O que dizer dos vestígios que deixamos em vida? Na profusão dos seres, cada acesso percorrido sugere um arremesso. A medida inexata das profundidades flerta constantemente com os mergulhos a que nos propomos. Assim, vamos tentando alguma pista sobre nós mesmos, quiçá um entendimento sobre o que reter da jornada errante. O expelir das palavras pode nos auxiliar nesse exercício de transitar pelos lugares todos. Talvez a capacidade de abstração seja a possível cura para alguns cruciais desfoques do olhar. Enquanto somos impelidos à busca, a leitura dos sinais aparece multifacetada em toda a sorte de trajetos. Ao mesmo tempo em que viver é se deparar com as manifestações ululantes daquilo que temos em conta como sendo o real, o emaranhado de nossa subjetividade enreda laços para o fugidio descompasso dos instantes. Então, nos é dado o abrigo do sonho, não como um refúgio premeditado, mas como vias de reinvenção da existência. Daí, encontrar artesãos da palavra que sabem o gosto que tal missão encerra. Na Leva que apresentamos agora, a entrevista com o escritor paraense Vicente Franz Cecim dá-nos um pouco da dimensão disso tudo. Tendo como cenário de sua obra a mítica Andara, Vicente descortina outras camadas dessa complexa e misteriosa experiência que é o estar-se vivo. Entre textos e seus múltiplos signos, somos levados pela exposição das fotografias de Silvio Crisóstomo, cujo trabalho confere um denso e especial olhar sobre a cidade de São Paulo. Os ventos poéticos de então sussurram marcantes sinais nas escrituras de Joelma Bittencourt, Heitor Brasileiro Filho, Eduardo Lacerda, Karinne Santiago, João Urubu e Sandrio Cândido. Enlaces do cotidiano, os quais nos marcam a ferro e fogo, estão presentes nos contos de Carla Diacov e Rodrigo Melo. Nesse terreno, ainda há espaço para a veia fabular do argentino Fernando Sorrentino. Num convite à leitura, a escritora Márcia Barbieri propõe um percurso pelo romance de estreia de Halley Margon. Larissa Mendes desfila impressões sobre o mais novo disco do cantor e compositor Otto. A produção americana Moonrise Kingdom é tema da resenha cinéfila de Bolívar Landi. A 76ª Leva prenuncia seus novos mergulhos. Sejam bem-vindos, caros leitores!
Eu tenho medo, confesso.
Juro que confesso meu medo
Meu medo
Meu medo é que se calem meus olhos.
Que meus olhos se calem o que há muito já não diz minha boca
Tenho medo que já não me caiba em meus olhos um mundo
Um mundo que em mim já é submerso, absorto.
Eles já calam as despedidas, meus olhos.
Outrora tão serenos, meus olhos cerrados, doídos.
Agora inertes trôpegos de uma maldade relutante
E uma saudade relutante
E eu não queria
Eu não queria que alguma coisa em mim
Como os olhos
Se tornasse finita.
Tudo é finito.
Desgostoso, admito o fato.
Tudo é finito aos olhos de Deus
E aos olhos do estômago.
Meus rins doem
E riem.
Meus olhos já nada
Nada em meus olhos
Pela tortura da dormente sensação de sofrimento por antecipação
Não sinto meus olhos.
E ao fim, que a eles pertence.
Que chegará sem que eu sinta.
Meus olhos morrerão no meio da minha preocupação medíocre
E eu não o saberei, mediocremente, justo por querer sabê-lo.
É justo.
Calar-se em meio disso é justo, é nobre.
Por isso falo, falo sem pensar, sem parar.
Ajo sem pensar, sem parar.
No fundo no fundo acho que o que eu quero é dessentir.
Por medo de provar do sabor de realidade que ludibrio.
E eu sinto tanto, sinto muito.
Sem sentir nada.
A vida é justa aos que a vivem plenamente.
E eu acho que nunca a vivi.
Minha vida é nada, minha poesia é nada.
Eu nunca vivi.
Tudo é falsidade, porque nem me permitir sentir, de forma íntegra, eu consigo.
Eu não sei ser íntegro aos olhos que falam.
Aos olhos que cantam
Aos olhos que cegam
Aos que cerram, à noite, em paz.
Os que cerram pra sempre.
Eu não mereço o olhar de nenhum cristão falso
Ou pederasta.
