Categorias
67ª Leva - 05/2012 Destaques Outras Levas Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

W. J. Solha - arquivo pessoal

Saber adentrar com maestria as searas do tempo pode significar um atributo deveras valioso a um autor. Na dinâmica das experiências vividas, a capacidade de reter instantes significativos em matéria de criação e depois lhes emprestar sentido, seja em palavras ou imagens, é tarefa especial. É então que o binômio saber e sabor, com a sua magnitude peculiar, perfaz a incerta estrada da criação para depois consolidar uma obra que se pretende autêntica e consistente. Ao pensar numa característica como esta, logo entendemos porque a trajetória de um alguém como W. J. Solha traduz perfeitamente tudo o que foi dito anteriormente. Esse paulista, radicado na Paraíba há alguns bons anos, lapida, a cada passo dado, uma condição diferenciada frente ao universo da arte. Verdadeiro multimídia, Solha assumiu papéis diversos no palco da vida, notadamente dentro das feições de escritor, artista plástico e ator de teatro e cinema. Em cada um deles, soube extrair do tempo os instrumentos necessários ao seu caminho.

No campo da escrita, o traço de W. J. Solha é inconfundível, sendo que a referência a aspectos importantes do percurso vivo de nossas humanas idades pode ser imediatamente reconhecida por quem se permite percorrer os olhos sobre suas letras. O autor de livros emblemáticos como Israel Rêmora (Romance), A Canga (Romance), História Universal da Angústia (Contos) e Relato de Prócula (Romance), dentre outros, agora nos oferta Marco do Mundo, obra que integra uma trilogia poética iniciada a partir de Trigal com Corvos. Assim como seu antecessor, Marco do Mundo se utiliza da perspectiva do poema longo, concatenando de modo preciso e envolvente uma estrutura de versos dotados de complexidade. A ideia do poeta face à angústia da criação é, sem dúvida alguma, o grande trunfo do livro. Some-se a esse aspecto o vigoroso painel de acontecimentos ligados à história da humanidade e que ajudam, sobremaneira, a erigir uma babel de alicerces poéticos bastante sólidos.  Na conversa que agora segue, Solha fala sobre seu novo rebento literário, a opção por uma certa independência editorial, o porquê de ter deixado a pintura, além de alguns outros assuntos que permeiam suas andanças pelo terreno cultural.

 

DA – Logo em seu princípio,  “Marco do Mundo” prepara o leitor para uma verdadeira incursão na complexa tarefa do fazer poético. A sensação ali é de que o escritor, antes de parir seus versos, se depara com um fosso abismal de proporções gigantescas, qual seja o mistério da criação em carne viva. Quem escreve é, de fato, um atormentado?

W. J. SOLHA – Criar, para mim, é um tormento. Renoir dizia que somente pintaria enquanto isso lhe trouxesse alegria. Feliz dele. Sofri tanto com os pincéis, que acabei por abandoná-los. Deixei de fazer teatro pelo mesmo motivo. E sofri como o diabo para interpretar meus papéis em O Som ao Redor – de Kléber Mendonça Filho – que está fazendo bela carreira no exterior, desde a estreia no começo de fevereiro, no festival de Roterdã, e sofri do mesmo modo no Era uma Vez Verônica, de Marcelo Gomes, ambos rodados no Recife. Não sei se dói mais assumir outra alma,  como ator, ou criar uma nova, escrevendo. Porque é aquilo que diz Fernando Pessoa: Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. A diferença é que a literatura, a poesia, exige isolamento. Com a vantagem de que você é responsável apenas por você mesmo, quanto ao resultado que irá alcançar. No cinema, não: tem-se que pensar coletivamente. Atrás da câmera que faz um close seu, há quarenta pessoas trabalhando. No filme de Marcelo ainda havia um agravante: o apartamento de meu personagem ficava na Conselheiro Aguiar, a segunda  rua  depois da avenida Boa Viagem, com um trânsito enorme. E cada vez que eu e Hermila Guedes tínhamos uma cena em casa, o Detran parava o tráfego lá fora, pense no que significa isso. E o ator não só se arrisca, como arrisca a obra de alguém que é maior que ele, naquele momento: o diretor. Mas você percebeu bem: quando resolvi escrever o Marco do Mundo senti o salto que teria de dar. Tenho um quadro meu, antigo, em que se vê uma paisagem enorme, com um despenhadeiro altíssimo, e, lá em cima, inebriado pela beleza do que vê, um menino dá um salto, completamente nu, no imenso vazio.

