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	<title>77ª Leva &#8211; 03/2013 &#8211; Diversos Afins</title>
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	<description>entre caminhos e palavras</description>
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	<title>77ª Leva &#8211; 03/2013 &#8211; Diversos Afins</title>
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		<title>Ciceroneando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 20:06:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[Alberto Boco]]></category>
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		<category><![CDATA[Viviane de Santana Paulo]]></category>
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					<description><![CDATA[Editorial da 77ª Leva

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/interna-2.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="420" height="500" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/interna-2.jpg" alt="" class="wp-image-15189" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/interna-2.jpg 420w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/interna-2-252x300.jpg 252w" sizes="(max-width: 420px) 100vw, 420px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Thaís Arcangelo</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Em que medida a porção do sonho funda a matéria de que somos feitos? Onde o vigor da abstração quando necessitamos de um mergulho mais profundo rumo a nós mesmos? Refletir sobre o quanto estamos enraizados pelas nossas questões mais delicadas é algo desafiador ao ser humano. As motivações para se trilhar a jornada são intermináveis e, por isso, continuar é imperativo. Nesse trajeto, as revelações nem sempre são as melhores. Seja no confronto com a dor ou a beleza, o ato de criar teima em procurar abrigo de modo, algumas vezes, desavisado. A arte, enquanto instrumento de transformação, registra as marcas de nossa passagem pelo mundo. É como se houvesse uma necessidade curiosa de também fazer ecoar aquilo que guardamos a sete chaves. Inquietação, espanto, busca, vaidade, regozijo, melancolia e efusão aparecem como alguns dos mais prováveis ingredientes duma humana mistura guiada ora por lucidez, ora pela mais crônica cegueira. E isso apenas explica em parte certos propósitos da criação. O interessante mesmo é quando somos levados pela fluidez sugerida pelas mais diferentes mentes, cada uma delas compondo uma ordenação própria e feita de lugares que frequentemente relutamos em visitar. Assim, saborear tais caminhos é um se deixar levar, permitindo que o efeito duma provocação se faça cativo. A cada um é dado saber o quanto o chamado importa num processo que traz à tona espelhamentos ou negações. Imbuídos um pouco desse espírito, perfazemos 77 edições com a revista. Em meio a nossa trajetória, nos acostumamos a tatear as paredes do indizível, embora entre palavras e imagens possam aparentemente brotar significados que se explicam pela força que lhes é peculiar. É muito pouco tentar definir, por exemplo, o que se encerra nas epifanias contidas na arte de gente como <strong>Thaís Arcangelo</strong>, nossa expositora da vez. Nela, lidamos com o momento de harmonizar realidade e fantasia, o vivido e o inventado, tudo exalando uma aura de delicadeza a partir do prisma especialmente feminino. Também é tempo de acolhermos as investidas dos poetas <strong>Jorge de Souza Araújo</strong>, <strong>Ana Pérola</strong>, <strong>Alberto Boco</strong>, <strong>Raquel Gaio </strong>e <strong>Nestor Lampros</strong>. Compondo as janelas poéticas, a escritora <strong>Viviane de Santana Paulo </strong>traduz alguns poemas do autor alemão <strong>Dirk von Petersdorff</strong>.&nbsp; A partir de um conto de <strong>Myriam Campello</strong>, o escritor <strong>Héber Sales</strong> reflete sobre alguns caminhos da criação. <strong>Larissa Mendes </strong>percorre duas frentes: o filme “Hitchcock” e o disco de estreia do cantor e compositor capixaba <strong>SILVA</strong>. Falando sobre literatura e de toda uma especial relação com os livros, o escritor e editor <strong>Eduardo Lacerda </strong>é o entrevistado da vez. Há, ainda, a presença marcante das imagens contidas nos contos de <strong>Sérgio Tavares</strong>, <strong>Maria Lindgren </strong>e <strong>Pedro Reis</strong>. Um novo coletivo de expressões está em rota, caro leitor. Boas incursões!</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os Leveiros</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iii-12/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 20:01:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[densidades]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[O Exercício no Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Gaio]]></category>
		<category><![CDATA[Sensação de Violeta]]></category>
		<category><![CDATA[versos]]></category>
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					<description><![CDATA[O sabor dos desatinos nos versos de Raquel Gaio ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Raquel Gaio</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA8.jpg"><img decoding="async" width="550" height="424" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA8.jpg" alt="" class="wp-image-4079" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA8.jpg 550w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA8-300x231.jpg 300w" sizes="(max-width: 550px) 100vw, 550px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">um desconhecido que me fala ao pé da noite,<br />
possui entre os dentes<br />
a calmaria de um rio.<br />
em meus sonhos agudos,<br />
sorve como um ventre<br />
os esqueletos decadentes<br />
e translúcidos de minha confissão.<br />
(visões de um deserto que ninguém pressente)<br />
esse sonho<br />
transe alucinatório e místico<br />
onde perco a dormência e o verbo,<br />
nos inventa sem falta<br />
sem desonra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">alegria cobiçada por Deus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">salto com violinos à beira-mar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">a fala desse desconhecido<br />
se debruça sobre meu piano mudo,<br />
e a cada nota costurada à goela,<br />
desmancha qualquer pudor<br />
qualquer lábio e cabelo<br />
sem desastre<br />
e escuridão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">reflexos da manhã</p>



<p class="wp-block-paragraph">tudo nele é nada<br />
gema de destroços<br />
espinha de peixe<br />
vastidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">através de sua música onírica,<br />
decomponho-me surrealisticamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">/porque há um estrangeiro que me habita todas as noites<br />
como uma avenca em perpétuas ilusões/</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">costurar na minha virilha<br />
nosso enlace.<br />
apertá-lo com as pernas nas noites<br />
prenhas e insones.<br />
(encontro frutífero de terrenos baldios-<br />
benção de um deus que não reza.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">perpetuar&nbsp; homicídios<br />
abater&nbsp; andorinhas<br />
e retirar de cada mamilo o pouso.<br />
as feridas continuam a se mover em círculos, você não vê?<br />
o adorno dos corpos diz o destino<br />
diz a escama escura e perpétua?<br />
uma matilha de cães te ensaboando as vísceras<br />
e no meio da guerra&nbsp; compartilhando a romã da madrugada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">um explícito exu encosta em meu hálito,<br />
e fecundo o chão grávido de nada.<br />
(o chão me exige uma paternidade que não posso dar)</p>



<p class="wp-block-paragraph">desejos de fim de ano<br />
derramando o café<br />
substituindo a borra pela combustão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">/eu tenho um relâmpago nas mãos e uma fratura na boca/</p>



