No ofício de travar o combate pelos terrenos culturais, quiçá o imprevisível seja o que de melhor possa acontecer. No caso específico da Diversos Afins, pensamos em tal perspectiva, sobretudo quando temos de fazer convergir signos oriundos de imagens e palavras. Nunca há uma fórmula exata para promover a harmonia entre estas duas linguagens. A ciranda das colaborações gira alheia a critérios herméticos de classificação das perspectivas, e o melhor de tudo é podermos aproveitar cada autor e artista num processo de “cumplicidade involuntária”. Tentar perceber o que criadores trazem em si enquanto elemento fomentador de diálogo com outras expressões é, certamente, o que mais perseguimos em termos de conjunto. E é só depois de entrever os horizontes vislumbrados pela obra de cada colaborador que é possível consolidar um desejável caminho de unidade na diversidade. Hoje, a 68ª Leva é regida pelos arremates delicados contidos nas fotografias de Juh Moraes. Através delas, um bailar de signos convida os textos para a composição de um cenário no qual viver é mais do que urgente. E assim, tomados por tal ânimo, vamos descortinando sabores pelos versos de Fabiana Turci, Aline Aimeé, Vitor Nascimento Sá, Viviane de Santana Pauloe Helena Figueiredo. Numa entrevista, o poeta José Inácio Vieira de Melo fala sobre seus sensíveis percursos literários. Os dedos de prosa da vida andam intensos nas linhas de Daniel Faria e Regina M. A. Machado. Depois de alguns anos de espera, a banda OQuadro lança seu primeiro disco, e os efeitos disso giram nas agulhas do nosso Gramofone. Com propriedade, o escritor Jorge de Souza Araújo enreda caminhos em torno do novo livro de Antonio Nahud Júnior. Noutro ponto, os poemas de “Sísifo desce a montanha”, a mais recente obra de Affonso Romano de Sant’Anna, são tema das densas observações de W. J. Solha. A percepção cada vez mais aguçada de Larissa Mendes nos conduz até a produção cinematográfica “O Futuro”. O ator e diretor Rafael Morais relata os desafios envolvidos na montagem de um espetáculo teatral, enaltecendo a arte do encontro com o público. Munidos pelos imperativos da diversidade, abrimos as veredas de uma nova edição. Seja bem-vindo, caro leitor!
acredito no ocaso das tempestades no copo d’água
depois das ondas presas no mínimo oceano
dos relâmpagos azuis nas bordas das palavras
da borrasca no reverso dos gestos
acredito no zéfiro alisando o esgar dos rochedos xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxno cimo do dia seguinte
***
quantas frações de instantes até o felino
abater o antílope e enfiar os dentes afiados
no pescoço macio e morno do pulsar exasperado
da fuga curta
a liberdade que era de um
passa a ser do outro que se satisfaz
com o andamento prescrito das coisas
com o manejo das mandíbulas
e o rosnar faminto da Natureza dualística
tanto cruel como generosa e sempre política
(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Participou, em fevereiro de 2012, do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua)
O Futuro (The Future). Alemanha/Estados Unidos. 2011.
“(…) – a espera é o que se faz dela”.
(J.P. Cuenca, A Última Madrugada)
“Quanto tempo será que demora um mês pra passar?”. O verso da banda carioca Biquini Cavadão parece ilustrar com precisão O Futuro, segundo longa-metragem da escritora, artista plástica, videomaker, atriz e cineasta norte-americana Miranda July. O quanto um momento de espera – seja ela qual for – e a relatividade do tempo são capazes de provocar sentimentos diversos, que beiram da impaciência à angústia? O quanto um hiato, ainda que “terceirizado”, pode desencadear a ruína de uma relação de amor? Seria a tal maldição do stand-by, a iminência do fim para a pausa do que quer que seja?
Sophie (Miranda July) e Jason (Hamish Linklater, de The New Adventures of Old Christine) estão juntos há 4 anos e dividem um pequeno apartamento em Los Angeles. Ela, professora de dança para crianças; ele, técnico de suporte em internet. Um dia eles encontram um gato de rua, que sofreu uma fratura na pata (não por acaso, o batizam de Patinha) e decidem adotá-lo. Entretanto, Patinha tem uma sobrevida de no máximo um semestre (porém, se bem cuidado poderá viver até 5 anos) e precisará ficar 1 mês no abrigo até que possa recuperar-se e ir para casa. Quando tais notícias são dadas pela veterinária, o casal entra em colapso por se dar conta da responsabilidade que estão assumindo e resolvem, assim, utilizar seus 30 dias restantes “de liberdade plena” para dar um sentido às suas vidas. Jason abandona os computadores e passa a vender árvores para a associação Tree by Tree, numa tentativa de salvar o planeta do aquecimento global, enquantoSophie sai da academia em que trabalha para produzir vídeos de dança bizarros que possam bombar no youtube.
Ainda que muito mais experimental que seu precursor, o gracioso Eu, Você e Todos Nós (2005),é possível observar certa conexão entre os filmes. Enquanto o primeiro aborda o colorido das relações e transita entre vários personagens, o elenco enxuto de O Futuro parece prever seu desbotar. Inclusive o diálogo final de Eu, Você e Todos Nós pode ser compreendido como uma espécie de pretexto para o argumento deste último:
– O que você está fazendo?
– Passando o tempo.
Surreal e provocador, O Futuro promete dividir paladares. Repleto de elementos performáticos e fantásticos, reflete toda a excentricidade artística de Miranda July, bem como a constante melancolia e descompasso de seus personagens perante o mundo. Como se não bastasse, Patinha, ele mesmo, o gato coxo (manipulado como um fantoche, o expectador vê apenas suas patas dianteiras) ser o narrador ocasional da história (com uma voz infantil cedida pela própria diretora), relatando impressões de sua vida e de seus donos, o personagem Jason “tem poderes” de parar o tempo e tecer uma longa conversa com a lua. A velada “crise dos 30”, a ansiedade demandada por uma espera, o papel da internet na sociedade moderna e a própria superficialidade do ser humano são questões que permeiam o filme, num misto criativo de estranheza, vazio e solidão. Tragados pelo presente – enquanto aguardamos o emprego ideal, o amor eterno ou mesmo o gato ficar curado –, vivemos em suspenso para um futuro que eventualmente nem existirá.
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)
Nada impede, responde a mãe, mas presta esclarecimento: o verde dos parques é para dar realce ao marrom. Marrom de quê? Marrom de onde? Do Tietê, de tudo. Cidade com pouco marrom não é cidade, é mata Atlântica; quer voltar aos tempos do descobrimento, poço de ignorância?
Zulmira Ribeiro Tavares, « Vinhetas com o Tio Paulista »
O telefone tocou na hora do almoço e ela atendeu na copa mesmo, foi por isso que todo o mundo entrou na conversa com a amiga francesa.
– Oi, Sandrine, que boa surpresa, você por aqui? … Quando é que vem me visitar?… Não vai ficar em São Paulo? Vai para onde?… Para o campo?!?
Os meninos começaram a rir e a caçoar.
– Pois é, você ouviu, né? O pessoal achou engraçado porque aqui ninguém diz isso. Existe a palavra, claro, mas não se usa nesse sentido. Usa o quê? Ééhhh….. acho que eu diria… para o interior?…
– Só se for para uma cidade do interior!
O papo continuou em francês e eles se desinteressaram. Quando ela desligou, um deles perguntou se a moça ia para alguma cidade.
– Não, ela não quer saber de cidade e na falta de coisa melhor, vai continuar dizendo campo mesmo.
– Campo fica com cara de tradução acadêmica.
– Como é que a gente pode dizer?
– Ela vai para alguma fazenda?
Também não era fazenda – ela tinha perguntado e a francesa disse que não estava interessada nem em plantação nem em criação de gado porque para ela isso era paisagem devastada. E o que ela mais queria era rio com mata preservada, muito passarinho, e para isso tinha que ter muita árvore, coisa que nunca tem bastante em fazenda.
