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74ª Leva - 12/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Catharina Suleiman

VI

Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E porisso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e porisso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

(Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

***

Mais um ano se prepara para desferir seus últimos golpes. Em seu derradeiro canto, quiçá traga até nós o gosto pelo saber e sabor das coisas fugidias. Não pelo curioso prazer de sermos tentados pelo efêmero que nos espreita permanentemente, mas sim pela ideia através da qual somos impelidos a acreditar que a única coisa que existe de fato é o presente. Já que nos são caros os efeitos da passagem do tempo, convém evitar desperdícios e marcar o solo do mundo com a marca indelével de nossas epifanias. Por isso, necessitamos enxergar além do óbvio. Por isso, urge seguir adiante mesmo com os equívocos que nos assolam os sentidos. Se ainda assim a devastação for sombra constante, é porque uma suposta normalidade nos conduz à margem de precipícios edificantes. Quem serão os arautos das novidades amanhecidas entre nós? Talvez todos aqueles que ousem perpetrar os caminhos pouco convencionais da existência. Qual um balançar de águas que nunca mais tornarão a ser as mesmas, viver pode representar a revelação de notícias pouco confortáveis e, por assim dizer, incompatíveis com nossas minicertezas. E como é bom não brigarmos pela patente da razão. Quem sabe os poetas, muitas vezes tidos como delirantes e loucos, possam nos servir de guia nessa delicada jornada rumo ao centro de nós mesmos. Onde a nostalgia do futuro a nos sorrir em toda sua tirania? A arte, então, vai prolongando nossa espécie, fazendo-nos tatear cada vez mais as paredes pelas quais imaginamos algum resquício de liberdade. Que sejamos, pois, perpetuados pelos ecos incontidos nos versos de gente como Nina Rizzi, Marcelo de Novaes, Helena Terra Camargo, Dheyne de Souza e Marcus Groza. Entre palavras e outros tantos destinos por aqui lançados, há espaço inconteste para os sensíveis registros fotográficos de Catharina Suleiman. Noutro ponto, interpelamos o escritor André de Leones numa conversa sobre suas travessias literárias. No Jogo de Cena, Geraldo Lima promove incursões no teatro de Arthur Miller. Outros enlaces de vida nos são contados por Mariza Lourenço, Rodrigo Novaes de Almeida e Nelson Alexandre. A escritora Adriana Zapparoli nos convida à leitura de Nagasakipanema, livro de poemas do uruguaio Victor Sosa. O olhar atento de Larissa Mendes atravessa a delicada temática de Amor, novo filme de Michael Haneke. Sob a agulha de nosso Gramofone, gira a sonoridade da banda mineira Transmissor. Fecha-se mais um ciclo na Diversos Afins e o gosto por novas descobertas se agiganta. Que 2013 revele-nos, como versificava Hilda Hilst, o escondido das gentes!

 

 

Os Leveiros

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marcelo de Novaes

 

Foto: Catharina Suleiman

 

O gato anterior ao gato

Um vulto que se esgueira
à sombra da sombra.

Às vezes, volta ao breu,
como a bruma se afoga
num rio.
Seus olhos são mais
claros que os olhos
claros.

Ele é o gato anterior
ao fato anterior.

Mesmo anterior ao fato
anteriormente dado
a ele mesmo,
gato.

Isso não se explica:
acende-se uma vara
de incenso de mirra.

Nasce e existe,
salta e volta a
saltar, do início.

Salta sobre o meu colo e,
de novo, volta a saltar do
chão, sobre o meu colo.

Se eu me visse
pela primeira vez,
pelos seus olhos anteriores,
não me acharia humano,
nem me acharia.

Mas saberia da dor
de não me saber,
se multiplicada
por cem
pulos.

Ele veio por entre as
teclas do piano de
tampo fechado.

As copas das árvores
as sombras das árvores
se dobraram,
em arco.

Patas postas na soleira
da porta, sem pó.

Unhas arranhando
o chão de terra.

Ele me ensina névoa
de musselinas.

Ele é o gato anterior
ao fato
anteriormente dado.

Roça o tampo do piano
como se fosse
vidro.

Tira escamas
dos meus ouvidos,
e medo dos meus pés.

Ávido, porque
sem lugar
no mundo.

Seu lar é a fresta da música,
o intervalo entre as teclas
branca, preta e branca.

Listras, ele não tem:
qual lince, cor de
laranja.

É o gato anterior a mim,
anterior à minha volta,
anterior à minha
dúvida,

anterior à música,
anterior à pauta.

Zaratustra.

 

 

***

 

 

Chão Absoluto    

 

A respiração presa. Desde que perdi a noção do amor e o sentido da distância. Desde que não pude mais [nem soube mais] atrair as flores, comandar o vento. Desde que me vi no Exílio antevendo, da morte, a antecâmara. Deveria ser amplo. Poderia ser. O sentido do ar me dando sentido [e estufando o plexo]. Deveria ser sol, e o céu não pareceria tão alto. E a terra não seria O Abismo. Deveria ser Amor, e não Intelecto. No entanto, é a este Chão que estou preso.