<p class="wp-block-paragraph">estou vendendo o tempo que esse poema consumiu pra ser feito,<br />
quanto você pagaria?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">um poema me começa<br />
e invade minha saudade inventada.<br />
tenho um sonâmbulo amor<br />
e as costelas lúcidas da madrugada.<br />
&#8211; sei que isso já foi escrito em algum lugar-<br />
sou plagiadora desde nascença.<br />
imito paraísos e tonturas.<br />
tenho correspondências não lidas<br />
que ocupam toda a mesa de jantar.<br />
&#8211; ando preferindo ser horizontal e mística.<br />
encerro esperanças na vodka<br />
e minha sede se derrama pela noite.<br />
cem estilhaços me dão a mão,<br />
e no verão,<br />
tenho contrações<br />
devido ao número excessivo de verbos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">qual a palavra/gesto que costura<br />
um abcesso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">observações pertinentes a esse plágio:<br />
não possuo óculos escuros<br />
e&nbsp; antes de sair de casa,<br />
esqueço de tirar os soluços do bolso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>(<strong>Raquel Gaio</strong> nasceu na cidade do Rio de Janeiro, é atriz, poeta e performer. Cursa o último período da Faculdade de Letras da UFRJ. No ano de 2011, lançou o livro de poesias “O Exercício no Mundo” com Luis Alexandre Louzada e Denise Fraga. Foi publicada nas revistas Um Conto, Diversos Afins, Estrelas Vagabundas e Zebra, estas duas últimas da UFRJ. Suas performances, algumas delas, são derivadas de suas poesias como “Retina” e “poemas vermelhos”. Mantém o blog <a href="http://www.sensacaodevioleta.blogspot.com "><strong>Sensação de Violeta</strong></a>, onde publica suas poesias e algumas imagens de seus trabalhos)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Dedos de Prosa II</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-11/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 19:56:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Lindgren]]></category>
		<category><![CDATA[passagem do tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Sol de outono em pleno verão]]></category>
		<category><![CDATA[velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[Maria Lindgren percorre os efeitos do tempo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Maria Lindgren</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA7.jpg"><img decoding="async" width="437" height="550" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA7.jpg" alt="" class="wp-image-4075" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA7.jpg 437w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA7-238x300.jpg 238w" sizes="(max-width: 437px) 100vw, 437px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Thaís Arcangelo</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sol de outono em pleno verão</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Amanheço e anoiteço com a mesma dor, todos os dias. Indefinida, parece que veio para ficar. É uma dor que qualificaria como insuportável, porque não explicada. No telefone, o doutor me recomenda um Paracetamol de quatro em quatro horas e observação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ah! Meu Deus! Como é difícil observar a própria dor. Primeiro, sigo os caminhos ditados pela configuração de meu corpo: começo pelo ponto mais alto: a cabeça. A dor nas têmporas, por acaso minha companheira de muitos e muitos séculos – tempo de minha vida na percepção de hoje – não aparece. O órgão responsável pelo resto todo está intacto e indolor, qual bola de futebol na prateleira, antes dos chutes. Nem os ossinhos do rosto, nem o maxilar me incomodam. Nem mesmo os lábios desprotegidos pela falta de batom. Ouvidos ouvem, olhos veem, nariz cheira, queixo se assenta na mão sem desvio. O pescoço, revelador&nbsp; de tensões, sai ileso da inspeção, tanto na parte das rugas e papeiras, como na parte de trás. Tronco: tem que ser o tronco o responsável-mor do que sinto. Percorro os ombros pesados de pouca carga física, mas de muito problema, vou direto ao coração. Nada diverso do dia a dia do batecum compassado. Nem o sopro outrora acusado pelos auscultadores sensíveis. Parto para as costelas:&nbsp; frágeis, mas inteiras,&nbsp; até bonitinhas em seu paralelismo encurvado, que é como as vejo nas radiografias. Detenho-me nos&nbsp; órgãos de comer e descomer: ultimamente, funcionam à perfeição, talvez pela marmita de remédios que engulo diariamente ou pelos pozinhos cor de poeira de deserto que a nutricionista me faz engolir, em lugar do feijão com arroz bendito. O local do xixi e das sensações sexuais&#8230;.:&nbsp; tudo <em>comme il faut.</em> Agora, faltam os membros. Os inferiores me atrapalham, sobretudo quando chego às extremidades, aos pés de pele fina e aos dedinhos, que me impedem de usar sapato fechado de salto alto e bico fino e me obrigam a ridículos saltinhos da última moda de <em>jeune-filles en fleur</em>. Retorno ao andar de cima, diante do espelho e constato os ombros levemente inclinados para a direita, por conta de escoliose caduca de velha. E uma vez ao espelho, sigo a olhar os braços e as mãos, sem grandes discrepâncias ou desilusões, um tanto gastos pelo tempo e ponto. Pulo para os joelhos e paro por instantes. Talvez lá encontre motivos para&nbsp; a dor, como de hábito. Hoje não chiam nem fazem troc-troc os miseráveis, que atazanam as senhoras de setenta em diante. Estão santos e sanos como neném adormecido. As pernas, ou melhor, as coxas, encontro-as&nbsp; musculosas, de muito exercício físico, mesmo assim, forradas da celulite a que me conformei. Nada de agudo, de diferente. Na pele, um ou outro sinal pretinho encabulado, sem importância, desses que jamais viram câncer de pele, umas poucas manchas brancas, provocadas pelas longas exposições ao sol que, uma vez instaladas, grudam para nunca mais sair, nem com os inúmeros cremes descobertos pelos cosmetólogos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viro de costas rápido até porque a visão não é inteira. Meio de lado, noto barriga e nádegas protuberantes:&nbsp; desafiam a elegância tábua dos dias de hoje. Não gemem, entretanto. Costas ainda queimadas do sol de verão se recusam a me denunciar maus tratos. Vou desistir. Deixo a inspeção para a próxima ida ao médico generalista, uma das diversões das senhoras aposentadas de minha vizinhança, motivo para se colocar roupa mais caprichada e sair ao mundo exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Decido ir à piscina azul de cada dia. Um friozinho de outono me faz crescer uns pontinhos de arrepio na pele dos braços, apesar do roupão preto e atoalhado. Continuo a passo de soldado, chego ao pleno ar livre, fonte de inspiração em todos os sentidos da palavra. Nem percebo a meia-luz do dia. Deito-me na espreguiçadeira, protegida por sundown 30 não sei para quê, ajeito a aba do boné de forma a não manchar a pele do rosto, imaculado pelo último tratamento facial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sinto-me pronta. Olho detidamente para a nesga de céu, doado pelos engenheiros de meu prédio. Flagro um solzinho friorento em luta vã&nbsp; para furar a gigantesca nuvem cinza chumbo advinda da Gávea, sempre da Gávea. Não consigo me aquecer. Pingos de chuva iniciam seu itinerário de molhar minha toalha, meu corpo, meus cabelos, o chão. E enrugar a piscina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho que voltar para dentro de minha dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>(<strong>Maria Lindgren</strong> é professora aposentada com Mestrado em Educação (PUC-RJ). São de sua autoria os livros “Uma Rolha na Lágrima” (2004 – Editora Mondrian/RJ) e “Habitantes de mim” (2008 – Editora MEMVAMEM/RJ). Tem textos publicados em sites e revistas eletrônicas)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética IV</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-iv-12/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 19:48:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[Alberto Boco]]></category>
		<category><![CDATA[Estar callado y saber]]></category>
		<category><![CDATA[Fotograma]]></category>
		<category><![CDATA[inéditos]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[La fuerza de la ilusión]]></category>
		<category><![CDATA[Oniricón]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Pylon]]></category>
		<category><![CDATA[versos]]></category>
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					<description><![CDATA[Versos inéditos do poeta argentino Alberto Boco



]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Alberto Boco</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA6.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="550" height="429" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA6.jpg" alt="" class="wp-image-4066" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA6.jpg 550w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA6-300x233.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Fotograma</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading">Para Daniel Tubío</h6>



<p class="wp-block-paragraph">ni una sola hoja el árbol ese<br />
contra el cielo espeso de julio</p>



<p class="wp-block-paragraph">desafía la fuerza de la gravedad y la brisa<br />
fuera del tiempo detenido el dibujo del árbol<br />
en esa luz diciendo que para mirar<br />
el ojo es nada más que un aparato</p>



<p class="wp-block-paragraph">lo que ve y lo que mira<br />
el capricho estocástico del día*<br />
es otra cosa</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading">* Contraluz, Thomas Pynchon, P.943</h6>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>La fuerza de la ilusión</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">…sospechar que tal vez todo<br />
no sea sino páramo como luz<br />
de casualidad puede crecer algo<br />
(puede que flor u otra cosa)<br />
hasta que la cosa muere y al tiempo<br />
aparece lo igual y lo distinto<br />
y el evocar de cada flor o lo que sea<br />
lo real (si existiera) y lo imaginado<br />
por todos los recuerdos<br />
de cada uno y de todos<br />
hacen la historieta del páramo<br />
que se hizo a su vez otro cada día<br />
sin saber primero<br />
como sospecha después<br />
acaso por querer conocer<br />
y siempre la duda en el final<br />
ahí donde se oye cuando<br />
suena más fuerte la risa<br />
que cualquiera voluntad.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Así también se ama, dicen algunos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Oniricón</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading">Para Alfredo</h6>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph">mientras el sueño&nbsp; visita las tardes<br />
donde todavía el calor no hizo su estrago<br />
en espera de la sombra que trae cuando se retira<br />
el sol como si fuera vaya uno a saber qué<br />
decimos y se desviste o desvive por ahí…<br />
no<br />
en este borde no hay modo de saber qué<br />
va a suceder entre todas las cosas<br />
que los dados del sueño fabrican<br />
(…el azar..la rareza..)<br />
soñamos como los niños que miran<br />
las cosas que se preservan<br />
cuando cierta música los arrasa<br />
… sabemos bien que más allá<br />
de toda reflexión somos aquí los garantes<br />
del sueño de la ferocidad<br />
y la ternura de las cosas de la vigilia<br />
en que las cosas pasan porque<br />
pasan las cosas que&nbsp; hacemos que pasen<br />
sin descanso ni pensar al pasar<br />
en cada paso dado del nosotros<br />
nosotros responsables del sabor<br />
el ruido y el perfume de las comidas<br />
que comemos e imaginamos y el olor<br />
de las pieles que dan testimonio<br />
como una forma de respuesta con alegría<br />
sobre la luz de las&nbsp; calles donde todas<br />
todas estas palabras están de más.</p>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph"></p>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph"></p>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph"></p>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph"></p>