– Isso também não, na fazenda do vovô tinha muito passarinho.
– É, sobretudo em gaiola…
– Menino, como você inventa! Você nem sequer conheceu a fazenda direito. Na beira do rio havia uma mata enorme, tinha até lobo-guará quando eu era pequena.
– Passarinho, então, era mato…
– Ô menino metido! Havia muito sanhaço nas mangueiras, e no pomar o tio Ademar caçava passarinho, lembra? Eu morria de pena quando via os coitadinhos, tão pequenininhos, sangrando no chão. E ninguém dizia nada, acho que era normal… nunca entendi muito bem.
– Pois eu achava bonito, ele tão elegante, com botas e roupa cáqui, de bigode e aquela espingarda reluzente…
– Caraca! As armas e os barões ornamentados com um peito varonil! Acho que prefiro os desejos bucólicos da amiga da titia… e então, qual é o programa dela?
– Bom, ela vai passear na floresta e vai se hospedar num hotel ecológico. O dono do hotel guia os hóspedes para ver, ouvir, fotografar os pássaros, descobrir plantas, essas coisas…
Além dos filhos, havia também os sobrinhos que estudavam perto e vinham almoçar na casa dela. Ela gostava de receber a família, sobretudo os mais jovens, de ouvir as histórias e dar risada com as conversas deles. A irmã também vinha às vezes, talvez para não esquecer dos almoços de domingo na casa da mãe, só que para os sobrinhos não adiantava marcar dia – eles passavam quando estavam pelo bairro ou então não vinham. Não dava mais para fazer como antes, a cidade era outra, muito maior.
– Daqui a pouco você vai dizer que ela vai passear no bosque enquanto seu lobo não vem…
– Pois é, eu também estava pensando nisso e não achei a palavra que queria. Floresta para mim lembra contos de Grimm, coisas traduzidas que a gente lia quando era criança. Ou então uma ideia-problema, como “floresta amazônica”, que fica tão longe que não é bem real.
– Para mim, bosque é que é uma palavra literária, desencarnada. Floresta é normal, aliás tem uma bem mais perto, a floresta da Tijuca…
– Mas essa é reconstituída. Depois que pelaram a montanha para plantar café, apareceu um inglês maluco que replantou tudo. Até o José de Alencar fala nisso…
– Então como é que fica? E se a gente disser que ela vai pro mato?
– Mato pra mim ficou como lugar de escravo fugido, vai bem com capitão do mato, esconderijo de bandido, não combina com a europeia em busca de natureza-pureza.
– Ninguém ainda falou em mata! Tem a mata Atlântica, as matas ciliares… e nisso se fala muito.
– Mas será que dá para dizer que alguém vai para a mata? Nunca ouvi isso.
– Achei! A gente podia dizer que ela vai para a roça!
– Combina menos ainda…
– Roça eu gosto, vai bem com caipira, biju, café com duas mãos, cambucu…
Sempre havia um ou outro dos mais velhos para ensinar alguma coisa aos seus adolescentes preguiçosos e ela bem que gostava. Se ousasse corrigir o que os filhos diziam, ou tentar trazer alguma informação nova, era revolta ou caçoada na certa. Vindo dos primos mais velhos, tudo passava macio, e, mesmo se houvesse discussão, era evidente que eles ouviam.
– Vocês sabiam que ele comprou um dicionário de caipirês?!
– Fui buscar socorro, figura! Meti a cara num mundo soterrado, nas nossas catacumbas, no nosso tesouro de piratas. Eu sou um universitário pasteurizado, só leio teoria traduzida e falo uma língua de merda, mas para ser um caniço pensante eu tenho que ter raiz. Paixão de raiz, sacomé?
– Tempo perdido, ô cientista! Essa menina não tem nem ideia do que você está querendo dizer. Ela agora quando fala parece que anda decifrando língua estrangeira, com essa mania de pronunciar tudo que está escrito. É besta mesmo!
Os outros aproveitaram para massacrar:
– Não é besta, pobrezinha. O problema é o tamanho da ignorância que é imenso, global…
– Ah-ha, ontem ouvi ela dizer que, de noite, ia estar assistindo todas as novelas…
– Quem não concorda com vocês é sempre uma besta, isso a gente já sabe. Mas com dicionário e tudo, ainda não vi o grande pesquisador dizer “nóis vai”…
– É, isso não dá. Mas para mim é uma outra maneira de falar, que não é a da minha tribo. Será que é errado? Não sei. Mas também não sei viver em floresta e moro em prédio. Verdade que tem gente que acha que essa é a única maneira civilizada de morar… E o pior é que cada vez mais gente mora assim. Assim como eu, aliás, mas nem por isso acho que é uma boa.
– É uma boa morte, isso sim… E se a gente não achou um jeito de falar do que a amiga da titia está procurando é porque floresta para nós é para ser derrubada, mata em beira de rio é desperdício, né? Pra quê, deixa só uma fitinha… não tem lugar na língua porque não tem lugar na terra.
– Caipira também é um nada, todo o mundo agora faz como a telespectadora ali, só acredita nessa linguagem desenraizada, sem nenhum caráter…
– A dela é uma espécie de melting pot raso, de feiticeira fashion victim…
– E eis que o inglês invade a linguagem da nossa kamikaze fundamentalista!…
Às vezes, esquentava. Havia os de esquerda, os da direita e os que planavam, depois vieram os apaixonados por ecologia e, por último, o sobrinho estudante de antropologia. Esse só falava em culturas ameaçadas, civilizações desaparecidas, e os outros só com a natureza; parecia um concurso para ver quem ia desaparecer primeiro, se eram as florestas e os bichos ou as danças e os sotaques… O único que gostava da tecnologia quanto-mais-melhor, era o filho do meio, bom de matemática, esperto e caladão, mas pegava na hora qualquer cochilo dos mais idealistas.
– E você aí, ô peregrino de bastão e pé no chão, esqueceu que descobriu tudo isso por causa da internet? E se quiser ir adiante nas pesquisas, vai ter que ler muita publicação em inglês…
– Cada um tem a internet que merece… e fala o inglês que pode.
– Tá bom, mas tá chato! Vamos voltar para o passeio da francesa, pelo menos estava engraçado.
– Por mim, ela pode ir cagar no mato.
– Pronto, engrossou. E eu daqui a pouco vou ter que ir. Tem café, tia?
– Tem, é claro! Já se viu faltar café nesta casa?
– … nesta herança direta dos latifundiários barões do império!…
– Mais respeito, menina, os nossos bisavós nunca foram barões, eram fazendeiros, sim, e sempre cuidaram da terra.
– Ora, mamãe, com a mão do gato, né? Que eu saiba eles nunca moraram na fazenda, trocaram os escravos pelos colonos e fizeram casarão na Paulista.
– Vocês dois, fiquem sabendo que a nossa família nunca nem chegou perto dessa fortuna que estão imaginando. E morou na fazenda sim, não trabalhava no eito, mas estava lá o tempo todo. Quem veio para a cidade, para um bairro bem mais modesto e sem casarão nem mansão, foram meus pais. E vieram para os filhos poderem estudar, seus ingratos!
– Quem pediu? Eu sonho é com uma casa de madeira, com rede na varanda, lampião de querosene e um céu com todas as constelações se atropelando de brilho…
– Ô cara, isso é sonho de citadino! Se você nunca tivesse saído de lá, ia sonhar é com a divina agitação desta megalópole.
– Coitado, nunca acampou, nunca saiu do asfalto, nunca transou debaixo da tenda…
– Coitado é filho de rato que nasce pelado no meio do mato!, gritou o primeiro, mas foi cortado por uma e logo duas vozes cantando em coro.
– “Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”…
– Assim não dá, todo o mundo berrando e cantando ao mesmo tempo vira bagunça.
– Voltemos à amiga, que é assunto neutro.
– Foi pro mato. Cadê o mato? O fogo queimou. Cadê o fogo? A água apagou…
– Cala a boca, papagaio de pirata!
