Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Hilton Valeriano

 

Desde as xilogravuras medievais até as famosas iluminuras, o desenho sempre esteve presente na história da arte. O leitor poderia ser levado a pensar o ofício do desenho como uma forma periférica de uma suposta manifestação artística secundária, visto a predominância da pintura, mas nomes como Albrecht Dürer, Gustave Doré, M. C. Escher e Oswaldo Goeldi evidenciam o equívoco dessa perspectiva.

Rui Cavaleiro Azevedo, artista português de Lisboa, em nossa Sabatina, expressa suas opiniões sobre a arte e o ofício do desenho, sua importância estética, suas relações com a literatura, seus projetos futuros. O leitor é convidado a mergulhar no universo expressionista e humanista desse artista, a discorrer sobre a vivência estética de seu olhar, de suas cenas, sejam elas urbanas, naturais ou literárias.

Rui Cavaleiro / Foto: Elsa Vecino

DA – De que forma se deu sua experiência inicial com a arte do desenho?

RUI CAVALEIRO – Durante os meus estudos, em menino e adolescente, eu era incluído entre aqueles que “não têm jeito para o desenho”. Efetivamente, considero que não fui dotado com qualquer prenda divina, nem para desenhar nem para nada mais, e acho que desenho pior que a média das pessoas. Em menino e jovem, os meus desenhos decorativos e geométricos eram invariavelmente sujos, torcidos e distorcidos. Quando o trabalho parecia finalizado e a régua deslizava pelo papel e deixava atrás dela o rastro de tinta da china borrando o desenho, eu tinha a consciência da minha nulidade no mundo da Arte. Por dificuldade visual, ainda hoje não vejo a perspectiva.

Contudo, passava as tardes em casa desenhando personagens e paisagens inabituais, com lápis de cor e manchas de aquarela, copiando livros de comics.

Tenho na memória, mas talvez seja um sonho, que um dia um professor me disse que se eu quisesse candidatar-me a Belas Artes, ele me ajudaria a preparar o exame. Devo ter sonhado. Além disso, por esse tempo já tinha feito exame para entrar em agronomia.

DA – Como você vê o papel do desenho e sua relevância histórica no campo da arte?

RUI CAVALEIRO – O desenho foi uma das primeiras formas de expressão dos homens. Nas paredes das cavernas, na areia, na argila. Seria para representar a realidade do modo que o desenhista a via, para esconjurar medos e fobias, para contar os acontecimentos ocorridos.  Antes da fotografia, o desenho era, para os biólogos, o modo de registrar objetos e seres dignos de nota. Para os arquitetos e cenógrafos, é o modo de organizar o espaço e a realidade de determinada maneira. Para outros, será um modo de tomar notas ou ainda de distrair a mente, como, por exemplo, desenhar flores durante as reuniões profissionais.

Almada Negreiros, um grande artista português que já não se encontra entre os vivos, disse que o desenho é o nosso entendimento a captar o instante.

Agora, uma confidência. Tentei várias vezes fazer pintura. Segui cursos em Academias em Bruxelas, experimentei várias técnicas, fiz quadros abstratos, realistas, tentei reproduzir os meus pequenos desenhos em grandes telas brancas e virgens. O resultado foi sempre desastroso. Eram quadros simplesmente horríveis. O fato de não dispor da liberdade para apagar, alterar, desenhar por cima, rasgar, faz com que a pintura não seja um modo de expressão adequado para mim.

DA – Mesmo nas cenas naturais ou urbanas, seu traço expressa um olhar que busca a paisagem como dimensão cultural, ou seja, uma vivência humana da perspectiva criadora do artista. Comente esse aspecto de seus desenhos.

RUI CAVALEIRO – Os meus desenhos estão ancorados à realidade. Pode ser uma paisagem, uma pessoa a dormir na praia, uma cena de uma velha fotografia, um cão a brincar. São imagens de outras imagens. É fácil verificar que muitos dos meus desenhos são cópias, reproduções, plágio (!) de outras obras. Parasito, assim, o trabalho de outros criadores.  Contudo, gosto de ser um intérprete da cena, mais do que um observador. Que emoções estão a experimentar os personagens, mesmo sendo eles animais? Esse é um ponto interessante para mim. Se tudo está ligado no universo, se podemos sentir em São Paulo os efeitos de um bater de asas de borboleta, em Lisboa, então, os elementos desenhados numa folha de papel também devem estar relacionados entre eles, com o passado, com o futuro, com o que está fora da folha de papel mas nela está sugerido.

