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72ª Leva - 10/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Mercedes Lorenzo

Erguer uma nova edição é, de certa forma, deixar-se conduzir pelos imperativos de um fluxo especial de comunicações. Nessa perspectiva, dois pólos mostram-se intimamente relacionados: a manifestação espontânea dos criadores, através do interesse em terem suas obras apreciadas e, do outro lado, a busca própria da revista pelo conjunto de expressões que melhor se identifiquem com sua linha de publicações. Desse equilíbrio de ações, surgem descobertas significativas as quais reforçam o valor dos encontros, aspecto tido como essencial em nossa jornada editorial. Não haveria sentido em tocar o projeto adiante se, diante de tais convergências, não fosse possível estabelecer uma conexão de linguagens múltiplas e consistentes. Mais do que uma proposta supostamente ordenada de resultados criativos, estamos sempre à procura de epifanias que permitam a transgressão. E transgredir sugere um algo muito além de uma mera quebra de barreiras. Aponta também para a capacidade que uma determinada obra possui de deslocar nossas leituras de mundo para lugares desabitados de obviedade e inércia. Basta observar detidamente a verve poética de gente como Carla Diacov, João Filho e Carolina Caetano para percebermos que o “modus operandi” da criação reflete um teor singular. Contribuem também para o ambiente onde os versos denotam um cuidado valioso com forma e conteúdo as manifestações de Diego Tardivo e Silvério Duque. No campo das imagens, as fotografias de Mercedes Lorenzo retiram da matéria cotidiana os vestígios deixados pelas complexas andanças humanas. Há substância, entrega e domínio textual que roubam a cena na prosa de Alice Fergo e Yara Camillo.  Na Pequena Sabatina ao Artista, o poeta e editor Floriano Martins estabelece um diálogo musical vigoroso com o cantor e compositor Graco Braz Peixoto. Em sua resenha sobre o filme argentino “Elefante Branco”, Larissa Mendes pontua o denso apelo social presente na obra. W. J. Solha nos propõe um percurso pelos ensaios e poemas dispersos em “Psi, a penúltima”, livro de Soares Feitosa. Outro valioso convite à leitura nos é apresentado pelo escritor Geraldo Lima, quando discorre sobre o novo rebento literário de Vera Helena Rossi. O dramaturgo Paulo Afonso de Souza Castro expõe reflexões e perspectivas em torno do teatro. Em nosso gramofone, giram as canções do segundo disco de Tulipa Ruiz. Eis uma nova Leva, caro leitor, coberta de signos e outras tantas vias por descortinar.  


Os Leveiros

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

João Filho

 

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

ESTAMPA

 

01

 

Sempre falta alguma coisa
feito saída de viagem,
porém nada foi esquecido,
definitivamente certo:
sempre falta alguma coisa —
no vôo errático da ave
em busca, no acúmulo de
atos, na escolha do vário,
no acatamento do imenso,
na recusa da identidade,
ou disso tudo o contrário, mesmo
que não veja, falta alguma
coisa, que se concretiza em
trajeto ou imobilidade.

E essa falta integrante do
ser que ao Ser aspira ergue com
sua falha uma divisa
onde se apoia, um momento,
e é toda a sua cantiga.

 

02

 

Sei que esperamos, sei.
O sonho que se desata?
Na sala o terror súbito?
O até aonde nos for dado?
A Volta em julgamento?
Quem apressa a data sai
de dentro da esfera; quem
cada momento amarga,
ainda espera: a possibilidade
aberta que deságua em
Atlânticos de sentido,
no sempre espanto ou no
todo apagamento.

A espera e as suas leis,
a sua disciplina
austera e demorada, aqui nesta
brevidade que nos é
dolorosamente doada.

 

 

***

 

 

IMPONDERÁVEL

 

Quando nosso deus envelhecer
virá uma morte maior, de
nada adiantará os colossos
erguidos nas planícies e nos

desertos, nas montanhas sem fim
de nossa alma em sua jornada
agônica pelos séculos;
de nós salmo nenhum ao vento

dirá se fomos loucos ou belos;
porém no espelho insondável e
eterno, além de nossa pobreza
e vaidade, quem há de constatar

que nossa estadia não foi um
capricho? Nós, os imponderáveis.

 

 

(João Filho plana no blogue voo sem pouso e já assentou em várias antologias pelo Brasil adentro e afora. A última foi Geração Zero Zero, fricções em rede, organizada por Nelson de Oliveira. Individualmente pousou três vezes, em 2004 com os contos de Encarniçado, em 2008 com os poemas de Três sibilas, em 2009 com os contos de Ao longo da linha amarela. Espera que o seu pouso definitivo demore muito, até cansar as asas)

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

Elefante Branco (Elefante Blanco). Argentina. 2012.

 

 

 

‘Sonho em morrer por eles. Ajuda-me a viver para eles’.
(Pe. Carlos Mugica)

Como bradaram os Titãs, no final da década de 80, em uma de suas músicas mais emblemáticas do álbum Õ Blésq Blom: ‘miséria é miséria em qualquer canto’. Ainda que tal problema atinja dimensões universais, o cinema lírico-realista do portenho Pablo Trapero – um dos diretores sul-americanos mais renomados no exterior – explora o tema de um modo peculiar. Em Elefante Branco, seu sétimo longa-metragem, ele desconstrói o que poderia se tornar mais um abrasileirado favela-movie para questionar o papel do estado, das milícias e principalmente da igreja no conturbado ambiente das periferias. Há uma humanização simbólica por parte dos sacerdotes: eles vestem jeans, falam palavrão, bebem e fumam. E isso não só os aproxima dos habitantes da favela onde pregam como conquista a simpatia dos espectadores. A película dialoga com a floresta e o subúrbio, a brutalidade e o altruísmo, a caridade e a (in)justiça. Sim, riquezas são diferenças.

