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77ª Leva - 03/2013 Destaques Olhares

Olhares

TRAVESSIAS

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Thaís Arcangelo

Um instante partido no tempo e alguns passos rumo ao infinito. No meio do caminho, a sutileza das cores flagrando a vida, atenuando-lhe certo peso da alma. Existir, somados os seus imperativos, precisa se configurar um flerte com os tons sublimes que governam o espaço abstrato através do qual desfilamos nossos rompantes. Existir, nos desenhos e ilustrações de Thaís Arcangelo, é pacto de escutas, rompendo a redoma da grande noite que insiste em nos abraçar.

No limiar entre o real e o inventado, a artista funda territórios e instaura entre nós a percepção marcantemente poética sobre uma delicadeza que esquecemos nalgum ponto da jornada. Assim, viver torna-se um arremesso incerto, porém desejoso de uma transformação a mais humana possível. Ao nos revelar dimensões por vezes etéreas, Thaís desafia zonas de conforto, rejeitando-as e nos impelindo a reescrever nossas errantes trajetórias.

Ilustração: Thaís Arcangelo

Em seus trabalhos, a artista devota especial atenção a uma múltipla representação do universo feminino. A partir daí, surgem personas das mais variadas possíveis diante de nossos olhos, todas elas inscrevendo seu traçado numa tentativa serena de redenção. Nessa perspectiva, Thaís caminha para além da materialidade das coisas, erguendo um vasto e denso painel de sensações.

Se por um lado somos seres reconhecidamente duais por natureza, por outro, nos é dada a chance de revermos nosso velho e desgastado costume de repetir. E isso nos é lembrado a todo tempo nos cenários propostos por Thaís. Com sua ciranda de sentimentos pueris e ao mesmo tempo também maduros, a artista recria mundos no mundo, fazendo do atributo onírico de suas criações uma passagem permanente para o centro de nós mesmos. Nesse trajeto de autoconhecimento, talvez a única certeza que carregamos seja a da dúvida, essa sedutora senhora a nos acalentar insistentemente em todo tempo e lugar.

 

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

* As ilustrações de Thaís Arcangelo são parte integrante da galeria e dos textos da 77ª Leva.

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Jorge de Souza Araújo

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

JOGO

 

Quando afinal o que não se diga
eu o imponderável lógico matemático
querendo-me aberto patife herói safo
discurso que não esporre ou ex-porre
o húmus da terra me cobrirá
ou a gala o cuspe o vômito do mundo
se farão o lanho das minhas carnes e feridas?

Com essas dúvidas
estarei reencontrado e pronto
para o sacrifício
se em dia de intensa morte
louco de ver-te e te perder
eu te puder manter na ponta dos meus dedos
e com eles trocar a incúria e o terror
dos olhos do povo
por tua presença, liberdade

 

 

***

 

 

NADA SOSSEGA O HOMEM

 

Nada sossega o homem nada
o acalma nada o amansa
que não o amor

nada aflige o homem nada
o amarga nada o suprime
que não a opressão

Nada sucumbe o homem nada
o dilacera nada o subjuga
que não a inconsciência

Sejamos pois
……………..fome ao amor
……………..firmes à opressão
……………..fortes à inconsciência

Votemos nada a tudo o que seja
contrário ao homem
Vivamos fartos o destempero do sem-ódio
do sem-medo do sem-nada
Joguemos livres o lá de nossa paz

 

 

***

 

 

NESTA ILHA V

 

Nesta ilha
não me arquipélago
noutros largos (inexistentes)

ouço
ventos gemendo ausências
nas vidraças, polifônicos

e me guardo
do apocalipse dardejando
sinas, sinos, senões

 

 

***

 

 

VADE

 

O segredo não está no aceite de uma relatividade
nem no acinte de uma vã docilidade
Cumpre e urge no entanto
dar curso e recurso a esta longa sensação de ácido:
a vida
Quem com ela advir-se
descobrirá incertos fios invisíveis a tecer
Maio deste ágio imponderável
bússola sem reparo decaída árvore sem sumo
a vida é uma mulher cega cantando ladainhas no adro do tempo
Não há como esquecer-se:
para encontrá-la, à vida
nada como embriagar-se e ver de novo
seu renascer assim papoula desgarrada
em tarde quieta e loucas laudas
de um sequer talvez quem sabe porventura