 

 

***

 

 

Acrílico

 

Ninguém tocará teu rosto
por detrás da máscara de
acrílico [onde há fumaça,
há fogo].

E o coração, muitas vezes,
parece ser órgão cansado e
estúpido. Clange e se arrasta
e plange, como carro de boi.

E ainda que não te possa tocar
a face, posso ouvir [e devo dizer
que ouço] esse roçar de carroça
em chão vermelho e pedregoso.

Olhe pra cima e respire
fundo: Aquilo é o Sol.

 

 

 

(Sou psicólogo por formação. Já trabalhei em AMEs e UBS nas periferias da zona sul de São Paulo, em ONGs [SOS Aldeias Infantis, CVV], consultório particular. Sei das artes um tanto, do mundo cão sei também um bocado. Escrevi alguma coisa que está espalhada na web [Corsário, Cronópios, Mallarmargens, Casa dos Poetas – Portugal -, dentre outros] e em alguns blogs. Publiquei o romance Cidade de Atys pela Ateliê Editorial, em 1998. Por escolha e ideologia [discordância com as regras do mercado editorial, fundamentalmente], só escrevo na net, agora. Assumo a escrita como ofício sem fins lucrativos)

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74ª Leva - 12/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

A casa Azul

Nelson Alexandre

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

Eu apoiava a cabeça no ombro de Helena todas as vezes que ela chegava de mansinho. Seu toque era meigo e delicado. O meu toque era possuído por uma leva de palavrões e atitudes irracionais. Era como se o mundo inteiro explodisse e eu não pudesse recolher seus pedaços por causa da confusão. Quando a explosão iluminava meus olhos, eles pegavam fogo e eu cuspia morcegos cegos em voos malucos. Rasgava os próprios intestinos e não podia aguentar o meu próprio cheiro.

Alguém pode comer a própria merda e falar em nome da bondade e honestidade sem mandar merda na cara de quem está prestando atenção? Será que isso é possível?

Eu recolhia a cabeça e deitava novamente em seu ombro, enquanto ela lia e me fazia perguntas sobre aquilo e isso… minha cabeça dormia sobre o amor em forma de mulher. Cantava numa frequência pirata a música da carência, enquanto o céu vinha pra cima de mim, como os destroços de um avião desgovernado caindo em cima da minha falta de vontade, bem em cima da minha total ignorância sobre o assunto.

Eu olhava pro tênis encardido e sentia a podridão. A sujeira encarando meu olhar com reprovação. Eu não queria levantar a cabeça do seu ombro, do meu conforto, por nada desse mundo, mas nós não temos sempre o domínio da situação, por isso, eu não gostava muito quando ela se levantava de forma rápida e sem me avisar. Minha cabeça levantava como um morto retirado das ferragens retorcidas de um carro detonado. Sem muito jeito, sem muita delicadeza.

Ela partia e eu ficava hipnotizado com seus passos, sempre apressados, em direção a todos os cantos da casa. Parecia uma grande atriz atarefada, vagando pra lá e pra cá na sua pequena atmosfera ornada por enormes margaridas empalidecidas como fantasmas gigantes.

Você sabe o quê é o amor?

Eu, até aquele dia, não tinha muito conhecimento, como pensava que tinha. Eu pensava que dominava o amor, mas confundia complacência com amor, enquanto as feridas brotavam no meu coração como plantas carnívoras. Eu colocava as mãos no rosto e pensava: “mais um dia”.

Quando você está morto, você perambula por aí, sem muita preocupação, nem aí com o mundo ou com as pessoas que também perambulam por ele. No estágio da morte, seus pés são facas fazendo cortes, deixando pra trás profundos abismos de você mesmo.

Nós olhávamos pra nossa casa, e aquele era o nosso céu. Era o nosso lugar dentro do que é perfeito. Helena gostava de ficar sentada fazendo seus desenhos, fumando um cigarro que soltava uma fumaça que dançava na minha garganta como uma serpente.

A morte, às vezes, bate à sua porta mais cedo do que o esperado. O azul da casa salvava os olhos cansados, a mente perturbada, a carnificina pronta pra brotar no peito. O azul era a cor da purificação, e por alguns instantes, a cor de uma plenitude desconhecida e aceita.

“vamos pintar de amarelo, minha querida?”

“Não… o azul é o mar repetindo-se sobre nossas cabeças”.

Então ficava azul, sempre o mesmo tom de azul…

Foi numa noite de chuva que a casa azul ficou triste como um peixe fisgado pelo anzol. Tomado por uma dose de toxinas e assuntos mal resolvidos que viviam saltando na frente da minha paciência como fantoches de discórdia, peguei uma vassoura e girei o cabo sobre minha cabeça dominada por um milhão de vozes dizendo “esmague”, e desferi vários golpes contra a luz que iluminava a garagem. Ela se fez em vários pedacinhos, da mesma forma como se encontrava o coração de Helena, que chorava sozinha no quarto principal da casa azul, na periferia de Space City.

Outra vez, foi a toalha esquecida em cima da cama. O terror do colchão encharcado por um líquido extraído com o aperto dos braços delicados da inocência.