– Não fale assim com seu primo! Quer sair da mesa?
– Mas ele não para de dizer besteira, ora!
– Besteira na sua boca é mato – cada coisa em seu lugar…
– Bom, tá na hora, vou puxar. Pena que vou sem saber para que raio de lugar vai a francesa. Depois você pergunta para ela?
– Não adianta, filho, ela vai me responder com um termo de lá das terras dela, que ela vai traduzir como puder. Vocês que gostam de andar no mato é que devem saber… eu não ia nem no capinzal, para não sujar a roupa nem o sapatinho de verniz, então não dá para saber o nome de coisas que nunca fiz.
– Eu também vou indo. Mas não fique triste, minha tia, a gente gosta de você assim mesmo, bem sinhazinha de sala e de piano. E até a próxima tertúlia, bandalhos.
(Regina M. A. Machado mora no exterior há muitos anos e, para ela, o Brasil visto de longe começou a mostrar tantas e tão várias cores, sons, gentes e falares, que ela não teve outro jeito senão tentar entender para se entender)
Hoje, que nada nos chama,
as horas xpendem vagarosas no espelho, xe o corpo xespanta-se,
nos fatos desabotoados,
na curvatura das costas,
naquela ruga que apareceu num dia mau.
Crescemos numa aparência sem nexo,
e atordoados, xprocuramos as flores,
a confusão das cadeiras,
os brinquedos que viviam no corredor.
Precisa de óleo a dobradiça do armário,
e os joelhos, xgritam a idade
esquecida de virar no calendário.
***
FLASH
Escrevo nas pedras um postulado redentor.
Indiferentes,
as árvores
pintam as folhas de um sabor vermelho,
os pássaros
equilibram seus ninhos no vento,
e é tão clara a sapiência deste chão,
que me apetece rasgar as utopias,
e seguir paralelo ao fervor dos insetos.
(Helena Figueiredo nasceu e reside em Carregal do Sal, distrito de Viseu, Portugal. É licenciada em Educação de Infância. Editou textos e poemas no site-revista TRIPLOV, da escritora Maria Estela Guedes. Até agora não se encontra editada em livro. Contato: helena_lopes_m@hotmail.com)
Zaratustra – aos trinta anos – desce a montanha pra levar sua mensagem à humanidade, que está lá embaixo. Sísifo, aos setenta e tantos, cansado de tanto sacrifício por nada, faz o mesmo, mas pra se despedir. Pois nós – seus leitores ou não – fomos contados, medidos e pesados por ele… com resultado bastante negativo:
A mim me tocou viver numa época em que miúdos seres rastejam sem visão no pó do instante
(DEPOIS DE TER VISTO)
Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
(RITUAL DOMÉSTICO)
Onde estão esses que ao nosso lado parecem tão passivos com o ar silencioso e corrosivo?
Onde estão?
Estão apenas vivendo morrendo como sub ser vivos.
(ONDE ESTÃO?)
Banqueteiam suas fezes em alarido como se ouro fossem e dançando à borda do abismo se rejubilam – com a vertigem.
(DEPOIS DE TER VISTO)
E isto – em ESCLEROSE E\OU MALEVITCH – é terrível:
Depois de aprisionar figuras nas molduras de seus quadros chegou ao ápice da arte – e do espanto: Emoldurou – o branco sobre o branco.
Sísifo, ante tal pedra no meio do caminho, dá um basta. Affonso Romano de Sant´Anna, que além de grande poeta é um contumaz viajante, dá com ela encalhada no Egito:
Vê, inacabado porque fraturado, o que seria o maior obelisco da terra em que tudo era gigantesco: sua concreta pedra de Sísifo\Drummond. E escreve um dos melhores poemas de seu novo livro, com uma forte compulsão de se servir de um recurso… concretista:
Esse obelisco inacabado fora de Assuam esse obelisco o maior de todos com a quarta face não cortada da pedra no chão esse obelisco sem inscrição alguma a não ser as rachadu ras do terremoto que o partiu esse ob elisco abandonado ontem ho je visitado por multidões atônitas esse obelisco inerte tem algo huma no perturbador em torno dele assim morto e torto estirado como se fo sse um osso ou algo nosso inse pulto em torno dele circulamos o lhando o chão como se algo e m nós também tivesse se par tido sem alcançar a perfeição
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
Embora a tradição diga e Vinicius sustente que “poeta só é grande se sofrer” e o tema da proximidade da morte seja um achado – no Sísifo desce a montanha – do porte do corvo repetindo o nome da finada Lenora pro amante desconsolado – em Poe -, é claro que (para mim, pelo menos, que o considero nosso maior poeta vivo – e também, talvez, morto) não existe motivo real pro desconsolo. Pelo contrário: Affonso deixa o nome na História de nossa literatura, e – enquanto vai pra Cartago e Assuam, Chicago mais Teerã – nos intervalos descansa carregando pedra:
Sinto que o incomoda o fato de sua poesia, em certa fase, ter tomado partido por causas arriscadas, por conta dos sub ser vivos. Ele diz, em PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA:
Dei de mão comendas e insígnias não tenho mais que na praça erguer protestos e distribuir esmolas não é mais a minha sina. Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada e me liberto – na Cidade Proibida na China. (…)
Impossível ficar no tempo que me coube o tempo todo Preciso repousar num campo de tulipas reaprendendo a ver o que era o mundo antes de como um Sísifo moderno desesperado julgar – que o tinha que carregar.
A epígrafe de seu livro, a propósito, vem de Clarice Lispector:
A gradual deseroização de si mesmo \ é o verdadeiro trabalho que se elabora \ sob o aparente trabalho.
Deseroização.
Seria isto?:
Olho e acaricio meu cão. e apagando a luz da sala, tranco as portas exilando o medo.
(AQUELAS QUESTÕES)
É estranho ouvir sobre tal busca de autodesmistificação em Affonso, que me foi apresentado por Sérgio de Castro Pinto há séculos, e que me lembrou, na época – pelo gigantesco A Catedral de Colônia, que tentei emular com meu Marco do Mundo, e pelo bravo QUE PAÍS É ESTE?, sendo ele próprio de ombros largos e grande charme – a mais marcante figura épica de minha adolescência:
Mas o tema é A Morte.
Sou apenas um pouco mais “novo” que ele. Affonso é de 37; eu, de 41. Tenho, portanto, sentido a aproximação dela, também. E, como sempre me pareceu caber à poesia tirar as palavras de nossa boca, os melhores momentos do Sísifo desce a montanha são – para mim – aqueles em que o poeta aborda – heroicamente, apesar da inspetora Lispector – o tão temido tema. PREPARANDO A CREMAÇÃO, por exemplo, é antológico. Pela simplicidade veraz ou feroz com que Affonso revela ter feito o que ainda não me decidi a fazer, embora seja um ato inevitável:
Levanto-me. Vou ao cartório autorizar minha cremação. Autorizar que transformem minhas vísceras, sonhos e sangue em ficção.
O que pode haver de mais radical? Assinar este papel tão simples tão fatal. Autorizar a solução final de todos os poemas.
“Solução final”. Veja a sutileza com que ele nos remete à Solução Final da Questão Judaica,como foram considerados os terríveis crematórios nazistas nos campos de concentração.Mais sutil ainda é o fato de que ele não lamenta ter o corpo em chamas e reduzido a cinzas, mas “todos os poemas” desintegrados com ele.
Confirmando a imagem que sempre tive a seu respeito, o poeta tem amor intenso pela vida. Daí que é comovente vê-lo dizer mais adiante:
Há muito venho me preparando me despedindo do sorriso da mulher, das filhas da rua onde diariamente passo me despedindo dos livros vizinhos e paisagens.
Claro: em RITUAL DOMÉSTICO ele nos fala do aconchego do seu lar, com toques de extrema delicadeza.
