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79ª Leva - 05/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Uma orquestração de coisas rege todos os instantes. E tudo vai se moldando aos dias, erguendo cenários, tingindo com tons difusos cada lugar que se acredita possível. Mas a força maior talvez esteja naquilo que não conseguimos vislumbrar de imediato, ao que corre paralelo à passagem meramente visível do tempo e das situações. Enxergar nos ambientes menos usuais não é privilégio apenas de quem produz arte sob suas mais variadas formas. O leitor de diversos suportes possui a capacidade de intentar janelas de observação e, com isso, interagir com as obras. Não se trata de um comportamento apenas passivo, como quem olha e internaliza sentidos, mas sim o de alguém que efetivamente pode ser ator do processo. Em lugar de guardar o produto de seus olhares nos recônditos mais íntimos de sua individualidade, o amante das artes também se torna um criador na medida em que desenvolve mecanismos próprios de interpretação e, quiçá, certa dose de intervenção. No entanto, a obra é aberta, mas não escancarada, já disse alguém. O receptor tem a faculdade de redimensionar palavras ou imagens segundo, bem sabemos, suas expectativas e repertório pessoais. Por outro lado, é também interessante perceber o quanto de cumplicidade se opera entre criadores e leitores quando do ambiente de aproximações gerados pela leitura. E é comungando desse pensamento que as aparições poéticas de autores como Virgínia do Carmo, Demetrios Galvão, Stefanni Marion, Fabiana Turci e Ronaldo Cagiano geram espaços de um especial compartilhar lírico.  Assim também o é com os contos de Andréia Carvalho, Jacques Fux e Yara Camillo, todos eles a trafegar intensamente pelas vias de nossas humanas idades. O escritor Sérgio Tavares nos convida à leitura do belo e denso “Carta a D.”, romance de André Gorz. Nosso sabatinado da vez é o poeta Heitor Brasileiro Filho, que além de falar sobre seu novo livro, reflete sobre valiosas questões do universo literário. As escutas de Larissa Mendes apontam para o disco de estreia de Clarice Falcão. No caderno de teatro, Augusto Cavalcanti presta um singelo tributo ao dramaturgo Nelson Rodrigues. O filme dinamarquês “A Caça” é tema das percepções de Guilherme Preger. Entre os verbos desta edição, reinam delicados e sublimes os desenhos de Bárbara Damas, devidamente apresentados pelos olhares de Carla Diacov. É a você, caro leitor, a quem destinamos esses novos percursos. Boas leituras!

 

Os Leveiros

 

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79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Stefanni Marion

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

consolidação

 

o balouçar dos tempos está rangendo
o escárnio surgindo frio pela manhã
dentre vogais que se misturam
nasce a doçura rasgando ingênua.
armadura ginasial nunca polida
dentre dissipados olhares se abrilhantam
sem rumo levando ao descobrimento
degelando essas sensações estupefatas
numa consolidação platônica dominante.

se eu tivesse um sonho
ele seria o pesadelo.
moeda em cobre fundido
no fundo da bolsa
nunca trouxe sorte.
se eu tivesse um pesadelo
um dia seria sonho.

 

 

***

 

 

entre minhas frestas

 

um tanto irritante
deitou-se no tapete da sala
sorvendo o cheiro da geladeira
precisando de limpeza.

um tanto amável
acendeu as velas
iluminando os poros
em meu corpo ácido.

um tanto irritante
reclamou das manchas
negras e antigas
no fundo da banheira.

sol nascente
um oriente
plantado feito arroz desnudo,
ficou irritando e doendo por dias,
guardado entre meus dentes
feito massinhas mastigadas
de bolachas japonesas.

 

 

***

 

 

flamejante

 

o início perde o rumo
quando lanço chamas
nesse abismo inflamado
em devaneios bucólicos
flamejantes feito ritos
sarcásticos esmorecendo
gota a gota no quintal.

o nariz?
o que é o nariz?
– sentença em riste
buscando amadurecimento.

 

 

***

 

 

temporário

 

os trilhos da cidade esperam
minha cheia sangria.
às sete da manhã
vem o primeiro trem
e sua sonora carga amarela
invade as ruas do arpoador.
desaparece nos trilhos,
evade meu pranto sem crenças
e volto pra vida com cheiro de morte
temporário.

 

 

***

 

 

sóbrio

 

arfar e sentir o drama inveterado
gota a gota retratando as lágrimas
sóbrias nessa madrugada mnemônica.
não nasci ou amadureci neste nevoeiro
entre discos e canções dos bandoleiros,
odeias tudo em mim e não sentes nada?
sem sol, lua ou cartolinas recortadas
para meus primeiros trabalhos escolares.
nessas madrugadas apenas vício e chamas
me afastam e não sou parte dos seus sonhos.
desconexo nessas pequenas noções de vida
sôfrega voltando a destruir tudo outra vez.
pai, não há mais lamparinas nos cômodos:
sou seu sexo violento sem revide,
a placenta que caiu e não alimentou
em seu nome e do filho que se fez.

 

 

(Stefanni Marion nasceu em 1981, no dia do aniversário de sua mãe e no meio do caminho entre cidades do litoral sul de São Paulo. Já se envolveu com teatro, cinema, curadoria artística, mas acabou rendendo-se ao encantamento pelos livros e graduando-se em Biblioteconomia. “Temporário” (Editora Patuá) é seu primeiro livro de poemas)

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

O duplo (ou sentimentos epistolares)

Por Sérgio Tavares

 

 

É um tanto incoerente imaginar um ícone, um ser galvanizado na galeria das figuras absolutas, demonstrar admiração velada por outrem, um sentimento inferior. Em 1922, já consagrado criador da psicanálise e próximo ao fim da vida, Sigmund Freud faz uma confissão. Em carta, ele afirma ao destinatário que, por muitos anos, o havia evitado, pois o tomava, com admiração e temor, como o seu duplo. Alguém com quem se ligava emocionalmente, através de uma estranha familiaridade com o seu pensamento, capaz de, sob uma superfície poética, equiparar-se aos mesmos interesses e conclusões que o médico reconhecia como seus. Mas quem seria a pessoa a quem Freud atribuía um poder tão equivalente ao seu monumental trabalho na interpretação do inconsciente? Quem seria esse doppelgänger emocional?

O duplo de Freud é o novelista, poeta, ensaísta e contista Arthur Schinitzler, cujo romance Crônica de uma Vida de Mulher, detidamente lançado no Brasil, é o que mais se aproxima dos pensamentos do médico vienense no campo das ciências. Usando de uma análise da empatia como forma de autoconhecimento, o livro traz as desventuras de Therese, uma mulher que, impulsionada por seus desejos, combate as barreiras sociais e morais de uma Viena corrompida e decadente, pós-Primeira Guerra Mundial.

A obra, ambivalente no sentido de tanto denunciar a hipocrisia social e seus atores escondidos em máscaras quanto a suposta harmonia defendida pelo império Austro-Húngaro, constitui-se de conceitos que alicerçavam a nova ciência de Freud. Para ambos, a força dos impulsos sexuais e do determinismo psíquico é maior do que uma sociedade, composta por homens e mulheres fiéis à aparência social e a casamentos de fachada, escamoteando situações de ruínas financeira e familiar, desespero e repressões aos desejos e às mulheres. Explorar as verdades do inconsciente e desmontar as convenções sociais urdem a interligação entre os autores.

Numa entrevista, em 1927, Schinitzler atribui a qualidade de duplo, conferida a ele por Freud, à capacidade de ambos olharem através da janela da alma. Porém o que, de fato, qualifica uma pessoa como o duplo da outra? No caso dos vienenses, como constata a psicanalista Noemi Moritz Kon, em Freud e Seu Duplo Reflexões entre Psicanálise e Arte, a identificação deu-se, exatamente, por serem filhos de uma mesma origem e dotarem de uma construção pessoal parecida; ambos judeus, médicos de formação familiar e assombrados pela morte do pai. Magnetizado pela singularidade, o duplo é um ser único, com o qual nos identificamos pelos mesmos gostos, mesmos conceitos intelectuais e morais, mesmas verdades. O duplo é um espelho circunstancial. Alguém que possivelmente nunca encontrará, passará a vida ou alguns dias, mas impossível de se esquecer. Um elo de sentimentos-cúmplices, senão o amor, o verdadeiro.