<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Pylon*</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading">Para Ida</h6>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">imaginar los postes y el plano vacío el giro<br />
la figura que repite y se repite hasta la duda<br />
perro en suspenso del que busca<br />
sabe y descubre que no son los postes<br />
más que la pobre ilusión del punto fijo<br />
no hay más que órbita y vacío<br />
mirada y pulso sueltos en la última curva<br />
y dejar el dibujo<br />
con breve bamboleo de las alas<br />
volar al abierto en propia luz y sombra<br />
propios el vacío y el plano<br />
los recuerdos<br />
el olvido …eso sí…<br />
el olvido</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading">* Pylon é o título de uma novela de Willian Faulkner, de 1935. Narra a história de pilotos que realizam competições de acrobacias aéreas. Também se denominam “pylon” os pontos de referência que indicam o circuito através do qual os pilotos devem percorrer. Chama-se “giro em pylon”, a manobra típica de uma aeronave ao redor de um ponto fixo, denominação oriunda do tipo de acrobacia realizada pelos competidores.</h6>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Estar callado y saber</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<h6 class="wp-block-heading">Todas las cosas acontecen en nosotros mucho antes de que sucedan<br />
Novalis (Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg)</h6>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">…a veces aquello que parece que no sirve crece<br />
cuando lo apartamos<br />
y a pesar de la ternura y el dolor de la pena<br />
cuando se descarta<br />
(¿cuánto hay que cuidarse del odio y el amor a la ternura?<br />
¿tanto como de la ternura vana, de la ternura misma?)<br />
lo que parece que no sirve permanece en una zona<br />
de la espera como en un cuarto desconocido de la casa vieja<br />
uno de los rincones del tiempo que olvidado supo<br />
resguardarse de la sabia demolición de la memoria<br />
y espera callado que un verbo<br />
vaya y lo rescate como decir callar<br />
en vez de amar y callar<br />
en vez de amar callar temer no estar<br />
como un (¿inútil?) morir anticipado</p>



<p class="wp-block-paragraph">lo que sabe dentro de nosotros<br />
bien podría ser un color de lo que siente<br />
una nota muda en la música<br />
del silencio nuestro<br />
y de nuestro valor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>(O poeta <strong>Alberto Boco</strong> nasceu em Buenos Aires. São de sua autoria os livros de poemas “Arcas o pequeñas señales” (1986), Ausentes con aviso (1997), “Riachuelo” (2008), “Malena” (2012), dentre outros. Por sua obra, recebeu prêmios e menções na Argentina. Em 2007, coordenou o Café Literário “Mirá lo que quedó”, junto com Alicia Grinbank, Alfredo Palacio e Rolando Revagliatti. Publicou poemas e artigos em revistas literárias impressas da Argentina e do exterior. Prepara o livro de poemas “</em><em>Evanescentes, In Propios Y Pequeño”)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Aperitivo da Palavra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 19:31:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[Aperitivo da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[ensaio]]></category>
		<category><![CDATA[Héber Sales]]></category>
		<category><![CDATA[Myriam Campello]]></category>
		<category><![CDATA[O Exercício da Musa]]></category>
		<category><![CDATA[O Olho]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[Héber Sales reflete sobre os complexos caminhos da criação







]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>O Exercício da Musa</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Héber Sales</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/interna-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="418" height="450" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/interna-1.jpg" alt="" class="wp-image-15186" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/interna-1.jpg 418w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/interna-1-279x300.jpg 279w" sizes="auto, (max-width: 418px) 100vw, 418px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Thaís Arcangelo</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>&nbsp;</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Regrinha básica para uma boa leitura de ficção ou de poesia, que até alguns críticos profissionais ignoram às vezes &#8211; falta-lhes generosidade, um pouco mais de atenção, de paciência, de humildade? O que, numa leitura superficial e apressada, pode parecer um movimento errado, grotesco ou mal coreografado, talvez seja na verdade um belo golpe de imaginação, tramado para produzir um efeito de sentido necessário, inevitável até, se considerarmos a obra em seus próprios termos e propósitos &#8211; um golpe sem o qual o texto literário não vence a desconfiança e a indiferença do leitor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acabei de pensar nisso ao reler <em>O Olho</em>, conto de Myriam Campello, que um dia me desagradou por uma ou outra metáfora mais tosca. Como poderia ser diferente, porém, se o narrador, logo no primeiro parágrafo, avisa-nos: &#8220;Não sou escritor, isso vê-se. [&#8230;] Se deito ao papel notícias do vendaval que no último mês desmantelou minha vida é por justamente sentir-me em pedaços&#8221;?</p>



<p class="wp-block-paragraph">É natural que um sujeito desses, poeta amador e casual, apele para imagens banais e cafonas do tipo: &#8220;Se só entre nós permitimos que a espuma do amor flua e se derrame?&#8221;. Como também é muito verossímil e ficcional que em outros trechos, arrebatado pelos acontecimentos excepcionais da narrativa, lhe ocorram observações mais agudas, bem arrematadas e poéticas. Acontece quando ele se refere, por exemplo, a &#8220;um bom dia reservado que marca limites&#8221;, ou ao comentar um desejo muito intenso e proibido, descrevendo-o como uma &#8220;avalanche que se nutre do próprio excesso para melhor derrubar e engolir&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Está claro para mim agora, claríssimo: o fato de haver algumas metáforas mais preciosas do que outras nessa história nada tem a ver com a qualidade da autora e da sua prosa; é uma exigência do mundo ficcional do conto <em>O Olho</em>, um mundo animado pelo espanto de um narrador literariamente mal equipado para retratar uma experiência extraordinária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O valor estético dessa irregularidade poética seria flagrante para o hermenêuta profissional, um perito em prestidigitação literária, muito capaz de fazer ver o todo nas partes ao mesmo tempo em que mostra as partes no todo, aproximando os dois planos até que eles se confundam, do mesmo jeito que a gente consegue fazer com o céu e o mar num dia bem azul, muito liso e manso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de todo o meu respeito para com tal ciência interpretativa, que não é pouco, eu não havia pensado nela até o último parágrafo, confesso. Tentava apenas adivinhar o movimento de imaginação que fez Myriam Campello por o protagonista a misturar poesia com clichês. Se a manobra ressuscitou ou não a musa de <em>O Olho</em>, eu não sei, e, para ser bem sincero, nem me interessa saber, pois o que eu queria mesmo era dar um pouco mais de exercício à minha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>(<strong>Héber Sales</strong>, administrador, publicitário, escreve. Tem poemas, crônicas, ensaios e entrevistas publicados na revista Germina, Portal Cronópios, Digestivo Cultural, Portal Literal, Mallarmargens e nestes Diversos Afins)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Janela Poética V</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 19:26:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[A Canção]]></category>
		<category><![CDATA[A Conquista da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Editora Patuá]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[Nestor Lampros]]></category>
		<category><![CDATA[Os Cavaleiros]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Roupagem Leve]]></category>
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					<description><![CDATA[Um novo ciclo poético em Nestor Lampros