“Foi você que esqueceu ela aí, não eu”.

Não adiantava argumentar, minha “razão” cega e sem preocupação com a inocência se desmanchando em lágrimas, tampava os ouvidos e abria a boca, apenas, para emitir o rugido da barbárie.

Por isso, hoje, digo e defendo que, antes de você emitir um som ensurdecedor e se transformar num macaco violento, lembre-se… o cristal se rompe a qualquer toque sem amor.

Outra vez, foi o puro descontrole unido a uma dose sadomasoquista de cólera, que mandou o pobre do nosso gatinho fazer uma viagem ao redor do ódio. Metáfora pura. Coisa que vem em primeiro lugar na cabeça cheia de um rancor exasperado.

Às vezes você está acompanhado com o diabo e não percebe… ou será que o diabo pode ser uma alegoria que produzimos em nós mesmos para não deixar brotar uma flor de bondade, mesmo que pequenina e tímida?

É o cão… sem dúvida, diz uma das vozes dentro da minha cabeça. É apenas um distúrbio de comportamento, retruca uma outra.

Com isso, posso dizer que, não deixe a estrutura do cristal ir à tona toda estilhaçada. Não deixe esse maldito ódio (digo isso lutando desesperadamente para não ser contaminado novamente) pegar você pelo dedão do pé. Recuse suas carícias em seu corpo.

Vamos dançar?

Vamos entrar no esplendor do azul?

Você despertou meu lado Cérbero… o quê realmente você quer, meu senhor?

Quer que eu saia do meu buraco, depois de alguns anos, metralhando o ódio ou o amor?

Meu coração quer ficar azul. Não tem mais a cobertura do manto vermelho. O quê estou dizendo?

Entende de vozes, meu senhor?

O sol nasce como no cinema, morno, cheio de uma luz artificial, onde, de mãos dadas, nos iludimos e voltamos a ser seres humanos novamente.

“Será que amarelo é bom mesmo? Você quer imitar o sol? Amor, você vai acabar com as mãos queimadas”.

“Vai ser a nossa obra prima, baby, vai ser a nossa passagem para a eternidade, isso eu juro pra você”.

Quando ela ia dormir, eu ficava ainda algum tempo na sala, sentado no sofá, ouvindo música clássica, sentindo minha cabeça ser comprimida pelas vozes da minha consciência. Eu tinha vontade de gritar até a garganta explodir. Queria ter uma bomba na fala… confidenciar explosões nucleares com os dentes. Sentia o negrume feito coisa podre bem no meio da minha cara, olhando a consciência dentro de uma vala comum, apodrecendo, definhando, sendo devorada por uma grande demanda de vermes asquerosos.

Na madrugada, sobressaltava dos sonhos mais mesquinhos e sentia demônios colocando seus dedos sobre o meu ombro. De joelhos, pedia a Deus o azul. Pedia o supra-sentimento para a redenção de uma alma escura e lodosa.

Eu era um monstro que um dia foi um peixe dourado.

 

 

(Nelson Alexandre nasceu em Maringá – PR. Já disseram que seus contos parecem com os de Charles Bukowski, John Fante e até mesmo uma mistura de William Burroughs e David Cronenberg, mas o autor descarta todas as possibilidades e afirma que seus escritos pertencem a ele mesmo e mais ninguém)

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TRANSMISSOR – NACIONAL

 

Não há nada mais valioso do que poder usar dos recursos da liberdade e fazer ecoar a própria voz. Na seara musical, isso até pareceria uma mera redundância não fosse a perspectiva de também se poder passar algo coerente através das canções. E é aí que entra a veia autoral a atravessar espaços com sua sedutora proposta de autenticidade.

Talvez seja um exagero falar de originalidade abundante em matéria de criação musical. Mesmo a máxima caricatural do “nada se cria, tudo se copia” revela em si o germe da transformação das coisas que, ao final das contas, sempre estiveram no mundo, seja de modo latente ou explícito. Importa mesmo saber quem percebeu a faísca inicial de algo e, com isso, promoveu a aparição do supostamente novo?

Escutar o trabalho da banda mineira Transmissor pode servir como uma sucinta e serena resposta a isso tudo. E predicados não faltam aos moços de Belo Horizonte quando o assunto é converter olhares sublimes sobre a vida em forma de letra e música de qualidade. Da reunião de Thiago Correa, Leonardo Marques, Jennifer Souza, Henrique Matheus e Pedro Handam, surge um ambiente sonoro carregado de sensibilidade e, o que é melhor, conteúdo.

Nacional, segundo disco da banda, é desses álbuns que atrai pelo conjunto. Há lugar para tudo ali, tanto para densidades típicas de nosso incorrigível trajeto pelo mundo quanto para a leveza necessária ao olhar por vezes aborrecido de todo o tipo de gente. É assim que, sem levantar falsas esperanças e tolas bandeiras, a trupe do Transmissor chega desnuda aos nossos ouvidos e nos apresenta um trabalho cuja simplicidade nem de longe representa um raso mergulho por sobre as coisas da existência.

