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70ª Leva - 08/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Viviane Rodrigues

O quanto de nós vem, de fato, impregnado nas leituras que realizamos? Até que ponto nossos anseios estão dispersos por entre as mais difusas formas de expressão artística? Tais questionamentos são plausíveis quando procuramos associar as representações mais variadas de mundo àquilo que sentimos ou projetamos de algum modo. Experimentar pela arte é atestar a impossibilidade de se negar a própria existência, por mais passiva que seja a conduta. Entre sujeitos ativos, partícipes e os que se enquadram numa mera e distante perspectiva de observação das coisas, há um hiato que jamais pode ser desprezado. Tênue ou não, este intervalo prenuncia que, na grande teia de nossas relações, o trunfo da arte é o de preencher espaços de aproximação. E campos como o da literatura e das artes visuais podem ser importantes aliados desse mecanismo de convergência humana.  As dimensões atingidas por este processo revelam-se amplas, sobretudo no que se refere aos aspectos sociais e quiçá também políticos. Logo, é ingênuo pensar numa perspectiva de criação alheia à influência de tais características. Dessa enorme teia de interações, brota toda uma sorte de percursos dotados de uma individualidade que, para efeito de permanência das obras, se faz necessária.  Poder testemunhar como o fluxo das palavras e imagens transita pelas mais diferentes mentes para depois se converter em objeto de apreciação dos nossos sentidos é algo fabuloso. Então, surge a pergunta: será que tudo realmente já foi dito? Busquemos, talvez, a resposta contemplando as fotografias de Viviane Rodrigues, cujo trabalho remonta a uma exaltação da essência das coisas. Trilhemos as vias transmutadas em versos por Daniel Gonçalves, Adriana Zapparoli, L. Rafael Nolli, Davi Araújo, Gabriel Resende Santos e Luiz Otávio Oliani. Numa pequena sabatina, ouçamos o artista plástico português Rui Cavaleiro num diálogo com o poeta Hilton Valeriano, entrevista regada a percursos pelos signos da arte. Pelas narrativas de Gladson Dalmonech, Marcia Denser e Maurício de Almeida, restam-nos algumas pistas sobre complexos itinerários humanos. Larissa Mendes ousa-nos atrair, em dose dupla, a viagens cinéfilas e musicais. O escritor W. J. Solha penetra com avidez no primeiro romance de Marília Arnaud. Andemos, pois, a desatar nós, estabelecendo conexões, cedendo espaços no entendimento da alteridade e privilegiando a escuta. Quem sabe daí não derivem, mesmo que desavisadamente, algumas preciosas respostas. Hoje, 70 Levas se traduzem numa busca sublime pela compreensão do que é estar no mundo.

 

Os Leveiros

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Poema # 5

L. Rafael Nolli

 

Que se desabroche como flor
em um vaso sobre a mesa –
alimentada por lâmpada fluorescente
………& água de cloro da torneira

(ou
às margens de uma estrada
que segue o curso do rio: onde
o sol faísca nos olhos dos cavalos)

Que se desabroche como as flores
no canto escuro da casa –
regada pelo encanamento rompido
…..& o árduo trabalho intestinal

(ou
no peito do homem
que entre tantos outros caminha
para libertar a cidade sitiada)

 

 

***

 

 

Inventário de um rio # 2

 

1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele

(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
……………… às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
……..com o cadáver de um cão –
conduzia a inframundos
………………sobre o domínio de Hades

(pouca era a sua água
………e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um enforcado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
………com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade

 

(L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980.  Publicou Memórias à Beira de um Estopim (2005). Pode ser lido semanalmente no blog Stalingrado. Contatos: nolli@bol.com.br.Twitter: @nollirafael)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

REFLEXOS

Márcia Denser

 

(para Filadélfia Jones, onde quer que você esteja)

“Marco,

Hoje abri a janela para o domingo chuvoso e inerte. Entediada, liguei o computador onde uma jovem marquesa triste molhava a pena e começava uma carta:

‘M,

Chove esta manhã. Não obstante o tempo, será impossível mandar selar Juno. Quando desci ao pequeno salão, fui informada por Artémise que Mme. Berthe mandara Lorin à Meséglise, de onde só retornará à noite. Creio não ser possível nos avistarmos no local combinado. Prevejo um serão melancólico com o senhor cura e M. de Charlus a jogar gamão e Berthe, minha carcereira, vigiando os postigos. Como sofro ao saber-te tão próximo e inatingível. Desgraçadamente, partiremos amanhã para Ostende. Estaremos separados durante todo o verão sem o derradeiro consolo de uma despedida. Nuvens carregadas me afligem com maus presságios, todavia tu não mereces que te faças sofrer. Manda a razão dizer-te que estás livre, mas meu coração é teu prisioneiro. Basta por ora, meu amigo, Berthe se aproxima…”

