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68ª Leva - 06/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

O INTANGÍVEL EM JUH MORAES

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Juh Moraes

Bem sabemos que a fotografia encerra uma vastidão de possibilidades. No entanto, o que seria capaz de guiar nossos sentidos rumo a veredas desabitadas pelo óbvio? Como extrapolar a barreira física e evidente do algo primeiro a ser flagrado por nossas retinas?

Certamente, não são perguntas com soluções tão imediatas. Por mais que tentemos emprestar significados ao ofício de um fotógrafo, delimitando-os numa ótica que remonte a uma noção racional das perspectivas abraçadas, acabamos envolvidos pelas razões que integram o universo íntimo de cada criador. E assim, distantes de extrairmos a seiva da psiqué humana, somos tentados a desvendar camadas por vezes etéreas reveladas nas imagens.

Quem deitar olhares em torno da expressão fotográfica de Juh Moraes perceberá o quanto pulsa viva a presença do intangível, de um ambiente no qual mistérios do corpo e da alma humanas estão fundidos a um só tempo. Para a artista, não basta que formas, gestos, tons e expressões difusas impliquem num recorte precisamente definido de mundo. Pelo contrário, cada ser ou objeto captado exprime uma espécie de balé da transcendência.

Ao nos ofertar seus signos repletos da conjunção entre matéria e espírito, Juh ousa nos convidar a atravessar um cenário que sabe a percursos do tempo e seus desígnios. É como se cada contorno, tez ou cor pudessem reter o essencial dos instantes vividos, pondo-os em delicada suspensão. Assim, comungamos com a artista um ritual que confere sentido a ambientes e seres, todos eles marcados pelas sutilezas da existência.

Foto: Juh Moraes

Natural de Curitiba, a fotógrafa traz no sangue a mescla nordestina e espanhola. Apesar de ter cursado a faculdade de Belas Artes, foi nas searas da Moda onde encontrou terreno favorável para suas escolhas. Os pincéis deram lugar à câmera e a um desejo de promover uma integração entre Comunicação, Moda e Imagem. A captura das cores em seu trabalho deu-se através de influências percebidas em artistas plásticos como Delacroix, Caravaggio, Monet, Manet, Frida Kahlo, Cezzanne e Bosch. Admiradora confessa de Van Gogh, Juh demarca o artista como sendo uma grande fonte de inspiração, a ponto de se considerar “refém” de tal influência.

Além das marcas indeléveis das artes plásticas em sua trajetória, o olhar de Juh Moraes abraça aprendizados fotográficos em torno do trabalho de enquadramento e da concepção de luz de Annie Leibowitz e Sally Man; a visão artística de Richard Avedon, Guy Bordin e Mary Ellen Mark; e Robert Mapplethorpe, pela completa ousadia.

Ao lado da também fotógrafa Viviane Rodrigues, Juh desenvolve um trabalho especial no site Fotografia Orgânica, projeto que denota um comprometimento com a imagem em seu estado mais puro possível, longe das intervenções de edição meramente tecnológicas.

Em uma só palavra está condensada a relação de Juh Moraes com seu ofício: ar. E é com a noção desse sopro vital que a artista leva adiante a sua sublime missão de captar instantes, lugares e pessoas, abraçada ao que de melhor eles podem oferecer: a verdade de suas expressões.

Foto: Juh Moraes

 

 

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Foto: Juh Moraes

 

VOO

Fabiana Turci

 

I.
te sabia Ícaro
em altura e desejos.
num azul impossível,
a curvatura delicada,
de pasmar gaivotas,
tramava no meu corpo o curso das alturas,
no desejo de ver-te sob esta claridade de meio-dia.
a superfície crescente impunha-se aos ombros
fazendo verdade da fantasia
e, do sonho,
corpo.
fiz-me pássaro,
seguindo-te,
a dividir o azul.

 

II.
que te pedi, Ícaro,
para que cuidasse
da queda.
que nas margens
nuas
da praia
não restasse o meu corpo,
abandonando ardências.