DA – Aos poucos, “Marco do Mundo” vai edificando cada andar de uma tresloucada Babel, aglutinado uma profusão de seres das mais distintas eras. Como tecer a trama dos versos face a tais provocantes humanas idades?

W.J. SOLHA – Eu ainda não tinha a ideia de fazer um poema longo tipo marco, na linha de cordelistas como Ataíde e o Leandro Gomes de Barros, quando vi, mentalmente, a cena em que um contêiner se aproxima de uma torre em construção, trazido por um guindaste, e dele sai para ela, a fim de lhe ser um dos andares, uma noturna e esfuziantemente iluminada Quinta Avenida, de Nova Iorque, com todo seu trânsito e arranha-céus, ao som do clarinete da Rhapsody in Blue, do Gershwin. A essa imagem espontânea seguiram-se outras, como a de outro contêiner chegando, este trazendo uma manada de baios “sob uma nuvem que a bombardeia de raios”, outro vindo com o Arthur Bispo do Rosário e suas centenas de obras de arte, ele no Manto da Apresentação que criou para seu encontro com Deus, “que lá vem, Deus, apesar dos ateus, com tutti quanti angeli et archangeli”. Aí foi inevitável fazer vir com Arthur o Poeta do Absurdo, Zé Limeira, e me atrever a uns versos na linha dele. Na verdade, só a fascinação que tenho pela poesia do Limeira (ou dos que a criaram com seu nome) poderia me deflagrar a grande libertação poética que é o Marco do Mundo, como ele acabou se tornando uma espécie de repto aceito para superar os cordelistas, embora sem me servir do cordel, na loucura criativa que foram suas próprias babéis, publicadas em 1915 e 16 – o Marco do Meio do Mundo e Como Derribei o Marco do Meio do Mundo. Evidentemente, isso acarretou uma desenfreada farra de rimas de todos os tipos imagináveis, dentro de um ritmo alucinatório, com a intenção de induzir o leitor a acompanhar tudo como num filme – sem interrupções.

W. J. Solha - arquivo pessoal

DA – Dentro do percurso escolhido por você, é interessante pensar na noção de poema saga, fundada desde “Trigal com Corvos”. De que modo esse raciocínio consolida o propósito da trilogia?

W. J. SOLHA – A ideia é que em Trigal com Corvos centrei o mundo em mim. O poema longo foi gerado por  minha angústia ante a obra a ser feita e que não me saía, de modo algum, satisfatória. O Marco do Mundo é uma visão da História que ocorre mesmo com a minha ausência. E agora estou trabalhando no Homem, daí o Ecce Homo, que é um título provisório. No entanto, assim como o Marco do Mundo não começou com a ideia que dominou depois, nele, não fiz o Trigal já pensando em três poemas longos formando um complexo poético. Como também não fiz as partes que compõem minha História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005) pensando numa coletânea. Tinha feito meus romanceamentos do Édipo e do Hamlet, um conto longo sobre o Rei Saul, outro sobre o menino Parsifal, e percebi, de repente, que estava trabalhando apenas com grandes angustiados. Daí a lembrança da História Universal da Infâmia do Borges e o título que enfeixou tudo.

DA – Algo serviu de modelo para “Marco do Mundo”?

W. J. SOLHA – Sempre tive fascínio pelo making of de um grande filme, pela análise como a que Ernest Jones faz do Hamlet, ou da criação de O Corvo, feita pelo próprio Poe, ou das traduções deste poema, feita por Ivo Barroso.  Daí que resolvi que faria parte do Marco do Mundo a própria criação do Marco – fictícia, é claro – com o Poeta aparecendo como seu próprio personagem, que não sou eu, declarando sua poética e a luta para superar os cordelistas autores de marcos anteriores, luta que faz parte, aliás, das características dos marcos.

