Imprimir ritmo ao tempo, extraindo dele a noção de liquidez necessária às palavras e imagens elaboradas pelo olhar. Eis um ponto de convergência impulsionador dos percursos da arte como um todo. Pensar assim é fazer com que o substrato das coisas sirva de norte para as criações como um todo. Aquele que escreve, por exemplo, leva a cabo um processo particular de buscas tanto pessoais quanto coletivas. Diante disso, a questão é pensar sobre a importância de se fazer convergir tais universos, colocando em eventos paralelos a perspectiva da alteridade. Indo mais a fundo, é atraente imaginar que a arte evoca um desafio permanente de externar os papéis do ser e do não-ser. Nossa ambiguidade sugere uma inquietação permanente frente a tais estados de atuação no mundo, mobilizando-nos ao nível de um sadio inconformismo. Então, como pensar um motor que move o pensamento artístico sem sentir correndo nas veias a fluidez do estranhamento? De certo, parece impossível conviver com a criação apenas no aspecto da estética ou de uma mera representação do real. Mesmo o gosto pelos mistérios que nos atravessam não serve como pretexto para uma profusão de elaborações sem sentido. É como nos diz nosso entrevistado da vez, o poeta José Geraldo Neres: como inventarmos a roda sem beber na tradição? Nesta conversa, o escritor pontua aspectos que fazem parte de uma concepção bastante especial do ato de criar, qual seja o fato de entender a obra que está por nascer como sendo um grande deserto a se cruzar, sabendo-se a todo instante passível à queda. Aqui, um ato de cair que pode significar um mergulho noutra dimensão útil da consciência. Há, por sinal, incursões dessa natureza nos versos de autores como Mariana Ianelli, Jorge Elias Neto, Ian Lucena, Bruno Gaudêncio, José Carlos Souza, Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo. Entre as linhas tecidas pelas mais distintas expressões de agora, temos o arremate sensível da pintura de Sylvana Lobo a integrar os espaços. E quem nos guia pelos olhares em torno da artista plástica é Renata Azambuja. Seguindo em frente, o lado existencialista das palavras impera nos contos de Marcia Barbieri, Fábio de Souza e Frederico Latrão. O escritor W. J. Solha prenuncia o novo, e ainda inédito, “O Autor da Novela”, romance do paraibano Tarcísio Pereira. Nosso gramofone reproduz a qualidade do novo disco do saxofonista Leo Gandelman. A paixão de Larissa Mendes pela sétima arte traz à tona reflexões sobre o longa francês “Intocáveis”. No terreno da arte, caro leitor, há sempre muito por trilhar. A 71ª Leva mantém aceso o desejo desse pacto.
quando deixei de ser
hipócrita algumas ampulhetas
foram embora
à busca das ampolas da memória
quando deixei de
morrer afora
a clepsidra da mágoa
trouxe tudo de volta
às águas da minha vida inócua
***
Chuva
numa noite movimentada
os fios de prata – tecidos – deslizam
atrapalham as vistas das mentes
pequenas
noutras noites os pingos
grossos metalizam a fina umidade
e se tornam tempestade às mentes
criadoras
apenas num dia árido
muito árido
como aqueles que nem é possível sonhar
a chuva acaba
e a minha visão aguçada
perdura
(Ian Lucena, natural de Cascavel – PR, é poeta, empresário e universitário do curso de Economia)
Dois dias depois de me dizer que não lera meu poema longo Marco do Mundo porque uma virose que lhe afetava os olhos o atormentava, deixando-me muito preocupado, Esdras do Nascimento me passou e-mail falando da entrevista que eu dera aqui para o Fabrício Brandão, no Diversos Afins, e, mais:
– Gostei muito e me interessei por um romance que você elogia muito, nela, O Autor da Novela, de Tarcísio Pereira, que permanece inédito. Você poderia conseguir os originais para mim?