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Nestor Lampros</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA5.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="550" height="357" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA5.jpg" alt="" class="wp-image-4046" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA5.jpg 550w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA5-300x194.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>OS CAVALEIROS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há mais que um forte clamor de transtornos<br />
neste cavalgar dos quatro cavalos.<br />
Seus cascos rebrilham em tons nada claros,<br />
tens já em tua mente as cores e os nomes?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda a relva desiste de vida.<br />
Toda vida é silêncio e clausura.<br />
Todos os sons, segredos, sepulcros.<br />
Tudo completo, enfim, tudo escuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quatro bandeiras, quatro promessas,<br />
quatro pensamentos, quatro discursos.<br />
Quatro adeuses, acenos encobertos,<br />
quatro mistérios cavalgam o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No teu quarto aparente e seguro<br />
só com teus olhos se surpreenderias<br />
se com teus ouvidos avistasses os galopes,<br />
os galopes, os galopes já em teus corredores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não mais ao longe, na distante Beirute;<br />
China ou Coreia, Senegal ou Rússia,<br />
mas no meio de ti, na corrente profunda,<br />
no sutil e diário passear do teu sangue.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A CONQUISTA DA PALAVRA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a palavra ser bem escavada<br />
não se pode apenas esperar o dado<br />
no desígnio aleatório da jogada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como touro no trabalho dos dias<br />
ferido de ferro a palavra é faca<br />
que desfaz antigas missões já concluídas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É falar deste cão irritante que escapa,<br />
no encanto elíptico da palavra,<br />
não nos omitindo, mas presentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em cada azul dentro dos céus que chama,<br />
fixa conquista dos significados: &#8211; Ata<br />
este labor sobre a terra transparente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A CANÇÃO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta canção não é a minha,<br />
surgida das cinzas e das<br />
chuvas<br />
impetuosas na rubra<br />
manhã,<br />
que está na cisma do<br />
escuro,<br />
e na noite mais serena e<br />
fria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta canção não é a minha<br />
ouvida<br />
no laticínio posto à mesa,<br />
no azeite<br />
e na cólera cega,<br />
em assembleias<br />
onde homens procuram<br />
a fome<br />
e se fartam<br />
da solidão da espera.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta canção não é a minha<br />
absurdo canto<br />
do acalanto<br />
nebuloso<br />
nas patas de um urso<br />
bravio<br />
que quer capturar<br />
os sussurros<br />
impossíveis<br />
da rósea tarde<br />
finda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta canção não é a minha<br />
se estatelada ao chão<br />
em cruzes que bifurcam-se,<br />
transformando-se<br />
em moradas<br />
de insetos<br />
abjetos<br />
em ruelas<br />
ainda projetos<br />
de moradas<br />
não resolvidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhum canto<br />
se tantos<br />
se encantam:<br />
nenhum povo é temido<br />
nenhum caldo é tomado,<br />
é fervido,<br />
nenhum santo é morto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos ouvem o nada<br />
e do nada se fartam,<br />
pois não ouviram<br />
das canções<br />
cantos<br />
nas estradas<br />
polidas<br />
em<br />
que ainda<br />
percorrem<br />
ruas e becos<br />
sem saídas<br />
em rampas<br />
íngremes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E a canção negada<br />
se transforma<br />
em visão.<br />
Esta visão<br />
outra coisa<br />
mais estrela ou vegetal<br />
puro, do mais puro minério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E esta canção<br />
canta-se alto<br />
afligindo a surdez de um mundo,<br />
que não suporta uma voz&nbsp; trina,<br />
perfeita e única a governar o gorjeio<br />
dos eternos pássaros bravios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é esta a canção-nula,<br />
que ensurdece<br />
e limpa as várzeas e os celestes céus<br />
se faz cantoria alada<br />
na suavidade intacta de uma mulher.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mulher que devolve a canção<br />
desdobrada<br />
para o infinito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E já não é campo, é nação.<br />
E já não é só, é junto.<br />
E já não é pós, é este.<br />
Além do que foi e sempre será,<br />
e que seria:<br />
&#8211; a poesia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>(</em><em>Autor do livro de poemas Roupagem Leve (Editora Patuá), <a href="http://www.nestorlampros.com.br "><strong>Nestor Lampros</strong></a> é arte-educador, escritor, artista gráfico, quadrinista e artista plástico. Em 2002, representou Atibaia no Mapa Cultural Paulista, onde, em 2004, obteve o segundo lugar. Em 2008, novamente, chegou à final. Participou de diversas exposições como artista plástico. Criou ilustrações para livros e revistas em editoras, tais como Ática e a Editora Três. É membro-fundador da Academia Literária Atibaiense (ALA). É formado em Letras pela FESB, de Bragança Paulista (2005), e pós-graduado em Arte Educação pela FAAT(2009))</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><br />
</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Gramofone</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 19:18:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[capixaba]]></category>
		<category><![CDATA[Claridão]]></category>
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		<category><![CDATA[experimental]]></category>
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		<category><![CDATA[orgânico]]></category>
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		<category><![CDATA[Vitória]]></category>
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					<description><![CDATA[A estreia em disco do cantor e compositor SILVA]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Larissa Mendes</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><br />
</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SILVA – CLARIDÃO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/capa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="350" height="351" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/capa.jpg" alt="" class="wp-image-4041" title="capa" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/capa.jpg 350w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/capa-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/capa-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><br />
</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O cantor e compositor capixaba Lúcio [da] Silva Souza – vulgo SILVA, assim mesmo, em maiúsculas – carrega no nome a brasilidade de um som universal. Se à primeira vista, alcunha e letras soam minimalistas, é na riqueza sonora que o músico derrama toda sua eloquência. Com uma formação musical erudita calcada em piano e violino, Lúcio mescla clássico e moderno, <em>pop</em> e experimental, orgânico e sintético. Lançado em outubro pelo selo SLAP (Som Livre), <em>Claridão</em>, seu álbum de estreia, figurou em várias listas de melhores de 2012, o que valeu ao jovem músico de voz suave o prêmio de melhor cantor do ano, concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Ainda ano passado, sem mesmo ter gravado o disco, o artista teve a oportunidade de se apresentar no <em>Sónar São Paulo</em> – <em>Festival Internacional de Música Avançada e New Media Art</em> – em sua segunda edição brasileira. O multi-instrumentista conta com a parceria do irmão e letrista Lucas Silva para compor (sempre em português) os quase-poemas que parecem preencher suas elaboradas notas de MPB de vestes eletrônicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com algumas alterações instrumentais, 5 das 12 faixas de <em>Claridão</em> pertencem ao seu elogiado EP lançado em 2011 e disponibilizado via <em>web</em>, enquanto as inéditas conferem o tom de unidade que talvez faltasse na ocasião. Vale ressaltar que mesmo com o respaldo de uma grande gravadora, o músico não perdeu sua essência caseira, optando por registrar o álbum de forma quase artesanal, revezando-se entre voz, piano, violão, guitarra, violino, percussão, sintetizadores e programação eletrônica. Os vinte e poucos anos e a doçura do rapaz de Vitória contrastam com a segurança impressa em <em>Claridão</em>, fazendo de SILVA nome e sobrenome da autenticidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/SILVA-Foto-divulgaçãoM.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="430" height="430" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/SILVA-Foto-divulgaçãoM.jpg" alt="" class="wp-image-4040" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/SILVA-Foto-divulgaçãoM.jpg 430w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/SILVA-Foto-divulgaçãoM-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/SILVA-Foto-divulgaçãoM-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 430px) 100vw, 430px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a apocalíptica de batidas modernas <em>2012</em> abre o álbum sugerindo o otimismo do artista diante do caos (<em>gosto mesmo do incerto</em>/<em>pode ser belo o feio visto de perto/o avesso às vezes dá certo), </em>a ritmada<em> Falando Sério </em>reitera sua ambivalência<em> (não curto o tédio/mas ele é tão &#8220;cute&#8221; em você). </em>A<em> </em>eletro-erudita<em> Cansei</em>, possivelmente uma das melhores canções, dita a tônica mais poética do álbum, juntamente com as intimistas <em>Ventania</em> e <em>Posso.</em> Aliás, certa melancolia – pontual ao longo de quase todas as faixas – está presente também na atmosfera etérea de <em>Mais Cedo</em>, que fecha a primeira metade do álbum. Enquanto a dançante <em>Claridão,</em> que intitula o disco, possui elementos de uma espécie de drum’n’bass oriental, em determinado ponto o instrumental folclórico de <em>12 de Maio</em> lembra os americanos do <em>Beirut</em>. <em>Acidental</em> e <em>Imergir</em>, ambas integrantes do EP do cantor, possuem um tom mais delicado e um lirismo peculiar. A graciosa e penúltima faixa<em> Moletom</em> (<em>não quis o frio de só te ver/agasalho é ter você</em>) parece aquecer o ouvinte tal qual o tecido da canção. Com som de cantiga de ninar ao violino e <em>ukulele</em>, a bela<em> A Visita</em>, composta ainda em sua passagem de estudos pela Europa, encerra <em>Claridão</em> de forma mais orgânica e alegre, demonstrando toda a versatilidade do artista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comparado ao britânico James Blake e aposta entre os nomes da nova geração, talvez a dificuldade de se rotular a sonoridade de SILVA seja proporcional à quantidade de referências acumuladas pelo músico, que, apesar da formação e refinamento melódico, nunca pretendeu soar elitista. Seria redundância (e exagero) afirmar que <em>Claridão</em> é um lampejo de criatividade no atual cenário musical brasileiro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><iframe loading="lazy" src="http://www.youtube.com/embed/AzE9Po-bAYo" frameborder="0" width="560" height="315"></iframe></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>(<strong>Larissa Mendes</strong> carrega no DNA o silva de qualquer brasileiro que se deixa ofuscar pela boa música)</em><strong></strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://diversosafins.com.br/diversos/gramofone-12/feed/</wfw:commentRss>
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			</item>
		<item>
		<title>Janela Poética VI</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-vi-6/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 19:04:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[Dirk von Petersdorff]]></category>
		<category><![CDATA[Janela Poética]]></category>
		<category><![CDATA[poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poesia alemã]]></category>
		<category><![CDATA[tradução]]></category>
		<category><![CDATA[Viviane de Santana Paulo]]></category>
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					<description><![CDATA[Viviane de Santana Paulo traduz  poemas do alemão Dirk von Petersdorff







]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-left wp-block-paragraph"><em>Dirk von Petersdorff</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Tradução: Viviane de Santana Paulo*</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA4.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="550" height="418" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA4.jpg" alt="" class="wp-image-4033" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA4.jpg 550w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA4-300x227.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px" /></a></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No museu da história</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma caixa de vidro iluminada,<br />
no interior uma pedra cinza,<br />
as bordas lascadas,<br />
e assim ocorre-me ainda,</p>



<p class="wp-block-paragraph">quão absorto eu sentado estava,<br />
em Kiel, à mesa da cozinha,<br />
quando a notícia surgiu,<br />
quando o Muro caiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Im Museum der Geschichte</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ein Glaskasten im Licht,<br />
darin ein grauer Stein,<br />
der an den Rändern bricht;<br />
und also fällt mir ein,</p>



