O eternal movimento das águas nos conclama a desabitar as zonas de conforto. A impermanência, sugestão maior desse fluxo, é uma das crias mais valiosas do tempo, um avanço sorrateiro pelas trincheiras da toda poderosa senhora incerteza. De modo imponente, essa majestosa companheira parece muito mais afugentar corações e mentes do que qualquer outra coisa. Teimosamente, escritores e artistas cumprem o ritual das indagações, trazendo à baila dimensões possíveis para a ciranda da vida. Expressar-se, por si só, já pode se prestar a um indício de rompimento com o conformismo. E isso apenas não basta. Indo além, é preciso atirar verbos ao vento, submeter as imagens ao crivo dos olhares, extrair da abstração das horas o sumo das linguagens. Quando tentamos erguer uma edição da revista, é sempre desafiador refletir sobre os caminhos que nos impulsionam. Perceber, por exemplo, a grande metáfora que nos motiva a transcorrer sobre o ciclo das águas, agora, é um deixar-se guiar pelo convite de uma artista como Rosa De Luca, que, com suas fotografias, provoca em nós uma apreensão dos deslocamentos os quais a existência não se cansa de nos apresentar. É essa liquidez de sentimentos dispersos que também nos leva a abraçar a verve poética de pessoas como Rita Santana, Tristan Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá. Seguindo a corrente dos signos, entrevistamos o escritor e jornalista Sérgio Tavares, que dividiu conosco um pouco da sua trajetória literária, sobretudo no que se refere ao seu novo livro, ”Queda da própria altura”, obra que se presta a um digno mergulho de cunho intimista. No ato de construir histórias, Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Rossi demarcam, através de seus contos, universos peculiares para os desatinos humanos. A memória do poeta cearense Francisco Carvalho é celebrada no texto de Clarissa Macedo. O instigante “Dentro da Casa”, filme do diretor francês François Ozon, ganha espaço na resenha de Larissa Mendes. Das paragens mineiras para o nosso caderno musical, vem o belo trabalho de Luiza Brina e O Liquidificador. Numa alusão ao curso interminável das águas, deixamos fluir uma nova Leva, com toda a vontade de que os caminhos materializem cada vez mais o ideal de continuidade.
A famosa “espiadinha” na vida alheia nunca foi exclusividade dos controversos reality shows contemporâneos. Desde Hitchcock e sua Janela Indiscreta (1954), o cinema, as séries e as telenovelas nos entretêm com voyeurismo e invasão de privacidade. Aliás, numa análise superficial, toda produção audiovisual poderia ser encarada como a observação voyeurista de determinada situação ou acontecimento. Devaneios à parte, que atire o primeiro binóculo quem nunca sentiu curiosidade em saber o que se passa entre as cortinas do prédio em frente. Baseado na peça El Chico de la Última Fila, do dramaturgo espanhol Juan Moyarga, e dirigido pelo parisiense François Ozon, Dentro da Casa utiliza o tema e suas variantes como um pretexto instigante para refletir sobre o sistema educacional, a literatura, a ética, o poder e os desdobramentos da psique humana. Em determinado plano, o longa-metragem presta um belo tributo estético ao clássico hitchcockiano e reafirma que detrás de toda vidraça há uma história que merece ser contada.
Germain (Fabrice Luchini) é um professor de literatura desiludido com a falta de empenho e habilidade narrativa dos alunos do ensino médio da escola Gustave Flaubert. Sua esposa Jeanne (Kristin Scott Thomas) compartilha da mesma amargura diante da possibilidade do fechamento da galeria de arte que gerencia. Juntos, reencontram um sopro de motivação profissional (e questionam o próprio casamento) quando o enigmático Claude García (Ernst Umhauer), um aluno de 16 anos, surpreende o docente com redações enfim articuladas que descrevem “a vida de uma família normal”, experiências de suas visitas à casa de seu colega de classe Raphael Artole (Bastien Ughetto).
Fabrice Luchini e Ernst Umhauer em plano que homenageia Janela Indiscreta/ Foto: divulgação
O problema é que tais escritos possuem um conteúdo deveras voyeurista, no qual Claude satiriza a classe média francesa espreitando de maneira obsessiva o cotidiano de Rapha-filho, Rapha-pai (Denis Ménochet) e da mãe Esther (Emmanuelle Seigner, mulher do diretor Roman Polanski), aparentemente seu objeto de desejo. Entusiasmado com o talento e escrita peculiar do aluno, Germain, que compartilha todos os textos com a esposa – e inclusive coloca em risco sua reputação profissional como mestre –, incentiva sua produção literária extraclasse, indicando autores, emprestando-lhe obras e exercitando elementos que compõem uma boa ficção. Completamente fascinados pelo “(continua…)” com que cada “capítulo” do texto é finalizado, e, ao mesmo tempo, temerosos pelo desfecho trágico para que a(s) história(s) aponta(m), o casal – e o próprio espectador – partilham da dúvida do que de fato é real e o que é fruto da imaginação do jovem aspirante a escritor.