Tarcísio Pereira é um profícuo dramaturgo, romancista de excelente nível e ganhara a Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte com esse livro. Residente, como eu, em João Pessoa, é oriundo de Pombal, no alto sertão daqui da Paraíba, cidade onde vivi oito anos como funcionário do BB. Ele se entusiasmou com o prêmio, e imaginava, por causa dele, ser procurado por grandes editoras afins de publicá-lo, mas botei seus pés no chão:
– Olha, Tarcísio: para mim, pelo menos, a Bolsa não me rendeu nada além do dinheiro que me permitiu uma deslumbrante viagem pra Londres e o pagamento de uma edição do Relato de Prócula pela A Girafa. Quem sabe meu nome – depois de editar pela Record, Bertrand Brasil, Ática, Moderna, Codecri e Itatiaia – esteja em alguma lista negra e pra você, desconhecido delas, a reação seja diferente.
Não foi. Daí que pensei duas vezes, olhando para o e-mail do Esdras, e concluí que deveria fazer a ponte entre ele e Tarcísio. Sua opinião – se favorável – poderia, quem sabe, abrir caminho pro amigo em dificuldade. Fiz isso e, dois dias depois, Tarcísio me manda uma cópia da mensagem que recebera do grande autor de A Rainha do Calçadão, romance para o qual, aliás, eu fizera alentada e entusiasmada resenha para o mesmo Diversos Afins:
Em 19/06/2012 16:06, esdrasn@uol.com.br escreveu:
OI,
Acabo de ler seu romance.
Excelente.
Há muito tempo eu não lia texto tão
bom, tão bem estruturado, tão divertido,
com personagens admiravelmente bem criados.
Parabéns.
Vindo ao Rio, me telefone para um chope. 22851682.
Espero já estar recuperado da paralisia facial que vem
me aporrinhando há dois meses, para que possamos conversar
à vontade.
Semana que vem lhe mando “A dança dos desejos, Opus 13”,
publicado pela A Girafa.
Li a resenha do Solha sobre “O autor”. Muito boa.
Vc deve conhecer o romance do Vargas Llosa sobre
tema idêntico.
O que achou?
Um abraço.
Esdras
Well, I… welll, I…. não veio nenhuma promessa de intervenção para publicação da obra, mas esse e-mail pode ser lido por algum bom editor, agora, que adquira os direitos do achado.
O que é O Autor da Novela?
É um romance que literalmente li – como se diz – de uma sentada só. Faltavam cinco para as onze da noite quando cheguei à última das 170 páginas em A4, que devem dar cerca de 210 em livro. Tive a alegria de telefonar pro Tarcísio às oito da manhã seguinte, pra lhe dizer que gostara muito do livro. Muito mesmo. E que me surpreendera ver quanto o nosso escritor crescera como romancista, de Agonia na Tumba – que já é muito bom – pra cá.
O Autor da Novela tem uma desenvoltura, uma fluência impressionante, por servir-se do expediente das novelas radiofônicas – como a Maria de Todos, criada e dirigida por seu personagem principal – que é a de terminar cada capítulo curto deixando o ouvinte (e o leitor) com a velha pergunta “e depois?, e depois? ”, num macete – salientado pelo próprio Tarcísio, no livro – que já vem da Sheerazade de As Mil e Uma Noites. Para minha felicidade, o romance não só sacia, como sempre supera essas expectativas. Para isso, conta com uma série de personagens dignas de Dias Gomes (que inclusive aparece na narrativa), e várias situações novelescas, todas criativas como o diabo.
A história se passa por volta de 1970, quando a televisão chega a Pombal e à região circunvizinha, onde tudo acontece. Eu estava lá, por sinal, e trabalhei para isso – como presidente do Conselho de Desenvolvimento do Município – sem saber que estava – rs rs rs – lascando o personagem de Tarcísio. Explico: sem se imaginar às vésperas desse evento marcante na vida sertaneja, Diá – O Autor da Novela – evolui de seus trabalhos na difusora do lugarejo onde mora, aproveitando-se de sua experiência de escrevinhador de cordéis desde a infância, para passar a produzir em prosa, na forma de novela de rádio, nos moldes da extremamente popular O Direito de Nascer, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que marcara sua infância. As repercussões de sua criação, bem local, na audiência da cidadezinha e arredores, são todas inteligentemente, humoristicamente exploradas por Tarcísio. E é aí, quando tudo vai bem, no melhor dos mundos possíveis, que o prefeito instala a tal TV na praça central do município, esvaziando toda a audiência do radialista que já se tornara celebridade. Por sinal, em 2002, quando eu trabalhava no filme Lua Cambará, vi, num lugarzinho assim, 70 km ao sul de Fortaleza, uma televisão acoplada a um poste, numa praça cheia de gente assistindo à novela das oito. O efeito dessa novidade no nosso herói fez com que ele me lembrasse Chaplin revoltado com o advento do som no cinema.