Sobrevivente de um massacre, enquanto estava em missão na selva amazônica, o padre belga Nicolás (Jeremie Renier) foi resgatado por Julián (Ricardo Darín) para ser seu sucessor no trabalho religioso-social da Villa 31, uma das maiores favelas dos arredores de Buenos Aires, onde vivem mais de 30 mil pessoas. Ali, Julián comanda uma paróquia e, com o apoio da assistente social Luciana (Martina Gusman, esposa do cineasta e atriz de quase todos seus filmes), supervisiona a construção de casas populares no terreno onde seria instalado o maior hospital da América Latina – projeto idealizado pelo socialista Alfredo Palacios, em 1937, e inacabado durante diversos governos – ou seja, o elefante branco que dá título ao filme. Mediadores entre traficantes, moradores e policiais, os três voluntários dividem o hospital abandonado com cerca de 300 famílias e o utilizam como QG para administrar seus projetos sociais, conflitos internos e dramas pessoais, sobretudo quanto à contribuição real de seus esforços e à vocação celibatária.

O sucessor de Carancho (2010) – denúncia sobre a máfia dos seguros de automóveis na Argentina, também protagonizado por Martina Gusman e pelo sempre intenso Darín, que empresta mais uma vez todo seu talento e carisma ao roteiro de Trapero (novamente em parceria com Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre) – tece, simultaneamente, uma crítica social, política e religiosa acerca do processo de favelização e da violência gerada pelo narcotráfico. Se no filme anterior os personagens eram parasitas uns dos outros com o intuito de enriquecer, aqui eles doam seu tempo e sua própria vida unicamente na tentativa de salvar o próximo. Mesmo que a situação seja dura, fica subtendida a mensagem esperançosa de fé, seja de forma prática ou espiritual.

Com uma temática visceral, porém de muito apuro estético, o filme abusa dos planos-sequência desde cenas prosaicas até as mais violentas, conferindo um caráter coadjuvante e quase documental à trama. Exibido no Brasil de forma inédita durante o Festival do Rio 2012 (27 de setembro a 11 de outubro), Elefante Branco é inspirado e dedicado ao Padre Carlos Mugica, mártir ligado ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo (MSTMU) – espécie de ‘socialismo religioso’ originário na Argentina nos anos 60 – assassinado em 11 de maio de 1974. Em escala local e contemporânea, estendamos a homenagem a todas as vítimas do massacre do Pinheirinho e aos desabrigados das comunidades de São Paulo, atingidos por mais de 30 misteriosos incêndios. É, a morte não causa mais espanto.

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Carolina Caetano

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

Jacim

 

,Sobretudo, quando ouvia
dos boleros, o ‘boneca cobiçada’
e temia ter identidade de música
entidade de cadeira de balanço
tricotava suas rugas no algodão
entidade de ouvir boleros
na idade que tinha. Pensava
que devia todo homem
poder se parecer com barbante.
Dez anos depois do seu pensamento,
porque formavam-se os dez anos de Jacim
o neto mais último, da filha mais nova
e que não mais faria filho pra não ter de diferença
dez anos entre irmãos
Dez anos depois de pensar nas semelhanças
que deveriam os homens poder ter com as coisas
pra que fossem mais sabidos
pois se pudessem se comparar a um garfo
entenderia mais o homem
de ser homem
e o garfo de ser garfo
mesmo podendo um cumprir o outro quando algum
do outro lhe faltasse;
passou a observar com espanto e descobrimento
como se ali houvesse a nascer
uma terra nova e a promessa de conserto dos homens
que dali brotassem
passou a observar com mais descobrimento que espanto
que o neto Jacim, o mais último, parecia poder
se parecer com barbante.

O menino não podendo desfazer
da responsabilidade de poder
se parecer com um barbante, passou a poder
se parecer com o que pudesse ter sido a mais primeira
das coisas que seriam novas dali em diante:
o primeiro homem dos que nasceriam certos depois.

Tendo tal fardo de primogenitura à nova humanidade
e cônscio do que deveria parecer como exemplo
o menino que era filho de tamanha responsabilidade
e o único que havia com feição tão apropriada
pra se chamar Jacim,
não podia deixar de sentar-se ao pé do pé de manga
e esperar que começassem a nascer os de então prometida ninhada.
Ao esperar, sem que nada o pudesse lhe fazer pensamento
e agraciado por nada ao pé do pé de manga
estar pensando, pois não haveria diante da manga
e da circunstância, qualquer utilidade
que pudesse dar a um teimoso pensamento.

Restou que como guardião de certa nova
humanidade
chupasse a manga. E incumbido
de tamanha orientação, determinou-se
gozando-a.
Na carne amarela sumarenta
escondia tão fundo os dentes
que temia não encontrá-los:
como um cão com o osso, o seu osso eram seus dentes.
Nem deixava gota escorrer da fruta
e foi sua primeira experiência sexual.
Agitou sua língua até o caroço da manga
alguns pedaços engolia sem mastigar
e gostou sentir a carícia no pé da língua e no palato.

O menino encarregado de tal orientação
como também gostava de bolero
depois de colocar a manga sobre o acontecimento
de sua primeira ereção
como não queria se atrapalhar entre as coisas
teve um mais primeiro pensamento
de que não queria mais se parecer com barbante
e que devia de se assemelhar era com um peixe
e poder parecer rio.

 

(Carolina Suriani Caetano, nascida em oito de setembro de mil novecentos e oitenta e nove. Uberaba. Minas Gerais. Serrado)

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TULIPA RUIZ – TUDO TANTO

 

 

 

Tulipa Ruiz ataca de novo: fato consumado. Não foi uma emoção “efêmera” acreditar que a cantora e compositora aconteceria bem mais do que um instante primeiro. Não, não foi. E o ato de pensar que as coisas não cabem em si mesmas pode até justificar, de imediato, o título da nova investida. Tudo Tanto é, sim, uma espécie de incontido, talvez o algo indefinido da pós-modernidade. E deixemos de lado as redundâncias aparentes desse somatório de palavras que se traduzem no rumo da intensidade.