Exibido durante o Festival do Rio 2012 e premiado com a Concha de Ouro de Melhor Filme e de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de San Sebastián, a película, muito popular na Europa, passou despercebida a boa parte do público brasileiro. O que é uma pena, pois Dentro da Casa tece uma trama cotidiana inusitada, com protagonistas complexos que flertam com o suspense tragicômico. Repleto de simbolismos e referências artísticas, o bom uso da metalinguagem e a edição sinuosa – a narrativa de Claude adquire um filmete dentro da trama, onde o próprio Germain participa e intervém na construção da história – discutem o papel do educador e da arte, explorando a relação professor/aluno e a engenhosa lapidação literária, além de tecer uma crítica velada aos programas de TV que devassam a vida privada (vale lembrar que a França é o país que mais consome este segmento da programação). Com mais de uma dúzia de filmes no currículo – entre eles o musical 8 Mulheres (2002), Swimming Pool– À Beira da Piscina (2003) e Potiche – Esposa Trofeu (2010) –, e mantendo a média de um longa por ano, François Ozon firma-se como um dos grandes cineastas franceses da atualidade. A propósito, Jeune et Jolie, seu próximo projeto, estreia em maio no Festival de Cannes 2013.
“(continua…)”.
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)
Atreva-se a comandar o ritmo de um coração –
por maldição, entreva-se para sempre no corpo
uma batida simbólica espasmódica nostálgica
disforme sistólica atávica
e descompassada
***
MANDINGA
Depois de maldizer os santos
racionalizar os fatos
desfazer quebrantos
recolher as flores, apagar as velas
demolir o altar e o querubim
Segurei com firmeza meu próprio pulso
sem batimento
e com a fé que dispunha
rompi em prantos e sem testemunhas
a fitinha do senhor do bom-fim
A partir de agora, não creio nem em mim.
***
CÚMPLICE REFLEXO
O espelho atesta o que não dá para mudar:
o tempo, o prazo vencido,
o tônus que se foi
ônus da trajetória.
Sem julgamento,
o espelho mostra
a melhor versão da história
que Deus nos deu:
avisa o que está faltando,
arrola o que dá pro gasto,
ensina truques e esquemas
e anima antes da festa
com um ângulo de visão belo
ou uma viável distorção.
O espelho não faz trapaça
mas admite pactos:
como fiel escudeiro
esconde em segredo alguns traços
Assobia, disfarça, esfumaça,
mas não conta –
nem que o quebrem em cacos.
***
PARTILHA
Parto
em dois o que era nosso:
o pudim do almoço
os jornais da cesta
o cobertor de lã sobre o sofá
alguns cristais
Deixo
as contas decimais:
o calendário asteca da geladeira
uns quantos sermões
segredos viscerais
Pedaços inteiros de lembranças
não fracionais.
(Tatiana Druck éautora do livro de poesia “Par e Impar” (Ed. Mecenas, POA, 2010). Tem textos publicados em diversas antologias. Conquistou prêmios literários nacionais, entre eles, o 1º lugar em crônica no VIII Concurso Mário Quintana (2012) e o 1º lugar em poesia no XXVI Concurso Brasil dos Reis/RJ (2011). É advogada, mestre em Direito Privado pela UFRGS, tem 42 anos, vive em Porto Alegre)
Antes de se estabelecer o equilíbrio, o mundo real e o mundo ideal não se olhavam face a face.
O Zohar
Débil, estúpido, soberbo, demoníaco, louco, estranho, doente, sem respeito ao sagrado e às leis; palavras sinônimas ou de similitude clara que definem com a precisão de um cirurgião meu caracter. Ó, como não adorá-las e admirar-se diante delas sentindo-se um deus, um deus cuja índole o eleva acima dos mortais? Bem que eu deveria enaltecer-me ante a tal nomeação adquirida por atos reprováveis – louváveis? Não sei –, no entanto, sinto-me um símio no meio de homens, tentando em vão, como eles, manter-se em pé. E ainda que busque desviar-me do meu caracter, a natureza impele-me a segui-lo. Sou então, por isso, um mau caracter; inevitavelmente um mau caracter. Parafraseando o apóstolo, vejo que vive nos meus membros outra lei. Não me arrependo de sê-lo assim, mas admitindo a corrupção de meu espírito, decidi criar um ser melhor que eu, alguém cujas ações pudessem evitar as minhas. Comparei-o ao melhor dos seres possíveis imaginados por Deus, e o fiz.