 

III.
e me destes essa casa
de pedra e paredes
onde o céu desaba,
pelas manhãs,
nos corredores
fazendo caminho do meu cansaço.
o teu olhar, desde dentro,
me ofertando o infinito.
se já era teu o azul
– dentre os muros
de onde te fizeste –
tive de ti
o sol mesmo,
transfigurado pelas artes
do teu desejo.
perdoe-me, Ícaro,
se me faltou ver o artifício.
se reconheci a incandescência
e na iridescência me fiz inteira,
irradiando teus sonhos de cera.

 

IV.
foi de asas, Ícaro,
o meu erro.
de supor que o corpo,
entre o voo e a permanência,
encontraria seu contorno.
e porque te quis mais terra
fiz-me, adolescente, ideia
para que intuísses dissipação.
por me querer contradição
que me fiz celeste.
e me entreguei a ti
como casa.

 

V.
sei que foram muitas as
vezes em que me ofereceste
o fio de Ariadne.
eram os pés, antiquíssimos,
que negavam partida.
os pés soldados à terra
como quem ouvisse,
feminino,
os apelos do que é
só possibilidade.
a terra úmida,
fértil.
o novelo em minhas mãos.
mas é o azul, Ícaro,
que é irresistível.

 

(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura (no prelo))

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Juh Moraes

CEMITÉRIO SÃO PAULO

Daniel Faria

Para o Marcelo Ariel

Sou uma coisa meio azulada. E não é porque não sou sua, nem de quem quer que seja (inclusive aquele que escreve), que não trago comigo uma emoção autêntica. Passo levemente minhas mãos translúcidas pelo seu rosto e você pensa que se trata do seu jeito único e pessoal de ver as mazelas ou os encantamentos do mundo. Mas tudo bem. Chamo isso de “minha generosidade”: apagar-me em benefício alheio.

Não me escondo nas sombras que vazaram dos seus olhos. Pense na sombra como um contorno que dá textura real ao Inferno leve e melancólico que te consome. É que pra conversar no inferno, fazer-se entender sobre o inferno, o cachorro e a criança se lambem, resmungam, olham-se fixamente nos olhos. Pra falar no inferno, o cascudo às vezes é a palavra necessária.

Estou aqui muito antes de você nascer, e sobreviverei às suas pálidas ilusões de “marcar presença” no mundo. Pense numa espiral azulada que se concentra num turbilhão. Pense na força, voracidade e violência de um turbilhão faminto, cheio de dentes afiados, que se desfaz aos poucos ou que desaparece inesperadamente. Um turbilhão com todos os nomes possíveis, o seu, que me lê, e também o daquele que neste momento me escreve. Trata-se, você bem vê, de uma leveza estranha: capaz de operar um deslocamento nas coisas com sua palidez azulada (a professora de história explicou um dia: as letras Ordem e Progresso são azuis, como azuis são as ruínas de um hospício abandonado). É uma leveza capaz de ferir, de conhecer seus ínfimos êxtases e de manter-se em perplexidades passageiras. Uma leveza atravessada pela multidão assombrosa de anônimos, apaixonados, caçadores e visionários. E você (te ensinaram este nome) chama o turbilhão de “meu íntimo eu”.

Agora, se você não está entendendo aonde quero chegar, pense na bandeira de uma nação qualquer, manchada com sangue de ketchup, formando uma espécie de tapete vermelho de boas vindas na entrada de um cemitério.

 

(Daniel Faria é historiador e poeta. Autor do livro O Mito Modernista, publicado pela EdUFU em 2006. Publicou Matéria-Prima, pelo projeto Dulcinéia Catadora em 2007. Acaba de ser incluído na Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel e editado pela Caiçaras. Seu Livro de Orações está no prelo, pela série Caixa Preta, da Lumme. Participa da Revista Mallamargens)

 

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

 

PEQUENOS DELITOS E EPIFANIAS

Por Jorge de Souza Araújo

 

 

 

 

Diante destes textos (ou peças literárias maxi-minimalistas, ou contos de feições microscópicas pluralizados por visão macro, ou crônicas abstratas derivando para contos fantásticos e, no entanto, intimistas, confessionais) é mais adequado pensar que a escritura de Antonio Nahud Júnior transcende seu mais exato mister, ultrapassando o que quer que se declare na ficha catalográfica do livro.

