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67ª Leva - 05/2012 Ciceroneando Outras Levas

Ciceroneando

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas.  Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços.  O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!

Os Leveiros

 

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67ª Leva - 05/2012 Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética III

 

Desenho: Felipe Stefani

 

INSONDÁVEL

Ronaldo Cagiano

 

O apito do trem
o atrito do trem
o arbítrio do trem

xxxxxSerpente histérica
xxxxxrasgando os montes,
xxxxxa existência vai c(r)avando
xxxxxxxem nós uma estrada de mistérios

xxxxxNo duelo com a vida
xxxxxa literatura concedeu-me as armas.

xxxxxTriste como um passado
xxxxxvivo como uma ferida:

assim é o tempo (moenda de Chronos)
xxxxxcom sua carpintaria de ferrugens
xxxxxa sagração dos labirintos

 

 

***

 

 

ÁLBUM RECLUSO

        para Sérgio Fantini

 

Um presente póstumo
invade as páginas
desse baú de espantos.

Na parede ou no álbum
as fotografias
desconstroem as palavras.

Há filosofia bastante
no cortejo dessas traças
que sitiam o passado.

Porém,
a refratária infância
perdura
xxxxxxxintangível
no absolutismo de
xxxxxxxtantos silêncios.

 

 

(Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros:  Palavra Engajada (Poesia, 1989),  Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006)  e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF,  2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo  (LGE, Brasília, 2006))

 

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67ª Leva - 05/2012 Gramofone Outras Levas

Gramofone

Por Fabrício Brandão

GUI AMABIS – MEMÓRIAS LUSO AFRICANAS

 

 

 

Reúna toda a sorte de sentimentos que possam tecer um mosaico de válidas lembranças. Em seguida, junte boas doses de afetos, algumas fotografias retidas na mente e outros ensinamentos impregnados do sempre útil tempo das escutas. Antes de cerrar o baú de sentidos múltiplos, não se esqueça de colocar, por entre as vestes embaladas do corpo, medidas abundantes de boas sonoridades. Depois que tudo estiver pronto, mire detidamente o tecido estampado e vivaz que envolve o todo organizado. Então, é partir para o universo paralelo, onde cenários abusam de colorir memórias.

Quem lê tamanha alegoria, certamente construirá o ambiente que lhe parecer melhor. E o segredo é não ter receita para perceber as coisas sublimes da vida. Assim nos diz o belíssimo primeiro trabalho solo de Gui Amabis. De início, é imperativo dizer que estamos diante de um disco cênico, no qual as imagens se multiplicam a cada som ou voz expelidos. Com isso em mãos, ou melhor, nos ouvidos, tudo ganha mais vigor e força, principalmente pela forma cuidadosa com a qual o músico compartilha conosco parte substancial de sua história.

Memórias Luso Africanas é um denso e contemplativo percurso pelas veredas familiares de Gui Amabis, tecendo um rico álbum de imagens que derivam das histórias construídas por avós, pais e outros entes queridos do artista. A mescla das tradições de dois povos, como o título sugere, ajuda a consolidar um espaço de sonoridades repleto de signos diferenciados, todos eles movidos pela poesia contida na sucessão dos anos vividos.

A costumeira característica instrumental sempre muito viva de Gui só reforça o caráter imagético do disco, transportando quem ouve para o local exato onde os instantes rememorados acontecem. É pensar numa ópera moderna e depois imaginar que cada faixa encerra um momento que jamais se perderá no turbilhão do tempo. Diante disso, não fica difícil entender por que canções como Dois Inimigos, Orquídea Ruiva, Sal e Amor, Doce Demora, O Deus que Devasta Mas Também Cura e Para Mulatu retratam com precisão e delicadeza um sentimento de gratidão à vida.

O que torna o conjunto da obra mais valioso ainda é ver ali, desfilando suas vozes e energias, artistas do quilate de Céu, Criolo, Tulipa Ruiz, Dengue e Lucas Santtana, todos eles bastante envolvidos numa atmosfera feita de luz e som. E a rica bagagem musical de Gui Amabis, sobretudo na perspectiva da criação instrumental, confere uma dimensão especial ao cd, tendo como norte uma seleção de repertório com traços devidamente aguçados de sensibilidade. Materializar sentimentos e outras tantas percepções derivadas da alma é a virtude maior encontrada por aqui. Em meio ao ato de recordar, saber-se vivo é, antes de tudo, compreender o que está por trás de nossas origens.

 

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67ª Leva - 05/2012 Jogo de Cena Outras Levas

Jogo de Cena

O PERDEDOR FELIZ

Por Rafael Morais

Foto: Jô Stella

É importantíssima a qualquer ator, e, porque não dizer, a qualquer ser humano a sabedoria de saber rir de si mesmo. Somos, a todo o momento, cobrados a atingir metas, conquistar resultados, a não errar, e, nós, atores, somos muito mais cobrados a acertar, a sermos brilhantes, talentosos, virtuosos. A experiência de estar em cena, diante dos olhares e julgamentos do outro, pode ser dolorosa quando não conseguimos atender às expectativas do público, do diretor, da crítica, ou, a mais cruel de todas: à nossa própria expectativa. E isto, muitas vezes, pode até nos afastar da maravilhosa experiência de correr riscos.