Marco, suponho que você saiba que a carta da marquesa é essencialmente igual a minha, embora também desta vez eu me escondesse por detrás do estilo rococó de espartilho e anquinhas, através do qual todo sentimento humano soa frívolo e melodramático. Como se a autora os ignorasse quando, no fundo, tem medo. Meus múltiplos disfarces já não te divertem mais. Aos reflexos do que não sou, você responde com suas próprias imagens deformadas.

Lembro do que disse naquele dia de fevereiro – lembro-me bem porque o sol fervia e Cortázar havia morrido – obrigando-me a ouvi-lo, a te encarar frente a frente: Cortázar que vá para o inferno! Onde está você? Está aí, e me sinto só, entende? Sei que não estou sendo objetivo, mas veja: você está em cima, embaixo, atrás, na frente, mas não ao meu lado, ao meu lado nunca. E seus punhos esmurravam as paredes quando era minha cabeça que você queria quebrar para enfiar um pouco do teu desespero lá dentro. Lá, onde se pressupõe que viva a compreensão, lá, onde mantenho aprisionada uma andorinha ferida embora ela se debata e bata e me atordoe e enlouqueça.

Não sou a marquesa encerrada em seu castelo pela governanta, o mau tempo ou um cavalariço, nada impede que eu tire o carro da garagem, recapitule o itinerário, o traçado de ruas e avenidas que em quinze minutos me fariam estacionar em frente à tua casa, debaixo da árvore de flores amarelas cujo nome não sei, buzinar até que teu belo rosto jovem apareça no terraço, rever tua expressão de resignado desgosto, te pressentir descendo as escadas com brusca lentidão a contragosto dos teus próprios passos que lentamente atravessariam o jardim, detendo-se do lado de dentro do portão com os antebraços apoiados na grade numa tentativa de sorriso que os lábios não obedeceriam. Trocaríamos cumprimentos à distância, talvez eu dissesse que passava por acaso ou talvez não dissesse nada; educadamente perguntaríamos pela família, pelo trabalho, pela saúde, pelos amigos, acrescentando comentários a respeito das próximas eleições, da catástrofe do México, do último filme e até da meteorologia, sempre tão incerta, aí talvez você arriscasse um elogio falsamente bem-humorado sobre meu corte de cabelo que eu retribuiria com um sorriso complacente (aquele que você detesta) acendendo um cigarro enquanto buscavas teu maço no bolso, retesando o frágil arco do silêncio até que presumivelmente eu o rompesse com um soluço, um palavrão ou uma súplica, cedendo ao impulso de estilhaçar este muro de vidro a que chamamos realidade e boas maneiras e tanta cordialidade, para, mais uma vez, encontrar do outro lado a máscara sem rosto da tua infinita, obstinada negação.

Levanto a cabeça e, debaixo das lágrimas, vejo a chuva, o domingo, as duas da tarde: não, não sou a marquesa, não me é permitido padecer de irrealidade. Mas continuarei tentando.

Saio e ligo o carro. A cena martela meu cérebro: teu belo rosto, o desgosto resignado, um ramo de flores amarelas, tuas pernas lentamente, a tua boca, a tua boca insuportavelmente formando palavras que você não quer dizer e eu não quero ouvir, e mais uma vez o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos, o muro de vidro que um dia atravessarei quando abandonar a marquesa, o sorriso complacente, minhas medalhas de religião, uma cicatriz que deformou minha alma, minha inteligência, minha cultura, meu saldo bancário, meu prestígio, sobretudo meu prestígio, mas que importa tudo isso se conseguir atravessar os espelhos e passar para o outro lado, para dentro do teu abraço, finalmente libertando a andorinha.