De maneira geral, o duplo distingue-se pela soma, enquanto o amor condiciona a perda. No conto The End, do volume Os Lados do Círculo, o escritor Amílcar Bettega Barbosa diz o amor como “um sentimento que predispõe alguém a desejar o outro com um grau de intensidade muito maior do que a sua capacidade de oferecer”. O amor é variável para a composição da literatura universal. De Romeu e Julieta, de Shakespeare, ao Primeiro Amor, Samuel Beckett, sua interpretação é o veio de todos os grandes escritores. Nessa tessitura de comunhões e alijamentos, o romance epistolar Carta a D. – Uma História de Amor é, possivelmente, o mais pungente texto sobre o sentimento. Escrito pelo filósofo e jornalista André Gorz, o livro é a mais fiel (e comovente) comprovação de que o verdadeiro amor é eterno.

Notório por sua influência intelectual e atuação política, sobretudo em maio de 68, na França, Gorz se destitui das retóricas sociais para compor uma carta-catarse a Dorine, com quem partilhou a vida por 58 anos. O livro se inicia com ambos velhos (e ela muito doente) e uma declaração das mais belas: “Você está prestes a fazer oitenta e dois anos (…) Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e a amo mais do que nunca”. A partir daí, o autor reconstitui o seu amor para compreender o significado de sua vida, discorrendo dos momentos que antecederam e levaram ao encontro, sobretudo pela imprevisibilidade: ele, um judeu sem um tostão; ela, uma burguesa cercada de amigos ilustres, tal qual o pensador e filósofo Jean-Paul Sartre.

 

André Gorz e Dorine / Foto: Suzi Pillet – Ed. Galilée

 

A veracidade do amor está em instantes em que Gorz afirma que “foram feitos para se entender”. Os conflitos e superações de adversidades expõem a sinceridade do sentimento, em especial na lucidez de compreenderem que a longevidade da relação depende de renúncia, tolerância e gratidão. O reconhecimento da essencialidade de Dorine na sua vida permite a Gorz construir uma homenagem das mais comoventes. Num dos momentos mais aflitivos, o autor narra a dificuldade de se tornar escritor, passando por noites insones, imerso em solidão. Quando, num momento de clareza, aproxima-se da esposa para se desculpar, ela o responde com toda a ciência de quem só será feliz se o outro assim o for: “Sua vida é escrever; então escreva”.

Carta a D. revela que o verdadeiro amor está no simples fato da pessoa existir. E, quando deixa de existir, é insuportável. Durante anos, devido a um erro médico, Dorine sofreu com uma doença degenerativa que lhe causava dores insuportáveis. Gorz sofreu, e sempre buscou a cura, ao seu lado. Em 22 de setembro de 2007, ambos se suicidaram. Contudo, ao se chegar ao final do livro, é impossível não ter certeza de que foi um ato de amor.

Em linhas gerais, talvez seja essa a distinção entre o duplo e o amor. Ou, visto pelo pacto entre Gorz e Dorine, talvez não haja distinção alguma. A definição mais concreta, afinal, pode estar na relação entre o ensaísta francês Montaigne e o filósofo La Boétie. Certa feita, ao reler um texto e pensar no motivo da amizade entre ambos, Montaigne escreveu: “Porque era ele”. Alguns anos depois, numa nova releitura, acrescentou: “Porque era eu”.

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente)

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Jacques Fux

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

A Jewish blind date : o fracasso


O primeiro encontro às escuras (que na verdade foi muito às claras!) está bem descrito nas páginas iniciais do livro inaugural. Adão, até então sozinho e incompleto, pede a Deus uma companheira para preencher seu próprio vazio no Paraíso. Deus, que também vivia eternamente isolado, embora fontes apócrifas discordem desse fato ao referenciar Lilith como a ex-mulher renegada do Divino, resolveu atender ao pedido primordial. Nunca saberemos se Eva passou por algum crivo, se foi avaliada e aprovada por alguma família, e se os amigos e parentes foram com a cara e as vergonhas dela. O que sabemos é que Adão conheceu Eva e teve que se encantar com ela no primeiro dos primeiros encontros que a humanidade, a literatura, e deidade conceberam. E como essa história rendeu frutos pecaminosos, herdeiros e muita ficção, podemos dizer que esse blind date foi um sucesso! Essa peripécia artística teatral moldou principalmente a sociedade judaica que, desde então, vem (des)unindo incontáveis almas cabalisticamente incompletas. E eu, membro fálico do pacto firmado entre Abraão e o Divino Matchmaker, não poderia ser diferente. Participei de muitos desses encontros às escuras.

Podemos perceber todos os dias como a sociedade evoluiu. Antes éramos macacos desnudos poligâmicos, segundo a ficção evolucionista não adotada aqui, e hoje, após um grande mal estar na cultura, nos tornamos seres relativamente capazes, parcialmente monogâmicos, livre de odores e fezes, buscando perpetuar e assegurar a longevidade do nosso gene através do folclórico casamento. Tudo mudou, exceto a forma judaica de lutar contra a assimilação: os encontros às escuras continuam a todo vapor, porém com o auxílio contemporâneo da tecnologia.

A network judaica é muito forte. Informações circulam constantemente entre mães histéricas, rabinos barbudos e velhotas desmemoriadas. Recentemente essa Rede detectou a minha solteirice. Após ter namorado anos com não judias, descobriram que estava disponível um macho alfa judeu. Recebi algumas indicações, recomendações, sugestões, declarações e intimações de diversas judias prontas para reprodução. Entrei em contato com várias, conheci muitas, relacionei-me por frações mínimas e copulatórias de tempo com algumas, mas que não foram um grande sucesso como o tal do encontro primordial bíblico. Estava quase desistindo de praticar essa antiga modalidade e com isso jogar por terra (como fazia Onam) a minha possibilidade de um casamento judeu, quando me indicaram uma carioca via Facebook.

Fiquei admirado com seu perfil. Magistrada com lindos olhos verdes, pele clara, corpo malhado e muitas histórias em comum. Assim como eu, ela tinha morado em Israel, participado de um movimento juvenil, tomado gosto pelas viagens desbravadoras e também tinha o sonho secreto de ter muitos descendentes judeuzinhos. Trocamos algumas mensagens virtuais, mas ela nunca esboçou grande empolgação em me conhecer. Explico: uma magistrada no Brasil, apesar de ser tão qualificada quanto muitos outros profissionais, recebe um salário que desmerece qualquer outra ocupação (exceto a dos políticos, corruptos e repugnantes) além de possuir poder e hierarquia social superiores. Eu, apesar de 100% judeu, resolvi me dedicar à arte, à literatura à contemplação da Beleza (resumindo: um grande vagabundo ao olhar utilitarista), coisa que atrai uma parcela muita pequena das mulheres. Porém, conhecendo todas as histórias e poemas de amor, não poderia deixar de tentar conquistá-la sem antes lutar titanicamente. Propus um encontro às claras que foi aceito sem muita exaltação.

Viajei. Viajei em todos os sentidos. Tive que tomar o avião em direção à sua cidade e imaginei idealmente o encontro. Os corpos e as almas, assim como os falaciosos emails, se encontrariam? Preencheríamos o nosso Éden com muitos descendentes melequentos judeus? Ela seria minha uma grande merchante de filhos e de arte? Marcamos o nosso rendez-vous em um barzinho boêmio do Rio de Janeiro. Repleto de pessoas, ninguém saberia que naquela mesa ocorreria mais um dos históricos e antigos encontros arranjados. Em busca da inspiração para minha poesia, cheguei ao local combinado. Ela, radiante com seu vestido verde, dava-me esperanças e prometia-me devaneios. Diante da possibilidade de deixar essa minha vida errante, errando e desperdiçando minhas muitas sementinhas, resolvi empenhar-me na tarefa masculina da conquista. Dispus todo meu arsenal poético, cultural e lúdico. Contei e cantei histórias, músicas, casos e acasos. Inventei e me convenci de encontros às escuras que deram certo e que prosperam por gerações e gerações até chegar naquela fatídica mesa de bar.