Toda noite acendo algumas velas na sala enquanto minha mulher prepara o jantar. somos nós dois e essa cachorrinha meiga com seu estoque inesgotável de afeto.
Essa cachorrinha meiga é presença recorrente no livro. Algo como a cadela Baleia de Vidas Secas ou o cão interpretado por Servílio de Holanda no espetáculo Vau do Sarapalha. Num desses instantes, Affonso se excede. Talvez haja me comovido mais porque tive, durante anos, uma pequinês chamada Lady, como a de Disney, e vi em casa cenas como essa, fantasticamente flagrada em LEVARAM OS SEIS FILHOTES. Não à toa os olhos de minha mulher marejaram quando li para ela:
Levaram os seis filhotes dessa cachorrinha que chora geme de desespero procura suas crias pelos cantos da casa sob a mesa no jardim na lareira e pede socorro com seus olhos exigindo explicação.
“E pede socorro com seus olhos exigindo explicação”!
É com detalhes assim que Affonso ressalta o apego à vida que sente estar por perder. Ainda em PREPARANDO A CREMAÇÃO, diz:
Olho cada parte de meu corpo que vai se desintegrar: mexo os dedos, vejo as veias e no espelho esse olhar que nada mais verá.
Já me vi fazendo o mesmo inúmeras vezes e me pareceu bem rever isso em versos.
Mas de repente, em COMPREENSÃO – num surto de otimismo – ele conclui que não há morte, tudo é recomeço. Daí que – tal qual num sonho – implicitamente evoca para si – ao optar pela cremação – um fim igual ao do profeta Elias… com o que tudo se transfigura:
Espero que um carro de fogo me arrebate numa tarde dessas e sem estremecimento me dissolva de vez na eternidade.
Mas enigmas o cercam de todo lado e o angustia saber que a Esfinge vai devorá-lo sem que eles os decifre. No INDEPENDEM DE MIM diz:
Meus rins, meu pulmão, meu fígado (e o coração) não carecem que lhes ordene o que fazer. Na verdade me antecederam. me hospedaram apenas. E se rebelam se os forço a me obedecer. são autônomos mais que autômatos. Eu é que sou essa estranha coisa pensando movê-los. (…)
E aqui termino, anotando o que ele diz a respeito, NO LABIRINTO:
Habito o mistério que me habita
O que me remete a uma frase do Ulisses que vivo me repetindo:
– Falar do mistério no seio do próprio mistério: isso é arte.
É, na verdade, arte.
(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)
Há coisas que maturam no tempo de modo inexplicável. E eis que qualquer ânsia ou desejo imediato de realização poderiam até distorcer um sentido mais puro do que se pretendia transmitir num impulso primeiro. Mas o senhor dos instantes é destemido, ignora barreiras aparentemente intransponíveis e aposta firme na resistência dos bravos e coerentes consigo mesmos.
Quem conhece a história de pessoas como os integrantes da banda OQuadro entende perfeitamente o significado do primeiro parágrafo desse texto. Depois de alguns bons anos de estrada musical, a trupe originária das paisagens litorâneas da baiana Ilhéus reúne num só feito parte valiosa de seus ímpetos criativos. O disco de estreia premia de modo intenso a paciência e a expectativa de se materializar uma obra sonoramente bem arquitetada.
Do início ao fim, as expressões de Rans, Jef, Freeza, Ricô, Victor Santana, Rodrigo Dalua e Jahgga harmonizam-se em torno de um verdadeiro mosaico sonoro. E o motor principal das razões por aqui está no vigor do discurso. A capacidade de verbalizar do rap, gênero predominante no estilo da banda, dá lugar a uma perspectiva diferenciada de representação. Basta ouvir cada uma das faixas com esmerada atenção para perceber que estamos bem longe de qualquer proposta demagógica ou panfletária. Pelo contrário, a verve ideológica que pulsa no trabalho nos toma de assalto pela certeira capacidade de encadear visões de mundo e, com isso, causar efeitos necessários de provocação.
Por todos os cantos do disco, tudo está devidamente em seus lugares. Desde a precisa escolha do repertório, passando pelos arranjos e elementos vocais, é possível perceber que o equilíbrio é ponto forte do álbum. Se o grande desafio de nossa contemporânea idade é o de apostar na originalidade, OQuadro o faz com maturidade e personalidade, sem dar margem a desvios e excessos, tudo apoiado em influências que derivam de elementos como Hip-Hop, Jazz, Reggae, Rock, Samba e Afrobeat. Ao nos depararmos com a primorosa arte da capa, cartão de visitas inalienável do grupo, a matriz africana, com seus elementos rítmicos e discursivos devidamente encaixados, já é capaz de prenunciar o traço essencial da obra.
Sob a batuta do produtor Buguinha Dub, que traz no currículo gente do quilate da Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Racionais MC’S, Mestre Ambrósio, dentre outros, o disco ainda conta com o auxílio luxuoso de Guilherme Arantes, da rapper Lurdez Da Luz e do Mc Dimak.
Marcado por um tom inteiramente autoral, é difícil eleger destaques no cd. No entanto, não há como ignorar a força que brota de canções como Evolui (Bem Aventurados), Seja Bem Vindo Ao Meu Lar e Valor de X² (Parte 2). A incisiva letra de Tá Amarrado é ponto alto do disco, trazendo à tona toda uma sorte de referências advindas dos signos afro-brasileiros, tudo com uma provocação construída de forma bem inteligente e aguçada. Noutro ponto, chama atenção a belíssima composição e interpretação de Fogos de Artifício para o Precipício À Vista, canção que de modo poético evoca uma prece à esperança no porvir. Como se não bastasse, a qualidade aponta também em cheio para os arremates instrumentais de Sapoca Uma de Cem e O Soco.
Em meio à Babel de nossos tempos, sempre cai bem uma boa dose de lucidez em frente ao espelho de nós mesmos. O que perceberemos do outro lado? Quiçá a coragem das reflexões possa lançar algumas pistas. Enquanto isso, é bom que, exercitando a compreensão das complexidades humanas, permitamo-nos ouvir o que de mais genuíno o outro possa nos ofertar. Evoé, OQuadro!
* O disco está disponível para download gratuito aqui.
Hoje, dia de feras, xxxxxProcusto me arrasta à sua senda, xxxxxestrada de aparar arestas.
Hoje, dia de feras,
sou devorado pelo xxxxxxxxxxxxxcéu xxxxx– Urano e seus velhos vícios – xxxxxxxxxxem suas artes de imitar o pai xxxxxxxxxxem suas artes de imitar o tempo.
Hoje é dia de feras. xxxxxE eu, vítima de Minos.
E o fio?
Em algum ponto se perdeu entre feras
Em algum ponto se desfez xxxxxE como não ser eu agora xxxxxa carne de alimentar os deuses xxxxxdragões famintos, febres?
Eu e minhas pernas podres,
eu e o meu pouco fôlego,
eu e minhas doenças,
únicas verdadeiras propriedades.
Sangue e terra:
na olaria da morte,
o barro inconcreto do nada.
Diante do abismo,
o fim diagramado dos mapas
sobre a mesa de generais aquartelados:
cada centímetro noturno
arrastado em mil fios,
entesados e enrodilhados,
dentro da trincheira imersa
no fosso da alma do soldado.
Sangue e terra:
barro nos pares de coturno,
morte dificultando a marcha
com todos os medos sufocados
na garganta do inimigo degolado.
(Natural de Maracás, Bahia, Vitor Nascimento Sá é gestor escolar, revisor e professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, licenciado em Letras pela UESB em Jequié e mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. É diretor e cofundador da Associação Grupo Concriz: Poetas, Recitadores e Afins. Tem textos publicados nas revistas Verbo21 (BA), Blecaute (PB), Correio das Artes (PB), Cronópios (SP) e Laboratório de Poéticas (SP). Participa da antologia Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (2011). Os poemas acima fazem parte do seu primeiro livro, intitulado Escapulário (no prelo)
O teatro é o campo por excelência das ambiguidades e paradoxos. É o terreno das incertezas, das efemeridades, das transformações e mudanças, por vezes, instantâneas. As coisas no âmbito teatral mudam da noite para o dia, de uma apresentação à outra, e até de uma cena a outra numa mesma noite. O que já se havia conquistado pode perder-se inexplicavelmente, do mesmo modo que há descobertas inesperadas, momentos de inspiração que trazem ganhos maravilhosos à encenação. E isto não depende apenas da equipe de criação do espetáculo, mas também de estarmos sujeitos ao encontro com o público e a todas as situações emergentes que esta arte implica.