 

 

***

 

 

DATUM

 

E se de repente
me fosse dada
a sentença da vida
e da morte

eu escolheria
ficar na terra
cheirando a terra
comendo a terra
vivendo a terra
em sangue
em seiva
em salva
e mel (ou fel)

 

 

(Jorge de Souza Araújo é poeta, Mestre e Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dentre suas publicações, estão: “Os becos do homem” (poesia – Rio de Janeiro: Antares, 1982), “Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira” (Salvador – Assembleia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999), “Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado” (Rio de Janeiro – Relume Dumará, 2003), “Floração de imaginários – o romance baiano no século 20” (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008), “Essa esquiva e dilacerada fauna” (Contos – Ed. Mondrongo, 2012)

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Sérgio Tavares

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

evolam-se os barcos

 

hoje eu matei o trabalho, fui ver os barcos.

gosto de ver os barcos nesses dias de baixas nuvens chumbo, quando o céu se torna um reflexo encapelado do mar e sopra fiapos d’água que tingem de escuro meu terno, tecendo um manto baço de papel de seda que cobre o horizonte.

nesse cenário espesso de giz, os barcos são como pequenos borrões coloridos, imóveis no expressionismo da tela turva, onde gaivotas e trinta-réis adejam em voos erráticos como úmidas cerdas de um pincel que pinta de inverno todo o tecido marinho, exceto as franjas brancas tomadas por este misterioso e interminável ímpeto de tramar-se e destramar-se.

gosto de sentir as azaleias de espuma que se abrem mansamente entre meus dedos e me queimam de vida a carne, para logo em seguida desaparecerem na areia viscosa que suja de sal as bainhas da calça e engole meus pés para a fundura cinza onde penetram as ondas.

gosto de deixar que o áspero sudoeste me percorra o corpo, açoitando a pele por entre as casas dos botões e insuflando as asas de um homem-pássaro negro, eu e milhões de grãos, gotas e uma gravata, que rodopiam pelo ar.

parto com eles em direção ao infinito, perdendo-me no teatro de névoa e chuva, no momento em que descem as cortinas e os barcos içam suas velas, disparando em mim a reconfortante certeza de que o vazio da praia é maior que o meu.

sempre preferi a solidão. vivia em busca deste estado de desaparecimento, quando é possível ouvir alto a própria voz calada. na infância, fui uma criança introspectiva. gostava de colecionar coisas sem valor e andar a esmo pelos parques. não tinha amigos e nos aniversários ficava sentado ao lado dos adultos, observando as outras crianças brincarem.

uma vez, me deram um cachorro, mas ele morreu de tristeza antes de completar um ano. nem sequer teve um nome, só um retrato que desenhei do dia em que desenterrou um pardal. esquecia das horas entre os lápis de cera ou assistindo aos desenhos animados. minhas tias diziam que eu seria um infeliz ou um gênio.

quando ingressei no ginásio, descobri a leitura. lia de maneira indistinta e compulsiva. na biblioteca, no horário de recreio, no ônibus de ida e no ônibus de volta. no meu quarto, chegava a ler dois livros de uma vez. os professores começaram a me usar como referência e minha introspecção foi se tornando sinal de inteligência e admiração.

verdade era que, na página seguinte, eu já não me lembrava do que tinha ocorrido no capítulo anterior. os livros eram uma necessidade, pois são chaves para a solidão. às vezes, deitava na cama com um livro pousado sobre o peito e me perdia nos entremeios e nas reviravoltas até me esgotar de sono. era gostoso retomar a história no dia seguinte e perceber que parte do enredo fora tramada em sonho. dormindo, eu era um melhor escritor.

tentei a faculdade de matemática, mas os livros não me serviram para os números. os anos foram adoecendo meus pais até os tornarem dois insetos pequenos demais para a mecânica da casa. tive de trabalhar para comprar remédios e reparar os móveis.

meu primeiro emprego foi na fábrica de calças. tinha a função de verificar a precisão dos botões e dos zíperes. eu gostava, pois passava todo o dia sozinho, forçando as costuras e o trilho dos fechos. na hora do almoço, me sentava numa mesa do canto com um jornal aberto sobre o tampo para afastar qualquer intenção de diálogo. a única que insistia era Irene.