(A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global, 1986, Ateliê, 2003, 2010, 2ª edição), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda CasabrancaeHell’s Angel – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que Hell’s Angel está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

alter et idem

Davi Araújo

eis que a ave volátil declama o peixe solúvel
e de repente a geografia de uma rasura
conta a história d’alguma literatura

e são os ininteligentes elegíveis
na universalidade intraduzível
ismismos mesmo preferíveis
à grande banalidade indigerível

que a biblioteca me preserva a ignorância
porque o pior labirinto é uma linha reta
se nas leituras solitárias desde a infância
tornar-me um outro e o mesmo é a meta

contemplo o duplo na reflexão volúvel
altero-me só um pouco e no reflexo
outro é um eu de mim desconexo

***

Eus em Pessoa

Sou essas mil e uma almas que encarno & osso
Desde aquelas calmas às mais carne de pescoço

É uma infinidade de outros estranhos reunidos
Que há nos nós mesmos dos meus conhecidos

Em triz teço uma teia de nojo & metamorfoses
Do coral que me encanta com as minhas vozes

Uma corja de caráteres que trago personificados
Camaleões de fragmentos & tons resignificados

Iluminações de espelhos refletem o que emano
Contra a sombra que me usa de escudo humano

Nunca subo ao palco do qual sempre despenco
Engendro pequeno monólogo & grande elenco

 

(Davi Araújo é poeta, ficcionista, tradutor, ghostwriter e conselheiro editorial. Autor do blog Não Fique São, atualmente finaliza dois grandes livros de poemas, continuações da trilogia iniciada com Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal. Contato: davis.eu@gmail.com)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

 

Por Larissa Mendes

 

Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim (Late Bloomers). França/Bélgica/Reino Unido. 2011.

 

 

“Não somos bebês enrugados!”.

No livro Homem Comum, o escritor Philip Roth afirma que ‘a velhice é uma batalha em que não há chance de vitória’. Diante de tal prenúncio, nos questionamos de modo cada vez mais recorrente se o aumento da expectativa de vida e a segmentação do mercado consumidor na terceira idade são suficientes para que estejamos de fato preparados para o envelhecimento. O cinema também se deu conta de tal filão e o enredo que poderia facilmente cair na dramática armadilha Mal de Alzheimer, ganha um novo sopro de inspiração na comédia agridoce Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim (traduzido em alguns países como 3 Vezes 20 Anos). Os Bloomers que dão título ao segundo longa-metragem de Julie Gavras são Adam (William Hurt), consagrado arquiteto que revolucionou o sistema de aeroportos há 3 décadas e hoje atua como sócio de um modesto escritório de design, e sua esposa Mary (Isabella Rossellini), professora aposentada em busca de trabalhos voluntários que preencham seu dia-a-dia. Casados há 30 anos e com 3 filhos adultos, Adam e Mary passaram mais da metade de suas vidas juntos, o que hoje, diante de tantas divergências, já não parece fazer tanto sentido, desencadeando assim uma crise conjugal que afeta seus respectivos afazeres, seus familiares e amigos próximos.

Ambientado na Inglaterra, quase nada caricato e muito cativante, Late Bloomers (trocadilho, suponho eu, com a expressão baby boomer) faz uma bela reflexão sobre o amor e a vida de forma atemporal. Aliás, de modo bastante autoral, Julie Gavras (sim, filha do cultuado cineasta grego Costa-Gavras, hoje com quase 80 anos) parece ter o dom de transformar assuntos delicados em substantiva delicadeza. Se em A Culpa é do Fidel (2006) Julie apontava para a revolução socialista sob uma ótica infantil, em seu segundo longa ela se vale da outra extremidade da vida justamente para não transformar a “melhor” idade (afinal, melhor pra quem?) em discurso de experiência e sabedoria. Não que o roteiro da cineasta em parceria com Olivier Dazat e David H. Pickering escape ileso de alguns lugares-comuns próprios da idade, como as síndromes de Peter Pan e do ninho vazio, mas, se o faz, compensa na dose de humor e ironia, caracterizada, sobretudo, pela inversão de papéis de seus personagens. Enquanto Adam resiste até mesmo em participar de um projeto para a construção de asilos de luxo, a personagem de Isabella Rossellini aceita com um pouco mais de naturalidade o fato de envelhecer – o que seria bastante doloroso para uma mulher considerada ícone de beleza –, desistindo da clichê hidroginástica e adaptando sua casa com um telefone de teclas enormes, barras de apoio no banheiro e mesmo com uma cama hospitalar de controle remoto. A tradição e moralismo, quem diria, ficam por conta da reação dos filhos diante da provável separação dos pais sexagenários. Vale destacar também o papel de Charlotte (Joanna Lumley) na trama, como amiga de Mary e líder das Panteras Grises, exercendo uma função essencial na epifania dos protagonistas.