A magistrada mirava-me sem me admirar. Quando tinha uma oportunidade de voltar à vida real, contava-me sentenças e julgamentos realizados. Atrelava-se à praticidade e a utilidade de sua profissão. Atestava o valor e o lastro do dinheiro que poetas e sonhadores não possuíam. Tornava-se lentamente desinteressante, exceto pelos seus lindos olhos verdes e por sua desejosa bundinha. Os poetas, assim como os cegos, sabem ver na escuridão e imaginar as redondices drummondianas de sua divertida e saborosa nádega. Assim, sendo mais homem que poeta, mesmo sendo ela desinteressante e desinteressada, encantei-me com a possibilidade de possuir seu corpo adâmico.

Continuei tentando. A magistrada, após muito escutar, e com todo seu poder institucionalizado como renomada juíza e como mulher que escolhe se o primeiro encontro terminará na troca de líquidos, exclamou com muito desânimo: “Que legal. Você sabe um tanto de coisa inútil!”. Refleti bastante. Que declaração! Ela conseguiu resumir em algumas poucas palavras toda a questão artística, além de me eliminar de qualquer disputa pelo seu corpo e pelo seu coração. Resignei-me. Resignei-me em nome de todos os poetas, escritores, literatos e sonhadores. Recordei-me de Oscar Wilde: “all art is quite useless” e retomei a inutilidade das minhas palavras e ações.

Mais um dos muitos Jewish blind dates se realizou. Mais um dos muitos desencontros da vida. Mais uma história apócrifa dos casais que não se uniram. Se o primeiro encontro às escuras da humanidade, apadrinhado pelo Divino Matchmaker, foi um sucesso, o último, tendo eu como figurante e apadrinhado pela mulher do rabino, não teve êxito algum. Acho que vou recorrer à praticidade jurídica exigindo meus direitos como sonhador, poeta e judeu.

 

(Jacques Fux é Pesquisador Visitante na Universidade de Harvard. Doutor em Literatura Comparada pela UFMG e Docteur em Langue, Littérature et Civilisation Françaises pela Universidade de Lille 3. Autor dos livros Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (Tradição Planalto, 2011) e Antiterapias (Scriptum, 2012)

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79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Fabiana Turci

 

Desenho: Bárbara Damas

 

QUEDA

 

I.

te sonhei Dionísio
em teu abandono.
e te esperei,
lasciva,
por três ciclos lunares.
é a inteirez da tua presença,
quando me tomas,
que guarda o corpo
nos enquantos.
é esse estar
inteiramente
em mim mesma
e ainda assim alheada
que faz com que eu construa,
do meu corpo,
tua morada.

 

II.

e por te querer Dionísio
fiz-me templo
de chorar e louvar
loucura e grandeza.
os olhos, arrebatados,
não inventam:
é o peso de quem se fez
máscara e Deus
o que, ao corpo-casa,
retorna, refazendo-se.
por ti mesmo ocupas
desde o pequeno eu
ao universo meu ampliado,
entoando cantos de recusa
enquanto invades,
com tuas palavras,
o que as mãos do deus
já não tocam.

 

III.

te exigi Dionísio
em teu rigor.
meu ventre suplicando
fluxo, a por em curso
vento e águas.
da minha lucidez
fingi voo cego
abrindo campo para o mergulho,
de um outro azul, mais intestino.
fechava os olhos para os teus escuros
fazendo-me noite e esquecimento.
da tua dor, fui o gesto mesmo,
suspenso em teus extremos.
e dormi sobre a tua vergonha,
mesmo me querendo
sol e grito.
pensava-te assim,
inteiro,
descortinando o teu pior
entre a cama
e o ocultamento.

 

IV.

te percebia Dionísio
em cadências.
tu devolvias o olhar,
sendo.
e porque não te quis fixo,
modulavas existência,
passeavas sentimento,
em melodia densa e vivaz.
conheci fugas em
fragmentos escalares.
nos instantes, fomos
tempo
e contratempo.
do teu corpo, toquei
desníveis, falésias, falhas abertas
como se o próprio som
do terrível anjo.
do labirinto,
veio à tona
a tensão latente
e me percebi
versão pulsante
do teu tema.
queria ter sido uma nota
menor
entre a tônica e a dominante.
quem sabe o corte nas incumbências.

 

 

***

 

 

NOTURNO

 

o chão da casa range
os dentes da noite.
tábuas, esquadrias,
abrem frestas vagueando
vozes melancólicas: uma
composição. o vento
por trás das estantes
a folhear palavras
imprecisas ditas na mudez
dos toques. A noite
e suas bocas enormes.

o prédio respira o mesmo sono
dos bichos adormecidos
de humanidade. o céu caído
sobre o mundo, sem promessa.
e o mar distante ainda farfalha
o tempo, que progride como o som,
entre o que não se vê, até
amanhecermos.

 

(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura)

 

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79ª Leva - 05/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

A Caça (Jagten). Dinamarca. 2012.

 

 

Em seu Teses sobre o conto, o escritor Ricardo Piglia definiu o conto como a arte de contar pelo menos duas histórias. Há uma principal, narrada em primeiro plano, mas haveria sempre também uma segunda, narrada nos interstícios da primeira, qual uma história secreta. A arte do conto, para o escritor argentino, é a de narrar uma história enquanto se contar outra.

Esta estratégia narrativa de duas histórias funciona igualmente para a arte cinematográfica. Foi o mestre Hitchcock quem formulou o efeito McGuffin: o McGuffin é o argumento central em torno de qual gira a narrativa cinematográfica e pelo qual os personagens perseguem, mas que no final não representa nenhuma importância fundamental. O McGuffin não passa de um pretexto para que a ação cênica se desencadeie. Praticamente todos os filmes de Hitchcock seguem esta lógica, mas o caso mais exemplar é o de 39 Degraus: um segredo sussurrado ao protagonista no início do filme permanece obscuro durante toda a narrativa, composta das mais vertiginosas peripécias persecutórias, sem que ao final tal segredo seja revelado. Na verdade, ele foi esquecido devido à sua desimportância para o desenlace: era apenas um mero pretexto para que a ação acontecesse e o mocinho pudesse encontrar a mocinha…

Não foi Hitchcock quem inventou o efeito McGuffin, ele faz parte da própria técnica cinematográfica. Não é este o caso do recente filme A Caça (Jagten), de Thomas Vinterberg? Lucas, um professor de escola primária, é acusado injustamente de assédio sexual da menina Klara, de 5 anos, filha de seu melhor amigo e aluna da escola de uma pequena cidade no interior da Dinamarca. Com esta acusação, toda sua vida pessoal e carreira desabam tragicamente.

Aqui o fundamental é mostrar como a acusação é evidenciada pelo diretor como injusta, inequivocamente: a menina Klara desenvolve por seu professor um forte afeto. Num tempo livre de suas aulas, ela recorta um pequeno coração e o embrulha num envelope em forma de presente e, num gesto muito sutil, coloca-o no bolso do paletó de Lucas enquanto rapidamente o beija afetuosamente. Percebendo a situação, o professor lhe devolve o presente dizendo que ela deveria destiná-lo a um de seus coleguinhas de classe. Nessa mesma noite, decepcionada, a menina conta à Mestre da escola uma história ambígua na qual ela menciona que o professor teria lhe mostrado a sua “vara”, expressão que a menina aprendeu de seu irmão mais velho quando este estava assistindo pornografia na internet. O desenlace é inevitável: entre a palavra do professor e a palavra da menina, toda a escola, os colegas, a namorada e a cidade inteira dão crédito à história de Klara e, então, a vida de Lucas (vivido pelo ator Mads Mikkelsen, cujo desempenho extraordinário lhe valeu o prêmio de melhor ator em Cannes, 2012) torna-se um inferno. E este inferno assume a forma de um abismo descendente, por mais que a menina, posteriormente, desminta sua história como uma “bobagem”.

O lugar onde se desenvolve a trama é crucial nesse filme: uma pequena comunidade dinamarquesa cuja principal atividade de lazer é a caça de grandes animais como cervos e alces. No início do filme, homens tomam banhos nus num lago gelado e depois saem cantando para beberem juntos. Vinterberg nos mostra a caça, prática de onde tira o título do filme, como a atividade que dá sentido à vida da comunidade: a caça de grandes animais é a prática que irmana os habitantes e os une socialmente, incluindo o protagonista professor.