Fazer teatro é participar de um jogo único, indescritível, propiciador de imenso prazer e entusiasmo. Mas, muitas vezes, requer grande esforço, persistência e fé. Não são novidade para ninguém as dificuldades que os artistas enfrentam para viver do seu ofício, montar um espetáculo e mantê-lo em cartaz. No cenário baiano, diversos relatos de artistas levam-me a pensar que somente muito amor e dedicação motivam–nos a permanecermos firmes na arte teatral.
A arte teatral é uma atividade complexa, nada tem de simplória. O teatro é uma obra composta por diversos elementos que associados constituem uma ideia de unidade. Cada artista faz a sua parte e todos acabam por contribuir para um resultado artístico coletivo. O ator, o texto, os cenários, os figurinos, a luz, a música, a maquiagem, os adereços, a produção e o encenador como criador/administrador, destes e outros elementos da cena, envolvem-se numa empreitada comum de preparar uma apresentação aberta à presença do público.
Este percurso, da concepção cênica à montagem teatral, da criação de um produto pré-acabado, que será levado ao encontro com o público, é um processo muito rico de possibilidades. Iniciar um novo ciclo criativo teatral é como lançar-se ao mar numa nova viagem. A gente se prepara, planeja, organiza, mas, uma vez começada a aventura, tudo poderá acontecer. E muitas decisões deverão ser tomadas “em alto mar”. Poderíamos dividir este processo de criação de um espetáculo em, no mínimo, duas grandes etapas: a fase de ensaios, preparação e elaboração de todos os elementos cênicos que integrarão o espetáculo; e a temporada de apresentações. Por vezes, a primeira fase é demasiadamente longa e a segunda demasiadamente curta. Noutras, a primeira é curtíssima e a segunda consegue sustentar-se em extensas temporadas de sucesso. Há quem julgue frustrante, principalmente alguns atores, ensaiar por meses a fio e permanecer apenas alguns dias em cartaz, o que poderá ser ainda mais desalentador caso sejam dias de plateia quase vazia.
É evidente a necessidade e importância da presença do público para o acontecimento artístico teatral. O teatro só acontece com este encontro. Calderon de La Barca afirma que “para se fazer teatro basta um tablado e uma paixão”. E realmente o ato teatral pode ser resumido a esta simplicidade, claro que além do espaço da cena, também existe ator e público. Talvez, justamente por isso que a arte teatral não tenha sucumbido às novas tecnologias. É como se esta experiência estivesse cravada na alma humana, a experiência do jogo de interação com um fingidor, um ator, que assim como revelou Pessoa sobre o poeta, “chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”.
Uma das coisas que mais angustia os artistas com relação a sua obra é como ela será recebida pelo público. Em alguns casos, o que pensaríamos ser um sucesso não causa nenhum deslumbramento no público. Outras vezes algo desprezado por nós na feitura do espetáculo encanta a plateia. E ainda há diferentes plateias a serem contempladas: a plateia dos críticos, dos amigos, dos colegas de profissão. As plateias cheias e as vazias. As de pagantes e as de não pagantes.
Acredito que o tema suscite muitas discussões sobre o que implica “considerar a presença do público”. Numa primeira leitura, talvez nos perguntemos se isso significaria fazer espetáculos que agradem ao público. Será que o público hoje quer assistir apenas espetáculos cômicos? Ou a questão seria fazer espetáculos chamados “comercias” ou, talvez, produções com artistas famosos, como, por exemplo, “atores globais” que atraem público e mídia? A diversidade existente de público também me leva a pensar na dificuldade de existência de espetáculos que sejam unânimes em agradar a audiência. Existem, sim, espetáculos propícios a agradar um grande número de pessoas e grupos específicos. Assim como cada público tem fome de algum tipo de espetáculo, o artista ou grupo tem a sua fome de encontro com públicos específicos. Um amigo encenador teatral, ao ser perguntado sobre que tipo de público ele preferia, simplesmente respondeu: “A casa lotada!”.
Há atores que adoram uma plateia “quente”, vibrante, participativa; e, quando encontra este público o artista diz: “hoje o público estava ótimo!”. Já para outros, que preferem um público atento e silencioso, ao encontrarem com um animado, afirmam que este público é horroroso. E ainda existem aqueles atores que, por exemplo, caso uma ou mais pessoas da plateia estejam rindo de forma inesperada em determinada cena, param o espetáculo para passar sermão no público, com o pretexto de o estarem educando. Como se houvesse uma receita para o público comportar-se nesta ou naquela cena. Às vezes, numa situação dramática em que se espera um tipo de reação da plateia, ela responde, inusitadamente, de maneira oposta ao planejado pelos atores.
Muitos artistas, preocupados em desvendar o enigma do potencial de simpatia e aceitação que o espetáculo irá proporcionar, incluem a participação do público desde o início do processo criativo. São os chamados ensaios abertos, onde os espectadores têm a oportunidade de assistir e, algumas vezes, até opinar sobre o espetáculo em seu processo de construção. Nestes ensaios, o público pode participar de determinados momentos e aspectos da confecção da obra de arte, interagir e ter um olhar diferenciado sobre o “produto” que irá consumir.
Os ensaios abertos à participação do público são também um excelente momento de preparação para o jogo de cena, visto que os atores, ao ensaiarem um espetáculo, apenas simulam a presença do público e têm o olhar e opinião somente da equipe que participa do processo de montagem da encenação. É como se, nesta primeira etapa, faltasse a outra peça fundamental do jogo. O público pode contribuir muito para a feitura e amadurecimento do espetáculo, e, geralmente, quando é convidado a assistir um trabalho ainda inacabado, em fase de construção, tende a ser muito generoso. Como sabem que ainda não está pronto, ajudam com o seu olhar de fora, avaliam e opinam. Sem contar que as suas reações e interações no momento em que o elenco atua, por si só, já são um termômetro para a equipe de criação do espetáculo.
O fato é que cada encontro é único. Seja de que tipo de teatro for. Este ano, na temporada de uma de nossas montagens no Teatro Griô, do espetáculo de teatro de rua “Brincando com a Morte”, apresentado em dez diferentes bairros de Salvador, tivemos, mais uma vez, a experiência de levar o teatro aonde ele geralmente não chega, de levar um espetáculo teatral a pessoas que talvez nunca tenham assistido anteriormente a nenhuma obra de teatro. Foi apresentado o mesmo espetáculo nas dez localidades visitadas, gratuitamente, graças aos recursos financeiros advindos do Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua, com o qual o nosso grupo foi contemplado. Em cada localidade, uma nova experiência coletiva, impactante e indescritível. O público era sempre heterogêneo, composto de pessoas de todas as idades e até de diferentes classes sociais, mas, quando começava o espetáculo, todos faziam parte de uma mesma vivência, as estratégias da encenação e o desempenho dos atores conseguiam dar unidade ao público. E, também, cada um ali mantinha a sua individualidade, participava do seu jeito, com o seu repertório próprio.
Foto: Jô Stella
O espetáculo “Brincando com a Morte” leva à praça pública a peleja de astutos mortais contra figuras alegóricas, como a morte e o diabo, sempre buscando alongar um pouco mais a vida. Uma verdadeira celebração inspirada nos folguedos populares do Recôncavo da Bahia, como o samba de roda, as caretas, os bonecões, a arte dos repentistas, dos pregões, das cantigas populares e outras expressões do povo, aliadas ao encantamento e magia do Teatro de Rua. O grupo recorre a recursos e técnicas diversas como perna-de-pau, máscaras, palhaço, canto, dança, improvisação teatral e técnica de contador de histórias. A encenação, dirigida por Tânia Soares, mescla momentos de encantamento, suspense, humor e beleza, num diálogo intenso e de contato direto com o público.