No começo… Antes do começo, assim que o imaginei, pensei no que ele faria de bom para mim, ainda que eu não saiba conceituar o bom. Determinei o seu propósito e as condições de existência que permitiriam sua durabilidade como ficção. Pensei tal como um sábio a liberdade desta ficção e os limites a ela impostos por sua natureza irreal, e o que nela haveria de maravilhoso e de verossimilhante, e o que possibilitaria a ela romper com as duas como também o que por meio de ambas poderia desenvolver. Pensei, portanto, nela como indivíduo. Procurei sua alma nos símbolos, na geometria dos símbolos, nas palavras, nas frases, no texto. Procurei o seu vazio. E a cada imagem criada ela surgia mais radiante e perfeita. A mim ela pareceu boa. Certamente a ficção era melhor que o real. Era lógico acreditar que ela permitiria a mim, evoluir – noutras palavras, escapar a minha vil condição. Considerei, contudo, se os limites da folha seriam para ela um impedimento físico para se desenvolver livremente ou se como um carrapato habituado à superfície, não saberia encontrar tais limites, julgando, logo, ser aquele espaço o seu mundo, e se, caso descobrisse, como reagiria. Mas isto era um equívoco de minha parte, jamais uma existência ficcional poderia romper os limites da folha e se tornar real, assim como jamais o real poderia converter-se à ficção. Ao menos… Após muito pensar, criei a ficção de mim mesmo. Criei-a no momento em que escrevi seu nome em um lugar qualquer num tempo qualquer.
A ficção não era perfeita, todavia, por ela tudo podia ser melhor; antes de tomar qualquer decisão, fazia-a com que agisse antes de mim; escrevia a cena, o momento da ação, o que eu faria caso se… de um modo que na realidade não agiria, de forma tal que, eu poderia ponderar meus caminhos e evitá-los. Acreditei com muita fé que sua existência me curaria. Mas a ficção não tem por finalidade curar o real, não pertence a ela como a um escultor modelar a realidade; sua função é outra, contaminar. Mesmo assim, depositar a fé nela não ia de encontro ao que eu mesmo lhe havia estabelecido.
Passei a mergulhar em seu símbolo, convenci-me de sua beleza, e cri no seu milagre. Antes de ir ao trabalho, antes de amar minha esposa, antes de pensar, antes de respirar, antes que o dia começasse, antes que o outro dia começasse, antes, antes, antes, antes mesmo de, a ficção era e por ela tudo mais era e sem ela nada havia de ser. E com ela meus dias se tornaram melhores. Por meio da ficção eu percebi ser possível evitar o mal. Meu casamento, que antes estava uma porcaria, alcançou o status de sublime, tudo porque a ficção havia me dito como seria se. Ora, era verdadeiro que eu havia me convertido à ficção, contudo ela jamais se converteria a mim. Então, ainda que sua existência me permitisse ser outro de mim mesmo, era impossível ela se tornar eu. Havia um limite intransponível. No entanto, ao olhar para minha vida, semanas após tê-la criado, era inevitável não pensar o quanto em tudo estava a sua essência. Quisera sê-la, mas tornar-me ela, como já disse, era impossível. Eu procurei convencer a ficção de se tornar real, eu busquei de todo modo arrancá-la daquelas folhas e outorgar-lhe a dádiva de estar em meu lugar; eu lhe fiz uma proposta irrecusável, a qual qualquer outra ficção aceitaria sem titubear, mas ela rejeitou.
A ficção rejeitou seu autor – e, ainda que esta rejeição fosse a prova de sua liberdade, continuei a acreditar que ela existia sob o meu querer; enganei-me; a verdade era que sua liberdade demonstrava incontestavelmente o quanto ela existia sem mim. A ficção não dependia mais do seu autor. Depois disso, não houve dia melhor. Todas as escolhas se tornaram acidentais; a vida reduziu-se a um acidente, quando antes se podia chamá-la milagre. Era como estar diante do quadro, Reprodução proibida, de Magritte, por mais que olhe você não vê o rosto. Voltei a fumar cigarro, ouvir blackmetal e tomar banho com o corpo mergulhado em bolsas de gelo seco. Minha esposa mudou-se para a casa dos pais. Tive um companheiro matinal que chegava às 6hs: o jornal – mas, depois de conversarmos, eu era forçado a rasgá-lo e queimar tudo o que ele havia dito na lareira. Quando à noite eu necessitava de uma companhia, pousava no pinheiro da rua ao lado, uma coruja branca e cantava-me uma nênia, ao som dela eu adormecia. Quem, no entanto, suportaria esta vida miserável? Quem, no mundo, admitiria a realidade sem manifestar asco? Eu tinha fome… fome da ficção. Pensei no rosto que não via… tornou-se necessário forçá-la a mostrar a face.