O ator é uma criatura muito sensível, como diz Shakespeare, é feito da mesma matéria dos sonhos. Os atores podem ter a capacidade camaleônica de vestir a pele de diversos personagens. A competência de vivenciar em cena, tramas variadas. De fazer refletir, rir, chorar, satirizar, chocar, fascinar, de causar emoções variadas e intensas. A alquimia de transformar o verbo em carne, a palavra escrita em expressão viva, tendo como matéria-prima o próprio corpo, voz, sentimentos e experiência de vida. No entanto, determinados atores, por vezes, sofrem excessivamente com a possibilidade do acaso, do erro, do julgamento e do fracasso.

A carreira do ator pode ser comparada aos bons vinhos, quanto mais velha, melhor. A vivência, o valor da experiência, é o maior tesouro de um ator. Porém, acredito que os atores não precisam sofrer demasiadamente para exercer o seu ofício. Falo principalmente com relação ao julgamento do próprio ator para consigo mesmo. Os próprios períodos excessivos de ensaio são, às vezes, uma tentativa obsessiva de eliminar todo e qualquer risco, erro ou imprevisto. E alguns atores só fazem sacrificar-se, e por vezes acreditam que só pode haver sucesso se houver sofrimento, sem deixar quase nenhum espaço ao prazer de vivenciar o próprio ofício. Neste ponto, a bem da verdade em muitos outros, os atores contemporâneos têm muito que aprender com outros ilustres artistas da cena: os palhaços.

O palhaço é um perdedor feliz. Enquanto o ator, na atualidade, tem necessidade extrema de acertar, o material de trabalho do palhaço é o erro. E o palhaço é feliz em sua arte de fracassar. Os palhaços revelam de forma dilatada os sentimentos humanos. Percorrem, com sua simplicidade e astúcia, do grotesco ao sublime, do ridículo ao encantamento. O palhaço sabe que enquanto faz rir, está tocando na sua própria condição humana, imperfeita, falha, tosca, e que é este o seu material de trabalho.

Quero compartilhar com o leitor, mais uma vez, minha experiência própria, o quão precioso foi aprender diversas técnicas de palhaço. O quanto ser um aprendiz de palhaço pode colaborar com o ofício do ator.  O palhaço é como um duplo do artista, um amigo que o acompanha por toda a vida. Poderão mudar as apresentações, o repertório, mas continuará conosco, crescendo com os nossos erros e acertos. Tive a maravilhosa oportunidade de trabalhar, no Brasil e no exterior, com diversos mestres e caminhos de palhaço, sejam da tradição circense, do teatro de rua, dos bufões, e do próprio palhaço do teatro (mais conhecido como clown). Com cada um deles aprendi muito. Porém, gostaria de tratar aqui, especificamente, de uma tradição de palhaço muitas vezes esquecida e desvalorizada, a dos palhaços brasileiros de circo.

O espetáculo circense brasileiro é plural e único, pois, ao longo do seu desenvolvimento, não se ateve apenas às especificidades dos grandes circos de atrações, mas dedicou-se, também, no domínio dos pequenos e médios circos, à apresentação de dramas e comédias, características do denominado circo-teatro, bem como do chamado circo de variedades que busca mesclar as atrações circenses com shows diversos e até peças teatrais. E justamente o palhaço é o protagonista de todas as atrações nesses circos, das comédias ou dramas, shows, peças teatrais, entradas ou esquetes. Nas duas modalidades, seja no circo-teatro ou no de variedades, diferentemente dos grandes circos (onde o palhaço tem o papel de “tapa buracos” enquanto são montados os equipamentos dos grandes números), o palhaço é a figura central dos espetáculos dos pequenos e médios circos.

Essa pluralidade deu ao palhaço brasileiro a oportunidade de desempenhar papéis e funções que o espetáculo clássico europeu desconhecia. Como bem afirma Mario Fernando Bolognesi, autor do livro Palhaços: “Com efeito, no Brasil, além das entradas e reprises o palhaço teve e tem um lugar significativo na prática teatral que os circos desenvolveram e ainda desenvolvem.” (2003, p. 53). No circo brasileiro, um vasto repertório de comédias foi aos poucos sendo formado, possibilitando ao palhaço expandir suas formas de atuação. “Desse encontro adveio uma forma cênica aberta, formada e baseada na capacidade de interpretação e improvisação do palhaço, que teve a liberdade e a audácia de não estar restrito a gêneros fechados.” (Bolognesi, 2003, p. 53).

Bolognesi afirma que os roteiros das comédias circenses foram mantidos na memória oral dos palhaços, transmitindo-se de geração em geração. Além disso, os palhaços de circos pequenos, por serem a base do espetáculo e pelas características diferenciadas do pequeno circo, permanecem em cena um tempo muito maior, recorrendo assim às comédias de maior fôlego. Os palhaços têm um repertório de forte apego à linguagem oral, que pode ser encenada isoladamente, ou pode juntar-se às outras, num fluir ininterrupto, quando o ritmo e a duração são dados a partir da interação com a plateia.

O palhaço apoia-se tanto na prática antiga e familiar dos atores circenses ao compor o seu personagem palhaço, de forma tradicional, como também é marcado pela singularidade do ator e sua liberdade de criação. “Desta forma, a atividade de criação, guiada pela liberdade, tornaria possível a exteriorização não apenas da realidade percebida pelo indivíduo, mas também das potencialidades das quais os indivíduos são portadores.” (PANTANO, 2007, p. 18). Embora a criação destes personagens se dê a partir de tipos fixos, constituídos no decorrer da história das máscaras cômicas, cada palhaço, no entanto, é único.

