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74ª Leva - 12/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A inquietude talvez seja uma das ferramentas mais indispensáveis a um criador. Seja por um eixo filosófico ou meramente orgânico, estar vivo já pode ser entendido como uma experiência densamente inquiridora. Esse tipo de reflexão pode conduzir-nos também à instigante ideia de que o produto da arte não é um objeto de um mero e reduzido estado de contemplação das coisas. Achar-se aqui, no meio da “civilização” que construímos até hoje, representa muito mais do que um exercício estético de observação. Por mais acomodados que sejamos, acondicionados em bolhas de isolamento pessoal, o fato é que não passamos impunes pelas urgências do tempo.

No campo da literatura, qual seria, então, a melhor forma de representar a avalanche de sensações que presenciamos através dos dias? Buscar respostas não parece algo razoável. Tudo isso também porque escrever implica penetrar nas camadas mais complexas possíveis, muitas delas envoltas em saberes e sabores que só são viáveis graças a um permanente estado de perplexidade deveras útil aos caminhos da criação. O espanto de se estar vivo e pertencer a uma cadeia de elementos pelas quais não temos domínio absoluto é aspecto que povoa as mais distintas intenções quando o assunto é travar o combate das palavras. E não há como percorrer as paisagens humanas sem retirar das andanças um mínimo que seja de estranhamento. É, por exemplo, um pouco da sensação marcante que nos toma de assalto quando lemos André de Leones. Em sua trajetória, esse jovem escritor goiano penetra de modo denso nas estruturas que permeiam a nossa condição de humanos. De posse disso, faz uso de estratégias narrativas que chamam a atenção pelo modo como seres e lugares convergem para um sentimento de constante perturbação. Assim, perceber-se vivo na ótica do autor é não pactuar com uma acostumada e perniciosa “ordem natural” das coisas.

O caminho de lucidez sobre o qual André edifica sua obra demonstra que após atravessar as vias de Hoje está um dia morto (Romance – Record – 2006), Paz na terra entre os monstros (Contos/Novela – Record – 2008), Como desaparecer completamente (Romance – Rocco – 2010) e, mais recentemente, Dentes Negros (Romance – Rocco – 2011), ele parece estar cada vez mais disposto a pôr em xeque os alicerces em que se funda nossa tenra existência.  Nesta entrevista, o autor pontua aspectos decisivos de sua criação, refletindo um pouco sobre nosso tempo e seus ventos eivados de desassossego.

 

André de Leones / Foto: Renato Parada

 

DA – “Dentes Negros”, seu último livro, é, digamos assim, um romance caótico, no qual a sensação do derradeiro instante paira por sobre a sina dos personagens de modo a representar muito mais do que uma mera ideia de finitude. Em meio à paisagem desoladora da narrativa, vestígios parecem ser precioso legado. O que lhe é mais emblemático nessa percepção?

ANDRÉ DE LEONES – Não vejo ‘Dentes negros’ como um “romance caótico”. Em termos estritamente estruturais, por exemplo, talvez seja o livro sobre cuja organização eu mais trabalhei. Tudo nele aponta para a finitude, de uma forma ou de outra. O fato de a narrativa ser tão curta é um indício dessa intenção. Ela é constituída por capítulos pequenos, objetivos, crus, mas que eu não encaro como “vestígios” ou coisa que o valha. Também não gosto do termo “sina”, pois tem a ver com certo fatalismo. Não sou fatalista. Não acredito em “sina” ou “destino”. Não era o “destino” de Hugo voltar à sua terra natal, assim como não era o “destino” de Alexandre encontrar Ana Maria. Escolhas são feitas cotidianamente, não importa em que circunstâncias. Nesse sentido, ‘Dentes negros’ tem tudo a ver com meus livros anteriores. Crio os personagens e os coloco em determinadas situações. A narrativa avança a partir do que eles escolhem fazer (ou não), desde as coisas mais simples (ficar em casa ou sair) até as mais difíceis (continuar vivendo ou não).

 

DA – O livro tem uma construção narrativa cujo encadeamento das ações chama atenção pela disposição das situações. Nesse sentido, há algo marcantemente cinematográfico na obra. Quais caminhos nortearam essa perspectiva criativa?