Não precisei de tempo para pensar em como, a resposta, sabia-a desde o princípio. Coloquei uma página em branco em frente à página onde está o último parágrafo, e aconteceu o que imaginei: a ficção olhou-se a si mesma no vazio da outra página. E eu, de fora, vi seu rosto. Ela percebeu que a havia descoberto e procurou se esconder, mas era tarde, meu olhar a detivera.
Novamente a ficção me pertencia… me pertence, entretanto, até o momento em que cansado rasgue suas páginas ou até a hora em que ela declare minha morte.
(Anderson Fonseca formou-se em Letras e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estácio de Sá (RJ). É escritor e crítico literário. Publicou os livros Alucinação (poesia, 2009) e Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011), organiza a antologia Veredas: Caminhos do Conto Contemporâneo Brasileiro (Ed. Oito e Meio, 2013). Editou a revista Confraria (Brasil / Portugal, edição impressa, 2009, Ed. Confraria do Vento); editor do selo Orpheu (2010-2012), selo de poesias editado em parceria com a editora Multifoco (RJ). Tem textos publicados em diversas revistas. Trabalha como leitor crítico e revisor de editoras e agências literárias)
O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.
É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.
É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.
Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.
***
MEA CULPA OU PROFISSÃO DE FÉ
Ao poeta Francisco Carvalho
Semear poeiras e andrajos de esperas
dissecar os ossos das metáforas
acender espantalhos no amarelo das espigas.
Decantar o silêncio que sustenta o cais
ostentar um colar de metonímias
despir a voz da louca, cuja febre anuncia
um evangelho apócrifo.
Caminhar sob pedras como por milagre
ouvir a foz rouca dos rios da infância
borrifar no azul as flores do arco-íris.
Pintar um verão vazio de andorinhas
se encharcar de sol e devaneios
hastear um lenço sujo de saudade
ajustar os ponteiros na cópula dos pardais.
***
INVENTÁRIO
O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.
Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.
E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão
de berço.
***
TEMPO DESCARRILHADO
Ao poeta Mário Gomes
Esses olhos que a terra não deseja
hão de comer a vastidão da terra
plantar no solo o sêmen de seus rastros
cravar na pedra o seu punhal de febre,
sonho pleno de pedra.
As algemas de sangue, solidão e medo;
o luminoso terror noturno…
Há tragédia em cada ato
no tempo descarrilhado
e um gosto de eternidade.
(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia)
LUIZA BRINA E O LIQUIDIFICADOR – A TOADA VEM É PELO VENTO
A grande metáfora que suscita o valor da impermanência das águas é substancial alimento de muita coisa em matéria de arte. Assim como não é possível banhar-se duas vezes numa mesma porção aquática, muita coisa escapa ao controle dos sentidos num átimo de nossos lampejos pela vida. O que seria de nós se tudo fosse absolutamente fixo em todas as suas formas e proporções? Como curvarmo-nos frente à ciranda viciosa dos determinismos que nos soam muito mais como armadilhas do que qualquer outra coisa?
Desejosa mesmo seria a perenidade de saborearmos o sublime e toda a surpreendente força que brota de sua delicadeza. E quanto a nós, cabe bem entregarmo-nos ao fluxo constante das marés que assinalam o tempo das transformações. Ainda que típicas incertezas se façam companheiras dessa jornada, viver traduz-se por um mergulho atento ao presente.
Tudo principia no mar: eis uma definição especial para o disco de Luiza Brina. Juntamente com a banda O Liquidificador, a artista nos apresenta um álbum repleto de signos os quais evocam as imagens que correm paralelas ao dinamismo das águas. É uma verdadeira viagem pelas dimensões sensíveis tão peculiares aos olhares poéticos sobre a vida. De modo marcantemente autoral, Luiza penetra nas veredas dos dias, visitando os vestígios e povoando de esperanças e serenidade a existência. O resultado aponta para uma reunião de canções que primam pelo lirismo e cujo teor das letras reflete um vigoroso arremate filosófico.
A toada vem é pelo vento é um trabalho feito de arranjos e cuidados melódicos que não passam despercebidos. Há de um tudo no disco, principalmente estilos como o maracatu, salsa e boi, entre outros mais. Sem dúvida alguma, o aporte vocal tanto de Luiza quanto do coro da turma de O Liquidificador tornam as escutas bastante atraentes. A acertada reunião de violoncelo, sopros, percussão e violão constrói um painel que reforça um especial sentido de brasilidade ao disco.