Dessa forma, “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” representa também exercício filosófico numa linha de investigação ontológica, metafísica, expressionista e existencial. E, por exemplo, “Love is a Many Splendored Thing”, que abre a coletânea de pasmos e pathos humanoides, ressalta uma fragrância de Poe, do épico e dramático de “O Corvo”, com a amada morta do protagonista entrando janela adentro na noite iluminada de Selton, o amante para sempre fiel e siderado pelas chamas da fornalha passional.

Assim, o que leremos doravante são mini ou macro textos parodísticos da existência pânica, imprimindo e imprimidos, não obstante, de frêmitos de lucidez em meio à voga lúdica, elíptica, espasmódica e diversionista da palavra em febre de dizer-se para além das eventuais obscuridades. O que mais neles avulta é a surpresa do insólito, não apenas reservados aos finais consagradores do clímax e do desfecho, mas por toda a rede de intrincadas e complexas teias, cujos enunciados se confundem com seus signos. O lírico sempre pesponta o outro lado do trágico e o humor cerrado em sorrisos contrafeitos observa a vida sob as escamas de um amplo e entrechocado mistério. A ambiência de sugestões de hiatos de percepção muda supre a necessidade de concretude do real. Por isso nem sempre as personas são nomeadas e a sensação do provisório e efêmero de nomes, pessoas e coisas produz a inércia do pensar, quase valendo qualquer nome para designar qualquer coisa ou pessoa.

Antes de se constituírem densidades dramáticas, oscilantes entre o trauma psicológico e a violência grosseira, contos como “Os Negros e outros são mais perceptíveis como registros de instantes fugazes ou prolongados, sinestesias dos impactos de sentidos múltiplos, em particular a visão e o olfato, o detalhe significante (e machadiano, que nisso é avant la léttre) da metonímia de uma nesga de rosto, mãos, cabelos, cores, cheiros, perfumes, com predominância de assunção e projeção de flagrantes e diálogos envolvendo o desejo homossexual, tudo feito com refinamento, sutileza e inteligência dinâmica e superadora de vãos preconceitos. Cito diálogo de “Os Negros”:

— “Acredita em romances entre machos?”, atacou Glauber.

— “Sei que uma relação bem sucedida não depende do sexo dos envolvidos, mas da comunhão inevitável”, respondeu pausadamente o garçom.

Uma acentuada dose de coragem de se expor trescala desse e de inúmeros outros trechos e textos do livro que ora se ostenta sem pregar slogans nem bandeiras. Antonio Nahud Júnior, entre o escracho ou deboche e a estreita visão do córner discursivo dos guetos, opta pela sinceridade. Estará, portanto, na boa companhia dos bons textos de uma Állex Leilla, por exemplo, um dos mais agudos e penetrantes da geração da prosa curta contemporânea na Bahia. O que pretende, então, quem fere as nebulosas humanas destas “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” das tribos antropocêntricas? Vejamos o que tem a dizer o próprio autor, em entrevista. À pergunta de Gustavo Atallah Haun (jornal Agora, 03 a 10 de julho de 2006, Banda B, p. 8) — Em sua opinião, qual é o aspecto mais difícil do ato de escrever? Ele responde: — A construção de um universo mágico que me emocione e, consequentemente, emocione o leitor. Transformar a literatura num oceano de prazer. É a parte mais difícil. Sou exigente, faço questão que o texto ou o poema me comova. Sobre os temas que mais se impregnam em sua narrativa, provoca: Os elementos sensuais desempenham papéis-chave na minha literatura: odores, texturas, sexualidade, funções corporais. No entanto, seria incorreto classificá-los como especificamente homossexuais, bissexuais ou sei lá o que, pois eu não acredito numa literatura homoerótica, assim como não acredito numa literatura feminina ou masculina. Todos os escritores são seres andróginos.