 

 

Aparentemente, A Caça é mais um filme que discute a questão contemporânea da histeria social da pedofilia: mais de 100 anos após a psicanálise defender que cada criança tem sexualidade própria, nada parece tão grave quanto o assédio ou o abuso sexual de crianças, que aos olhos sociais são portadores de uma imagem idealizada de ingenuidade, e tanto mais idealizada quanto maior a sensação de perda de inocência contraposta ao cinismo vivenciado pelos adultos da sociedade capitalista contemporânea. Nesse aspecto, a caracterização da pequena personagem Klara é extremamente pertinente: com seus 5 anos, ela vive a experiência precoce da descoberta do erotismo ao se apaixonar platonicamente por seu professor.  Sua mentira, causada por uma precisa “decepção amorosa”, é um expediente que prefigura a mulher que ela se tornará. E nisso, não devemos incluir também sua capacidade de reconhecer seu erro, como uma maturidade essencialmente adulta que se antecipa a de seu pai (mas não a de sua mãe…)?

Mas talvez a histeria social causada pelo possível caso de pedofilia seja o McGuffin do filme: na avançada Dinamarca, num vilarejo onde os problemas sociais parecem resolvidos, a prática anacrônica, mas legalizada, da caça de grandes animais permanece como uma espécie de “inconsciente” coletivo. Toda a estrutura do roteiro organiza-se na transformação do predador em presa.  Tal como seus amigos, Lucas é um bom caçador, mas encontra-se numa situação de fragilidade: recém-separado, disputa a guarda do filho adolescente com sua ex-mulher, e perdeu também seu posto de professor do secundário, tendo que se contentar com um trabalho numa escola primária. Assim, ele é um alvo fácil e a frágil acusação de que é vítima torna-se a chave para sua rápida mudança de status, de viril caçador para o de uma vítima indefesa e passiva (sua incapacidade de reagir ao receber as acusações está no limite entre a civilidade e a apatia). Por sua vez, com absoluta facilidade, todo o vilarejo muda de atitude em relação a um de seus estimados cidadãos e a perseguição com agressividade crescente a Lucas torna-se uma verdadeira caçada humana…

É como se aqui tivéssemos uma versão dinamarquesa de um dos temas caros ao mestre Hitchcock: o do “Homem errado”. O Homem errado é a versão existencialista do McGuffin: não importa o crime concreto de que ele é acusado, mas sim o fato de que na visão católica do pecado original, partilhada pelo mestre britânico, todos já são culpados “a priori” na sociedade, bastando um fato menor e casual para que um inocente seja eleito e a culpa social possa ser expiada. Assim, no filme dinamarquês, a má consciência em relação à caça expia-se numa reação de histeria anti-pedófila. Algumas passagens do filme reforçam essa ideia: o pequeno cão de estimação do protagonista é morto tal como um animal de caça e o próprio personagem é vítima de violência física desmedida. E o final do filme, que prossegue após o clímax e a pacificação do vilarejo, parece indicar justamente tal propósito, ao mostrar o ritual onde um adolescente de 16 anos recebe finalmente sua permissão de caça e ganha um rifle de presente: crianças podem ser indefesas e puras, mas sabem matar grandes animais…

Thomas Vinterberg é um dos fundadores do movimento Dogma junto com Lars Von Trier e A Caça é seu oitavo longa. Estão presentes nessa sua última obra algumas das características técnicas que marcaram o movimento: a presença da câmera digital levada à mão, acompanhando de perto a presença corpórea dos atores, com sua inconstância visual, e o uso predominante de luz natural. Tudo conduzido com uma grande mestria, como se tais recursos, outrora vanguardistas, tivessem se incorporado a uma linguagem comum cinematográfica contemporânea e o que era maneirismo estético pode ser visto agora em sua destreza quase clássica, emprestando notável realismo e verdade à narrativa.

O diretor dinamarquês acerta ao recusar fazer uma análise moralista do tema, seja em relação à pedofilia, seja em seu julgamento sobre a validade da legalização da caça de grandes animais. Interessa-se, antes, em mostrar as tensões e contradições de uma sociedade avançada, no alto de sua condição liberal de primeiro mundo, mas que ao mesmo tempo parece conviver com uma atividade que exige insensibilidade e isenção em relação à covardia. A tese das duas histórias de Piglia, ou do McGuffin do velho Hitchie, pode funcionar afinal como um desmascaro das relações hipócritas subliminares sociais que se justificam em torno de meros pretextos ideológicos. Ao sair do cinema, após assistir este filme, um casal comenta um com o outro: “ficamos sem saber se ele [o protagonista] era realmente culpado. O diretor não deixa isso claro”. Ou, em outras palavras, é preciso sempre encontrar uma boa presa para arcar com as nossas culpas…

 

 

(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de Capoeiragem (ed.7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro)

 

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79ª Leva - 05/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Yara Camillo

 

Desenho: Bárbara Damas

 

DONA MENINA

 

Penso que desde muito menina hei de ter tido um coração vermelho e até que faceiro, como as penas do tiê. Mas se pena é para o passarinho como realeza, comigo há de ser sempre em sinal de tristeza, de resto como para o resto das gentes em geral.

Beleza assim, de se ver, Deus não me deu. Um cabelo meio que ruim, cor de mijo em lençol de cambraia; um porte até que de esteio avantajado, porém cortado sem prumo nas linhas de brando e cumeeira — de modo que não combinou: nem gordura com gostosura, nem magreza com esbelteza. Mas hei de ter agradado alguns homens, assim mais por brincadeira do que por bem-querer de noiva, companheira. Tenho cá minhas prendas, que é saber um forró como quê, moquecar badejo com dendê, coser colcha de retalhos e bordado de qualquer ponto.

Mas, no fim, eu me pergunto do que é mesmo que adianta, quando não se tem para quem? Parece um ouro que nunca hei de gastar, por me faltar assim uma pessoa a quem fazer agrado. Riqueza sem porquê desgraça mais que miséria.

Mas choradeira é coisa que não presta, afora em hora certa, como no frio da morte, ou em avesso de grande alegria. No mais, xô égua.

Para tudo nesse mundo há de haver uma compensação, como por exemplo a de eu ser Madrinha de tanto menino-homem e menina-mulher nessa terra de Deus. Se não de batismo, que conto sessenta, ao menos e mais tenho um tanto de afilhados de sal, o que é também de tanta importância quanto os santos óleos lá do santo padre lá da santa igreja: dia desses, um franzino vai lá em casa, pede um copo d’água e eu, sem que ele veja, entrouxo uma pitada de sal. O bichinho bebe, diz:

– Vôte!

Eu me rio de entortar a cabeça de lado, ele um pouco se amofina e desata a rir também. Pronto que virei madrinha, Madrinha de Sal; o menino pede bênção e eu: Deus te abençoe. Mais um. Mais um moleque para eu confeitar bolo, ensinar conta das quatro operações, acudir na hora da precisão, dar pancada – levinha – quando na malcriadez e, no caso de pai e mãe faltar, virar cria minha, que eu gosto de criança, demais.

A bem dizer, eu andei sendo uma virgem muito velhinha nessa minha vila, até que um dia retei: se cada gente mulher foi feita com fechadura, é pois porque cada homem nasceu com uma chave, que só serve mesmo numa portinha. Que Deus fez assim, eu acho, mas é um modo de falar, só para o meu entender.

Eu assuntava e desassuntava, sentada numa cadeira, espiando a janela, que devia de existir um amor meu andando por esse mundão, com uma chave que só havia mesmo de servir no meu segredo. Porque todo mundo é um e para um existe o outro.

E onde estava esse homem? — eu matutava comigo, fazendo caraminhola… Agora ele há de estar armando um mundéu, mor de pegar os bichos desavisados que passam na trilha. Ou o diacho será pescador e haverá de estar em alto mar, com esse Vento Sul, meu Deus?

Ou será um mestre carpina de boa lavragem, um viajante mascate, até quem sabe um gringo? Um gringo estrangeiro que haverá de chegar nesse veranico mesmo, da Suíça mais francesa, como tantos que aqui aportam, sempre.

Onde haverá de ficar a Suíça mais francesa?

Longe, lá longe, no avesso desse mundo.

Um homem louro, lourinho, de cabelo afogueado e olhos d’água, até quem sabe gateados?

Um índio moreno, moreninho, de cabeleira escorrida e mais preta que o assum.

Ou baiano aqui das terras da Bahia, cor de jambo, cabra de prumo, risonho, valente.

Um qualquer, que beleza não é o que vale primeiro.