Transmissor / Foto: divulgação

Pensando um pouco sobre essa miríade de sensações, é que conseguimos entender porque uma canção como Bonina merece ser eleita uma espécie de síntese do disco. Há ali uma leitura possível sobre as relações que suplanta a gratuidade tão recorrente do tema. Fala-se de amor sem, no entanto, repetir fórmulas, apelos desgastados ou subestimar a inteligência de quem escuta cada uma das faixas. Nesse percurso, músicas como Vazio, Outra Ela, Longe Daqui e Hoje ilustram bem a habilidade do grupo em se mover pelo pantanoso território das emoções.

Ao traço pop rock de Transmissor vem se juntar um repertório cujas escolhas melódicas refletem um cuidado com arranjos e outros importantes detalhes. Além disso, o revezar de vocais entre Jennifer Souza, Leonardo Marques e Thiago Côrrea é um retrato lírico de como as composições são interpretadas no seu mais preciso teor. Transportar, por exemplo, a especialíssima Nada Será Como Antes, canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e que é verdadeiro símbolo do Clube da Esquina, para Nacional só trouxe mais vigor ainda ao disco. Sem dúvida alguma, um ingrediente bem digno de uma valiosa referência das férteis paragens mineiras.

Num cenário no qual se multiplicam artistas e bandas das mais distintas frentes, não seria precipitado apontar Transmissor como sendo um grupo que tem muito ainda a oferecer. Pelo engajamento de seus componentes e, claro, o resultado direto de seus dois trabalhos já lançados, o caminho futuro afigura-se aberto. E a espera vale a pena quando se tem algo consistente e despretensioso a dizer.

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Helena Terra

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

Imperfeito do subjuntivo

 

Tomasse eu o seu eco,
nua ao som do seu corpo,
espalharia por sua saliva
a  ferida presa aos meus lábios.
Tomasse você
o que se esconde
sob os meus olhos fechados,
perceberia os cacos do amor inutilizado
e o quanto guardava esperanças
o indefinido retrato.

 

 

***

 

 

Parapeito

 

Na inevitabilidade
da memória
não há reparo.
O parapeito
do desejo é
como um cárcere
cimentado
em desmedida
solidão.

 

 

***

 

 

A condição indestrutível de ter sido

 

Arranca do interior
a pele do meu livro,
escrita inconstante de um silêncio
incerto como os movimentos de meu corpo,
como as cápsulas guardiãs
dos mitos e dos suspiros,
das linhas que não ultrapassam e
não respiram
a condição indestrutível de ter sido
por alguém
um amor perdido.

 

 

(Helena Terra Camargo é jornalista e escritora. Nasceu em Vacaria, mas mora em Porto Alegre. Participou da Oficina de Criação Literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil (com publicação na coletânea Contos de Oficina 23) e participa dos seminários de criação literária de Léa Masina. Participa do blog Falsidade Ideológica e administra o blog coletivo Mínimo Ajuste)

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Caminhando descalço sobre o piso de tábuas

Por Adriana Zapparoli

 

 

 

Para sobrevoar o livro “Nagasakipanema” (Editorial Práxis, México, 2011) de Víctor Sosa há de se estar disposto ao acolhimento da contradição: pairar com uma asa por sobre a bomba atômica e com a outra sobre a ambiência delicada de uma praia brasileira.

Coleóptero no ambiente. Atravessa janelas, o nácar das savanas, o desprendimento da infusão (jasmim), os anais de Larousse abertos em sua boreal quietude.

Coleópetero en lá habitación. Atraviesa ventanas, el nácar de las sábanas, el desprendimiento de la infusión (jasmín), las analectas del Larousse abierto en su boreal quietud (46)

Posiciono-me perante a tradução de poesia na qualidade de leitor e nunca como tradutor profissional que viaja permanentemente entre duas línguas. Interessam-me, sobretudo, as emoções e as experiências que recebo de uma construção poética agregada à liberdade de sua manifestação e cercando o leitor para diferentes saídas e entradas diante das múltiplas possibilidades.

Víctor Sosa (Uruguai, 1956) é um poeta de inserção, e começa o seu livro anunciando um motim com uma capacidade imagética muito sofisticada. Há liberdade em código de escrita.  No decorrer do livro, os textos apresentam a quebra da sintaxe. As palavras assumem significado próprio.  São curvas e híbridos com um toque de surrealismo, em tempos históricos, com a mistura incomum de diferentes elementos.

Há ratas no porão – lhe sussurra ao ouvido a advogada – mas ele entende mal e diz: ratos no ático.

Hay ratas en el sótano – le susurra al oído la abogada – pero él entiende mal y dice: ratones en el ático (163).

Há manifestação de inteligência criativa. Além da força sonora há conflito e tensão de linguagem.  Muitas vezes, a leitura promove a sensação de se caminhar em areia movediça. Identifica-se uma tentativa de recompor a confusão mental que o poeta sofreu no momento de sentir ou intuir a prosa-poética. Ironia e criatividade.  Cada prosa-poética possui uma velocidade de respiração própria e organizada.

Pode ser cancerígeno se olhar de frente… Catorze dedos na garganta da menina puxaram o cação ali atracado.