Muitas das habilidades do palhaço, principalmente do palhaço brasileiro de circo e rua, são utilizadas por mim nas encenações do Teatro Griô, como a atitude de contracenar com a plateia: a atuação, ora como palhaço, ora como um dos personagens interpretados pelo próprio palhaço*; as transições instantâneas de emoção, de ritmo e até de caracterização dos personagens; a criação de seu próprio personagem palhaço e a autoria de sua apresentação artística; a capacidade de rir de si mesmo e ao mesmo tempo de revelar o encantamento e o sublime através de elementos simples como um pedaço de tecido, uma flor, um instrumento artesanal ou um expressão facial, bem como a utilização do corpo como um todo expressivo, a transitar entre o grotesco e o sublime; a aptidão para criar atmosferas repletas de imaginação e poesia do mesmo modo que sai delas facilmente para revelar aspectos do cotidiano.

Estabelecem-se, portanto, intricadas relações entre o palhaço e o ofício do ator em meus processos criativos no Grupo Teatro Griô, desde uma abertura à oralidade na transmissão dos conhecimentos, até os procedimentos adotados no próprio desempenho cênico, como a organização dramatúrgica (de sua própria autoria, recorrendo, no entanto a tramas de tradição oral), a interação com o público, e a atitude do artista de conceber ele próprio seu personagem, que assume traços de sua própria personalidade.

Foto: Jô Stella

Segundo Odette Aslan (1994), o que diferencia um ator de teatro, chamado dramático, do palhaço de circo, que atua em esquetes, são, sobretudo, o tom e o estilo da obra. E, ainda segundo a autora, seria mais comum que um artista do teatro de variedades conseguisse representar em um teatro de comédia, aparentemente sem grande esforço de adaptação, ao contrário do ator que custaria muito a ajustar-se às atividades paralelas dos circenses e do teatro de variedades. Aslan lista uma série de qualidades inerentes ao artista do teatro de variedades e do circo, como: segurar o público desde o começo; o dever de dar o máximo de seus esforços e da sua habilidade; saber sustentar sozinho a cena; atuar de maneira econômica e despojada; ter senso de improvisação; segurar o imprevisto; saber contracenar com o público; ter senso de ritmo, do efeito que utiliza o sentido do cômico; saber mudar rapidamente de roupa e de maquiagem, de personalidade.

Todas essas qualidades que acabo de expor, propostas por Aslan (1994), são também pertinentes ao processo de criação das encenações do Grupo Teatro Griô, à exceção da qualidade de saber mudar rapidamente de maquiagem, que não são imprescindíveis, uma vez que assumimos um personagem narrador que irá transitar entre diversos enredos e até a caracterização de diversos personagens das narrativas. Ele não precisa, necessariamente, mudar sua maquiagem, pois os personagens podem ser simplesmente esboçados a partir de expressões vocais características, ou da utilização de um fragmento de figurino, uma mudança no gestual, no ritmo, no deslocamento em cena, dentre outros elementos que podem ser utilizados sozinhos ou combinados entre si, a partir do jogo que se estabelece no desempenho do ator ao alinhavar a encenação das distintas tramas.

O circo no Brasil manteve uma estreita ligação com o teatro e solidifica-se através de adaptações teatrais do chamado circo-teatro. “Pelo que sabemos essa modalidade do circo de representar melodramas, de fazer teatro, é uma característica do nosso circo”, segundo Pantano (2007, p. 26). O palhaço brasileiro tem, então, características singulares, que o diferenciam dos palhaços europeus, como a de ser o protagonista dos espetáculos circenses, devido às encenações de melodramas. Atua das mais diversas maneiras, como palhaço propriamente dito e com sua atitude nas cenas de circo-teatro assumindo variados tipos cômicos.

A metodologia por mim desenvolvida no Teatro Griô está mais próxima dos palhaços brasileiros de circo e rua do que dos clowns “europeizados”. Além da já citada maneira genuína com que o palhaço se destacou nos circos-teatros do Brasil, “o palhaço brasileiro, ao criar seu personagem, é despojado. Em sua maioria, eles descrevem seus personagens como ‘alegres’, ‘escrachadas’, ‘moleques’ etc.” (PANTANO, 2007, p. 29). Portanto, segundo Pantano (2007), o palhaço brasileiro mesclou algumas características deste palhaço e criou o seu próprio personagem, distinto do clown europeu de cara branca e com gestos delicados, que não existe mais em nossos circos.

Interessa-me frisar, mais uma vez, a relação do ator com o palhaço em sua expressão mais despojada, repleta de liberdade e subversão, sem esvaziamento do potencial grotesco, como ocorre em clowns que se apropriam do tipo cômico como linguagem desprovida da irreverência do circo e da rua e estão mais próximos de uma concepção que enfatiza apenas a docilidade e fragilidade do palhaço. Esse tipo de visão clownesca, que busca afastar-se do que é popular e muitas vezes “borrado”, aproxima-se mais de uma valorização poética de um ideal de beleza, a qual, ao rejeitar os aspectos mais “baixos” do palhaço, acaba aniquilando o seu lado marginal, ao perder contato com a espontaneidade popular, rude e ligada ao fracasso que justamente deu origem ao palhaço.