Beleza a gente inventa no olhar o outro, quando se aprecia e se gosta, gosta tanto que vira amor e luz maior. E até que o outro seja um papa-capim a gente enxerga nele um tiê-sangue, o passarinho mais caprichado de Deus.

Um qualquer pode vir a ser meu bem-querer, porque depois que eu me tiver nele, aí sim, eu acho que ainda dá tempo de desabrochar e até fazer menino.

Mangabeira boa não é torta e põe fruto temporão? Assim, que eu possa ser uma desse tipo, quem sabe lá de minha sorte cigana, dos desalinhos da minha mão?

Enquanto ele não vem, meu Deus, eu vou por aqui tenteando, armengando um que outro namorico, só assim para ir mascando um pouco esse vazio que chega a doer no meio das pernas do mês, quando entro nos dias da fertilidade de terra roxa, roxa terra morena-morená.

Entra ano, vai des-ano, ninguém me vem aqui plantar, de modo que acabo aceitando uma que outra semente que o vento toca ou o passarinho solta, só para não ficar assim, sem função.

Falando sem zás-trás, eu aceito um convite no depois do baile, um perfume e um abraço roliço, chamegos… No mais das vezes de gente de fora, que a gente aqui de dentro chamamos por nome de Turista, Branquelo, Gringo, Biribando… Dependendo do ar de cada um.

Pois eu numa noite que outra me vou com um desses aí, por que não hei de ir? Dá assim uma alegriazinha curta e depois uma tristeza mais fundada, mas e daí, ouri-curi? Tu pões coco pra ninguém. E vai, e vem, na hora do momento a gente só quer mesmo se alegrar. É menos pior se arrepender no depois que arrenegar no antes.

Mas toda vez, no instantinho mesmo em que vou, digo para mim, na minha fonte, que aquele ali é o meu amor. Então, que a bem pensar, eu nunca deixei de bem-querer-amar esse um que tem minha chave.

Enquanto ele não vem, eu fico brincando com o boneco dele; abraço um e digo: é ele. Beijo uma carne e falo: é a dele.

Quem sabe um dia eu acerto? Quem sabe se minha natureza não é assim a de um licor de jenipapo que precisa de muito, mas muito reforço de tempo até chegar ao ponto de adoçar um homem?

Agora: eu também penso aqui comigo que um licor não tem serventia se ninguém bebe e só formiga bole, na falta de alguém que o guarde num armário de carinho. Eu acho.

E do que adianta eu achar, meu Deus? Ô vida de dura travessia de ponte caída, vida boa não fosse a morte, que eu por hoje ando arretada e falando sozinha que nem criança de colo e velho caduco que volta a menino, porque mocidade sem aquele quê é o mesmo que um fruto verdinho que se perde sem amadurecer, e nem passarinho quer comer, nem o tempo faz moldar.

Mas meu coração não foi arrepanhado de vez, nasceu assim encarnado como as penas do tiê, voa, voa tiê-sangue, por esse mundo sem fim, vá dizer a meu amor que nunca se esqueça de mim.

 

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Jogo de Cena

Jogo de Cena

UM BURACO DE FECHADURA PARA VER NELSON

Por Augusto Cavalcanti

 

Nelson Rodrigues / Foto: Agência Estado

 

Difícil encontrar alguém que não reconheça Nelson Rodrigues como influente. E polêmico. Não seria diferente, pois ele é certamente o mais destacado autor brasileiro no que diz respeito ao Teatro, à dramaturgia em geral. Com certeza, é o mais visto, considerando suas inúmeras adaptações, e que será lembrado pelo público em uma enquete, por exemplo.

Não sem mérito, sua rica dramaturgia da vivência nas ambientações burguesas, mitos e ritos intrínsecos à sociedade, situações enfrentadas na realidade dos costumes das famílias, a modernização e introdução do Trágico Épico ao cotidiano, histórias da burguesia beirando as vicissitudes da classe média, a sua virtude literária, a vibração do popular, tudo teve foco certo de provocação e crítica social.

Pai que tem desejo pela filha, irmã que jura no velório não concretizar a paixão pelo cunhado, viúvo que se casa com prostituta e vê o filho com tendências homossexuais se apaixonar pela esposa, irmãos que se entregam loucamente à paixão, essa mistura de desejos e reparos, vontade e ódio, são alguns exemplos de enredo da obra dele. O autor escreveu dezessete peças.

Logo, a necessidade do jornalista desvencilhou o autor do cronista que o permearia na maturidade, para além do palco, por boa parte da sétima arte, pois o cinema também bebeu na fonte Rodriguiana, e o que foi produzido por meio da obra dele resultou em mais de vinte filmes.

Da metade do século passado ao início deste, suas obras dominaram o cenário da vez, nas telas e nos palcos. Vestido de Noiva, Engraçadinha e as crônicas de A Vida como Ela É figuram facilmente no imaginário da população de todas as classes. A televisão foi grande viés para mantê-lo no topo da lista dessa época. Não sem mérito.

Nelson também pode ser aclamado por suas frases polêmicas e, ao mesmo tempo, brilhantes, ainda mais para alguém que não deveria imaginar o poder que o minimalismo dramático abrangeria na época do micro-blog. Em suas tiradas, muitas vezes ácidas e certeiras, ele é capaz de nos arrebatar com um mero desdém aos costumes vigentes da época, o que nos leva ao riso, ao ódio, ao palco, em uma pílula mínima da palavra.

Foi um observador sagaz das nuances intrínsecas da sociedade. Um realista com alma de menino, menino que vê o amor e o erotismo inerente ao real do ato de fazê-lo amar todos e tudo analisados através de um buraco de fechadura, na descrição dele sobre si mesmo: anjo pornográfico.

Falta-nos atualmente quem o faça tão bem, com tamanha discrição ao sórdido e verdadeiro, o ambíguo, esse anjo pornográfico, como observador que marca um gol no ato da fala.

Por essas e outras, Nelson está seguramente ao lado dos renomados dramaturgos do século XX, como um grande em tudo o que fez. Foi jornalista, cronista, contista, romancista e sempre um crítico fervoroso da vida cotidiana, dos desejos não revelados pela hipocrisia e, ao longo de sessenta e oito anos de vida, uma existência atribulada e dedicada ao relato da vida como ela foi, para ele, para os seus, sem meias palavras.

Talvez fosse muito cobrar dos dramaturgos contemporâneos uma visão tão marcante da perspectiva do humano como tinha Nelson Rodrigues. Como todos os mestres, será imbatível, pois é único. Não se pode formar a idiossincrasia estruturada de um estudante num ver sagaz de autor de gênio. Querer outro autor que não este formado pelo destino, o ícone de seu tempo, o detalhista da mise-en-scene da realidade. Escola nenhuma do mundo o conseguiria.

Da formação como redator, vendo e aprendendo o fazer jornalístico, aquilo que formou seu entender da raça estava nos romances clássicos, contudo permeados nas páginas policiais da realidade de seus tempos primevos na redação.

Já com treze anos, escrevia para jornal, observando com critério o real daquela existência por demais dramática, culminada com o trágico assassinato do irmão ilustrador, provavelmente bem próximo ao mesmo, na redação onde se convergiu a arbitrariedade do ser humano.

Histórias contrastadas com uma segunda paixão: o Fluminense e o futebol. Foi excelente e único também nas crônicas esportivas.

Nelson nasceu em Recife, em 23 de agosto de 1912, o quinto de quatorze irmãos. Mudou-se, ainda criança, para o Rio de Janeiro e foi na Zona Norte carioca que formou, na infância, a arguta capacidade de entender o redor como palco. Formou-se redator no jornal do pai e depois passou por diversas redações em sua vida. Apoiou a Ditadura Militar. Escreveu, com trinta e um anos de idade, Vestido de Noiva e, com trinta e oito, as crônicas de A Vida como Ela É. Faleceu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.

 

Nelson Rodrigues / Foto: Divulgação

 

Vestido de Noiva

 

Encenada pela primeira vez em 1943, Vestido de Noiva é um marco na dramaturgia brasileira. Segunda peça escrita por Nelson, que procurava, na época, uma renda complementar à função de jornalista. Sua primeira peça, A Mulher sem Pecado, estreada em 1942, fora um fracasso de público.