todos os dias, puxava conserva sobre os fatos publicados, que eu respondia com hum-huns. de tanto me importunar, acabamos iniciando um relacionamento em que nos víamos pouco, falávamos no refeitório e ela me ajudava nas tarefas domésticas pesadas de fim de semana. minha mãe gostava da Irene. dizia que ela me entendia e amava como ela amava o meu pai, e que dançariam conosco a valsa nupcial, no baile de casamento.

fatalmente ela estava enganada. alguns meses depois, minha mãe sofreu um infarto fulminante. no dia seguinte, meu pai acordou cedo, fez a barba, tomou o ônibus até o mais alto prédio comercial, subiu o elevador e se jogou do nono andar. fizemos as bodas junto à missa de sétimo dia para salvar as poucas economias que tínhamos, ameaçadas pela hipoteca da casa que pendia há seis meses. com o ordenado da fábrica, seria impossível nos sustentar dignamente.

foi quando um tio de segundo grau, que trabalhava numa secretaria de estado, me ofereceu um cargo no setor de protocolo. era um trabalho que não requeria muito raciocínio, o salário e os benefícios eram satisfatórios e o horário flexível, embora o terno e gravata fosse indispensável.

dividia a sala com dois funcionários estatutários, nos revezando no ofício de numerar os processos, carimbar, comunicar e depositar num dos muitos arquivos. a sala era pequena, de paredes cor pastel e sem janela, acarpetada e tomada de antigos móveis de patrimônio. havia três mesas, uma máquina de escrever e um ventilador em mau funcionamento.

verdade é que, com o tempo, comecei a gostar de passar o dia nesse isolamento remunerado, no qual quase não tinha de interagir com pessoas e podia me perder na leitura por horas sem interrupção. com essas garantias, me vi impelido por vontades que se harmonizavam aos desejos de Irene. quitei as dívidas e recuperei a casa, compramos móveis novos, incinerei as tralhas dos meus pais e tivemos duas filhas. tornei-me um homem de família, embarcado numa ciranda de deveres e novos sentimentos, em que a solidão era o acordo que incidia sobre o cotidiano quando o relógio de ponto, no hall de entrada, marcava o início do expediente da repartição pública.

uns dois anos depois, esse refúgio, porém, adquiriu uma atmosfera claustrofóbica que asfixiou o mundo que inventei para mim. a Casa Civil protocolou um comunicado, informando que todos os órgãos teriam de cortar despesas. houve demissões e todos os contratos foram suspensos.

logo, os funcionários do meu setor foram alocados em outras seções e fiquei sozinho. é claro que, a princípio, assaltou-me uma euforia sem igual. ficaria completamente isolado, imune a qualquer contato ou explicações. livre para ler, sonhar, pousar minhas costas sobre a espalda da cadeira e ouvir somente a minha voz calada. no entanto, detidamente percebi (e era como sufocar aos poucos) que esse estado que tanto buscava, a solidão, só suscita recompensa quando conquistado e não imposto.

a paralisação deflagrou a negligência que já pairava sobre as repartições, estabelecendo a mediocridade e o desânimo que acomete todo o ser envenenado pela burocracia. não havia mais andamento de despachos, fotocópias ou telefonemas. o expediente resumia-se a sentar diante do relógio e esperar os ponteiros empurrarem a massa pegajosa que era o tempo. fui sendo esquecido naquela sala sufocante e sem janela. desbotando feito um retrato consumido pelos anos, uma silhueta borrada sem reflexo.

a vontade de isolar-me, esse ímpeto de estar apenas comigo, deteriorou-se dentro de mim, deixando um vazio que me tornara invisível não do modo que sempre pretendi. às vezes, acontecia de um entregador ir ao setor levar uma correspondência e ficar parado na porta, olhando como se não tivesse ninguém, até ir embora. quantas feitas eu pedia para segurar o elevador e as portas se fechavam indiferentemente. ou quando alguém precisava arquivar um processo, o deixava com um bilhete escrito à mão, avisando que tinha estado ali e a sala estava vazia.