Note-se que é possível observar essa irreverência característica dos palhaços brasileiros dos pequenos e médios circos também em muitos palhaços de rua e até de alguns que surgem de uma experiência teatral, mas que não esvaziaram o potencial grotesco de sua composição. É o caso, além do Teatro Griô, de palhaços como André Casaca, Ângela de Castro, Natalie Mentha, Roberto Stamati, Tortel Poltrona, Luís Carlos Vasconcelos e Chacovachi. Nestes, é possível perceber toda a poesia e subversão em composições artísticas que não retiram do palhaço o seu ingrediente tosco e estúpido, ao contrário de uma concepção do palhaço como uma linguagem cheia de formalidades (para não dizer receitas), mais próxima de um ideal aristocrático que procura em muitos momentos afastar o clown do que seria a “grosseria” dos tradicionais palhaços.

O palhaço de tradição brasileira aproxima-se mais do tipo subversivo Augusto, “sua característica básica é a estupidez e se apresenta frequentemente de modo desajeitado, rude e indelicado. No Brasil, encontra-se no termo palhaço o equivalente mais apropriado do Augusto” (BOLOGNESI, 2003, p. 74), afastando-se do tipo oposto ao clown Branco, que tem como característica básica a boa educação, a elegância da tradição aristocrática, e que acabou desaparecendo de nossos circos e companhias cômicas populares. O palhaço brasileiro assimilou alguns aspectos do Branco e compôs um Augusto repleto de dualidade ao agregar num mesmo palhaço, ao mesmo tempo, a estupidez e a astúcia, a ingenuidade e a sagacidade, a tolice e a esperteza, a subversão à ordem e a vitória ao fracassar. Esse é um tipo de palhaço que aponta uma associação com o povo brasileiro, sendo muito bem representado em tipos como João Grilo, Pedro Malazartes, e o próprio anti-herói advindo da tradição africana, Ananse, que tece suas artimanhas para sobreviver diante da injustiça social.

O palhaço nos ajuda a perceber a importância de viver o momento presente. Aponta para o fato de que o melhor de um processo criativo é o próprio trajeto, assim como o valor de uma trilha é o próprio percurso. A admitir nossas imperfeições, sem precisar perder a alegria, e a aproveitar a vulnerável condição de ser humano como algo repleto de simplicidade, humor e poesia. O palhaço é dono de uma esperteza que não esvazia o potencial de ternura, ao buscar o revide a partir do riso, muitas vezes da capacidade de rir de si mesmo e encontrar no risco, no erro e na derrota a possibilidade de ser feliz.

Nota:

 

* “Os palhaços que atuam nos circos-teatros, ao representar comédias ou dramas, caracterizam-se diferentemente da personagem/palhaço, criando assim um tipo, uma outra personagem”. (PANTANO, 2007, p. 26).

 

REFERÊNCIAS:

 

ASLAN, Odette. O Ator no Século XX. São Paulo: Perspectiva, 1994.

 

BOLOGNESI, Mário Fernando. Palhaços. São Paulo: Unesp, 2003.

 

CASTRO, Alice Viveiros de. O Elogio da Bobagem – palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Editora Família Bastos, 2005.

 

CASTRO, Angela de. A Arte da bobagem-Manual para o clown moderno. Londres: The Why Not Institut, 1997.

 

SOUZA, Rafael Morais de. Na Teia de Ananse: um griot no teatro e sua trama de narrativas de matriz africana.  Universidade Federal da Bahia, Escola de Teatro, 2011.

 

PANTANO, Andréia Aparecida. A Personagem Palhaço. São Paulo: UNESP, 2007.

 

 

(Rafael Morais é ator, diretor e professor de Teatro. Mestre em Artes Cênicas – UFBA, é também Coordenador Artístico do Teatro Griô. Dirige os grupos artísticos residentes do Teatro Griô: “Akpalôs – Fazedores de histórias” e “Cia de Teatro Baobá”. Contato: rafael@teatrogrio.com.br)

 

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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Outras Levas

Dedos de Prosa II

Desenho: Felipe Stefani

A SOMBRA E EU

Homero Gomes

 

À “quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera.”
(Primavera nos Dentes, de Secos & Molhados)

 

 

— Eu vou fechar a porta, para de escrever. Disse ela.

— Peraí. Respondi sem olhar para seus olhos negros. Alguma coisa fora da sala chamava mais atenção.

— O que é?

— Tem alguém naquela janela, tá vendo? Apontei com o nariz, com medo de ser descoberto.

— Não, é a sombra de alguma coisa que largaram lá. Respondeu ela, sem dar muita atenção a minha preocupação.

— Não, é um rosto que tá olhando pra gente. Há quanto tempo tá lá?

— Para de ser neurótico. E foi tentando me empurrar pra escada.

— Não! Tem alguém ali. Insisti.

— Credo. Disse ela, se afastando de mim.

— Deixa eu me esconder. Estou ficando com medo. Minha nuca arrepiava como se um espírito estivesse atrás de mim.

— Eu é que tô com medo de você, tá loco. Coisa estranha… Você tem cada uma.

— Sobe essa escada e some. Disse eu, indignado. — Você tá me atrapalhando.

— Não! Você precisa descansar.

— Eu vou escrever mais um pouco. Afirmei categórico e calmamente.

— Para com isso, essa caneta já tá fervendo.

— É a intenção, me deixa.

— Vá dormir. Ela pedia já colocando os pés nos primeiros degraus.

— Não, eu preciso fechar essa página pelo menos.

— Vá rápido! Ela parecia uma mãe, às vezes.

— Ele ainda tá lá. Disse, voltando ao assunto que me preocupava.

— Não é ninguém, deixa disso.

— É alguém, sim.

— É nada!

— Mas tá rendendo uma história, né? Eu disse, com um sorrisinho no canto dos lábios.