Muitos disseram que o Marco do Mundo é inanalisável – Ivo Barroso,  Ruy Espinheira, Nilto Maciel – pelo que adianto a informação de que fiz o poema longo motivado pelo surrealismo que sempre existiu, independentemente de Breton-Dali, como no caso de nossos cordelistas Ataíde e Leandro Gomes de Barros com seus marcos, de Bosch e Brueghel com seus quadros no  século XV, de Apuleio com seu Asno de Ouro no século II, e todas as religiões e/ou mitologias, em que Mercúrio voa, Moisés abre o Mar Vermelho, Jesus anda sobre as águas e multiplica pães e peixes, ressuscita os mortos, enquanto em nossas matas pululam sacis, curupiras e mulas sem cabeça. Jung dizia que as artes, religiões e sonhos provêm da mesma região de nossas mentes. Acredito nisso.

DA – Seus dois últimos livros são fruto de uma postura editorial independente, através da qual você mesmo driblou possíveis amarras e bancou a publicação de ambos. Foi melhor assim?

W. J. SOLHA – O que você acha? Estou pagando para escrever. Desde meu romance Relato de Prócula – que só saiu pela editora A Girafa quando me comprometi a comprar, dela, 500 exemplares, isso vem acontecendo. Ganhara a bolsa da Funarte com ele, para produzi-lo, ganhei, depois, um dos prêmios da UBE-Rio, mas nada disso adiantou. O fato é que W. J. Solha somente é ator de cinema, somente foi artista plástico, somente foi dramaturgo, somente é poeta… Porque existe um prosaico Waldemar José Solha, que trabalhou no Banco do Brasil por 28 anos para – como um mecenas – sustentá-lo.

DA – Dada a confissão que você fez agora, o que mais o impele a prosseguir?

W. J. SOLHA – A certeza de que o mecenas – o bancário aposentado Waldemar José Solha – sabe o que está fazendo, ou a Paraíba não teria, até hoje, seu primeiro longa-metragem, nem a UFPB teria um painel de 7,20 m de largura, composto de 36 telas – homenageando Shakespeare, nem o teatro de João Pessoa teria tido, entre os anos 86 e 90, nenhum espetáculo com texto e direção de W. J. Solha. O que pode não ser grande coisa, mas era o que havia para ocupar um vazio enorme enquanto não chegava Luiz Carlos Vasconcelos pra escrever e dirigir “O Vau de Sarapalha”, que repercutiu Brasil afora e nas estranjas.

DA – O cinema tem feito parte especial de sua vida há muito tempo. Muito do que você escreve tem, por sinal, um forte apelo imagético. Que balanço você faz dessa sua íntima relação com a sétima arte?

W. J. SOLHA – Hemingway dizia que frequentava os museus para aprender a escrever. Realmente, como me dediquei à pintura desde menino, a imagem tem sempre uma forte presença em tudo o que escrevo. Muitos, muitos de meus versos provêm de fotos de quadros ou simplesmente de fotos, pois tenho muitos livros sobre Arte e Fotografia. Mas a dinâmica de meus poemas e romances derivam do cinema, sim. Eisenstein dá o texto de Leonardo com o projeto de um quadro sobre o dilúvio (que faz parte do Marco do Mundo) como nada mais nada menos do que um roteiro cinematográfico. Claro, pois a pintura, ao contrário do que se supõe, não é estática. Se você não dá ao espectador o chamado “caminho do ôlho”, ele vai se perder na “leitura”. A vivência do cinema dá ao poeta e ao romancista uma aprendizagem nova: a de panorâmicas, zooms, cortes, closes, slow-motions. Usei a câmera lenta até no teatro. Em minha peça A Bátalha de OL contra o Gígante FERR, ante o problema de uma cena de duelo com espadas enormes, medievais, portanto perigosas, fiz a coisa toda como uma vagarosa dança que culmina com a morte de FERR. As cenas do Marco do Mundo – há uma fuzilaria dela, no poema – são todas como que de cinema. Deu-me muito trabalho, por sinal, o trecho em que chega à torre a cena de E o Vento Levou, em que Scarlet O’Hara vai à estação de estrada de ferro de Atlanta, atrás de socorro médico para a cunhada, e dá com aquela multidão de agonizantes e feridos da Guerra da Secessão.