ANDRÉ DE LEONES – De fato, o romance nasceu de um determinado gênero (ou subgênero) de filmes que me interessam muito. São aqueles passados em mundos desolados por uma qualquer hecatombe, como que depois do fim do mundo, com os sobreviventes tendo de se virar com o que restou da civilização, por entre os escombros. Claro, há livros estupendos que se apropriam desse tipo de coisa, e eles também são muito importantes para mim (cito “A Estrada”, de Cormac McCarthy), mas a minha vontade, ao escrever “Dentes negros”, foi me basear num subgênero cinematográfico do qual ‘Mad Max’, de George Miller, talvez seja o exemplo mais perfeito. Não só pela extrema competência com que foi realizado, pela inteligência visual de seu diretor, mas também pela sua aridez, pelo fato de não fazer concessões na maneira como introduz um mundo ou um pós-mundo em que os estamentos da civilização vieram abaixo. Ao escrever “Dentes negros”, eu me permiti contaminar por esse sentimento de desolação, pela aridez dos cenários e situações, pela sensação de que algo deu muito errado e não há muita coisa que se possa fazer a respeito. Por outro lado, e nisso eu me distingo desse tipo de filme, optei por não embarcar numa narrativa de peripécias. Observe que mesmo a violência, em “Dentes negros”, é anti-climática, não há a construção de um emaranhado de ações que culminem num clímax redentor ou coisa que o valha. Os personagens erram por aí, simplesmente. O retorno de um deles à terra natal é abortado logo de cara, por exemplo. O gesto de outro (ir à procura da prima do morto e lhe entregar uma encomenda) não é heróico, cinematograficamente falando. Eu me fixo nesses gestos menores, que, no fim das contas, são aqueles de que somos capazes, quando somos. Fosse um filme, “Dentes negros” não seria cinema de ação, mas teria a lentidão que percebo, por exemplo, nos filmes de Michelangelo Antonioni (um mestre, aliás, em tomar premissas que renderiam ‘thrillers’ para construir narrativas das mais introspectivas – vide “A Aventura” e “Profissão: Repórter”).

 

DA – O modo como você aborda a questão da alteridade no contexto do livro é um aspecto de interessante reflexão. Tens a sensação de que algo ali é posto à prova?

ANDRÉ DE LEONES – A alteridade sempre foi um tema norteador em tudo o que escrevi. Desde os meus primeiros contos até “Dentes negros”, passando pelo “Dia Morto”, o mais importante sempre foi situar os personagens em determinadas situações; para tanto, é imprescindível um ponto de referência, ou seja, o outro. Nos meus textos, tão ou mais importante do que aquilo que os personagens dizem de si é o que eles dizem uns dos outros e para os outros. O outro, portanto, é uma via para alguma espécie de auto-conhecimento. “Dentes negros” traz, também, um esforço dessa natureza, seja para situar-se num mundo transformado em escombros, seja para seguir adiante, ainda que de forma precária. O outro nos pede que o asseveremos de que ele está ali, continua ali, e em troca faz o mesmo por nós.

 

DA – Observando o que vivemos hoje, sobretudo no que se refere ao terreno das relações, acredita que estamos diante de uma crise de humanidade?

ANDRÉ DE LEONES – A humanidade está onde sempre esteve. Não somos grande coisa, nunca fomos, nunca seremos. Compreendo que muitos precisem acreditar num sentido maior para tudo o que há, até para conseguir suportar uma existência que, na maior parte do tempo, é desoladora. Eu, felizmente, não preciso disso. Nada faz sentido. Escrevo porque é algo que aprecio fazer e porque preciso me ocupar enquanto estiver vivo. Acho que, se as pessoas conseguissem se manter ocupadas assim, sem recorrer a quaisquer transcendências, viveriam melhor, prestariam mais atenção em si, nos outros e no mundo ao redor. Até porque não há mais nada, reitero. Você não passa de uma carcaça arremessada para a morte, isto é, para o vazio. Acostume-se com essa ideia e tente aproveitar a viagem, se possível.