O Texto foi criado com inspiração em contos populares e literatura de cordel, apresentando, a um público de todas as idades, as aventuras de Zé Malandro na sua peleja contra a morte e o diabo. A trama é composta de três cenas principais, entremeadas por música, narração e interação com o público. Os atores se revezam entre narradores e personagens para contar a história de Como Zé Malandro Enganou a Morte; noutra cena, Madrinha Morte, um homem consegue ter a morte como comadre e, na cena lírica Jardim das Sempre Vivas, dois velhinhos se despedem da vida juntos e apaixonados.
O cenário, máscaras e adereços, de autoria de Maurício Pedrosa, também contam com diferentes elementos inspirados em folguedos populares característicos do Recôncavo baiano, a partir de pesquisa dos festejos diversos como reisados, caretas, nego fugido, dentre outros. Os figurinos, de Tânia Soares, realçam a dualidade entre a vida e a morte e contribuem com a criação de atmosferas contrastantes entre os tons sombrios em diversas facetas da personagem Morte e a alegria das cores vivas dos figurinos inspirados nos festejos populares que reúnem simplicidade e beleza. A direção musical é do renomado músico e compositor Amadeu Alves, que criou uma trilha original para o espetáculo, passeando por diversas atmosferas, sendo ora incidental, marcando a presença dos personagens e das imagens de cada cena, e, noutros momentos, cantada pelos atores com abertura para participação do público.
Foto: Jô Stella
Claro que este encontro da obra de diversos artistas e seus muitos elementos cênicos com o público da rua só foi possível por conta do patrocínio do Governo Federal conquistado pelo grupo, pois são inúmeros os custos para a realização de um espetáculo desta natureza. E, no grupo Teatro Griô, já realizamos bastante e ainda temos muita vontade de realizar, cada vez mais, Teatro de Rua. Neste ponto, temos mais uma situação paradoxal. O estado da Bahia possui intensa cultura de rua; as pessoas transformam os espaços públicos numa grande celebração da vida. A alegria se esparrama pelas cidades nas festas de largo, nas lavagens, no carnaval, nas micaretas, reisados. Os baianos gostam de conviver nas ruas e praças e param para assistir as apresentações que os artistas oferecem nos espaços disponíveis. Porém, apesar da inegável vocação do estado para o teatro de rua, a realização de espetáculos desse tipo ainda é muito pequena. O fomento a essa forma de arte é imprescindível, pois permite a realização da obra de artistas dedicados, a valorização da cultura local e o acesso gratuito do público aos espetáculos.
Matutar sobre este encontro entre atores e público faz-nos refletir sobre o propósito da arte que produzimos e para quem estamos produzindo. Atualmente, a sobrevivência de um espetáculo teatral está diretamente ligada à apreciação do público que irá definir a sua permanência ou não em cena, seja nos espaços privados, onde existem muitos gastos, seja no espaço da rua, onde os custos não são menores, e há um preço muito alto para os artistas. Daí, a necessidade de se pensar os espaços, a presença do público e o fazer teatral que estamos compartilhando para enriquecer a nossa arte e a capacidade do teatro de permanecer vivo.
(Rafael Morais é ator, diretor e professor de Teatro. Mestre em Artes Cênicas – UFBA, é também Coordenador Artístico do Teatro Griô. Dirige os grupos artísticos residentes do Teatro Griô: “Akpalôs – Fazedores de histórias” e “Cia de Teatro Baobá”. Contato: rafael@teatrogrio.com.br)
Navegar é preciso, viver não é preciso, apregoavam sabiamente os versos de Fernando Pessoa. E pedindo a devida licença ao poeta lusitano, eis que nos é possível manipular a frase para indicar algo que parece ser imperativo em nossa contemporânea idade: realizar é preciso. No entanto, é mister de qualquer autor que se preze a perspectiva da ação acompanhada por critérios que signifiquem um compromisso consistente com a qualidade. Indo mais além, é possível um subverter do arremate “viver não é preciso”, transformando-o numa apreensão ampla do existir, fazendo com que cada palavra expelida em texto seja a necessária afirmação do sopro vital. Qual motivo perene de se estar no mundo, o exercício da criação mostra-se assim, envolto na percepção de que o todo circundante, com toda a sua sorte de abstrações possíveis, é instrumento inalienável nas mãos de um escritor.
Fazendo uso apurado de recursos que derivam de um olhar sensível da existência, o poeta José Inácio Vieira de Melo reúne muitos dos atributos relatados até aqui. Alagoano de nascimento, o autor elegeu a Bahia como morada e muito de sua obra está impregnado daquilo que podemos chamar de memória dos lugares. Em sua expressão poética, José Inácio deixa coabitarem pacificamente paisagens físicas e humanas, fazendo com que a reafirmação da vida pontue de modo bastante especial a trajetória de seus versos. Vestido com a armadura de suas letras, eis que o poeta busca, na simplicidade bucólica de suas imagens, um caminho sublime para a criação. O autor de livros como Decifração de Abismos, A Terceira Romaria, A Infância do Centauro e Roseiral agora está prestes a nos abrir as cancelas poéticas de Pedra Só, seu mais recente fruto literário, e que será lançado em setembro próximo pela Escrituras Editora. E foi para falar um pouco sobre sua nova criação e outros tantos assuntos intimamente ligados ao ofício das palavras que o poeta gentilmente acolheu a Diversos Afins para uma valiosa conversa. Adentrando a soleira dos seus domínios feitos de versos, o cavaleiro de fogo José Inácio Vieira de Melo, como também é conhecido, desfila suas ideias tendo nos olhos o brilho necessário do encantamento pela vida.
José Inácio Vieira de Melo por Ricardo Prado
DA – O traço essencial de sua poesia é marcado por um universo feito de imagens, atravessando paisagens humanas e estabelecendo uma íntima relação com um sertão de memórias. O que dizer dessa gênese de palavras?
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – O que dizer? As palavras me escolheram ou eu as escolhi? A paisagem poética da minha poesia tanto é uma paisagem que observo como também é a paisagem na qual estou inserido. O meu Sertão é o Tao do Ser de um ser tão perplexo e deslumbrado com a existência. Sinto que a minha criação está intrinsecamente ligada às minhas origens geográficas e humanas, embora saiba que esses fatores não são determinantes. A minha poesia é feita fundamentalmente a partir do que vivi e do que vivo. Vivencio a poesia de cada momento. Como diz a minha poeta de cabeceira, Cecília Meireles: “Eu canto porque o instante existe”.
DA – A porção existencialista de seus versos ganha uma dimensão toda especial num livro como Roseiral, obra que exala o vigor de mistérios humanos. Em que medida as palavras denunciam o espanto de se estar vivo?
JIVM – As palavras, dentro da poesia que faço, não buscam outra coisa que não seja dar expressão ao meu sentimento. E o meu sentimento de perplexidade é enorme, é absurdo e não suporta amarras. No livro Roseiral fui tomado por uma revolta que desconhecia. Agi com uma carnalidade instintiva, portanto os impulsos da minha escrita sobrepuseram, muitas vezes, qualquer tentativa de contenção de linguagem e ou de um formalismo comportado. Então, as palavras buscam denunciar, em sua potencialidade, todo espanto do meu ser diante da imensidão do Cosmo. É como está lá no Roseiral, no poema “Rosa viva”: “Minhas palavras ardem a forjar/ estas flores que canto por prazer/ e que dão febre e fazem delirar”.
DA – A capacidade de transcendência é o grande trunfo de um poeta?