Luiza Brina e O Liquidificador / Foto: Divulgação
Entre as faixas que roubam a cena, está a bela e intensa Catamarã, canção que situa a voz de Luiza numa ambientação precisa e forte. Ali, a letra harmoniza o denso contraste entre mar e sertão, exaltando um equilíbrio possível entre forças que se opõem por natureza. No jogo de palavras, o “tão” do ser explicita as distâncias entre dois mundos supostamente improváveis de conciliação, evocando momentos como na passagem “O meu violão é Dorival / o dele é obrigação”.
Também não há como deixar passar a presença extremamente virtuosa de Back in Bahia, desejoso retorno a uma terra idealizada, e que aqui aparece materializado numa vontade sublime de ouvir o canto de Maria Bethânia. Diga-se de passagem, o título da música deixa entrever as sensações advindas da homônima composição de Gilberto Gil quando do seu desterro em Londres. No entanto, essa valiosa referência não retira a originalidade da letra escrita pela jovem compositora. Atravessando a canção, eis que um disco de Gil irrompe ao fundo, entrecortado por um liquidificador, retrato de sentimentos misturados, uma alusão a um baú de lembranças, abrigando a procura serena e nostálgica de uma Pasárgada cuja musa é Bethânia. Em meio a isso tudo, a voz de Luiza penetra nos ouvidos como uma espécie de acalanto.
E tudo também se prolonga no mar, esse colossal reservatório de sentimentos, que, aos olhos de muitos, abriga o desejo do infindável. Assim, somos conduzidos pelo balançar de águas. Assim, Luiza Brina e seus companheiros de existência nos relembram os caminhos que vão e vem, exaltando a sede do inominável, esse deus que habita todas as dúvidas.
A NOITE EM QUE UM ANIMAL FABULOSO RENASCE NO NINHO DE TUAS MÃOS
Imagem: Floriano Martins
As tuas mãos tateando verbetes em minha pele.
Descobrindo onde dormia o verão. Despertando um balé profano em minhas vértebras. …Anunciando um beijo a cada sensação de desmaio.
As tuas mãos são o meu gerúndio preferido.
À noite escuto apenas o rumor das ondas de meu mar interior.
E uma voz que reconheço ser minha deslacra outro abismo com sua gramática imprecisa: …Eu sou tua, você me roubou, seu diabo!
Os meus mamilos se multiplicam e desarvoram a paisagem salpicada de lábios.
A sombra de tuas mãos imersa em minhas águas primordiais simula a dissolução de …tudo quanto fui.
Eu me recupero em tuas nascentes. Como semelhante de teus sonhos.
E não vim nem mesmo para ficar. Tu me revelas a descrição de uma lenda esquecida.
Decerto a ela retornarei.
***
RELATO DUVIDOSO DO QUE SE PASSOU CERTO DIA DO QUAL NINGUÉM RECORDA UMA SÓ PALAVRA
Imagem: Floriano Martins
A história foi toda escrita ao contrário.
Só assim resultaria permanentemente desacreditada.
O tempo se arrasta como um símbolo perdido.
Um pássaro aplicado à linguagem tentando descobrir uma função para o excesso de …aspas.
Púlpitos são comprados em brechós.
A memória jamais deixou de ser abundante e perversa, como uma escada largada na …garagem.
Aos que não vivem sem um oráculo, consultem a escada, consultem os brechós.
Há uma longa distância a atravessar entre o que vemos e o que não conseguimos tocar.
Querem mesmo saber o que houve naquele dia?
Tudo parecia despertar deslizando na matéria de nossa percepção.
As dádivas da perda se associando às lágrimas como um dragão dominado pela …assimilação demoníaca.
Como nunca, eu desejei ser o abismo do mundo.
O que vi foi a minha filha expirada em mim, a minha vida tomada como uma alusão …volátil, um rio de sangue e mais nada.
A eternidade nunca faz parte da cena.
A vida mói o espírito, o princípio e até mesmo os anjos não adaptados.
Eu teria me desfeito em sangue por ela.
Deus algum saberá até onde eu fui.
Nem importará sabê-lo, pois não importa o mais implacável de todos os destinos.
A minha filha se foi dentro de mim, consagrada ao vazio como uma espécie perdida.
Os dias felizes são tangíveis.
***
O ENIGMÁTICO SONHO DE ROSALÍA DE CASTRO NO ALPENDRE DE SUA CASA EM TEMPOS VERDES
Imagem: Floriano Martins
Parte do que fomos jamais conheceu uma outra versão de nossos abismos.
A noite percorria com inquieta intimidade um labirinto de sonhos que teimávamos em …decifrar.
Uns pássaros rascunhavam na escuridão a imaginária linha do horizonte,
até que o calor de teus lábios testemunhasse nossos corpos reescrevendo suas formas.
Atrás de uma pequena coluna, cada abraço parecia abranger um mistério propício.
Apenas o teu sonho colecionava metáforas entre satisfeitos gemidos.