— Desgraçado. Xingou, balançando a cabeça em sinal de desistência.

— Senhor das ilusões. Corrigi.

— Ilusão é a sua existência, seu alter-ego chinfrim. Essa porra não vai dar em nada! Explodiu, enquanto eu redobrava minha atenção no vulto.

— Vai, sim. Insisti, com um fio de esperança.

— Vai dar em doença crônica.

— Não encha!

— Vamos, seu nariz tá sangrando.

— Então, adeus. E fui definhando até a última despedida.

 

 

(Homero Gomes é escritor. Vive e trabalha em Curitiba. É editor do blogue Jamé Vu e colunista dos portais Página Cultural e Mundo Mundano. Contribuiu com dezenas de publicações nacionais, tais como Cult, Rascunho, Ficções, Germina Literatura, Cronópios e Rapa Dura. ‘A sombra e eu’, até hoje inédito, faz parte do livro de contos Sísifo Desatento (inédito), finalista do prêmio Sesc de Literatura, edição 2007)

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética IV

Desenho: Felipe Stefani

ABREM-SE AS ASAS DOS CABELOS

Mar Becker

 

abrem-se as asas
dos cabelos,

digo-te: rosa

(uma trança a se
desfazer)

-dos-
ventos.

que mãos bordaram-na?,

(o que tu sangras,
sussurro.

digo-te, ave escarlate,

ao pé das pétalas
que encalham

nos meus ombros

como se fossem coágulos
de areia,

conchas: as pérolas
dos brincos).

é outono, meu bem; ouve,
todas as peles

rangem.

 

 

***

 

 

AGOSTO – I

 

respinguei no vidro
da palavra que

fechaste,

da janela que em
tão pouco,

tão perto,

se calou dentro de
ti.

agosto, ainda.
muita chuva,

(mas nenhuma fresta
nos lábios,

um sopro, que
fosse,

nenhum silêncio
entreaberto

para que à noite meu
nome

adormeça no teu).

respinguei no vidro,
no para-

peito,

o coração logo atrás.

 

 

(Marceli Andresa Becker é estudante de filosofia e professora. Publicou poemas nas revistas Zunái, Germina, Pausa e Eutomia, no Portal Cronópios e em diversos blogs. Participou ainda da Miniantologia Poética do Centro Cultural de São Paulo, organizada por Claudio Daniel, da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel, e do trabalho Canto Ancestral (CD e livro), do cantor nativista Lisandro Amaral. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Contato: mab_1109@yahoo.com.br)

 


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67ª Leva - 05/2012 Drops da Sétima Arte Outras Levas

Drops da Sétima Arte

 

Por Larissa Mendes

 

Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto (Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo). Argentina. 2011.

 

“A vida é um bolo de merda e cada dia há que se comer um pedaço”.
(Alberto Laiseca)

 

Quem jamais proferiu a melancólica frase “ah, se eu tivesse 20 anos com a cabeça que tenho hoje…” (salvo os que mal saíram de tal faixa etária), que atire a primeira pílula da juventude. A oportunidade de voltar ao passado para reparar um erro ou meramente para se dar bem paira no subconsciente do homem desde que este usa a desculpa de comprar cigarros. Com enredo inspirado no diabólico poema Fausto, de Goethe, e baseado em um conto inédito do escritor Alberto Laiseca, que faz as honras de narrador da película, Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto traça um retrato amargo, porém franco, das frustrações, da mediocridade e da insignificância do ser humano.

Ernesto Zambrana (Emilio Disi) é um corretor de imóveis de 63 anos, que leva uma vidinha pacata em Olavarría, província de Buenos Aires. Com a nítida impressão de que é um fracassado e nunca teve boas oportunidades na vida, um dia, enquanto almoça com a mulher Rosa (Emma Rivera) em um restaurante simplório, é abordado por um homem misterioso e sem nome (interpretado por Eusebio Poncela), que lhe propõe o seguinte acordo: Ernesto pode voltar no tempo e passar 10 anos em qualquer época de sua vida e, quando retornar a 2011, receberá uma recompensa de 1 milhão de dólares.  Para sua mulher, entretanto, não se passarão mais que 5 minutos, tempo que justifica a frase-título do filme. O que se vê a partir daí é uma realidade paralela, com um Ernestito desculpando-se com a mãe enferma, implantando o (até então inédito) formato reality show no Canal 3, em Olavarría, tentando impedir o atentado às Torres Gêmeas, plagiando antecipadamente Imagine, de John Lennon, entre tantas outras passagens jocosas e mal-sucedidas.

Se a temática ‘viagem no tempo’ já foi explorada com exaustão pelo cinema e o próprio título possa parecer repetitivo, o filme ganha em seu argumento e estrutura, a começar pelos poderes conferidos ao anônimo imortal (ou seria ele o demônio?): contrariando o matemático Gauss, ele foi atingido duas vezes por um raio, que o fez morrer e reviver, no Marrocos lugar onde, segundo o narrador, qualquer coisa impossível pode acontecer.  Outro diferencial é a narrativa fragmentada, com inserções do próprio Laiseca justificando algumas passagens do conto/filme. A propósito, o carismático escritor é uma enciclopédia de frases de efeito[-riso]. É interessante observar também que uma tartaruga – animal de estimação de Ernesto – pontua a passagem dos anos, como que advertindo que o tempo tem um caráter de efemeridade relativa.