Meu grande medo era Tarcísio não sustentar o ritmo contagiante até o fim. Mas ele se sai notavelmente bem também nisso, de modo que a Paraíba já pode se orgulhar de mais uma obra literária à altura de seu invejável currículo.
Bem.
Conclusão. Não vou mais atormentar o Esdras a ponto de fazê-lo constranger-se ante o fato de não querer me dizer que não tolerou meu poema longo. Ele é apaixonado. Quando gosta de uma obra, gosta. Quando não gosta, não gosta mesmo. Nunca me incluiu em sua reiterada lista dos melhores romancistas brasileiros, mas chegou a dar uma oficina sobre meu Relato de Prócula, no Rio, o que me pareceu muito.
Que o livro do Tarcísio Pereira decole.
(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)
?quantas
flores
mortas
ardem
em voltas
sem chegar
a lugar
algum?
***
RETINA
O olho do poema
permanece fechado,
fluente em seu acaso,
buscando o caos.
O olho do poema
escreve o seu atraso,
no teatro tenso
das luzes do mau.
O olho do poema
voa falso
(aos monstros da fala).
O olho do poema
come a razão
(com sua fome de nada)…
(Bruno Gaudêncio nasceu em Campina Grande, Paraíba. É escritor, jornalista e historiador. Publicou: O Ofício de Engordar as Sombras (Poesia, Sal da Terra, 2009) e Cântico Voraz do Precipício (Contos, Via Litteratum, 2011). Membro fundador dos Núcleos Literários Blecaute e Caixa Baixa na Paraíba. Membro do Conselho Estadual de Cultura do Estado da Paraíba. Possui poemas publicados nas seguintes revistas e sites culturais: Correio das Artes (PB), Revista Blecaute (PB), Verbo 21 (BA), Palavrarte (RJ), Revista Macondo (SP), Germina Literatura e Artes (SP) e Samizdat (POR). Atualmente Coeditor da Revista de Literatura Blecaute. Os poemas fazem parte do seu segundo livro de poesia, intitulado Acaso Caos, a ser publicado no início de 2013)
Ele ressonava, de modo que pude surpreendê-lo com o afago delicado na nuca suada. Parecia ser sempre assim: quando ansiávamos algo, vinha a tal necessidade do corpo do outro, como se daí fosse provável extrair não o calor, ou a aspereza da pele, mas um pouco da nossa própria subsistência, do afeto que nos garantiria um pouco mais de tempo, sim, essa urgência toda a nos impelir ao toque. Da janela, todas as tardes, era possível sentir o dia inflamar-se de um calor que segregava essas horas insondáveis à beira do sono, quando tudo o que tínhamos era que aguardar que esses corpos aí arrancassem um do outro um certo gozo sofrível, quase às raias da inanição. Para então desabarmos, como se ruísse a carne. Nessas horas me esquecia de quem eu era, se homem ou mulher, para experimentar daquele ranço à beira do sono. Ali mesmo. E desconfiava se de mim não se esvaia a vida, sem que eu sequer a sentisse. Beijei-lhe a fronte, então. Um gesto providencial, como se a reafirmar minha própria existência ao seu lado. E notei que ele ainda dormia. Num timbre aveludado, quase um sopro a afetar-lhe naquela iminência insuspeita, tão imerso que ia: “vamos, acorde”, eu disse…
***
ESTRANGEIRO
No pesadelo da noite anterior eu morria nessas paragens. Velho e só, feito agora. Uma tarde igual a essa, quente e de brisa nenhuma, o ar como que estagnado. Um mal que me acometia num desses repentes. Me levava até a última memória. E lá ficava eu, oco por dentro, minguando sob aquele deserto todo, azul e ofuscante, qual esse que já me assola o juízo. Piso o cimento, ensaio palavras numa língua que mal sinto o gosto. Tarde de domingo, acho. Caminho a passos omissos. A estação rodoviária deserta. Penso se chegaria ao fim de tudo. Esqueço o propósito de minha viagem até ali. Deixo de buscar o endereço horas depois, mais ou menos quando me perdi. Mais ou menos nesse instante, quando resolvi entregar os pontos e ceder. Sim, mais ou menos aí, quando eu já não tinha mais forças para exigir coisa alguma de minha vida àquela altura. De modo que sentei. O banco de pedra de meu pesadelo. E esperei, sobre o dorso das horas. Esperei que algo me ocorresse. Uma puta dor no peito…
(Fábio de Souza é escritor. Nasceu em Cuiabá, MT, em 1987. É colaborador dos coletivos literários “Dona Zica tá braba” e “Filacantos”. Reside atualmente em Brasília)
na varanda
o sol se desdobra
arranhando os vãos das telhas
despencando em lanças de luz.