Puede ser cancerígeno si se mira de frente… Catorce dedos en la garganta de la niña sacaron al cazón ahí torado. (53)

Nagasakipanema é um livro escrito em castelhano, mas contaminado por outros idiomas. Utiliza-se de termos técnicos, de referenciais acadêmicos em ciências médicas e biológicas de maneira pontual.

O caráter espasmódico do ódio feito que se deletara. A vasodilatação da bochecha chegou a tal ponto que desviou o eixo da medula espinhal e secretamente, entre a quarta e quinta vértebras, uma protuberância côncava que podia se palpar desde o paladar.

El carácter espasmódico del odio hizo que se deletara. La vasodilatación de la mejilla llegó a tal grado que desvió el eje de la médula espinal y secretó, entre la cuarta y quinta vértebra, una gibosa protuberancia que podía palparse desde el paladar. (207)

Nagasakipanema não é um livro fácil. O autor trata a poesia que pode se tornar um tormento para o seu leitor. Porque fatalmente o faz mergulhar na sua brutal ignorância ou ascender a uma condição intelectual imensurável. Dada a sua robusta condição formal, a poesia exige do leitor paciência. Ele deverá investigar a linguagem e desfazer o poema para buscar o seu entendimento.

Apenas alguns golpes na nuca apressadamente dados com o cotovelo; um trovejar amostrado de metatarsos amplificado pela fossa séptica.

Apenas unos golpes en la nuca apresuradamente dados con el codo; un sampleado tronar de metatarsos amplificado por la fosa séptica. (101)

Investigar a forma permite reavaliar a capacidade múltipla e inquietante de pensar e agir. Diria que esta é exatamente a sua essência; ela é única e, ao mesmo tempo, múltipla.

E segue a prosa-poética, que se esquadrinha em exercício estilístico inventivo rico, onde Víctor não precisaria finalizar o livro.

Você participa, apesar da enxaqueca, e caminha descalço sobre o piso de tábuas sentindo os tendões, os músculos, o movimento e a resistência de suas pernas diante de um exercício sem sentido.

Te incorporas, a pesar de la jaqueca, y caminas descalzo sobre el piso de tablas sintiendo los tendones, los músculos, el movimiento y la resistência de tus piernas ante um ejercicio sin sentido. (123)

Traduzir Víctor Sosa para o português é um desafio. Diria quase um delírio.  Porque ele é livre.  Nele nada é tão linear, tão lógico e previsível.

 

Referências:
 
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo na poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

HUTCHEON, Linda. Poética da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 2003.

 

PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1996.

 

 

(Adriana Zapparoli  (Campinas – São Paulo) é escritora e poeta. Realizou pós-doutoramento pela Universidade Estadual de Campinas (SP). Publicou A Flor da Abissínia (versão bilíngue), em 2007; Cocatriz, em 2008; Violeta de Sofia, em 2009; Tílias e Tulipas (versão bilíngue), em 2010; O Leão de Neméia, em 2011; Flor de Lírio (versão bilíngue), em 2012, todos editados pela Lumme Editor (Bauru – SP))

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Rodrigo Novaes de Almeida

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

 

Carnebruta 

 

Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer
sem pedir antes a permissão dos outros.
(O lobo da estepe, Herman Hesse)

Nós éramos fio de faca rasgando a sua garganta. [VOCÊ] acorda, deixa a cama e anda pelo apartamento. Seu próprio grito o despertara. Som inumano em carne humana. Água fria para lavar o rosto e água fria para saciar a sede, nós éramos fumaça e veneno atravessando a sua garganta. Para dentro e para fora: [VOCÊ] fuma um Marlboro vermelho na varanda da sala. Pela primeira vez em anos, é a carne distensionada. Liberada a voz abissal, nós éramos necessidade. [VOCÊ] pensa: estão todos quebrados. [VOCÊ] vê adiante, presa a um muro de pedra, uma placa com estas palavras: mata o homem que odeia, faça da rapinagem teu ofício – se tiver sucesso, teu roubo será conquista e tua vingança será a guerra. E [VOCÊ] pensa: vai ser triste, sim. Mas a carne tem necessidades… Por que diabos não há espelho nesse banheiro, pergunta-se. Nem no quarto, nem no resto da casa. [VOCÊ] lava as mãos ensaguentadas na pia do banheiro, enquanto observa a placa no muro de pedra através da janela. No quarto, a mulher estirada na cama. [VOCÊ] se pergunta a razão de não existir espelhos na casa, afinal, [VOCÊ] considera, a mulher é bonita. Uma morte ordinária. [VOCÊ] conta quantas vezes repetira aquele ritual. [VOCÊ] sabe de cor, é claro. Mesmo assim conta. E como [VOCÊ] gosta do medo delas e do cheiro!, sim, do cheiro de todas aquela mulheres – ele inebria. Medo e cheiro o alimentam. Depois vem um sentimento de ausência, uma ausência que não é morte, sempre quando [VOCÊ] lava as mãos na pia do banheiro. E isso acontece todas as vezes, e segue o mesmo ritmo, e vem na mesma ordem. Finalmente, [VOCÊ] diz: tudo terminado aqui. E não há quem escute a sua voz.