Com roteiro e direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat, os mesmos cineastas de O Homem Ao Lado (2009), Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto é uma comédia non-sense da qual os hermanos parecem ter se tornado especialistas. Abordando a trinca tempo-vida-morte de forma crua e com certo humor negro, é um filme leve e divertido, porém altamente reflexivo, principalmente porque subverte o tom existencial pela pura fatalidade. Queridos, vou comprar pipoca e já volto.

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

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67ª Leva - 05/2012 Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética V

Desenho: Felipe Stefani

SOMBRA DE SAL E SILÊNCIO

Wender Montenegro

 

Não dizer palavra…
Deixar o silêncio plantar sua nódoa
na cinza dos olhos.
E uma sombra há de vir,
insustentável,
e despojada de dor e remorso e cansaço
trará numa das mãos linho novo,
alfazema;
na outra, conchas de praia deserta,
frutos da estação,
e ainda sem dizer palavra
acenderá os cílios com o sal das águas
de uma outra concha,
essa mão que rasgará silêncios,
tatuando na pele uma palavra gasta.

 

 

***

 

 

TECIDO DE ESPERAS

 

O olhar colhe asperezas…
Nenhuma alma de regresso às mãos
cansadas de tecer esperas;
nenhuma nau singra a saudade
e a tessitura é desfeita
pela ausência de abraços.

 

(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia, e espera publicar em 2012 dois livros inéditos, o Casca de nós e o Livro-arbítrio)

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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Outras Levas

Dedos de Prosa III

Desenho: Felipe Stefani

 

 

DO QUE ESQUEÇO

Priscila Miraz

 

Sempre dos gestos mais pessoais. Dos trejeitos mais repetidos. Esqueço dos meus modos nas situações. Das mãos na cintura quando converso em pé, e de como ergo o rosto pra soltar a fumaça do cigarro. Quando me descrevem, dizem do que mal percebo e do que é o menos passivo em mim. No descuido que o esquecimento permite, a restrita liberdade escapa. E os defeitos e falhas tão mal escondidos, os palavrões, a falta de tato, a evidência do cansaço, o excesso de cuidado, os pequenos melindres, a falta de paciência. Tudo bem figurado na descrição. Encarnado. Quando me chamam a atenção, perco o ritmo, tropeço e fico manca. Demoro a acertar o passo outra vez. A espontaneidade é coisa frágil.

 

 

***

 

 

IMAGEM

 

A casa. A porta lateral está aberta. O ar é denso do silêncio povoado. O calor e os rumores do meio do ermo. É cortante o ranger dos bambus gigantes. Eles ladeiam a casa. Dentro é escuro, úmido, frio. Cheira a madeira molhada. Sempre. A cozinha é quase toda a casa. A mesa grande. As cadeiras descompostas pelo espaço. Utensílios. Livros abertos e fechados. Os pratos sujos. Panos. Óculos. Frutas. As flores apanhadas. Partes do silêncio. E também o arrastar da escova nos cabelos. Ele está em pé, atrás dela que está sentada muito ereta num banco, e lhe penteia os cabelos. Grave. Ela se move involuntária. O puxar que a escova lhe inflige ao pescoço. Não dizem nada. Bem à frente dela, uma janela pequena aberta de par em par. A mata no horizonte se revira com a ventania. Acompanha o cinza escuro da tempestade que chega. Ela quase não respira. É calmo o olhar que vê a aproximação da tempestade. É ainda curioso e encantado. O mesmo olhar que vê a cena vivida.

(Priscila Miraz de Freitas Grecco natural de Assis, SP, é mestre em História da América pela UNESP – Assis. Teve contos publicados pelo jornal literário de Curitiba, Rascunho, pelas revistas eletrônicas Germina e Caderno Literário. Participou também de duas coletâneas da editora Pragmatha, O imaginário do mar e do navegador, e Cardeno Literário III- Meio Ambiente)


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67ª Leva - 05/2012 Dedos de Prosa Destaques Outras Levas

Dedos de Prosa I

BRUTALMENTE BRUNA

Marcus Vinícius Rodrigues

Desenho: Felipe Stefani

Eu não sabia o que fazer e abri a blusa
mais tarde eu ia dizer foi sem pensar
ele me achou desnorteada, confusa
como acharia qualquer mulher que abre a blusa
e faz tudo que fiz só pra agradar.
Bruna Lombardi

Flash!

Qual a pose que ficou?  Eu de olhos lânguidos pra ele? Eu de taça de champagne na mão? Podia ser whisky? Essa dor de cabeça é whisky, tenho certeza. Mas quando foi que eu desci do champagne protocolar para o porre? Quem mandou beber em público, sua alcoólatra, no meio de um monte de jornalistas? E olha que eles foram convidados. Nós não somos nada sem a imprensa, querida. Até vocês decidirem nos destruir, eu devia ter completado. Amanhã vai sair a pior foto no jornal. Nada da minha arte, só a fofoca. Você está namorando alguém? Eu ainda estou casada, querida. Ele está filmando no Xingu, um filme ma-ra-vi-lho-so, co-produção com a França, querida.

Flash!