Com diálogos refinados, belas sequências – sobretudo a cena inicial e final – e ancorados por uma dupla de atores de qualidade e renome (com destaque para o charme e elegância da filha de Ingrid Bergman e Roberto Rossellini), que baseados, ironicamente, apenas em sua experiência, talvez já valesse o ingresso, Late Bloomers traça um retrato bastante franco e desmistificado sobre a velhice. O filme adverte ainda que nem mesmo o amor pode deter a individualidade, a passagem do tempo e a iminência da morte. Vida longa à Julie Gavras e ao seu cinema de livre [e sensível] faixa etária, que finalizará sua trilogia autobiográfica de protagonistas femininas de várias gerações com The Chocolate War (título provisório da película), sobre o papel de uma mulher na faixa dos 40 anos (idade da cineasta) na sociedade contemporânea.

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

cinegrafias

Gabriel Resende Santos

 

Na poltrona, desperto. Os ruídos
soprando grandes triângulos.
Pirâmides. Cilindros. Em
filas de cinema vislumbrei os pesados volumes
da terra sem lei. No Odeon as mímicas automáticas
de luminosas tesouras de titânio, cortando os tíckets
amarelos. As musas sob a pesada lona
exaltavam Wagner e as danças de mãos juntas.
As musas não se entendiam. Forçavam a trilha-sonora
nos narizes. Nas testas. Onde assinavam as cifras
e o roteiro da obra-prima.  Na poltrona, sabia ser Gigante
e subtrair espíritos em pequenos grunhidos. Era permitido
obter a glória na cabeça do vilão. As palavras flexíveis
viriam das bocas das ninfetas e bem antes das letrinhas.
Porque as musas são de bronze. Porque o céu é de couro.
E depois, porque o depois é fim, na última nota do violino e
no último crédito de figurante, todas as películas do sonho
se tornam uma una e imensa gota corporal
fugindo de olhos entreabertos.

 

 

***

 

da arte de versar cimento

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxao João

 

Hoje o dia de louvar o Mestre
que me confessou o criar
……………………….a partir do partir do criar.

Hoje o dia de lembrar do Arquiteto
sua cal antiga sua pedra antirocha
o comprimido      e       o      comprimento
…………………..mili-métricos.

Hoje o hoje do Canônico
as rosas inomináveis
..a desrazão lógica
os retalhos sem berço

…………………………..Ontem Neto
…………………………..Hoje Primogênito
………………………….. …do Poema.

explicar

Borboletas furiosas
invadem minha privacidade: extrair segredos
que souberam das folhas.

Peço que saiam. Com delicadeza.
Mas elas me fuzilam: o que significa essa di  agr  ama  ção
essa TIPOGRAFIA
essa questão metalinguística:
explica o poema fora do poema
explica a lagartixa o tigre o grifo
explica os segredos do fracasso.

Atiro uma receita de remédio
para os problemas de fibra
e acerto o coração lepidóptero. Ela pousa
meio trêmula

azulada

não pela morte
mas por uma fria ignorância.

Os segredos eu não conto
para nenhuma fúria.
No máximo aponto – sem autocalúnia –
o que me redescrevo.

 

(Gabriel Resende Santos nasceu no Rio de Janeiro, na última década do século passado.  Tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas. Atualmente trabalha no que pode se tornar seu primeiro livro. Mantém os blogues Occam, big bangs e outras explosões e Os Escritores Invisíveis)

 


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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

I’m always crashing in the same car

[Diário Sentimental – Julho, 2010]

Maurício de Almeida

 

Sylvia Plath cutuca a orelha do meu pai satisfeita por saber que ele não é alemão, mas mineiro, e assim, ao redor da mesa, comemos uma macarronada pesada e bebemos um vinho barato e depois, singelamente tomados pela languidez de uma maré alcalina pós-prandial um tanto alcoólica, o cigarro caindo mal no estômago, o marasmo carregado deste apartamento suspenso no domingo, Drummond nos explica as ruas de uma cidade que provavelmente não existe (mas meu pai diz conhecer) rascunhando mapas e setas em formulários oficiais e diz

– devagar… as janelas se olham

e, de mãos dadas, Sylvia Plath e eu na sacada contemplamos sem interesse a noite despencando lenta no horizonte limitado desta cidade (que também não existe, apesar das janelas e dos formulários oficiais) e suspiro olhando longe