O segundo disco dessa arrojada criadora é um beijo de língua na contemporaneidade. Sem exageros e afetações, a moça se agarra ao presente como o único lugar quase certo que habitamos. Seu canto preciso emana de lugares que não deixam a vida parar de girar. Nada de promessas do paraíso nem tampouco receitas prontas de felicidade, principalmente quando a tônica é falar do amor e seus apetrechos. Viver, aqui, é fazer travessias sem saber o que está do outro lado. A receita é tatear o invisível e não profetizar os desvios. Apenas seguir.

A marca autoral de Tulipa confere uma singularidade aos caminhos percorridos, tanto que seu traço criativo está espalhado por todas as faixas do disco. Diga-se de passagem, o peso que a porção de compositora exerce sobre o trabalho da artista é significativo e reforça as bases de um perfil cada vez mais próprio. Se em Efêmera (primeiro disco da cantora) já tínhamos pistas do terreno valioso no qual nossos ouvidos estavam penetrando, agora fica a certeza de que algo muito melhor estaria à nossa espera.

Tudo Tanto é, sobremaneira, um disco sensorial, repleto de experiências não apenas sonoras, mas também imagéticas e quiçá táteis. A canção “É”, por exemplo, espécie de abre-alas, já nos coloca em conexão com a dinâmica dos sentimentos sublimes em torno do amor e da vida. E tudo ali a passar como num filme no qual cada um de nós se identifica à sua maneira. De fato, o que há de sobra no álbum é uma multiplicidade de cenários possíveis para nossa volátil existência.

Cada trecho desse agradável percurso musical tem algo a ser degustado e digerido sem medo de reações adversas. Mais provas? Basta captar as vibrações de Ok, Quando eu achar, Desinibida, Dois Cafés (com Lulu Santos), Bom e Cada Voz. Em Víbora, canção escrita em parceria com Criolo e que pode muito bem servir como verdadeiro ápice do disco, Tulipa mostra que seu momento é precioso, intenso e agarra com todas as forças de sua lírica voz o universo que a canção lhe oferta.

Para tornar o ambiente ainda mais especial, é impossível passar despercebido pelos arranjos de cordas e madeiras assinados por Jacques Mathias e devidamente regados a violino, violoncelo, viola, clarinete, flauta e clarone. Some-se a isso o dedo valioso de Gustavo Ruiz, irmão da cantora, na produção do álbum e na composição de algumas canções.

Em sua atmosfera essencialmente pop, Tudo Tanto é bem construído em forma e conteúdo. A simplicidade das letras ganha uma dimensão mais ampla quando somada ao precioso trabalho vocal de Tulipa e aos vigorosos arranjos. Falar de relações, sobretudo amorosas, não é tarefa das mais fáceis. E isso parece fluir com certa leveza nas mãos habilidosas da artista que sabe, como ninguém, transitar por lugares que tiram a maioria das pessoas do sério. No embate entre sentimentos certeiros ou imprecisos, tudo se desloca para adiante e o passado pode representar apenas uma mera lembrança nada nostálgica. Tudo isso talvez “porque estar vivo já foi mais estranho”.

 

 

* Tudo Tanto está disponível para download no site da artista


 

 

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72ª Leva - 10/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Yara Camillo

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

DUAS VIAS

 

Ele abriu a porta do carro para que ela entrasse.

– A velhice dando passagem à juventude?

– Não: a sabedoria dando vez à pretensão.

Riram. Era uma brincadeira antiga, da época em que se conheceram: ela, preparando a tese. Ele, o orientador que não chegou a sê-lo… A relação aconteceu e, de comum acordo, decidiram que ela procuraria outro professor. Nem por isso a pressão foi menor. Em muitos olhares, o imediatismo rotulava, sem sursis: veterano-estende-as-asas-sobre-a-novata. E poderia ter sido pior; tivesse a “vítima” alguns anos a menos e o crime estaria consumado, não se podia brincar com essas coisas.

A maré do politicamente correto extrapolou, afrontando os limites do bom senso – dizia ele. – Facilite… E até Lolita e Morte em Veneza acabarão queimados em praça pública.

– Não exagere – dizia ela.

Ele ria:

– E a lei contra os Adônis que enfeitiçam os velhinhos? Deveria existir uma, não?

Ela ria:

– E qual seria o nome desse crime… Gerofilia?

– Sim… Muito próprio. – E ele improvisava a premissa: – Não gerofile, para não ser pedofilado.

– Proponha esta na próxima reunião e estaremos condenados em duas vias, sem direito a habeas corpus.

– Falando em habeas

– Falando em corpus

A brincadeira se repetiu ao longo dos anos, mesmo depois de perder a graça; ela, mais que ele, chamava o riso como tábua de salvação, como refúgio das crises que também se repetiam, indefinidamente.

Passado o espanto geral, que de roldão consumira também certos encantos, as coisas começaram a se acomodar. Ninguém mais estranhava a parceria, nem a ironia que permeava o enredo natural daquele amor: ela, já não bastasse os muitos anos a menos, aparentava ser tão menina… Para entrar no cinema, só mostrando Identidade que provasse ao menos dezoito, dos vinte e três já completos. Ele, em contrapartida, já aos dezesseis se passava por “maior”, nos bailes e cinemas da cidade interiorana onde nascera. Cabelos precocemente grisalhos e o sagrado costume da cerveja completavam o quadro, adiantavam o tempo e, aos olhares alheios, alongavam mais ainda a distância entre os dois.

O tempo. O curso. Da universidade e das coisas. E a tese, que não saía nunca.

– Se você não pode ser meu orientador, então não quero mais ninguém – ela dizia. E se por algum tempo esse argumento surtiu efeito, foi também se desgastando, como tudo, como um todo.