Eu não vou te contar, querida, que acordei com seu flash nos meus olhos, quase cega, querida. Você não vai saber que eu não dormi em casa. Tá! Eu ainda não sei bem onde estou e nem quem é esse cara deitado na cama. Você ia gostar de me ver agora, de quatro, debaixo da cama, à caça de uma calcinha. Eu estava com uma, tenho certeza. A manchete podia ser assim: uma noite vadia com Bruna Bianchi. Muito literário pra você, não é? Você ia preferir algo mais direto nas bancas de revista: flagra! Bruna Bianchi pula a cerca. A foto de meu traseiro nu, mal coberto por esta camisa de homem. Não, querida. Esse gostinho eu não lhe dou. Pode falar mal de meus quadros, pode dizer que sou péssima atriz. Você não é crítica de arte mesmo. E novelas? Aquilo não é arte, é corrida de obstáculos. Como você explica sua arte? Você perguntou. Como você explica sua ignorância, meu bem? Eu não virei artista plástica do nada, benzinho. Você não sabe que eu fazia Belas Artes, quando aquele fotógrafo me descobriu?  O dinheiro era tão bom, entrei no mundo da moda. As novelas? Uma coisa leva à outra. Não! Isso não é meu eu interior. Minha arte pretende outra coisa. Nem pense que você vai fotografar minha alma. Contente-se com meu corpo. E não, eu não estou fazendo isso para aparecer. Se eu quisesse aparecer, seria melhor ter um câncer. Tão na moda, hoje em dia. O sucesso seria garantido. Atriz vence luta contra a doença. Eu, belíssima e orgulhosa com minha cabeça raspada, uma Nefertite vitoriosa. Tenho certeza que você ia escrever algo assim: o sofrimento deixou Bruna Bianchi mais próxima de sua personagem. Ela consegue viver a dor da heroína. Que dor? Pura técnica. Cristal chinês. As lágrimas falsas.

Flash!

Os quadros? Eu só pinto o que vejo. Por isso os cães de bocas ávidas, de olhos arregalados, brilhantes como o sol; os homens abobalhados, os mesmos olhos acesos. E os quadros só com olhos, dezenas de olhos, objetivas de câmeras, binóculos, isso não lhe lembra nada? Você ainda não se identificou, meu amor? Não entendeu nada, hein? Bote lá na sua manchete: Atriz impressiona em sua primeira exposição. Não foi isso que a TV mandou dizer? Enquanto eu estiver no ar, tenho imunidade diplomática. A TV não vai deixar nada me acontecer. Todos nós sabemos quanto vale o meu rosto. E a novela está nos seus momentos decisivos, audiência absoluta. Eu tão comportada. Já faz um tempo que não dou escândalo. Estou limpa, querida. Sem calcinha, na casa de um estranho, é verdade, mas você não tem provas. Vai sair uma foto dele me abraçando? O nome, a profissão. Modelo? Olhando daqui, pode ser. Tem estampa. Minha avó diria que ele tem apresentação, moço bonito. E tem tamanho, Vó. É magro. Deve ser mesmo modelo. Amanhã vai estar famoso. Eu sei, Vó, eu deveria me preservar mais. Vou tentar da próxima vez. Agora só me preocupa a calcinha que não acho. Isso eu aprendi, Vovó. Uma mulher não deve deixar vestígios. São nossas intimidades, minha neta. Mas como, Vozinha? Eu sou uma fábrica de pistas. Meu cabelo cai por onde passo. E essa tintura é única. Outro dia achei um fio na calcinha. Imagina quantos homens que apenas me cumprimentaram foram flagrados com cabelos meus na cueca. Esses fios são assim. Entram em tudo. Também sempre se solta um vidrilho do vestido. O batom, então? E os cheiros. Não dá pra recolher tudo isso. Pelo menos a calcinha! Eu sei,Vovó, eu sei. E se ele pegou de souvenir? Afinal, é uma calcinha de Bruna Bianchi. Um troféu! Ele tem de mostrar pros amigos. Não, não parece que seja isso. Eu devo ter perdido. A cueca dele está aqui, o nome da grife no cós. Ei, dela eu lembro saindo da calça, toda branquinha, embaixo da camisa transparente, a barriga absurdamente malhada, a virilha quase à mostra. Imprensa amada, Vovó querida, Bruna Bianchi é uma vadia. Está explicada a perdição em que me meti. Aquela saliência que começa na cintura e vai até lá embaixo, os pêlos começando discretamente, foi por ali, foi por ali … Veio tudo como um flash. Eu gostaria de me justificar, sabe? Foi uma tentação audiovisual, como nos melhores métodos de aprender línguas. Tinha aquele corpo atrás da transparência e uma voz dizendo algo como puxa, é como se você colocasse um espelho na frente das pessoas que lhe rodeiam, os fãs, os jornalistas. Este é o mundo que você vê. Viu, Ricardo, eu lhe traí com alguém que entende minha arte, ao contrário de você. Tá, isso que ele disse tava no release que mandei pra imprensa, mas eu estava bêbada. E você? Você não pareceu capaz de tirar uma folga deste filme idiota para ser o par de sua esposa. Já está há três meses neste fim de mundo. Ciúmes das índias, eu?. Elas não me preocupam com seus peitos caídos, suas barrigas inchadas. Acho que nem se interessam por um branquelo como você. O que me preocupa são essas atrizinhas de quinta, fazendo papel de índias, os seios duros de silicone, lhe chamando para um mergulho no rio. Não me volte com doenças, Ricardo. Se voltar, que seja malária. Vou me deliciar com as febres de fim de tarde. Ah! Meu amor, o que você me faz fazer? Lembra quando nos conhecemos, eu já estava muito bêbada. Você disse alguma coisa que não entendi, mas terminou me chamando de docinho. Eu não sabia o que responder, nem sabia a pergunta, mas aquele docinho sussurrado no ouvido .. eu não sabia o que fazer e abri a blusa. Você deve ter me achado uma louca. Depois eu ia dizer: foi sem pensar. Ia dizer que foi você quem me tirou a razão. Não foi nada disso. Eu apenas não sabia o que fazer. E uma mulher, assim perdida, assim sozinha numa noite mais triste que as outras, essa mulher, só porque não entendeu uma pergunta, é capaz de abrir a blusa, mostrar-se desafiadora. Foi só isso, Ricardo. Toda minha vida em suas mãos só porque você disse docinho no final de uma pergunta. Não sei se você queria ir ao banheiro ou se queria me pedir um beijo. Eu apenas abri a blusa e você ficou maravilhado com minha ousadia. Um botão pode decidir nossas vidas.