Tudo isto quando o alpendre da casa recortava teu sorriso e com ele compunha uma …trilha de inquietudes, teu olhar finalmente decidido a incendiar-me as miragens.
Metade de teu corpo ficou presa na cama em que nos encontrávamos.
Eu nunca pude entender como voltávamos um para o outro e recomeçávamos a partir do …que havia sobrado da noite anterior.
A outra metade acumulando sombras antes que o sol desaparecesse.
(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os seus livros mais recentes, se encontram “Autobiografia de um truque” (2010) e “Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))
“Pharmakon, o amor é pharmakon.” Assim se apresentou à garota e à sua lata vazia de cerveja. A garota não era bonita ou feia, gorda ou magra, mas se fechava em uma indefinível vontade quando conduzia a lata de cerveja à boca, o que de imediato o conquistara. Percebera-a no intervalo breve entre o quarto e quinto gole longo de vodka. Ela bebia-se sozinha no canto mais escuro do bar, meio em pé, meio apoiada na parede. Os quadris se sustentavam largos demais se comparados ao resto, tão estreito.
— Pharmakon, o amor é pharmakon. — continuou, com uma pronúncia desastrada.
Ela não sabia grego, achou-o inteligente. Ele conhecia apenas aquela palavra, com a qual se bastava, porquanto o encerrava em remédio e veneno.
— Pois é, é pharmakon — se insistiu, a se ajeitar no tom de voz mais inteligente, acreditava — É veneno, ao mesmo tempo que é remédio. É remédio, ao mesmo tempo que é veneno.
Por fim, ela emitiu algum som:
— Que bonito. De quem é?
— Henrique Almeida. Prazer. E você, qual é sua graça?
— Eu, ah, Helena.
— De Troia?
Ela riu, com a certeza de que conversava com alguém inteligente, ou ao menos, não tão estúpido. Procurou se acertar nas palavras do outro:
— Apenas Helena. Henrique, hum, hum, bonito nome. — inclinou a cabeça e arregalou os olhos e o sorriso — Mas não concordo.
— Com o quê?
— Que amor é isso aí que você disse. Como é que é mesmo? Farma… farma…
— Pharmakon — atropelou.
— Isso. Pharmakon.
— E o que é amor pra você?
— Ah, é… Hum…é. — tremeu o lábio superior com um suspiro involuntário — Ora, sei lá eu o que é amor pra mim. Só sei que é bom, que é puro. Imagina só, veneno, tá bom, então. — balançou os ombros e jogou longe a latinha vazia. Voltou-se a si e ao seu amor puro. — Só sei que falta amor no mundo, isso sim. As pessoas já não amam mais. Acham que amam. Mas o amor é puro. — cruzou os braços. — e bom. — se completou, feliz com a definição exata do que não se sabia se definir.
— As pessoas precisam amar mais, isso sim. Daí sim, o mundo seria outro. — completou-se, já boa e pura.
— Sinceramente. Não entendo essa mania de querer sublimar o amor. O amor é bom e ruim. Como o homem, bom e ruim.
— Não. Não concordo. — riu nervosa. — O amor é bem melhor do que o homem.
— Como algo sentido pelo homem pode ser melhor que ele? Não. Não. Você está errada. Não dá pra achar que o que sentimos é melhor do que nós. Somos bons e ruins, ambíguos na maioria das vezes, exatamente iguais ao que sentimos. — respirou apressado, vitorioso pelo argumento perspicaz dito assim, tão displicente, em um bar ordinário. — Essa mania de querer sublimar o amor. Não entendo. — se repetiu na frase de efeito.
Os dois se desentendiam. Não sentiam o mesmo amor. Ela se apoiou no quadril largo, enquanto ele retornou ao sexto gole da vodka. Pouco se ouvia do silêncio de ambos, preenchido por fragmentos de conversas e risadas entrecortadas. Por fim, ela arriscou:
— Mas … e o amor de mãe? Quer coisa mais sublime do que amor de mãe?
— Minha mãe me expulsou de casa quando tinha quinze anos, por causa do meu padrasto, que não gostava de mim. Isso por acaso é amor sublime?
— Tá bom. Tá bom. Você venceu. O amor também é veneno. — já não aguentava aquela discussão. Tampouco o suportava. Algo nele a lembrava de que também não era pura. Nem boa. — Vou comprar mais cerveja. — tentou se esquivar.
— Permita-me pagar uma pra você. Faço questão. — persistiu o outro.
Andavam os dois lado a lado, olhos apontados para frente ou para o chão. Mais afoito, ele desafiou:
— Você nunca sofreu por amor, acertei?
— Como? – ela se assustou
— Você. É muito inocente, acho que nunca sofreu. — voltou os olhos para o chão.