JIVM – Há muitos poetas que nem sequer acreditam em transcendência, como é o caso do meu amigo Luis Antonio Cajazeira Ramos. Para o grande poeta, autor do magnífico livro Mais que sempre, essa conversa de transcendência é papo furado. Agora, é impossível de se imaginar o poeta Jorge de Lima sem os delírios de fé, sem o fervor da transcendência poética e sem as epifanias. Pois bem, sou da estirpe de Jorge de Lima. A transcendência é a minha glória. Por conta do sentimento do sagrado e do sublime é que me afino tanto com poetas como Gerardo Mello Mourão, Santo Souza e Francisco Carvalho, assim como com outros bem mais jovens, como a Mariana Ianelli e o Alexandre Bonafim.
DA – Mesmo aguçadas doses de lucidez e racionalidade poderiam não ser suficientes para afastar os efeitos, se é que seja possível considerar assim, místicos das palavras. Você crê numa perspectiva de transformação humana através da literatura?
JIVM – A palavra tem efeito místico para quem é místico, para quem tem espiritualidade. Como Novalis, acredito que “a poesia é a religião original da humanidade”. Todos nós estamos em constante processo de transformação, portanto tudo contribui para a nova conformação do ser em processo. A literatura amplia os horizontes, traz novas possibilidades, é uma fonte de conhecimento. E o conhecimento é caminho de transformação.
DA – Que aspectos você considera como sendo os mais importantes na construção de um debate sobre a poesia contemporânea?
JIVM – A poesia contemporânea é a que está sendo feita a todo instante, portanto é algo que está em constante processo de transformação e não adquire uma conformação com limites bem delineados, visto que a cada dia surgem novos poetas. Se a intenção do debate é fazer uma análise crítica atribuindo valoração, há de se fazer um recorte, pegando a produção de um determinado período, na qual já seja possível identificar alguns aspectos estéticos consolidados. A partir da constatação, levantar questões, fazer comparações e aproximações com o que veio antes, com o que já está estabelecido, ou seja, com os cânones. Confesso que estou muito mais propenso a criar circunstâncias para a divulgação da produção dos poetas que estão surgindo, através da publicação de livros e da participação dos poetas em projetos que promovam a leitura dessa produção. O tempo é o grande definidor daquilo que terá uma permanência maior.
DA – Atualmente, a múltipla apropriação do verso livre parece causar uma falsa sensação de que fazer poesia é algo fácil. Nesse sentido, a criação poética não anda um tanto banalizada?
JIVM – Não me alio aos puristas. Quanto mais pessoas existirem praticando seus versos, melhor. Não estou defendendo quantidade, prezo pela qualidade. Mas fico muito contente quando vejo alguém alçar voo no seu delírio e escrever um poema, por mais ingênuo que seja. Na verdade, o que me desagrada mesmo são os pretensiosos – aqueles que se arvoram de grandes poetas e que passam a ditar seus conceitos minúsculos e a determinar o que é bom e o que é ruim, a partir de seu gosto pessoal.
O verso livre é o mais acessível, pois qualquer um pode escrever uma estrofe composta de linhas irregulares e dizer que é um poema. Que maravilha! Sabemos, porém, que fazer poesia com versos livres é bastante complicado, pois requer muita habilidade por parte do poeta, visto que cada verso tem sua medida e que, ainda assim, é preciso construir um ritmo que reja a peça como um todo. De vez em quando, leio alguns poetas que se vangloriam de só fazer e apreciar poesia medida e rimada. E ainda têm a petulância de afirmar que se não tiver esses atributos técnicos, não é poesia. Uma afirmação dessa natureza, para mim demonstra uma grande limitação.
Que bom que as pessoas estejam cada vez mais escrevendo versos, publicando-os em seus blogs ou em coletâneas. Agora, se o sujeito, realmente, está interessado em seguir pelo pedregoso caminho da arte, e, como diria Jorge de Lima, for um assinalado, ou ainda no dizer de Ruy Espinheira Filho, for um fatalizado, perceberá que a coisa não é fácil não! E investirá a maior parte de sua vida em leituras e no exercício constante da escrita. Ou então, os que buscam facilidades, logo desistirão ou continuarão, por algum tempo, escrevendo algo que não repercutirá.
Quem leva a poesia a sério, está sempre a ler poesia, está sempre a buscar seu caminho, na tentativa de encontrar e de aperfeiçoar sua dicção poética, seu ritmo, seu verso. Sabe que é um compromisso para toda a existência. E também tem consciência de que pouco, ou nada, terá de recompensa. Quem faz poesia pensando em ter um grande reconhecimento está fadado a sofrer decepções por toda a vida.
DA – Talvez seja muito cedo ainda para se falar na consolidação de uma nova geração de poetas, mas, na sua opinião, o que será fundamentalmente necessário para que isso ocorra?
JIVM – Realmente, é muito cedo. O que será fundamentalmente necessário? Que os poetas continuem fazendo poemas, publicando seus livros e que o tempo passe… Com o passar da peneira do tempo, inevitavelmente, essa nova geração que você menciona se configurará.
DA – Você tem um engajamento muito intenso no que se refere à articulação de eventos, nos quais estão envolvidos, sobretudo, novos autores. Como é que se dá essa aproximação com tais escritores e quais são as características que, a seu ver, pontuam com mais ênfase as letras destes criadores?
JIVM – É que vejo muita gente reclamando, lamuriando-se, choramingando. No entanto, são poucas as pessoas que têm a coragem de fazer alguma coisa. E aqueles tantos que choramingam e reclamam são os primeiros a encontrar defeito nas atividades que são realizadas. Eu sempre me coloquei no lugar de fazer as coisas. De buscar alternativas. Os projetos que realizo não contemplam, sobretudo, jovens. Dão oportunidades a poetas de todas as faixas e vertentes. Desde 2001 que venho coordenando eventos e, na medida do possível, tento contemplar a diversidade da poesia baiana. É claro que sempre há os insatisfeitos, que são aqueles que acham que deveriam ser sempre convocados, por se atribuir um valor que efetivamente não têm. Outros nunca serão sequer mencionados, porque não vou me envolver com delinquentes nem muito menos com canalhas, elementos que com certeza vivem apenas em função da destruição. Esses, para mim, não existem. E pronto! E ponto! Que façam seus eventos, que arrebanhem multidões para a sua pretensa alta poesia. Eu não dou a mínima. Há meia dúzia de desesperados que vivem tentando achincalhar as coisas que faço. Berram, ciscam, bufam, gemem, ganem e eu continuo na minha caminhada. O engraçado é que toda vez que esses pobres diabos tentam me prejudicar, imediatamente acontece algo muito bom para mim. É sintomático. De modo que me dão sorte. São um amuleto.