 

DA – Lugares como Silvânia e Goiânia integram de modo recorrente seus escritos. Estas referências refletem em você alguma sensação de pertencimento?

ANDRÉ DE LEONES – Não, pelo contrário. Só me senti em casa em dois lugares até hoje, e um deles foi Jerusalém. Silvânia e Brasília (onde residi por três anos e que adoro) são recorrentes, não Goiânia. Nasci em Goiânia, mas só passei temporadas relativamente curtas e em momentos muito distintos da minha vida na cidade, de tal forma que não a conheço bem. Mas, respondendo à pergunta, Silvânia aparece justamente como terra estrangeira, para não dizer alienígena, em meus escritos. Não há sensação de pertencimento. A angústia surda que move os personagens de “Hoje está um dia morto”, por exemplo, surge justamente de uma extrema sensação de desconforto para com aquele ambiente. Não por acaso, sempre descrevo a cidade como um lugar opressivo, desarvorador. Reitero: Silvânia é onipresente em meus escritos porque fui criado ali e também porque, como escritor, querendo ou não, sempre recorro aos lugares que me marcaram de alguma forma, boa ou ruim. A memória engendra a ficção, no meu caso – o que não significa que os meus livros sejam factualmente autobiográficos, acho bom ressaltar.

 

André de Leones / Foto: Renato Parada

 

DA – Hoje você vive em São Paulo, metrópole que, por mais que pareça colossal e anacrônica, seduz por seus atrativos de toda a ordem. Esse cosmo paulista instaura um novo paradigma em sua escritura?

ANDRÉ DE LEONES – Creio que sim. Os lugares em que estou ou estive são muito importantes para a minha imaginação. Aliás, gostaria de retificar algo: além de Brasília e Jerusalém, também me sinto muito bem em São Paulo. Talvez por se tratar de uma cidade em boa parte constituída por imigrantes como eu e seja, em função disso, muitas cidades numa só (no que isso tem de melhor e pior), ela parece se moldar aos olhos de cada um, de tal maneira que há uma São Paulo, boa ou ruim, ou às vezes boa, às vezes ruim, suportável e/ou insuportável, para cada pessoa que vive nela, dependendo de onde e em que condições se vive. Essa justaposição tresloucada de olhares e vivências constitui, por um lado, a pluralidade tão associada à cidade, mas, por outro, como que isola os que nela habitam em bolhas que mal se comunicam. Somos como sistemas isolados, e é realmente muito fácil (para aludir ao título de meu livro mais paulistano até agora) desaparecer completamente por aqui e deixar de perceber o outro, o diferente, com um mínimo de atenção. Se a pessoa tem interesse e condições de aproveitar o que a cidade oferece, a movimentação cultural, a enorme variedade gastronômica, a colcha de retalhos que a constitui, viver aqui é muito bom. Mas, se a pessoa não tem, pode ser um inferno. O caos urbano e a multiplicidade de personagens que ele engendra são extremamente inspiradores para mim. Não trocaria São Paulo por nenhuma outra cidade brasileira.

 

DA – Seu processo de imersão na criação de um livro compreende algum rigor específico? Entre palavra e imagem, quem normalmente desponta como a centelha inicial?

ANDRÉ DE LEONES – Tenho um processo cheio de manias. A palavra está sempre na origem. O nome de um lugar, de um personagem, uma frase solta, o nome de uma canção. A partir disso, penso numa situação e procuro desenvolvê-la. Se preciso, pesquiso a respeito do lugar onde quero situar a história e outros detalhes que julgar importantes. Ouço música, bastante, porque me ajuda a encontrar o tom, o ritmo que quero imprimir num determinado texto. Pego um caderno e escrevo muito sobre a história que quero contar antes de começar a esboçar a história propriamente dita. As primeiras versões são sempre manuscritas. Depois, digito, imprimo, reviso, volto a digitar, imprimo, reviso, reviso, reescrevo. Escrever, para mim, é reescrever, nunca me canso de dizer isso. E não me canso porque ainda existe a ideia do artista “inspirado” escrevendo um texto assim, de primeira, graças a uma qualquer “febre criativa” ou coisa parecida. Claro, há dias em que o trabalho flui melhor e há dias em que simplesmente não flui. Mas é disso que se trata, sempre: trabalho.