DA – A arte do desenho e a literatura possuem uma longa história. Você tem expressado sua arte também com figuras de escritores e personagens literários, mantendo a relação desenho e literatura.

RUI CAVALEIRO – Esses desenhos são uma simples porta para entrar no Universo do escritor: podem ser uma ilustração da sua obra, como aqueles romances ilustrados do Júlio Verne ou do Alexandre Dumas, que enchiam a adolescência. Eu via o desenho e ia à procura do texto relativo a ele. Ou pode ser a resposta à pergunta: que pensava o criador quando escrevia aquelas ideias, que emoções experimentava ele? A literatura e a poesia são, assim, uma fonte inesgotável para os meus desenhos. Como diria o Mestre Almada Negreiros, limito-me à captação de instantes já passados.

DA – Muitos de seus desenhos expressam no plano figurativo a dimensão estética de poemas de diversos autores. Como é criar um desenho a partir de um poema?

RUI CAVALEIRO – É como entrar no poema e passar para o outro lado. Uma vez mais, é captar, numa folha de papel parecida com outra em que o poeta escreveu o poema, o instante em que o poeta o escreveu. Mas não esqueçamos que, como diz Pessoa, o poeta é um fingidor. Então, o desenho tem que ir além do poema, além do poeta. O desenho pode responder às perguntas: que acontecimento fez com que o poeta escrevesse isto?,  Estaria a chover no dia em que ele escreveu o poema? Estaria ele a falar a sério ou, mais uma vez, a fingir?.

DA – Qual foi a inspiração para a série de desenhos intitulada maternidade? O que você busca como artista ao expressar o nu feminino em seu momento progenitor?

RUI CAVALEIRO – Para o desenhista, o corpo humano é o princípio de tudo, a principal matéria-prima. Na pré-história, desenhavam mulheres grávidas seguramente para compreender o mistério da fertilidade, para agradecer aos deuses o fato da mulher ter engravidado, para assegurar que o nascimento fosse feliz.  É maravilhoso para um desenhista ter como modelo uma mulher grávida, observar as mudanças diárias, do corpo, da pele, imaginar as mudanças do pequeno ser que ela transporta dentro. Sente-se bem? Estará a dormir? O desenhista tem, assim, dois modelos num só e, ainda como brinde, a estória da criação do bebê pelo progenitor, ausente/presente na folha de papel. 

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

DA – Comente sobre a cena artística e os espaços para divulgação de arte em Lisboa.

RUI CAVALEIRO – Confesso que não estou muito metido nos circuitos artísticos lisboetas. Sei que a crise econômica, social, de valores que a Europa está vivendo deixa marcas na produção e comércio da arte em Portugal. O boom criativo e a especulação no mercado da arte terminaram.

Em Bruxelas era diferente. Tenho saudades das pequenas galerias, livrarias de ilustração e banda desenhada, onde ouvia jovens artistas discutirem projetos e outros a explicar os guiões das suas próximas obras. Em Lisboa, nunca consegui apanhar esse ambiente. Porventura, uma dificuldade minha.

Creio que as atuais condições sociais na Velha Europa são o adubo para novas expressões artísticas. As novas tecnologias digitais são um ótimo e eficaz instrumento, mas os grafitis nas paredes das cidades também.

DA – Acredita que, no sentido da originalidade, a ideia de aura do objeto artístico passou a ser uma utopia em nossos tempos? 

RUI CAVALEIRO – A originalidade da obra de arte continuará a ser uma exigência imposta aos artistas e o seu exercício de busca permanente. A tecnologia trouxe uma nova dinâmica para a criação artística. Depois, há um aspecto fundamental: as novas tecnologias e a agenda digital permitem ao artista contemporâneo uma experiência global de diálogo e interação com o público. Os jovens artistas aprofundam a relação entre Arte e Tecnologia, de modo a refletir e a fazer-nos refletir sobre as transformações desencadeadas na sociedade e as possibilidades de socialização dos processos artísticos. Isto é magnífico.