<p class="wp-block-paragraph">wie ich versunken saß,<br />
am Küchentisch in Kiel,<br />
als die Meldung kam,<br />
als die Mauer fiel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Fliperama</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pena! Inferno! Susto e dor!<br />
Espasmos! Tinidos! Abismos não!<br />
Oh rapidez! Alavanca! Torção!<br />
Luzes! Sim! Nova cor!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas certamente, deve-se planejar,<br />
pode-se apontar o alvo e é preciso adivinhar &#8211;<br />
rio de luzes, dança eufórica,<br />
oh, quem sabe, medo e glória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Flippern</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jammer! Hell! Schreck und Pein!<br />
Zucken! Klacken! Abgrund nein!<br />
Ach vergeh! Bumper! Drall!<br />
Leuchten! Yes! Neuer Ball!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aber sicher, man soll planen,<br />
man kann zielen und muss ahnen –<br />
Lichterfluss, schneller Tanz,<br />
ach wer weiß, Angst und Glanz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O futuro começa</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">como no quadro de Rafael a Madonna<br />
na parte inferior da obra o arranjo,<br />
a próxima geração – anjos,<br />
com quase um bocejo à tona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Velha é a magia,<br />
um sorriso principia<br />
nos lábios, e entretanto &#8211;<br />
o que sabem os anjos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cabeça apoiada na mão,<br />
já não é tão<br />
ao fundo da moldura<br />
nem tanto consola a formosura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Die Zukunft beginnt</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">wie auf Raffaels Madonna:<br />
Am unteren Bildrand lehnen<br />
die Engel – nächste Generation.<br />
Die müssen fast gähnen,</p>



<p class="wp-block-paragraph">der Zauber ist alt,<br />
ein Lächeln wächst<br />
auf den Lippen, und bald –<br />
was wissen die Engel?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Den Kopf in der Hand,<br />
schon nicht mehr ganz da<br />
am unteren Rand<br />
ein trostreiches Paar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Eles se encontram no corredor</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu filho veste camisa amarela com letras irregulares,<br />
onde cavaleiros erguem espadas de lasers<br />
e uma cobra dá de cara com uma pantera &#8211;<br />
para mim são coisas já passadas nesta vida.<br />
Mas estou na posse de vitórias antigas<br />
como um menino na bicicleta que conquistou a glória,<br />
porque ela, oh Deus, subiu na minha garupa,<br />
tocou meu quadril, &#8211; corrente elétrica.<br />
Ainda acontecerá com o menino:<br />
o sútil, incerto futuro-flamejante,<br />
o corar abrasador até as orelhas<br />
e a impaciência, o pulso querendo acelerar.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;</span>O homem tira lentamente a gravata,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;</span>o menino passa empurrando a bicicleta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Man trifft sich im Flur</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mein Sohn trägt gelbe Shirts mit Zackenschrift,<br />
wo Ritter ihre Laserschwerter heben<br />
und eine Schlange einen Panther trifft –<br />
das ist für mich vorbei in diesem Leben.<br />
Doch bin ich im Besitz von frühen Siegen<br />
als Fahrradfahrer, der dem Glück erlag,<br />
denn sie, oh Gott, ist hinten aufgestiegen,<br />
fasst meine Hüfte an, Elektroschlag.<br />
Das steht dem Jungen alles noch bevor:<br />
das feine, ungewisse Zukunfts-Brennen,<br />
die heiße Röte bis hinauf zum Ohr<br />
und Ungeduld, der Puls will immer rennen.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..&nbsp;</span>&nbsp; &nbsp;Der Mann macht langsam die Krawatte frei,<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..&nbsp;</span>&nbsp; &nbsp;der Junge schiebt sein Mountainbike vorbei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>10º andar,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">edifício com ar condicionado, celeiro dos mortais.<br />
Fique frio, sorria, o mais alto é o 19º,<br />
minha guia, enfraqueço, quando<br />
passo por um bando de secretárias<br />
maquiadas, ménades, bocas trêmulas<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span> para que a encenação?<br />
seus pensamentos<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span> chamamos de volta<br />
surgem quando falam<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;..</span> tudo como sempre<br />
e displicentes comem donuts<br />
esperando a existência, e nisso acompanha<br />
a música: tudo é bom, canta<br />
Madonna, que quer saltar no Etna;<br />
e em frente as janelas precipitam-se<br />
as núvens passageiras, cinza profundo, depois a queda<br />
de brilho no escritório espaçoso,<br />
manchas de luzes na tela da face,<br />
sussurro de fax, eternamente &#8211; ok, ok,<br />
há inúmeros purgatórios, há<br />
televisão após a morte do moderador,<br />
se eu, por favor, pelo menos, a chave<br />
o código, do local<br />
o âmago &#8211; ela riu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>10. Stock,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">klimatisiertes Hochhaus, Tenne der Sterblichen.<br />
Cool bleiben, lachte, höchstens 19,<br />
meine Führerin, schwach ich, als<br />
wir einen Schwarm von Sekretärinnen<br />
passierten, geschminkt, mänadisch, zappelnde<br />
Münder<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>was soll das Theater?<br />
ihre Gedanken<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>wir rufen zurück<br />
entstehen beim Reden<br />
<span style="color: #ffffff;">&#8230;&#8230;..</span>alles wie immer<br />
nebenbei essen sie Donuts u.<br />
warten auf die Existenz; dazu<br />
die Musik: Alles ist gut, singt<br />
Madonna, sie will in den Ätna springen;<br />
und vor den Fenstern rasender<br />
Wolkenzug, tiefgrau, dann Stürze<br />
von Helligkeiten im Großraumbüro,<br />
Lichtflecken, auf einem Schirm Gesichte,<br />
Fax-Surren, ewig – okay, okay,<br />
es gibt zahlreiche Fegefeuer, es gibt<br />
Fernsehen nach dem Tod des Moderators,<br />
wenn ich wenigstens, bitte, den Schlüssel,<br />
den Code, was den Laden<br />
im Innersten – sie lachte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">* <strong><em>Viviane de Santana Paulo</em></strong><em> (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007) </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>(<strong>Dirk</strong></em><strong><em> von Petersdorff</em></strong><em> (1966/Kiel) é poeta, ensaísta e crítico literário. Estudou filologia germânica e história na Universidade de Kiel. É professor de literatura alemã moderna na Universidade de Jena. Dirk também é membro da Academia de Ciências e Literatura de Mainz (</em><em>Akademie der Wissenschaften und der Literatur)</em><em> e do Centro</em><em> Internacional de Pesquisa Clássica (Internationalen Zentrums für Klassikforschung). Em 2006, foi membro do júri do Prêmio Kleist (Kleist-Preis))</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dedos de Prosa III</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-9/</link>
					<comments>https://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-iii-9/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2013 16:58:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[Dedos de Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[Mosca diuturna]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Costa Reis]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://diversosafins.com.br/diversos/?p=4015</guid>