mofo e fuligem
no interior
das veias.
amanhã
a vida
terá outro nome.
***
sonhando manhãs
nos varais da sorte
há um riso
que amarro entre os dentes.
palavras não deixam rastros
entre a voz e o soluço.
passarinhos no ar
arquitetando ninhos
sequestram o luar.
permaneço sentado no vazio
sonhando manhãs.
(Algumas pistas: Sou baiano de Santo Antonio de Jesus, vivo entre a poesia e a música e teimo em acreditar no valor da amizade. Contato: aldebara743@gmail.com)
Entre aquilo que efetivamente somos e o que pensamos ser, há um hiato por vezes imperceptível. Coisas se agigantam e somem diante de nossas mais firmes certezas e arremates. Cenários se revezam de forma frenética, transpondo o pano de fundo de tantas investidas e revelando que o fio delicado da existência atravessa toda sorte de pretensões. Caminhando um pouco mais por sobre a passagem do tempo, talvez consigamos perceber que o jogo dos extremos flerta a todo instante com nossas hesitações. E assim, sabendo-nos duais por natureza, firmamos o pacto de sermos som e silêncio na medida em que a vida e seus imperativos pedem passagem.
Quando a arte assinala lembranças em torno dessa ciranda de signos em que estamos envoltos, muitos horizontes podem se descortinar. E gente disposta a tecer representações dessa natureza não é algo tão raro. Exemplo vistoso disso é quando nos permitimos ouvir VIP VOP, o mais novo trabalho do saxofonista Leo Gandelman. A começar pelo título, o músico já deixa clara a sua intenção de provocar nossa atenção rumo a uma jornada que sabe ao instigante e complexo universo das porções humanas.
Enquanto a porção VIP (Very Important Person) remonta a uma espécie de Olimpo do ser/estar, sua correspondente antagônica, VOP (Very Ordinary Person), por sua vez, firma os pés no chão sem aniquilar as asas de Ícaro. Da combinação desses dois termos, prevalece muito mais uma noção de complementaridade do que uma mera oposição de sentimentos. E sermos, ao mesmo tempo, especiais e comuns é condição necessária para que a lucidez não afaste o sonho, ou vice-versa.
O fato é que o norte escolhido por Leo Gandelman aponta veredas sublimes em torno dos contrastes que moldam nosso barro. O disco de então prima por um traço bem digno de um vigor poético, trazendo à tona todo um percurso apoiado em gêneros como a Bossa Nova, o Samba e o Jazz. Nesse ambiente de fusões rítmicas, cada faixa deixa exalar o quanto de pesquisa musical habita a vasta carreira do artista. A condução dos arranjos e a disposição do repertório são pontos precisos do álbum, tecendo um painel de sensações que se apoiam em recortes valiosos de nossa brasilidade.