Matei meus olhos, sufocaram.
Sufocaram de tanta dor não sentida
Eu sinto um vazio no peito.
Eu sinto um vazio.
Vazio é vazio.
Vazio não se sente.
Assim eu adormeço, jurando pra mim mesmo que mereço outro dia.
Há sempre outro dia.
Há sempre outro dia
Há sempre outro dia
E é o que eu mereço.
***
IV Lächeln und Verzweiflung –
Para Carla Diacov
Feita
Seleciono silenciosamente gritos
Sempiternos e silenciosos gritos
Ditos no oco de minha alma estática e muda
Onde já não há estática forma
De se dissimular verdade.
Que verdade o acaso me espera saber responder, corresponder, adivinhar?
Se não me caibo equilibrar para além dos poros qualquer tropeço
Se a minha carne trêmula veta a possibilidade dos tremores cardíacos.
-Os tremores cardíacos os quais calo-
Que razão desmensurada me propõe tamanho lirismo?
Que conveniência me propõe tamanho gozo?
Que proficiência assentida pressupõe-me?
Chega de dúvidas.
Ao descaber-me dessas, curvo-me ao escuro.
Que ameniza, juntamente aos cigarros.
-Os limitadores de afã- Cigarros.
Porque afã cansa
E eu me sinto cansada.
De espera.
O mirone da vida teimou em dizer-lhe:
Olha como falha, demente, ao que tanto anseia.
Viciada nas parvoíces do devir.
Viciada na espera.
A paixão já lhe descai naturalmente fugaz.
Sou o acúmulo dos sentimentos néscios.
Eu que me deixo lograr.
E digo assim complexamente, pois fujo.
Que não me permito perceber.
Licença poética das medidas provisórias…
É onde me arranjo, porque meu ganho nessa corja de ideal é quase nada.
Minha cara dada a tapa somente ao vento, que muito maliciosamente bagunça os meus cabelos.
Quisera eu, quem sabe, perceber metade de mim nessa realidade que criei por cima da pele.
Ah, titubeando pro nada a graça de um brado valoroso.
Como sou mesquinha
E leve.
Avessamente bem quista pelos extremos de mim mesma.
A revolução por dentro da pele
O apaziguamento para além dos poros.
Como quisera eu ser pra dentro
O que pra dentro eu queria fora.
(João Urubu é músico, poeta e compositor da cidade de Belém – PA, graduando de Licenciatura Plena em Letras com Habilitação na Língua Francesa pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Dos três anos como poeta e compositor, passou um ano especificamente trabalhando como compositor de trilhas e diretor musical de teatro)
Moleque, imaginava que, homem feito, eu seria alguma espécie de guerreiro, herói de batalhas, conquistador (nunca um médico, como meu pai, ou contador). Transformei-me, por fim, num fiscal da Secretaria de Trânsito e Transportes da prefeitura: o bloquinho e a caneta na mão, óculos escuros pro romantismo não morrer.
O ônibus era o 016, linha 20, que entrava pelo Alto do Basílio, cortava Palmares e descia lá na Avenida Esperança, perto da Polícia Federal. Minha função era anotar o número da catraca toda vez que chegássemos ao ponto final, e o objetivo da missão, como o pessoal da Secretaria gostava de falar, era descobrir se o trajeto suportaria um ônibus maior. Eu sabia que não, mas não fazia diferença: os diretores e os seus secretários, com suas caras brutas e mal humoradas, quase nunca seguiam a lógica ou a opinião dos fiscais na hora de tomar as decisões.
Eu subia e descia as ladeiras olhando para o mar lá embaixo, pensando que, séculos antes, centenas de homens haviam cruzado aquelas águas em busca de riquezas, amores e salvação – o sangue humano, nunca derramado em vão. Agora, cruzando os morros, eu só buscava um pouquinho de emoção.
O tempo, de uma maneira ou de outra, acabava passando, da mesma forma como passavam as ruas e as janelas que eu investigava. Quem sabe a vida, minha e das pessoas que eu via, se resumisse àquilo: a sombra dos prédios e o sol marcando o asfalto, as tardes sonolentas, uma curiosidade infantil, a melancolia dos lugares e dos dias.
A empreitada acabava perto das sete da noite. O 016 me deixava a dois quarteirões de casa. Eu apertava o passo porque era justamente nessa hora que as costas começavam a doer.