***

 

 

Porra em brasa

 

A música não parava de tocar. A agulha da vitrola machucava a bolacha preta, e o chiado que saía da caixa de som era mais alto do que a voz agonizante do cantor de pagode do vinil. A porcaria do ventilador não funcionava como deveria. Teobaldo e Vânia suavam. A temperatura estava em torno dos cinquenta graus dentro daquela quitinete. Era verão, o asfalto derretia nas ruas da cidade. Nestas condições, uma trepada poderia levar dias para terminar. O sangue das pessoas queimava como brasa, tinha a grossa consistência do ferro em seu estado líquido. As pontas de cigarros escapavam do cinzeiro já cheio. Porra pra todo lado.


(Rodrigo Novaes de Almeida tem textos publicados em sítios literários e jornalísticos, como Le Monde Diplomatique Brasil, Portal Cronópios, Germina Literatura e Arte, Observatório da Imprensa, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou, pela editora Mojo Books, a ficção A saga de Lucifere (The Trinity Sessions – Cowboy Junkies, e-book, 2009), e, pela editora Multifoco, o livro de contos Rapsódias – Primeiras histórias breves (2009). Recentemente publicou o livro de contos Carnebruta (Oito e Meio/Apicuri – 2012). É cofundador do coletivo literário O Bule e Colunista do Página Cultural)



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74ª Leva - 12/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Marcus Groza

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

aprendo
a tática
dos gravetos

me aninho
em labirintos
e territórios alheios

se perco
quebro me inflamo
ou falo sozinho

não é porque
a febre dos sinais
me galopem a esmo

cego
aceno o diálogo de poucos
porcos especialistas em pérolas

mudo
de discursos e sílabas
ora teimosia de um barco a velas

ora colossal
qual monstro ou surdo
ritmando mínimos tremores de terra

cajado inimigo
tacape em punho
invisíveis cirurgias nas vértebras

 

 

***

 

 

detrator azucrino
atravesso a paciência
com a pontinha dos dedos
calcifico as desvantagens
faço cafuné e coço
do cóccix ao meio do céu

pernas inquietas em síndrome
de reclamar mil calcanhares
bem antes do salto o chute
e infecção no canal da lágrima
só dando nó em agulhas
é que massageio os ossos da face

 

 

***

 

 

o duro nódulo
parto
no muque
ou com uma gafe

desdobro
os laços
canhestro
trombo
nas etiquetas

rasgo
com o sabre
devagarzinho
faço butim do sumo
arrebato só o recheio

escambo sem bodas
brindo a quem
só nos receita
ir ir e colisões

 

 

(Marcus Groza é poeta, dramaturgo, professor e devoto do céu violado. Autor do livro de poemas Do Buraco à Poça (no prelo – Editora Patuá), escreve regularmente no blog Pelas Ventas e Membranas. Além de literatura e teatro, interessa-se por música experimental e intervenção urbana. É Mestre em Artes pela Unesp e graduado em Filosofia pela USP)

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Jogo de Cena

Jogo de Cena

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEATRO DE ARTHUR MILLER

Por Geraldo Lima

 

Arthur Miller / Foto: Monica Almeida

 

Devemos nos alegrar sempre com o surgimento de um dramaturgo que consiga explicitar, de modo criativo e contundente, as múltiplas facetas das relações humanas.  E que o faça de tal modo que o espectador, diante do palco, sinta-se instigado a refletir profundamente sobre si mesmo e sobre o mundo em que habita, embora toda a ação dramatizada ali transcorra num cenário e numa cultura bem diversa da sua. Arthur Miller, autor de algumas das peças mais importantes da cultura ocidental, pode ser citado como um desses dramaturgos fundamentais para entendermos a alma humana.

Arthur Asher Miller, filho de um casal de imigrantes judeus polacos, nasceu em Nova Iorque, no ano de 1915, e faleceu na cidade de Roxbury, estado de Connecticut, em 2005.  Viveu, portanto, um longo período e pôde, como dramaturgo, jornalista e cidadão norte-americano, vivenciar momentos dramáticos da História humana e do seu país, como a Segunda Guerra Mundial e a Crise de 29 (ou Grande Depressão).

Este último fato histórico teve impacto direto na vida do autor de A morte de um caixeiro-viajante porque afetou, diretamente, a vida financeira de sua família: seu pai, empresário do ramo têxtil, viu-se falido e obrigado a mudar, com a família, para o bairro do Brooklyn. Esse acontecimento dramático na vida do autor vai ser retomado na peça Depois da queda, mais precisamente no embate entre o protagonista Quentin e o seu pai surpreendido pela bancarrota dos negócios.  A peça é, na verdade, um acerto de contas do autor com o seu passado, e esse confronto entre pai e filho, num momento de crise financeira, representa o que Arthur Miller viveu na juventude, daí Quentin poder ser tomado como seu alter ego. Desse modo, o teatro que ele vai desenvolver refletirá, sobremaneira, a sua experiência de vida.  Sem cair, obviamente, no mero registro autobiográfico: a crítica feroz ao american way-of-life e às injustiças sociais impostas pela competitividade capitalista estão no cerne de boa parte de sua obra teatral.  Um exemplo claro disso encontra-se na já referida peça A morte de um caixeiro-viajante (Death of a salesman), escrita em 1949 e pela qual ganhou o prêmio Pulitzer.