– eu direi as palavras mais terríveis esta noite

Drummond sorri, mas Sylvia Plath me ignora até que a noite finalmente pesada sobre nós e apenas eu e ela neste apartamento à deriva, a segunda-feira assolando em alarmes, mas, por enquanto, o domingo quente nos envolve em suor, a dimensão amorfa das nossas bocas engolindo-se envenenadas por conhaque e as mãos dela firmes segurando meus braços, espalmando meu peito para escapar num salto e negar o segredo de sua pele quente, o sutiã ainda fechado sobre os peitos, o mínimo de suas pernas abertas, pois ela sentada nesta cama cobrindo-se com o lençol como se de repente tomada por uma raiva que comove as noites mais interessantes de ócio e insônia, e percebo que de pouco resolveriam palavras terríveis, por isso sento-me também, pego o copo de conhaque perdido ao pé da cama e ofereço a ela um gole, pois talvez um tanto mais de álcool aplaque a auto-piedade subindo forte, mas ela teme (ou deseja demasiadamente, não sei) o que há de mais absurdo na embriaguez, palavras confusas, ideias impertinentes e impulsos incontroláveis, e, sem pressa, aponto meu dedo em riste e procuro o tom certo para dizer que o calor deste domingo está me atazanando a libido, mas fico quieto ao vê-la agora em pé expondo seu corpo branco e não muito esguio, ela caminhando devagar em direção a janela, olhando como se não visse o horizonte impossível desta cidade, penumbra de copas das árvores, luzes acessas, letras pairando em neon, ela caminhando para alcançar o rádio, ligá-lo

Those kilometres and the red lights

e pegar a bolsa sobre a escrivaninha com certa displicência e alguma intenção, desarmar a tampa de um tubo pequeno e distribuir um forro espesso sobre uma tira de seda para bolar um inventando origamis com a língua e sumir na fumaça

I was always looking left and right oh, but I’m always

ela ao meu lado e nós deitados e muitíssimo quietos, o som ecoando monocórdio

I’m always crashing in the same car

um arrepio me subindo as costas, a garganta seca e os ouvidos cismados em sons descontínuos

always always always

ela me alcançando o rosto, nossos lábios muito secos investigando-se sem cuidado, um tumulto de línguas, Sylvia Plath me mordendo o pescoço e estes olhos imensos e esvaziados me encarando como se não me vissem, mas eu em estado de graça por esquecer rumores e insônias e conseguir me fingir longe deste quarto à deriva de segundas-feiras

I was going round and round the hotel garage

Sylvia Plath me pesando sobre o corpo para estatelar meus olhos num gozo e dormir um sono tranquilo de criança, então me aconchego a ela, fecho os olhos e a envolvo num abraço para embalar o sono e continuar gestando este momento no meu absurdo ventre de algodão e molas, a paz desta noite plena de fugas, entretanto, ela se contrai e se debate, a janela sopra uma brisa leve que sacode copas das árvores, apaga luzes e avacalha letras pairando em neon fazendo-a acordar, cabelos desgrenhados, olhos amarrotados

– ainda é noite

eu digo e ela apenas sorri

– durma

e ela se espreguiça e se ajeita e redescubro o corpo dela que volta ao sono, meus dedos coçam as palmas suadas para evitarem tocar o pouco das pernas dela que foge ao lençol, alguns pêlos muitíssimo escuros serpenteando a virilha aos quais não resisto e dedilho em compassos lentos os suspiros dela, nossos braços se enfrentam, minhas pernas entrelaçam sem jeito às dela e ensaiamos passos tortos nesta noite que se faz confusa também por ela violentamente em pé, um abandono, um adeus, ela se levanta

– Sylvia?

conturbando as coisas deste quarto que se sobrepõem me compondo isto que entendo por vida e sei não existir saída, pois estamos aos círculos ao redor da mesa, a mesma macarronada pesada e o mesmo vinho barato, o cigarro me acertando murros no estômago para me nocautear neste colchão soterrado por uma pilha de sonhos catastróficos confundindo rostos e medos e, ainda que vasculhe (e vasculho) o que há de mais íntimo neste breu em busca de alívio ou descanso ou qualquer coisa, outra vez me atento à confusão de sons que se explica em pessoas suspirando tédio, questionando a aurora ainda distante e ela pisando leve pela casa

– Sylvia?

não me dando ouvidos

– Sylvia?

não importa o quanto eu diga, o quão alto grite, e eu grito, é claro que eu grito, pois ela abrindo a porta da sala

– Sylvia

para sair correndo por entre copas de árvores e setas neon que Drummond desenhou em papéis timbrados sem se importar com essa ânsia que me corrói em grandes mordidas por me saber dando o mesmo muro na ponta da mesma faca, não posso aceitá-la correndo longe sendo que uma espécie de conforto os dedos dela entre meus cabelos, o corpo quente que eu envolvia num sono, mas agora, às 3h da manhã desta madrugada ordinária, Rilke e Rosa jogam escravos de Jó e, derrotado nesta cama, tenho certeza absoluta de que Sylvia Plath enfiou a cabeça num fogão porque se cansou disto que me cansa.