					<description><![CDATA[Os dedos singulares de Pedro Costa Reis em dois contos

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Pedro Costa Reis</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA3.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="391" height="550" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA3.jpg" alt="" class="wp-image-4021" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA3.jpg 391w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA3-213x300.jpg 213w" sizes="auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px" /></a><figcaption class="wp-element-caption">Ilustração: Thaís Arcangelo</figcaption></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Desejo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ave fugidia, eu a vejo de longe, na extensão gélida, sobre as montanhas. Minha tribo a chama de Desejo, mas não tentarei explicar por quê. Tente você, meu leitor, descobrir com o arrastar dos anos como montar essa palavra com o quebra-cabeça de peças que somem ao toque. Ela voava, chegava até a ser pretensiosa. Olhava para mim vez ou outra, podia jurar. Mas aterrissou na neve, bem próxima da minha armadilha. Mas não guardo tantas esperanças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ilusória, pode muitas vezes dissuadir-nos de sua presença, mesmo a quem tem olhos fixos nela, como, no momento, eu. Salto do meu cavalo bem longe de onde ela está, só para ter uma visão melhor da minha presa. Ajoelho-me lentamente enquanto ela lentamente perambula nas patas à procura de alimento. Bem próxima. Quase lá. Queria saber passar a sensação do suor estacionando no meio do caminho do meu rosto, a fim de não atrapalhar o acontecimento. Isso se chama concentração. Mas vejam, meus leitores, ela parou, me olhou com vista antiga e zombeteira, depositou um bicho qualquer em cima da minha armadilha, cuja reação foi de um estrondoso estalar de ferro e madeira, jogando neve para todos os lados, fazendo subir uma fumaça branca e espessa que despistou meu olhar da fuga do Desejo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se pensam que estou frustrado, é por que realmente não conhecem o sentimento pelo qual nomeamos aquele animal. Saberiam a carne magra e escassa que ela tem, quando vista de perto ou tocada, e saberiam que não a caçamos por alimento ou sustento. Ela passa por você muito mais sorrateiramente do que para nós, posto que sabemos que a incerteza é um dos traços mais fortes dessa ave. Mas ela passa por você, tenha certeza, pelo menos disso. Chego até a imaginar que, se me virasse, ela estaria à janela me espreitando&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem ela, meu amigo, tudo é mais sofrido. Até essa escrita. Penso agora: e se ela me espreitasse no espelho feito das palavras no papel? E se pousa no vácuo entre os verbos? Talvez se tentasse descrever esta ave para você, conseguisse capturá-la, ao menos por aqui, pelo papel. Mas a ave é feita de caos, e as palavras pesam. O papel não a suportaria.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mosca Diuturna</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esfreguei os olhos e balancei a cabeça com rudeza de um lado para o outro, e franzi o cenho por conta da imensa luminosidade. Estava em um amplo areal branco infindável, completamente desorientado, e tirei os sapatos para poder avançar um pouco. Lembrei que estava de relógio em pulso e também o retirei. Senti debaixo dos meus pés aquela areia fina como pequenas lascas de vidro rasgando meu andar em frente, um andar fluido e quase imperceptível, o que me fez permanecer na dúvida se andava ou estaria somente imaginando o meu andar. Meu delírio começou quando eu vi tudo se modificar a cada passo, o firmamento mutável me trazendo imagens belíssimas medonhas felizes suicidas até eu quase cair de um precipício: o final do meu terreno, e sem forças não conseguia retornar ao ponto de onde comecei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daquele limite de terra branca tive outra visão: era um abismo cujo fim não sabia distinguir se era o fim ou o começo do fim, pois também era pálido como o areal. Mas, proeminente daquele cenário pacífico, ao longe,&nbsp; elevava-se uma montanha, e seu cume terminava na linha de minha visão paralisada. No topo desse cume, pude ver que havia uma sereia em seu topo, e olhava para mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu rosto era brilhante, parecia forjado em silício queimado, e seus cabelos esvoaçavam para o alto por conta de um vento frequente e forte que vinha da respiração daquele monte pálido e enorme – teias brancas brincavam em sua cabeça, se tecendo por si mesmas, em meio ao canto tremeluzente daquela voz etérea. Queriam se tecer para mim, mosca diuturna e oposta da vigília.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanta saudade senti quando reconheci-me naquele monstro, e parecia que meus pés tinham se diluído no pó de nuvem. Poderia até tentar avançar. O fim, ou o começo do fim, poderia também ser o começo, e poderia ousar pisar imaginando-o nele um prolongamento do terreno. Desvencilhei meu pé direito e toquei com a ponta do pé o que poderia ser um vazio, e uma pequena série de ondulações circulares percorreram velozmente o espaço entre meu cume e o cume da sereia com rosto de espelho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o padrão circular tocou o iceberg a minha frente, ele estremeceu e parecia também ser feito de areia branca, e a movimentação das águas poderia levemente destruir e afogar meu objetivo. Não mais tentei ousar percorrer a planície invisível, pois destronando aquele ser de seu espaço, seu por direito e meta, não poderia mais voltar a me reconhecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>(<strong>Pedro Costa Reis</strong>, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal <a href=" http://www.cronopios.com.br/site/default.asp"><strong>Cronópios</strong></a>, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Pequena Sabatina ao Artista</title>
		<link>https://diversosafins.com.br/diversos/pequena-sabatina-ao-artista-12/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leveiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Mar 2013 19:48:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[77ª Leva - 03/2013]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[editor]]></category>
		<category><![CDATA[Editora Patuá]]></category>
		<category><![CDATA[Eduardo Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Outro dia de folia]]></category>
		<category><![CDATA[Pequena Sabatina ao Artista]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma conversa com o escritor e editor Eduardo Lacerda