DA – Há alguma razão em especial para você ter deixado de se dedicar à pintura?

W. J. SOLHA – Há duas: desde adolescente, vejo a rejeição que se faz ao figurativismo, que sempre me foi muito caro. Em 89,  pintei meu painel A Ceia, no Sindicato dos Bancários, de cuja diretoria eu fazia parte, com Marx ,o lugar de Cristo, dizendo Um de vós me trairá, provocando aquela comoção leonardesca nos “discípulos” Mao, Allende, Che, Stálin, Trótski, Lênin, Fidel, Ho Chi Minh e Gorbatchev. Pois bem: lembro-me disso porque alguém, ao me ver pintando a tela de 3 metros e 60 de largo, mostrou-me uma reportagem da Folha de São Paulo dando conta de que uma exposição das obras de Lucian Freud – figurativista – estava com uma fila de virar quarteirão, em torno do Moma de Nova Iorque. Foi o último espasmo de “minha época”, que se esvaía entre meus dedos. Claro, fui a uma mostra de esculturas de Rodin no Recife, mas aquilo já encarado como coisa do passado, como uma  sinfonia de Brahms. A outra razão foi essa angústia de que falamos no começo da entrevista. Passei seis meses trabalhando numa tela de dois metros e tanto de altura, em que atualizava o Jardim das Delícias, de Bosch. Passei nove meses fazendo um painel de sete metros e vinte de largura, que está na reitoria da UFPB, homenageando Shakespeare, mas… a insatisfação sempre enorme, sufocante. Van Eyck escrevia sempre, abaixo da assinatura, nas telas dele: “Faço o que posso”. Eu também fazia. Mas não era o suficiente. Aí, em 2004, fiz uma exposição com cerca de duzentos quadros e, sozinho no salão imenso, entre aquele mundo de esforço inútil, tomei a decisão: “Não pinto mais”.

DA – Voltando a “Marco do Mundo”, é possível perceber que o poeta, diante de um mundo eivado de informações, busca lapidar ao máximo o que pode lhe servir de instrumento criativo. Chama atenção nesse momento uma certa obsessão pela perfeição, pelo algo supremo. Para um escritor, de modo geral, tentar erguer uma obra monumental não constitui tarefa árdua demais e quiçá algo desnecessária?

W. J. SOLHA – Árdua, sim. Desnecessária, de modo algum. Pelo contrário, somos carentes de obras monumentais. Em todos os campos. E de perfeição em pequenas coisas, também. Foi o que Ariano Suassuna fez com o grandioso romance A Pedra do Reino e com a comédia nordestina Auto da Compadecida. A Itália se orgulha da Sistina, da Divina Comédia, como do Ladrões de Bicicletas e Amarcord. A busca da perfeição me incomoda, sim, mas porque é preciso ser gênio para consegui-la: trabalho, só, não resolve. E, evidentemente, de gênio não tenho nada. Por isso deixei de fazer teatro e de pintar. Continuo com a literatura porque é onde me sinto  menos limitado. Havia jurado, também, não mais me meter em cinema. Houve insistência para que fizesse os testes para os filmes do Kleber e do Marcelo, já tive o alívio de ver que O Som ao Redor está se dando muito bem no exterior, apesar de minha presença. Sofro o suspense de como vai se sair o Era uma vez Verônica… e trabalho na terceira parte da trilogia de poemas longos. Como estou mandando de graça o Marco do Mundo a quem se interessar por ele, pelo menos ninguém poderá reclamar que perdeu dinheiro com o que escrevi.

W. J. Solha - arquivo pessoal

DA- A certa altura de “Marco do Mundo”, o poeta manipula o tempo, atravessa-lhe as entranhas para ver fluir o incorrigível espírito humano. Você acredita que o imediatismo é nosso equívoco maior?