Polêmicas à parte, “Pequenas Histórias…” é mesmo um livro de textos que respiram situações de claro/escuro no mundo das relações humanas. E também de interinfluências, algumas até de origem inconsciente, talvez. Um trecho aqui lembra Adélia Prado e seu poema descritivo de um rapaz que palita os dentes com ruído, esgaravatando o coração de cadela de quem o observa. Outro flagra decrepitudes fetichistas e ásperas solidões homoafetivas, com suas gruas de martirológio afunilando dificuldades existenciais. Noutros, ainda, predominam sensos parabólicos, ascéticos e um mistifório de alteridades. “Chá com Harpias contém cenas, alegorias, analogias e alusões de teatro cosmopolita.

Enquanto “Sem Notícias de Deus” — o melhor do conjunto, na modesta opinião de quem escreve estas notas — é um conto soberbo, antológico e definitivo, com a pungência sincera da realidade fotográfica e a comiseração mais nítida do narrador, numa dimensão de permanência que não se subordina à claque e avança para a perenidade do documento humanista; “Noites de Ninguém tem o pathos de Dalton Trevisan e o lógos protestatório de Glauco Mattoso ou Caio Fernando Abreu. “Fim de Caso” é drama burguês que não contemporiza, mas purga as dobras da agonia pânica, avizinhando-se da solidão da incompletude, aquela que se tem a sós ou acompanhada com a invisibilidade do outro. “A Dor no Coração da Deusa do Sexo” flagra o pungente retrato urbano dos que vivem sem felicidade no coração. Em “Brinquedo do Cão” o monólogo nunca personalizado ou exclusivo fala de todos os emparedados discursando sempre na primeira pessoa do singular. Imagens insólitas, arrimadas num lirismo oblíquo e dissimulado, constituem o perfil de “Apenas uma Mulher”.

Por vezes, a tibieza do lugar-comum ocupa as frestas do texto que cede à fala natimorta. Contos sem vínculo com Tchecov ou Maupassant florescem mechas para o psicodelismo, o delírio, até a paranoia do novo mundo concebido à sombra de florestas espessas das exclusões. Outros são os textos apaixonados por cinema, como os do argentino Manuel Puig, quase todos untados com malícia, alguns reiterativos do antes já dito. Por alguns também perpassa o melodrama a la Nelson Rodrigues. Melhor quando a linguagem advoga a primeira pessoa, mais espontânea, Antonio Nahud Júnior dissipa seu estilo com o Expressionismo e suas imagens derivárias do patético. Em “Tentativa de Controle”, o estilo é típico de “Matou a Família e foi ao Cinema”, de Júlio Bressane, incluindo o ciúme vampiresco de Otelo, o patetismo melodramático de Nelson Rodrigues e o corte incisivo do expressionismo alemão. “Da Utilidade da Poesia” poderia suscitar lembranças, ainda que vagamente, de Tchecov (“Teoria da Arte”), Tolstói (“Sonata a Kreutzer”) e do brasileiro João Antônio (“Afinação da Arte de Chutar Tampinhas”).

Algumas das peças literárias de “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”, apesar dos temas, da fluência da linguagem, não buleversam, resguardando-se o leitor do sorriso enigmático da Mona Lisa. O tédio, o non-sense, o ar blasé, a cultura cosmopolita, o existencialismo a la Clarice Lispector, as buscas ásperas, a guarda baixa na auto-estima, a deserção, a desistência, a entrega solitária dos emparedados, tudo comove, mas nem sempre com a eficácia legitimadora da solidariedade. As palavras, o ritmo, as imagens e sensações que provoca, o texto de Antonio Nahud Júnior poderia desvendar-se no que o próprio texto determina e projeta na personagem de “Um Fluxo”: Aprofundando-se no cenário mental, entrega-se à selva de letras, obstinado, entre versos-insetos e parágrafos de flores carnívoras, vivenciando equinócios, constelações e centelhas: dialogando com árvores na trilha da montanha lírica. Sintomática a citação de Jorge de Lima do romance “O Anjo”, cujas fosforescências de idioma lírico Antonio Nahud Júnior parece também intuir, revestindo-se a palavra-emblema no primeiro texto surrealista publicado na voga do regionalismo de 30: “O Homem Nasceu para Contemplar. Só por Castigo Ele Luta e Trabalha”.