Mas voltando a responder a sua pergunta, os projetos que coordeno, na sua maioria são voltados para a poesia brasileira contemporânea, com destaque para a poesia baiana. E repito, não são voltados principalmente para novos autores, mas para os poetas em geral. Já coordenei projetos em Salvador, Maracás, Planaltino e Jequié. Levei poetas baianos da geração sessenta, como Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Antonio Brasileiro, Maria da Conceição Paranhos, Ildásio Tavares, Ruy Espinheira Filho, e da geração oitenta, como Roberval Pereyr, Luis Antonio Cajazeira Ramos, Aleilton Fonseca, Douglas de Almeida e Walter Cesar. E vários poetas de outros estados, apenas para citar alguns: Mariana Ianelli (SP), Salgado Maranhão (MA), Marize Castro (RN), Alexandre Bonafim (MG), Astrid Cabral (AM), Antonio-Mariano Lima (PB), Neide Archanjo (SP), Raimundo Gadelha (PB), Helena Ortiz (RS), Wilmar Silva (MG), Igor Fagundes (RJ), etc… Como vê, são muitos e, dos que citei, apenas três podem ser considerados jovens poetas, a Mariana Ianelli, o Igor Fagundes e o Alexandre Bonafim, mas cada qual tem ao menos quatro livros publicados. Citei esses nomes apenas para comprovar que também destaquei os poetas já reconhecidos e com uma obra já sedimentada. Com isso não quero passar a imagem de que não valorizo a produção dos jovens. Sempre busquei dar o mesmo espaço para todos. Claro que alguns se destacam mais. Isso vai da força da poesia de cada um e da sua desenvoltura com o público. Mas se abri espaço para autores que já têm um certo reconhecimento e que já obtiveram importantes premiações, tentei e tento mostrar ainda mais os poetas mais jovens. A diferença é que em relação aos mais jovens, além de projetos, organizei coletâneas envolvendo-os. Em 2004 organizei uma coletânea com 15 poetas da minha geração, que hoje já não são mais tão jovens, refiro-me ao Concerto lírico a quinze vozes. E hoje, parece-me que a maioria já está bem situada na literatura baiana, alguns até com certa repercussão em nível nacional. Creio que, de modo geral, acertei nas minhas escolhas. Mais recentemente, em 2011, organizei a coletânea Sangue Novo, que reúne 21 jovens poetas – esses sim, bem jovens – todos nascidos a partir de 1980. Nesses trabalhos busquei apenas promover o encontro de vozes que andavam muito dispersas, na tentativa de promover um diálogo da poesia que anda sendo feita na Bahia. Repare, não me refiro a um diálogo sobre a poesia, mas da poesia propriamente dita. Alguns poetas, já conhecia pessoalmente, outros mandaram seus primeiros livros para mim. Boa parte, encontrei em blogs e nas redes sociais. A meu ver, o que mais aproxima esses jovens poetas, em geral, é um acentuado lirismo e o diálogo com outras linguagens artísticas, sobretudo com a música pop e com o cinema. Na maioria, são estudantes ou professores de Letras ou de outros cursos das ciências humanas. Poucos cultivam o verso medido, embora alguns tenham pleno domínio das técnicas de metrificação. Enfim, são poetas de uma época de fragmentação de identidade, em que se fala de uma aldeia global, onde os encontros são virtuais e os grandes acontecimentos mundiais são assistidos em tempo real. Sem dúvida, esses adventos tecnológicos interferem na criação de qualquer artista, não apenas desses novos autores.
DA – O que definitivamente você não endossa na dita pós-modernidade?
JIVM – Não endosso essa nomenclatura “pós-modernidade”. Agrada-me o termo “contemporaneidade”. Mas, no fim das contas, não muda nada. No mais, quem sou para endossar ou não alguma coisa nesses tempos pós-modernos? Vivo muito à margem de tudo, embora esteja quase sempre conectado. As minhas atividades, boa parte delas, acontecem em casa mesmo, digitando nas teclas de um PC ou de um notebook. Quando não estou em casa, vou para a minha roça, a Pedra Só, um lugar onde não tem sequer energia elétrica nem água encanada, onde fico completamente isolado de toda essa parafernália tecnológica. E como é bom, depois de um dia no campo, lidando com gado, andando a cavalo, poder chegar em casa, deitar numa rede e ler um bom livro, tendo a certeza de que nenhum telefone vai tocar nem ninguém vai aparecer para atrapalhar. Nada de televisão, nada de rádio, apenas o canto dos pássaros. Sem contar que a brisa do Sertão traz um sentimento tão profundo e mágico que a gente fica sem saber o que diabo é pós-modernidade. E quando chega a noite, ah meu irmão, aparece uma roça de estrelas no céu que não há conceito que possa abranger a sua imensidão… E se é noite de lua cheia, a epifania é certa. Pois bem, a pós-modernidade tende a desmistificar todo esse meu discurso arcaico por um processo de desconstrução e bla bla blá. A única coisa que pretendo sempre endossar é o rumo dos meus passos e os matizes de minha poesia. O que sei eu da pós-modernidade?
DA – Pedra Só, seu mais recente livro, está prestes a ser lançado. Quais percursos demarcam de modo especial esse seu novo rebento literário?
JIVM – O Pedra Só é o meu livro mais autobiográfico. Revestido de tons épicos, flertando com a linguagem bíblica, traz um longo poema dividido em 27 partes, que está no capítulo de abertura e que nomeia o livro. Como já ficou claro na resposta anterior, Pedra Só é o nome de uma fazenda, onde tenho o privilégio de passar uma parte de meu tempo. É a partir desse lugar, a Fazenda Pedra Só, no Sertão da Bahia, que invento um entrelugar, de mesmo nome, para dar evasão aos meus delírios poéticos. Então, frequento os lugares mais recônditos e inóspitos da minha memória, buscando o barro fundamental – a poesia primeva – para fazer a ligação do meu ser com a arte e criar meus poemas. Quem leu meus livros sabe que a temática campesina sempre esteve presente na minha produção. A crítica também tem dado muita ênfase neste aspecto. No livro anterior, Roseiral, é que dei uma acentuada no erotismo e nos matizes surreais. Pois bem, agora faço um movimento de retorno às origens sertânicas com uma intensidade que até então não havia experimentado, é assim no “Pedra Só” e também no segundo capítulo, intitulado “Aboio Livre”. O terceiro capítulo é o “Toada do Tempo”, em que uso com mais frequência o verso medido e que situa o poeta dentro do tempo, medindo sua finitude e, paradoxalmente, percebendo-se atemporal. A quarta seção, chamada “Partituras”, é onde aparecem as cantigas e os cânticos de louvor. E, por derradeiro, o capítulo “Parábolas”, em que acentuo o surrealismo, tentando criar uma esfera fantástica, impregnada de misticismo, que encerra o livro. Esses são, em linhas gerais, os caminhos da Pedra Só.
DA – Para além do poeta, o que busca o homem José Inácio Vieira de Melo em sua teima com as palavras?
JIVM – Não há, em mim, uma separação entre o homem e o poeta. Não estou poeta. Eu sou poeta 25 horas por dia. O bom da jornada é caminhar… Não sei se para o bem ou se para o mal, não sou um ser pragmático. E sinto que as finalidades limitam muito as experiências. A minha teima com as palavras é, em todas instâncias, por necessidade de expressão. Se não estiver em contato com os signos, reordenando-os para encontrar novos significados, para despertar emoções, a existência fica sem sentido. Então o que busco são os caminhos… E eles sempre surgem. E a minha teima é caminhar – um passo depois do outro, sempre, sempre –, contemplando a paisagem, inventando paisagens, sendo a paisagem.
José Inácio Vieira de Melo por Ricardo Prado
– TRÊS POEMAS DE “PEDRA SÓ” –
Escrituras
Eu chego no silêncio que acende
as quatro ferraduras do tempo
e encontro a inesgotável jazida,
catedral do rubi que me habita.
Na madrugada, sonho com os rumos,
gesto que inventa o cristal das palavras,
surpreendendo as pedras com a chuva
a derramar a escritura sagrada.
Agora, apenas ando com os pássaros
a escutar as belezas desta terra
e sustento as parábolas salvíficas
com esta medula que me carrega.
Escuta, dos confins do longo dia,
a noite a chegar – cortina de versos
que revelam as estrelas de abril
aos meus olhos pasmos de tanto ver.
A pupila de Narciso
Vestido com a graça da Lua,
um cisne no lago do espaço.
Padece o poeta aos pedaços
no espelho límpido das águas.
Narciso que cintila perdido,
buscando no rosto uma casta.
Até que na espuma dos tempos
salva a legião de afogados.
Aurora
A liberdade do crepúsculo tremula.
Escuto o alarido dos pássaros do Sertão.
Debruço-me no ninho do Cosmo.
Minhas mãos trabalham no vazio.
Minhas mãos trabalham na imensidão.
Longa batalha em busca da beleza.
Da boca dos pássaros, os violões do Sol.
Rezo benditos e grito os nomes da Terra.
Contemplo a mansidão do silêncio que voa.
As minhas sandálias são feitas de aurora.
De meus dedos esplendem labirintos.
Meu caminho é o strip-tease da solidão.