Naquela noite, no entanto, enquanto eu caminhava distraído, coincidentemente pensando na história dos Aqueus (e em Aquiles, que, antes da flechada, vingou Peleu, do jeito que previram), havia uma garota lá, do outro lado da rua, gritando e assobiando pra mim. Tinha mais ou menos vinte e poucos anos, usava um short largo, estilo surfista, um top cor de abóbora e marrom. Linda não era, mas a gente nem sempre pode escolher. O mundo aperta o laço pra quem já passou dos trinta e tantos e não vingou.
– E aí, gato, tá afim?
– Tô – respondi sem pensar muito. – Quanto é?
– Trinta.
– Ela tinha uma boca carnuda, os seios grandes e pontudos.
– Tenho doze – falei.
Ficamos parados, nos encarando. Fazia frio. Eu pensava que era um tanto Aquiles também, o destemido guerreiro encarando a vida e suas provações.
– Com doze, gato, é rapidinho – ela disse, a testa franzida, o dedo me apontando a direção.
E a transcendência e a eternidade nos fundos de uma serraria em alguma noite sem estrelas de um ano que não lembro mais. Eu não sabia se era um guerreiro usufruindo das conquistas da vitória, o fiscal de trânsito e transportes da prefeitura rumo à salvação ou o sujeito ultrapassado e perdido no labirinto dos anos e da vida, gastando a grana do cigarro pra beliscar a alma. Não encontrava a resposta, mas concluí que naquele instante não necessitava encontrar: me bastava sentir, indo um pouco pra frente e pra trás, com os olhos fechados, tentando, entre as pilhas de cedros, vinháticos e putumujús, fazer valer a vida, o sangue que corria nas veias e os meus doze reais.
(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo)
a poesia
lambe minha cara
engole a vergonha
e despe a alma
sem espelhos
as cicatrizes
são marcas
do que não me partiu (…)
feriu
em golpes mestres (…)
ou me pariu
num gozo de estrelas (…)
a sobra camufla a falta
não condecoro a dor
aos meus vazios
janela e ventania
***
(in)verso da metáfora
sua língua
segredo que dissipa
palavras em paladares
antigo diálogo amante
verbos complacentes
ordens sem imperativos
diminutivos ais
ditos sem rima
reinscrevo a estrofe
quando deita em mim
o mote
sou o (in)verso
da metáfora.
***
arremato
minha solidão a sua
alinhavo vazios
moldo minha pele
no contorno dos seus braços
dobro o tempo e amasso
ajusto o amor
espeto o dedo
esqueço que esgarça
***
não aceitam devolução
inexato
traço no lábio
ensaio
esboço de riso
quebrou o grafite
nasceu torto
no rosto
inacabado
porém
expressivo
o riso torto
(Karinne Santiago é sergipana, mãe de um menino descabelado, poeta e psicóloga. Escreve em redes sociais e em seus blogues: Poeticaria e Poesia Veneno antimonotonia, como colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica. Atualmente, envolvida no projeto de poesia infantil onde convida outros poetas a se aventurarem no universo lúdico das palavras)
Segundo místicos, o “Portal 11:11” foi aberto em 11/01/1992 e teve seu ciclo por um período de 20 anos. Concebido como uma lacuna ou ruptura entre dois mundos, este portal energético estaria ligado ao conceito de sincronicidade, de Jung. Entusiasta de tal filosofia cabalística a qual tem como preceito a coincidência desta combinação numérica (principalmente em relógios digitais), o compositor pernambucano Otto – que possui inclusive uma tatuagem dos dígitos nos dedos – lançou no final de outubro (o álbum chegou às lojas mais precisamente em 11/11) seu mais novo registro de estúdio. Cercado de simbolismos, definitivamente The Moon 1111 é um disco conceitual. Influenciado pelo “bombeiro incinerador de livros” Guy Montag, protagonista do filme Fahrenheit 451 (1966), do cineasta francês François Truffaut, o quinto álbum solo do artista mescla música [pop]ular brasileira com a psicodelia de The Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd e o afrobeat de Fela Kuti, músico nigeriano que Criolo nos ordenou escutar em Mariô.