em casa, o isolamento desencadeara um processo mais doloroso. juntamente ao amadurecimento do corpo, minhas filhas desenvolviam a cruel habilidade de não me enxergar. cruzavam por mim como se me vestisse a textura do papel de parede ou a insignificância de um vaso ornamental.

já começavam as refeições sem a minha presença, ignorando meus comentários e mesmo os pedidos de passar o sal. quando, por ventura, estava assistindo à televisão, naturalmente pegavam o controle remoto e mudavam de canal. há duas noites, eu me deparei com a menor olhando para uma foto minha com ela e a irmã ainda pequenas com uma estranha atenção, como se eu fosse suspenso em sua prematura memória.

mesmo Irene, que me encontrou no esconderijo dentro de mim, agora me esquecia em comezinhas obrigações e pormenores que supriam o sentimento de ausência. fui desaparecendo. rareando como um tapete pisado, um fantasma na eletrostática da televisão. não dormia, e nem mesmo a leitura trazia-me conforto. comecei a vagar pela rua, em busca de um olhar, um rosto em meio à multidão, uma expressão manchada por olhos nublados capazes de enxergar o invisível…

ele vê a forma, um borrão, uma mancha que aflora na sedosidade da neblina e o assalta um entusiasmo incompreensível, tal a voragem que urde grãos de areia e contracorrentes na germinação de bulbos de lótus, flâmulas e pétalas que se abrem apenas para se despedaçarem na arrebentação, fragmentos de espumas, espelhos-fantasmas que refletem o desfraldar das asas do pássaro negro, o prelúdio do voo entre os véus bailarinos de chuva fina sobre as milhares de pegadas que se confundem e percorrem caminhos que nunca existiram, rumo ao rochedo, o aglomerado de pedras e depressões, coberto de limo, alestrins e matacães, onde explodem ondas e acertam estilhas peroladas nas suas costas, avançando contra os papa-breus entrando por desvãos e saliências que lanham as mãos confusas, entre o par de sapatos e escorregões, na escalada até o cume, o abismo onde o ar é menos salino, e ela está sentada, braços envolvendo os joelhos, o rosto delgado e a bainha do cabelo castanho, repartido ao meio.

 

É uma bela visão.
É uma bela queda.
Não deixa de ser um ponto de vista.
Talvez um menos glorioso.
A vida, em certos aspectos, tende a não ser gloriosa.
Meu pai costuma dizer algo parecido.
Seu pai é um homem sábio.
É, talvez.
Posso me sentar?

 

 

Sabe, subir aqui me dá a medida da minha insignificância.
Para mim, é a possibilidade de desaparecer.
Acredite, não é tão simples.
Não é difícil o bastante.
Está vendo os barcos? Os pequenos borrões coloridos atrás do mau tempo, surgindo e desaparecendo? Imagine todos os elementos que são necessários para que isso aconteça. A névoa, a chuva, o vento, as ondas. Tudo tem de convergir perfeitamente para criar essa ilusão de ótica. Não acho que seja tão simples assim.
Eu não consigo me impressionar com ilusões.
Deve existir uma boa razão para isso.
Meu pai é mágico, um ilusionista, como ele prefere ser chamado. O seu número mais famoso é o do desaparecimento.
E você cresceu sabendo que era uma ilusão.
É. Ele era grande em sua época.
E onde está agora?
Agora ele está preso à cama de um hospital, flutuando entre momentos de lucidez, enquanto espera por um transplante que nunca acontece. Irônico, não? Meu pai ganhou a vida com truques de desaparecimento, e agora não há nada que se possa fazer para evitar que desapareça para sempre.
Sinto muito por isso.
Acho que essa é a ilusão que ainda me impressiona. Acreditar que existe algum sentido na vida.
Sei que não é reconfortante, mas imagine, em todos esses anos, quantas pessoas seu pai tocou com seus números, quantas vidas conseguiu mudar.
Não é nada reconfortante.
Ao menos, ele tem a você.
A mim e ao meu irmão Pedro. Nunca o abandonaríamos. Minha mãe desapareceu quando éramos crianças. Meu pai sempre foi muito presente. Apesar da vida itinerante, de crescer seguindo a rotina dos circos de cidade a cidade, em momento algum ele permitiu que imaginássemos que poderíamos ficar sozinhos. Fomos ensinados a acreditar na comunhão e educados a construir um futuro próprio. Ele nunca deixou que seguíssemos sua estrada.
É curioso como viemos aqui por razões parecidas, mas com propósitos diferentes.
E o que você veio fazer aqui, num dia chuvoso, de terno e gravata?
Não sei ao certo. Encontrar algo.
Não deveria estar trabalhando?
Deveria, mas ninguém se importa. Já faz algum tempo que ninguém percebe que estou lá. Faz tempo que ninguém me percebe, de forma alguma.
Você é casado.
É, a aliança. Tenho duas filhas.
Isso é bom?
Não sei.
Deve existir uma boa razão para isso.
Passei a vida me escondendo, tentando desaparecer. Quando finalmente consegui, descobri que não podia voltar atrás.
No número do desaparecimento havia um fundo falso. Meu pai era amarrado por correntes presas a cadeados e erguido dentro de uma caixa. A chave ficava na sua mão. Quando a corda se rompia, ela passava pelo buraco e caía sobre um colchão. Esse é o segredo.
Quer ouvir um segredo? À noite, quando sei que todos estão dormindo, vou até o quarto das minhas filhas. Pego uma cadeira e me sento à beira das camas. Fico horas apenas as olhando, às vezes até raiar o dia. Eu não sabia o porquê. Na verdade, eu fingia que não sabia o porquê. No fundo, eu esperava que uma delas acordasse e, na transição entre o sono e o despertar, ainda livre de qualquer pensamento, pudesse me ver novamente. Saber que eu estava ali, que ainda existia. Mas agora sei que não posso reverter o que me tornei. Sou um fantasma no porta-retrato, um morto-vivo.
De alguma forma, é isso que meu pai se tornou.
É isso que, afinal, nos tornamos.
E não há nada que possamos fazer.
Ainda podemos ver os barcos.