Ela quis lhe dizer que se casara aos dezoito anos. Mas se o fizesse, também teria que revelar que já era viúva, aos vinte e três. Preferiu concordar, com o corpo solto, que não, nunca sofrera.
— Sabia! Um dia, Helena, você ainda vai concordar realmente comigo. Ainda vai descobrir que o amor é pharmakon. E vai se lembrar de mim. — encheu as últimas palavras de ar e de orgulho, um orgulho quase débil.
Chegaram ao balcão, mais cansados. Ele virou-se ao amontoado de pessoas em frente ao balcão e imiscui-se nos muitos braços estendidos com a comanda na mão. Ela se largou no único banco vago que encontrara próximo a eles. Cruzou as pernas, mais contrariada. Não queria cerveja ou qualquer outra discussão idiota sobre o amor. O que sabia ele do amor, afinal? Que chato! Mas ela não poderia lhe falar do sofrimento. O chato não estaria pronto. Ninguém estaria pronto para ouvir o que ela ocultava sob o movimento largo dos quadris. Se bem que, lá no fundo, ela desejava desvendar seu segredo ao chato. Queria ver sua cara quando lhe dissesse tudo. Como queria! Seria divertido vê-lo prostrado ao saber que ela já sofrera de amor sim senhor. Que já amara o homem mais bonito que alguém pode conhecer. Que já largara tudo por causa deste homem. Rangeu os dentes de raiva. Um homem tão bonito. Como se permitia ser tão bonito? pensou, enquanto aguardava sem vontade a cerveja e o chato servidos pela mesma mão. A raiva atingia algum ponto entre o peito e o ventre. Imaginou a cara do chato quando soubesse de tudo e soltou um ruído baixo. Continuaria o chato a ser inteligente se soubesse que ela, naquela noite, ferveu a água? Sim, que ela, naquela noite, deixou que a água quase evaporasse de tão quente e a jogou no ouvido dele, sem que ele tivesse tempo a pedir perdão. Não, palavra grega nenhuma definiria aquela noite como ela o definira repetidas vezes a si mesma. O que pensaria o chato se soubesse de tudo?
— Sua cerveja! Está bem? Parece tensa.
— Meu corpo está um pouco dolorido hoje. Mas vai passar. — segurou a lata gelada pelo guardanapo que aos poucos se esfarelava e tartamudeou — Tenho uma coisa pra te perguntar.
— Todo ouvidos.
— É verdade aquela história da sua mãe e do padrasto?
Ele engasgou-se constrangido e segredou, quase mudo:
— Não.
(Vera Helena Saad Rossi é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutoranda em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Venceu o concurso de contos SESC On-line 1997 e foi finalista, com o romance “Estamos todos bem”, do IV Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Recentemente, publicou o livro de contos “Mind the gap” (Editora Patuá))
Ser capaz de colher,
na árvore de Mallarmé,
um punhado de sementes,
transformá-las em estrelas negras
e compor uma constelação
sobre o céu branco do papel.
Entre o barulho e o ……………………….silêncio
Deixar o vento amalgamado
num móbile ……..da ………..sala ……….de ………….estar.
II
Nesta mesma escrivaninha,
um texto por encomenda:
angústia.
Prazo, quase findo,
lugar marcado,
papel em branco.
Um amigo, ao telefone,
questiona a validade,
a importância das
digitais sobre o teclado.
Mais uma gota de suor,
mais uma xícara de chá amargo,
mais litros e litros
de vazio até a escuridão entrar pela janela.
E, mais, uma vez,
adio a primeira linha
para o dia seguinte.
III
de pronto dilata-se …….. minha ideia
e me faz maior
que o universo
então tudo se aquieta …….. em mim
estrelas ……………..soar de sinos …….. fundos mares
verbos de outras
terras ……………..virgens
são minha alma
sob o manto enviesado
a empreender mantras
tudo absolutamente tudo
em minha poesia
ou em mim
quiçá até o inexistente
o que equivale dizer
que é ela também o nada
para além do que se sente
minha poesia é um desmentido …….. em jornais de folhas rotas ………………guardanapos nos bares da esquina
é quase tudo
inda
é muito
porque é arte de tudo dizer com o mínimo possível
é o limite entre os sons e os completamente silentes
para o resto ela é só uma porção de dúvida
diante da certeza dos que se pensam contentes
IV
Muito antes deste poema,
fui forçado a escrever o meu braço,
sustento de mãos, colegiado de dedos e sonos.
Muito antes deste poema
a saliva estava para teu corpo
assim como o rio está para o barco
ou para o cão a observar o seu curso.
Jamais entenderás a solidez
de minha primeira água.
Ainda não liquidada,
a energia devorou
meus dedos de escuridão,
abismo, ausência.
Foi esse então o primeiro facho.