Com uma discografia que transita por diversos estilos, do eletrônico à MPB, do manguebeat ao romântico, a verdade é que Otto sempre foi um transgressor de ritmos (não à toa a banda que o projetou como percussionista atende pelo nome de Mundo Livre S/A), que o digam Samba Pra Burro (1998), Condom Black (2001), Sem Gravidade (2003) e Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009). Ancorado pelos músicos Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Dengue e Pupillo (Nação Zumbi), que assumem respectivamente guitarra, baixo e bateria e a co-autoria em diversas canções, o álbum tem a produção também assinada pelo baterista da Nação e conta ainda com a participação do multifacetado Kassin. Figurando em várias listas de melhores discos de 2012, The Moon 1111 não tem analogia imediata com nenhum de seus trabalhos anteriores (seria cada álbum o fechamento de um pequeno ciclo?) e, apesar do título lunar é, até então, sua obra mais ensolarada. Gravado entre Peixinhos e São Paulo, o álbum mescla sonoridades orgânicas e experimentais, num paralelo entre a periferia afro (“qualquer favela carrega a África”, disse certa vez o cantor) do Recife e a cosmopolita terra da garoa.
Nos primeiros acordes de Dia Claro, canção que abre The Moon 1111, um Otto que parece saído da Jovem Guarda lamenta em off: ‘e pensar que sonhar era só viver/e pensar que amar era só se perder’, para logo desembocar num grito de libertação (era um sofrimento, um tormento, um sentimento que acabou!). A regravação de A Noite Mais Linda do Mundo – autoria de Donizete e famosa na voz de Odair José nos anos 70 – mantém a tônica piegas que permeia todo coração apaixonado. O primeiro single do álbum, a radiofônica Ela Falava – tecnopop oitentista que traz nos vocais a discreta participação da atriz Tainá Muller – parece evocar lembranças peculiares desse tal amor não-linear documentado no álbum. Na sequência, o candomblé eletrônico Exu Parade brinca com a sonoridade do título e eterniza o bordão populesco ‘chupa que é de uva’, presente namúsica homônima da banda Aviões do Forró. Já The Moon 1111, faixa que dá nome à obra, tem um groove regional que já acompanhava o músico em seu elogiado disco anterior.
A segunda metade do álbum traz Selvagens Olhos, Nego!, homenagem ao rapper paulista Sabotage, morto em 2003. Composta há quase 10 anos, a canção conta com os vocais da jovem cantora paraense Luê Soares nos belos versos ‘a vida bate calada, desafogada, bota pra valer/ensaiou o ano inteiro e por derradeiro, escorreu pelas mãos, entre os dedos’. Se HDeus flerta com uma espécie de disco rígido divino em clima psicodélico, Miss Apple e Zé Pilantra tem batuque e refrão incisivos (na vida tudo clareia/na vida tudo se apaga). Talvez a mais bela canção fique a cargo das cordas de O Que Dirá O Mundo, inspirada parceria com Lirinha (extinto Cordel do Fogo Encantado), onde declara: ‘eu divido contigo minha angústiae o meupão’. A ousada DP (gíria para dupla penetração) encerra o álbum celebrando o erotismo. Ao mesmo tempo em que Otto visita uma estética retrô-futurista, as 10 faixas de The Moon 1111 confirmam sua singularidade artística e apontam para “um novo começo de era”, onde todo aparente cenário caótico é transformador e revolucionário. Se ‘o melhor da vida é quando a vida se acaba’, não podemos dizer o mesmo sobre o álbum. Bora lá decorar o conteúdo desta obra.
(Larissa Mendes é dona de ouvidos lusco-fuscos e tem na Diversos Afins seu portal particular)
O diretor norte-americano Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums” e “Viagem a Darjeeling”) é reconhecido por seu perfeccionismo formal e por exibir em seus filmes um mundo particular povoado por personagens excêntricos que quase sempre apresentam algum tipo de desajuste social ou afetivo. Ele está longe de ser uma unanimidade. Seus detratores condenam os exageros e as “afetações” de seus trabalhos, outros conseguem enxergar nele a genialidade de grandes mestres, como o do seu conterrâneo Woody Allen, que imprimem em sua obra uma marca própria, tornando-a inconfundível.