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O conto aqui publicado faz parte de seu mais recente livro, “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012)

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

Hitchcock. EUA. 2012.

 

 

 

‘Estilo é o plágio de si mesmo’.
(Alfred Hitchcock)

Considerado pelo American Film Institute como o melhor thriller de todos os tempos, Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, é um marco não só para o cinema por ter matado sua protagonista na primeira meia hora de filme e por proibir que as pessoas entrassem na sala com a sessão já iniciada como para a própria carreira do cineasta, que, nesta altura, já era um sexagenário com mais de 40 filmes no currículo. O que talvez o grande público desconheça é que a Paramount Studios vetou o projeto e Hitch o bancou de forma independente, hipotecando sua casa para arcar com a adaptação para o cinema do livro Psycho, de Robert Bloch, o qual classificou como “diabolicamente divertido”. Baseado em fatos reais, o enredo e o personagem Norman Bates são inspirados em Ed Gein, assassino que dissecava suas vítimas e construía objetos com partes do corpo humano, no interior americano, no fim dos anos 50.

Mais de meio século depois, chega às telas Hitchcock, primeiro trabalho de ficção do londrino Sacha Gervasi, que aborda os bastidores do filme e a relação de Sir Alfred (interpretado por um caricato Anthony Hopkins) com a esposa Alma Reville (Helen Mirren). Baseado no livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose (Ed. Intrínseca), de Stephen Rebello, talvez o maior trunfo do filme esteja em não se levar demasiado a sério nem assumir um caráter de cinebiografia, diferente, por exemplo, do tenso The Girl (2012), que aborda os escândalos envolvendo Alfie e a atriz Tippi Hedren enquanto rodavam Os Pássaros (1963) e Marnie – Confissões de uma Ladra (1964). Aliás, com maior ou menor intensidade, Hitchcock costumava apaixonar-se platônica e doentiamente por suas blondie girls.

Como de praxe na época, o roteiro de Psicose (assinado por Joe Stefano) precisou da aprovação do departamento de censura cinematográfica, o que, aliás, rende uma boa sequência na trama, principalmente quando Hitchcock é questionado quanto à nudez no assassinato no chuveiro (‘ela não estará nua, usará uma touca de banho’) e pela filmagem de um vaso sanitário aberto, fato inédito até então. O filme transita desde o casting de atores, curiosidades do set até sua exibição e consagração. Revela ainda a mágoa do cineasta com Hollywood (Hitchcock nunca foi premiado com um Oscar, apenas homenageado com o prêmio memorial Irving G. Thalberg, pelo conjunto da obra, em 1979), seus transtornos alimentares e crises emocionais. Aliás, durante seus devaneios, Hitch chega a dialogar com o serial-killer Ed Gein (Michael Wincott).