Podemos perceber, em Vestido de Noiva, todo o drama psicológico e a critica à hipocrisia social vigoradas pelo autor em sua obra.

É uma peça de teor psicológico cuja montagem é feita em três planos que se intercalam. Formam, ao todo, o plano da alucinação, da realidade e o da memória.

O enredo conta a história de Alaíde, personagem que representa a burguesia carioca. Ela morre vitimada por um atropelamento e, enquanto os médicos tentam salvá-la, entra em uma viagem interior através da qual vai rememorando e encontrando-se com pessoas do seu passado.

A peça tem como exemplo de liberdade e quebra ao regimento social a Madame Clessi, antiga prostituta do Rio de Janeiro.

Alaíde conquista e se casa com Pedro, namorado de sua irmã Lucia. Pedro e Lucia cometem o adultério, e, quando Alaíde morre, os dois se casam.

O inusitado da peça está em apresentar-nos esse argumento em uma estrutura não linear e aparentemente caótica. É, sem dúvida, um retrato do lado desumano da sociedade carioca do século XX.

 

 

Visto por um buraco de fechadura

 

Seria interessante ter a possibilidade de sentarmos à mesa e conversar com essa efeméride literária. Tentar perceber nos detalhes, entre um copo e outro, de onde brotavam as situações complexas criadas por ele. Não podemos descrever se o anjo deixaria mostrar-se. Num retrato, ele seria o ser que observa calado, um rosto marcado pela sabedoria, sem preconceitos expostos. Contudo, a função de arrebatar a alma do expectador do conformismo foi detalhadamente talhada em suas dezessete peças. E é com a visão vasta, dessas mesmas criaturas surgidas desse palco, que, cremos, ele gostaria de ser visto. E nós só temos que agradecer e aplaudir.

 

(Augusto Cavalcanti é poeta, escritor e dramaturgo. Formado em Cinema e Filosofia pela UFSCar, tem contos e poemas publicados na revista Olhar, no site Cronópios e em outros diversos websites de Literatura e Artes. Bloga em O Poeta e o Barco. Contato: acantizza@gmail.com)

 

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79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ronaldo Cagiano

 

Desenho: Bárbara Damas

 

MEMÓRIA

 

desço as escadas do velho porão
onde hibernam infâncias amputadas

não vejo destino para os aniversários
diante da nauseante mendicância
de afetos
que ainda decora
as paredes mofadas,
albergue de fantasmas.

entrincheirado no passado
extraviado do futuro
há um presente alienígena
que sussurra no mato que engoliu o jardim.

tempo de corrosão
e abstinências.

lá fora
o mundo invadido
pelo lodaçal de supérfluos
está perdido, arcaico e desigual
diante da estupidez inflamada
de pastores que vendem gato por lebre
nas praças esterilizadas pela cegueira
da fé demencial dos evangélicos.

a casa desabitada
não revela o mistério
de tanta distância construída

umidade e fungo
batizam cada percurso
de minha descompassada lembrança

mas a memória, abrigo de punhais na mente,
não cede à cortês diligência da morte
que tão cedo impregnou de silêncios
os cômodos, os lençóis, os brinquedos
a cerca de arame farpado
o varal sem rumor
de panos

entre tantos desencontros
desencantos
descaminhos
o bisturi de Freud
duelando com o criminoso silêncio de Deus
responde às minhas dúvidas

 

 

***

 

 

ESCRUTÍNIO

 

no fundo da alma
a memória não sossega:
rio invisível e insondável
mas sublevado
……………………..e dissidente

febre que arde
e ressuscita
nas carcaças do passado

feito um saci,
salta
da floresta opaca e fria
……………….da noite

A Iniludível me acena
sem cordialidade nem música
com a inflexível veemência da morte,
que derrota a fé ensimesmada dos homens
e não camufla a inércia imperdoável de deus

na epiderme do oceano de dúvidas
uns olhos cavalgam sem sair do lugar

é noite alta e fria

não sei se é você ou é o luar
que exuma meus fantasmas
e exorciza a babel de mentiras

sei apenas que
quando agoniza a madrugada
e migra a população de vagalumes
o sol irrompe feito um furúnculo
e tudo pulsa em meu olhar

é a urgência da vida
a me desatinar

é a certeza do amor
vencendo a retórica imperial
…………………………………………do tempo

 

 

***

 

CICLO

 

Enquanto o cortejo seguia
alheio aos gestos automáticos
das mãos que cerravam as portas

……..outros continuavam a vida
……..imunes à que passava,
……..despojada de sua última chama.

A cidade não seria diferente
porque amanhã
outras notícias viriam

e o rio no qual navegamos,

……..Tejo a repetir a lógica de Heráclito,

seguiria rotineiro
como o sangue em nossas veias,
entre urgências e desatinos metabólicos.

Entre o solene despedir dos mortos
e a maquinal dor dos vivos

………..a criança se demorava
………..num olhar pensativo e inquiridor
………..rumo ao insondável.

E percebia,
ainda na antevéspera de sua existência,
que viver é um lento aprendizado de extinção.

 

(Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros:  Palavra Engajada (Poesia, 1989),  Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006)  e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF,  2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo  (LGE, Brasília, 2006))

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Desbravar visões e depois incorrer na tessitura das palavras. Qual semeadura de ventos, o ofício do poeta retorna da viagem com a colheita marcada por gestos infindos. Se pensamentos incomuns ou um mergulho na escuridão do mundo, saberemos em parte quando os sentimentos tomarem a forma de texto. Aquele que se põe a escrever, com propriedade e certa dose de resignação, deve saber que as incursões lhe reservam a sagração do mistério. Certo de que o caminho traçado não lhe confere status de impunidade, o artesão da palavra saboreia um banquete cujos ingredientes mesclam catarse e desventuras.

Entre nós, mortais que reinvidicamos a patente da racionalidade, habita o ímpeto de revolver o desconhecido, beijar-lhe a face e se enveredar por seus labirintos insones. Nesse trajeto, há quem não se deixe levar por meros devaneios e se dedique a olhar a existência com necessária porção de lucidez. Imbuídos dessa percepção, testemunhamos as escrituras de um autor como Heitor Brasileiro Filho. Sem esquecer os imperativos do lirismo, esse baiano de Jacobina ergue a sua expressão poética como quem vislumbra alguma ordem no caos que nos abraça. Ao poeta interessa moldar a palavra até que ela amplie suas frentes e atinja um patamar no qual o conformismo seja instância esvaziada.  Rechaçando a uniformidade das coisas, Heitor escreve como quem não está disposto a pactuar com verdades inventadas nem tampouco limitações de cunho moral. O efeito que extrai disso torna seus versos dotados duma provocação que arregimenta signos e outros tantos sentidos. Dentro de um caminhar de dedicada cumplicidade com as palavras, o que inclui a participação em antologias como “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum) e “Bahia de Todas as Letras” (conto – Editus – Via Litterarum), eis que o momento presente celebra a aparição do primeiro livro solo do poeta, “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo). Nessa entrevista, Heitor fala sobre o significado do seu mais recente rebento literário, chama atenção para a obra do poeta Sosígenes Costa e pontua reflexões sobre o fazer literário. Depois dessa conversa, não há dúvidas de que estamos diante de um artífice que talha palavras numa busca que sugere uma virtuosa inquietude.

 

 

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Marcos Penalva

 

DA – Depois de alguns bons anos de maturação e de estrada, você publica seu primeiro livro solo de poemas, reunindo versos recentes e outros guardados de outrora. Nesse sentido, julga ter achado o momento certo para romper o silêncio das palavras?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Demorei a publicar o primeiro livro individual. Entretanto, não há espaço para o silêncio nesse processo. Participo de umas duas antologias. Participei usando os veículos de que dispunha desde o jurássico mimeógrafo aos blogs modernosos, jornais tradicionais, suplementos sarados, revistas, cadernos culturais, parcerias musicais, levamos a poesia em parceria com músicos e bandas, como a experiência do projeto Rock & poesia, por exemplo. Fechamos o livro O Chão & A Nuvem, atendendo a uma solicitação da Mondrongo Livros, modesta e ousada Editora do Teatro Popular de Ilhéus, a pedido do poeta e editor Gustavo Felicíssimo. A editoração de livros neste País é uma aventura inconsequente, pra usar uma expressão análoga à Bandeira, por isso fui solidário à Mondrogo, fundada em 2012, em Ilhéus, no interior da Bahia. E estimo que ela a mim.  Lá estão poemas recentíssimos, cutucando o cão com vara curta e não menos flecheira. Juntei-os a outros testados pelo leitor mais exigente. Creio que deu bom resultado.