 

 (Maurício de Almeida é autor de Beijando dentes (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007)

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

 

ENCANTAMENTO

Luiz Otávio Oliani

 

no balde de juçaras
o homem busca
a água de que precisa

no terreno seco
procura o vento

encontra Deus
disfarçado de sabiá

 

***

 

O POETA E O OPERÁRIO
xxxxxxxxxxxxxxA Maiakóvski

 

o que difere
o poeta do operário?

na maquinaria
o trabalho braçal
dá lugar à escolha
de substantivos
verbos
metáforas

se um carrega cimento
terra areia
o outro esculpe o ser
talha a essência

se um usa espaçador de piso
espátula roldana
o outro opera em silêncio
na construção do poema

 

(Luiz Otávio Oliani nasceu no Rio de Janeiro. É graduado em Letras e Direito. Em maio de 2000, foi homenageado com a medalha “Só para Lembrar” no recital “Versos Noturnos” organizado pela SPOC. É detentor de mais de 50 prêmios literários. Publicou dois livros pela Editora da Palavra: “Fora de órbita”, 2007 e “Espiral”, 2009; e “A Eternidade dos Dias” pela Editora Multifoco, 2012)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

 

A SUÍTE DE SILÊNCIOS DE MARÍLIA ARNAUD

Por W. J. Solha

 

 

Deixo-lhe a melodia tecida nas cordas da minha carne, nos acordes da minha memória, na cadência do meu coração, a melodia-existência, labiríntica como o espírito, misteriosa como o tempo, definitiva como a morte. Último parágrafo do romance

Aquela que até agora era conhecida como brilhante contista, não começa o seu primeiro romance (Editora Rocco, Rio, 2012) com ganas de deslumbrar o leitor. Nada parecido com as quatro notas iniciais da Quinta de Beethoven; com a chamada da orquestra e as marteladas de piano que abrem o concerto número um, pra piano e orquestra, de Tchaikosky; com a clarineta virtuosística de Rhapsody in Blue; com a imponência da Abertura de O Guarani. Porque a violinista Duína – a personagem-narradora de Marília Arnaud – não nos quer levar a nada de grandioso, imponente, grandiloquente, arrebatador. Seu clima é o da Ária na Quarta Corda Sol, de Bach; do Adagietto da Quinta de Mahler; a do tristíssimo, lento – e maravilhoso – solo das peças para piano de Éric Satie, como Trois Gymnopédies e Trois Gnossiennes.

– A vida – ela escreve – é uma suíte de silêncios, a longinqua música de Deus.

O cuidado com que Marília Arnaud nos apresenta cada nota de sua Suíte, é o de um solista que fecha os olhos com força,  com doloroso gozo, pra obter os sustenidos mais difíceis e perfeitos do instrumento. Que instrumento, no caso?

Meu corpo, minha unidade. Meu corpo, minha vida. Meu corpo, eu.

É curioso o fascínio que o mundo das mulheres exerce, principalmente sobre os homens. Quando eu trabalhava no filme Era uma vez eu, Verônica – igualmente confessional – perguntei ao diretor e roteirista Marcelo Gomes, se ele iria dizer, depois, como Flaubert sobre sua Bovary, que “Veronique c´est moi”. E ele, rindo:

– Não, não…

Mas eu vi, passo a passo – no papel de pai da personagem – o esforço ingente da grande atriz, que é Hermila Guedes, pra chegar à perfeição de dar corpo à proposta do cineasta. Quem se esquece de Laura, Lara, Scarlett O´Hara, outras grandes personagens femininas do cinema? E de Aída, Carmem e La Traviata, na ópera? E das figuras femininas de Shakespeare, como Ofélia, Cordélia, Rosalinda, Desdêmona, Cleópatra, Julieta, Lady Macbeth? E acabo de ler os originais do excelente Palavras que Devoram Lágrimas, do paraibano Roberto Menezes, que será lançado em outubro, pelo estado, em que há um fluxo de memória de uma personagem louquíssima à la Molly Bloom, via Almodóvar; e leio a sólida resenha do também nosso  Rinaldo de Fernandes sobre Suíte de silêncios e me lembro de seu premiado Rita no Pomar, e não há como não citar  a Ana Karenina, de Tólstoi; a Capitu, de Machado; a Lolita, de Nabokov;  Anna Terra, de Érico Veríssimo; a Diadorim, do Guimarães Rosa; a Gabriela, Tieta e Dona Flor, de Jorge Amado, etc, etc, etc..