E agora, aqui estou eu neste chão de um apartamento estranho. Veja, vozinha, amigos jornalistas, registrem este momento. Podem fotografar. Eu não estou lá na melhor forma. Este camisão não me valoriza, estou com a maquiagem borrada, mas gostaria de aproveitar a oportunidade para falar de meu próximo projeto de teatro, um recital: Brutalmente Bruna. Eu completamente sem glamour, assim como estou agora. Sempre funciona. Se a ex-modelo se enfeia para o papel, já sobe de patamar, vira atriz. É o pedágio. Vou virar atriz, querida, e você vai ter de deixar suas ironias de lado nessa sua colunazinha de fofocas. Agora só vou aceitar críticas da Bárbara Heliodora, fofa. E eu também vou fazer o cenário e a luz. Veja essa fresta de sol sobre meus seios. Se eu me inclino pra frente, a luz ilumina meu rosto. Já dá uma chamadinha na TV, não é Ricardo. Sei, Vó. Pernas fechadas. Tenho de lembrar sempre de fechar as pernas na televisão. Mas eu vou usar calças. Uma mulher sempre está de pernas fechadas, minha neta, esteja usando o que for. Mesmo sem calcinhas, bêbada, usando só uma camisa de homem? Eu devia levantar e ir ao banheiro recompor este rosto. O que fazer sem maquiagem  na bolsa? Só um batom. Água e sabão. E se o batom é rosa, pode ser o blush  e a sombra. Uma mulher nunca deve estar inteiramente de cara limpa, principalmente nos momentos mais dramáticos. Esse prédio deve ter porteiro que certamente me conhece. Os porteiros conhecem todo mundo que é famoso. As revistas  têm sempre de passar por eles. E quando você está na novela … Tenho de descer com toda a pose, roubar estes óculos do rapaz, esse dinheiro para o táxi. Melhor deixar um bilhete dizendo que peguei emprestado e vou devolver. Não. Nada de vestígios, não é Vó? Ele que pense o que quiser. Depois mando um pacote anônimo devolvendo tudo. Desfaz-se a impressão e ele vai ter certeza de que não é pra me procurar. Vou levar este casaco pra disfarçar o brilho do vestido. Estou uma gatuna. Se eu fosse uma princesa europeia, ia ter um batalhão de assessores pra esconder meus deslizes. Um telefonema e o serviço secreto invadiria o apartamento, depois de minha discreta saída, e sumiria com todos os vestígios. Se o rapaz não colaborasse, jamais trabalharia neste país. Um caso de segurança nacional. Mas eu só tenho minha Vozinha pra zelar por mim e um marido ausente. Ricardo não está nem aí. Ele ia adorar me pegar no pulo. É muito difícil para uma mulher não ser uma princesa. A calcinha? Vejamos uma resposta. Voz natural, enfado: Nossa, ela marcava muito através do vestido. Tirei e joguei no banheiro da galeria. Lembra que Carmem Miranda fez isso uma vez? Eu não podia imaginar que existissem pessoas tão doentes como esse rapaz. Roubar a calcinha de uma atriz como eu. Certamente um fã, mas um fã muito doente. E eles leiloam de tudo nessa internet. Como as pessoas são solitárias hoje em dia. Esse rapaz certamente só quer chamar atenção. Dada minha última entrevista, passo os olhos no apartamento. Simpático até. Desço pela escada os dezoito andares. Elevadores são perigosíssimos. Muita intimidade. É quase promíscuo. Lá pelo nono ouço uma ópera. Alguém ouve ópera de manhã cedo. Ainda bem que não moro aqui. Ópera? Eu quero a Gal aos berros, você me entende. A Gal rasgando a garganta. Saio sem olhar o porteiro na cara e caminho para uma rua transversal. Bairro agradável, nem estou longe do meu. Desvio do jornaleiro que abre sua banca, a rua deserta. Meus saltos são o único barulho nas pedras portuguesas. Não é tão fácil como estar numa passarela, mas coloco um pé em frente ao outro, ombros para trás, mãos nos bolsos do paletó, fixo o olhar num fotógrafo imaginário no horizonte e vou.

Flash!

(Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (poesia), Prêmio Brasken/Fundação Casa de Jorge Amado – 2001, “3 vestidos e meu corpo nu” (contos) – Editora P55, 2009, “Eros Resoluto” (contos) – Editora P55 e, mais recentemente, “Cada dia sobre a terra” (contos) – EPP Publicações e Publicidade, 2010. Participou das antologias “Concerto lírico a quinze vozes: uma coletânea de novos poetas da Bahia” (Ed. Aboio Livre, 2004), “Os outros poemas de que falei” (Prêmio Banco Capital, 2004) e “Tanta poesia” (Prêmio Banco Capital, 2005), dentre outras)