 

DA – Está em curso algum novo projeto literário seu? 

ANDRÉ DE LEONES – Terminei de escrever ‘Terra de casas vazias’, meu novo romance (com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2013 pela Rocco), em julho passado. Foram mais de três anos de trabalho e, bem, eu estou cansado. No entanto, a cabeça nunca para de trabalhar e uma ideia me ocorreu há algumas semanas, para um novo romance. Ocorre que eu não quero nem posso me envolver em um novo projeto agora. Assim, o que estou fazendo é “cozinhar” essa ideia, de tal forma que ela não morra, pois me parece interessante, mas tampouco se imponha e me obrigue a colocar todas as minhas outras atividades em segundo plano, que é o que acontece quando inicio, de fato, a escrita de um novo livro. Como de hábito, tenho anotado algumas coisas que me ocorrem relativas a essa ideia em um caderno. Daqui a um ano, mais ou menos, depois que eu já tiver lançado e, por assim dizer, me livrado de ‘Terra de casas vazias’, voltarei a esse caderno e verei se há mesmo alguma coisa ali. Se houver, aí, sim, embarcarei noutra viagem.

 

DA – Jerusalém, pelo fascínio que exerce em você, figura como uma provável influência criativa?

ANDRÉ DE LEONES – Provável, não. A cidade já integra o meu universo criativo, tanto que parte de ‘Terra de casas vazias’ se passa em Israel e, sobretudo, em Jerusalém.

 

DA – Na literatura e, também, fora dela, o que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

ANDRÉ DE LEONES – Na literatura e fora dela, seja na pós-modernidade, seja quando for, antes ou depois, não endosso ideologismos de qualquer espécie, à direita ou à esquerda. A estupidez é ambidestra.

 

DA – Por tudo o que já viveu até aqui em sua trajetória com as palavras, o que o impele a continuar trilhando o pantanoso ofício de escritor? 

ANDRÉ DE LEONES – O que mais sei fazer? Muito simples: não tenho interesse por fazer mais nada.

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Dheyne de Souza

 

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

eu quero des-cobrir a tua alma fóssil

 

preciso te avisar que sei carpir segredos e tateio silêncios
porque ouço em braile e à medida que teu sono inspira inauguro
arcabouços postes na altura dos teus poros, pequenas cidades.
eu quero estepe e riso e gota e vidro
e na esquina do teu cílio enredo um poema tátil. quero aparar tua
reticente vírgula. e confundir o teu cenho enleio passo.
mas eu preciso prevenir teu vão. que desenho til na linha do teu
lábio. que detenho o vil da tua fineza. que aparo gotas do teu olhar
quedado.
eu quero carpir a tua pele dentro.
quero expandir as tuas verdades.
quero escalar as paredes mornas do teu berço ilhado.
advirto ainda que meu toque é leve, não quero acordar o teu
silêncio indócil. eu só quero as portas do teu só sem chaves. tirar
pra dançar essa fresta tênue, que descansa a falta de uma brisa
torta. o meu hálito venta janelas de miras.
enquanto a tua vigia dorme, inscrevo o alfabeto das tuas retinas.
eu quero acordar a tua alma fóssil
e bocejar na boca da tua angústia
e quem sabe dizer bem baixinho e rente: despe o teu medo o frio o
passado o espinho que meu leito é quente e minha sede é ninho.

 

 

(Dheyne de Souza está em Curitiba, escreve poesia, prosema, caos e guaritas) 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Amor (Amour). Áustria/França/Alemanha. 2012.

 

 

 

“- É bela.
– O quê?
– A vida. Tanto tempo. A vida longa”.

 

Os passos juntos já não são os “da dança sob a Ponte d’Avignon”, são de suporte para atividades básicas como sentar em uma poltrona ou levantar do vaso sanitário. O auxílio para despir a roupa, não mais erótico e sim de amparo. O desjejum na cama, outrora sinônimo de romantismo, é hoje uma necessidade. O vigor do sentimento mais sublime que pode existir é tão feroz quanto à degradação da matéria e da memória. Ambientado em Paris, Amor, longa-metragem mais recente do cineasta austríaco-alemão Michael Haneke e vencedor da Palma de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cannes 2012 é um retrato seco e dilacerante (de 125 minutos) da inevitável passagem do tempo.