– Não era isso – ela confessou, numa das raras noites de cerveja que conseguiram a sós, porque a universidade era um mundo que se estendia para além do campus, até o bar, até a casa, até os amigos e tantas horas compartilhadas. – A Dança seria o princípio e, a Geografia, o meio… Sabe? O meio pelo qual a Dança viria a acontecer, sem as amarras das concessões profissionais necessárias à sobrevivência. Mas tudo virou do avesso, a Geografia se espalha e não faço outra coisa a não ser projetos.

– Não há lugar para dois, com a Geografia. Ou é ela ou é ela, se é que você me entende, e eu às vezes acho que não.

– Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no tempo e no espaço? Nunca, dirá você.

– Nunca, tu o disseste.

– “Salvo quando se amam”, disse o poeta. E se essa verdade não pode harmonizar a Dança e a Geografia, então quero nascer de novo.

– Você já nasceu tantas vezes, lembra… Ou não, não mais?

Ela fechou os olhos, fazia isso quando sentia dor ou acusava o golpe, claro, quantas vezes não dissera “acho que nasci de novo”, depois do amor?

Foi naquele amanhecer que os dois se descobriram de partida, ele para o campus, de corpo e alma, porque aquela era mesmo sua vida, sua escolha, desde antes dela e, com um pouco de sorte, também depois dela – embora no momento ele não soubesse, não tivesse a menor ideia de como faria para sobreviver àquela ausência. E ela enfim para a dança, habeas corpus, habeas anima. Ele, que não acreditava em deuses, acabou maldizendo os desígnios que deram a ela uma bolsa, no ano seguinte, para um estágio fora do país.

Encontraram-se uma vez, na Europa, mas aquela não valeu: ela estava embriagada demais com a liberdade e ele embriagado demais com a alegria de revê-la.

Agora, anos depois, um novo reencontro: ele gostou de achá-la, ainda, bela. Gostou de gostar de vê-la, embora a dor.

– Você ficou bem famoso – ela brincou, recurso que sempre usava para driblar o embaraço. – Ouvi falar, por aí.

– E você?

– Como? Você não ouviu falar de mim?

Ele ficou sério, um segundo antes do riso. Ela riu, também, e tudo foi como antes, por um instante.

– Você está dançando?

– Às vezes.

– O que houve?

– O de sempre. Não sou articulada, não me relaciono com as pessoas “certas”, não me enquadro muito nas coisas. – E imitou o tom de voz que ele usava, quando queria ser categórico: – Se é que você me entende, e eu acho que não.

Ele riu, de novo, agora sem muita vontade. Ela continuou:

– Mas eu tinha que ver, não é? Eu precisava ir. E fui bem, por uns tempos… E “ir bem”, ainda que por uns tempos, deixa um gosto de “sempre”, quando se trata de Arte.

– Isso me lembra aquela sua velha máxima: “A Arte acima de tudo.”

– Não – ela responde. E ele vê nisso algo de novo. – Não existe acima, nem medida alguma, nesses casos. Só uma sensação de que as coisas têm um sentido.

– Isso você podia ter…

– Você podia. Não eu.

– Então, perdemos uma geógrafa brilhante… para uma bailarina…

– Apenas razoável?

– Eu não disse isso.

– Claro que disse. Mas não faz mal.

– Escute, ainda dá tempo.

– Tempo do que, meu amor?

– Esse “meu amor” me pegou de surpresa.

– O que prova que você continua o mesmo… Surpreendendo-se com o óbvio e olhando com cara de velho para o que é realmente novo. Agora me leve daqui para um lugar mais decente, onde se possa tomar um bom vinho.

– Você também não mudou. E isso, não sei por que, me faz bem.

– Não era o que você dizia.

– Não era o que você pedia.

Ele abre a porta do carro, ela sorri:

– A velhice dando vez à juventude?

– Não, o cansaço dando lugar a algo que não quero definir agora.

– E quem disse que é preciso definir?

– Temes definhar ao definir?

– Idiota! – Ela ri. – O fim vai chegar, para nós. Para todos nós. Mas não hoje.

– Você não vai acreditar, mas isso, para mim, já é alguma coisa.

“Acredito”, ela quis dizer, mas achou que não seria preciso.

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

 

 


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72ª Leva - 10/2012 Jogo de Cena

Jogo de Cena

JOGO TEATRAL, AÇÃO TRANSFORMADORA

Por Paulo Afonso de Souza Castro

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

A prática dos jogos teatrais como instrumento libertário é fundamental no desenvolvimento de processos criativos de grupos e companhias de Teatro, mas, sobretudo, como metodologia de ensino e aprendizagem para estudantes, e esta é a pedra de toque de nosso artigo.

Existe um paradoxo entre os métodos do sistema educacional vigente e as atividades lúdicas relacionadas à arte, e mais especificamente ao Teatro. Apesar dos muitos avanços obtidos nas últimas décadas em nosso país na área da educação, da legislação inclusiva (e permissiva), das propostas pedagógicas bem fundamentadas e plenas de boas intenções, os alunos continuam sentados em filas, um atrás do outro, copiando textos e decorando conteúdos de modo passivo. Há pouco espaço (quase nada) para a liberdade de expressão, a criatividade e a espontaneidade, e, mesmo nas aulas de “Arte”, o conteúdo é muitas vezes repassado em atividades pontuais e cobrado em avaliações formais, desencantando, dessa forma, a própria arte, deixando-a banal, e, portanto, dispensável como as demais matérias da grade curricular, pois a busca pelo conhecimento é substituída pela mera obtenção de uma nota, para atingir uma média.

O filósofo Michel Focault comparou a estrutura física (e ideológica) das escolas contemporâneas aos presídios e as fábricas, apontando para a intenção implícita de reafirmação da ordem social dominante, através do controle dos indivíduos, da repressão e da padronização comportamental. Já o sociólogo Pierre Bordieu demonstrou que através dos sistemas e códigos de ensino, opera-se um processo de seleção e discriminação social, que reforça a hegemonia das elites. Como diretor de Teatro e professor de História, constatei na prática diária de meu ofício, que as contradições apontadas por Focault e Bordieu estão presentes em nossas salas de aula. Atuando como antídoto a todo este “modus operandi” coercitivo, os jogos teatrais podem ser um eficaz aliado no processo de desenvolvimento cognitivo e emocional do ser humano, sendo, por isso, libertário.