Do mosaico de imagens sonoras percebido no disco, chama atenção a intensidade de composições como Sinal Vermelho, Nego Tá Sabendo, Vip Vop e Numa Boa. Do mesmo modo, uma aura de delicada beleza toma conta das escutas em torno de Luz Azul, Neshama (Para o Meu Pai) e Alma Cubana. O time de músicos, composto por David Feldman (piano), Alberto Continentino (baixo) e Renato Massa (bateria), é virtuoso e reforça de modo especial o caráter de permanência da obra.
Com 10 discos solo na bagagem e uma trajetória de projeção nacional e internacional, Leo Gandelman consolida em VIP VOP uma maturidade musical deveras importante. O artista visita cenários de nossa rica sonoridade sem apontar para a tão desgastada noção da releitura. O resultado é um mergulho autêntico por sobre aquilo que está entranhado de modo valioso em nossa cultura. Ao penetrar cada espaço materializado na alameda instrumental do álbum, cotejamos o equilíbrio do ser como forma de sabermo-nos parte de um lugar que nunca estará cheio nem tampouco vazio. Bom mesmo é saber que o lado sublime das coisas afugenta excessos.
descortinamos a sombra avulsa que mastiga o sol faminta por entre os monturos …da tarde surge nas vértebras do tempo uma nuvem de abismos
estática da agonia que não se comunica com seus vultos abandonados
feixe de evasivas o pavor diante da pilha de cenários vazios a cidade …regurgitando a própria memória como último recurso para evitar a asfixia mas …o cansaço reveste os corpos de desamparo e as esculturas perambulam pelas …galerias sem ninguém
no chão o ruído de madeira reclama as tiras das frestas que atam as cenas …germinando lentas diáfanas tendo que relutar
contra o espaço desabitado dos cenários recolhem o movimento imperceptível …dos sentimentos
nos fios das travessias emaranhados como um casulo na curva da clavícula …tecemos nossa ausência com as fibras das garoas finas
caída nas costas do crepúsculo são corpos que mudam de lugar cruzam as …artérias de um mundo desolado
enlutam os cabides gastos pela melancolia escrevem os nomes trocados para …confundir a dor
há muito que reúnem as estações para pequenos tragos na madrugada quando …revivem as imagens desfeitas e destacam passagens incongruentes da …narrativa de suas vidas incomuns
sedimentando desvios nos fósseis da ressonância urbana
as pernas sonâmbulas dos sonhos no branco do teto deixam marcas longas e …frágeis de nervos de folha desgastada de verão devoram as cicatrizes …rudimentares de umas poucas utopias que rastejam por monturos cartazes …aniquilados detritos surpresos orquestração de misérias
fomos descortinando a pele dos desgastes tateavas um palimpsesto aqui eu …mascava uma imagem putrefata ali a memória não alcançava o dia seguinte
perdemos a história
já não sabemos em que tempo conjugar os verbos
***
MASCARALVO
a noite e o problema confinado jogo de despistar o solitário
noite de sexo sem a coroa de estrelas não te conhecem as cigarras o bafo quente …..das sombras macias
somente as silhuetas dirimidas no breu dissolvidas as cores do dia na saliva da boca
para dizer que tudo se esvai mas permanece este delírio
arrancar a ilusão do duro das paredes
buscar as amarras o equilíbrio das gotas de chuva no limiar do arame na ponta …..dos espinhos
minto carnavais e feriados noite de sexo sem a purpurina vermelha sem a pérola …..branca
o estranho gosto do amor na boca amanhecida com atraso
lençóis rachados como os lábios do deserto de teu olhar contrariar a roupa ao vesti- …..la
gemidos entranhados entre a meia e o sapato não te vás não me sigas
o sol se retrai indeciso sobre o disfarce que usará
a janela se espreguiça com um gato decalcado em suas vértebras
o mundo não vai a parte alguma nem sei ao certo quem és
rumino as penumbras dos gestos e algo quebra a casca fina da manhã gelada onde …..as primeiras luzes surgem indiferentes inventam o cotidiano no gargalo dos …..recintos
imperturbável na hora do despertar
nascem os corredores de reflexos matizes promissoras e lembranças viajantes que …..vagueiam no vasto do dia que vem sem ti
e precisamente onde não estás recupero o que houve de melhor entre nós
e o faço entornando a jarra de felicidade com que sei que nada voltará a se dar
(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram “Autobiografia de um truque”(2010) e “Susana Wald – La vastedad simbólica”(2012))
(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)
Com a disciplina de um artesão, levantou junto ao sol e preparou o café da maneira mais tradicional possível: água quente no bule, mas não fervida, e jogada diretamente nos grãos torrados e recém-moídos colocados em filtro de pano. Logo a cozinha e a casa se preencheram do mais intenso perfume. Com uma xícara fumegante em uma bandeja, voltou ao seu quarto pisando devagar, desviando dos calçados e das roupas jogadas no chão durante a madrugada. Ela, em meio aos lençóis revoltos e ainda com os pensamentos amarrotados, se senta na cama, olha para a cena e toma a xícara tímida, retirando os cabelos do rosto e segurando as lágrimas pela emoção de estar sendo tratada como nunca havia sido antes.