Nessa obra, de uma carpintaria dramatúrgica impressionante, o ambiente naturalista vai sendo envolvido pouco a pouco pelo onírico e pelos efeitos delirantes da memória do protagonista, o caixeiro-viajante Willy Loman. Miller retrata a queda desse homem, cujos alicerces éticos e morais foram erguidos sobre a frágil segurança da mentira e dos sonhos de grandeza, com rigor psicológico e olhar crítico.  São “fraturas no sonho americano’, nas palavras de Otavio Frias Filho, que vão sendo expostas nesse caso. Diante das atitudes do protagonista, somos levados, pelo talento dramatúrgico de Arthur Miller, a dupla reação: ora aderimos à sua causa, ora nos opomos a ele com quase nojo. Aderimos à sua causa ao percebermos que ele está sendo engolido pela máquina capitalista e sem se dar conta disso. Mas rejeitamos, com veemência, o modo com que ele, na posição de pai e marido, vai, ao longo do tempo, estragando os filhos e sujeitando a esposa ao seu comportamento obsessivo, egoísta e estúpido. O conflito familiar que se instaura aí, com uma força assustadora, é resultante dessa cultura forjada a partir das exigências de um sistema econômico que leva alguns indivíduos a buscarem de forma predatória o seu lugar ao sol. O fracasso de Willy Loman, como pai, marido e caixeiro-viajante, expõe, assim, a fragilidade de um projeto de vida cujo valor maior se encontra alicerçado na supremacia da aparência física sobre a do conhecimento sistematizado – este último, representado pela figura vitoriosa do jovem Bernard. São palavras de Willy dirigindo-se aos filhos Biff e Happy: “Foi isso mesmo que eu quis dizer, o Bernard pode ter as melhores notas da escola, entende, mas quando sair para o mundo, entende, vocês dois vão estar cinco vezes na frente dele.  Por isso é que eu agradeço a Deus do céu vocês dois serem feito dois Adônis”. No entanto é ele, Bernard, que, trilhando o caminho apontado pelo sonho americano, triunfa como advogado.

Arthur Miller e Marilyn Monroe / Foto: Evening Standard/Getty Images

Dentro do otimismo do sonho americano não há lugar para fracassos, não há lugar, enfim, para indivíduos como Willy Loman. As palavras da professora Daise Lilian Fonseca Dias, no seu artigo “O fracasso do sonho americano em A morte do caixeiro-viajante de Arthur Miller”, iluminam mais ainda o que foi dito: “Seu sonho fracassou porque estava centrado na fantasia e em ideias tão vagas e contraditórias quanto as que seus antepassados idealizaram e que até hoje impulsionam o homem americano para uma busca frenética pelo sucesso econômico, sem, contudo, permitir a ideia de um fracasso”.

O teatro de Arthur Miller desnuda, de forma corajosa, todas essas contradições presentes no arcabouço do tão propalado sonho americano. Miller é, ainda, nas palavras da professora da Universidade Federal de Campina Grande, Daise Lilian Fonseca Dias, “o poeta da consciência política”. Essa sua consciência política estava, de certo modo, ligada às ideias comunistas. Por conta disso, em 1956, após ser denunciado pelo diretor de teatro e cineasta Elia Kazan, viu-se intimado a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Num gesto de extrema nobreza, recusou-se a apontar colegas ao Comitê. Na peça Depois da queda (After the fall), o autor enfoca, de maneira crítica, essa passagem lamentável da História da democracia americana. E é sobre essa peça, a cuja montagem tive a oportunidade e a felicidade de assistir em Brasília, no teatro do CCBB (Centro Cultura do Banco do Brasil), que falo na resenha abaixo:

 

Um Arthur Miller de encher os olhos

O bom texto teatral, como qualquer obra de arte, é aquele que nos faz penetrar num mundo vasto, do qual só podemos emergir outro. Uma obra assim nos permite perceber as relações humanas nos seus mais diversos matizes, dos conflitos amorosos ao embate político ou ideológico, da amizade mais sincera à traição que sempre aniquila. Vemos o ser humano, nesse caso, em sua plenitude: capaz de mesquinharias e de gestos heroicos. Tomando emprestado o discurso de Nietzsche, humano, demasiado humano, é assim que o vemos. A sua alma vaza pelos poros. Ali, no palco, na figura dos atores e das atrizes, a vida se descortina assustadoramente bela e trágica diante de nós. É para fora do nosso eixo de comodidade que somos arrastados todo o tempo. É nossa consciência que é fustigada sem trégua.