O universo das “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” é quase exclusivo do dialeto autoral, particularmente o pitoresco e exótico, bem como são particulares os códigos de escrita e os motivos temáticos. Mas o humor rebelde e insubmisso traz vestígios, por exemplo, de Drummond (aposentado consumido por uma melancolia inexplicável, “Lulu”); “Vertigem” tem a ousadia pornográfica de Henry Miller ou a parábola fugaz de um Sade, que indetermina as razões do desejo e o sem-limite das perversões. Um conto muito longo (“Imagens”, por exemplo) termina vampirizando as energias do narrador e do leitor mais concentrado, ainda que ambos possam ser expertos e expeditos, antenados na ironia de um texto, mesmo o que não provoque empatias.

Este livro de Antonio Nahud Júnior é uma espécie de almanaque visceral, revolvendo sensações em perfis caleidoscópicos, flagrando instantes de perdas e descobertas, epifanias e registros documentais das hecatombes humanas e de pessoas singulares. A maioria dos textos imprime-se de contornos intimistas, confessionais de aparência ora gozosa, ora culpada de ocultamentos. Conforme a nomenclatura, contos se apresentam com finais oscilando entre o surpreendente e o óbvio. Tematizando os povos da diáspora genérica presas da sexualidade sob o arbítrio das convenções, realizam-se ainda pela reflexão a ser reverberada no âmbito da consciência crítica.

É livro inquieto e inquietante, que convida ao debate e à inteligência não conformados ainda à inércia do pensar de calças curtas.

(Jorge de Souza Araújo é poeta, Mestre e Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dentre suas publicações, estão: “Os becos do homem” (poesia – Rio de Janeiro: Antares, 1982), “Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira” (Salvador – Assembleia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999), “Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado” (Rio de Janeiro – Relume Dumará, 2003), Floração de imaginários – o romance baiano no século 20 (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008))

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Foto: Juh Moraes

 

 

 

UMA RESERVA DE SUTILEZAS

Aline Aimée

 

Tenho meus carinhos, meus cuidados.
Levo sempre comigo uma dose reserva de sutilezas.
Quem mergulha em mar de flores,
acaba levando um punhado de cortes,
que cicatrizam em palavras de mistério –
seus segredos, meus segredos.
Sussurros sobre a pele, indícios
que hão de nos surpreender revelados.

Por isso, carrego sempre comigo
uma dose secreta de afagos
que hão de aplainar os ímpetos,
hão de evitar estragos,
mas nunca reterão os arrepios
que segredamos, silenciados.


 

***

 

 

ANSEIOS CINZAS, SUJOS

 

vagabundo errante,
risco por entre o lixo
minhas pegadas pesadas,
a carga de uma sobrevivência
– resiliência toda casca
que se desmonta, mas revigora,
comprimindo a massa túmida,
de ardor, angústia, desespero:
anseios cinzas
suspirando por opressores microporos

e enquanto nessa espessa casca
cresço,
incho-me sangrando
nutrindo a terra de poesia suja,
sorvendo a força das lágrimas diárias…

e me arrasto
avançando, ousado
por sobre as pedras,
contra previsões e planos

/é meu grito rubro que mancha de espanto tua noite funda/

 

(Aline Aimée nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. Mestre em Literatura Brasileira, trabalha como funcionária pública federal. Tem textos publicados em sites e revistas virtuais, como a Diversos Afins, a Conexão Maringá e a Garganta da Serpente. Contato: alineaimee@hotmail.com)