Ela odeia café.
***
DEMISSÃO
As coisas pessoais que guardava em seu antigo escritório estavam todas dispostas em apenas uma caixa. Não queria levar muita coisa dali. Nada de lembranças. Elas, para ele, são meras bagagens esquecidas por aqueles que passaram pela sua administração. Também nada de levar os troféus ganhos pelos bons serviços prestados. Eles ficarão dispostos nas prateleiras para que sirvam de recado para aquele que chegará em seu lugar, um aviso singelo de que terá muito trabalho pela frente. Assim, pegou sua pequena caixa e saiu. Ao abrir a porta, viu todos os antigos subalternos dispostos em um corredor, batendo palmas. Muitas palmas. Mal se escutava a sua voz dizendo obrigado. Muitos choravam de emoção. Já o ex-chefe, seguia agradecendo e sem nem ao menos mudar a expressão.
Ao sair de vez do inferno, todos os demônios se perguntavam quem ocuparia o lugar de Lúcifer. Os rumores dizem que o posto será de um demônio muito mais novo e com um currículo invejável, mas que fará o mesmo trabalho ganhando bem menos.
(Frederico Latrão é escritor, poeta, haicaísta e uma doce fraude, pois é o eu-lírico sem rosto do jornalista Gilberto Porcidonio no blog Versos Patéticose no twitter @FredericoLatrao. A alcunha pomposa lhe veio em um sonho durante um retiro espiritual e após o uso exacerbado de substâncias com alto teor cafeínico)
Dá-me um acontecimento
E eu nada direi sobre isso.
O crime perfeito
Será meu segredo
Fechado por dentro
Em silêncio
Como um vício.
Face à justiça dos homens
Há de me salvar
A vida rotineira
Entre mil outras tão parecidas.
Irei mansamente,
Azul sobre azul,
Sem que desconfiem.
(Quase diurna, eu diria,
Não me turvasse o delírio.)
E no passeio dos lobos,
Teu sangue meu sangue,
Para o chão
Águas e limites.
Repleta do terceiro corpo,
Em asa de luz
Nada direi sobre isso.
De línguas mortas
E um tempo morto
Farei caixa de guardar
Minha fé ilícita.
***
O AMOR E DEPOIS
Era esperado que aos poucos
Definhasse, fosse desaparecendo
Naturalmente levado pelo sono.
Era suposto que por abandono
Morresse –
E não teria o vento nenhum sentido
De ventura, seria apenas
A passagem de uma hora branca,
Entre outras tantas,
Para um coração manso
Que já nada espera nem recorda –
Como se o tempo não devorasse
Também o desconsolo,
E dele fizesse exsudar um leve perfume,
Como se não arrastasse
Cada corpo uma penumbra,
Como se fosse possível
Em vida a paz dos mortos.
(Mariana Ianellinasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007) e Treva alvorada (2010), todos pela editora Iluminuras. Participou dos livros Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Ed. Casa da Palavra, 2009), Roteiro da Poesia Brasileira – anos 90 (Ed. Global, 2011), Caminhos da Mística (Ed. Paulinas, 2012), entre outros. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008 recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011 obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)