Tudo isso pode ser atribuído à peça que Arthur Miller escreveu após a morte da atriz Marilyn Monroe, com quem foi casado de 1956 a 1961. Depois da queda, escrita em 1964, mostra, de modo impiedoso e, às vezes, bem-humorado, o cenário político dos Estados Unidos durante a caça aos comunistas (e aqui o autor dessacraliza também a visão romântica do intelectual engajado), sua relação com a família e, obviamente, com o mito Merilyn Monroe. Arthur Miller não fala diretamente da sua vida. É na figura de Quentin, um advogado bem sucedido, e de Maggie, uma pop star depressiva, que ele traz à tona o seu passado.  É, claramente, uma obra autobiográfica, mas que vai além do expor os percalços amorosos e familiares do autor.

Depois da Queda / Foto: Daniele Avila

 

Esta nova montagem da peça do dramaturgo norte-americano, ganhador do Prêmio Pulitzer de 1949, tem tradução e direção de Felipe Vidal e conta com a participação de um elenco afinado: Simone Spoladore, por exemplo, se sai muito bem no papel de Maggie/Marilyn Monroe. Lucas Gouvêa (Quentin/Arthur Miller), com memória invejável, leva sua fala ácida e caudalosa de ponta a ponta sem grandes escorregões. Gostei, particularmente, da atuação da atriz Thais Tadesco (Holga, Rose): sensível e ágil na passagem de uma personagem a outra. Repito: o elenco é afinado. E é isso, aliado à qualidade magistral do texto, que faz com que o espectador se mantenha ligado durante as três horas de duração do espetáculo.  A peça fez sua estreia nacional aqui em Brasília no dia 19 de outubro de 2012, no CCBB (escrevo esta resenha no dia 10 de novembro, um dia antes de ela encerrar sua temporada por estas bandas). Daqui, parte para uma turnê nacional (só não sei se será apresentada apenas em teatros do CCBB).  Fiquem, portanto, bem atentos, pois este é um espetáculo teatral imperdível.

(Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. Tem alguns livros publicados, dentre eles Baque (contos, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro, Ponteio Edições).  É colunista dos sites Dona Zica tá braba, O BULE e Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

A Filha da Cidade

Mariza Lourenço

 

Foto: Catharina Suleiman

 

O nome não importa e não creio faça diferença a essa altura do campeonato. Nem a idade. Ou a cidade onde morava. Pequena o bastante para que todos soubessem de sua vida e a recontassem, com certo exagero, a esta que escreve por mera curiosidade. Chamemo-la, portanto, de senhorita A., já na casa dos quarenta, relativamente agradável à vista, filha única entre nove irmãos. A sexta, para ser mais exata. E a única que restou naquela casa construída com o esforço de seu pai, militar reformado. Os irmãos partiram para cidades maiores. E só os viu novamente no enterro do pai, época da partilha. Deixaram para ela a casa e as parcas rendas que recebia mensalmente a título de pensão.

Senhorita A. não gostava de televisão, mas tinha verdadeiro apego ao rádio de mogno e às notícias. E às músicas que o aparelho retransmitia dia e noite. A inversão das horas era detalhe miúdo. Noite e dia. Salsa, merengue, fuga de Bach, Vicente Celestino. Ora, quem passasse em frente à casa saberia. A resistência do aparelho era impressionante. E sua sonoridade, quase pura, também. Para o mundo, ou pequena vila, era música o tempo inteiro. Para ela, supõe-se… Ah! Suposições, afinal, sempre serão especulativas. Então, que fosse somente música para ela. Todos já haviam se habituado ao som do rádio e à ausência da senhorita A. nos eventos mundanos. Ela não saía de casa. Mas escutava rádio o tempo todo.

Um dia a música calou. Acharam estranho, mas não deram tanta importância àquele silêncio repentino. O rádio, talvez, tivesse se quebrado de tão velho. Ou ela, a senhorita A., estivesse cansada de tanta música. Não se sabe. Até que um cheiro nauseabundo tomou conta de tudo. Um cheiro estranho e aterrorizante, como se todos os segredos e pecadilhos daquela cidade, ou o que ela escondia, pairassem no ar. As pessoas começaram a evitar umas às outras. A desconfiança, agora, era sentimento comum. Um dia a música retornou, baixa a princípio. Mais alta com o passar das horas. Belas músicas encheram o ar de certa esperança. Somente, então, se deram conta dos dias de ausência da senhorita A. e da música que, enfim, estava de volta, encobrindo o cheiro ruim, a desconfiança, os pecados. Bateram à sua porta. Ninguém atendeu. Arrombaram a porta. Ela não estava, mas, em sua cama, uma criança recém-nascida mexia as mãos. Fecharam a porta, levando embora o pequeno segredo.

Da senhorita A. nunca mais se soube.

(Mariza Lourenço (Valinhos/SP) é escritora e advogada. Integra as antologias: “Saciedade dos Poetas Vivos”, Vol. VI, organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino (2008); “Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas” (2009); “Coisas de Mulher”, organizada pelo Conselho Estadual da Condição Feminina (2010); “A poesia é para comer”, organizada por Ana Vidal (2011) e “Amar, Verbo Atemporal”, organizada por Celina Portocarrero (2012). É Coeditora da Germina – Revista de Literatura e Arte e das Escritoras Suicidas. Contato: marizalourenco@uol.com.br )