Moonrise Kingdom, o novo trabalho do diretor, traz todas as características recorrentes em suas criações, no entanto, este não é um filme fácil de ser rotulado ou enquadrado em um determinado gênero. Ele é conduzido em tom de fábula unindo realidade a acontecimentos fantásticos, tornando-se assim rico em simbolismos e metáforas cujos sentidos vão além do que é meramente apresentado na tela. Se fôssemos descrever a história, não encontraríamos nada assim tão surpreendente. Contudo, não está aí o ponto forte da produção, o que impressiona mesmo é a forma que a narrativa é contada. As situações simples parecem adquirir um maior relevo e todos os elementos cinematográficos encaixam-se perfeitamente como em uma harmoniosa sinfonia ou nos movimentos mágicos de um malabarista.
Não é à toa que Anderson faz uma referência aos instrumentos musicais na película, a todo momento sentimos a sua presença a reger uma enorme orquestra. Tudo conduz sinestesicamente o espectador a se envolver com a trama. Os dinâmicos movimentos de câmera parecem nos colocar no interior de cada acontecimento e os enquadramentos da tela fazem com que vejamos através dos olhos dos personagens. A envolvente trilha sonora tem o poder de nos transportar para outros mundos. O artifício da narração e da leitura utilizado pelo roteiro cria um clima de cumplicidade ímpar com a história e seus intérpretes. As cores (em tons pastéis), o apurado figurino do anos 60, as encenações teatrais, tudo contribui para que os amantes do cinema sintam prazer do início ao fim da exibição. Algo mágico, difícil de ser descrito, instala-se.
Kara Hayward e Jared Gilman / Foto: divulgação
A trama se passa no verão de 1965 em uma fictícia ilha (New Penzance) na costa da Nova Inglaterra. Ela irá mostrar a aventura de um garoto (Jared Gilman) e uma garota (Kara Hayward) de 12 anos que se enamoram e decidem fugir juntos. A partir daí, viajaremos também em uma jornada sobre as descobertas do amor, amizade, companheirismo e dos percalços que marcam a passagem da infância para a vida adulta no melhor estilo de grandes filmes como Conta comigo (1986), de Rob Reiner, protagonizado por pequenos astros do cinema e baseado em um conto de Stephen King.
Os personagens do pessimista universo adulto são interpretados por grandes nomes do cinema. Bruce Willis desempenha o papel do carente e solitário policial da ilha; Bill Murray e Frances McDormand (Fargo), pais da protagonista, representam um casal de advogados que se sentenciam a viver uma relação fracassada e, Edward Norton, um desencontrado professor de matemática, incorpora o chefe dos escoteiros no seu tempo livre.
Moonrise Kingdom foi esnobado pelo Oscar 2013, sendo indicado apenas à categoria de roteiro original, assinado por Anderson e Roman Coppola. É, contudo, uma obra não usual que necessita ser descoberta. Um filme milimetricamente pensado e perfeitamente lapidado como um brilhante que brinca e arrisca com as formas e a arte de fazer cinema. Tudo isto, no entanto, sem perder a delicadeza e explorando com grande propriedade as sutilezas do sentimento humano.
(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)
A saudade queima os campos interiores
crepúsculos ardem na garganta.
Minhas paisagens estão ficando para trás
as cinzas do ontem transpassam-me
o tempo tem fome do meu corpo
fontes soterradas me gritam
as cadeiras pairam no pensamento
esburacando o enxame de ausências.
Acendo o fogão a lenha
o rio em meus olhos ficou poluído
dentro os corpos apodreceram
os rostos límpidos fecharam-se nos espelhos
dói-me os passos encravados no antes.
***
Tereza
Os dedos molhados na luz
escavam a pedra de sal no coração
abre fendas no espelho calcinado
em busca da fonte.
Existe uma porta em cada silêncio
uma janela onde pousa a ave branca
flores de arame guardam a paisagem
rosas em chamas trancam a passagem.
Nas pontes escorregadias
desliza o nome pronunciado no bosque
plantado dentro da fome.
Atravesso com os passos cansados
a praia do silêncio
estendo as mãos feridas
escavo
dentro da pedra existe um lírio branco
dentro dos olhos uma estrada esquecida.
As palavras grávidas semeiam lâmpadas
desejam parir um caminho
arder a solidão em outra solidão
fazer crescer um jardim por dentro da fome.
***
Navegantes
“Desveladas correntezas para aportar”
Roberta Tostes Daniel
Desértica palavra veste o meu canto
tenho sede
cobertores de areia envolvem meus lábios.