DA – Na apresentação que faz de seu livro, o escritor Gustavo Felicíssimo atribui à sua voz poética algo entre o lírico e o incendiário. Como concebe tais atributos?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Com naturalidade e certa resignação. Como ainda não conquistei a heteronomia (risos) com a qual se refugiou o genial Pessoa, concluo que a verve do poeta manifesta fidelidade ao temperamento do homem. Está em LIRIUM: quem / bem me / quer / não me // despe / ta / la, poema que me é cobrado desde 1983, não poderia deixá-lo fora deste livro. A assertiva é presente também em A Outra face: A poesia não aceita algemas / nem acredita em bombas de efeito moral // (…). Podemos denunciar a intransigência, o horror liricamente, veja em Burka da alma: Os arcanjos e as crianças / pegam em arma / como se tocassem o rosto do criador. O Gustavo estudou alguns dos meus textos e desenvolve trabalho analítico da nossa poesia contemporânea, trabalho de fôlego, ele que pretende publicar. O que me enobrece, vez que me situa entre meus pares e em boa companhia. Sua apresentação no meu livro é pouco econômica, mas não é cabotina, não erra com a afirmativa. O lirismo mais que convence, comove. Quando  “a dança das palavras entre as ideias” (vide Pound) rompe o cerco da indiferença, ainda que não demova a apatia coletiva ou vença a insensatez, avança contra toda essa brutalidade. Se a prosa libertária enfeixa bananas de dinamite, senhor dos interstícios é o lirismo. Penetra e vai além das reentrâncias. Implode estruturas de falsa solidez. A poesia nesse estado é glicerina pura.

DA – Em “O Chão & A Nuvem” vemos um olhar que parte dos cenários regionais, íntimos e, portanto, afetivos da memória rumo ao mundo globalizado que nos atropela a todo o tempo com suas complexidades. O que cabe melhor ao poeta: a contemplação ou o enfrentamento?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – São dois lados da mesma “moeda”, que não se rendem a escambo. Mais que uma questão de temperamento é um estado de espírito, não há recuo na contemplação. O enfrentamento em mim é um princípio pessoal impulsionado pela necessidade de me expressar para o mundo. Deem-nos infância e memória / e ficaremos para o grande espetáculo da terra (in, O Grande espetáculo da terra). O melhor lugar está dentro de nós. É com isso que iremos ao longe. Parto do princípio de que dignificar o mundo infantil é fazer adultos saudáveis, ou ao menos razoáveis. Sou neto de modestos fazendeiros de gado do semiárido baiano. Filho de um caminhoneiro com uma dona de casa. O natural era que aspirasse ser médico, advogado, engenheiro. Se o Drummond dizia-se fazendeiro do ar, que posso dizer? Fazendeiro do árido (risos). Foi aí que começou todo o enfrentamento. Mas nada sou sem minhas raízes. Daí, a importância do locus, o nosso lugar é nosso ponto de partida. Nessa ordem fui educado. Primeiro a escuta, depois a fala. O problema nosso é quando o silêncio conspira contra a dignidade humana, quando o fenômeno ocorre nas relações sociais e contamina até a famigerada política cultural. O desafio do poeta é o fazer literário. Chegamos ao ponto em que a contemplação já é um enfrentamento. Não o único, felizmente. Mas quando as relações se amesquinham ao ponto, não deixa de ser uma afronta à necessidade de ascensão social a qualquer preço, da avidez de poder e mando, pior, sob o manto sinistro da corrupção. Ao poeta cabe o fazer poético sem melindres e sem peias. Se isso vai mudar o mundo, responda-me quem o lê. A primeira mudança ocorre na gente, é de atitude. A literatura muda apenas a maneira como a gente vê o mundo.

DA – A lucidez é uma espécie de companheira quase inseparável de seus versos. Aceita, sem ressalvas, a condição de poeta inconformado pelo espanto que é existir?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Aceito, com as devidas ressalvas (risos). “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa na voz do jagunço Riobaldo. Mas é preferível que seja gozoso. A materialidade da vida, a existência reduzida a efemérides, o cotidiano torpe e mesquinho zoando nossas perplexidades, enfim, o sublime e o grotesco são matérias-primas e combustível para minha criação poética. Não posso encarar a vida sem essas prerrogativas na formação de meus versos. Não posso reclamar do destino que escolhi, posso sim transformá-lo. Tampouco, posso aceitar o arremedo como opção de vida para meu semelhante. Ninguém é obrigado a aceitar a esculhambação que fazem com nosso país, nem uma ditadura midiática mijando a nódoa em nossa cara. Digo em A República & o Newmonarca: A res é pública \ mas não é pudica \ pasto de sacripanta \ posto que nos fornica.// (…) Pública é a res! / dita um monarca / bobo de outros reis / que regem a fuzarca. De fato, não há poesia sem perplexidade, ou “espanto”. Não tenho vergonha de ser feliz, tenho a mulher que amo, temos o filho que escolhemos. Gosto de dizer que felicidade não é conformismo. Como pode haver conformidade com um mundo em ebulição?

DA – Todo poeta é, em certa medida, um impostor?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Jamais. Ou é poeta ou não é. A poesia não representa, a poesia é. Ao fazer uso da verdadeira linguagem poética, o poeta não “quer dizer”, o poeta diz. O fato de ser uma das características da poesia a multiplicidade de sentidos, essa riqueza expressiva revela sua capacidade de revolver e expor os prismas de uma verdade. A verdade da arte. Poesia é transparência da alma. Entretanto, se a pergunta se refere à limitação do indivíduo em viver de sua arte, digamos que sim. Se é que é possível ser impostor de si. Sabendo que a impostura parte do mercado, a relação com o mercado editorial é esquizofrênica. Onde já se viu emprego de poeta? Não podemos viver sem poesia, mas não podemos viver de poesia. Isto não é uma escrotidão? É. No meu caso o eu-peão é quem sustenta o eu-poeta, quando ambos são indissociáveis, a mesma pessoa.  O mais incrível é que por essa condição a poesia ainda é uma arte livre, que não é escrava do mercado, não se curva à sevícia. Veja como a ostentação é a cara da pobreza. Meu sonho agora é ganhar dinheiro escrachando, poeticamente, toda essa escrotidão (risos). Não apenas o lirismo, mas, o humor e a ironia são badogues que valem por uma ogiva nuclear. A gente morre, vira lama, e a poesia fica aí… levitando. Como pode ver no poema “Poesia é ouro sem valia”, com título homônimo de um artigo de Ferreira Gullar, a quem dedico, estabeleço seguinte diálogo: perdoe-me a gula / o Gullar // poesia / não é ouro / é valia // ouro vale / quanto / o pesar // o quanto flutua / a poesia.