Todos os componentes clássicos da Arte continuam presentes, sejam eles estéticos, sociológicos, morais, religiosos, mercantis, pedagógicos. E as funções mágicas e rituais da Arte continuarão igualmente a poder ser cumpridas.

DA – Há muitos espaços de convergência a serem preenchidos através do papel da crítica de arte?

RUI CAVALEIRO – Veremos o que vai acontecer nos próximos tempos. A realidade mostra que grande parte da imprensa de arte que nos últimos anos constituía uma referência na literatura, pintura, fotografia etc., está a perder público, importância e influência. Isto é fruto de vários fatores, nomeadamente da crise nas vendas da imprensa escrita. Não podemos esquecer que os grandes grupos de mídia são propriedade de grandes grupos econômicos transnacionais, todos eles com uma estratégia global. Onde enquadrar aí os críticos independentes que examinam, comparam, enquadram, opinam e doutrinam? É complicado.

Têm que ser encontrados outros espaços, talvez cyber, com os quais as pessoas se identifiquem e colaborem interativamente, gerando ideias e movimentos novos.

Os críticos, como os filósofos, são fundamentais para indicar os vários caminhos que podemos escolher e percorrer…

DA – Vislumbra algum projeto artístico futuro?

RUI CAVALEIRO – Não tenho projetos concretos. Tenho, já prontos ou em esboço, três pequenos livros de ilustração que, porventura, um dia editarei se encontrar editor. Um deles tem o título de “O cabeleireiro de macacos”. Tenho sempre a vontade de ilustrar estórias de outros autores de quem eu me considere cúmplice. Veremos.

Rui Cavaleiro / Foto: Elsa Vecino

 

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Daniel Gonçalves

 

O amor quando se afasta da tua luz deixa tudo desarrumado.
Caminhas de olhos vendados, tropeçando nas palavras que ficaram por dizer.
Na verdade o que ficou por dizer não foram palavras.
Foi uma casa caiada de fresco, um jardim com tulipas todo o ano.
A cancela vedando os gatos.
Por isso esta cadeira vazia.
De um lado para o outro, carregando e esvaziando o silêncio.
Sempre o silêncio.
Não podia ser outra coisa que outra coisa não sobra quando estás sozinho.
É a balança com que medes os teus pensamentos.
Sai-te do bolso como quem perde moedas e não se importa com o tilintar da miséria.

 

***

 

o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor
saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão
inútil como uma palavra à roda de um poema que não se alumiou

o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar
parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio
deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento

passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa
e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato

já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis
e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza
pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço
ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar

o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram
num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão

e como uma vinha a quem se arrancou o chão antes da vindima
pareces-me abreviada despida exangue impossível descosturada

 

 

(Daniel Gonçalves nasceu na Suíça e é filho de emigrantes portugueses. Em 1983, a sua família regressa a Portugal e fixa residência em Santo Tirso. Estuda em Ermesinde e Braga, onde completa a Licenciatura em Ensino de Português. Desde 1999 que leciona em Santa Maria. A sua obra mereceu vários destaques e edições. Entre os principais prêmios, conta-se o Prêmio de Revelação de Poesia da APL 1997, o Prêmio de Poesia Cesário Verde 2003 e, mais recentemente, o Prêmio de Poesia Manuel Alegre 2010. Os últimos livros publicados foram “a tua luz costurou-me uma bainha no coração” (Editora Labirinto) e “um coração simples” (Instituto Politécnico de Leiria, ambos em 2012)

 

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Gramofone

Gramofone

 

Por Larissa Mendes

 

O TERNO – 66

 

 

“(…) E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente”.
(O Terno, 66) 

 

Terno: grupo de três coisas ou pessoas; vestimenta clássica composta por três peças (paletó, colete e calça); sentimento de doçura ou suavidade. Seja qual for a vertente interpretativa adotada, ela dará pistas sobre as singularidades desta banda paulista formada por Martim Bernardes (voz e guitarra), Guilherme Peixe (baixo) e Victor Chaves (bateria). Fundada em 2006 pelos então colegas de colégio Tim e Peixe (Chaves completou o trio em 2009), 66 é o primeiro registro de estúdio da banda. Com um rock de roupagem retrô, letras inteligentes e bem humoradas, o videoclipe de seu single possui mais de 60 mil visualizações no youtube e a banda foi indicada ao prêmio Aposta VMB 2012, da MTV. Influenciados por Mutantes, Caetano Veloso, Beatles e The Kinks e apadrinhados pelo músico – e pai do vocalista Tim Bernardes – Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, duo com André Abujamra), O Terno contou ainda com a presença ilustre do cantor Marcelo Jeneci tocando órgão hammond no álbum.