É preciso esclarecer que iniciei minha formação profissional nas artes cênicas. Ainda na adolescência, participei de um grupo de Teatro amador que valorizava os jogos teatrais como método de desenvolvimento individual e coletivo. Posteriormente, cursei a faculdade de Teatro, passando a atuar e dirigir espetáculos, bem como ministrar oficinas de interpretação e dramaturgia. Dessa maneira, os jogos teatrais e as dinâmicas de grupo, aplicados de modo sistêmico, sempre foram utilizados com eficácia nos processos de trabalho artísticos e educacionais em que estive envolvido. Porém, após concluir uma licenciatura em História e um mestrado em Antropologia, passei a ministrar também aulas de História na rede pública de ensino* e me deparei com a falência do sistema educacional vigente. Fato que se evidencia pelo desinteresse generalizado dos alunos pelas matérias estudadas, em consequência da ausência de um processo orgânico e verdadeiro de ensino e aprendizagem. Constatei a ausência de um compromisso de grupo, de colaboração efetiva, de reflexão (individual e coletiva), de debate, de liberdade de expressão e, sobretudo, de prazer em desenvolver um maior conhecimento. Tais sintomas não ocorriam apenas na matéria que leciono (que trabalha com a memória e possibilita a interpretação dos fatos e o diálogo sobre a sociedade, a cultura e o mundo em que vivemos), mas em quase todas as disciplinas. Então, ao invés de basear-se na construção do conhecimento e do pensamento crítico, a escola passava a ser um local de repetição mecânica de conteúdos abstratos, distantes da realidade objetiva, que assim tornavam-se vazios de sentido.

Esta situação caótica é o oposto das premissas que norteiam os Jogos Teatrais, e por isso mesmo eles devem ser cada vez mais utilizados para que se possa transformar a realidade escolar. Para tanto, se faz necessário atitude dos profissionais de arte e de educação, para implementar progressivamente a prática teatral nas salas de aula. Mas não bastam projetos isolados e programas de governo avançados, é urgente e preciso que se construam as condições necessárias para que o Teatro (assim como as demais formas de expressão artística) esteja cada dia mais presente, não apenas nas salas de aula, como nas associações de moradores, fábricas, clubes sociais e grupos religiosos. Não apenas como uma ferramenta de pregação doutrinária, ou mera recreação aleatória, mas embasado em técnicas específicas, fundamentos teóricos e objetivos definidos, e praticado em espaços adequados.

Como a arte foi afastada da vida diária das pessoas, restando apenas subprodutos (na maioria das vezes, grosseiros), transmitidos pelos meios de comunicação de massa, com fins comerciais e ideológicos de dominação, o exercício da prática teatral pode parecer distante ou supérfluo, quando muito, o apanágio de uma casta, de eleitos e talentosos, ou seja, destinada apenas a “pessoas especiais”. Aos comuns, é destinado o enfadonho repasse de conhecimentos prontos e acabados, que na prática não precisam ser processados, e muito menos questionados.  Todo este processo de alienação do ser humano perante a dinâmica social condiciona sua visão de mundo, estimulando o individualismo e cerceando a criatividade e a reflexão.

Mas a conquista desses espaços de liberdade e arte na sociedade contemporânea não é somente física, ela ocorre também no campo das ideias, e aí também encontramos fortes resistências, pois o jogo teatral subverte relações hierárquicas, possibilita transgressões de normas padronizadas e aceitas como imutáveis pelo senso comum. Enfim, liberta, e, por isso, é visto com desconfiança. Novamente recorro à experiência prática, pois desde grupos extra-classe de Teatro até atividades isoladas com alunos encaixadas entre aulas formais, pude perceber a força transformadora dos jogos teatrais. Alunos (de todas as faixas etárias), antes dispersivos e desestimulados, dando saltos de qualidade, participando progressivamente das sessões, colaborando com seus colegas, atentos, despertos, sorrindo. Muitas vezes, era difícil retomar aulas formais, que no caso de uma disciplina tradicional ainda são necessárias, pois os alunos cobravam: “Professor, hoje tem Teatro?”

Nem todas as escolas estão abertas a estes novos paradigmas. Muitas tentativas de implementação de jogos teatrais em escolas foram frustradas por inúmeros motivos, e, assim, mesmo com todo o seu potencial transformador, o jogo teatral é descartado.  A contrapartida a este quadro desanimador é a persistência, como as formigas que refazem seu formigueiro, tantas vezes ele for destruído, num trabalho incansável, é necessário abrir brechas, provocar rupturas nos muros já desgastados do sistema. Como fazer isso? Através do fomento e da criação de espaços de criação, ambientes de liberdade, grupos de Teatro e da prática e difusão dos Jogos Dramáticos. Desse modo, certamente estaremos contribuindo para que as pessoas e suas relações sejam efetivamente melhores e mais criativas.

Nesta minha caminhada artística pelos palcos, praças, picadeiros e salas de aula, tenho tido como fiéis companheiros os livros de Viola Spolin (especialmente Improvisação para o Teatro), Augusto Boal (com destaque para 200 Exercícios e Jogos para o Ator e Não-Ator com Vontade de Dizer Algo através do Teatro), Joana Lopes (Pega Teatro) e Stella Adler (Técnica da Representação Teatral), leituras que recomendo a quem pretenda conhecer mais a respeito dos Jogos Teatrais. Gosto de propor aos meus alunos brincadeiras de roda tradicionais, de utilizar exercícios do Tai-Chi e de estar atento e aberto às propostas sugeridas por eles, afinal o orientador é mais um participante do coletivo. Trago comigo também os ensinos de Laerte Ortega, grande mestre do Teatro Popular, que formou inúmeros grupos em bairros, escolas, fábricas, demonstrando na sua prática de vida que é possível, sim, construirmos um mundo mais justo, solidário e criativo. Por isso, convido a todos: vamos jogar o jogo do jogo?**, pois, como já nos ensinou Viola Spolin: “(…) Qualquer pessoa é capaz de jogar, de se expressar em cena, desde que ela tenha vontade e exista um ambiente propício para que isso aconteça”.