Anne (Emmanuelle Riva, da nouvelle vague Hiroshima Mon Amour, de 1959) e Georges (Jean-Louis Trintignant, afastado há quase 15 anos das telas) são octogenários ex-professores de música erudita. A única filha, Eva (Isabelle Huppert, que volta a trabalhar com o diretor 11 anos após A Pianista), também instrumentista, vive com o marido em Londres. Após um procedimento cirúrgico, Anne sofre um AVC e tem o lado direito de seu corpo paralisado. Diante da decadência gradual provocada pelas sequelas da cirurgia, a idosa diz ao marido que não vê mais nenhuma razão para continuar vivendo. O que se observa, a partir disso, é um constante esforço do casal Laurent em aceitar o sofrimento da perda iminente à base de muita paciência, elegância e de todo o amor sugerido pelo título da película.

Aliás, mais que o amor, é o comprometimento com a dignidade o verdadeiro sujeito do filme. Compassivo e realista, Haneke traz uma abordagem rigorosa para a velhice, sem, contudo, tornar-se piegas ou alarmista. Nunca veremos Anne na assepsia de um leito hospitalar, por exemplo, já que praticamente todo o longa se passa dentro do amplo apartamento do casal. Repleto de simbolismos e elementos oníricos, Amor celebra vida e morte, sacrifício e piedade, sanidade e demência, além de tecer uma crítica velada à terceirização de cuidados em clínicas e asilos. Haneke  contempla-nos ainda com sopros de ternura e humor, principalmente quando Anne aprende a locomover-se em uma cadeira de rodas motorizada ou quando uma verborrágica e inconveniente Eva discorre friamente sobre o mercado financeiro enquanto sua mãe, confusa, balbucia palavras desconexas. E a filha tem o disparate de protestar ao pai: Ela só diz bobagem!”.

Protagonizado por dois lendários atores do cinema francês em densas interpretações e eleito como o Melhor Filme Europeu do ano pela Academia Europeia de Cinema (conquistou também os prêmios de melhor atriz, ator e diretor), Amor é o representante da Áustria como pré-candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2013 e acaba de ser indicado na mesma categoria ao Globo de Ouro. Tal qual em Caché (2005) e A Fita Branca (2009), Haneke prossegue seu cinema cadenciado, polêmico e violento mesmo que a violência aqui assuma outro viés , capaz de colocar a plateia numa desconfortável posição de “voyeur apocalíptico”. Ainda que menos impactante que seus outros premiados filmes, é impossível sair incólume do cinema, justamente pela simplicidade e crueza emanada pelo Amor hanekeano. Afinal, de uma forma ou outra, o amor quase sempre provoca dor.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Olhares

Olhares

DO INDIZÍVEL E OUTROS TONS

Por Fabrício Brandão

 

 

Foto: Catharina Suleiman

Uma vasta paisagem embebida em segredos e mistérios povoa a arte de Catharina Suleiman. E falar disso não se resume a pensar que a tessitura de suas imagens reveste-se apenas dos dotes mais densos duma subjetividade que se requer marcante, mas sim a uma reprodução de certos horizontes quiçá inabitados pela superficialidade dos dias.

A fotografia ganha um sentido etéreo a partir dos registros de luz feitos por essa paulistana. Através do seu olhar, o idioma do corpo humano salta aos olhos, desvelando formas, sentidos, gestos e apelos diversos da alma. Qualquer noção de obviedade é posta à margem. Importa saber do insondável, do algo além-matéria, perquirir os vãos e desvãos que abrigam o ser.

Como exprimir em palavras aquilo tudo que se revela habitante do incontido? É assim que vamos tomando conhecimento de que estar diante da proposta visual da fotógrafa revela-se verdadeira odisseia de signos. Por mais que tentemos tornar ao ponto inicial da viagem, a experiência de estar ali, frente às singulares vias de sugestão da artista, faz do retorno algo totalmente renovado, porém incerto. Curiosamente, não vagamos por entre rostos, fragmentos temporais, detalhes, lugares e outros tantos tons com a sensação de avançarmos ilesos. Nesse aspecto, estar no limiar das coisas é desfrutar o gosto impreciso das horas e sentir-se parte de uma existência que não busca respostas para seguir adiante.