Como nos antigos vinis, as 10 faixas são divididas em lados A e B. Enquanto o primeiro lado é totalmente autoral, com composições de Tim, o segundo é formado por releituras de canções de Maurício Pereira. O single 66 abre o disco e dá o tom das inevitáveis comparações que qualquer banda nova sofre: ‘Me diz, meu Deus, o que é que eu vou cantar/Se até cantar sobre ‘me diz meu Deus o que é que eu vou cantar’/Já foi cantado por alguém/E além do mais, tudo o que é novo hoje em dia falam mal’. A melancólica Morto tem uma pegada blues, enquanto a divertida (e sádica) Zé, Assassino Compulsivo conta a história de um serial-killer deveras passional. Completam o lado A, Eu Não Preciso de Ninguém e Enterrei Vivo, talvez as mais expressivas canções do álbum. No lado B, pai e filho dividem os vocais e Pereira assume o saxofone. A inspiradíssima Quem é Quem (‘quem é quem pra dizer quem é o quê’) parece advertir os novatos contra eventuais rótulos. A graciosa (e quase sertaneja) Modão de Pinheiros faz um passeio pelas ruas do bairro da zona oeste paulistana e adjacências, enquanto Purquá Mecê, do disco Música e Ciência, d’ Os Mulheres Negras, de 1988, fala de pássaros e ganha arranjos mais melódicos que o original. Se Compromisso carrega nas guitarras para embalar a poesia de ‘um beijo terno/um abraço gravata’ de Pereira, Tudo Por Ti encerra o álbum em ritmo de ska.

Por razões óbvias, é natural a [boa] influência que Maurício Pereira exerça sob Tim Bernardes e O Terno, visto que a parceria entre compositor e banda data de 2009, quando os músicos foram convidados para elaborar novas versões para o padrinho, culminando no show O Terno & Mauricio Pereira. Além disso, sob o codinome “Pereirinha & Pereirão”, Maurício pai e Martim filho também tocam ao lado de convidados como Wander Wildner, Theo Werneck e do próprio Abujamra. Talvez Maurício Pereira tenha até seu terço de parcela no bom resultado final do cd, mas nada que comprometa os méritos musicais desses rapazes de 20 e poucos anos que, com letras elaboradamente irônicas, fazem um rock nostálgico, meso sessentista, meso anos 2000 e trazem um tom sépio às coloridas (porém, desbotadas) sonoridades atuais. Bem estruturado e com a classe que o modelito impõe, O Terno está devidamente repaginado e tem tudo para ser tendência na(s) próxima(s) temporada(s).

 

* 66 pode ser ouvido, na íntegra, aqui

 

(Larissa Mendes não usa tailleur nem black-tie, mas aprecia música de alta-costura)

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

O OLHAR PRIMEIRO DAS COISAS

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Viviane Rodrigues

Sermos parte de um mundo tomado pelas imagens é fato há muito consagrado em nossas convicções. Entretanto, sabermo-nos capazes de estabelecer pontos necessários de distinção entre o múltiplo que nos assola gratuitamente, gerando excessos vãos, e o lugar salutar de nossas percepções é verdadeira façanha. Em meio a tais dilemas, quem de nós não tenta recobrar, mesmo que por alguns breves instantes, a própria essência?

A busca pela representação de mundo mais original possível encontra um ambiente favorável no universo da imagem. E trabalhos como os da fotógrafa Viviane Rodrigues provam que o ofício de captar a luz se inscreve numa condição mais ampla, na qual seres e lugares mostram-se desnudados frente às lentes de uma atenta observadora.

Utilizando-se do conceito de fotografia orgânica, Viviane promove um mergulho íntimo nas expressões retratadas, privilegiando o atributo in natura de tudo o que pode ser flagrado por sua câmera. Tal como a artista preconiza, o caráter puro da imagem representada é quem norteia o trabalho. Utilizando-se o mínimo possível de intervenções de edição, a catarinense, hoje residente em Curitiba, chama atenção para o significado especial de se ver o mundo tal como ele é, sem ruídos da tão propalada era digital.