Através do jogo, abrimos mão de nossas armaduras, de nossas máscaras, nos concentrando nos objetivos que surgem a cada momento do jogo, atuando coletivamente, com prazer e atenção, e assim crescemos, aprendemos, ensinamos e trocamos nossas experiências, afetos e pontos de vista.

 

* Atualmente, desenvolvo projetos de encenação e dramaturgia, relacionando o estudo de fatos históricos e reflexões antropológicas com jogos teatrais, como a oficina MEMÓRIA EM CENA.
 
** “VAMOS JOGAR O JOGO DO JOG0?”, é o título de uma peça teatral construída a partir de JOGOS TEATRAIS, de autoria de Fernando Bezerra.

 

 

(Paulo Afonso de Souza Castro é autor e diretor teatral, historiador e antropólogo, com mestrado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná). Em 2012, dirigiu, na cidade de Caçador-SC, o espetáculo Memórias do Contestado. As comédias O Mistério dos Quatro Quadrados e Os Amores de Jezebel são obras de sua própria autoria, encenadas por vários grupos teatrais no Paraná e em Santa Catarina. Atualmente leciona, escreve, realiza oficinas e palestras, trabalhando com Teatro, História e Antropologia.Contato: teatroluanova@bol.com.br)


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72ª Leva - 10/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Silvério Duque

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

RAZÃO VERSUS FELICIDADE

 

– Minha vida com Maria? Uma desgraça!
Desconchavo de amor e de tormento.
O espaço que ocupei em sua massa
cinzenta? Grande quão seu “pensamento”.

Que, aliás, bem poderia dá-lo às traças
p’ro seu orgulho e meu contentamento.
(Qual um Kierkegaard carente de chalaças
elas adoram um péssimo argumento…)

Cheinho de razão e de ateísmos
eu (um dia) a contestei com um carinho
digno dos mais sinceros Neomarxismos…

Ela se foi – com uma cara de Tom Berenger –
e aqui fiquei (tão sábio), mas sozinho
e bruto como um clone do Schwarzenegger.

 

 

***

 

 

SONETO CAFAJESTE…

 

De mim não saberás o quanto eu te amo
por não querer do amor a morte exata
nem importa do amor verdade ou engano
“se o mesmo amor que cura é amor que mata”…!?

Piegas, não!? Mais do que isso é amor confesso
tanto mais imbecil se mais se mostra
contido de paixão e tempo egresso
onde tudo, no fim é a mesma bosta.

Mas se me amas no instante em que me vens
amar-te é o que mais sinto e o que mais vejo
pois quanto mais te negas mais me tens

neste amor que é nutrir-se de sobejo…
Num jogo de intenções e de desdém
apenas quero eterno o meu desejo.

 

(Silvério Duque nasceu em Feira de Santana-BA. É licenciado em Letras Vernáculas, pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Além de poeta, é músico, clarinetista. Já coordenou a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense. É autor de O crânio dos Peixes (Ed MAC, 2002), Baladas e outros aportes de viagem (Edições Pirapuama, 2006) e A pele de Esaú (Via Litterarum, 2010). Seu mais novo livro, Ciranda de sombras, está no prelo…)

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

De um belo e profundo mergulho na alma humana

Por Geraldo Lima


Mind the gap é um livro de contos – alguns são tão curtos que podem ser chamados de minicontos. É, também, um livro visualmente muito bonito (cabe, aqui, ressaltar o belo trabalho de edição da jovem editora Patuá).  É, por fim, o livro da escritora, jornalista e mestre em literatura e crítica literária Vera Helena Rossi. Ela é autora premiada em concursos literários e tem textos publicados em revistas e sites, como a Revista Língua Portuguesa e o site Cronópios. Seu romance Estamos todos bem foi finalista do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Ou seja, não estamos diante de uma escritora inexperiente ou que ainda engatinha na difícil arte de escrever ficção.

Mind the gap é composto por dezoito contos. Alguns deles, como já foi dito, podem ser considerados minicontos.  É o caso de “Eu e você qualquer dia”, “Ninguém dia a dia”, “Narciso” etc. Nesses textos mais curtos, Vera Helena Rossi parece buscar não a clareza, a linearidade, a narrativa pura, mas sim a ousadia de situar suas histórias mínimas nos limites entre os gêneros. Mas é nos textos mais longos que ela consegue realizar plenamente a construção de uma narrativa que nos revela o talento de uma autora madura e dona de um estilo próprio. Nesses contos que se estendem por cinco ou mais páginas, podemos perceber a habilidade da autora na caracterização psicológica das personagens, na construção dos diálogos e na sutileza com que conduz a teia narrativa de modo a prender a atenção do leitor até o final surpreendente. Destacam-se, nessa linha, “As caixas de papelão da família A. Almeida”, “Boa nova’” (este, para mim, o melhor de todos: vamos até o final, cheios de temor e aflição pelo que pode acontecer aos filhotes de gato) e “Lady Day”, em forma de diário ou simples desabafo da amante que se dirige ao amante em tom áspero e irônico. Não ouvimos a voz do amante, apenas o discurso denso e ácido da mulher contrariada.  E é com frases como esta que ela desnuda a relação com o amante: “Calados, meus solitários gritos, calados. Você devia me agradecer por ajudá-lo a se encontrar na sua solidão”.  Lendo esses contos mais longos, não nos resta dúvida de estarmos diante de uma escritora que sabe conduzir, sem excessos, uma boa narrativa.