Agacho os ouvidos
tento ouvir os sussurros de Deus
agasalhando meu cansaço
é inútil
ele se nega a dizer o meu nome
enquanto isso
o fogo consome meus passos
as tábuas da vida queimam lentamente
um pouco de mim escoa sem rumo
tenho pouco tempo
a chuva tarda em beijar os meus lábios
meu coração rachado não comporta flores
espero ansioso chegar o jardineiro
plantar as ramas da luz na escuridão
cultivar lírios brancos
onde crateras empoeiradas avançam.
(Sandrio Cândido (1991), reside em Curitiba (PR) onde cursa Filosofia. Possui poemas publicados na Mallarmargens revista de poesia e arte contemporânea, Zunái Revista de poesia e debates e em outros espaços virtuais. Edita o blog A alma e a rosa. Email: sandriocp@yahoo.com.br)
É a sudoeste da planície de Buenos Aires que se situa a lagoa de Cubelli, familiarmente conhecida como “Laguna do Jacaré Bailarino”. Este nome popular é expressivo e interessante, mas – assim como o dr. Ludwig Boitus demonstrou – não corresponde à realidade.
Em primeiro lugar, “lagoa” e “laguna” são acidentes geográficos distintos. Em segundo, se bem que o jacaré caimã – Caiman yacare (Daudin), da família Alligatoridae – seja próprio da América, acontece que essa lagoa não é, efetivamente, o habitat de nenhuma espécie de jacaré.
Suas águas são extremamente salobras, e tanto sua fauna quanto a flora são típicas daquelas que se desenvolvem no mar, razão pela qual não se pode considerar anormal o fato de que essa lagoa conte com uma população de cerca de 130 crocodilos marinhos.
O “crocodilo marinho” ou Crocodilus porosus (Schneider) é o maior de todos os répteis vivos. Pode chegar a 7 metros de comprimento e pesar mais de uma tonelada. O dr. Boitus afirma ter visto, nas costas da Malásia, vários exemplares que superavam os 9 metros e, com efeito, ele tirou fotografias e trouxe-as com o objetivo de provar a existência de animais desta magnitude. Como eles foram, no entanto, fotografados em águas marinhas e sem pontos externos de referência, tornou-se impossível determinar com precisão se os crocodilos em questão tinham realmente a dimensão que lhes atribui o dr. Boitus. Seria um absurdo, naturalmente, duvidar da palavra de um pesquisador tão criterioso e com tão brilhante trajetória (apesar da linguagem um pouco barroca), mas o rigor científico exige a validação dos fatos segundo métodos inflexíveis, que, nesse caso específico, não foram colocados em prática.
Assim, acontece que os crocodilos da lagoa de Cubelli possuem exatamente todas as características taxonômicas dos que vivem nas águas perto da Índia, da China e da Malásia, razão pela qual, com toda a legitimidade, lhes caberia o taxativo nome de crocodilos marinhos ou Crocodili porosi. Eles apresentam, entretanto, algumas diferenças, que o dr. Boitus dividiu em características morfológicas e características etológicas.
Entre as primeiras, a mais importante (ou, melhor dizendo, a única) é o tamanho. Assim como o crocodilo marinho da Ásia alcança os 7 metros de comprimento, a espécie que encontramos na lagoa de Cubelli apenas atinge, no melhor dos casos, os 2 metros, medindo-se do começo da bocarra até a ponta do rabo.
Com respeito a sua etologia, este tipo de crocodilo, segundo Boitus, “tem uma queda pelos movimentos musicalmente harmônicos” (ou, mais simplesmente, é um “bailarino”, como é chamado pela gente do povoado de Cubelli). É sabido que os crocodilos, quando estão em terra, são tão inofensivos quanto um bando de pombas. Eles só podem caçar e matar dentro da água, que é o seu elemento vital. Apertando a presa entre as mandíbulas cheias de dentes e imprimindo a si mesmos um rápido movimento de rotação, fazem com que essa gire até a morte. Seus dentes não têm uma função mastigatória, são desenhados unicamente para aprisionar a vítima, que engolem inteira.
Se formos até as margens da lagoa de Cubelli e colocarmos em funcionamento um aparelho que toque música, de preferência a escolha recaindo sobre temas dançantes, adequados a um baile, em seguida veremos que – não digamos todos – quase todos os crocodilos sairão da água e, uma vez em terra, começarão a dançar ao compasso da melodia em questão.