W. J. SOLHA – Tenho a maior admiração pelos repentistas paraibanos. Oliveira de Panelas é assombroso, nisso. Em cima do ponteio da viola faz um discurso rimado em que menciona as flores do vestido de uma senhora presente, os olhos verdes de fulana de tal, também ali, ousando servir-se até do martelo agalopado, que são estrofes em dez versos com dez sílabas cada, todos acentuados na terceira, sexta e décima sílabas, com rimas obrigatórias do primeiro com o quarto e quinto versos, do segundo com o terceiro, do sexto com o sétimo, e do oitavo com o nono. Pense na cabeça desse cara enquanto ao mesmo tempo procura graça e beleza na composição. E isso tudo é … efêmero. Quem viu, viu, quem não viu… – rime você. Os autores de novelas de TV também têm de ser imediatistas, pois a crítica que recebem vem do IBOPE. Já os impressionistas foram, todos, mestres do vapt-vupt, mas Cèzanne dizia querer a arte dos museus. E a conseguiu, o que é juntar a fome com a vontade de comer. O perigoso é o imediatismo que vive embarcando em “ondas”. Portinari sai do Brasil acadêmico, volta da França cubista. O Cícero Dias, daqui do Recife,  chagallizando. O que acredito é naquilo que você SENTE que tem de fazer. Meus dois últimos romances – Relato de Prócula e Arkáditch – foram os primeiros,  suponho,  a abordar a classe média urbana, nordestina, contemporânea. E o que me levou a participar dos dois longas pernambucanos – O Som ao Redor e Era uma vez Verônica, de Kleber Mendonça e Marcelo Gomes – foi justamente o fato de que foram os dois primeiros filmes a tomar o mesmo tema: classe média urbana nordestina, contemporânea. Há, em todas  as gerações, tônicas dominantes. Como os ciclos do cacau e da cana de açúcar. A arte tem de se sintonizar ao seu espaço e ao seu tempo, para deixar, deles e neles, a sua marca d´água. Ou não terá feito nada.

DA – Com que olhos você acompanha a produção literária na contemporaneidade? Costuma manter um diálogo aproximado com novos autores?

W. J. SOLHA – Vivo alguma dificuldade para encontrar tempo suficiente para acompanhar o que se faz no Brasil e no mundo. Escrevo praticamente o dia todo, com a urgência a que a idade me obriga, pois não tenho a menor ideia de quanto tempo, ainda, disponho, com tanto que ainda tenho para  dizer. Além do mais, escreve-se muito na Paraíba. Leio muita coisa inédita. Há pouco escrevi textos para orelhas e quartas capas de três autores premiados em concurso do Estado. Há um excelente romance de Tarcísio Pereira, O Autor da Novela, que obteve Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte há dois anos, ainda sem editor. Também li os originais de um bom livro de Marilia Arnaud, contista que se aventurou com sucesso no romance. Tirei um atraso, recentemente, comprando um lote de obras do Affonso Romano de Sant´Anna, a quem admiro muito. Fiz a quarta capa, também, há pouco tempo, de um belo romance do Carlos Trigueiro – Libido aos Pedaços – que saiu pela Record. Fiz uma resenha alentada do último romance do Esdras do Nascimento, A Rainha do Calçadão. Li os originais de um romance de primeira, do Hugo Almeida, mineiro lá de São Paulo, com título ainda provisório. Acabo de ler o maravilhoso O Corvo e suas traduções, do Ivo Barroso.  Fiz uma entusiástica resenha da recente coletânea de poemas de Ruy Espinheira Filho, que saiu pela Global, etc, etc. Além do mais, meu modo de escrever exige muita pesquisa, e é no que dedico mais tempo, além da escrita propriamente dita.

DA – O mundo está mesmo dividido entre os que leem e os que não leem? Não acha que, nesse aspecto, subestimamos em demasia potencialidades humanas de apreensão da realidade?