A temática desses contos (e minicontos) compostos por Vera Helena Rossi é variada. Temos o caso da velhice e suas idiossincrasias, em “Boa nova”, do amor e seus conflitos, em “Lady Day”, até os embates cotidianos, no metrô ou no shopping, como nos são apresentados em “Assento vazio” e “À vista ou no cartão” (nesse o confronto físico se dá de fato e com violência assustadora).  Assim, podemos dizer que a violência se destaca em quase todos os contos de Mind the gap, sendo, de certo modo, o elemento que mantém uma unidade entre os textos. Fora isso, é bom seguir o que nos diz o título: mind the gap, ou seja, cuidado com os degraus, ou com os desníveis, no caso desse livro, preste atenção, caro leitor, à variedade de enfoques, temas e rupturas com a realidade. Num sentido mais metafórico, à queda cotidiana dos seres que povoam essa obra perturbadora.

 

 

* “Mind the gap” pode ser adquirido através do site da Editora Patuá.

 

 

(Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. Já publicou alguns livros, entre eles Baque (conto, LGE Editora) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites O BULE e Portal Entretextos e do blog Dona Zica tá braba. Colabora com o Jornal Opção (Goiânia), o Jornal de Sobradinho (DF), e as revistas eletrônicas Triplov e Diversos Afins. Bloga ainda em: Baque. E-mail: gera.lima@brturbo.br / Twitter: @gerassanto.com)

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72ª Leva - 10/2012 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Psi, a penúltima

Por W. J. Solha

 

 

SF,

fica difícil falar sobre seu Psi, a penúltima depois de ler o Apêndice III do livro, com o que você chamou de Ecos da Crítica e da Generosidade. Não desato as sandálias de nenhum de seus comentadores, com os quais concordo totalmente, claro. Mas – como também faço versos – chamou-me a atenção a declaração de Lorca, citada no prefácio do Gerardo Mello Mourão:

Yo no puedo, yo no sé hablar sobre poesia. Yo la tengo aqui en mis manos, sé que está quemando mi piel, pero no lo sé lo que es.

Essa afirmação me leva diretamente às Confissões de Santo Agostinho:

O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei

Coincidência ou não, vejo-me, de repente, com dois enigmas colocados de um mesmo modo: poesia e tempo. E me pergunto – oportunista – se o segredo da poesia, o segredo da sua poesia, não estaria…  no tempo.

Explico-me.

Lembro-me de que quando era garoto, lá em Sorocaba, São Paulo, ouvia sempre um vizinho, mineiro, cantar, deitado na rede, acompanhando-se no violão, a música “Felicidade”, apressada, como Lupicínio Rodrigues a compusera. Nem perca tempo de ouvi-la inteira, aqui. Basta a primeira estrofe, pra ver, em seguida, onde quero chegar:

Felicidade foi embora
e a saudade no meu peito
ainda mora,
e é por isso que eu gosto
lá de fora,
porque sei que a falsidade
não vigora:

Anos depois, quando eu já vivia na Paraíba, surge um novo sucesso de Caetano Veloso, e vi que se tratava da mesma “Felicidade” do Lupicínio, mas.. transfigurada  por aquela preguiça baiana. Basta, novamente, a primeira estrofe, pra que você sinta a diferença obtida com a mudança de tempo na interpretação, de modo a fazer com que uma grande poesia – que eu não sentia na versão original – de repente aflorasse das mesmas palavras e partitura:

O que isso tem a ver com a sua poesia. Bem.

Não sou grande romancista nem poeta, mas tenho trabalhado nas duas áreas e me parece que sei – com aquele saber no sabiendo / toda ciência tracendiendo de San Juan de La Cruz (e de Lorca e Agostinho) – quando devo me estender na prosa e me conter em versos. Umberto Eco goza com todos nós quando garante que poesia é aquele texto que não vai até o fim da linha. Só isso. Mas me parece que na brincadeira ele deixou escapar uma verdade, pois esse é um modo de se tirar o pé do acelerador de um texto, mudando – de modo mais imediato – o tempo do seu conteúdo.

O que noto de imediato é que você gosta de poemas que poderiam ser contos ou crônicas. Como Antífona, onde há uma estrofe que poderia estar assim:

Depois me mudei: fui para além das cabeças da Serra Branca, para além do lado de lá, atravessei o crepúsculo, debandei para etc etc.

Prosa. Mas…  “atravessei o crepúsculo”? Poderia ter dito “fui para o poente” ou “para oeste”. Seria mais pragmático. Mas o resultado é que imediatamente sacamos que a prosa foi pra cucuia e o primeiro mandamento de Eco nos vem à baila: nada de chegar ao fim da linha.

Assim,

Depois me mudei:

(tempo)

fui para além das cabeças da Serra Branca,

(tempo para degustar das cabeças da Serra Branca)

para o lado de lá,

(tempo pra sentir: para o lado de lá?)

atravessei o crepúsculo.

(Caramba!)

Mais adiante:

Passava
tonitruante o Poti,
um  rio velho, cobarde e mentiroso.

O poeta – ante o adjetivo “cobarde” -, puxa o freio de mão e faz o replay, em slow motion:

Era de medo da seca,
fugindo do Ceará;

(Pausa. Pra que se sinta a beleza, a força da imagem que vem a seguir:)

troava o Poti, dentro dos abismos da serra,

Claro que não estou a lhe dizer novidade. No Apêndice I do Psi, “Os Poemas da Besta (ensaio)”, seu tema é justamente o tempo. Logo na epígrafe, tirada do Apocalipse 10, 5-6, você se extasia com a frase terrível do Anjo: a de que “já não haverá mais tempo!” Desencantei-me com a redução prosaica de outra versão, onde li: “Já não haverá mais demora!”, e fui à Vulgata:

Tempus amplius non erit.