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Fabrício Brandão</em></p>



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<p class="wp-block-paragraph">As opiniões se dividem quando o assunto é delimitar as implicações da poesia. Se para alguns o gênero representa uma vasta possibilidade de experimentos e usos da linguagem, outros defendem uma perspectiva que opera no sentido duma transformação do olhar. Especificidades à parte, o fato é que, ainda assim, parece haver uma coexistência tácita entre esses dois modos de pensar o fazer poético. Ao passo que descortinamos leituras das mais diversas, percebemos autores a privilegiar, sobretudo, aspectos formais da criação, construindo uma obra que também congrega elementos dotados de subjetividade. Definitivamente, uma via não anula a outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora o ato de criar possa conferir uma condição especial a quem escreve, alavancando proezas e notoriedades, há quem renegue tal atributo não por um mero capricho, mas sim pela percepção de que estar no mundo e decodificá-lo de algum modo representa algo mais valioso. Nesse trajeto, imbricada está a noção mais pura de um exercício do olhar, e para gente como <a href="http://www.editorapatua.com.br/ "><strong>Eduardo Lacerda</strong></a> isso significa muito. Gaúcho por nascimento e residindo em São Paulo desde a infância, o moço rejeita ser chamado de poeta. Prefere, ao levar adiante sua feição de editor, ser visto como um alguém que faz nascer livros e autores. Em parceria com Aline Rocha, conduz a Editora Patuá, iniciativa que acaba de completar dois anos de existência e cujo lema confere aos livros um status de verdadeiros amuletos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo se considerando um não-poeta, Eduardo ousa com palavras e versos. A prova disso é a reunião de poemas presente em sua cria de estreia, “Outro dia de folia” (Editora Patuá), obra que encerra imagens e tantos outros signos bem típicos de um ser/estar no mundo. Ao mesmo tempo em que apresenta deslocamentos em torno de temas caros à existência, o livro também sugere impulsos pela via da transgressão. Lê-lo é sentir-se um pouco menos confortável diante da parca quantidade de certezas que nos habitam. Assim, um ritual de provocações desfila por cada verso, desafiando os leitores a celebrarem epifanias que nem sempre soam como boas novas. Tendo como companhias inseparáveis o espanto e o estranhamento, Eduardo Lacerda compartilha conosco suas impressões sobre a vida e a literatura, perfazendo um diálogo movido por uma paixão notória: os livros.</p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-II1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="400" height="300" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-II1.jpg" alt="" class="wp-image-4010" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-II1.jpg 400w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-II1-300x225.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></a></figure>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; &#8220;Outro dia de folia&#8221;, sua obra de estreia, evoca, de modo especial, uma poesia de imagens, reminiscências e louvores dispersos numa travessia pela vida. Na construção desse caminho, o que lhe parece mais emblemático?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;</strong> Você tem razão em afirmar que é e há uma poesia de imagens no meu livro &#8216;Outro dia de folia&#8217;. Tento construir em meus poemas aproximações com a prosa, criando cenas, espaços, personagens &#8211; embora não explícitos &#8211; falas sobrepostas, que podem simular outros planos de discurso e diálogos dentro do poema. A imagem é um dos recursos para a montagem desses pequenos contos em forma de poesia. Então, se há algo emblemático, é que o poema precisa acionar &#8211; criar uma ação &#8211; no momento da leitura. Precisa criar um impacto de uma história. Não busco exatamente, com estes poemas do livro, despertar sentimentos ou mesmo emoções sentimentais, mas inserir o leitor dentro de uma ação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nem todos os poemas consegui isso de forma efetiva, mas acho que com a maior parte isso foi possível, até mesmo pela ligação temática entre eles, que é, principalmente, a imagem do deslocamento e melancolia do eu-lírico em relação a uma necessidade cada vez maior de felicidade, quase como uma obrigação de se comemorar, festejar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez dois versos possam ser emblemáticos para a definição desse deslocamento, o primeiro é o desfecho do poema &#8220;A Última Ceia&#8221;: <em>&#8220;já não me encaixo / depois que aprendi / a olhar de lado / e sair por baixo&#8221;</em>. O personagem do poema, uma criança, é colocado sentado à esquerda dos pais no meio da mesa, essa marcação espacial &#8216;à esquerda&#8217; (uma referência bíblica alterada, que é a de Jesus sentado à direita de Deus) e &#8216;no meio&#8217; já revelam um deslocamento, uma não adequação do personagem, que como um &#8216;prato que se enche&#8217; vai procurar &#8216;lugar entre as pessoas&#8217;. O personagem não encontra esse lugar, ele não aceita esse lugar imposto, ele aprende a olhar de lado. O &#8216;sair por baixo&#8217;, que poderia remeter a uma inferioridade desse &#8216;pequeno&#8217;, como chamo o personagem, na verdade pode significar que é possível uma fuga. Que sair por baixo, quando estamos cercados por todos os lados, pode ser uma fuga.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O outro verso é do poema &#8216;Outro dia de folia&#8217;, que dá título ao livro (embora escrito após o título do livro já estar definido há muitos anos). Nesse poema eu questiono: &#8220;quanto há / de / penetra / no dono / de sua / própria / festa?&#8221;. É uma provocação. E é um deslocamento, mas é também, talvez, uma forma de transgredir nossas certezas de espaço no mundo.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; É interessante você pontuar essa noção de transgressão a serviço da poesia. Nesse sentido, percebe a existência como um misto de espanto e estranhamento?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211; </strong>O poeta Ferreira Gullar afirmou exatamente isso sobre sua poesia: <em>&#8220;A minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me surpreende, alguma coisa que eu não tinha descoberto ainda na vida&#8221;</em>. Gosto disso, do espanto, do estranhamento, mas também da descoberta. Descobrir algo, conhecer e, principalmente, reconhecer são passos além do estranhamento. É entrar em contato com aquilo, mesmo sem um entendimento completo. Podemos estranhar algo a vida toda e aquilo não e nunca significar absolutamente nada, não é? Um estranhamento só terá valor se me revelar algo. Então é também uma revelação. Fazer um poema é também encher de significados o que queremos dizer. E será um bom poema aquele que conseguir criar outros espantos e novos significados a partir disso. Um bom poema precisa ter uma eternidade (e não infinidade) de interpretações, eu acho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas acho que existem muitas interpretações para a minha percepção de existência. A minha existência, como pessoa, é uma coisa muito simples. Gosto de livros, amigos e cerveja. E é diferente da minha existência como poeta, da minha existência como editor de livros. Aliás, sempre afirmei que eu não sou um poeta. Eu não romantizo a figura do poeta. Eu não existo como poeta. Publicar foi uma consequência de mais de onze anos escrevendo alguns poemas que acabaram premiados para a publicação em livro. Publicar se tornou uma obrigação, acho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu romantizo a minha importância de editor. Eu existo como editor. Talvez isso seja estranho e espantoso. Espero que seja. Mas não estou dando um sentido de uma importância para os outros, não sei se tem essa importância. É importante para mim. O que eu sinto com a edição é exatamente o que deve sentir um escritor. E que o Rilke definiu tão bem: <em>&#8220;Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: ”Sou mesmo forçado a escrever?&#8221;</em>. Eu só morreria se não pudesse mais, de alguma maneira, trabalhar com os livros.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; Ao declarar-se um não-poeta, você abre margem para algumas reflexões ligadas ao ofício, sobretudo se formos levar em conta a multiplicidade de escritos que eclodem cotidiana e freneticamente em nosso tempo. Guardadas as devidas proporções daquilo que pode ser considerado como de efetiva qualidade, acredita que a criação literária anda um tanto banalizada?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211; </strong>Entramos em um campo onde tenho feito muitas inimizades. E, sinceramente, não tenho nenhum problema com isso. Tenho defendido, nos últimos anos, a ideia de que existem mais poetas do que leitores. Um paradoxo, no mínimo. Um absurdo, para dizer a verdade. Todo poeta deveria ser um leitor. Eles não são, infelizmente. Claro, não quero generalizar. Alguns ainda são leitores, mas é uma parte muito ínfima. Mas se realmente todo poeta fosse leitor de poesia, poesia venderia muito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, sim, a criação literária está banalizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gostaria de dizer, entretanto, que acredito que todos têm o direito de exercer a criação literária. A banalização da literatura não está no fato da popularização da escrita. Poesia não é para as elites, assim como não é para as massas. Ela é para todos. A poesia deve estar acessível para todas as pessoas. Algumas das manifestações mais interessantes de criação e divulgação literária estão ocorrendo nas periferias de São Paulo, por exemplo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A banalização, a meu ver, é o descaso dos poetas com outros poetas, com outros livros, com outras linguagens, com tudo que está ao nosso redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vou dar um exemplo simples: a Editora Patuá, da qual sou coeditor, recebe cerca de 100 originais por mês. Desse total, muitas vezes, nenhum desses autores sequer conhecem um livro da editora. Nunca se interessaram em comprar nenhum livro de nenhum autor, muito menos pedir um e-book de graça (os quais sempre oferecemos). Eu não entendo, então, como alguém pode se interessar por uma editora que não conhece. E talvez isso explique como tantos escritores pelo país são enganados por editoras sem nenhuma qualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A necessidade de publicação se tornou maior que a necessidade de leitura e de diálogo com o outro. Todos só querem falar. E eu acho que é o momento de pararmos para também ouvir o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, acho que essa se tornou a banalização da poesia, mas também é a banalização das relações em toda a sociedade. Mas esse é o discurso de um otimista, embora não pareça. O meu otimismo está nas minhas ações, em acreditar nos poetas. Em acreditar ainda na literatura, na poesia.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; Talvez uma das causas desse insulamento literário seja a tendência atual de laços de compadrio estabelecidos na internet, principalmente via blogs e sites pessoais. Muitos se visitam e se comentam mantendo uma seara de cordialidade que parece alimentar um círculo vicioso. Daí, essa, digamos assim, frágil aprovação, com seus controvertidos códigos de ética, oferecer um ambiente perigoso para a criação. Vivemos uma era de relativizações?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211; </strong>Sérgio Buarque de Holanda formulou a ideia do homem cordial. Acho que ela explica uma parte do que você chamou de &#8216;era de relativizações&#8217;. Na verdade, essa &#8216;cordialidade&#8217; não é &#8211; sempre &#8211; essencialmente ruim. Chico Buarque, filho de Sérgio Buarque, comenta / resume em um <a href="http://www.youtube.com/watch?v=xAVRGvoy2Sk "><strong>vídeo</strong></a> essa teoria: <em>&#8220;Mas a ideia é a do homem cordial como o homem que reage conforme seu coração, né? Capaz pro bem e pro mal, capaz de grandes efusões amorosas, capaz de inimizades até violentas. E o brasileiro tem um pouco, acho que ainda tem, de levar tudo pra esse lado, de ser incapaz às vezes de seguir uma hierarquia, de obedecer uma disciplina muito rígida. A vontade que ele tem de travar contatos amistosos, criar intimidade, encurtar distâncias. Isso continua existindo, essa informalidade, avesso as formalidades, não gosta (&#8230;) o brasileiro criou essa informalidade natural. Isso continua existindo. Agora, como eu dizia, é pro bem e pro mal, dependendo da circunstância o brasileiro pode dar numa raça generosa, né? Ou num povo até triste e amargurado.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><br />
</em>Como já afirmei anteriormente, minha tendência é para o otimismo. Acredito na literatura, acredito nos livros, acredito na poesia. As relativizações, as cordialidades, eu não poderei mudá-las dentro do sistema. O que podemos fazer é trabalhar seriamente e de forma honesta, com comprometimento. Eu busco muito isso de nossos parceiros &#8211; autores, por exemplo &#8211; comprometimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Evitamos, dentro da Patuá, quem queira estabelecer relações apenas cordiais, de amizade. Eu costumo dizer que não publicamos os amigos, embora todos os autores se tornem nossos amigos. A amizade é fundamental. Mas o texto, o texto é, para a publicação, mais importante. Nem sempre acertamos. É impossível, sem conhecer um autor, saber qual o comprometimento dele com o livro, com a literatura, com a editora. Mas acho que formamos, em menos de dois anos, um grupo de autores que ultrapassam a publicação do próprio livro. Isso é fantástico!</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; A Editora Patuá completa agora dois anos de existência e vem, pelo que se pode observar, construindo um caminho cada vez mais sólido. O surgimento dela trouxe embutido algum desafio em especial? Vocês vislumbraram uma ruptura de padrões editoriais?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211; </strong>Após dois anos de trabalho, com quase 80 autores publicados e mais 100 títulos que queremos lançar apenas este ano, além de um prêmio de R$ 50.000,00 do Proac &#8211; Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo &#8211; destinado à realização da Coleção Patuscada, que publicará 12 títulos de 12 poetas inéditos, sendo que os livros terão uma tiragem de 1500 exemplares, com 20% destinados à distribuição gratuita nas bibliotecas do estado, acredito que conseguimos romper com alguns padrões, tanto editoriais como de mercado editorial, agora os desafios são outros e muitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas existem dois desafios especiais nesse momento. O primeiro é editorial, queremos sempre apresentar livros diferentes e únicos. Então estamos sempre pensando em como inovar de alguma forma. Cada livro na Patuá tem um projeto gráfico especial, ilustrações exclusivas, formatos e acabamentos diferenciados (capa-dura em alguns títulos, por exemplo). Então, esse é um desafio prazeroso: como podemos fazer algo ainda melhor e surpreendente? Como fazer isso mantendo também os preços de nossos títulos abaixo dos praticados pelas outras editoras?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo desafio é o da Patuá como empresa. Em dois anos conseguimos vencer uma série de dificuldades, mas a editora ainda não nos dá lucro. É claro que o lucro não é nosso objetivo principal, mas precisamos dele até para continuar o projeto. É bom ter autonomia financeira para investirmos em novos projetos, em coisas mais ambiciosas (editorialmente). Essencialmente esse desafio nem é financeiro, mas será bom ter mais livros sendo vendidos e distribuídos, isso também pode nos fortalecer editorialmente.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; Quando se fala em era digital versus a manutenção do livro impresso, muitos assumem um discurso apocalítico quanto a este último. Na sua visão de editor, de que modo podemos fomentar uma coexistência harmoniosa entre os dois suportes?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211; </strong>Há muitas formas de se entender essa questão, infelizmente muita gente ainda não entendeu nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O escritor Umberto Eco deu uma definição muito simples e certeira sobre o que é um livro <em>&#8220;O livro é como a roda, depois que foi inventado, não há como melhorar&#8221;. </em>E é isso. O livro digital é apenas um suporte (na verdade, o livro digital pede um suporte &#8211; os leitores eletrônicos -, enquanto o livro impresso é o próprio suporte do texto: são ambos, texto e suporte, uma única coisa).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o livro digital não veio substituir o livro impresso, que ainda é infinitamente superior, mas pode ser &#8211; nem sempre ele é &#8211; uma opção a mais para a leitura e acesso ao conhecimento. Não há nada, porém, no livro digital, que o torne mais atraente do que o livro impresso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensando de forma prática, um bom livro também é um produto, mas é um produto na contramão da lógica capitalista. Um bom livro pode durar uma vida inteira &#8211; pode durar dezenas de vidas inteiras e passar vários séculos. Um livro não fica obsoleto. Um livro impresso pode ser emprestado e lido por várias pessoas (pode-se argumentar que o livro digital também permite o compartilhamento, mas não é verdade. Um livro digital comprado legalmente não pode ser revendido, emprestado, compartilhado. Podemos fazer isso apenas &#8216;pirateando&#8217; o livro digital. O que é diferente, porém, em tudo que é independente no digital). Um livro pode ser revendido, pode ganhar valor, com o passar dos anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E pensando de forma subjetiva, um livro pode ter marcas das nossas vivências: impressões digitais, manchas, orelhas, riscos, anotações, dedicatórias. Ele pode nos trazer memórias. Ele pode ser autografado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fazer um livro impresso é também mais barato, acredite. O que é caro no livro impresso não é a impressão, mas o que há de humano no processo: revisão, edição, ilustrações, projeto gráfico. E isso deverá continuar no livro digital &#8211; deveria continuar, pelo menos. Não sei se vai. Sinto, muitas vezes, que poucas pessoas se importam com essas partes de um livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os entusiastas do livro digital, em geral grandes corporações como a Amazon, querem que o livro entre na roda do jogo capitalista. Querem nos obrigar, com vários discursos estúpidos como o preço (que não é menor) ou como a praticidade (que não é maior), a comprarmos, a cada dois anos, um novo leitor eletrônico e a recomprar, centenas de vezes durante nossas vidas, os mesmos títulos que, de forma impressa, teríamos que comprar uma única vez. É isso o que acontece com a música, por exemplo, e que nunca aconteceu com o livro. Os suportes vão mudando e somos obrigados constantemente a renovar nossas coleções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem outros argumentos ainda, mas recomendo para uma compreensão maior sobre o assunto o texto &#8220;O futuro do livro impresso e das editoras&#8221;, do professor e editor Plínio Martins Filho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, se entendermos o livro digital como maneira de disseminação independente do conhecimento, como forma de compartilhamento de informações, cultura, textos, literatura, então eu acho que ele vem para somar. A Diversos Afins, e centenas de novas revistas, por exemplo, são digitais. Tenho lido muitos livros digitais, mas a maneira como essas publicações são feitas vêm para renovar a antilógica capitalista do livro que mencionei. E isso é incrível.</p>