W. J. SOLHA – Nunca dividi o mundo assim. Vivi oito anos no alto sertão paraibano, quatro dos quais como chefe da Carteira de Crédito Agrícola, quando tive a oportunidade de conhecer de perto matutos altamente “intiligentes”. Fiz, inclusive, uma comédia – Curicaca – a partir de vinte livros de José Cavalcanti, em que o grande personagem era, sempre, o cabra tremendamente esperto, como o João Grilo do Auto da Compadecida. Por outro lado, conheci muita gente culta, lá e em toda parte, que não criava absolutamente nada e era um eterno enrolado. Eu mesmo adoro deixar de lado minha face “intelectual”, de “escritor”, pra representar, quando me entrego completamente ao instinto. Jamais fiz escola de arte dramática e não lamento isso. Melhor ainda é que nunca fiz papel de nenhum “intelectual”, de “escritor”. Meu trabalho mais marcante no cinema, até agora, tinha sido o de um velho camponês embrutecido pela miséria – em A Canga, um curta de Marcus Vilar, baseado num trecho de minha novela homônima. Agora, aí está O Som ao Redor, o primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, bombando em Roterdã, Nova Iorque, São Francisco, já com presença em mais vinte e tantos festivais internacionais, incluindo o de Washington, Londres e Jerusalém, em que faço um velho ricaço afoito, em cujo apartamento não se vê nenhum livro. Acho ótimo sair de mim. Deixar, pelo menos temporariamente, de ser o que sou. Qual foi o livro que o Lula já leu, mesmo?

DA – Afinal, por que escrever?

W. J. SOLHA – Veja bem: trabalhei a maior parte de meu primeiro poema longo – Trigal com Corvos, lançado em 2004 – quando ainda era obrigado a meus expedientes no Banco do Brasil. Incluídas aí, também, várias retomadas, desistências ou trabalhos em outras áreas, o livro me tomou doze anos. Para o Marco do Mundo -aposentado – precisei de apenas quase quatro, incluídas aventuras no cinema e retoques finais em meus romances Relato de Prócula e Arkáditch. O que acontece, então, na fatura de um Trigal, na de um  Marco? Você produz uma leitura que consome por volta de uma hora de um bom leitor. Uma leitura que custou a seu autor anos de esforço, uma concentração enorme de  camadas e camadas e camadas de escrita. O resultado é que nunca me sinto à vontade quando alguém diz que quer me conhecer pessoalmente, porque nessa hora em que a pessoa estará comigo não terá absolutamente nada do que ela encontrou nesta ou naquela obra. Sou um sujeito sem carisma, sem nada de especial. E isso, evidentemente, vale também para a relação que tenho com meu livro pronto: reduzi a montanha de pedra bruta que foi esse eu-no-tempo, a um quilate ou dez de diamante ou de ouro. A enorme quantidade gestou uma minúscula qualidade que passa não só a me dar sentido à existência, como a me fornecer… respostas com a profundidade máxima, com a beleza máxima que me foi possível alcançar, a respeito de mim mesmo,  pois, como dizia o oráculo de Delfos, Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo.

 

* Quem se interessar pela leitura de Marco do Mundo, poderá receber gratuitamente, pelo correio, um exemplar do livro.  Basta entrar em contato com o autor, fornecendo nome e endereço, através do e-mail wjsolha@superig.com.br

Categorias
67ª Leva - 05/2012 Destaques Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética II

Desenho: Felipe Stefani

 

ONDA

Elizabeth Hazin

 

o desejo é como água:
flui
circunda
onda mais alta
(de cor profunda)

o desejo é como água
(de mar ?):
sempre distante do porto
e o que fazer do corpo
apenas invólucro
– breve,
finito –
e, portanto, sequioso
do próprio desejo
em que se afunda ?

sobre o cetim da pele
desliza a veste que escolho
ou nenhuma veste

o desejo é como água:
flui  reflui
escorre   inunda
o corpo
(quem bebe ?)

 

 

***

 

 

DESDE O FOGO

 

Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.

Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me  a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.

Não quero essa alma que me queima:
de  barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).

Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível  restar calada.

Desde o fogo
a tristeza nos consome.

 

(Elizabeth Hazin publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e a Editora 7Letras publicou o livro escrito a quatro mãos com Davino Sena: Lêgo & Davinovich. Em 2010, foi re-publicado pela Vieira & Lent o Arco-Íris, poemas para crianças. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)

 

 

 

Categorias
67ª Leva - 05/2012 Aperitivo da Palavra Destaques Outras Levas

Aperitivo da Palavra

UNIVERSO MENTAL POVOADO POR SERES MINÚSCULOS

Por Geraldo Lima

 

O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.