E à fonte grega:

Χρονος. Cronos.

Volto às “Confissões” de Agostinho. Ele tenta responder, no capítulo XIII, a pergunta O que fazia Deus antes da criação. E conclui como Einstein, dezesseis séculos depois:

Se antes do céu e da terra, Senhor, não havia tempo algum, porque perguntam o que fazias então? Não poderia haver então se não existia o tempo.

Genial.

Tempo, matéria-prima do poeta, daí essa sua epígrafe.

Curiosa – por causa disso – a quantidade de notas que seguem todos os seus poemas. Lembram-me o glossário que acompanhava o romance também inaugural, “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida, ao apresentar – em 1928 – a Paraíba ao país, como uma terra ainda tão ignota quanto a civilização futura de a “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, romance também com seu glossário de gírias ainda não criadas. Lembra-me “Cem Anos de Solidão” começando assim:

El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo.

Assim é o Siarah que você nos traz como que de um tempo-espaço que não nosso.

Acudam-me os cantadores:
Ignácio da Catingueira, negro e escravo;
Romano da Mãe d´Água;
vocês fundaram
o galope, a cantoria
(…)
Também a dona Barrósa, a senhora dona Barrósa,
De seu Neco das Martins, o desafio,
que também me acuda,
eram poetas,
ganhou, ganharam,
fundaram este país!
(…)
Ai do cantador que se atrever,
ai daquele que não possa dizer:
eu sou,
eu venho,
eis a essência,
a chave-mestra,
a gota primeira:
nós!!!  

 

 

Soares Feitosa / Foto: David Feitosa

Daí sua poesia frequentemente me lembrar a prosa de Guimarães Rosa, que falou de homens e terras de Minas tão de dentro deles, que apelou para os neologismos joyceanos, como Shakespeare fez ao praticamente inaugurar seu idioma, ainda sem sequer dicionários.

Você diz:

Venho de um poeta, digamos Euclydes,
Capitão Ocrides.

(…)

Falemos
do fogaréu deste meu chão sem águas,
Siarah de chãos e terra!

Siarah! Temos, realmente, de puxar – de novo – o freio de mão ante a beleza de seu desafio ao poeta Thiago de Mello:

Não te pabules dos teus rios
que (…) escorraço-te com os meus peixes,
não esses “peixes” de lenda-de-beira-de-rio  –
com os peixes verdadeiros, porém, peixes-de-mar,
de-mar-cheio, do-mar-oceano;
e os meus tubarões de vinte metros
e as baleias de duzentos

Pabulagem? Fantasia! Como as de Chagall, judeu com seus milenares mandamentos. Por que não, então, os do sertão profundo de sua distantíssima infância?

Não podia era tirar ninho,
nem judiar de inocente,
nem abrir-a-porteira-do-curral,
nem mangar do desvalido,
nem desrespeitar o mais velho,
nem deixar de socorrer, doente, o animal.
Tocar fogo no capim?
Nem pensar,
Pois o Cão “aparecia”…

Não à toa você se refere tanto a Jeremias, Salmos, Apocalipse. A memória de sua terra se enche da mesma linda magia, nos seus poemas, com que você a via:

Pois o vento dos céus, elemento novo,
d´abastança,
expulsava do ventre do tanque seco
aquele outro vento,
vento velho,
encardido, das vacas
magras!

O vento bom,
túrgido,
que descia dos céus,
entrava em luta com o vento do abismo,
trevas;
o mormaço era expulso
ao ribombar dos céus,
farra dos ventos!

Isso tudo é de uma beleza tão densa, intensa, que nos impõe seu tempo, seu próprio espaço-e-tempo.

Detalhe deslumbrante:

Era de noite que chovia:
gotas amarelavam
à luz frouxa da lamparina de querosene.

Há todo um trecho igualmente cosmogônico no poema “Panos Passados”, em que você nos leva a assistir a um fenômeno único: o nascimento de um rio! Permita-me uns grifos:

Chuva primeira:
folhas,
folhas secas, caducas, garranchos,
pó,
folhas formando levas
– retirantes –
tangidas ao estrondar,
relâmpagos e coriscos,
gentilíssimas gotas primeiras,
um leve fio d´água,
e era ali, solene, mítico,
que se fundava,
refundavam-se os fundamentos
renascidos,
refundados,
pela enésima vez,
do velho rio,
rios,
rios secos,
meus rios,
do quintal da nossa aldeia:
rio do Governo,
Jaguaribe,
Macacos,
Curtume,
Acaraú.

(…)

E o fantástico cheiro da terra,
da terra fêmea, terra molhada:
mais uma vez,
as primeiras estrofes do Gênesis,
como se fosse a vez primeira.

Assisti uma infinidade de vezes a este pequeno flagrante cinematográfico de “Convite à Saudade”:
Mestre Besouro Preto olhou e olhou,
avoou de uma árvore a outra,
fez um cocuruto de vôo, mais alto

Tudo, no seu livro, vive muito próximo da criação bíblica. Como em “Rio Macacos”:

Porque as vertentes disseram às águas:
– desçam!
E as águas desceram!

No poema Psi a penúltima, dou com sua poética:

Gritei:

– ἀλώπηξ (alopex)?!
Vulpes?!
Renard!?
Renaaard???

(…)

Fale simples,
Chame a “Comadre”
(disse o Santo).
É a senha,
batei, abrir-se-vos-á!

Pra encerrar: você diz, no ensaio já citado, que o baiano Luís Antonio Cajazeira Ramos “não sabe a força que tem (… ou sabe?)”. Acho que sabe. Você talvez não soubesse da sua. Pois ele diz:

– Que nos resta? Dessacralizar os sacros (ou sacralizar a Poesia?) Antes que blasfememos, leiamos Psi, a penúltima, caldeirão febril sobre uma trempe cultural – grecirromana, judicristã e mundinordestina – , de onde sai cozida a palavra justa, e mais:

o abismo.

 

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)