Helen Mirren e Anthony Hopkins em cena de Hitchcock - Foto: divulgação

Paralelo ao making of, o filme explora a máxima “por trás de todo grande homem há uma grande mulher”. Assim sendo, detrás do egocêntrico mestre do suspense havia Alma Reville, sua companheira por toda a vida e peça ativa em todas suas produções, seja como consultora, revisora ou montadora. Inclusive a trilha sonora da cena do chuveiro composta por Bernard Herrmann foi insistência sua. A ideia de Hitchcock é que a sequência de golpes fosse muda. Alma suportava, ainda, os flertes do marido com jovens atrizes e sofria com o ciúme provocado por sua aproximação com o escritor Whitfield Cook (Danny Huston). Aliás, há que se destacar a inspirada interpretação de Helen Mirren como a espirituosa e decidida Alma e o elenco estrelar do longa, que conta com Scarlett Johansson como Janet Leigh/Marion Crane e James D’Arcy interpretando Anthony Perkins/Norman Bates, além de Jessica Biel, Toni Collette e Ralph Macchio (o eterno Daniel San, de Karatê Kid). Sente-se, porém, a ausência na trama – tanto em sua figura familiar quanto profissional – de Pat Hitchcock, filha do casal e atriz em Psicose.

A verdade é que a “franquia psicótica” rende frutos até hoje, a exemplo da série Bates Motel, do Canal A&E, que foca na adolescência de Norman e estreou sua primeira temporada dia 18 de março nos EUA. Ainda que muito inferiores ao original e dirigidas por três cineastas distintos, não esqueçamos das continuações Psicose II (1983), Psicose III (dirigida pelo próprio ator Anthony Perkins, em 1986) e Psicose IV – O Começo (1990), além do (desnecessário) remake para o clássico, do cineasta Gus Van Sant (1998) e do documentário The Psycho Legacy (2010). Mesmo apresentando algumas falhas e divergências em relação ao livro que o originou e um Anthony Hopkins um pouco aquém da expectativa gerada, Hitchcock (talvez até mesmo o título esteja equivocado) possui seus méritos, seja por introduzir ao público Alma Reville ou simplesmente homenagear criador e criatura. Trata-se de um bom pretexto para (re)conhecer o cineasta inglês e suas vastas obras-primas e/ou para debruçar-se sobre a mente do perturbado Norman Bates, um dos personagens mais complexos e intrigantes que o cinema já conheceu.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ana Pérola Pacheco

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Quando quebrar não é suficiente

 

A vida me causa espasmos
E eu permaneço ao chão
Um caco que não quer adentrar – e não vai!

Uma ferida aberta, que jorra
Que glorifica o prazer de
Ainda suspirar – e sorrio!

A vida me intensifica
E sobretudo,
Acredito e cicatrizo – continuo!

 

 

***

 

 

fragmento

 

Achava legal a superficialidade porque a comparava como as bordas das coisas, como as cascas das frutas, onde, por exemplo, fica concentrada a essência do sabor. Depois, aprofundar qualquer coisa que fosse, era preciso coragem. Nem todo mundo está disposto a espinhar-se. Os dias soltam venenos. Os dias superam. Amanhã o céu será mais azul, e mataremos a sede no suor que escorre sal-ga-do!

 

 

***

 

 

22:22

 

toco o breu, meio ao jardim na sua cabeça de rosas
……………………………………………………………………………..sangrentas
 ……………………………………….e salivo.
paladar só assim.

infinito.

 

 

***

 

 

Ela queria ser seu casaco inúmeras vezes. Não! Não falo deste grudado no seu corpo que insiste substituir a quentura da minha alma, aquecendo sua meia-estação. Ela se refere ao que você leva nas mãos em caminhadas noturnas. Ela fala deste, deste que te faz decorar cheiros.

 

 

(Ana Pérola Pacheco (RJ – 1988), mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica  e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanosma qual é graduada)

 

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Galeria

Ilustração: Thaís Arcangelo

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