Mas

é notável como aumenta o interesse dos leitores quando encontram tais almas em livros diretamente de autoras.  Como Clarice Lispector, Françoise Sagan, Jane Austen, Virginia Woolf e assim por diante, simplesmente porque delas é que se espera mais… verdade.

Suíte de Silêncios é um romance extremamente feminino, extremamente bem escrito, extremamente triste e – sabe o que é dizer isso como elogio? – extremamente lento. Aborrecido? Nunca, never, jamás! E como ela conseguiu? Há uma cena incrível de equitação, no filme Mazeppa, de Bartabás, no qual ocorre uma demonstração de absoluto controle de um galope ao fazer a montaria – a cada movimento – quase não sair do lugar.  Assim, Marília Arnaud – no que tange ao tema de sexualidade de sua narrativa de 190 páginas, por exemplo – entrega-nos um primeiro toque íntimo, o de Victor em Duina, apenas na página 174, e – na seguinte -, a do prof. Ramon. Só na página 179  o grande amor da jovem, João Antonio, faz amor com ela pela primeira vez.  De novo a questão: Como ela consegue nos manter presos a seu depoimento? Como os cavaleiros de Bartabás: entregando-nos – perfeito em si mesmo – cada momento, cada etapa de sua evolução.

1) Foi quando passei a usar camisetas por baixo das blusas e vestidos, para disfarçar os seios de pitomba. Justamente nessa época começaram os constantes suores nas mãos, as espinhas purulentas no rosto, o odor repugnante nas axilas

2) Existiria algo mais bonito do que meu corpo, livre de qualquer reserva, à espera do seu?

3) A carne! (…) Porque tudo é carne, cavidades, secreções, odores, e é tanto, e tão intensamente, que chego a pensar em seu mistério como sendo tão grande ou maior do que o da Santíssima Trindade!

4) Eu o amei como só é possível amar em tempos de guerra, com a lucidez alucinada de quem sabe que aquela pode ser a última vez.

5) Guardar segredos. Sempre fui boa nisso.

Marília Arnaud faz um instigante jogo de espelhos em sua história. A Duína que narra, padece de uma dor insuportável desde que foi abandonada por João Antonio. E conta para ele (na verdade para nós) o que está sentindo e o que está rememorando, também: a angústia terrível – na sua infância – causada pela fuga da mãe com um amante, deixando o marido – e a filha – arrasados.

– Mamãe não voltou. (…) uma manhã como nunca houve outra igual! A primeira sem ela.

O desespero da rejeição que Duína sente e que também vê no pai a  desesperam:

Será que não existe nada mais indigno do que ser abandonado?

Quem viu Morangos Silvestres, de Bergman (Suíte – diga-se de passagem – também me lembra Bergman pela lentidão densa – é óbvio – e pelo  forte vínculo Eros e Tánatos: sexo e morte). Pois bem: quem viu Morangos Silvestres,  lembra-se do velho professor que, em meio a uma viagem de carro, para no lugar em que vivera muitíssimos anos antes, e se vê – a maneira bergmaniana de lhe mostrar a memória – em várias passagens decisivas de sua vida.

Observe a acuidade feminina destas observações de Duína sobre sua mãe, num detalhe dessa imensidão de um passado que não passa:

Um homem atravessou-se na minha infância (…) calçando sapatos brancos.

E ela anota:

– Parecia agitada, a todo instante arrumando o vestido do corpo, ou passando as mãos pelos cabelos. E que jeito de falar era aquele, em um tom frágil e cantado, que eu não conhecia?

É num momento desse que se conhece o romancista. E, mais precisamente: a romancista. E o efeito na própria garota é descrito por ela mesma, décadas mais tarde:

Nesse dia, tive a repentina compreensão de que  (…) em minha mãe existia algo indefinível, que transcendia a obviedade. (..) Essa descoberta foi o meu primeiro abismo.

Claro que o abandono da mãe a seu pai (e a ela) cala mais fundo quando a situação se repete com a partida de João Antonio, de volta para a esposa, deixando Duína, pela segunda vez, dolorosamente rejeitada. E essa última dor torna a primeira maior. Borges fala que Browning é kafkiano escrevendo muitos anos antes de Kafka, mas alerta que atentamos para isso – evidentemente – só depois que Kafka existiu.