Heitor Brasileiro Filho / Foto: Arquivo Pessoal

DA – Sua trajetória aponta para um caminho em torno da obra de Sosígenes Costa, um poeta de cunho notável e que ainda permanece desconhecido por muita gente. O que o fez debruçar-se nessa pesquisa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – O desafio. Minha primeira impressão sobre a arte de Sosígenes foi de estranhamento. Apesar de todo um domínio, de uma técnica, ele recusava a moda. Fui entender melhor. Havia apenas um exemplar de “Obra Poética” (1959) na biblioteca pública. Depois consegui cópia de  “Obra poética II” (1978) e “Iararana” (1979). É injustiça um poeta ficar mofando por mais de 30 anos. Embora o material fosse escasso, o escolhi como objeto de estudo para minha monografia de conclusão do curso de especialização na UESC. Só havia dois livros sobre sua poética: “Pavão parlenda paraíso”, de José Paulo Paes e “Sosígenes Costa: O Poeta grego da Bahia, de Gerana Damulakis. Li toda a bibliografia disponível, poemas, uma entrevista, e as crônicas que revisei para o livro de Gilfrancisco Santos, organizado por Hélio Pólvora. Garimpei alfarrábios, juntei textos esparsos tentando montar o quebra-cabeça. Mais escassa ainda é sua biografia, muita lenda, poucos fatos. Os contemporâneos estavam morrendo. Aproximávamos de seu centenário, procurei seus familiares e amigos em Belmonte. Uma epopeia: levei gravador e máquina fotográfica. Preparei minha “Violeta”, uma moto XR2000R que guardo até hoje, embarcamos em Canavieiras para Belmonte. Seguimos pelo Rio Pardo até o Estuário do Jequitinhonha. Em Belmonte, sua sobrinha Ana Rosa me confiou documentos. Colhi depoimento da Professora Mariinha, contemporânea de infância e também no Rio de Janeiro. Segui de moto para Santa Cruz Cabrália pra gravar entrevista com Naçu, o irmão caçula que tinha 79 anos. Não pude retornar por Belmonte para pegar o barco devido às chuvas. Enfrentei tempestade na estrada pra Porto Seguro. Tinha recursos para uns três dias. Fui acolhido na pousadinha Pôr do Sol em Trancoso. Retornei sete dias depois pra Ilhéus, debaixo de chuva impiedosa. Embora levasse material para uma Universidade e a Fundação Cultural na qual trabalhei, viajei às minhas expensas. Sou grato ao apoio da família e amigos, aos quais conquistei amizade e respeito. Retornei pra proferir palestra. Essa viagem me serviu para remontar sua ambiência de origem, sua formação de leitor, seus primeiros escritos, e desmistificar a imagem divulgada do poeta. Já nesse período, quando afirmei que  Sosígenes, com dicção própria, espírito combativo exprime solidariedade, preocupação com a pesquisa histórica revelando um rico vocabulário que não dispensa o coloquialismo da gente do povo, fruto da vivência e da pesquisa de termos de origem indígena e africana, as duas raças mais sacrificadas na constituição do povo brasileiro(…), os donos da cultura na Bahia deram de ombros. Recentemente, Herculano Assis, reuniu documentos colhidos em Belmonte e, no Rio, lançou Cobra de Duas Cabeças. A obra só confirma que Sosígenes não era apenas um poeta habilidoso, o sujeito tinha senso crítico, às vezes era ácido, mas bem humorado, antenado com a obra de autores então em evidência e com o desenvolvimento das letras nacionais.

DA – Quais traços julga serem marcantes nos escritos de Sosígenes Costa?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – A busca da originalidade, algo difícil de edificar em qualquer arte. Mas, sobretudo, a quebra nos paradigmas no que concerne o “enquadramento crítico-convencional da nossa Teoria Literária”. O cara era invocado, tinha integridade e não buscava sucesso fácil. Até sua poesia dita clássica, a sonetítisca dos pavões, admirada por dez entre dez acadêmicos dentro e fora dos quadrantes da Bahia, usa uma roupagem parnasiana rigorosamente metrificada, e ainda com floreios barrocos para incutir-nos um conteúdo moderno e com as cores locais, anseio do nosso Romantismo que conhecemos com uma das principais bandeiras do Modernismo, corrente que ele ainda implicava e batia através de sua Coluna de Sósmacos , em 1928, porque ainda não havia digerido completamente seu conteúdo. “Búfalo de Fogo” passou pelas mãos de muita gente boa como um poema meramente simbolista, telúrico, etc. Subestimaram o mestre-escola das roças de Belmonte, recém-chegado a Ilhéus, com apenas 27 anos de idade. Por trás daquela capa simbolista, o que temos lá é um épico denunciando o horror da invasão e da pilhagem. Imagine a cidade de Ilhéus, cidade-mãe da “civilização grapiúna” (vide Adonias Filho), qual “Búfalo de Fogo”, “fosfóreo”, “florescente”, sendo perseguida por centauros (“Centauras”), bichos perversos dados à desordem, invasão de lares, e cuja representação simbólica na mitologia clássica nos remete à barbárie? O Simbolismo, em essência, preconizava “a arte pela arte”, a contemplação e não o conflito. Em  “Búfalo de Fogo”, literalmente, o bicho pega! Portanto, um épico a ser estudado com maior acuidade. Veja que Sosígenes abre o poema da seguinte maneira: “Anoiteceu. / Roxa mantilha suspende o céu no seu zimbório / que noite azul, que maravilha / sinto-me, entanto, merencório”. Olha que tristeza retada… Depois faz um passeio pela Bíblia, pela história, pelas mitologias, com vocábulos nossos tão rebuscados que mais parece outra língua, uns duzentos versos depois encerra de forma emblemática: “(..) Protervos ventos em mantilha / como cem feras em regougo, / fazem da noite na Bastilha / revoluções de demagogos. / Ventos, ladrões de uma quadrilha, / depois do crime, vão pra o jogo. / dentro da noite, Ilhéus rebrilha qual Búfalo de Fogo.” De lá pra cá, passaram-se 85 anos. Agora repare na atualidade do tema! A sua poesia Modernista, talvez a mais visitada, novamente foge às regras vigentes. Menotti del Pichia, na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocou a plateia: “Morra a Hélide!” Sosígenes seguia próprio caminho, depois criou o mito da falsa Iara (“Iararana”), fruto do estupro contra a Iara pelo centauro Tupã-Cavalo, “Mondrongo vindo das oropa” para invadir e usurpar a cultura nativa. “Iararana” remonta as origens da colonização portuguesa e vai até o processo histórico da formação da nossa cultura do cacau. Inadmissíveis para os primeiros modernistas eram os mitos da nossa civilização de origem indígena junto à mitologia clássica, portanto, de origem europeia. Os “ouropeis”, pra usar uma expressão irônica de Mário de Andrade. Sosígenes inovou no conteúdo ante a orientação modernista-primitivista desta primeira fase, a chamada fase heróica, e o fez ao seu modo. Usou elementos da tradição clássica para fazer uma poesia essencialmente brasileira, contudo, universal. Elementos presentes em outros textos, escritos a partir dos anos 30. Embora acusado de anacrônico, ele fez o diferencial e o complementar. Digo sempre que não é tudo que Sogígenes escreveu que eu gosto incondicionalmente. Mas, justiça seja feita, em toda área que atuou deixou peças de comprovada grandeza.

DA – De que modo a tradição pode dialogar melhor com a modernidade em matéria literária?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Não podemos negar aquilo que desconhecemos. A história tem sua dinâmica e a referência é a tradição. Não significa estacionar o olhar numa zona de conforto. A vanguarda de hoje pode vir a ser a tradição amanhã.  Na história dos movimentos literários uma tradição se sobrepõe à outra – não a suplanta – nem sempre por um processo de ruptura, mas de associação e superação. A boa leitura não apenas alarga os horizontes, às vezes deixa marcas indeléveis que vão além do consciente. É preciso saber ouvir a voz que habita nosso espaço interior. A partir de então, saber o que fala, como fala, de onde fala e para quem. Tudo isso, sem se privar da descoberta constante que é o fazer literário.

DA – Uma de suas máximas é afirmar que alguns de seus poemas foram premiados e outros ainda não foram corrompidos. Esse pensamento é uma espécie de antídoto contra a vaidade?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Mera tentativa. O antídoto ainda não foi inventado. Quando brinco com a vaidade humana, revelo meu jeito de ser vaidoso.

DA – Escrever aponta algum caminho de salvação?

HEITOR BRASILEIRO FILHO – Sim. A poesia salvou minha vida.

 

 

 

– DOIS POEMAS DE “O CHÃO & A NUVEM” –

 

 

 

 PEDINTE

 

A loucura bate à porta

do vaso das flores
sirvo-lhe o copo d’água

amanhã virá a consciência
em busca de comida

 

 

A REPÚBLICA & O NEWMONARCA

 

A res é pública:
mas não é pudica
pasto de sacripanta
posto que nos fornica

a res é pública:
como quer a grei
que escreve & publica
& não reconhece a lei

a res é pública:
se não ultrapassa
a verdade e a justiça
à venda e à mordaça

a res é pública:
não é de ninguém
de quem mais se furta
é do que menos a tem

é pública a res:
como será sempre
magarefe o rei
& o gado a gente

é pública a res:
como sempre foi
covarde a sangria
da farra com o boi

a res é pública:
mas livre de arbítrio
ao biltre da política
se eleito o estrupício

é pública a res:
privada só pra súcia
evacuar de vez
seu voto de astúcia

– pública é a res!
dita um monarca
bobo de outros reis
que regem a fuzarca

 

 

* Outros poemas do autor podem ser lidos aqui