(Natural de Maracás, Bahia, Vitor Nascimento Sá é gestor escolar, revisor e professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, licenciado em Letras pela UESB em Jequié e mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. É diretor e cofundador da Associação Grupo Concriz: Poetas, Recitadores e Afins. Tem textos publicados nas revistas Verbo21 (BA), Blecaute (PB), Correio das Artes (PB), Cronópios (SP) e Laboratório de Poéticas (SP). Participa da antologia Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (2011))
“Se metade do meu coração
está aqui, Doutor, a outra
metade está na China com
o exército que flui em
direção ao Rio Amarelo.”
Angina Pectoris – Nazim
Hikmet
Corações de Silício – pulsam nessa percepção para além de Bits e Quarks baterias de Volts impessoais. Tragamos com a retina fontes que pulsam em HD`s e nuvens abrangidas de paradigmas de programação. Crias frankstenianas escoradas por mesas inertes e contraditoriamente giratórias. A comunicação visual é acelerada por meio de janelas cravadas em caixas quadradas ou slim. Redes sociais velam a vigília de uma Legião – superação das elites humanas à parábola do Nazareno (expansão universal dentro do buraco da agulha).
Corações …de… Silício – conservar a
humanidade. é questão relativa e anexa às
HQs e heróis 3D ou de poliuretano. Anos
de ..petições e .exercícios de altruísmo de
calendário .… Afinidades com Karmas e
Dharmas e expansão mental editada pela
engenharia …genética. Arte adaptada aos
pixels, .. ferramentas … comprimidas
no winrar. .– ..foice e martelo in Botons e
Cartões de Crédito.……………………………….
Corações de Silício – coletivo iluminado por telas de signos édenizados – biblioteca de Alexandria abrigada no cisco de uma nano-unha e frequentada diariamente por cyberbactérias. A promoção do eu-anódino em seus quinze minutos de infâmia. Estímulos assexuados e eunucos – precipita a ação e condena o corpo à condição uniforme.
Corações de Silício – nata do Oriente
navegando em mares ocidentais.
Feminino e Masculino habitando o
andrógino e as universais idades.
Sais antidepressivos, antimaníacos,
antikarmicos. Ornitóptero de pedra
colado, limitado pelo seu pulso
potencial e temível. Crianças-fuhrer
cortejando bestas apocalípticas. Deus
Capital venerado em seus templos-
shoppings (na santa missa de
domingo).
Corações de Silício – carcaça altíssima na piramide vida-matéria – conduz fluxos aos retos orifícios e vias chupadas pela yankeeannélide. Arranca a estrutura Animaanimal e libera a energia nas cavidades interiores. Pneuma despertada ao campo fonte – voltagem exata e evoluente em software original.
Corações de Silício – autogestão
bakuniana e desmistificação do criador e
do patriota. Bomba e bombeador
detectados no silêncio que medita a
clarividência e os intentos de uma
humanidade criativa e com License
Commons – capaz de compartilhar o seu
melhor sem apontar seus cielos ou cercas.
Cor e ações em uma orbe policristalina tingida de silíca e mitos.
***
A Queda
Embrutecida pela solidão não consegue retribuir as rosas deixadas no seu caminho. Alguém surge de mansinho e perfura o seu coração com notícias trêmulas e catastróficas. Caída afasta a única corda de esperança – não anseia elevação e muito menos últimas chances. Abraçada ao chão sorri expondo os dentes maltratados de tanto roer ossos. Imagina um 3×4 tirado ali e se envaidece “experiência de fundo do poço deveria constar em qualquer curriculum vitae”.
***
Angelus Blasé
Frito reminiscências temperadas com sais de tortura. Cavei as mãos para despejar sucos de minha filantropia. Deguste e sorva nossa carne sem essa face acinzentada por transes, escute os ditados, escreva-os e depois os guarde em um arquivo antes que a espada de significações recorte sua imaginação e a ofereça aos pássaros carniceiros da Manufatura. Representamos uma espécie sem roupagem: demônios doces e poliglotas, leitores de clássicos e amantes de uma audaciosa revolução. Caçamos qualquer um que se maquia de vítima ou simplesmente se apropria da sombra alheia – caçamos para formar alianças e não para ao ato de eliminação (que fique claro antes mesmo de mantermos um grau de compreensão mútua entre o leitor e o que se lê). Existem tantas metáforas que nos colorem como o lado sombrio da humanidade que já não podemos nos abrigar na nossa naturalidade blasé – agora somos luminosos homens de branco, esboçadores de alegres fisionomias e praticantes do altruísmo de calendário (com hora e data marcada).
Observação: É só assinar na última linha e depois chuviscar um pouco do seu vermelho.
(Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e atualmente é colunista na Revista Ellenismos)