E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.

Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.

E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.

Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18).  Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.

 

(Geraldo Lima nasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites: O BULE, Dona Zica tá braba e Portal EntretextosColabora com o Jornal Opção, em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e a Revista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br) 

 

 

Categorias
67ª Leva - 05/2012 Destaques Olhares Outras Levas

Olhares

ASSIMETRIA, ESBOÇO E PROJEÇÃO: A ARTE DE FELIPE STEFANI

Por Hilton Valeriano

Desenho: Felipe Stefani

Pode a arte apreender o movimento primevo do nascer das coisas e dos seres, de seus gestos, acontecimentos, vivências? Antes do fato, os sonhos; antes do anseio, os projetos; sempre a possibilidade.  Os desenhos de Felipe Stefani, artista convicto em seu ofício, parecem demonstrar o fluxo premente da existência antes de sua realização nas dimensões da temporalidade. Uma obra marcada por traços assimétricos, onde início e fim confluem, onde o desfecho paradoxalmente inconcluso expressa formas vindouras, repletas da instabilidade característica do movimento, e que revelam um intento permanente de criação. Longe de uma mera abstração sintética, seus desenhos manifestam a forma, isenta de toda matéria, em seu prenúncio. Sua subjetividade de artista busca o instante nascedouro, o esboço humano de concretização, o que nos leva à questão da definição de um ser em sua essência.

Se as ações do homem não o definem como um ser estático, mas sim como um ser sempre projetado, o espaço aberto, espaço esse constitutivo da liberdade em suas múltiplas escolhas, ou seja, o futuro, evidencia o campo de possibilidades nunca definidas, nunca concretizadas, a continuidade da vida como fluxo de projetos a se realizarem como significação provisória.  Assim, podemos pensar os desenhos de Felipe Stefani nas suas dimensões estéticas em três planos analíticos: assimetria, esboço como forma inconclusa e espaço de projeção.

Desenho: Felipe Stefani

Assimetria

Tendo a ação humana como realização de seu intento a possibilidade ou não de concretização, transposta para o âmbito da arte como subjetividade criadora, seus traços, simbolicamente representados como projeções, só podem ter a assimetria como apreensão do movimento intencional característico do humano em sua manifestação.

Esboço como forma inconclusa

A possibilidade de concretização da ação humana revela o projeto como significação, como instaurador de sentido, mas sendo possibilidade, só pode manifestar o esboço em seu anseio de realização, ou seja, sua forma inconclusa porque não determinada.

Espaço de projeção

Apreender a ação humana em seu intento e simultaneamente mostrar toda a dimensão provisória de sua realização, toda a possibilidade ou não de concretização de seus anseios, revela a principal característica do homem: a liberdade. A liberdade como dimensão definidora do homem, como sua essência, só pode ser percebida nos desenhos de Felipe Stefani se prestarmos atenção na relação estrutural, semântica existente entre os seus desenhos e a folha branca, que se apresenta como espaço de projeção. Seus desenhos parecem nascer, brotar da folha branca como um sentido a clamar pelo homem.

A estética de Felipe Stefani ecoa as palavras do poeta Murilo Mendes: “O homem é um ser futuro. Um dia seremos visíveis.”

Desenho: Felipe Stefani

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)

Categorias
67ª Leva - 05/2012 Destaques Outras Levas

Janela Poética I

Desenho: Felipe Stefani

CÍRCULO DE SANGUE

Edson Bueno de Camargo

 

carrego a sede
de desertos
e a certeza perene
da repetição do verso
costurada
nos dentes

sou dos homens
que trazem
um círculo de sangue
na parte superior
da mão

e as palmas limpas
como areia de aluvião
das que repousam
o fundo das torrentes
depois de secas
as chuvas

 

 

***

 

LILITH

 

entre a escolha
entre a mulher virtuosa
e a que caminha sinuosa

embora cindido
eu prefiro a que tenha asas

que me beije como um anjo
e escolha a posição que quiser

 

 

(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho)