15 minutos restantes do almoço — Google, encontre um app para estimular memória após os 50. Talvez dormir seja uma boa opção. Um abraço apertado com autorização para choro sem porquê, também. Mas não, esses não aparecem na lista de trends.

Abro a porta com cuidado. Escuto o videogame dos gêmeos e as tentativas de afinação da caçula. Olho para a mesa e não seguro a risada.

É sempre assim que ele me ganha. Resolvendo tudo com bom humor. Como conseguiu voltar para a mesma posição da manhã?

— Oi Marcelo! Também senti sua falta. O salto enfim não resiste e se quebra com meus braços ainda em movimento para o abraço estalado pelas costas e um cheiro no cangote, quando tropeço e seguro no ombro dele com tudo.

Ele tomba devagar, para o lado, e bate a cabeça na parede. Um pedaço da orelha cai no chão.

Solto um grito atordoante.

As crianças aparecem esbugalhadas no corredor.

Me agacho trêmula e pego o pedaço da orelha. Do lado de dentro um papel, algo escrito em um tipo de etiqueta.

Com a vista turva pelo medo e assombro leio:

Modelo Cyborgue Yi1723. Para atualização de sistema e recarga de bateria abra o QR CODE.

 

Cecília Vieira é brasiliense, mãe de dois meninos e mestre em RH pela Universidade de Salamanca, Espanha. Estreou na literatura infantil com o “Marina a girafa que queria ser estrela”, na Bienal SP/22. É contista em coletâneas e revistas literárias. O conto “Perfeitamente equilibrado” foi um dos vencedores do 19º Prêmio Mário Quintana de Literatura. Lançou em 2023 o ebook “Guadalupe sobre um tapete de mangas” e o livro “Se tudo der errado não volto”, pela Caravana. Siga a autora em @cecivieira_eu.

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Olhares

Olhares

Moradas da singularidade

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Marcelo Leal

 

A vida pode encerrar não somente aquilo que está postado na superfície imediata das nossas visões, mas também tudo o que desliza nas dimensões imperceptíveis dos dias. E esse pode ser o ponto em que as coisas passam a fazer diferença na medida em que notamos o dinamismo sobre o qual se apoia a nossa existência. Para além dos flagrantes mais óbvios que nossos olhos detectam à primeira vista, há microuniversos circundando toda a jornada humana sobre a Terra.

O mundo pode ser uma grande redoma dentro da qual confinamos e fazemos girar a roda das grandes expectativas. Nessa nuance, os sentimentos de tudo e de todos restam diluídos na força de um presente que deixa para trás seus rastros, tencionando projeções para o que denominamos por amanhã. Certamente, as imagens que apreendemos em nossas mentes e que nos lançam ao desejo do registro são a manifestação de que é o tempo presente quem assinala seu protagonismo, consubstanciando o ímpeto de reter, de algum modo, a vida e suas epifanias.

Como, então, tornar visíveis os lampejos que decorrem das searas mais abstratas do ser? Indo mais além, o que de fato inscrevemos na parede do presente quando sabemos que a existência contempla aberturas e mistérios da ordem do intangível?

 

Foto: Marcelo Leal

 

Diria que, ao observar a arte de Marcelo Leal, talvez tenhamos a sensação de que poderemos encontrar alguns indicativos para as perguntas feitas acima. De imediato, penso que o trabalho desse fotógrafo traz à baila evidências de que a melhor tradução do mundo está naquilo que simboliza o conjunto de delicadezas que ele abriga. E compreender essa miríade mundana exposta nas fotografias de Marcelo é deixar se levar pela riqueza contida nos pormenores capturados.

Em meio à profusão de ambientes, seres, objetos e manifestações da natureza, o fotógrafo gaúcho lança mão de um olhar que extrai das frestas do cotidiano o componente poético. Ao fazer isso, suspende a camada repetitiva da vida, dando lugar a uma representação imagética que privilegia detalhes dos mais peculiares, denotando a coexistência de mundos no mundo. Eis aí o trunfo maior: revelar facetas daquilo que se abriga no comum.

Se a rotina acolhe os atos mais comezinhos e outras expressões da chamada vida ordinária, os registros de Marcelo Leal dão conta de que é preciso vislumbrar aquilo que pulsa nas entrelinhas, nos recônditos que falam mesmo quando as ausências humanas perpassam os lugares retratados. Daí que, modulando luzes, cores e sombras, o resultado obtido pelo artista sugere uma sinfonia de vestígios, marcas de nossa passagem pelo planeta.

 

Foto: Marcelo Leal

 

Ao mesmo tempo, o fotógrafo também nos oferta janelas de introspecção, evocando uma viagem para dentro de dimensões que, embotadas de silêncio, nos fazem valorar o sentimento das pausas. São lugares onde os instantes não se deixaram coagular, permitindo aos seus protagonistas a medida exata da contemplação. É preciso dizer que nessas alturas as personagens, inanimadas ou não, orquestram o gesto sereno que se espraia pela vida.

Oriundo de Porto Alegre, Marcelo Leal, além de artífice das imagens, é um alguém devotado à música e faz parte de um quarteto de jazz há três décadas. Seu trabalho com a fotografia, que inclusive lhe rendeu premiações, está materializado em diversas exposições, bem como participações em livros e revistas. Nas palavras do próprio artista, seu ofício imagético tem por propósito exprimir a procura por uma identidade que possa demonstrar aquilo que ele genuinamente sente pela arte da fotografia.

Suspeito que não há como desfilar os olhos pelas capturas de Marcelo sem que os pensamentos se deixem levar pelo aceno das singularidades. Mais do que um engenho de matizes estéticos, sua arte navega por certas fatias insondáveis do mister humano, daquelas que somente a atenção desacelerada é capaz de usufruir com mais plenitude.

 

Foto: Marcelo Leal

 

* As fotografias de Marcelo Leal são parte integrante da galeria e dos textos da 154ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Karine Padilha

 

Foto: Marcelo Leal

 

Quase

 

Estamos prestes a alcançar o fim, num suspiro de quase nunca
Pegando fôlego nos dias de quase lá
Nos sonhos que vem tarde para os sonhadores
Onde o tumulto que fala
É também o que faz calar.
Nas linhas de chegada,
Nos postos de largada,
Um sufoco rumo ao quê.
Estamos prestes a alcançar o nunca, num suspiro de quase fim
Pegando fôlego nos dias abandonados
Nos sonhos que vem tarde para os sonhadores
Onde a mão que toca
É também a que perde o tato.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo se consome

 

Negam-nos sempre um pedaço
Falta-nos sempre uma coisa
Extraviam-nos sempre uma parte
Tamanha dor, arrancam-nos sempre um membro:
O tempo.
Os brincos nos assoalhos
Os descuidos
Os anos
Os erros
Esperamos aflitos
Que se desfaçam
Que Deus perdoe
Que não se percam.
Tudo se consome.

 

 

 

***

 

 

 

O que se inscreve também se esquece

 

Deixar escapar
Pela ponta dos dedos
[como quem luta contra a lembrança]
Uma pista qualquer
Que leve de volta
Ao começo do poema:
Sonhar de corpo inteiro.

Sonhar
De corpo
Inteiro.

 

 

 

***

 

 

 

Aqueles que caem

 

Eu escrevo para os homens que não sabem ler
Mas desconfiam
Do que dizem os poemas.
Eu escrevo porque tenho urgência de enunciar aquilo que a palavra não segura
Que não é letra nem vocábulo
Que não cabe no espaço
Que é o outro não visto, e bem conhecido.
Eu escrevo porque há um declive não mapeado no mundo
Não um lugar, mas um jeito de cair
Que derruba os desconhecidos a cada segundo
Eles desabam pra sempre
Desabam a sós
Sem ler os poemas
De boas novas
Por que os poemas
de boas novas
Não são feitos
para aqueles que caem
E é, também, porque posso cair,
que eu escrevo.

 

 

 

***

 

 

 

As coisas do mundo

 

As coisas do mundo estão todas espalhadas cercadas, escravizadas.
Foram cedidas e foram negadas
Negociadas
Esquecidas
Escondidas
Empoeiradas
Incendiadas
Esbanjadas
Suplicadas
Negligenciadas
Os donos das coisas do mundo
A troco do giro da manivela
Apossaram-se do tempo
-Que passa
Da vida
-Que passa
Agarraram-se com as mãos à terra, ao umbigo, às suas mulheres, aos seus pertences, aos seus chapéus e à ventania,
Porque do outro lado do muro os puxava a morte.
O cabo de guerra da imortalidade:
O desespero de provar-se vivo pelo peso que se carrega
O pavor de sentir-se morto pela entrega.
As coisas do mundo,
Toda e cada coisa,
Consumida
Consumada
Não salva o homem do fim do homem
Não salva, no fim, o homem de nada.

 

 

 

***

 

 

 

Distâncias

 

Quão seguro é percorrer a distância de um homem
E que aterrorizante é chegar ao fim do percurso.
Um trilho de trem comprimido por um incidente.
A proximidade de um longo intervalo de tempo.
Um fio de vida
Onde a morte pendura os sapatos.
Tentamos enxergar do outro lado
Tentamos atravessar os lados,
Mas todas as pontes cedem sobre os abismos.
Nunca
Corremos
Por essas
Estradas
Que são os outros.

 

 

 

***

 

 

 

Coragem

 

Enfrentarei a metodologia
A burocracia
As reuniões de trabalho
As oposições políticas
As exposições artísticas
O dólar
A cor dos olhos
O ego
O desencanto
O desacato
Por uma bagatela de quase nada aceitarei de bom grado
A confusão que me causa a felicidade.
Não minto que perdoarei as mentiras
E as dores
Que o ser humano provoca sem admitir que lhe sejam infligidas.
Sobreviverei ao homem que deseja casar-se comigo,
à omissão de minha mãe
Aos golpes de desafeto
Ao tiro disparado em vão contra mim
Pelas mãos de meu melhor amigo
[esfolado pelo ombro daquele que me odeia] Serei acusada
Perdoada
Santificada
Esquecida.
Seguirei em frente, enquanto louca
Sem vias de ida ou retorno
Cheia de ter com o vazio
Disputando um braço de volta.

 

Karine Padilha está no espectro da dupla excepcionalidade (autista com altas habilidades), é artista visual e neuropsicóloga brasileira. Ao longo de sua trajetória escreveu para o grupo editorial multimídia de poesia brasileira Aboio, para a revista nacional de arte e cultura Pixé, e para a revista internacional de arte e cultura Trama. Seu trabalho integrou mostras nacionais e internacionais, entre elas Universidade Federal de SC – UFSC, Art Lab Gallery (SP), Salon Caw (Portugal), CAM (Espanha). Com uma escrita contemporânea, inspira-se em autoras como Ana Martins Marques, Aline Bei e Matilde Campilho para explorar temas existenciais e psicológicos. Seus textos e produções visuais aprofundam-se em questões de identidade, memória, vulnerabilidade, e efemeridade, criando uma atmosfera nostálgica e introspectiva.

 

 

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154ª Leva - 02/2024 Galeria

Foto: Marcelo Leal

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