Por essas razões anatômicas e comportamentais, esse sáurio recebeu o nome de Crocodilus pusillus saltator (Boitus).
Seus gostos são amplos e ecléticos, e não parecem distinguir entre músicas esteticamente valiosas e outras de méritos escassos. Recebem com igual alegria e boa disposição tanto as composições sinfônicas para balé quanto os ritmos vulgares.
Os crocodilos dançam de pé, apoiando-se apenas nas patas traseiras, de maneira que, verticalmente, atingem uma estatura média de um 1,70 centímetros. Para não arrastar o rabo pelo chão, eles o elevam a um ângulo reto, colocando-o quase paralelo ao corpo. Enquanto isso, as extremidades dianteiras (que bem poderíamos chamar de mãos) seguem o compasso com toda uma série de gestos simpáticos, e seus dentes amarelados mostram um enorme sorriso de otimismo e satisfação.
A algumas pessoas do povoado não atrai absolutamente a ideia de dançar com os crocodilos, mas muitas outras não compartilham dessa rejeição e o certo é que, todos os sábados, ao entardecer, essas últimas se vestem com suas melhores roupas e vão para as margens da lagoa. Nelas, o clube social e esportivo de Cubelli instalou tudo que é necessário para tornar inesquecíveis as reuniões. Os visitantes podem até mesmo jantar em um restaurante que se localiza a poucos metros da pista de dança.
Os braços de um crocodilo são curtos e não alcançam o corpo do parceiro ou parceira. Os cavalheiros e as damas que dançam, segundo o caso, com o crocodilo fêmea ou macho que o escolheu, apoia cada uma de suas mãos em um dos ombros do outro. Para realizar essa operação, convém esticar os braços ao máximo e manter uma certa distância. Como os crocodilos têm um focinho muito pronunciado, a pessoa que dança com eles deve ter a precaução de jogar o corpo para trás, mantendo-se o mais longe possível (se bem que pouco se tem notícia de episódios desagradáveis, tais como extirpação de nariz, esmagamento de globo ocular ou decapitação). E também não se deve esquecer de que, como entre os seus dentes podem ser encontrados restos de cadáveres, seu hálito deixa muito a desejar.
Entre os cubelianos corre uma lenda que diz que na pequena ilha situada no meio da lagoa moram o rei e a rainha dos crocodilos, de onde, segundo parece, eles jamais saíram. Comenta-se que esses exemplares já ultrapassaram os 2 séculos de vida e, talvez por causa da idade avançada, ou mesmo por mero capricho, jamais desejaram participar dos bailes promovidos pelo clube.
As reuniões não costumam passar da meia noite, porque, nessa hora, os crocodilos começam a ficar cansados e talvez mesmo a se aborrecer. Além do mais, é a hora da fome e, posto que o acesso ao restaurante lhes é vedado, devem voltar para a água em busca de comida.
Quando chega o momento em que não resta mais nenhum crocodilo em terra firme, as damas e cavalheiros retornam ao vilarejo bastante cansados, e um pouco tristes, mas com a esperança de que, quem sabe no próximo baile, ou em outro dia qualquer, mesmo que distante, o rei ou a rainha dos crocodilos, ou talvez mesmo ambos, simultaneamente, abandonem por algumas horas a ilhota central e participem da festa. É com essa expectativa que cada cavalheiro, ainda que não o demonstre, guarda a ilusão de que será escolhido como parceiro de dança da rainha dos crocodilos. O mesmo acontece com as damas, que sonham ser o par do rei.
(Fernando Sorrentino nasceu em Buenos Aires. É professor de Língua e Literatura e tem publicados livros de contos, novelas, infanto-juvenis, ensaios e antologias. Colaborou com jornais e revistas diversos e atuou como tradutor de livros de ficção e entrevistas)
Um pouco a dormir, um pouco a cochilar;
outro pouco deitado de mãos cruzadas, para dormir.
(Provérbios 24:33)
Não me lembro bem
quando cruzei
as pernas
pela primeira
vez.
/Talvez os corpos
aprendam
com
os seus extremos:
É impossível
(pedindo)
cerrar os punhos
cruzando os dedos./
Sei que sempre, e
antes, já cruzava
os braços com
alguma
habilidade.
Cruzar.
O corpo é indeciso
com seus vários
defeitos.
O corpo, e seus
muitos medos
contraindo-
se sobre
-si
mesmo.