Você se fora e eu me dava conta de que, enquanto vida houvesse, sempre se podia perder um pouco mais.

E ela realmente perde tudo: a mãe, Victor, João Antonio. A queridíssima vó Quela não morre, simplesmente: Deixou-me no meio de uma noite, sem despedida. E o maestro? Ao final da apresentação – ela conta do primeiro concerto de que participa – busquei, no momento dos aplausos, em meio aos olhos da plateia, os de meu pai, e o que enxerguei neles me deixou prostrada.

Duína, entretanto, não tem reações como a da personagem de Liv Ullman quando é humilhada pelo comentário da mãe – pianista famosa – à sua performance, no Sonata de Outono, de Bergman.

Toco razoavelmente bem – analisa – na medida da minha mediocridade, que hoje encaro com uma quase indiferença.

Mas a perda de João Antonio – apesar de aceita (Não o culpo por haver partido) – é definitiva.

Fora de mim, além do meu patético mundo de dor e autopiedade, não existia nada. Nada.

Mas Duína tem seu resgate num golpe de mestre de Marília Arnaud:

Agradava-me aquela sensação ambígua e inconfessável de entrega à dor.

Masoquismo? De Duína. Da romancista, orgasmo criador:

Me deixe ficar quieta em minha concha, você bem sabe como aprecio essas zonas sombrias, que me são quase uma carícia.

E foi na frase seguinte que ela descobriu que tinha um belo romance nas mãos:

– Só  a dor nos faz chegar à essência das coisas.

Marília Arnaud prefere selos a um outdoor. Música de câmera à orquestral, sinfônica, coros, trompas, trombetas. Prefere sussurros aos gritos. E, segura da qualidade do que produz, mantém-nos, passantes, no seu passo, compasso. Veja como ela descreve a capela da escola de sua infância:

É um mundo vagaroso, apartado do que zune lá fora, onde o ar é feito de um silêncio solene, que incha nos ouvidos, como se estivéssemos embaixo d´água.

 

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Foto: Viviane Rodrigues

CURTÍSSIMOS CONTOS

Gladson Dalmonech

 

(20)

Haveria poesia sem palavras? – Pensou ele, chegando à praia, de madrugada, sol quase nascendo. Depois, despojou-se da mochila com os livros, da garrafa de vinho pela metade e das roupas. Em silêncio, mergulhou naquele instante em que a onda se ajeita pra escrever poemas obscenos na areia.

(68)

Os ponteiros do relógio avançavam como cães ferozes no tempo. Ele a esperava, mas ela não veio. Nem nunca mais viria. Uma hora e meia e sete cigarros depois, só o que restara dela era aquele isqueiro vagabundo, com os dizeres “eu te amo”.

(102)

O cara o esfaqueou e correu. O outro caiu na calçada, em frente ao bar. Saí da mesa, última cerveja, fui ajudá-lo. “Você tem um cigarro?” – ele perguntou. Acendi e passei pra ele. “Nem precisa chamar a ambulância. Entendo de facas”. – e deu uma tragada funda. “Apenas fique aqui comigo. Morrer sozinho é foda”. Sentei-me ao seu lado e ficamos ali, mastigando o silêncio da espera. Lá longe, o destino assoviava uma canção no vento da madrugada.

(120)

Ele acolheu o sorriso dela numa foto. Lá se iam trinta e cinco anos daquele clique. E a guardou, em preto e branco, no meio das páginas de um livro surrado. Hoje, arrumando sua velha estante, ela voltou à tona – mesmo doce sorriso – quando a foto, num escape da cela das páginas, mergulhou no piso do escritório. A saudade lhe acenou do retrato. Iria visitá-la. O manicômio não era muito longe.

(216)

Voltou da missa, foi pro quarto, tirou a roupa, fechou os olhos, desceu os dedos. O padre novo da paróquia não era coisa de Deus.

(Convivo com Gladson Dalmonech há 47 anos. Ele, que é professor universitário de comunicação e mestre em Estudos Literários, vive às esfregas com as palavras. Sujeito estranho, ganhou o II Concurso de Contos da Playboy, em 1998, e desde garoto tem essa mania de rabiscar suas loucuras onde der. Agora mesmo escreve seus Curtíssimos Contos no Facebook. Não é fácil conviver com ele. Eu já estou preso dentro dele há tanto tempo que até me esqueço que ele tem dupla personalidade)