Foto: Catharina Suleiman

Em sua trajetória, Catharina acumula experiências de vida em diversos países, tendo participado de vários cursos. Sua relação apaixonada com a fotografia permitiu-lhe aprofundar-se na área e conhecer processos alternativos e experimentais de criação. Do laço íntimo que estabelece com suas imagens, a fotógrafa confessa que utiliza seu ofício como forma de questionar a realidade, extrapolando a barreira física dos lugares captados em busca de um resultado passível de vibração pictórica.  E vai mais além, crê na possibilidade de se olhar tudo o que já foi visto antes de um modo inteiramente inexplorado, como se a cada nova investida do olhar pudéssemos perceber o nascimento de uma singularidade.

Utilizando-se recorrentemente dos recursos do vintage, Catharina Suleiman não somente delineia um elo entre passado e presente, como também nos envolve numa atmosfera na qual as perspectivas visuais mostram-se especialmente atemporais. De fato, não há razão para a ocorrência de limites de tempo ou espaço, apenas a permanente presença dum percurso poético por sobre a natureza das coisas flagradas sob os mais distintos matizes. O que a fotógrafa batiza como ilusões pode muito bem nos parecer um convite à reinvenção da vida, palco onde desfilamos desnudos, viscerais, contraditórios e, por vezes, inconfessáveis.

Foto: Catharina Suleiman

* As fotografias de Catharina Suleiman são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 74ª Leva.

 

 

 


 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Nina Rizzi

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

fabulosos cachalotes, metáforas pra voglia, 5

 

minha mulher, clara e decidida, se crê adormecida

(chamo-a minha mulher por puro disparate
sabemos: não pode ser de ninguém se é sua)

princesa de copas, agoniza uma imperícia com os dedos
não obstante goze as pombas que alimentamos

meticulosa em tudo, não sabe desses seres
que precisam de um cuidado desleixado:
as violetas sedentas por esturricar ao sol e os peixes
megalomaníacos que insistem não se serem, ser beta, oscar:

sozinhos e só, como em resposta ao mundo que os paralisa
o querer ser outro – mamífero e rastejante; neurastênicos
da família poulain, brincam com ela em saltos mortais…

adormece minha mulher quando venta teu nome em minha língua, amor
em tudo o mais é desperta. poderia minha boca
num absorver de fôlego, fazer jus à sua natureza terrestre entre as águas?

mil imagens se deslindam desde a sesta até agora
cantando estorietas de quando eu era feliz e sabia alguma certeza.

 

 

***

 

 

kammerspiel, metáforas pra voglia, 6

 

separada da alegria do mundo
não escrevo. se me dão grafites, soutiens
dou um passo contrário às velocidades
e não vou ao mar

aonde escondi-me a mim
suspiro. boneca inflável
rasante de ogivas, sobejo
– a última gargalhada não é estática

uma panaceia cortante.

 

 

***

 

 

nouvelle vague, minhas sextas com ela, metáforas pra voglia, 7

 

antes que se dê nomes às coisas, as experimento

como uma mulher que nos momentos de transformação permanece
em casa, que derruba o chá por não ler as instruções
da lata, o desvelo das certezas. espaço decodificado em coro
pelos evangelizados e aberto ao espanto, por ser reto

movimento das dúvidas ao conhecido, vem o verbo a mim
milagre das câmeras que habitam o silêncio e o escuro
carregado pelo peso de seu momento, a sensação pré-objetal
de que resta tudo a ensaiar, pôr à prova, ser ex-

perimentado. amálgama de desesperos e paixões, transferência das lógicas
e peripécias à emergência do único: levantada nas mãos a própria cabeça.

 

 

(Nina Rizzi  edita a Revista Ellenismos – Diálogos com a Arte e escreve seus textos literários no quandos)

 

 

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Galeria

Foto: Catharina Suleiman

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