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<figure class="aligncenter"><a href="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-I1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="390" height="390" role="presentation" aria-hidden="true" src="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-I1.jpg" alt="" class="wp-image-4011" srcset="https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-I1.jpg 390w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-I1-150x150.jpg 150w, https://diversosafins.com.br/diversos/wp-content/uploads/2013/03/INTERNA-I1-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 390px) 100vw, 390px" /></a></figure>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; Certa feita, o poeta Manoel de Barros afirmou que a gente escreve para se descobrir e, lembrando o dito de alguém, ressaltou que nossas maiores verdades são inventadas. O que acha disso? Escrever seria também um truque para o existir?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211; </strong>Gullar também diz que <em>&#8220;a arte existe porque a vida não basta&#8221;</em>. Mas discordo, para mim a vida só existe porque a própria vida não basta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, como já disse, escrevo muito pouco. Então não posso dizer que isto, que escrever, é o meu truque para existir. Realizar coisas é o meu truque para existir. Mas eu não estou dizendo que são coisas importantes, são importantes para mim. Eu gosto muito de falar com poesia, então isso de realizar coisas, de dizer que eu realizo para existir, posso expressar com esse poema do Leminski: <em>“das coisas / que eu fiz a metro / todos saberão / quantos quilômetros / são / / aquelas / em centímetros / sentimentos mínimos / ímpetos infinitos / não?”. </em>Acho que é isso. Eu tenho ímpetos infinitos, mas são tão importantes. E acredito que se há um truque para existir, ele está nisso. Mas está também, concordo, nas verdades inventadas. Toda realização é também uma verdade inventada. Gosto de pensar, qual Itamar, &#8220;Que tal o impossível?&#8221;. Mas o impossível pode ser mínimo, pode ser só meu. É isso.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; A poesia está a serviço de quê?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;</strong> Vou citar o Leminski novamente: “A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê&#8221;. Mas estou citando para discordar um pouco, só um pouco. A poesia realmente não está a serviço &#8211; ela não é máquina &#8211; de nada e de ninguém, ela não existe sem os poetas, sem os leitores, e não existe mesmo sem os críticos. E todos estes estão a serviço de algo. Veja, estar a serviço não significa que estamos servis, que estamos escravos, que estamos qualquer coisa que nos desumanize na relação de um trabalho. Mas escrever, mas editar, mas criticar&#8230; mas ler, afinal, é um trabalho. É uma forma de transformar a realidade, de transformar as percepções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poesia serve para transformar a minha percepção. Ela serve, para mim, para transformar a realidade. Ela é útil.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>DA &#8211; O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;</strong> Vamos brincar com uma pergunta anterior? A pós-modernidade é uma verdade inventada. É apenas uma necessidade, e até muito carregada de romantismo, de se delinear percepções sobre a realidade histórica que vivemos, mas todas essas tentativas são bem falhas ainda. Essa construção, e essa percepção, da nossa condição atual, não estão bem claras. Não estão para mim. E o que eu não endosso no que chamam de pós-modernidade é o que eu não endossaria nos entendimentos de realidades anteriores: a exploração, a injustiça, a desumanização, a falta de perspectiva para que a nossa vida possa ser mais do que o trabalho e as obrigações. Isso eu não posso endossar.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>***</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CONDICIONADOR</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Eduardo Lacerda</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora</p>



<p class="wp-block-paragraph">que meus cabelos</p>



<p class="wp-block-paragraph">cresceram</p>



<p class="wp-block-paragraph">(<em>e parecem femininos</em>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">tenho menos</p>



<p class="wp-block-paragraph">medo</p>



<p class="wp-block-paragraph">que pareça</p>



<p class="wp-block-paragraph">desespero</p>



<p class="wp-block-paragraph">minhas duas mãos cravadas</p>



<p class="wp-block-paragraph">no centro</p>



<p class="wp-block-paragraph">da</p>



<p class="wp-block-paragraph">cabeça</p>



<p class="wp-block-paragraph">:</p>



<p class="wp-block-paragraph">agora que meus cabelos cresceram</p>



<p class="wp-block-paragraph">(<em>e constantemente cobrem meus olhos</em>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">penso</p>



<p class="wp-block-paragraph">que parece o tempo</p>



<p class="wp-block-paragraph">o tempo todo</p>



<p class="wp-block-paragraph">que estou negando</p>



<p class="wp-block-paragraph">algo</p>



<p class="wp-block-paragraph">(<em>assim, quando os balanço</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>para o lado</em>).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas também</p>



<p class="wp-block-paragraph">que afirmo</p>



<p class="wp-block-paragraph">(<em>como se</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>cisco</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>para alimento</em>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">quando</p>



<p class="wp-block-paragraph">insisto</p>



<p class="wp-block-paragraph">(<em>reticente</em>) em</p>



<p class="wp-block-paragraph">ir com eles,</p>



<p class="wp-block-paragraph">para trás e</p>



<p class="wp-block-paragraph">para frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E</p>



<p class="wp-block-paragraph">embora</p>



<p class="wp-block-paragraph">agora que meus cabelos</p>



<p class="wp-block-paragraph">cresceram</p>



<p class="wp-block-paragraph">e esses gestos</p>



<p class="wp-block-paragraph">(<em>e minhas mãos ali no centro</em>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">não</p>



<p class="wp-block-paragraph">pareçam</p>



<p class="wp-block-paragraph">desesperos</p>



<p class="wp-block-paragraph">(<em>muitos pensam até que parece um carinho</em>).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carinho, carinho, carinho, carinho</p>



<p class="wp-block-paragraph">ninho:</p>



<p class="wp-block-paragraph">de coceiras</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;</p>
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