Se, de algum modo, perdemos a qualidade de perceber no real a sua força primeira, em Viviane somos convidados a refletir sobre os desvios do nosso olhar pós-moderno. Diante disso, um questionamento: do ponto onde estamos, o quanto de ruídos e desvios roubam de nós o que realmente importa?

Foto: Viviane Rodrigues

Mais do que um valioso registro de nossas humanas idades, a resposta tida em trajetórias como a de Viviane é a da consolidação de um caminho de resistência, no qual impera a aceitação de nossa verdadeira individualidade. Nessa via, certamente, não há espaço para a reinvenção artificial da existência.

Formada em jornalismo, Viviane ministra aulas na área, além de capitanear cursos individuais sobre fotografia e, também, palestras sobre leitura imagética no cinema, imagem e sociedade, arte e fotografia,  arte e cidadania, dentre outros. Adepta da observação e do estudo, a artista acredita que as ferramentas tecnológicas atuais a serviço da imagem devem ser utilizadas com uma noção adequada de responsabilidade artística.

Na sua trajetória, a fotógrafa aponta o projeto Extimidade como sendo um marco fundamental. Derivado de um conceito lacaniano, a série chama atenção para a porção estrangeira do corpo humano, com toda a carga de estranhamentos, valores éticos e morais que o assolam há tempos. Em meio a tal seara, prevalece um modo alternativo de perceber a nudez do corpo, buscando nele um lugar no qual a singularidade humana repousa.

Juntamente com a parceira Juh Moraes, Viviane conduz o site Fotografia Orgânica, projeto que resume de modo significativo a concepção fundamental de seu trabalho, qual seja o de ressaltar leituras autênticas de mundo.

Com uma boa dose de sensibilidade, Viviane Rodrigues revolve a camada dos instantes e ousa nos conduzir pelas tramas intensas do fio da existência. O resultado é um vasto painel poético da vida, com todo o seu denso caráter e, ao mesmo tempo, toda sua delicadeza. O que somos por natureza vale muito mais do que uma mera profusão estética de fuga. E, quando um artista apaixonado nos relembra isso, definitivamente, estamos em boas mãos.

 

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

XIII

Adriana Zapparoli

 

Com o nome prisioneiro no silêncio
aniquila o anacrônico em sua língua-lavanda
e acúleo
além da estação.
O escorpião.
Uma fruição bélica entre a lírica essência
de fruta cítrica (Nárandja)
e o perfume em lençol vestido
pelo sol vespertino.

 

***

 

XIV

 

no código da memória
o deserto da sala de atacama
em ágata – eldorado
são estômago, músculo e vaso
na sombra a projetar a mucama
despida pela paisagem escondida
em tara de bisão
que em carne de pescoço, comunga a intenção
aramada sobre o crânio seus ascos
em botão.
há fissuras que cortam a retina
em boca-de-leão (Antirrhinum majus)
em cultivo o florífero, estio em dia tinto
pela flor-de-maria, um cacho-lírico,
de uva em gotícula.

em vilarejo tântrico
habita-se,  entre véu e o espanto,
o amor-víneo de ensejo
na centelha de um seio-
castonhola, um alçapão de olhos
em crucifixo de desejo.

 

(Adriana Zapparoli é escritora, poeta e tradutora. Seus trabalhos foram editados em revistas impressas e eletrônicas. Publicou as plaquetes de poesia A Flor da Abissínia (2007) Cocatriz (2008), Violeta de Sofia (2009), Tílias e Tulipas (2010), o livro O Leão de Neméia (2011) pela Coleção Caixa Preta, Flor de Lírio (2012) todos pela Lumme Editor. Prevista para agosto de 2012 a publicação da plaquete Lontra Corola Libido, pela Coleção Poesia Viva, Centro Cultural São Paulo)

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Galeria

Foto: Viviane Rodrigues

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Galeria

Foto: Viviane Rodrigues

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Galeria

Foto: Viviane Rodrigues

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Galeria

Foto: Viviane Rodrigues

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Galeria

Foto: Viviane Rodrigues