Este é o momento final
(apocalipse
do corpo)
a que chegamos
em pecado:
cruzar o amor
ao corpo
do ser
amado.
***
A Última Ceia
Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.
/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda
dos pais.
Restos do pequeno
que sentavam ao meio
da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /
Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo.
***
Desistência
Como à cama há pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se, em paralelos.
Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro
: o ódio
, encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
tanta carne sobre
ossos
que a vida é quem nos indaga:
– Ainda haverá sangue?
/ a tristeza
é que
na vida não se
pode,
como no jogo
o roque /
***
Por um Fio
Para Aline Rocha
Esta pálpebra revela,
quando se fecha, que se
ajoelha ao que deseja
e se curva ao que espera.
Ela não vê, está cega.
E ainda que esfregue
os olhos, ela mesma
não se enxerga.
ela esconde, de sua retina
que se arregala,
e brilha (como cortina
que uma festa encerra)
tudo aquilo
ao que se destina.
O seu destino.
(ela está presa, pele
cárcere que se repete
Sísifo.)
/ Carrega em sua cabeça
cada peça do que pede:
tímida como quem reza. /
Cruza os dedos, arranca os cílios.
Ela realizará à força
o que é pedido,
mas parece promessa
Chora?
É um cisco.
(Eduardo Lacerda,autor do livro de poemas “Outro dia de folia” (Editora Patuá),nasceu em Porto Alegre, mas vive em São Paulo, cidade que ama, desde os dois anos de idade. Cursou Letras na Universidade de São Paulo, mas não concluiu o curso. Como um legítimo geminiano, também não conseguiu concluir nada até hoje. Atualmente, é coeditor daEditora Patuá, onde acredita que livros são amuletos. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas e impressas. Não se considera poeta. Sua paixão, editando, é fazer nascerem livros e poetas)
Tudo um mar de saliências e reentrâncias. Tudo a cortina invisível que paira sobre almas. Na vastidão da matéria, um imperceptível fio das horas vai alimentando espaços, perscrutando os becos do homem. Há uma curiosa ordem no silêncio ruidoso da metrópole. Ainda uma São Paulo que desampara e repulsa os seus. Ainda uma cidade que apascenta sonhos, fugas, delírios e bebe os prazeres da cosmovisão. Em meio a isso tudo, o olhar do fotógrafo, num contínuo ato poético, varre as alamedas do despercebido.
O andarilho da luz em questão é Silvio Crisóstomo, dono de um olhar que subverte o óbvio e o torna caminho viável da criação. Sua trajetória na construção das imagens nem de longe se presta a representações exasperadas do real. Interessam-lhe mesmo as esferas sutis que seres, lugares e atmosferas de abstração ousam descortinar por entre os dias.
Foto: Silvio Crisóstomo
Silvio é um ser de espanto na medida em que transita errante por uma cidade e seus tons repletos de mistérios. Ele mesmo revela não ser um apaixonado por São Paulo. O resultado disso é um comportamento que lhe rende uma observação isenta de afetações e deslumbramentos. Por suas lentes, a lira colossal paulistana compõe um vasto painel de estranhamentos. E é assim, com resignado afastamento afetivo, que a selva de pedra reina sublime e nada usual nos registros do artista.
Nascido em Maceió, Alagoas, Silvio reside em São Paulo desde a mais tenra idade. Atraído pelo imprevisível, seus trabalhos assumem um caráter essencialmente intuitivo, sem amarras pré-definidas e com o gosto incessante pelo mistério encerrado nas coisas. Admirador de fotógrafos como Andreas Gursky e Thomas Farkas, revela que suas maiores referências estão nas artes plásticas e no cinema. Em seu caminhar, estão inclusas diversas exposições e eventos.
Foto: Silvio Crisóstomo
Ao percorrer a maior cidade da América Latina, Silvio Crisóstomo fala-nos também de uma megalópole estrangeira a muitos de seus naturais. Uma espécie de vazio impresso pela dinâmica corriqueira dos habitantes emerge dos rastros civilizatórios. E em meio à sinfonia de concreto, regida pelas mais variadas perspectivas de intervenção arquitetônica, pulsa, ainda desconhecida e neglicenciada pela voracidade da pressa e do imediatismo, a poesia escondida das horas. A cada um, por seu curso, é dado lê-la.
* As fotografias de Silvio Crisóstomo são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 76ª Leva